Poemas neste tema
Solidão
Charles Bukowski
Nervos
contorcendo-se nos lençóis –
para encarar a luz do sol mais uma vez,
isso é problema
na certa.
gosto bem mais da cidade quando as
luzes de neon cintilam e
os corpos nus dançam sobre o balcão de um
bar
ao som da música violenta.
estou aqui debaixo deste lençol
pensando.
meus nervos estão entorpecidos pela
história –
a preocupação mais memorável da humanidade
é a coragem necessária para
encarar a luz do sol mais uma vez.
o amor começa com o encontro de dois
estranhos. amor ao mundo é
impossível. prefiro ficar na cama
e dormir.
desnorteado pelos dias e pelas ruas e pelos anos
puxo as cobertas até o pescoço.
viro minha bunda para a parede.
odeio as manhãs mais do que a
qualquer homem.
para encarar a luz do sol mais uma vez,
isso é problema
na certa.
gosto bem mais da cidade quando as
luzes de neon cintilam e
os corpos nus dançam sobre o balcão de um
bar
ao som da música violenta.
estou aqui debaixo deste lençol
pensando.
meus nervos estão entorpecidos pela
história –
a preocupação mais memorável da humanidade
é a coragem necessária para
encarar a luz do sol mais uma vez.
o amor começa com o encontro de dois
estranhos. amor ao mundo é
impossível. prefiro ficar na cama
e dormir.
desnorteado pelos dias e pelas ruas e pelos anos
puxo as cobertas até o pescoço.
viro minha bunda para a parede.
odeio as manhãs mais do que a
qualquer homem.
764
Charles Bukowski
Noite Úmida
a sobra.
ela se sentou ali, entristecida.
eu não podia fazer nada com ela.
estava chovendo.
ela se levantou e se foi.
bem, foda-se, mais uma vez isso, pensei
apanhei minha bebida e liguei o rádio,
tirei a pantalha do abajur
e fumei um charuto barato, negro e amargo
importado da Alemanha.
uma batida veio da porta
e eu abri a porta
um homenzinho estava na chuva
e ele disse,
você não viu por acaso um pombo na sua varanda?
eu lhe disse que não tinha visto um pombo na minha varanda
e ele me disse que se eu visse um pombo na minha varanda
que o avisasse.
fechei a porta
me sentei
e então um gato preto saltou através da
janela e pulou no meu
colo e ronronou, era um belo animal
e eu o levei até a cozinha e nós dois comemos uma
fatia de presunto.
então apaguei todas as luzes
e fui para a cama
e o gato preto foi para a cama comigo
e ronronou
e eu pensei, bem, alguém gosta de mim,
então o gato começou a mijar,
ele me mijou todo e também todo o lençol,
o mijo escorreu por minha barriga e desceu pelos lados
e eu disse: ei, o que há de errado com você?
apanhei o gato e o levei na direção da porta
e o joguei de volta no meio da chuva
e pensei, isso é muito estranho, esse gato
mijando em mim
seu mijo era gelado como a chuva.
então liguei para ela
e eu disse, veja, o que há de errado com você? você perdeu
a porra da sua cabeça?
desliguei e puxei os lençóis da cama
deitei e fiquei ali ouvindo a chuva.
às vezes um homem não sabe o que fazer com as coisas
e às vezes o melhor a fazer é ficar deitado sem se mexer
e tentar simplesmente não pensar
não pensar em nada.
o gato pertencia a alguém
ele tinha uma coleira antipulgas.
nada sei sobre a
mulher.
ela se sentou ali, entristecida.
eu não podia fazer nada com ela.
estava chovendo.
ela se levantou e se foi.
bem, foda-se, mais uma vez isso, pensei
apanhei minha bebida e liguei o rádio,
tirei a pantalha do abajur
e fumei um charuto barato, negro e amargo
importado da Alemanha.
uma batida veio da porta
e eu abri a porta
um homenzinho estava na chuva
e ele disse,
você não viu por acaso um pombo na sua varanda?
eu lhe disse que não tinha visto um pombo na minha varanda
e ele me disse que se eu visse um pombo na minha varanda
que o avisasse.
fechei a porta
me sentei
e então um gato preto saltou através da
janela e pulou no meu
colo e ronronou, era um belo animal
e eu o levei até a cozinha e nós dois comemos uma
fatia de presunto.
então apaguei todas as luzes
e fui para a cama
e o gato preto foi para a cama comigo
e ronronou
e eu pensei, bem, alguém gosta de mim,
então o gato começou a mijar,
ele me mijou todo e também todo o lençol,
o mijo escorreu por minha barriga e desceu pelos lados
e eu disse: ei, o que há de errado com você?
apanhei o gato e o levei na direção da porta
e o joguei de volta no meio da chuva
e pensei, isso é muito estranho, esse gato
mijando em mim
seu mijo era gelado como a chuva.
então liguei para ela
e eu disse, veja, o que há de errado com você? você perdeu
a porra da sua cabeça?
desliguei e puxei os lençóis da cama
deitei e fiquei ali ouvindo a chuva.
às vezes um homem não sabe o que fazer com as coisas
e às vezes o melhor a fazer é ficar deitado sem se mexer
e tentar simplesmente não pensar
não pensar em nada.
o gato pertencia a alguém
ele tinha uma coleira antipulgas.
nada sei sobre a
mulher.
1 145
Charles Bukowski
Incapazes de Sonhar
velhas e grisalhas garçonetes
à noite nos cafés
já desistiram,
e enquanto eu avanço por calçadas
luminosas e olho através das janelas
das casas de repouso
posso ver que alguma coisa não está mais
com eles.
vejo pessoas sentadas nos bancos dos parques
e posso ver pelo modo como
sentam e olham
que essa coisa se foi.
vejo pessoas dirigindo carros
e vejo pelo modo como
dirigem seus carros
que eles não amam nem sequer são
amados –
nem levam o sexo em
consideração. está tudo apagado
feito um filme antigo.
vejo pessoas em lojas de departamento e
supermercados
caminhando pelos corredores
comprando coisas
e posso ver pelo jeito como vestem suas
roupas e pelo modo como caminham
e por seus rostos e olhos
que não se importam com nada
e que nada se importa
com eles.
posso ver umas cem pessoas por dia
que desistiram de tudo
completamente.
se vou até o hipódromo
ou a um evento esportivo
posso ver milhares
que não têm apreço por nada ou
ninguém
e não obtêm nenhum sentimento
em troca.
em toda parte eu vejo aqueles
implorando por nada além de
comida, abrigo, e
roupas; eles se concentram
nisso,
incapazes de sonhar.
não consigo entender por que essas pessoas não
desaparecem
não consigo entender por que essas pessoas não
expiram
por que as nuvens
não os assassinam
ou por que os cães
não os assassinam
ou por que as flores e as crianças
não os assassinam,
não consigo entender.
suponho que eles sejam assassinados
ainda que não consiga me adequar
ao fato deles
porque eles são
muitos.
a cada dia,
a cada noite,
há mais deles
nos metrôs e
nos prédios e
nos parques
eles não sentem nenhum terror
por não amarem
ou não
serem amados
tantos tantos tantos
de meus camaradas
humanos.
