Poemas neste tema
Sonhos e Imaginação
Antero de Quental
Noturno
Espírito que passas, quando o vento
Adormece no mar e surge a Lua,
Filho esquivo da noite que flutua,
Tu só entendes bem o meu tormento...
Como um canto longínquo - triste e lento-
Que voga e sutilmente se insinua,
Sobre o meu coração que tumultua,
Tu vestes pouco a pouco o esquecimento...
A ti confio o sonho em que me leva
Um instinto de luz, rompendo a treva,
Buscando. entre visões, o eterno Bem.
E tu entendes o meu mal sem nome,
A febre de Ideal, que me consome,
Tu só, Gênio da Noite, e mais ninguém!
Adormece no mar e surge a Lua,
Filho esquivo da noite que flutua,
Tu só entendes bem o meu tormento...
Como um canto longínquo - triste e lento-
Que voga e sutilmente se insinua,
Sobre o meu coração que tumultua,
Tu vestes pouco a pouco o esquecimento...
A ti confio o sonho em que me leva
Um instinto de luz, rompendo a treva,
Buscando. entre visões, o eterno Bem.
E tu entendes o meu mal sem nome,
A febre de Ideal, que me consome,
Tu só, Gênio da Noite, e mais ninguém!
4 404
1
Nuno Júdice
A vindima de Eros
E de novo este céu desenrola a sua matéria
de outono. Com a precisão do vindimador, agarro
as suas vides e corto os cachos de névoa que
caem sobre a terra. Ponho-os no carro do poema,
e levo-os para a adega abandonada do sonho
para os transformar num vinho de palavras
feitas com as sílabas mais líquidas, as que se
podem beber pela taça da estrofe. E um fumo
da antiga inspiração evola-se da cuba
dos mistérios. As raparigas descalças, com
os seus aventais de sol, sobem para o lagar
e pisam as uvas. O cheiro do sumo sobe
até ao fundo da sua cabeça, e antes que fiquem
tontas começam a contar as memórias perecíveis,
as que nasceram de uma fuga nocturna
pelos campos impunes do estio. Espero
que acabem o seu trabalho, e vejo-as sair com
as pernas roxas até aos joelhos, e as saias subidas
até às coxas. Os seus olhos rodam como
as velas de um moinho ébrio de vento; e
abrem os braços à luz, como se desejassem
que ela limpasse os seus corpos da espuma
que os envolve. E canto esses corpos, como
se elas me pedissem que transformasse
o mosto dos seus lábios no vermelho puro
da madrugada. Assim, uma levada de versos
recitados nos rituais da origem inunda
os seus seios e restitui-lhes a brancura inicial,
enquanto me obrigam a beber os líquidos
que os seus pés destilaram. E apenas lhes peço,
quando vestem as suas túnicas de nuvem,
que atravessem de novo as videiras decepadas
e abracem os vindimadores, beijando-os,
para que eles provem o vinho novo dos seus lábios.
in, "A Convergência dos Ventos" | Nuno Júdice | Publicações Dom Quixote, 1ª. Edição, pág. 18 e 19 - Lisboa, Outubro 2015
de outono. Com a precisão do vindimador, agarro
as suas vides e corto os cachos de névoa que
caem sobre a terra. Ponho-os no carro do poema,
e levo-os para a adega abandonada do sonho
para os transformar num vinho de palavras
feitas com as sílabas mais líquidas, as que se
podem beber pela taça da estrofe. E um fumo
da antiga inspiração evola-se da cuba
dos mistérios. As raparigas descalças, com
os seus aventais de sol, sobem para o lagar
e pisam as uvas. O cheiro do sumo sobe
até ao fundo da sua cabeça, e antes que fiquem
tontas começam a contar as memórias perecíveis,
as que nasceram de uma fuga nocturna
pelos campos impunes do estio. Espero
que acabem o seu trabalho, e vejo-as sair com
as pernas roxas até aos joelhos, e as saias subidas
até às coxas. Os seus olhos rodam como
as velas de um moinho ébrio de vento; e
abrem os braços à luz, como se desejassem
que ela limpasse os seus corpos da espuma
que os envolve. E canto esses corpos, como
se elas me pedissem que transformasse
o mosto dos seus lábios no vermelho puro
da madrugada. Assim, uma levada de versos
recitados nos rituais da origem inunda
os seus seios e restitui-lhes a brancura inicial,
enquanto me obrigam a beber os líquidos
que os seus pés destilaram. E apenas lhes peço,
quando vestem as suas túnicas de nuvem,
que atravessem de novo as videiras decepadas
e abracem os vindimadores, beijando-os,
para que eles provem o vinho novo dos seus lábios.
in, "A Convergência dos Ventos" | Nuno Júdice | Publicações Dom Quixote, 1ª. Edição, pág. 18 e 19 - Lisboa, Outubro 2015
1 767
1
Machado de Assis
Stella
Já raro e mais escasso
A noite arrasta o manto,
E verte o último pranto
Por todo o vasto espaço.
Tíbio clarão já cora
A tela do horizonte,
E já de sobre o monte
Vem debruçar-se a aurora
À muda e torva irmã,
Dormida de cansaço,
Lá vem tomar o espaço
A virgem da manhã.
Uma por uma, vão
As pálidas estrelas,
E vão, e vão com elas
Teus sonhos, coração.
