Poemas neste tema
Sonhos e Imaginação
Weydson Barros Leal
E Deusas não Aravam Rosas
conto fantopoético ou
noturno em 6 movimentos
I. sonho
há hipnoses que podemos estudar
Para o entendimento do mundo, —
a paixão é uma delas.
haver os sentimentos
como relíquia do homem de sempre
e desnudá-los ao fogo para anotar as reações...
pintá-las nas pedras
que perseguem as ruas
e não haverá mais pedras —
a música dos olhos
é a única prisão
que mantemos em nós
II. madrugada da tarde
Conhecera uma mulher que criara teorias...
Doce mulher de olhos de amêndoa magoada e pele
noturna, que sobressegredos recriara o amor, o mal e o perdão.
Era um tempo antigo como os segredos...
Em seus olhos conhecera outra mulher. Era ouvi-la dizer de
um verde em que era a vida, que podia avistá-las na luz
consumida...
(talvez seja o equilíbrio — como a beleza ou uma amêndoa
— e precise tempo ao criá-las e destruí-las todas)
Duramente nua sua língua alimentava a palavra
que lentamente morria —
a morte como uma aula de rios ou
uma queda —
a alma e milhões de teorias —
a alma
e sua língua de sonhos...
III. note elementar
Todo mistério humano repousara em suas mãos quando
encontraram suas almas aprisionadas como pássaros.
Ficaram cegos.
O terceiro dia nos devora como um cárcere ou uma fome.
Sob suas unhas nasciam violetas: todas as conquistas de
seu pecado foram erguidas como uma água sobre a terra.
Havia um peito a semear outra vez.
A sua espada era uma planta renascida.
Há numa mulher algo que sufoca a eternidade
fazendo-a dormente.
Doce mulher, dizia, em que os lábios eram a cor
de sua alma,
passara rebelde em seu sorriso...
IV. noite fundamental
imaginarem sua noite
uma estrela que se desprenda
como uma confissão, e traze-la para perto
onde eu possa beber de suas mãos.
Há incertezas de trilhas como um trem na hora noturna; um
trem que despedaça a luz ou um beijo — mas eu serei entendido
como uma água que imanta os olhos.
Sua fala de lúcida beleza trago em mim como um retrato.
Fiz o seu corpo encoberto de cores como bandeiras que
houvesse tomado em batalhas — sua roupa é o despojo de
derrotados.
Partirei ainda por descrevê-la em sua pátria de pássara e
mulher — há tantos mortos sob cada trincheira que veste sua
intimidade, que é aqui onde deposito todos os algozes para
combatê-la.
O seu nome aprendi com uma rosa roubada e guardei em
meu melhor lugar.
Sinto-a perto corra uma coisa roubada.
Sinto-a roubada por mim.
V. noite
Docemente o tempo soava, ela contou, como a noite que
habitara seu corpo.
(as meninas choram quando perdem teorias.
os meninos também criam teorias.
as meninas e os meninos choram.)
Não sei se agora é acordada a menina,
pareceu mulher.
Doce mulher de pele noturna e olhos de amêndoa madura,
não voltará a vê-la o beijo que imaginei...
Pintamos o outro com o que chamamos afinidade — ela
falou — e há pessoas em que vivemos, em quem sabemos a cumplicida
de — lhe falei.
(há os olhos e os dentes ) por se tocar.
— a música dos gestos é sempre incerta como os corpos — esta
sinfonia de sons e de líquidos...)
É assim que lhe desperta sua fragilidade de deusa ou
amêndoa colhida.
É assim sua teoria.
VI. manhã
Dormirei uma noite
aos pés de Medusa
e pedirei seu perdão.
Sobre seus braços deitarei o meu sono
de arma esquecida,
e não usarei nem um sonho.
Cometi o pior dos amores. Cometi a paixão.
E todas as deusas em seu tribunal foram seus olhos.
Fora acusado por Euríale de adorar os segredos
que alimentam o negro: o verde, dissera, será tua pena, e o azul,
teu perdão.
Contará que foi pouco a todas as cores que serviu sob
exércitos de mares e noites, e que por fim, foi levado.
Soube Medusa as armas do Amor em seu reino de espadas,
e recordou as batalhas que se lançara sem seu ermo de deusa.
— Tantas vezes tivesse encontrado o teu sangue outorgado
sob a esfinge de um nome — ela disse — seriam mil pedras
teus olhos de homem!
Esteno sorria de seu último sonho...
Acordara num jardim de canteiros de górgones, e deusas
não aravam rosas como um dia pensou...
noturno em 6 movimentos
I. sonho
há hipnoses que podemos estudar
Para o entendimento do mundo, —
a paixão é uma delas.
haver os sentimentos
como relíquia do homem de sempre
e desnudá-los ao fogo para anotar as reações...
pintá-las nas pedras
que perseguem as ruas
e não haverá mais pedras —
a música dos olhos
é a única prisão
que mantemos em nós
II. madrugada da tarde
Conhecera uma mulher que criara teorias...
Doce mulher de olhos de amêndoa magoada e pele
noturna, que sobressegredos recriara o amor, o mal e o perdão.
Era um tempo antigo como os segredos...
Em seus olhos conhecera outra mulher. Era ouvi-la dizer de
um verde em que era a vida, que podia avistá-las na luz
consumida...
(talvez seja o equilíbrio — como a beleza ou uma amêndoa
— e precise tempo ao criá-las e destruí-las todas)
Duramente nua sua língua alimentava a palavra
que lentamente morria —
a morte como uma aula de rios ou
uma queda —
a alma e milhões de teorias —
a alma
e sua língua de sonhos...
III. note elementar
Todo mistério humano repousara em suas mãos quando
encontraram suas almas aprisionadas como pássaros.
