Poemas neste tema
Sonhos e Imaginação
Carlos Drummond de Andrade
Flora Mágica Noturna
A casa de dr. Câmara é encantada.
No jardim cresce a árvore-de-moedas.
As pratinhas reluzem entre folhas.
O menino ergue o braço e fica rico
ao luar.
Dr. Câmara sorri sob os bigodes
de bom padrinho. Sente-se criador
de uma espécie botânica sem par.
A crença do menino agora é dele,
ao luar.
No jardim cresce a árvore-de-moedas.
As pratinhas reluzem entre folhas.
O menino ergue o braço e fica rico
ao luar.
Dr. Câmara sorri sob os bigodes
de bom padrinho. Sente-se criador
de uma espécie botânica sem par.
A crença do menino agora é dele,
ao luar.
1 076
Sophia de Mello Breyner Andresen
Dança de Junho
Em silêncio nas coisas embaladas
Vão dançando ao sabor dos seus segredos.
Nos seus vestidos brancos e bordados
Raios de lua poisam como dedos,
E em seu redor baloiçam arvoredos
Escuros entre os céus atormentados.
Vão dançando ao sabor dos seus segredos.
Nos seus vestidos brancos e bordados
Raios de lua poisam como dedos,
E em seu redor baloiçam arvoredos
Escuros entre os céus atormentados.
2 199
Mário Donizete Massari
O natal de Raimundo
Raimundo ganhou
presente de Natal
Um incrível carro de bois
movido a pilhas
Leva a boiada Raimundo
Raimundo leva a boiada
E assim ele se diverte
num feliz faz de contas
empurrando um pedaço de madeira
na favela de São Leopoldo
presente de Natal
Um incrível carro de bois
movido a pilhas
Leva a boiada Raimundo
Raimundo leva a boiada
E assim ele se diverte
num feliz faz de contas
empurrando um pedaço de madeira
na favela de São Leopoldo
884
Mário Donizete Massari
Inverno
Ao amigo e poeta Américo Rosário
Dia frio
Dia quente
hoje nevou, e em meu peito
a chama está acesa.
Dia frio
Dia quente
a mensagem trouxe-ma o vento
"alerta companheiro
abra o peito, mas não se mostre
nem busque abrigo de deuses"
E esse dia frio
dia de ficar à beira do fogão de lenha
mãos gélidas, esquentá-las
guarnecê-las de sonhos.
Dia frio
Dia quente
hoje nevou, e em meu peito
a chama está acesa.
Dia frio
Dia quente
a mensagem trouxe-ma o vento
"alerta companheiro
abra o peito, mas não se mostre
nem busque abrigo de deuses"
E esse dia frio
dia de ficar à beira do fogão de lenha
mãos gélidas, esquentá-las
guarnecê-las de sonhos.
861
Paulo Augusto Rodrigues
Chave
Existe um lugar.
Além...
Muito além do alcance da visão,
Muito aquém de qualquer percepção.
Oculto,
Difuso as especulações.
Sob sombras fulgurantes,
Ruço úmido,
Impenetrante...
Esconde,
Os vultos das paixões.
A sede,
O desejo,
As vontades,
As hesitações.
A fagulha da explosão,
Guardada,
Fechada.
As portas da ternura,
Mantêm-se seguras,
Bloqueando.
Os vários ódios dos dilemas,
Insultando.
Sobre a mesa posta,
Com doçuras e carinhos,
Expõem-se gloriosa
A chave,
Do caminho.
Além...
Muito além do alcance da visão,
Muito aquém de qualquer percepção.
Oculto,
Difuso as especulações.
Sob sombras fulgurantes,
Ruço úmido,
Impenetrante...
Esconde,
Os vultos das paixões.
A sede,
O desejo,
As vontades,
As hesitações.
A fagulha da explosão,
Guardada,
Fechada.
As portas da ternura,
Mantêm-se seguras,
Bloqueando.
Os vários ódios dos dilemas,
Insultando.
Sobre a mesa posta,
Com doçuras e carinhos,
Expõem-se gloriosa
A chave,
Do caminho.