Mas tu, que o devaneio
Inspiras do poeta,
Não vês que a vaga inquieta
Abre-te o úmido seio?
Vai. Radioso e ardente,
Em breve o astro do dia,
Rompendo a névoa fria,
Virá do roxo oriente.
Dos íntimos sonhares
Que a noite protegera,
De tanto que eu vertera.
Em lágrimas a pares.
Do amor silencioso.
Místico, doce, puro,
Dos sonhos do futuro,
Da paz, do etéreo gozo,
De tudo nos desperta
Luz de importuno dia;
Do amor que tanto a enchia
Minha alma está deserta.
A virgem da manhã
Já todo o céu domina . . .
Espero-te, divina,
Espero-te, amanhã.
A noite arrasta o manto,
E verte o último pranto
Por todo o vasto espaço.
Tíbio clarão já cora
A tela do horizonte,
E já de sobre o monte
Vem debruçar-se a aurora
À muda e torva irmã,
Dormida de cansaço,
Lá vem tomar o espaço
A virgem da manhã.
Uma por uma, vão
As pálidas estrelas,
E vão, e vão com elas
Teus sonhos, coração.
Mas tu, que o devaneio
Inspiras do poeta,
Não vês que a vaga inquieta
Abre-te o úmido seio?
Vai. Radioso e ardente,
Em breve o astro do dia,
Rompendo a névoa fria,
Virá do roxo oriente.
Dos íntimos sonhares
Que a noite protegera,
De tanto que eu vertera.
Em lágrimas a pares.
Do amor silencioso.
Místico, doce, puro,
Dos sonhos do futuro,
Da paz, do etéreo gozo,
De tudo nos desperta
Luz de importuno dia;
Do amor que tanto a enchia
Minha alma está deserta.
A virgem da manhã
Já todo o céu domina . . .
Espero-te, divina,
Espero-te, amanhã.
1 679
1
Carlos Figueiredo
No mundo das fadas
No mundo das fadas
cada nome é usado uma única vez
em histórias contadas pelo vento
A luz é uma música
o mar é curvo
os olhos são espelhos
e a noite é um grito
e é dos seus gemidos
que surge a areia das praias.
No mundo das fadas
o Tempo é um luar
no bosque da memória
onde correm almas de rios
em cachoeiras-miragens
até um lago
feito da pele que vai saindo do arfar
de um coração-estrela.
No mundo das fadas
um Dia é Amor
dedos são crianças
e há uma torre
onde não há nada.
(cont.)
No mundo das fadas
raízes são pássaros
rostos são relâmpagos.
E se respiram lâminas
delgadas, rítmicas, fatais,
que se morre a cada instante
e a cada volta
é preciso substituir o coro.
cada nome é usado uma única vez
em histórias contadas pelo vento
A luz é uma música
o mar é curvo
os olhos são espelhos
e a noite é um grito
e é dos seus gemidos
que surge a areia das praias.
No mundo das fadas
o Tempo é um luar
no bosque da memória
onde correm almas de rios
em cachoeiras-miragens
até um lago
feito da pele que vai saindo do arfar
de um coração-estrela.
No mundo das fadas
um Dia é Amor
dedos são crianças
e há uma torre
onde não há nada.
(cont.)
No mundo das fadas
raízes são pássaros
rostos são relâmpagos.
E se respiram lâminas
delgadas, rítmicas, fatais,
que se morre a cada instante
e a cada volta
é preciso substituir o coro.
1 039
1
Natasha Tinet
A segunda ilha
para Julia Raiz
Eu te desafio a roubar o corpo do cavalo marinho
com os dedos despidos dos anéis, a liberdade
derruba a taça de cristal sobre o granito
lapida pétalas de ausências.
Onde você esteve essa noite?
Urubus duvidam da sua capacidade de amar,
curvam-se gordos em tronos de galhos retorcidos.
O sangue veio antes, tão delicado quanto a pele
de um bebê morto com a qual você se delicia
com as patas besuntadas em óleo de rícino
os ratos marcham pelo forro da casa
sabem que são imortais, pois a assassina
está presa em um pesadelo, um filme violento
que se vê amarrada no assento da primeira fila.
não há nada que você possa fazer além
de acordar e incendiar ao sol, cantar
sempre a mesma música até que as sereias
enlouqueçam, caminhar no mar gelado
até a primeira ilha, a segunda não,
pelo amor de deus, ele diz sem saber
que sua poesia mora onde os azuis se tocam
muito além da segunda ilha
um garoto chamado Romeu descobre a melancolia
das raízes expostas ao tempo, observa a imensidão
a voracidade dos ossos que se expandem
durante o sono, as estrelas se advinham mortas
sonhamos com oráculos e nomeamos um falso futuro.
não quero guardar o grande segredo, eu preciso te dizer que
no dia em que o primeiro robô comer um hambúrguer
ele não te deixará roubar as batatas fritas
no dia em que o primeiro robô formular as perguntas certas
você as responderá como um vestido que se usa no dia errado.
O que está acontecendo com a gente é um pianista anônimo
tocando Erik Satie no saguão da rodoviária, enquanto
os viajantes checam seus tickets e ignoram
que há milhões de anos,
fomos batizadas com o magma da solidão
somos pequenas vulcões abissais,
nascidas no inconsciente dos deuses
jamais pertencidas a qualquer continente.