Ficaram cegos.
O terceiro dia nos devora como um cárcere ou uma fome.
Sob suas unhas nasciam violetas: todas as conquistas de
seu pecado foram erguidas como uma água sobre a terra.
Havia um peito a semear outra vez.
A sua espada era uma planta renascida.
Há numa mulher algo que sufoca a eternidade
fazendo-a dormente.
Doce mulher, dizia, em que os lábios eram a cor
de sua alma,
passara rebelde em seu sorriso...
IV. noite fundamental
imaginarem sua noite
uma estrela que se desprenda
como uma confissão, e traze-la para perto
onde eu possa beber de suas mãos.
Há incertezas de trilhas como um trem na hora noturna; um
trem que despedaça a luz ou um beijo — mas eu serei entendido
como uma água que imanta os olhos.
Sua fala de lúcida beleza trago em mim como um retrato.
Fiz o seu corpo encoberto de cores como bandeiras que
houvesse tomado em batalhas — sua roupa é o despojo de
derrotados.
Partirei ainda por descrevê-la em sua pátria de pássara e
mulher — há tantos mortos sob cada trincheira que veste sua
intimidade, que é aqui onde deposito todos os algozes para
combatê-la.
O seu nome aprendi com uma rosa roubada e guardei em
meu melhor lugar.
Sinto-a perto corra uma coisa roubada.
Sinto-a roubada por mim.
V. noite
Docemente o tempo soava, ela contou, como a noite que
habitara seu corpo.
(as meninas choram quando perdem teorias.
os meninos também criam teorias.
as meninas e os meninos choram.)
Não sei se agora é acordada a menina,
pareceu mulher.
Doce mulher de pele noturna e olhos de amêndoa madura,
não voltará a vê-la o beijo que imaginei...
Pintamos o outro com o que chamamos afinidade — ela
falou — e há pessoas em que vivemos, em quem sabemos a cumplicida
de — lhe falei.
(há os olhos e os dentes ) por se tocar.
— a música dos gestos é sempre incerta como os corpos — esta
sinfonia de sons e de líquidos...)
É assim que lhe desperta sua fragilidade de deusa ou
amêndoa colhida.
É assim sua teoria.
VI. manhã
Dormirei uma noite
aos pés de Medusa
e pedirei seu perdão.
Sobre seus braços deitarei o meu sono
de arma esquecida,
e não usarei nem um sonho.
Cometi o pior dos amores. Cometi a paixão.
E todas as deusas em seu tribunal foram seus olhos.
Fora acusado por Euríale de adorar os segredos
que alimentam o negro: o verde, dissera, será tua pena, e o azul,
teu perdão.
Contará que foi pouco a todas as cores que serviu sob
exércitos de mares e noites, e que por fim, foi levado.
Soube Medusa as armas do Amor em seu reino de espadas,
e recordou as batalhas que se lançara sem seu ermo de deusa.
— Tantas vezes tivesse encontrado o teu sangue outorgado
sob a esfinge de um nome — ela disse — seriam mil pedras
teus olhos de homem!
Esteno sorria de seu último sonho...
Acordara num jardim de canteiros de górgones, e deusas
não aravam rosas como um dia pensou...
947
Manuel Bandeira
Vita Nuova
De onde me veio esse tremor de ninho
A alvorecer na morta madrugada?
Era todo o meu ser... Não era nada,
Senão na pele a sombra de um carinho.
Ah, bem velho carinho! Um desalinho
De dedos tontos no painel da escada...
Batia a minha cor multiplicada,
— Era o sangue de Deus mudado em vinho!
Bandeiras tatalavam no alto mastro
Do meu desejo. No fervor da espera
Clareou a distância o súbito alabastro.
E na memória, em nova primavera,
Revivesceu, candente como um astro,
A flor do sonho, o sonho da quimera.
A alvorecer na morta madrugada?
Era todo o meu ser... Não era nada,
Senão na pele a sombra de um carinho.
Ah, bem velho carinho! Um desalinho
De dedos tontos no painel da escada...
Batia a minha cor multiplicada,
— Era o sangue de Deus mudado em vinho!
Bandeiras tatalavam no alto mastro
Do meu desejo. No fervor da espera
Clareou a distância o súbito alabastro.
E na memória, em nova primavera,
Revivesceu, candente como um astro,
A flor do sonho, o sonho da quimera.
1 342
Felipe Larson
NÃO LEMBRE DO TEMPO
Perco a estrada, perco a viajem,
Tudo não passa de uma ilusão
E quando volto, lembro da hora,
De que deixei pra trás minha paixão
Quero que saiba, o que sempre soube,
Que eu sou teu homem e você minha mulher
Não embre da hora
Esqueça do tempo
Aproveite o momento e nada mais
Esqueça de tudo
O que move o mundo
Pois é assim que deve ser
Você é desejo, meu desespero,
Você é tudo o que eu sempre quis
E porque choras, não vou embora.
Pois é em meu sonho que encontro você
Pois eu voltei, pra te dizer:
-Venha tornar meu sonho realidade
Então te pergunto:
- Por que não ser assim?
Eu e você, você pra mim, algo sem fim
Tudo não passa de uma ilusão
E quando volto, lembro da hora,
De que deixei pra trás minha paixão
Quero que saiba, o que sempre soube,
Que eu sou teu homem e você minha mulher
Não embre da hora
Esqueça do tempo
Aproveite o momento e nada mais
Esqueça de tudo
O que move o mundo
Pois é assim que deve ser
Você é desejo, meu desespero,
Você é tudo o que eu sempre quis
E porque choras, não vou embora.