à noite nos cafés
já desistiram,
e enquanto eu avanço por calçadas
luminosas e olho através das janelas
das casas de repouso
posso ver que alguma coisa não está mais
com eles.
vejo pessoas sentadas nos bancos dos parques
e posso ver pelo modo como
sentam e olham
que essa coisa se foi.
vejo pessoas dirigindo carros
e vejo pelo modo como
dirigem seus carros
que eles não amam nem sequer são
amados –
nem levam o sexo em
consideração. está tudo apagado
feito um filme antigo.
vejo pessoas em lojas de departamento e
supermercados
caminhando pelos corredores
comprando coisas
e posso ver pelo jeito como vestem suas
roupas e pelo modo como caminham
e por seus rostos e olhos
que não se importam com nada
e que nada se importa
com eles.
posso ver umas cem pessoas por dia
que desistiram de tudo
completamente.
se vou até o hipódromo
ou a um evento esportivo
posso ver milhares
que não têm apreço por nada ou
ninguém
e não obtêm nenhum sentimento
em troca.
em toda parte eu vejo aqueles
implorando por nada além de
comida, abrigo, e
roupas; eles se concentram
nisso,
incapazes de sonhar.
não consigo entender por que essas pessoas não
desaparecem
não consigo entender por que essas pessoas não
expiram
por que as nuvens
não os assassinam
ou por que os cães
não os assassinam
ou por que as flores e as crianças
não os assassinam,
não consigo entender.
suponho que eles sejam assassinados
ainda que não consiga me adequar
ao fato deles
porque eles são
muitos.
a cada dia,
a cada noite,
há mais deles
nos metrôs e
nos prédios e
nos parques
eles não sentem nenhum terror
por não amarem
ou não
serem amados
tantos tantos tantos
de meus camaradas
humanos.
1 078
Charles Bukowski
Direto Sem Parar
eu estou
suspenso por um prego
o sol derrete meu coração
eu estou
irmanado com a serpente
e tenho medo de quedas d’água
eu tenho
medo de mulheres e cercas vivas
a polícia me para e
me diz
enquanto as árvores se curvam ao vento
(estou de ressaca) que meu escapamento está furado e
minha ventarola não abre
e o farol da luz de ré está quebrado.
eu não tenho luz de ré,
assino a multa e me sinto grato,
já dentro,
que eles não tenham feito o que estou
pensando
a tristeza pinga como grandes gotas de água
num poço envenenado até a metade,
sei que minhas chances se afunilaram a ponto de chegar a
quase nada –
sou como um inseto no banheiro quando você acende o
interruptor às 3 da manhã.
o amor, por fim, como um pano de chão enfiado goela
abaixo, retratos de alegria
convertidos em clipes para papel, você
sabe você sabe você sabe.
uma vez que você tenha entendido este processo (o que você
precisa entender
é
que a maior parte das coisas
simplesmente não funciona, então
você não deve tentar
salvá-las, e ao tempo em que você aprender isto
seus anos já terão
rareado) – uma que tenha entendido este processo
você precisa ser queimado apenas 2 ou 3 vezes mais
antes que eles o transformem em entulho, e
é importante saber isso –
pare de ser tão fodidamente rápido com suas
respostinhas e relaxe –
você está prestes a ser liquidado, também, assim
como eu. não há motivo para
vergonha. posso entrar em qualquer bar e
pedir um uísque e água,
pagar,
e colocar a mão em volta do copo,
eles não sabem, eles não sabem,
nada sobre você nem sobre mim,
estarão todos falando sobre futebol e
sobre o tempo e sobre a crise energética,
e nossas mãos buscarão
o espelho observando as mãos
e então beberemos tudo –
Jane, Barbara, Frances, Linda, Liza, Stella,
o chinelo de couro marrom do pai
virado para baixo no banheiro,
cachorros mortos e sem nome,
o jornal de amanhã,
a água fervendo para fora do radiador numa
tarde de quinta-feira, queimando seu braço
até metade da distância do cotovelo, e sem ser sequer
capaz de se irritar com a dor,
arreganhando os dentes para os vencedores
arreganhando os dentes para o cara que trepa com sua garota
enquanto você está bêbado ou longe
e arreganhando os dentes para a garota que permite isso.
as rosas uivam
ao vento ameno,
já dissemos
as coisas necessárias, e
sair é a próxima, mas eu só gostaria
de dizer
não importa o que eles tenham dito
eu nunca me emputeci
com nada.
suspenso por um prego
o sol derrete meu coração
eu estou
irmanado com a serpente
e tenho medo de quedas d’água
eu tenho
medo de mulheres e cercas vivas
a polícia me para e
me diz
enquanto as árvores se curvam ao vento
(estou de ressaca) que meu escapamento está furado e
minha ventarola não abre
e o farol da luz de ré está quebrado.
eu não tenho luz de ré,
assino a multa e me sinto grato,
já dentro,
que eles não tenham feito o que estou
pensando
a tristeza pinga como grandes gotas de água
num poço envenenado até a metade,
sei que minhas chances se afunilaram a ponto de chegar a
quase nada –
sou como um inseto no banheiro quando você acende o
interruptor às 3 da manhã.
o amor, por fim, como um pano de chão enfiado goela
abaixo, retratos de alegria
convertidos em clipes para papel, você
sabe você sabe você sabe.