Eu te desafio a roubar o corpo do cavalo marinho
com os dedos despidos dos anéis, a liberdade
derruba a taça de cristal sobre o granito
lapida pétalas de ausências.
Onde você esteve essa noite?
Urubus duvidam da sua capacidade de amar,
curvam-se gordos em tronos de galhos retorcidos.
O sangue veio antes, tão delicado quanto a pele
de um bebê morto com a qual você se delicia
com as patas besuntadas em óleo de rícino
os ratos marcham pelo forro da casa
sabem que são imortais, pois a assassina
está presa em um pesadelo, um filme violento
que se vê amarrada no assento da primeira fila.
não há nada que você possa fazer além
de acordar e incendiar ao sol, cantar
sempre a mesma música até que as sereias
enlouqueçam, caminhar no mar gelado
até a primeira ilha, a segunda não,
pelo amor de deus, ele diz sem saber
que sua poesia mora onde os azuis se tocam
muito além da segunda ilha
um garoto chamado Romeu descobre a melancolia
das raízes expostas ao tempo, observa a imensidão
a voracidade dos ossos que se expandem
durante o sono, as estrelas se advinham mortas
sonhamos com oráculos e nomeamos um falso futuro.
não quero guardar o grande segredo, eu preciso te dizer que
no dia em que o primeiro robô comer um hambúrguer
ele não te deixará roubar as batatas fritas
no dia em que o primeiro robô formular as perguntas certas
você as responderá como um vestido que se usa no dia errado.
O que está acontecendo com a gente é um pianista anônimo
tocando Erik Satie no saguão da rodoviária, enquanto
os viajantes checam seus tickets e ignoram
que há milhões de anos,
fomos batizadas com o magma da solidão
somos pequenas vulcões abissais,
nascidas no inconsciente dos deuses
jamais pertencidas a qualquer continente.
665
1
António Ramos Rosa
Viagem Através Duma Nebulosa
a Raul de Carvalho
Noite
rã oblíqua
ó toda olhos à flor da névoa
o trilo move-se perde-se repete-se pisca como a estrelinha
o hálito da lua
orienta-me numa nebulosa
de constelações tranquilas
Que aéreo e estático silêncio
harmonia de pálpebras e pupilas
a redondez das estrelas foi feita para minhas mãos navegadoras
a poalha cintilante e fluida
dos céus
corre no meu sangue
ondas e barcas contradançam
substituem-se umas às outras
Os grandes animais silenciosos da terra
sonham com um pássaro de barro
a memória reencontra o seu palácio de homem
a torre emerge do menino
Além mais para além
que calma de navios
sobre um porto sem nome sobre um cais
qualquer
transporto por contágio o sonho da rapariga
à janela do mundo
o adolescente que fui encontra a sua noiva
que sortilégio de mãos e tranquila voz antiga
de inexplorados sonhos
que confiança interplanetária
me leva para além dos contactos visíveis
chego ao limite onde a aurora ainda dorme
Os rios torceram-me todas as hesitações
as montanhas reacenderam toda a minha coragem
sobre ventres de grávidas fêmeas silenciosas
retomei o gosto de distribuir meus sonhos
nova moeda de futuros seres
os lisos cavalos da bruma
lançam-me a rosa do seu bafo escuro
é bem o cheiro da madrugada
Sobre todos os mortos de que me nutro em segredo
desenha-se a rapariga da revolta do sol
a tradição de seus braços
é uma carícia de futuro
presente sangrando em cada poro
17 milhões de mortos comprovam a grávida linha ascensional
Todos os jovens mortos
correm no fogo cadente das tuas veias consteladas
ó eterna rapariga
o rumor que faz a amizade
através dos países submersos
o sussurro claro germinando da descoberta incessante
eis o ritmo do teu coração
Dia a dia o teu grávido ventre se estende planície
dia a dia os homens te forjam na consciência renovando-se
dormes agora
a tua cabeleira de horizontes
o fulvo ondear do teu corpo de bandeira
acena-nos um novo passo em cada espera forçada
as sombras do martírio as mil e uma moscas do carnaval pútrido
em vão tentam sugar o cadáver que resiste
o cadáver que resiste
não chegam a formar a sombra que oculte o esplendor
que ressalta em cada face humilde
O arsenal do estupro lento
as orquestras do caos
os benfeitores dos monstros
em vão tentam amortecer o dinamismo da paisagem
as máquinas delicadas dos turistas
acenam bom senso
em vão
A redondez das estrelas
é um apelo às minhas mãos
as minhas mãos navegadoras correm em arrepios teu corpo em formação
Deito-me no horizonte
tudo se faz mais claro
Noite
rã oblíqua
ó toda olhos à flor da névoa
o trilo move-se perde-se repete-se pisca como a estrelinha
o hálito da lua
orienta-me numa nebulosa
de constelações tranquilas
Que aéreo e estático silêncio
harmonia de pálpebras e pupilas
a redondez das estrelas foi feita para minhas mãos navegadoras
a poalha cintilante e fluida
dos céus
corre no meu sangue
ondas e barcas contradançam
substituem-se umas às outras
Os grandes animais silenciosos da terra
sonham com um pássaro de barro
a memória reencontra o seu palácio de homem
a torre emerge do menino
Além mais para além