Pois é em meu sonho que encontro você
Pois eu voltei, pra te dizer:
-Venha tornar meu sonho realidade
Então te pergunto:
- Por que não ser assim?
Eu e você, você pra mim, algo sem fim
901
Álvares de Azevedo
MORENA
Lira dos Vinte Anos
Segunda Parte
Ó Teresa, um outro beijo! e abandona-me
a meus sonhos e a meus suaves delírios.
JACOPO ORTIS
É loucura, meu anjo, é loucura
Os amores por anjos... bem sei!
Foram sonhos, foi louca ternura
Esse amor que a teus pés derramei!
Quando a fronte requeima e delira,
Quando o lábio desbota de amor,
Quando as cordas rebentam na lira
Que palpita no seio ao cantor...
Quando a vida nas dores é morta,
Ter amores nos sonhos é crime?
E loucura: eu o sei! mas que importa?
Ai! morena! és tão bela!... perdi-me!
Quando tudo, na insônia do leito,
No delírio de amor devaneia
E no fundo do trêmulo peito
Fogo lento no sangue se ateia...
Quando a vida nos prantos se escoa
Não merece o amante perdão?
Ai! morena! és tão bela! perdoa!
Foi um sonho do meu coração!
Foi um sonho... não cores de pejo!
Foi um sonho tão puro!... ai de mim!
Mal gozei-lhe as frescuras de um beijo!
Ai! não cores, não cores assim!
Não suspires! por que suspirar?
Quando o vento num lírio soluça,
E desmaia no longo beijar,
E ofegante de amor se debruça...
Quando a vida lhe foge, lhe treme,
Pobre vida do seu coração,
Essa flor que o ouvira, que geme,
Não lhe dera no seio o perdão?
Mas não cores! se queres, afogo
No meu seio o fogoso anelar!
Calarei meus suspiros de fogo
E esse amor que me há de matar!
Morrerei, ó morena, em segredo!
Um perdido na terra sou eu!
Ai! teu sonho não morra tão cedo
Como a vida em meu peito morreu!
Segunda Parte
Ó Teresa, um outro beijo! e abandona-me
a meus sonhos e a meus suaves delírios.
JACOPO ORTIS
É loucura, meu anjo, é loucura
Os amores por anjos... bem sei!
Foram sonhos, foi louca ternura
Esse amor que a teus pés derramei!
Quando a fronte requeima e delira,
Quando o lábio desbota de amor,
Quando as cordas rebentam na lira
Que palpita no seio ao cantor...
Quando a vida nas dores é morta,
Ter amores nos sonhos é crime?
E loucura: eu o sei! mas que importa?
Ai! morena! és tão bela!... perdi-me!
Quando tudo, na insônia do leito,
No delírio de amor devaneia
E no fundo do trêmulo peito
Fogo lento no sangue se ateia...
Quando a vida nos prantos se escoa
Não merece o amante perdão?
Ai! morena! és tão bela! perdoa!
Foi um sonho do meu coração!
Foi um sonho... não cores de pejo!
Foi um sonho tão puro!... ai de mim!
Mal gozei-lhe as frescuras de um beijo!
Ai! não cores, não cores assim!
Não suspires! por que suspirar?
Quando o vento num lírio soluça,
E desmaia no longo beijar,
E ofegante de amor se debruça...
Quando a vida lhe foge, lhe treme,
Pobre vida do seu coração,
Essa flor que o ouvira, que geme,
Não lhe dera no seio o perdão?
Mas não cores! se queres, afogo
No meu seio o fogoso anelar!
Calarei meus suspiros de fogo
E esse amor que me há de matar!
Morrerei, ó morena, em segredo!
Um perdido na terra sou eu!
Ai! teu sonho não morra tão cedo
Como a vida em meu peito morreu!
3 095
Felipe Larson
UMA DA MANHÃ
Uma da manhã
Nada diferente
Mas de repente
O dia irá mudar
O sol irá brilhar
Na sua janela
E o pensamento nela
É o que irá sobrar
Mas nada sacia
A minha vontade
De poder criar
Uma nova verdade
Ganhando esquinas
Assim que descobre
Que em pouco rabisco
Escreve meu nome
Por pensar tanto em você
Eu imagino você em todo lugar
Perseguindo até em meus sonhos
E quem disse que será assim
O nosso final, o nosso final feliz
Nada diferente
Mas de repente
O dia irá mudar
O sol irá brilhar
Na sua janela
E o pensamento nela
É o que irá sobrar
Mas nada sacia
A minha vontade
De poder criar
Uma nova verdade
Ganhando esquinas
Assim que descobre
Que em pouco rabisco
Escreve meu nome
Por pensar tanto em você
Eu imagino você em todo lugar
Perseguindo até em meus sonhos
E quem disse que será assim
O nosso final, o nosso final feliz
594
Manuel Bandeira
Elegia para Rui Ribeiro Couto
Meu caro Rui Ribeiro Couto, a mocidade
Promete mais que dá. Sonhamos se dormimos,
E sonhamos quando acordados. Altos cimos
Da aspiração, que em torno vê só a imensidade!
Assim, amigo, foi você; assim eu fui.
Mas terminada a mocidade, o sonho rui?
Não, não rui. Pois o sonho, amigo, não é cousa
Feita de pedra e cal: o sonho é cousa fluida.
Enquanto dura a mocidade, que não cuida
Senão de se gastar, nem pára, nem repousa,
Vai de despenhadeiro a outro despenhadeiro.
Mas com o tempo serena e flui como um ribeiro.
Um dia as ilusões de Vitorino Glória
Se terão dissipado. Em cada nervo e músculo
Sentirá ele, na doçura do crepúsculo,
O que houve de melhor na sua louca história.