902
Sophia de Mello Breyner Andresen
Os Nossos Dedos Abriram Mãos Fechadas
Os nossos dedos abriram mãos fechadas
Cheias de perfume
Partimos à aventura através de vozes e de gestos
Pressentimos paixões como paisagens
E cada corpo era um caminho.
Mas um se ergueu tomando tudo
E escorreram asas dos seus braços.
Florestas, pântanos e rios,
Viajámos imóveis debruçados,
Enquanto o céu brilhava nas janelas.
E a cidade partiu como um navio
Através da noite.
Cheias de perfume
Partimos à aventura através de vozes e de gestos
Pressentimos paixões como paisagens
E cada corpo era um caminho.
Mas um se ergueu tomando tudo
E escorreram asas dos seus braços.
Florestas, pântanos e rios,
Viajámos imóveis debruçados,
Enquanto o céu brilhava nas janelas.
E a cidade partiu como um navio
Através da noite.
2 069
Sophia de Mello Breyner Andresen
A Flauta
No canto do quarto a sombra tocou sua pequena flauta
Foi então que me lembrei de cisternas e medusas
E do brilho mortal da praia nua
Estava o anel da noite solenemente posto no meu dedo
E a navegação do silêncio continuou sua viagem antiquíssima
Foi então que me lembrei de cisternas e medusas
E do brilho mortal da praia nua
Estava o anel da noite solenemente posto no meu dedo
E a navegação do silêncio continuou sua viagem antiquíssima
2 356
Mário Donizete Massari
brasil
Seu nome era Raimundo
mas como é de praxe
apelidaram-no de mundo
Mas acharam tão
vasto, que resolveram
chamá-lo de
brasil
Ele tinha uma infância comum
num contexto relativo
Vivia às expensas dos outros
vez ou outra se nutria,
mas almejava um promissor
futuro.
Queria ser grande logo,
para desenvolver suas idéias,
já que possuía um potencial
significativo.
Corria atrás de bola
e sonhava conquistar o mundo
sendo um grande jogador
de futebol.
Enfim, teve brasil
uma infância comum,
num contexto relativo.
Perdi-os nos caminhos da vida
mas espero ainda revê-lo grande,
no futuro.
mas como é de praxe
apelidaram-no de mundo
Mas acharam tão
vasto, que resolveram
chamá-lo de
brasil
Ele tinha uma infância comum
num contexto relativo
Vivia às expensas dos outros
vez ou outra se nutria,
mas almejava um promissor
futuro.
Queria ser grande logo,
para desenvolver suas idéias,
já que possuía um potencial
significativo.
Corria atrás de bola
e sonhava conquistar o mundo
sendo um grande jogador
de futebol.
Enfim, teve brasil
uma infância comum,
num contexto relativo.
Perdi-os nos caminhos da vida
mas espero ainda revê-lo grande,
no futuro.
580
Mário Donizete Massari
O sonho do poeta
Sonhou o poeta
ser uma estrela
e brilhou em seus versos
Sonhou o poeta
ser o dono do mundo
e este era tão pequeno
que coube em suas mãos
e ele o tornou lindo
És poeta a estrela do mundo
ser uma estrela
e brilhou em seus versos
Sonhou o poeta
ser o dono do mundo
e este era tão pequeno
que coube em suas mãos
e ele o tornou lindo
És poeta a estrela do mundo
901
Marcão de Barros
Haicai
Gato faminto,
copo-de-leite no vaso.
Amor perfeito.
Pijama de bolas
no picadeiro vazio.
Palhaço sonâmbulo.
copo-de-leite no vaso.
Amor perfeito.
Pijama de bolas
no picadeiro vazio.
Palhaço sonâmbulo.
1 202
Sophia de Mello Breyner Andresen
Dia do Mar No Ar, Construído
Dia do mar no ar, construído
Com sombras de cavalos e de plumas.
Dia do mar no meu quarto — cubo
Onde os meus gestos sonâmbulos deslizam
Entre o animal e a flor como medusas.
Dia do mar no ar, dia alto
Onde os meus gestos são gaivotas que se perdem
Rolando sobre as ondas, sobre as nuvens.
Com sombras de cavalos e de plumas.
Dia do mar no meu quarto — cubo
Onde os meus gestos sonâmbulos deslizam
Entre o animal e a flor como medusas.