que calma de navios
sobre um porto sem nome sobre um cais
qualquer
transporto por contágio o sonho da rapariga
à janela do mundo
o adolescente que fui encontra a sua noiva
que sortilégio de mãos e tranquila voz antiga
de inexplorados sonhos
que confiança interplanetária
me leva para além dos contactos visíveis
chego ao limite onde a aurora ainda dorme
Os rios torceram-me todas as hesitações
as montanhas reacenderam toda a minha coragem
sobre ventres de grávidas fêmeas silenciosas
retomei o gosto de distribuir meus sonhos
nova moeda de futuros seres
os lisos cavalos da bruma
lançam-me a rosa do seu bafo escuro
é bem o cheiro da madrugada
Sobre todos os mortos de que me nutro em segredo
desenha-se a rapariga da revolta do sol
a tradição de seus braços
é uma carícia de futuro
presente sangrando em cada poro
17 milhões de mortos comprovam a grávida linha ascensional
Todos os jovens mortos
correm no fogo cadente das tuas veias consteladas
ó eterna rapariga
o rumor que faz a amizade
através dos países submersos
o sussurro claro germinando da descoberta incessante
eis o ritmo do teu coração
Dia a dia o teu grávido ventre se estende planície
dia a dia os homens te forjam na consciência renovando-se
dormes agora
a tua cabeleira de horizontes
o fulvo ondear do teu corpo de bandeira
acena-nos um novo passo em cada espera forçada
as sombras do martírio as mil e uma moscas do carnaval pútrido
em vão tentam sugar o cadáver que resiste
o cadáver que resiste
não chegam a formar a sombra que oculte o esplendor
que ressalta em cada face humilde
O arsenal do estupro lento
as orquestras do caos
os benfeitores dos monstros
em vão tentam amortecer o dinamismo da paisagem
as máquinas delicadas dos turistas
acenam bom senso
em vão
A redondez das estrelas
é um apelo às minhas mãos
as minhas mãos navegadoras correm em arrepios teu corpo em formação
Deito-me no horizonte
tudo se faz mais claro
1 988
1
Carlos Felipe Moisés
Minotauro
Abrasado em sonho, uma vez foi rei
de um reino sem refúgio nem fronteira.
Reinou além do seu país e sua grei,
enquanto ruminava a hora derradeira.
Seu coração de lava incendiou
a memória de dálias e jacintos
e o segredo que o vento lhe negou
se converteu em treva e labirinto.
Estrelas e nuvens teve a seus pés
(o sonho azul de toda criatura)
e tudo recusou. Um trono fez
do nada em que abrigou sua loucura.
Hoje devora gafanhotos e o mel
destila do seu flanco sem idade.
Reino em ruínas, seu manto é o céu,
onde pasta serena majestade.
(Subsolo, São Paulo, Massao Ohno, 1989)
de um reino sem refúgio nem fronteira.
Reinou além do seu país e sua grei,
enquanto ruminava a hora derradeira.
Seu coração de lava incendiou
a memória de dálias e jacintos
e o segredo que o vento lhe negou
se converteu em treva e labirinto.
Estrelas e nuvens teve a seus pés
(o sonho azul de toda criatura)
e tudo recusou. Um trono fez
do nada em que abrigou sua loucura.
Hoje devora gafanhotos e o mel
destila do seu flanco sem idade.
Reino em ruínas, seu manto é o céu,
onde pasta serena majestade.
(Subsolo, São Paulo, Massao Ohno, 1989)
912
1
Amadeu Amaral
22 - Em Meditação Introspectiva
Do fundo de meu ser, num arremesso
longo, parte uma voz turva e fremente.
Escuto-a já bramir, quando, em começo,
balbuciava uma prece, lentamente.
Acendo o lume da Razão, e desço
às cavernas profundas do Inconsciente.
A luz vacila e fuma; eu estremeço,
vendo só treva acumulada em frente.
Clamo, interrogo... Em vão. Silêncio em tudo.
Aos poucos, num luar distante, agora,
rondam vultos de sonho e de pecado.
E aflita, o colo branco a arfar desnudo,
uma princesa acorrentada chora
junto a um fosco antropóide acorrentado.
16 de setembro de 1922
Publicado no livro Lâmpada antiga: versos (1924). Poema integrante da série Um Punhado de Sonetos.
In: Poesias completas. São Paulo: HUCITEC: Secretaria da Cultura, Ciência e Tecnologia do Estado, 1977. p.266. (Obras de Amadeu Amaral
longo, parte uma voz turva e fremente.
Escuto-a já bramir, quando, em começo,
balbuciava uma prece, lentamente.
Acendo o lume da Razão, e desço
às cavernas profundas do Inconsciente.
A luz vacila e fuma; eu estremeço,
vendo só treva acumulada em frente.
Clamo, interrogo... Em vão. Silêncio em tudo.
Aos poucos, num luar distante, agora,
rondam vultos de sonho e de pecado.
E aflita, o colo branco a arfar desnudo,
uma princesa acorrentada chora
junto a um fosco antropóide acorrentado.
16 de setembro de 1922
Publicado no livro Lâmpada antiga: versos (1924). Poema integrante da série Um Punhado de Sonetos.
In: Poesias completas. São Paulo: HUCITEC: Secretaria da Cultura, Ciência e Tecnologia do Estado, 1977. p.266. (Obras de Amadeu Amaral
1 337
1
Fernando Pessoa
Durmo ou não? Passam juntas em minha alma
Durmo ou não? Passam juntas em minha alma
Coisas da alma e da vida em confusão,
Nesta mistura atribulada e calma
Em que não sei se durmo ou não.