Apaziguado há de sorrir ao sonho roto,
E encontrará, dentro em si mesmo, o pouso, o couto.
Promete mais que dá. Sonhamos se dormimos,
E sonhamos quando acordados. Altos cimos
Da aspiração, que em torno vê só a imensidade!
Assim, amigo, foi você; assim eu fui.
Mas terminada a mocidade, o sonho rui?
Não, não rui. Pois o sonho, amigo, não é cousa
Feita de pedra e cal: o sonho é cousa fluida.
Enquanto dura a mocidade, que não cuida
Senão de se gastar, nem pára, nem repousa,
Vai de despenhadeiro a outro despenhadeiro.
Mas com o tempo serena e flui como um ribeiro.
Um dia as ilusões de Vitorino Glória
Se terão dissipado. Em cada nervo e músculo
Sentirá ele, na doçura do crepúsculo,
O que houve de melhor na sua louca história.
Apaziguado há de sorrir ao sonho roto,
E encontrará, dentro em si mesmo, o pouso, o couto.
869
Isaac Felipe Azofeifa
Poema IV
Tu me deixas aqui ou partes comigo?
Estou dentro de ti ou é que me chamas?
Vives única em mim ou encontro o mundo em ti,
contigo?
A ordem das coisas em que te amo,
onde começa ou acaba?
Agora está o silêncio aposentado
na rosa do ar
e uma árvore perto trina entre os pássaros
para sombrear teu sonho ou é meu sonho?
É esta uma prisão ou acaso o vasto céu
começa aqui onde teus pés
tocam juntos a terra, ou é a lua?
De pronto entro na luz que já habito
e meus olhos se encontram com tua testa.
Busco sair de ti e te levo dentro
de mim, sem encontrar-te.
Sem como, onde ou quando.
Cego na luz com meu olhar aberto
a tanta multidão de ti que ando
extraviado na noite na metade do dia.
Estou dentro de ti ou é que me chamas?
Vives única em mim ou encontro o mundo em ti,
contigo?
A ordem das coisas em que te amo,
onde começa ou acaba?
Agora está o silêncio aposentado
na rosa do ar
e uma árvore perto trina entre os pássaros
para sombrear teu sonho ou é meu sonho?
É esta uma prisão ou acaso o vasto céu
começa aqui onde teus pés
tocam juntos a terra, ou é a lua?
De pronto entro na luz que já habito
e meus olhos se encontram com tua testa.
Busco sair de ti e te levo dentro
de mim, sem encontrar-te.
Sem como, onde ou quando.
Cego na luz com meu olhar aberto
a tanta multidão de ti que ando
extraviado na noite na metade do dia.
992
Felipe Vianna
DE UM JOÃO NINGUÉM
Meu sonho é ser alguém!
Quem, eu?
Sim, eu!
Um João-sem-terra,
Um João-ninguém.
Quero ser importante,
Ser visto e respeitado;
Um ser elegante,
Um objetivo a ser almejado.
Meu futuro será brilhante,
Meus caminhos serão grandes,
Serei maior que minha estatura,
Não terá estátua a minha altura.
Postumamente meu nome será lembrado,
Pela história relevado.
Esta rua em que me encontro,
Seu nome será Felipe Vianna;
E ponto.
28/08/1999
Quem, eu?
Sim, eu!
Um João-sem-terra,
Um João-ninguém.
Quero ser importante,
Ser visto e respeitado;
Um ser elegante,
Um objetivo a ser almejado.
Meu futuro será brilhante,
Meus caminhos serão grandes,
Serei maior que minha estatura,
Não terá estátua a minha altura.
Postumamente meu nome será lembrado,
Pela história relevado.
Esta rua em que me encontro,
Seu nome será Felipe Vianna;
E ponto.
28/08/1999
813
Fernando Pessoa
Sonhos dentro de sonhos,
Sonhos dentro de sonhos,
Involuções do sonhar,
Os pensamentos são medonhos
Quando se querem aprofundar;
E os corações ficam tristonhos, tristonhos
Quando se sentem sentir pensar.
ilusões dentro d'ilusões
Atormentando o descrer;
Descrenças e crenças são ambas visões
São ambas sonhar, são ambas crer.
Involuções do sonhar,
Os pensamentos são medonhos
Quando se querem aprofundar;
E os corações ficam tristonhos, tristonhos
Quando se sentem sentir pensar.
ilusões dentro d'ilusões
Atormentando o descrer;
Descrenças e crenças são ambas visões
São ambas sonhar, são ambas crer.
1 438
Charles Bukowski
Vivendo
quero dizer, apenas dormi
acordei com uma mosca no cotovelo e
eu a batizei de Benny
então a matei
e então me levantei e fui ver a caixa de
correspondência
e havia algum tipo de aviso do
governo
mas já que não havia ninguém em guarda entre os arbustos
com uma baioneta
eu o rasguei
e voltei para a cama e fiquei olhando para o teto
e pensei, realmente gosto disso,
vou ficar assim deitado por mais uns dez
minutos
e ali fiquei por mais dez minutos
e pensei,
isso não faz sentido, tenho tantas coisas a
fazer mas ficarei deitado aqui por mais
meia hora,
e me estiquei
estiquei
e fiquei vendo o sol atravessar as pequenas folhas de uma árvore
lá fora, e não tive nenhum pensamento mirabolante,
não tive nenhum pensamento imortal,
e essa foi a melhor parte
e ficou um pouco quente
e eu me livrei da coberta e segui dormindo –
mas um sonho dos diabos:
eu estava de volta ao trem
de volta àquela viagem circular de 5 horas,
sentado junto à janela,
vencendo o mesmo triste oceano, a China lá fora murmurando
peculiaridades no fundo de meu
cérebro, e então alguém sentou ao meu lado
e falou sobre cavalos
uma conversa cheia de naftalina que me rasgou em dois como a
morte, e então lá estava eu
de novo: os cavalos correndo como alguma coisa vista numa
tela e os jóqueis com rostos muito brancos
e não importava quem finalmente
vencesse e todo mundo o
sabia. o retorno dos cavalos no sonho era igual
ao retorno na realidade:
toneladas negras de noite ao redor
as mesmas montanhas envergonhadas de estarem
ali, o mesmo mar outra vez, outra vez,
o trem avançando como um caralho através de um olho de
agulha
e eu tive que levantar e ir até o banheiro
e eu odiava ter de levantar e ir até o banheiro
porque alguém tinha jogado papel no vaso, algum otário tinha jogado
papel ali de novo e a porra não daria
descarga, e quando eu voltasse
ninguém tinha nada para fazer senão olhar para a minha
cara
e eu estava tão cansado
que eles souberam isso ao ver meu rosto
que eu os
odiava
e que eles me odiavam
e queriam
me matar
mas não o faziam.