Dia do mar no ar, dia alto
Onde os meus gestos são gaivotas que se perdem
Rolando sobre as ondas, sobre as nuvens.
4 170
Regina Souza Vieira
Vôo com pouso certo
O sono
venceu a vigília
Também ele quebrou a dor
O silêncio que o pensamento
Ocupava por distração
Breve os olhos se fecharam
por trás das pálpebras cerradas
Os sentidos esvaneceram
As idéias, no quarto, pereceram
Deram sua vez à solidão.
O sono caiu beneplácito
Vindo como bom agasalho
a um real entristecido
quebrando na luz apagada
o dia que já tinha morrido.
Eu nunca pensara no sono
como um bem tão inocente
como um toldo que à dor, à ânsia
encobre essa tristeza que
da noite só quer o seu fim.
E ainda como simples prêmio
Vêm os sonhos nos superar
Uma fantasia que intercepta
a nossa vontade de acordar.
venceu a vigília
Também ele quebrou a dor
O silêncio que o pensamento
Ocupava por distração
Breve os olhos se fecharam
por trás das pálpebras cerradas
Os sentidos esvaneceram
As idéias, no quarto, pereceram
Deram sua vez à solidão.
O sono caiu beneplácito
Vindo como bom agasalho
a um real entristecido
quebrando na luz apagada
o dia que já tinha morrido.
Eu nunca pensara no sono
como um bem tão inocente
como um toldo que à dor, à ânsia
encobre essa tristeza que
da noite só quer o seu fim.
E ainda como simples prêmio
Vêm os sonhos nos superar
Uma fantasia que intercepta
a nossa vontade de acordar.
716
Charles Baudelaire
PERFUME EXÓTICO
Quando, cerrando os olhos, numa noite ardente,
Respiro a fundo o odor dos teus seios fogosos,
Vejo abrirem-se ao longe litorais radiosos
Tingidos por um sol monótono e dolente.
Uma ilha preguiçosa que nos traz à mente
Estranhas árvores e frutos saborosos;
Homens de corpos nus, esguios, vigorosos,
Mulheres cujo olhar faísca à nossa frente.
Guiado por teu perfume a tais paisagens belas,
Vejo um porto a ondular de mastror e de velas
Talvez exaustos de afrontar os vagalhões,
Enquanto o verde aroma dos tamarineiros,
Que à beira-mar circula e inunda-me os pulmões,
Confunde-se em minha alma à voz dos marinheiros.
Respiro a fundo o odor dos teus seios fogosos,
Vejo abrirem-se ao longe litorais radiosos
Tingidos por um sol monótono e dolente.
Uma ilha preguiçosa que nos traz à mente
Estranhas árvores e frutos saborosos;
Homens de corpos nus, esguios, vigorosos,
Mulheres cujo olhar faísca à nossa frente.
Guiado por teu perfume a tais paisagens belas,
Vejo um porto a ondular de mastror e de velas
Talvez exaustos de afrontar os vagalhões,
Enquanto o verde aroma dos tamarineiros,
Que à beira-mar circula e inunda-me os pulmões,
Confunde-se em minha alma à voz dos marinheiros.
5 212
Sérgio Mattos
A Ilusão Pertenceu-m
A ilusão pertenceu-me em sonhos
e com vontade de herói entrelacei-me
entre as armas de tão bela batalha...
E a incandescente espada perdeu-se
entre espasmos, enquanto
a ilusão flutuava no espaço
e eu agitava o lençol manchado...
e com vontade de herói entrelacei-me
entre as armas de tão bela batalha...
E a incandescente espada perdeu-se
entre espasmos, enquanto
a ilusão flutuava no espaço
e eu agitava o lençol manchado...