Sou dois seres e duas consciências
Como dois homens indo braço-dado.
Sonolento revolvo omnisciências,
Turbulentamente estagnado.
Mas, lento, vago, emerjo de meu dois.
Disperto. Enfim: sou um, na realidade.
Espreguiço-me. Estou bem... Porquê depois,
De quê, esta vaga saudade?
Coisas da alma e da vida em confusão,
Nesta mistura atribulada e calma
Em que não sei se durmo ou não.
Sou dois seres e duas consciências
Como dois homens indo braço-dado.
Sonolento revolvo omnisciências,
Turbulentamente estagnado.
Mas, lento, vago, emerjo de meu dois.
Disperto. Enfim: sou um, na realidade.
Espreguiço-me. Estou bem... Porquê depois,
De quê, esta vaga saudade?
4 839
1
Sérgio Godinho
Farto de voar
Farto de voar
Pouso as palavras no chão
Entro no mar
Sinto o sal de mão em mão
Tenho um barco na vida espetado
Só suspenso por fios dum lado
E do outro a cair
a cair
no arpão
no arpão
Levo a dormir
Sonhos que andei para trás
Ergo o porvir
Trago nos bolsos a paz
Tenho um corpo na morte espetado
Só suspenso por balas de um lado
E do outro a escapar
a escapar
de raspão
de raspão
Ponho a girar
Cantos que ninguém encerra
De par em par
Abro as janelas para a terra
Tenho um quarto na fome espetado
Só suspenso por água de um lado
E de outro a cair
a cair
no alçapão
no alçapão
Farto de voar
Pouso as palavras no chão
Entro no mar
Sinto o sal de mão em mão
Tenho um barco na vida espetado
Só suspenso por fios dum lado
E do outro a cair
a cair
no arpão
no arpão
Pouso as palavras no chão
Entro no mar
Sinto o sal de mão em mão
Tenho um barco na vida espetado
Só suspenso por fios dum lado
E do outro a cair
a cair
no arpão
no arpão
Levo a dormir
Sonhos que andei para trás
Ergo o porvir
Trago nos bolsos a paz
Tenho um corpo na morte espetado
Só suspenso por balas de um lado
E do outro a escapar
a escapar
de raspão
de raspão
Ponho a girar
Cantos que ninguém encerra
De par em par
Abro as janelas para a terra
Tenho um quarto na fome espetado
Só suspenso por água de um lado
E de outro a cair
a cair
no alçapão
no alçapão
Farto de voar
Pouso as palavras no chão
Entro no mar
Sinto o sal de mão em mão
Tenho um barco na vida espetado
Só suspenso por fios dum lado
E do outro a cair
a cair
no arpão
no arpão
1 403
1
Fernando Pessoa
Sou o fantasma de um rei
Sou o fantasma de um rei
Que sem cessar percorre
As salas de um palácio abandonado...
Minha história não sei...
Longe em mim, fumo de eu pensá-la, morre
A ideia de que tive algum passado...
Eu não sei o que sou.
Não sei se sou o sonho
Que alguém do outro mundo esteja tendo...
Creio talvez que estou
Sendo um perfil casual de rei tristonho
Numa história que um deus está relendo...
19/10/1913
Que sem cessar percorre
As salas de um palácio abandonado...
Minha história não sei...
Longe em mim, fumo de eu pensá-la, morre
A ideia de que tive algum passado...
Eu não sei o que sou.
Não sei se sou o sonho
Que alguém do outro mundo esteja tendo...
Creio talvez que estou
Sendo um perfil casual de rei tristonho
Numa história que um deus está relendo...
19/10/1913
4 607
1
Ronald de Carvalho
Filosofia
A realidade é apenas
um milagre da nossa fantasia...
Transforma numa Eternidade
o teu rápido instante de alegria!
Ama, chora, sorri... e dormirás sem penas,
porque foi bela a tua realidade.
Publicado no livro Epigramas Irônicos e Sentimentais (1922).
In: CARVALHO, Ronald de. O espelho de Ariel e poemas escolhidos. Pref. Antônio Carlos Villaça. Rio de Janeiro: Nova Aguilar; Brasília: INL, 1976. p.174. (Manancial, 44
um milagre da nossa fantasia...
Transforma numa Eternidade
o teu rápido instante de alegria!
Ama, chora, sorri... e dormirás sem penas,
porque foi bela a tua realidade.
Publicado no livro Epigramas Irônicos e Sentimentais (1922).
In: CARVALHO, Ronald de. O espelho de Ariel e poemas escolhidos. Pref. Antônio Carlos Villaça. Rio de Janeiro: Nova Aguilar; Brasília: INL, 1976. p.174. (Manancial, 44
1 812
1
Orlando Teixeira
Paisagem Espiritual
Abro as portas do Sonho, alvas de mármore, e entro.
Entro o páramo azul do meu sonho bendito:
Um misticismo bom e suave como um rito,
Avesso ao mundo, avesso ao mal, paira lá dentro.
Ela em tudo, Ela em toda a parte, ansioso fito,
Em cima, em baixo, além, adiante, atrás, no centro;
Essa em quem todos os meus afetos concentro,
Nossa Senhora do meu amor infinito.