despertei mas como não havia ninguém
na minha cama
para me dizer que agia
errado
dormi mais um
pouco.
quando acordei desta vez
era quase
noite. as pessoas vinham chegando do trabalho.
me levantei e me sentei numa cadeira e fiquei olhando eles
entrarem. eles não pareciam muito bem.
mesmo as jovens garotas não pareciam tão bem como à hora que
partiram.
e os homens entravam: assassinos com machadinhas, homicidas, ladrões, fraudadores,
o time inteiro, e seus rostos eram mais horrendos que quaisquer
máscaras de halloween jamais divisadas.
encontrei uma aranha azul num canto e a matei com uma
vassoura.
olhei um pouco mais para as pessoas e então me cansei e
parei de olhar e resolvi fritar uns dois ovos e me sentei
e tomei um pouco de chá com pão.
me senti bem.
depois tomei um banho e voltei para a
cama.
acordei com uma mosca no cotovelo e
eu a batizei de Benny
então a matei
e então me levantei e fui ver a caixa de
correspondência
e havia algum tipo de aviso do
governo
mas já que não havia ninguém em guarda entre os arbustos
com uma baioneta
eu o rasguei
e voltei para a cama e fiquei olhando para o teto
e pensei, realmente gosto disso,
vou ficar assim deitado por mais uns dez
minutos
e ali fiquei por mais dez minutos
e pensei,
isso não faz sentido, tenho tantas coisas a
fazer mas ficarei deitado aqui por mais
meia hora,
e me estiquei
estiquei
e fiquei vendo o sol atravessar as pequenas folhas de uma árvore
lá fora, e não tive nenhum pensamento mirabolante,
não tive nenhum pensamento imortal,
e essa foi a melhor parte
e ficou um pouco quente
e eu me livrei da coberta e segui dormindo –
mas um sonho dos diabos:
eu estava de volta ao trem
de volta àquela viagem circular de 5 horas,
sentado junto à janela,
vencendo o mesmo triste oceano, a China lá fora murmurando
peculiaridades no fundo de meu
cérebro, e então alguém sentou ao meu lado
e falou sobre cavalos
uma conversa cheia de naftalina que me rasgou em dois como a
morte, e então lá estava eu
de novo: os cavalos correndo como alguma coisa vista numa
tela e os jóqueis com rostos muito brancos
e não importava quem finalmente
vencesse e todo mundo o
sabia. o retorno dos cavalos no sonho era igual
ao retorno na realidade:
toneladas negras de noite ao redor
as mesmas montanhas envergonhadas de estarem
ali, o mesmo mar outra vez, outra vez,
o trem avançando como um caralho através de um olho de
agulha
e eu tive que levantar e ir até o banheiro
e eu odiava ter de levantar e ir até o banheiro
porque alguém tinha jogado papel no vaso, algum otário tinha jogado
papel ali de novo e a porra não daria
descarga, e quando eu voltasse
ninguém tinha nada para fazer senão olhar para a minha
cara
e eu estava tão cansado
que eles souberam isso ao ver meu rosto
que eu os
odiava
e que eles me odiavam
e queriam
me matar
mas não o faziam.
despertei mas como não havia ninguém
na minha cama
para me dizer que agia
errado
dormi mais um
pouco.
quando acordei desta vez
era quase
noite. as pessoas vinham chegando do trabalho.
me levantei e me sentei numa cadeira e fiquei olhando eles
entrarem. eles não pareciam muito bem.
mesmo as jovens garotas não pareciam tão bem como à hora que
partiram.
e os homens entravam: assassinos com machadinhas, homicidas, ladrões, fraudadores,
o time inteiro, e seus rostos eram mais horrendos que quaisquer
máscaras de halloween jamais divisadas.
encontrei uma aranha azul num canto e a matei com uma
vassoura.
olhei um pouco mais para as pessoas e então me cansei e
parei de olhar e resolvi fritar uns dois ovos e me sentei
e tomei um pouco de chá com pão.
me senti bem.
depois tomei um banho e voltei para a
cama.