760
Charles Bukowski
O Principal
aí vem a cabeça de peixe cantante
aí vem a batata assada em sua roupa bizarra
aí vem nada para fazer o dia todo
aí vem outra noite sem conciliar o sono
aí vem o telefone e sua campainha errada
aí vem um cupim com um banjo
aí vem um mastro com olhos vazios
aí vem um gato e um cachorro usando meias de náilon
aí vem uma metralhadora em cantoria
aí vem o bacon numa frigideira
aí vem uma voz dizendo qualquer coisa tola
aí vem um jornal recheado com pequenos pássaros vermelhos
com bicos marrons e retos
aí vem uma buceta carregando uma tocha
uma granada
um amor fatal
aí vem a vitória carregando
um balde de sangue
e tropeçando num arbusto
e os lençóis pendurados nas janelas
e os bombardeiros em direção a leste oeste norte sul
se perdem
se reviram como salada
enquanto todos os peixes no mar se alinham em fila
única
uma longa fila
muito longa e fina
a linha mais longa que você puder imaginar
e nós nos perdemos
cruzando montanhas púrpuras
caminhamos a esmo
por fim nus como a faca
tendo desistido
tendo posto tudo pra fora como uma inesperada semente de azeitona
enquanto a garota da central telefônica
grita ao telefone:
“não retorne a ligação! você parece um cretino!”
aí vem a batata assada em sua roupa bizarra
aí vem nada para fazer o dia todo
aí vem outra noite sem conciliar o sono
aí vem o telefone e sua campainha errada
aí vem um cupim com um banjo
aí vem um mastro com olhos vazios
aí vem um gato e um cachorro usando meias de náilon
aí vem uma metralhadora em cantoria
aí vem o bacon numa frigideira
aí vem uma voz dizendo qualquer coisa tola
aí vem um jornal recheado com pequenos pássaros vermelhos
com bicos marrons e retos
aí vem uma buceta carregando uma tocha
uma granada
um amor fatal
aí vem a vitória carregando
um balde de sangue
e tropeçando num arbusto
e os lençóis pendurados nas janelas
e os bombardeiros em direção a leste oeste norte sul
se perdem
se reviram como salada
enquanto todos os peixes no mar se alinham em fila
única
uma longa fila
muito longa e fina
a linha mais longa que você puder imaginar
e nós nos perdemos
cruzando montanhas púrpuras
caminhamos a esmo
por fim nus como a faca
tendo desistido
tendo posto tudo pra fora como uma inesperada semente de azeitona
enquanto a garota da central telefônica
grita ao telefone:
“não retorne a ligação! você parece um cretino!”
1 067
Regina Souza Vieira
Para Quando
Para quando o fim desta mania
De acreditar em sonhos acordados
Impossíveis?
Para quando a manhã de sol
Para quando o nunca
Seja ontem?
Para quando o amanhã
O despertar
Do sempre?
De acreditar em sonhos acordados
Impossíveis?
Para quando a manhã de sol
Para quando o nunca
Seja ontem?
Para quando o amanhã
O despertar
Do sempre?
882
Mário Hélio
28-VIII-(O mágico)
o pássaro voou da cartola do mágico
mas não havia cartola nem truque
o pássaro-saíra da mão do mágico
mas não havia mão
o mágico num acidente mágico havia perdido
as duas mãos
e então de onde saíra o pássaro?
do chão, sim, do chão de onde saem
todos os pássaros
mas não havia chão
a multidão bem observou
não havia multidão nem mágico
mas o pássaro realmente voou.
mas não havia cartola nem truque
o pássaro-saíra da mão do mágico
mas não havia mão
o mágico num acidente mágico havia perdido
as duas mãos
e então de onde saíra o pássaro?
do chão, sim, do chão de onde saem
todos os pássaros
mas não havia chão
a multidão bem observou
não havia multidão nem mágico
mas o pássaro realmente voou.
957
Antero de Quental
Sonho Oriental
Sonho-me às vezes rei, nalguma ilha,
Muito longe, nos mares do Oriente,
Onde a noite é balsâmica e fulgente
E a lua cheia sobre as águas brilha...
O aroma da mongólia e da baunilha
Paira no ar diáfano e dormente...
Lambe a orla dos bosques, vagamente,
O mar com umas finas ondas de escumilha...
E enquanto eu na varanda de marfim
Me encosto, absorto num cismar sem fim,
Tu, meu amor, divagas ao luar,
Do profundo jardim pelas clareiras,
Ou descansas debaixo das palmeiras,
Tendo aos pés um leão familiar.