Ela e este grande amor com que os dias iludo,
Tudo vive no quadro assombroso, onde a imagem
Do estranho deus avulta e os fiéis ao culto chama;
Tudo de luz se inunda, e, dominando tudo,
Cheio da própria luz, sobressai na paisagem,
O correto perfil dessa que me não ama.
Entro o páramo azul do meu sonho bendito:
Um misticismo bom e suave como um rito,
Avesso ao mundo, avesso ao mal, paira lá dentro.
Ela em tudo, Ela em toda a parte, ansioso fito,
Em cima, em baixo, além, adiante, atrás, no centro;
Essa em quem todos os meus afetos concentro,
Nossa Senhora do meu amor infinito.
Ela e este grande amor com que os dias iludo,
Tudo vive no quadro assombroso, onde a imagem
Do estranho deus avulta e os fiéis ao culto chama;
Tudo de luz se inunda, e, dominando tudo,
Cheio da própria luz, sobressai na paisagem,
O correto perfil dessa que me não ama.
1 134
1
Manuel Bandeira
Tema e Variações
Sonhei ter sonhado
Que havia sonhado.
Em sonho lembrei-me
De um sonho passado:
O de ter sonhado
Que estava sonhando.
Sonhei ter sonhado...
Ter sonhado o quê?
Que havia sonhado
Estar com você.
Estar? Ter estado, -
Que é tempo passado.
Um sonho presente
Um dia sonhei.
Chorei de repente,
Pois vi, despertado,
Que tinha sonhado.
Que havia sonhado.
Em sonho lembrei-me
De um sonho passado:
O de ter sonhado
Que estava sonhando.
Sonhei ter sonhado...
Ter sonhado o quê?
Que havia sonhado
Estar com você.
Estar? Ter estado, -
Que é tempo passado.
Um sonho presente
Um dia sonhei.
Chorei de repente,
Pois vi, despertado,
Que tinha sonhado.
2 134
1
Herberto Helder
Três Canções do Epiro - o Desejo
Se houvesse degraus na terra e tivesse anéis o céu,
eu subiria os degraus e aos anéis me prenderia.
No céu podia tecer uma nuvem toda negra.
E que nevasse, e chovesse, e houvesse luz nas montanhas,
e à porta do meu amor o ouro se acumulasse.
Beijei uma boca vermelha e a minha boca tingiu-se,
levei um lenço à boca e o lenço fez-se vermelho.
Fui lavá-lo na ribeira e a água tornou-se rubra,
e a fímbria do mar, e o meio do mar,
e vermelhas se volveram as asas da águia
que desceu para beber,
e metade do sol e a lua inteira se tornaram vermelhas.
Maldito seja quem atirou uma maçã para o outro mundo.
Uma maça, uma mantilha de ouro e uma espada de prata.
Correram os rapazes á procura da espada,
e as raparigas correram á procura da mantilha,
e correram, correram as crianças á procura da maça.
eu subiria os degraus e aos anéis me prenderia.
No céu podia tecer uma nuvem toda negra.
E que nevasse, e chovesse, e houvesse luz nas montanhas,
e à porta do meu amor o ouro se acumulasse.
Beijei uma boca vermelha e a minha boca tingiu-se,
levei um lenço à boca e o lenço fez-se vermelho.
Fui lavá-lo na ribeira e a água tornou-se rubra,
e a fímbria do mar, e o meio do mar,
e vermelhas se volveram as asas da águia
que desceu para beber,
e metade do sol e a lua inteira se tornaram vermelhas.
Maldito seja quem atirou uma maçã para o outro mundo.
Uma maça, uma mantilha de ouro e uma espada de prata.
Correram os rapazes á procura da espada,
e as raparigas correram á procura da mantilha,
e correram, correram as crianças á procura da maça.
8 207
1
Murillo Mendes
Murilo Menino
Eu quero montar o vento em pêlo,
Força do céu, cavalo poderoso
Que viaja quando entende, noite e dia.
Quero ouvir a flauta sem fim do Isidoro da flauta,
Quero que o preto velho Isidoro
Dê um concerto com minhas primas ao piano,
Lá no salão azul da baronesa.
Quero conhecer a mãe-d'água
Que no claro do rio penteia os cabelos
Com um pente de sete cores.
Salve salve minha rainha,
Ó clemente ó piedosa ó doce Virgem Maria,
? Como pode uma rainha ser também advogada.
Publicado no livro Poesia Liberdade (1947). Poema integrante da série Livro Primeiro: Ofício Humano, 1943.
In: MENDES, Murilo. Poesias, 1925/1955. Rio de Janeiro: J. Olympio, 195
Força do céu, cavalo poderoso
Que viaja quando entende, noite e dia.
Quero ouvir a flauta sem fim do Isidoro da flauta,
Quero que o preto velho Isidoro
Dê um concerto com minhas primas ao piano,
Lá no salão azul da baronesa.
Quero conhecer a mãe-d'água
Que no claro do rio penteia os cabelos
Com um pente de sete cores.
Salve salve minha rainha,
Ó clemente ó piedosa ó doce Virgem Maria,
? Como pode uma rainha ser também advogada.
Publicado no livro Poesia Liberdade (1947). Poema integrante da série Livro Primeiro: Ofício Humano, 1943.
In: MENDES, Murilo. Poesias, 1925/1955. Rio de Janeiro: J. Olympio, 195
5 212
1
Cláudia Marczak
Quero um homem
Quero um homem
que toque minha alma,
que entre pelos meus olhos
e invada meus sonhos.