1 095
Felipe Larson
21 DE SETEMBRO
Quando os dias não são iguais
Penso que algo pode acontecer
Uma surpresa ou algo imprevisível
Algo que não imagine
Pois sei que setembro está longe
Mas há uma saudade gritando dentro de mim
Dizendo assim: - Este dia irá demorar em vir
Mas isso não me abala
Pois nesta noite sonhei com você
E foi um sonho bom
Sentia a chuva tocar o chão,
Dizendo: - Não desperdice os pingos de chuva,
Aproveite ao menos algum
Pois há várias razões para isso
Mas acho tão estranho
Você estar tão longe e eu te sentir tão perto
Talvez seja que algo de mim está em você,
Como você está em mim
Pois me sinto completo
E espero que você esteja se sentindo assim
Penso que algo pode acontecer
Uma surpresa ou algo imprevisível
Algo que não imagine
Pois sei que setembro está longe
Mas há uma saudade gritando dentro de mim
Dizendo assim: - Este dia irá demorar em vir
Mas isso não me abala
Pois nesta noite sonhei com você
E foi um sonho bom
Sentia a chuva tocar o chão,
Dizendo: - Não desperdice os pingos de chuva,
Aproveite ao menos algum
Pois há várias razões para isso
Mas acho tão estranho
Você estar tão longe e eu te sentir tão perto
Talvez seja que algo de mim está em você,
Como você está em mim
Pois me sinto completo
E espero que você esteja se sentindo assim
668
Felipe Larson
CORAÇÃO PIRADO
Tenho um coração pirado
Que vive sem razão
Mas sempre foi guiado
Pela força da emoção
Espero estar certo
E pronto para amar
Pra tudo que vier
Pra tudo que passar
Então sonhar com você
Pensar em você
Todos os dias
Então sonhar com você
Pensar em você na esperança de te ter
24 horas do dia
Descrevo meu destino
Seguindo o seu caminho
E aprendendo a amar
Com o brilho no olhar
Sentado do seu lado
De frente para o mar
Depois que fui beijado
Parecia flutuar
Que vive sem razão
Mas sempre foi guiado
Pela força da emoção
Espero estar certo
E pronto para amar
Pra tudo que vier
Pra tudo que passar
Então sonhar com você
Pensar em você
Todos os dias
Então sonhar com você
Pensar em você na esperança de te ter
24 horas do dia
Descrevo meu destino
Seguindo o seu caminho
E aprendendo a amar
Com o brilho no olhar
Sentado do seu lado
De frente para o mar
Depois que fui beijado
Parecia flutuar
890
Jorge Luis Borges
Milonga para um soldado - O jogo da vida
O hei sonhado nesta casa,
entre paredes e portas,
Deus permite que os homens
sonhem coisas que são certas.
O hei sonhado mar afora,
em umas ilhas glaciárias,
que não digam os demais
o túmulo e os hospitais.
Uma de tantas províncias,
do interior foi sua terra,
não convém que se saiba
que morre gente na guerra.
O sacaram do quartel,
Puseram-lhe nas mãos
as armas e o mandaram
a morrer com seus irmãos.
Ouviu as balas arengas
dos vãos generais,
viu o que nunca havia visto,
a neve e as areias.
Ouviu vivas, e ouviu morras
ouviu o clamor da gente,
ele só queria saber
se era ou não era valente.
O soube naquele momento
em que lhe entrava a ferida,
se disse não teve medo,
quando o deixou a vida.
Sua morte foi uma secreta vitória
ninguém se admire que me dê inveja e pena
o destino daquele homem.
Ouviu as balas arengas
dos vãos generais,
viu o que nunca havia visto,
a neve e as areias.
Ouviu vivas, e ouviu morras
ouviu o clamor da gente,
ele só queria saber
se era ou não era valente.
O soube naquele momento
em que lhe entrava a ferida,
se disse não teve medo,
quando o deixou a vida.
entre paredes e portas,
Deus permite que os homens
sonhem coisas que são certas.
O hei sonhado mar afora,
em umas ilhas glaciárias,
que não digam os demais
o túmulo e os hospitais.
Uma de tantas províncias,
do interior foi sua terra,
não convém que se saiba
que morre gente na guerra.
O sacaram do quartel,
Puseram-lhe nas mãos
as armas e o mandaram
a morrer com seus irmãos.
Ouviu as balas arengas
dos vãos generais,
viu o que nunca havia visto,
a neve e as areias.
Ouviu vivas, e ouviu morras
ouviu o clamor da gente,
ele só queria saber
se era ou não era valente.
O soube naquele momento
em que lhe entrava a ferida,
se disse não teve medo,
quando o deixou a vida.
Sua morte foi uma secreta vitória
ninguém se admire que me dê inveja e pena
o destino daquele homem.
Ouviu as balas arengas
dos vãos generais,
viu o que nunca havia visto,
a neve e as areias.
Ouviu vivas, e ouviu morras
ouviu o clamor da gente,
ele só queria saber
se era ou não era valente.
O soube naquele momento
em que lhe entrava a ferida,
se disse não teve medo,
quando o deixou a vida.
1 810
Fernando Pessoa
THE WORLD OFFENDED
I said unto the world one day:
«I suspect thee of existence!»
And the world showed a smiled resistance
To what I did say.
«Let us go to court», he replied; «go we
Before a Court both wise and rare.
Let Reason one judge of our cause be;
Imagination be also there
And Feeling the judges our cause to hear.»
We went before the Court, and Reason
Said to me: «Thy crime is half‑treason!
The World's acquitted of what thou say'st:
Of existence 'tis guilty not.
This by the written code of Thought
In the pages of Unrest.»
(I was but in the costs condemned
Of the suit I lost as play;
But those, they leave me poor and yet
Are more than I can pay.)
«I suspect thee of existence!»
And the world showed a smiled resistance
To what I did say.
«Let us go to court», he replied; «go we
Before a Court both wise and rare.
Let Reason one judge of our cause be;
Imagination be also there
And Feeling the judges our cause to hear.»
We went before the Court, and Reason
Said to me: «Thy crime is half‑treason!
The World's acquitted of what thou say'st:
Of existence 'tis guilty not.
This by the written code of Thought
In the pages of Unrest.»