uma vez que você tenha entendido este processo (o que você
precisa entender
é
que a maior parte das coisas
simplesmente não funciona, então
você não deve tentar
salvá-las, e ao tempo em que você aprender isto
seus anos já terão
rareado) – uma que tenha entendido este processo
você precisa ser queimado apenas 2 ou 3 vezes mais
antes que eles o transformem em entulho, e
é importante saber isso –
pare de ser tão fodidamente rápido com suas
respostinhas e relaxe –
você está prestes a ser liquidado, também, assim
como eu. não há motivo para
vergonha. posso entrar em qualquer bar e
pedir um uísque e água,
pagar,
e colocar a mão em volta do copo,
eles não sabem, eles não sabem,
nada sobre você nem sobre mim,
estarão todos falando sobre futebol e
sobre o tempo e sobre a crise energética,
e nossas mãos buscarão
o espelho observando as mãos
e então beberemos tudo –
Jane, Barbara, Frances, Linda, Liza, Stella,
o chinelo de couro marrom do pai
virado para baixo no banheiro,
cachorros mortos e sem nome,
o jornal de amanhã,
a água fervendo para fora do radiador numa
tarde de quinta-feira, queimando seu braço
até metade da distância do cotovelo, e sem ser sequer
capaz de se irritar com a dor,
arreganhando os dentes para os vencedores
arreganhando os dentes para o cara que trepa com sua garota
enquanto você está bêbado ou longe
e arreganhando os dentes para a garota que permite isso.
as rosas uivam
ao vento ameno,
já dissemos
as coisas necessárias, e
sair é a próxima, mas eu só gostaria
de dizer
não importa o que eles tenham dito
eu nunca me emputeci
com nada.
1 065
Charles Bukowski
Folhas Das Palmeiras
exatamente à meia-noite
1973-74
Los Angeles
começou a chover nas
folhas das palmeiras para além de minha janela
as buzinas e os foguetes
se ergueram
e então trovejou.
eu tinha ido para cama às 9 da noite
apaguei as luzes
puxei as cobertas –
sua satisfação, sua felicidade,
seus gritos, seus chapéus de papelão,
seus automóveis, suas mulheres,
seus porres de amador...
a noite de Ano-Novo sempre me
aterroriza
a vida não sabe nada sobre os anos.
agora as buzinas pararam e
os foguetes e os trovões...
tudo se acaba em cinco minutos...
tudo o que ouço é a chuva
nas folhas das palmeiras,
e penso,
nunca entenderei os homens,
mas consegui
sobreviver.
1973-74
Los Angeles
começou a chover nas
folhas das palmeiras para além de minha janela
as buzinas e os foguetes
se ergueram
e então trovejou.
eu tinha ido para cama às 9 da noite
apaguei as luzes
puxei as cobertas –
sua satisfação, sua felicidade,
seus gritos, seus chapéus de papelão,
seus automóveis, suas mulheres,
seus porres de amador...
a noite de Ano-Novo sempre me
aterroriza
a vida não sabe nada sobre os anos.
agora as buzinas pararam e
os foguetes e os trovões...
tudo se acaba em cinco minutos...
tudo o que ouço é a chuva
nas folhas das palmeiras,
e penso,
nunca entenderei os homens,
mas consegui
sobreviver.
1 171
Charles Bukowski
Penso Em Hemingway
penso em Hemingway sentado
numa cadeira, ele tinha uma máquina de escrever
e agora já não toca
sua máquina de escrever, não tem mais
o que dizer.
e agora Belmonte não tem mais
touros para matar, às vezes penso que
não tenho mais poemas para escrever
nem mais mulheres para amar.
penso na forma do poema
mas meus pés doem, há sujeira
nas janelas.
os touros dormem noites inteiras nos
campos, eles dormem bem sem
Belmonte.
Belmonte dorme bem sem
Belmonte mas eu não durmo
tão bem.
não tenho criado tampouco
amado faz um tempo, golpeio
uma mosca e erro, sou um
velho cão cinzento ficando des-
dentado.
eu tenho uma máquina de escrever e agora
minha máquina de escrever já não tem
coisa alguma para dizer.
vou beber até que a manhã
me descubra na cama com a
maior puta de todas:
eu mesmo.
Belmonte & Papa,
entendo, é assim que
funciona, de verdade.
eu os observei trazendo
a terra durante a manhã toda
para preencher os buracos nas
ruas. eu os observei
instalando cabos novos nos
postes, choveu
ontem à noite, uma chuva
muito seca, não foi
um bombardeio, só que o
mundo está acabando e eu sou
incapaz de escrever
a respeito.
numa cadeira, ele tinha uma máquina de escrever
e agora já não toca
sua máquina de escrever, não tem mais
o que dizer.
e agora Belmonte não tem mais
touros para matar, às vezes penso que
não tenho mais poemas para escrever
nem mais mulheres para amar.
penso na forma do poema
mas meus pés doem, há sujeira
nas janelas.
os touros dormem noites inteiras nos
campos, eles dormem bem sem
Belmonte.
Belmonte dorme bem sem
Belmonte mas eu não durmo
tão bem.
não tenho criado tampouco
amado faz um tempo, golpeio
uma mosca e erro, sou um
velho cão cinzento ficando des-
dentado.
eu tenho uma máquina de escrever e agora
minha máquina de escrever já não tem
coisa alguma para dizer.
vou beber até que a manhã
me descubra na cama com a
maior puta de todas:
eu mesmo.
Belmonte & Papa,
entendo, é assim que
funciona, de verdade.
eu os observei trazendo
a terra durante a manhã toda
para preencher os buracos nas
ruas. eu os observei
instalando cabos novos nos
postes, choveu
ontem à noite, uma chuva
muito seca, não foi
um bombardeio, só que o
mundo está acabando e eu sou
incapaz de escrever
a respeito.
1 476
Armindo Trevisan
Uma Mulher
Tem os
olhos escondidos
no meio das pedras.
Ali o regato
brota de cerejas envelhecidas.
Suas mãos apanham o ar.
Caminha de leve
sobre as palavras.
É exata.
Ninguém lhe adivinha a nudez.
Muitos, muitos a amam.
a ninguém deu o amor.
Em seu corpo ela permanece,
a alma lhe exige um corpo tão diferente
que não sabe onde esperá-lo.
olhos escondidos
no meio das pedras.
Ali o regato
brota de cerejas envelhecidas.
Suas mãos apanham o ar.
Caminha de leve
sobre as palavras.
É exata.
Ninguém lhe adivinha a nudez.
Muitos, muitos a amam.
a ninguém deu o amor.
Em seu corpo ela permanece,
a alma lhe exige um corpo tão diferente
que não sabe onde esperá-lo.