Muito longe, nos mares do Oriente,
Onde a noite é balsâmica e fulgente
E a lua cheia sobre as águas brilha...
O aroma da mongólia e da baunilha
Paira no ar diáfano e dormente...
Lambe a orla dos bosques, vagamente,
O mar com umas finas ondas de escumilha...
E enquanto eu na varanda de marfim
Me encosto, absorto num cismar sem fim,
Tu, meu amor, divagas ao luar,
Do profundo jardim pelas clareiras,
Ou descansas debaixo das palmeiras,
Tendo aos pés um leão familiar.
3 066
Florbela Espanca
Rústica
Eu q’ria ser camponesa;
Ir esperar-te à tardinha
Quando é doce a Natureza
No silêncio da devesa,
E só voltar à noitinha...
Levar o cântaro à fonte
Deixá-lo devagarinho,
E correndo pela ponte
Que fica detrás do monte
Ir encontrar-te sozinho...
E depois quando o luar
Andasse pelas estradas,
D’olhos cheios do teu olhar
Eu voltaria a sonhar,
P’los caminhos de mãos dadas.
E depois se toda a gente
Perguntasse: “Que encarnada,
Rapariga! Estás doente?”
Eu diria: “É do poente,
Que assim me fez encarnada!”
E fitando ao longe a ponte,
Com meu olhar cheio do teu,
Diria a sorrir pro monte:
“O cant’ro ficou na fonte
Mas os beijos trouxe-os eu...”
Ir esperar-te à tardinha
Quando é doce a Natureza
No silêncio da devesa,
E só voltar à noitinha...
Levar o cântaro à fonte
Deixá-lo devagarinho,
E correndo pela ponte
Que fica detrás do monte
Ir encontrar-te sozinho...
E depois quando o luar
Andasse pelas estradas,
D’olhos cheios do teu olhar
Eu voltaria a sonhar,
P’los caminhos de mãos dadas.
E depois se toda a gente
Perguntasse: “Que encarnada,
Rapariga! Estás doente?”
Eu diria: “É do poente,
Que assim me fez encarnada!”
E fitando ao longe a ponte,
Com meu olhar cheio do teu,
Diria a sorrir pro monte:
“O cant’ro ficou na fonte
Mas os beijos trouxe-os eu...”
2 440
Lúcio José Gusman
Poema definitivo
És assim como o vento:
pões a biruta da vida
sobre o mastro a voltear;
és a gaivota prateada:
bicas de leve e silente
cada onda do meu mar;
és o grãozinho de areia
que cola e logo descola,
voltando ao seu lugar;
és aquele raio quente
do sol do meio-do-dia,
astro-rei, a me queimar;
és a vitela pastando,
a arvorezinha brotando,
ceifa do ceifador a me ceifar...;
és o vestido de rendas
na menina indefinível
a rodar, rodar, rodar;
és meu ímã predileto
que meu sangue, fer r o-em-brasa,
parece querer sugar;
és tudo quanto não tive,
mais o que pensei ter tido,
louco, louco a sonhar.
Quanto te vejo passar,
quando te sinto chegar,
sei que não vivi em vão:
tu me surges como aquela
que não se gerou no ventre
mas nasceu do coração!
pões a biruta da vida
sobre o mastro a voltear;
és a gaivota prateada:
bicas de leve e silente
cada onda do meu mar;
és o grãozinho de areia
que cola e logo descola,
voltando ao seu lugar;
és aquele raio quente
do sol do meio-do-dia,
astro-rei, a me queimar;
és a vitela pastando,
a arvorezinha brotando,
ceifa do ceifador a me ceifar...;
és o vestido de rendas
na menina indefinível
a rodar, rodar, rodar;
és meu ímã predileto
que meu sangue, fer r o-em-brasa,
parece querer sugar;
és tudo quanto não tive,
mais o que pensei ter tido,
louco, louco a sonhar.
Quanto te vejo passar,
quando te sinto chegar,
sei que não vivi em vão:
tu me surges como aquela
que não se gerou no ventre
mas nasceu do coração!
952
Castro Alves
HINO AO SONO
Ó sono! ó noivo pálido
Das noites perfumosas,
Que um chão de nebulosas
Trilhas pela amplidão!