(I was but in the costs condemned
Of the suit I lost as play;
But those, they leave me poor and yet
Are more than I can pay.)
1 322
Fernando Pessoa
Então vindas d’Além de Deus
(Então vindas d’Além de Deus, como um arrepio, mesmo do Ser sem falar; insinuam-se no vácuo estas palavras:)
O INOMINÁVEL:
No meu abismo medonho
Se despenha mudamente
A catarata de sonho
Do mundo eterno e presente.
Formas e ideias eu bebo
E o mistério e horror do mundo
Silentemente recebo
No meu abismo profundo.
O Ser-em-si nem é o nome
Do meu ser inominável;
No meu mundo Maëlstrom,
O grande mundo inestável,
Como um suspiro se apaga,
E um silêncio mais que infindo
Acolhe o morrer da vaga
Que em mim se vai esvaindo.
O INOMINÁVEL:
No meu abismo medonho
Se despenha mudamente
A catarata de sonho
Do mundo eterno e presente.
Formas e ideias eu bebo
E o mistério e horror do mundo
Silentemente recebo
No meu abismo profundo.
O Ser-em-si nem é o nome
Do meu ser inominável;
No meu mundo Maëlstrom,
O grande mundo inestável,
Como um suspiro se apaga,
E um silêncio mais que infindo
Acolhe o morrer da vaga
Que em mim se vai esvaindo.
1 371
Jorge Luis Borges
Sonha Alonso Quijano
O homem se desperta de um incerto
Sonho de espadas e de campo plano
E se toca a barba com a mão
e se pergunta se está ferido ou morto.
Não o perseguirão os feiticeiros
que hão jurado seu mal baixo a lua?
Nada. Apenas o frio. Apenas uma
Doença dos seus anos postreiros.
O fidalgo foi um sonho de Cervantes
e don Quixote um sonho do fidalgo.
O duplo sonho os confunde e algo
está passando que aconteceu muito antes.
Quijano dorme sonha. Uma batalha:
Os mares de Lepanto e a metralha.
Retirado de La rosa profunda (1975)
Sonho de espadas e de campo plano
E se toca a barba com a mão
e se pergunta se está ferido ou morto.
Não o perseguirão os feiticeiros
que hão jurado seu mal baixo a lua?
Nada. Apenas o frio. Apenas uma
Doença dos seus anos postreiros.
O fidalgo foi um sonho de Cervantes
e don Quixote um sonho do fidalgo.
O duplo sonho os confunde e algo
está passando que aconteceu muito antes.
Quijano dorme sonha. Uma batalha:
Os mares de Lepanto e a metralha.
Retirado de La rosa profunda (1975)
1 918
Manuel Bandeira
Versos Escritos N'água
Os poucos versos que aí vão,
Em lugar de outros é que os ponho.
Tu que me lês, deixo ao teu sonho
Imaginar como serão.
Neles porás tua tristeza
Ou bem teu júbilo, e, talvez,
Lhes acharás, tu que me lês,
Alguma sombra de beleza...
Quem os ouviu não os amou.
Meus pobres versos comovidos!
Por isso fiquem esquecidos
Onde o mau vento os atirou.
Em lugar de outros é que os ponho.
Tu que me lês, deixo ao teu sonho
Imaginar como serão.
Neles porás tua tristeza
Ou bem teu júbilo, e, talvez,
Lhes acharás, tu que me lês,
Alguma sombra de beleza...
Quem os ouviu não os amou.
Meus pobres versos comovidos!
Por isso fiquem esquecidos
Onde o mau vento os atirou.
1 219
1
Manuel Bandeira
A Canção de Maria
Que é de ti, melancolia?...
Onde estais, cuidados meus?...
Sabei que a minha alegria
É toda vinda de Deus...
Deitei-me triste e sombria,
E amanheci como estou...
Tão contente! Todavia
Minha vida não mudou.
Acaso enquanto dormia
Esquecida de meus ais,
Um sonho bom me envolvia?
Se foi, não me lembro mais...
Mas se foi sonho, devia
Ser bom demais para mim...
Senão, não me sentiria
Tão maravilhada assim.
Ó minha linda alegria,
Trégua dos cuidados meus,
Por que não vens todo dia,
Se és toda vinda de Deus?
Clavadel, 1913
Onde estais, cuidados meus?...
Sabei que a minha alegria
É toda vinda de Deus...
Deitei-me triste e sombria,
E amanheci como estou...
Tão contente! Todavia
Minha vida não mudou.
Acaso enquanto dormia
Esquecida de meus ais,
Um sonho bom me envolvia?
Se foi, não me lembro mais...
Mas se foi sonho, devia
Ser bom demais para mim...
Senão, não me sentiria
Tão maravilhada assim.
Ó minha linda alegria,
Trégua dos cuidados meus,
Por que não vens todo dia,
Se és toda vinda de Deus?
Clavadel, 1913
1 368
Rafael Alberti
Equivocou-se a pomba
Equivocou-se a pomba.
Equivocava-se.
Por ir ao norte, foi ao sul.
Acreditou que o trigo era água.
Equivocava-se.
Acreditou que o mar era o céu:
que a noite, a manhã.
Equivocava-se.
Que as estrelas, orvalho;
que o calor; a nevasca.
Equivocava-se.
Que tua saia era tua blusa;
que teu coração, sua casa.
Equivocava-se.
(Ela dormiu na beira
tu, no topo de um ramo).
Equivocava-se.
Por ir ao norte, foi ao sul.
Acreditou que o trigo era água.
Equivocava-se.
Acreditou que o mar era o céu:
que a noite, a manhã.
Equivocava-se.
Que as estrelas, orvalho;
que o calor; a nevasca.
Equivocava-se.