1 177
Helena Ortiz
Esperando a Hora
não ouço mais teus gritos
não corro mais atrás de ti
não te abraço
não gozo teu riso
não me espanto
trago em mim esse grito
que não rompe
esse tédio de sala de espera
quieta
onde minha ficha é a última
e talvez não haja tempo para hoje
não corro mais atrás de ti
não te abraço
não gozo teu riso
não me espanto
trago em mim esse grito
que não rompe
esse tédio de sala de espera
quieta
onde minha ficha é a última
e talvez não haja tempo para hoje
1 061
Charles Bukowski
A Coisa
bem longe dentro da noite do azulão
está uma coisa poderosa que poderia nos salvar:
lá embaixo da ponte ela repousa
metendo fósforos embaixo das unhas,
depois os acendendo;
ela tem lábios iguais aos do meu pai
os olhos de um macaco assustado
e em suas costas
5 selos de correio estão colados
aleatoriamente;
essa coisa sabe falar mas não fala,
pode correr mas prefere ficar sentada,
pode cantar mas acha melhor grunhir;
ela intimida formigas, aspira besouros
para dentro do nariz;
ela chora, ri, peida;
às vezes de noite ela
se aproxima da nossa cama e arranca um
pelo de uma das nossas orelhas;
deleita-se na estupidez essencial,
não sabe dar nó;
recorda coisas esquisitas como
cascas de banana onduladas e secas
caídas de latas de lixo;
é tímida por covardia
e valente apenas em rápidos lampejos;
não sabe dirigir um carro
nem
nadar
multiplicar
somar ou
dividir;
cheira os dedos dos pés
sonha com pipoca e sapos-de-vidro;
poderia nos salvar mas não salva;
não quer saber de nós;
um dia invadirá o sol;
mas agora ficamos em nossos quartos esperando,
paramos em semáforos esperando,
fazemos sexo esperando,
não fazemos sexo esperando.
ela ri quando choramos,
ela chora quando rimos;
ela espera conosco.
está uma coisa poderosa que poderia nos salvar:
lá embaixo da ponte ela repousa
metendo fósforos embaixo das unhas,
depois os acendendo;
ela tem lábios iguais aos do meu pai
os olhos de um macaco assustado
e em suas costas
5 selos de correio estão colados
aleatoriamente;
essa coisa sabe falar mas não fala,
pode correr mas prefere ficar sentada,
pode cantar mas acha melhor grunhir;
ela intimida formigas, aspira besouros
para dentro do nariz;
ela chora, ri, peida;
às vezes de noite ela
se aproxima da nossa cama e arranca um
pelo de uma das nossas orelhas;
deleita-se na estupidez essencial,
não sabe dar nó;
recorda coisas esquisitas como
cascas de banana onduladas e secas
caídas de latas de lixo;
é tímida por covardia
e valente apenas em rápidos lampejos;
não sabe dirigir um carro
nem
nadar
multiplicar
somar ou
dividir;
cheira os dedos dos pés
sonha com pipoca e sapos-de-vidro;
poderia nos salvar mas não salva;
não quer saber de nós;
um dia invadirá o sol;
mas agora ficamos em nossos quartos esperando,
paramos em semáforos esperando,
fazemos sexo esperando,
não fazemos sexo esperando.
ela ri quando choramos,
ela chora quando rimos;
ela espera conosco.
1 036
Charles Bukowski
55 Camas Na Mesma Direção
essas meias-noites brilhantes
cobras de gabardine passando através
de paredes, sons
interrompidos por batidas de carros de bêbados em
carros de dez anos de idade
você sabe que sujou de novo e depois
de novo
é nessas meias-noites brilhantes
em meio à luta contra mariposas e minúsculos
mosquitos,
sua mulher atrás de você
se retorcendo nos cobertores
pensando que você não a ama mais;
não é verdade, claro,
mas as paredes são familiares e
já gostei de paredes
já louvei paredes:
me dá uma parede que eu te dou um caminho –
isso é tudo o que pedi em
troca. mas acho que eu queria dizer:
eu te dou o meu
caminho.
é muito difícil escrever um
soneto enquanto você dorme num albergue noturno com
55 homens roncando
em 55 camas todas elas apontadas na mesma direção.
vou contar o que eu pensava:
esses homens perderam tanto a chance quanto a
imaginação.
dá pra descobrir tanto sobre os homens pelo
modo como eles roncam quanto pelo modo como eles
andam, mas por outro lado
nunca fui grande coisa nos sonetos.
mas outrora eu achava que encontraria todos os grandes homens na
rua da amargura,
outrora eu achava que encontraria grandes homens por lá
homens fortes que haviam descartado a sociedade,
em vez disso encontrei homens que a sociedade havia
consumido.
eles eram embotados
ineptos e
ainda
ambiciosos.
os chefes me pareceram mais
interessantes e mais vivos dos que os
escravos.
e isso não era muito romântico. costumamos gostar mais de coisas
românticas.
55 camas apontadas na mesma
direção e
eu não conseguia dormir
minhas costas doíam
e havia uma sensação invariável na minha
testa como um pedaço de
chapa de metal.
realmente não era muito terrível mas de certo modo
era muito impossível.
e eu pensei,
todos esses corpos e todos esses dedos nos pés e todas
essas unhas e todos esses pelos nos
cus e todo esse fedor
imaculada e aceita malhação das
coisas,
não podemos fazer algo a respeito?
sem chance, veio a resposta, eles não
querem.
então, olhando tudo em volta
todas aquelas 55 camas apontadas na mesma
direção
eu pensei,
todos esses homens foram bebês um dia
todos esses homens foram fofinhos e
rosados (com exceção dos pretos e dos amarelos
e dos vermelhos e dos outros).
eles choravam e sentiam,
tinham um caminho.
agora viraram
sofisticados e
fleumáticos
indesejados.
eu
saí.
eu me meti entre 4 paredes
sozinho.
eu me dei uma brilhante
meia-noite. outras meias-noites brilhantes
chegaram. não era tão
difícil.
mas se eles tivessem estado lá:
(aqueles homens) eu teria ficado lá com
eles.
se isso puder poupar você dos mesmos anos de erro
permita-me:
o segredo está nas paredes
ouvir um pequeno rádio
enrolar cigarros
beber
café
cerveja
água
suco de uva
uma lâmpada ardendo perto de você
tudo vem de arrasto –
os nomes
a história
um fluxo um fluxo
o olhar da psique de cima pra baixo
o efeito zunidor
a queima de macacos.
as brilhantes paredes da meia-noite:
não há como parar nem mesmo quando sua cabeça rola
embaixo da cama e o gato enterra
as fezes.
cobras de gabardine passando através
de paredes, sons
interrompidos por batidas de carros de bêbados em
carros de dez anos de idade
você sabe que sujou de novo e depois
de novo
é nessas meias-noites brilhantes
em meio à luta contra mariposas e minúsculos
mosquitos,
sua mulher atrás de você
se retorcendo nos cobertores
pensando que você não a ama mais;
não é verdade, claro,
mas as paredes são familiares e
já gostei de paredes
já louvei paredes:
me dá uma parede que eu te dou um caminho –
isso é tudo o que pedi em
troca. mas acho que eu queria dizer:
eu te dou o meu
caminho.