Em vez de verdes pâmpanos,
Na branca fronte enrolas
As lânguidas papoulas,
Que agita a viração.
Nas horas solitárias,
Em que vagueia a lua,
E lava a planta nua
Na onda azul do mar,
Com um dedo sobre os lábios
No vôo silencioso,
Vejo-te cauteloso
No espaço viajar!
Deus do infeliz, do mísero!
Consolação do aflito!
Descanso do precito,
Que sonha a vida em ti!
Quando a cidade tétrica
De angústia e dor não geme...
É tua mão que espreme
A dormideira ali.
Em tua branca túnica
Envolves meio mundo...
E teu seio fecundo
De sonhos e visões,
Dos templos aos prostíbulos,
Desde o tugúrio ao Paço,
Tu lanças lá do espaço
Punhados de ilusões! ...
Da vide o sumo rúbido,
Do hatchiz a essência,
O ópio, que a indolência
Derrama em nosso ser,
Não valem, gênio mágico,
Teu seio, onde repousa
A placidez da lousa
E o gozo de viver...
O sono! Unge-me as pálpebras...
Entorna o esquecimento
Na luz do pensamento,
Que abrasa o crânio meu.
Como o pastor da Arcádia,
Que uma ave errante aninha...
Minhalma é uma andorinha...
Abre-lhe o seio teu.
Tu, que fechaste as pétalas
Do lírio, que pendia,
Chorando a luz do dia
E os raios do arrebol,
Também fecha-me as pálpebras...
Sem Ela o que é a vida?
Eu sou a flor pendida
Que espera a luz do sol.
O leite das eufórbias
Pra mim não é veneno...
Ouve-me, ó Deus sereno!
Ó Deus consolador!
Com teu divino bálsamo
Cala-me a ansiedade!
Mata-me esta saudade,
Apaga-me esta dor.
Mas quando, ao brilho rútilo
Do dia deslumbrante,
Vires a minha amante
Que volve para mim,
Então ergue-me súbito...
É minha aurora linda...
Meu anjo... mais ainda...
É minha amante enfim!
Ó sono! Ó Deus noctívago!
Doce influência amiga!
Gênio que a Grécia antiga
Chamava de Morfeu,
Ouve!...E se minhas súplicas
Em breve realizares...
Voto nos teus altares
Minha lira de Orfeu!
Das noites perfumosas,
Que um chão de nebulosas
Trilhas pela amplidão!
Em vez de verdes pâmpanos,
Na branca fronte enrolas
As lânguidas papoulas,
Que agita a viração.
Nas horas solitárias,
Em que vagueia a lua,
E lava a planta nua
Na onda azul do mar,
Com um dedo sobre os lábios
No vôo silencioso,
Vejo-te cauteloso
No espaço viajar!
Deus do infeliz, do mísero!
Consolação do aflito!
Descanso do precito,
Que sonha a vida em ti!
Quando a cidade tétrica
De angústia e dor não geme...
É tua mão que espreme
A dormideira ali.
Em tua branca túnica
Envolves meio mundo...
E teu seio fecundo
De sonhos e visões,
Dos templos aos prostíbulos,
Desde o tugúrio ao Paço,
Tu lanças lá do espaço
Punhados de ilusões! ...
Da vide o sumo rúbido,
Do hatchiz a essência,
O ópio, que a indolência
Derrama em nosso ser,
Não valem, gênio mágico,
Teu seio, onde repousa
A placidez da lousa
E o gozo de viver...
O sono! Unge-me as pálpebras...
Entorna o esquecimento
Na luz do pensamento,
Que abrasa o crânio meu.
Como o pastor da Arcádia,
Que uma ave errante aninha...
Minhalma é uma andorinha...
Abre-lhe o seio teu.
Tu, que fechaste as pétalas
Do lírio, que pendia,
Chorando a luz do dia
E os raios do arrebol,
Também fecha-me as pálpebras...
Sem Ela o que é a vida?
Eu sou a flor pendida
Que espera a luz do sol.
O leite das eufórbias
Pra mim não é veneno...
Ouve-me, ó Deus sereno!
Ó Deus consolador!
Com teu divino bálsamo
Cala-me a ansiedade!