Que tua saia era tua blusa;
que teu coração, sua casa.
Equivocava-se.
(Ela dormiu na beira
tu, no topo de um ramo).
1 362
Rubén Darío
Passa e esquece
Peregrino que vais buscando em vão
Um caminho melhor que teu caminho,
Como queres que te dê a mão,
Se meu estigma é teu estigma, peregrino?
Não chegarás jamais a teu destino;
Levas a morte em ti como o verme
Que te rói o que tens de humano...
O que tens de humano e de divino!
Segue tranqüilamente, Oh! Caminhante!
Ainda te fica muito distante
Esse país incógnito que sonhas...
E sonhar é um mal. Passa e esquece,
Pois se te empenhas em sonhar, te empenhas
Em aventar a chama de tua vida.
Um caminho melhor que teu caminho,
Como queres que te dê a mão,
Se meu estigma é teu estigma, peregrino?
Não chegarás jamais a teu destino;
Levas a morte em ti como o verme
Que te rói o que tens de humano...
O que tens de humano e de divino!
Segue tranqüilamente, Oh! Caminhante!
Ainda te fica muito distante
Esse país incógnito que sonhas...
E sonhar é um mal. Passa e esquece,
Pois se te empenhas em sonhar, te empenhas
Em aventar a chama de tua vida.
1 176
Carlos Enrique Ungo
O unicórnio existe amor
O unicórnio existe amor
é a risada das crianças
o milagre de um beijo
a carícia que queima
as asas tíbias de um sonho.
O unicórnio existe amor
é a poesia de todos
o canto das aves
o rumor da terra
o perfume das flores.
O unicórnio existe amor
é o eco de teu nome
a agonia de tua ausência
o manto tíbio de tuas mãos
a rosa sagrada de teu sexo.
O unicórnio existe amor
é a luz de teu olhar
as estrelas de tua noite
o suave mar de teus cabelos
o território proibido de teu corpo.
O unicórnio existe amor
e ressurge brioso
selvagem
vitorioso
quando minha boca pronuncia teu nome.
é a risada das crianças
o milagre de um beijo
a carícia que queima
as asas tíbias de um sonho.
O unicórnio existe amor
é a poesia de todos
o canto das aves
o rumor da terra
o perfume das flores.
O unicórnio existe amor
é o eco de teu nome
a agonia de tua ausência
o manto tíbio de tuas mãos
a rosa sagrada de teu sexo.
O unicórnio existe amor
é a luz de teu olhar
as estrelas de tua noite
o suave mar de teus cabelos
o território proibido de teu corpo.
O unicórnio existe amor
e ressurge brioso
selvagem
vitorioso
quando minha boca pronuncia teu nome.
2 175
Myriam Fraga
O Avião
Somente as asas
Aço-metal
Linear o traço.
E o rastro.
Sombra vazia
Do acaso,
Devorando intuições,
Cansaços.
Tão frio-aço (metal)
Vapor de sonho
No espaço.
Aço-metal
Linear o traço.
E o rastro.
Sombra vazia
Do acaso,
Devorando intuições,
Cansaços.
Tão frio-aço (metal)
Vapor de sonho
No espaço.
1 083
Manuel Bandeira
Enquanto Morrem as Rosas
Morre a tarde. Erra no ar a divina fragrância.
Fora, a mortiça luz do crepúsculo arde.
Nas árvores, no oceano e no azul da distância
Morre a tarde...
Morrem as rosas. Minhas pálpebras se molham
No pranto das desesperanças dolorosas.
Sobre a mesa, pétala a pétala, se esfolham,
Morrem as rosas...
Morre o teu sonho?... Neste instante o pensamento
Acabrunha o meu ser como um pesar medonho.
Ah, por que temo assim? Dize: neste momento
Morre o teu sonho...
Fora, a mortiça luz do crepúsculo arde.
Nas árvores, no oceano e no azul da distância
Morre a tarde...
Morrem as rosas. Minhas pálpebras se molham
No pranto das desesperanças dolorosas.
Sobre a mesa, pétala a pétala, se esfolham,
Morrem as rosas...
Morre o teu sonho?... Neste instante o pensamento
Acabrunha o meu ser como um pesar medonho.
Ah, por que temo assim? Dize: neste momento
Morre o teu sonho...
1 528
Rui Knopfli
Justerini & Brooks
Este punhal de veludo,
esta fria estalactite,
esta cicuta tão lenta
e que tão profundamente
fere. Esta lâmina
líquida, doirada,
este filtro parecido ao sol,
este rarefeito odor simultâneo
ao fumo, à água, à pedra.
Este adormecer antes do sono,
só preâmbulo da vigília,
que é o gélido acordar
da imaginação para
as fronteiras dormentes
do horizonte protelado.
Este trajecto subterrâneo e húmido
pelos túneis do infortúnio,
que é o adiar moroso
da morte, no prolongar
silencioso da vida,
lágrimas da noite tornadas
pranto da madrigada,
rumor débil e distante
brandindo já no sangue
o endurecer das artérias.
esta fria estalactite,
esta cicuta tão lenta
e que tão profundamente
fere. Esta lâmina
líquida, doirada,
este filtro parecido ao sol,
este rarefeito odor simultâneo
ao fumo, à água, à pedra.
Este adormecer antes do sono,
só preâmbulo da vigília,
que é o gélido acordar
da imaginação para
as fronteiras dormentes
do horizonte protelado.
Este trajecto subterrâneo e húmido
pelos túneis do infortúnio,
que é o adiar moroso
da morte, no prolongar
silencioso da vida,
lágrimas da noite tornadas
pranto da madrigada,
rumor débil e distante
brandindo já no sangue
o endurecer das artérias.
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