é muito difícil escrever um
soneto enquanto você dorme num albergue noturno com
55 homens roncando
em 55 camas todas elas apontadas na mesma direção.
vou contar o que eu pensava:
esses homens perderam tanto a chance quanto a
imaginação.
dá pra descobrir tanto sobre os homens pelo
modo como eles roncam quanto pelo modo como eles
andam, mas por outro lado
nunca fui grande coisa nos sonetos.
mas outrora eu achava que encontraria todos os grandes homens na
rua da amargura,
outrora eu achava que encontraria grandes homens por lá
homens fortes que haviam descartado a sociedade,
em vez disso encontrei homens que a sociedade havia
consumido.
eles eram embotados
ineptos e
ainda
ambiciosos.
os chefes me pareceram mais
interessantes e mais vivos dos que os
escravos.
e isso não era muito romântico. costumamos gostar mais de coisas
românticas.
55 camas apontadas na mesma
direção e
eu não conseguia dormir
minhas costas doíam
e havia uma sensação invariável na minha
testa como um pedaço de
chapa de metal.
realmente não era muito terrível mas de certo modo
era muito impossível.
e eu pensei,
todos esses corpos e todos esses dedos nos pés e todas
essas unhas e todos esses pelos nos
cus e todo esse fedor
imaculada e aceita malhação das
coisas,
não podemos fazer algo a respeito?
sem chance, veio a resposta, eles não
querem.
então, olhando tudo em volta
todas aquelas 55 camas apontadas na mesma
direção
eu pensei,
todos esses homens foram bebês um dia
todos esses homens foram fofinhos e
rosados (com exceção dos pretos e dos amarelos
e dos vermelhos e dos outros).
eles choravam e sentiam,
tinham um caminho.
agora viraram
sofisticados e
fleumáticos
indesejados.
eu
saí.
eu me meti entre 4 paredes
sozinho.
eu me dei uma brilhante
meia-noite. outras meias-noites brilhantes
chegaram. não era tão
difícil.
mas se eles tivessem estado lá:
(aqueles homens) eu teria ficado lá com
eles.
se isso puder poupar você dos mesmos anos de erro
permita-me:
o segredo está nas paredes
ouvir um pequeno rádio
enrolar cigarros
beber
café
cerveja
água
suco de uva
uma lâmpada ardendo perto de você
tudo vem de arrasto –
os nomes
a história
um fluxo um fluxo
o olhar da psique de cima pra baixo
o efeito zunidor
a queima de macacos.
as brilhantes paredes da meia-noite:
não há como parar nem mesmo quando sua cabeça rola
embaixo da cama e o gato enterra
as fezes.
689
Charles Bukowski
Zangão
a sabedoria do
zangão rastejando
na asa do
jarro d’água é
enorme com o
sol entrando pela
janela da co-
zinha eu penso de novo
no assassinato de
César e dentro da
pia há três
copos d’água sujos.
a campainha toca
e eu me mantenho deter-
minado a não aten-
der.
zangão rastejando
na asa do
jarro d’água é
enorme com o
sol entrando pela
janela da co-
zinha eu penso de novo
no assassinato de
César e dentro da
pia há três
copos d’água sujos.
a campainha toca
e eu me mantenho deter-
minado a não aten-
der.
957
Iacyr Anderson Freitas
Um Caminho Urge
quanto não haveria de consumir-se
para a ostentação e o claustro
dias voados no albume
céus voados
e um vento que não quer
deixar os livros
quanto não haveria de consumir-se
para quedar assim
sobre a mesa
farto
de si
e de toda e qualquer iniqüidade
dias voados céus de alheia estirpe
abancai-vos nestes campos
eis que um caminho urge
sozinho
sob o escuro da flora
para a ostentação e o claustro
dias voados no albume
céus voados
e um vento que não quer
deixar os livros
quanto não haveria de consumir-se
para quedar assim
sobre a mesa
farto
de si
e de toda e qualquer iniqüidade
dias voados céus de alheia estirpe
abancai-vos nestes campos
eis que um caminho urge
sozinho
sob o escuro da flora
819
Iacyr Anderson Freitas
XXII
sempre a noite na escada
sempre o quarto a
luminária
o disco de sempre
essa toada sem graça
esse asco profundo
esse medo de sacrificar-se
esse sempre
XXII
Sempre la notte nella scala
sempre la stanza la
lucerna
il disco di sempre
quella canzone senza grazia
quella nausea profonda
quella paura di sacrificarsi
quel sempre
sempre o quarto a
luminária
o disco de sempre
essa toada sem graça
esse asco profundo
esse medo de sacrificar-se
esse sempre
XXII
Sempre la notte nella scala
sempre la stanza la
lucerna
il disco di sempre
quella canzone senza grazia
quella nausea profonda
quella paura di sacrificarsi
quel sempre
893
Charles Bukowski
Porq Tud Se Sgota
abatido do lado de fora do Seaside Motel e fico olha
ndo a lagosta viva na peixaria do píer de Redondo
Beach a ruiva partiu para torturar outros machos
está chovendo de novo está chovendo de novo e de novo às vez
es penso em Bogart e não gosto mais de Bogart hoj
e em dia porq tud se sgota – quando entra um dinheirin
ho na sua conta você pode rabiscar qualquer coisa na p
ágina chamar de Arte e passar a perna abatido num
mercado de peixes as lagostas que você vê elas são apanhadas com
o nós somos apanhados. pense em Gertie S. sentada lá
contando aos rapazes como aprimorar. ela era um tran
satlântico eu prefiro trens puxando vagões cheios de arma
s roupa íntima pretzels fotos de Mao Tsé-Tung haltere
s porq tud se sgota – (escrever mãe) quando você florar
minha pedra note a mosca na sua manga e pense
num violino pendurado numa casa de penhores. em muitas casas de penhores fiq
uei eu abatido na melhor em L.A. eles puxam
uma pequena cortina em volta daquele que quer penhorar e d
aquele que poderia pagar algo. é uma Arte casas de penhores s
ão necessárias como F. Scott Fitz era necessário o que nos
faz hesitar neste momento: eu gosto de olhar lagostas viva
s elas são fogo embaixo d’água hemorroidas – grossa outr
a mágica – colhões!: elas são lagostas mas gosto de o
lhá-las quando eu se eu ficar rico vou comprar um
grande tanque de vidro digamos três metros por um e v
ou sentar e olhá-las por horas enquanto bebo meu
mosele branco que estou bebendo agora e quando as pessoas apar
ecerem vou escorraçá-las como faço agora. quero dizer,
alguns dizem que mudança quer dizer crescimento bem certos at
os permanentes também previnem decadência como passar fio dental fode
r esgrimir engordar arrotar e sangrar sob uma lâmp
ada General Electric de cem watts. romances são legais c
amundongos são irrequietos e meu advogado me diz que Abraham L
incoln fez uma merda que nunca entrou nos livr
os de história – o muro é o mesmo por onde quer que se olhe.