Quero que me possua inteira,
corpo e alma,
fazendo dos meus desejos
breves segundos de êxtase
o prazer do encontro total.
Quero sentir seus braços longos
envolvendo meu abraço,
seus lábios mudos
calando o meu silêncio
sem precisar nada dizer...
apenas me olhando
com olhos negros e úmidos
e me tomando devagar,
como o mar avança na praia,
como eu sei que tem que ser
e sei que um dia será.
que toque minha alma,
que entre pelos meus olhos
e invada meus sonhos.
Quero que me possua inteira,
corpo e alma,
fazendo dos meus desejos
breves segundos de êxtase
o prazer do encontro total.
Quero sentir seus braços longos
envolvendo meu abraço,
seus lábios mudos
calando o meu silêncio
sem precisar nada dizer...
apenas me olhando
com olhos negros e úmidos
e me tomando devagar,
como o mar avança na praia,
como eu sei que tem que ser
e sei que um dia será.
1 354
1
Fernando Pessoa
Em torno a mim, em maré cheia,
Em torno a mim, em maré cheia,
Soam como ondas a brilhar,
O dia, o tempo, a obra alheia,
O mundo natural a estar.
Mas eu, fechado no meu sonho,
Parado enigma, e, sem querer,
Inutilmente recomponho
Visões do que não pude ser.
Cadáver da vontade feita,
Mito real, sonho a sentir,
Sequência interrompida, eleita
Para os destinos de partir.
Mas presa à inércia angustiada
De não saber a direcção,
E ficar morto na erma estrada
Que vai da alma ao coração.
Hora própria, nunca venhas,
Que olhar talvez fosse pior...
E tu, sol claro que me banhas,
Ah, banha sempre o meu torpor!
26/04/1926
Soam como ondas a brilhar,
O dia, o tempo, a obra alheia,
O mundo natural a estar.
Mas eu, fechado no meu sonho,
Parado enigma, e, sem querer,
Inutilmente recomponho
Visões do que não pude ser.
Cadáver da vontade feita,
Mito real, sonho a sentir,
Sequência interrompida, eleita
Para os destinos de partir.
Mas presa à inércia angustiada
De não saber a direcção,
E ficar morto na erma estrada
Que vai da alma ao coração.
Hora própria, nunca venhas,
Que olhar talvez fosse pior...
E tu, sol claro que me banhas,
Ah, banha sempre o meu torpor!
26/04/1926
4 338
1
Fernando Pessoa
É brando o dia, brando o vento.
É brando o dia, brando o vento.
É brando o sol e brando o céu.
Assim fosse meu pensamento!
Assim fosse eu, assim fosse eu!
Mas entre mim e as brandas glórias
Deste céu limpo e este ar sem mim
Intervêm sonhos e memórias...
Ser eu assim, ser eu assim!
Ah, o mundo é quanto nós trazemos.
Existe tudo quanto existo.
Há porque vemos.
E tudo é isto, tudo é isto!
15/08/1933
É brando o sol e brando o céu.
Assim fosse meu pensamento!
Assim fosse eu, assim fosse eu!
Mas entre mim e as brandas glórias
Deste céu limpo e este ar sem mim
Intervêm sonhos e memórias...
Ser eu assim, ser eu assim!
Ah, o mundo é quanto nós trazemos.
Existe tudo quanto existo.
Há porque vemos.
E tudo é isto, tudo é isto!
15/08/1933
4 480
1
Al Berto
O Pequeno Demiurgo
escrevo barco e uma quilha fende o vastíssimo mar
e as árvores crescem dos espaços enevoados
entre olhar e olhar movem-se
animais presos à terra com suas plumagens de ferro
e de orvalho de ouro quando a lua se eclipsa
comunicando-lhes o cio e a nómada alegria de viver
penso outono ou inverno
e o lume resinoso dos pinhais escorre sobre o rosto
sobre o corpo em tímidos gestos
eis o tempo
do capricórnio reduzido ao esconderijo tatuado
na asa mineral da ave em pleno vôo e digo nuvens
relâmpago erva águas
homem
movimento do susto oceanos sal exaustos corpos
transumantes paixões digo
e surge irrompe escorre ergue-se move-se vive
morre
mas não julguem ser trabalho simples nomear
arrumar e desordenar o mundo
para que não se apague esta trémula escrita
preciso do sonho e do pesadelo
da proximidade vertiginosa dos espelhos e
de pernoitar no fundo de mim com as mãos sujas
pelo árduo trabalho de construir os gestos exactos
da alegria que por descuido deus abandonou ao cansaço
no fim do sétimo dia
e as árvores crescem dos espaços enevoados
entre olhar e olhar movem-se
animais presos à terra com suas plumagens de ferro
e de orvalho de ouro quando a lua se eclipsa
comunicando-lhes o cio e a nómada alegria de viver
penso outono ou inverno
e o lume resinoso dos pinhais escorre sobre o rosto
sobre o corpo em tímidos gestos
eis o tempo
do capricórnio reduzido ao esconderijo tatuado
na asa mineral da ave em pleno vôo e digo nuvens
relâmpago erva águas
homem
movimento do susto oceanos sal exaustos corpos
transumantes paixões digo
e surge irrompe escorre ergue-se move-se vive
morre
mas não julguem ser trabalho simples nomear
arrumar e desordenar o mundo
para que não se apague esta trémula escrita
preciso do sonho e do pesadelo
da proximidade vertiginosa dos espelhos e
de pernoitar no fundo de mim com as mãos sujas
pelo árduo trabalho de construir os gestos exactos
da alegria que por descuido deus abandonou ao cansaço
no fim do sétimo dia
6 186
1
Olegario Schmitt
Horizontes
O que procuro é o horizonte,
mas ele sempre está mais além,
mais além, mais além...