Mata-me esta saudade,
Apaga-me esta dor.
Mas quando, ao brilho rútilo
Do dia deslumbrante,
Vires a minha amante
Que volve para mim,
Então ergue-me súbito...
É minha aurora linda...
Meu anjo... mais ainda...
É minha amante enfim!
Ó sono! Ó Deus noctívago!
Doce influência amiga!
Gênio que a Grécia antiga
Chamava de Morfeu,
Ouve!...E se minhas súplicas
Em breve realizares...
Voto nos teus altares
Minha lira de Orfeu!
3 009
Jorge Viegas
Infinitamente Presente
No voo
pela noite dos leves mistérios
Onde as estrelas se transformam em anjos,
O sonho liberta um calor profundo,
Enchendo o infinito de fogo e paixão.
O murmúrio dourado dos teus olhos,
Transforma-se no raio de luz
Que multiplica a estrada da vida
Clarificando a imagem do amanhã.
Os segredos vão voando docemente
Por entre vagas de suspiros,
E as recordações vagueando
Pelos recantos da memória transparente.
Simples histórias quentes,
Remexendo com o passado recente,
Crepúsculo de energia crescente
Paraíso da sereia apaixonada.
No esplendor da viagem
Encontro o brilho da canção
Sorrindo alegremente
E descubro a pureza da tua imagem.
pela noite dos leves mistérios
Onde as estrelas se transformam em anjos,
O sonho liberta um calor profundo,
Enchendo o infinito de fogo e paixão.
O murmúrio dourado dos teus olhos,
Transforma-se no raio de luz
Que multiplica a estrada da vida
Clarificando a imagem do amanhã.
Os segredos vão voando docemente
Por entre vagas de suspiros,
E as recordações vagueando
Pelos recantos da memória transparente.
Simples histórias quentes,
Remexendo com o passado recente,
Crepúsculo de energia crescente
Paraíso da sereia apaixonada.
No esplendor da viagem
Encontro o brilho da canção
Sorrindo alegremente
E descubro a pureza da tua imagem.
1 083
Florbela Espanca
Quem Sabe?!...
Eu sigo-te e tu foges. É este o meu destino:
Beber o fel amargo em luminosa taça,
Chorar amargamente um beijo teu, divino,
E rir olhando o vulto altivo da desgraça!
Tu foges-me, e eu sigo o teu olhar bendito;
Por mais que fujas sempre, um sonho há de alcançar-te
Se um sonho pode andar por todo o infinito,
De que serve fugir se um sonho há de encontrar-te?!
Demais, nem eu talvez, perceba se o amor
É este perseguir de raiva, de furor,
Com que eu te sigo assim como os rafeiros leais.
Ou se é então a fuga eterna, misteriosa,
Com que me foges sempre, ó noite tenebrosa!
......................................................................
Por me fugires, sim, talvez me queiras mais!
5 314
Florbela Espanca
Sonho Morto
Nosso sonho morreu. Devagarinho,
Rezemos uma prece doce e triste
Por alma desse sonho! Vá... baixinho...
Por esse sonho, amor, que não existe!
Vamos encher-lhe o seu caixão dolente
De roxas violetas; triste cor!
Triste como ele, nascido ao sol poente,
O nosso sonho... ai!... reza baixo... amor...
Foste tu que o mataste! E foi sorrindo,
Foi sorrindo e cantando alegremente,
Que tu mataste o nosso sonho lindo!
Nosso sonho morreu... Reza mansinho...
Ai, talvez que rezando, docemente,
O nosso sonho acorde... mais baixinho...
Rezemos uma prece doce e triste
Por alma desse sonho! Vá... baixinho...
Por esse sonho, amor, que não existe!
Vamos encher-lhe o seu caixão dolente
De roxas violetas; triste cor!
Triste como ele, nascido ao sol poente,
O nosso sonho... ai!... reza baixo... amor...
Foste tu que o mataste! E foi sorrindo,
Foi sorrindo e cantando alegremente,
Que tu mataste o nosso sonho lindo!
Nosso sonho morreu... Reza mansinho...
Ai, talvez que rezando, docemente,
O nosso sonho acorde... mais baixinho...
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