nunca peça desculpa. entenda o pesar do erro. m
as nunca. não peça desculpa para ovo serpente ou am
ante. abatido num táxi verde perto de Santa Cru
z com um AE-I no meu colo trambicado na mão d
o punguista pendurado como um presunto. por acaso foi Ginsberg que
dançou no poste em maio na Iugoslávia para celebrar o Dia de M
aio se me pegarem fazendo isso podem arrancar meus dois
bolsos de trás. sabe eu nunca escutei minha mãe mijar
. escutei muitas mulheres mijando mas agora que penso
nisso não consigo lembrar de jamais ter escutado minha mãe mijar.
não sou grande fã de planetas não que me desagrad
em quero dizer tipo cascas de amendoim num cinzeiro isso são
planetas. às vezes a cada 3 ou 4 anos você vê um ro
sto geralmente não é um rosto de criança mas esse r
osto rende um dia espantoso muito embora a luz
esteja de certo modo ou você estava dirigindo um a
utomóvel ou você estava caminhando e o rosto estava passa
ndo num ônibus ou num carro isso faz daquele dia do
momento como que um sacolejo cerebral algo pra lhe dizer é
sempre solitário você estar abatido enquanto tira um
chiclete da embalagem na frente do salão de bilhar
mais antigo de Hollywood no lado oeste da Western embaix
o do bulevar. o bruto é líquido e o líquido é b
ruto e Gertie S. nunca mostrou seu joelho aos ra
pazes e Van Gogh era uma lagosta um amendoim torrado. eu
acho que “guinada” é uma palavra esplêndida e ainda está
chovendo abatido em sacos d’água com água para focinho
s de porco astutamente como cigarros para homens e para
mulheres eu me importo o bastante para proclamar liberdade em toda
a terra depois me pergunto por que freiras são freiras açougueiros iss
o e homens gordos me remetem a coisas gloriosas respirand
o pó por seus pigarros. se eu abatesse Bogar
t ele cuspiria seu cigarro agarraria seu flanco esquerdo na
camisa de listras pretas e brancas me olharia com
olho de nata e cairia. se significado é o que fazemos n
ós fazemos bastante se significado não é o que fazemos marque o qu
adrado #9 provavelmente cai bem a meio caminho o que mant
ém equilíbrio e a pobreza dos pobres e hidrantes
visco grandes cães em grandes gramados atrás de cercas
de ferro. Gertie S., claro, se interessava mais
pela palavra do que pelo sentimento e isso é claramente just
o porque homens de sentimento (ou mulheres) (ou) (veja)
(que legal) (eu sou) geralmente se tornam criaturas de Açã
o que fracassam (em certo sentido) e são registrados pelas pess
oas de palavras cujas obras geralmente fracassam não importa. (
que legal). rola e rola e rola continua chovendo
abatido num mercado de peixes por um italiano com mau
hálito que não fazia ideia de que eu alimentava meu gato duas vezes por dia e
nunca me masturbava quando ele estava no mesmo aposento. Agor
a você sabe neste ano de 1978 paguei $8441,32 para
o governo e $2419,84 para o estado da Califór
nia porque sento perante esta máquina de escrever geralmente b
êbado depois das corridas de cavalo e não uso sequer uma gr
ande editora comercial e já vivi à base de
uma barra de chocolate vagabundo por dia máquina de escrever penhorada imp
rimindo meu material à caneta e o material voltava. quero dizer,
camarada cão, os homens às vezes viram filmes. e às v
ezes acontece que os filmes não são tão bons. reze por
mim. não peço desculpa. astúcia não é a saída
persistência ajuda se você conseguir acertar o ferrão externo
às 5:32 crepúsculo – bum! os irmãos Waner costumavam
bater dois três para os Pirates agora somente 182 pessoas e
m Pittsburgh se lembram deles e isso é exatamente correto
. o que me desagradava naquela turma de Paris era qu
e eles exageravam demais o valor da escrita mas ninguém pode dizer
que não fizeram o maior esforço possível qu
ando todas as cabeças e olhos pareciam estar voltados para outro
lugar é por isso que apesar de todo o romantismo ass
ociado eu embarco não pela propaganda mas pel
as razões mais tolas da sorte e do caminho. minhas lagostas
cavalos e lagostas e o mosele branco e há uma
boa mulher perto de mim depois de todas as ruins ou ap
arentemente ruins. Rachmaninoff está tocando agora no rádio e
termino minha segunda garrafa de mosele. que adorável
caçador emotivo ele era meu gato preto gigante estirado
no tapete o aluguel está pago a chuva paro
u há um fedor nos meus dedos minhas costas doem abat
ido eu caio rolo aquelas lagostas examiná-las ex
iste um segredo ali elas contêm pirâmides derrubá-las tod
as as mulheres do passado todas as avenidas maçanetas bot
ões caindo da camiseta nunca escutei minha mãe mij
ar e nunca conheci seu pai acho que teríam
os bebido que chega, corretamente.