Maldito mundo
que foi feito redondo!
Caminho
por esses campos floridos
e piso na verde grama
dos projetos que são feitos
nas nuvens brancas
que voam soltas no céu,
vou traçando planos,
sonhando sonhos,
mas o que busco é o horizonte,
mais além, só um pouquinho.
Logo atrás daquela colina
que se avista ali em frente
tem um sonho realizado,
tem um céu azul que está chovendo,
tem um projeto construído,
tem um campo verde, verde, verde
de onde se avista uma alvorada
repleta de nuvens brancas.
mas ele sempre está mais além,
mais além, mais além...
Maldito mundo
que foi feito redondo!
Caminho
por esses campos floridos
e piso na verde grama
dos projetos que são feitos
nas nuvens brancas
que voam soltas no céu,
vou traçando planos,
sonhando sonhos,
mas o que busco é o horizonte,
mais além, só um pouquinho.
Logo atrás daquela colina
que se avista ali em frente
tem um sonho realizado,
tem um céu azul que está chovendo,
tem um projeto construído,
tem um campo verde, verde, verde
de onde se avista uma alvorada
repleta de nuvens brancas.
877
1
Fernando Pessoa
Ó naus felizes, que do mar vago
Ó naus felizes, que do mar vago
Volveis enfim ao silêncio do porto
Depois de tanto nocturno mal –
Meu coração é um morto lago,
E à margem triste do lago morto
Sonha um castelo medieval...
E nesse, onde sonha, castelo triste,
Nem sabe saber a, de mãos formosas
Sem gosto ou cor, triste castelã
Que um porto além rumoroso existe,
Donde as naus negras e silenciosas
Se partem quando é no mar manhã...
Nem sequer sabe que há o, onde sonha,
Castelo triste... Seu espírito monge
Para nada externo é perto e real...
E enquanto ela assim se esquece, tristonha,
Regressam, velas no mar ao longe,
As naus ao porto medieval...
Volveis enfim ao silêncio do porto
Depois de tanto nocturno mal –
Meu coração é um morto lago,
E à margem triste do lago morto
Sonha um castelo medieval...
E nesse, onde sonha, castelo triste,
Nem sabe saber a, de mãos formosas
Sem gosto ou cor, triste castelã
Que um porto além rumoroso existe,
Donde as naus negras e silenciosas
Se partem quando é no mar manhã...
Nem sequer sabe que há o, onde sonha,
Castelo triste... Seu espírito monge
Para nada externo é perto e real...
E enquanto ela assim se esquece, tristonha,
Regressam, velas no mar ao longe,
As naus ao porto medieval...
4 373
1
Fernando Pessoa
Gozo sonhado é gozo, ainda que em sonho.
Gozo sonhado é gozo, ainda que em sonho.
Nós o que nos supomos nos fazemos,
Se com atenta mente
Resistirmos em crê-lo.
Não, pois, meu modo de pensar nas coisas,
Nos seres e no fado me consumo.
Para mim crio tanto
Quanto para mim crio.
Fora de mim, alheio ao em que penso,
O Fado cumpre-se. Porém eu me cumpro
Segundo o âmbito breve
Do que de meu me é dado.
30/01/1927
Nós o que nos supomos nos fazemos,
Se com atenta mente
Resistirmos em crê-lo.
Não, pois, meu modo de pensar nas coisas,
Nos seres e no fado me consumo.
Para mim crio tanto
Quanto para mim crio.
Fora de mim, alheio ao em que penso,
O Fado cumpre-se. Porém eu me cumpro
Segundo o âmbito breve
Do que de meu me é dado.
30/01/1927
2 322
1
Nicanor Parra
MANCHAS NA PAREDE
Antes que caia a noite total
havemos de estudar as manchas na parede:
umas parecem plantas
outras assemelham-se a animais mitológicos.
Hipogrifos,
dragões,
salamandras.
Mas as mais misteriosas de todas
são as que parecem explosões atómicas.
No cinema da parede
a alma vê o que o corpo não vê:
homens ajoelhados
mães com criaturas nos braços
monumentos equestres
sacerdotes erguendo a hóstia:
órgãos genitais que se ajuntam.
Mas as mais extraordinárias de todas
são
sem dúvida alguma
as que parecem explosões atómicas.
havemos de estudar as manchas na parede:
umas parecem plantas
outras assemelham-se a animais mitológicos.
Hipogrifos,
dragões,
salamandras.
Mas as mais misteriosas de todas
são as que parecem explosões atómicas.
No cinema da parede
a alma vê o que o corpo não vê:
homens ajoelhados
mães com criaturas nos braços
monumentos equestres
sacerdotes erguendo a hóstia:
órgãos genitais que se ajuntam.
Mas as mais extraordinárias de todas
são
sem dúvida alguma
as que parecem explosões atómicas.
1 342
1