ndo a lagosta viva na peixaria do píer de Redondo
Beach a ruiva partiu para torturar outros machos
está chovendo de novo está chovendo de novo e de novo às vez
es penso em Bogart e não gosto mais de Bogart hoj
e em dia porq tud se sgota – quando entra um dinheirin
ho na sua conta você pode rabiscar qualquer coisa na p
ágina chamar de Arte e passar a perna abatido num
mercado de peixes as lagostas que você vê elas são apanhadas com
o nós somos apanhados. pense em Gertie S. sentada lá
contando aos rapazes como aprimorar. ela era um tran
satlântico eu prefiro trens puxando vagões cheios de arma
s roupa íntima pretzels fotos de Mao Tsé-Tung haltere
s porq tud se sgota – (escrever mãe) quando você florar
minha pedra note a mosca na sua manga e pense
num violino pendurado numa casa de penhores. em muitas casas de penhores fiq
uei eu abatido na melhor em L.A. eles puxam
uma pequena cortina em volta daquele que quer penhorar e d
aquele que poderia pagar algo. é uma Arte casas de penhores s
ão necessárias como F. Scott Fitz era necessário o que nos
faz hesitar neste momento: eu gosto de olhar lagostas viva
s elas são fogo embaixo d’água hemorroidas – grossa outr
a mágica – colhões!: elas são lagostas mas gosto de o
lhá-las quando eu se eu ficar rico vou comprar um
grande tanque de vidro digamos três metros por um e v
ou sentar e olhá-las por horas enquanto bebo meu
mosele branco que estou bebendo agora e quando as pessoas apar
ecerem vou escorraçá-las como faço agora. quero dizer,
alguns dizem que mudança quer dizer crescimento bem certos at
os permanentes também previnem decadência como passar fio dental fode
r esgrimir engordar arrotar e sangrar sob uma lâmp
ada General Electric de cem watts. romances são legais c
amundongos são irrequietos e meu advogado me diz que Abraham L
incoln fez uma merda que nunca entrou nos livr
os de história – o muro é o mesmo por onde quer que se olhe.
nunca peça desculpa. entenda o pesar do erro. m
as nunca. não peça desculpa para ovo serpente ou am
ante. abatido num táxi verde perto de Santa Cru
z com um AE-I no meu colo trambicado na mão d
o punguista pendurado como um presunto. por acaso foi Ginsberg que
dançou no poste em maio na Iugoslávia para celebrar o Dia de M
aio se me pegarem fazendo isso podem arrancar meus dois
bolsos de trás. sabe eu nunca escutei minha mãe mijar
. escutei muitas mulheres mijando mas agora que penso
nisso não consigo lembrar de jamais ter escutado minha mãe mijar.
não sou grande fã de planetas não que me desagrad
em quero dizer tipo cascas de amendoim num cinzeiro isso são
planetas. às vezes a cada 3 ou 4 anos você vê um ro
sto geralmente não é um rosto de criança mas esse r
osto rende um dia espantoso muito embora a luz
esteja de certo modo ou você estava dirigindo um a
utomóvel ou você estava caminhando e o rosto estava passa
ndo num ônibus ou num carro isso faz daquele dia do
momento como que um sacolejo cerebral algo pra lhe dizer é
sempre solitário você estar abatido enquanto tira um
chiclete da embalagem na frente do salão de bilhar
mais antigo de Hollywood no lado oeste da Western embaix
o do bulevar. o bruto é líquido e o líquido é b
ruto e Gertie S. nunca mostrou seu joelho aos ra
pazes e Van Gogh era uma lagosta um amendoim torrado. eu
acho que “guinada” é uma palavra esplêndida e ainda está
chovendo abatido em sacos d’água com água para focinho
s de porco astutamente como cigarros para homens e para
mulheres eu me importo o bastante para proclamar liberdade em toda
a terra depois me pergunto por que freiras são freiras açougueiros iss
o e homens gordos me remetem a coisas gloriosas respirand
o pó por seus pigarros. se eu abatesse Bogar
t ele cuspiria seu cigarro agarraria seu flanco esquerdo na
camisa de listras pretas e brancas me olharia com
olho de nata e cairia. se significado é o que fazemos n
ós fazemos bastante se significado não é o que fazemos marque o qu
adrado #9 provavelmente cai bem a meio caminho o que mant
ém equilíbrio e a pobreza dos pobres e hidrantes
visco grandes cães em grandes gramados atrás de cercas
de ferro. Gertie S., claro, se interessava mais
pela palavra do que pelo sentimento e isso é claramente just
o porque homens de sentimento (ou mulheres) (ou) (veja)
(que legal) (eu sou) geralmente se tornam criaturas de Açã
o que fracassam (em certo sentido) e são registrados pelas pess
oas de palavras cujas obras geralmente fracassam não importa. (
que legal). rola e rola e rola continua chovendo
abatido num mercado de peixes por um italiano com mau
hálito que não fazia ideia de que eu alimentava meu gato duas vezes por dia e
nunca me masturbava quando ele estava no mesmo aposento. Agor
a você sabe neste ano de 1978 paguei $8441,32 para
o governo e $2419,84 para o estado da Califór
nia porque sento perante esta máquina de escrever geralmente b
êbado depois das corridas de cavalo e não uso sequer uma gr
ande editora comercial e já vivi à base de
uma barra de chocolate vagabundo por dia máquina de escrever penhorada imp
rimindo meu material à caneta e o material voltava. quero dizer,
camarada cão, os homens às vezes viram filmes. e às v
ezes acontece que os filmes não são tão bons. reze por
mim. não peço desculpa. astúcia não é a saída
persistência ajuda se você conseguir acertar o ferrão externo
às 5:32 crepúsculo – bum! os irmãos Waner costumavam
bater dois três para os Pirates agora somente 182 pessoas e
m Pittsburgh se lembram deles e isso é exatamente correto
. o que me desagradava naquela turma de Paris era qu
e eles exageravam demais o valor da escrita mas ninguém pode dizer
que não fizeram o maior esforço possível qu
ando todas as cabeças e olhos pareciam estar voltados para outro
lugar é por isso que apesar de todo o romantismo ass
ociado eu embarco não pela propaganda mas pel
as razões mais tolas da sorte e do caminho. minhas lagostas
cavalos e lagostas e o mosele branco e há uma
boa mulher perto de mim depois de todas as ruins ou ap
arentemente ruins. Rachmaninoff está tocando agora no rádio e
termino minha segunda garrafa de mosele. que adorável
caçador emotivo ele era meu gato preto gigante estirado
no tapete o aluguel está pago a chuva paro
u há um fedor nos meus dedos minhas costas doem abat
ido eu caio rolo aquelas lagostas examiná-las ex
iste um segredo ali elas contêm pirâmides derrubá-las tod
as as mulheres do passado todas as avenidas maçanetas bot
ões caindo da camiseta nunca escutei minha mãe mij
ar e nunca conheci seu pai acho que teríam
os bebido que chega, corretamente.
1 037
Charles Bukowski
Espelho
mulheres no meu espelho de penteadeira
houve tantas mulheres
no meu espelho de penteadeira
penteando seus cabelos
o pente prendendo
e vejo os olhos delas no
espelho enquanto elas olham
para mim
estirado na cama.
estou quase sempre na cama
é o meu lugar favorito.
que o amor ou até
um relacionamento
acabe
parece tão absolutamente curioso
mas que novos amores
novos relacionamentos
cheguem
isso é sorte.
muito embora ficar sozinho seja
bom
a solidão parece
imperfeita.
todos aqueles rostos no
espelho
eu me lembro deles.
florações de sentimento e
humor,
fui bem tratado
na maior parte do
tempo.
as mulheres estão agora
diante de outros espelhos
e os homens se estiram nas camas
tenho certeza –
conversando, ou
calados, relaxando.
outra mulher usa o
meu espelho
seu nome é Linda Lee
ela ri de mim
estou usando um happi
japonês preto e branco.
talvez ela continue no meu
espelho.
houve tantas mulheres
no meu espelho de penteadeira
penteando seus cabelos
o pente prendendo
e vejo os olhos delas no
espelho enquanto elas olham
para mim
estirado na cama.
estou quase sempre na cama
é o meu lugar favorito.
que o amor ou até
um relacionamento
acabe
parece tão absolutamente curioso
mas que novos amores
novos relacionamentos
cheguem
isso é sorte.
muito embora ficar sozinho seja
bom
a solidão parece
imperfeita.
todos aqueles rostos no
espelho
eu me lembro deles.
florações de sentimento e
humor,
fui bem tratado
na maior parte do
tempo.
as mulheres estão agora
diante de outros espelhos
e os homens se estiram nas camas
tenho certeza –
conversando, ou
calados, relaxando.
outra mulher usa o
meu espelho
seu nome é Linda Lee
ela ri de mim
estou usando um happi
japonês preto e branco.
talvez ela continue no meu
espelho.
1 196
Charles Bukowski
Roído Por Maçante Crise
não é fácil
mandar esses foguetes para
lugar nenhum.
não paro de queimar meus dedos,
ganho manchas de luz perante meus
olhos.
os gatos ficam me encarando.
o calendário cai da parede.
preciso de uma meia-noite tranquila nas
Bahamas.
preciso contemplar
cascatas de glória.
preciso dos dedos de uma donzela
amarrando meus sapatos.
preciso do sonho
do doce sonho azul
do doce sonho verde
do elevado sonho de lavanda.
preciso dos passos tranquilos para o Paraíso.
preciso rir como eu costumava rir.
preciso ver um bom filme numa sala escura.
preciso ser um bom filme numa sala escura.
preciso tomar emprestado um pouco da natural coragem
do tigre.
preciso andar pelos becos da China
bêbado.
preciso metralhar a andorinha.
preciso beber vinho com os assassinos.
onde será que os dentes falsos de Clark Gable estão
nesta noite?
quero que John Fante tenha pernas e olhos de novo.
sei que os cães virão para
arrancar a carne dos ossos.
como podemos ficar sentados olhando jogos de beisebol?
enquanto penso em arrebatar os céus
uma mosca dá rodopios e mais rodopios nesta
sala.
mandar esses foguetes para
lugar nenhum.
não paro de queimar meus dedos,
ganho manchas de luz perante meus
olhos.
os gatos ficam me encarando.
o calendário cai da parede.
preciso de uma meia-noite tranquila nas
Bahamas.
preciso contemplar
cascatas de glória.
preciso dos dedos de uma donzela
amarrando meus sapatos.
preciso do sonho
do doce sonho azul
do doce sonho verde
do elevado sonho de lavanda.
preciso dos passos tranquilos para o Paraíso.
preciso rir como eu costumava rir.
preciso ver um bom filme numa sala escura.
preciso ser um bom filme numa sala escura.
preciso tomar emprestado um pouco da natural coragem
do tigre.
preciso andar pelos becos da China
bêbado.
preciso metralhar a andorinha.
preciso beber vinho com os assassinos.
onde será que os dentes falsos de Clark Gable estão
nesta noite?
quero que John Fante tenha pernas e olhos de novo.
sei que os cães virão para
arrancar a carne dos ossos.
como podemos ficar sentados olhando jogos de beisebol?
enquanto penso em arrebatar os céus
uma mosca dá rodopios e mais rodopios nesta
sala.
1 047
Charles Bukowski
Vá Para a Tumba Limpinho –
ninguém se importa
ninguém realmente se importa
você não sabia?
você não lembrava?
ninguém realmente se importa
até aqueles passos
caminhando para algum lugar
estão indo para lugar nenhum
você talvez se importe
mas ninguém se importa –
esse é o primeiro passo
na direção da sabedoria
aprenda
e ninguém precisa se importar
de ninguém é esperado que se importe
a sexualidade e o amor vão por água abaixo
como merda
ninguém se importa
aprenda
a crença no impossível é a
armadilha
a fé mata
ninguém se importa –
os suicidas, os mortos, os deuses
ou os vivos
pense no verde, pense nas árvores, pense
na água, pense na sorte e numa espécie de
glória
mas se liberte das amarras
rápida e finalmente
de depender do amor
ou esperar o amor de
alguém
ninguém se importa.
ninguém realmente se importa
você não sabia?
você não lembrava?
ninguém realmente se importa
até aqueles passos
caminhando para algum lugar
estão indo para lugar nenhum
você talvez se importe
mas ninguém se importa –
esse é o primeiro passo
na direção da sabedoria
aprenda
e ninguém precisa se importar
de ninguém é esperado que se importe
a sexualidade e o amor vão por água abaixo
como merda
ninguém se importa
aprenda
a crença no impossível é a
armadilha
a fé mata
ninguém se importa –
os suicidas, os mortos, os deuses
ou os vivos
pense no verde, pense nas árvores, pense
na água, pense na sorte e numa espécie de
glória
mas se liberte das amarras
rápida e finalmente
de depender do amor
ou esperar o amor de
alguém
ninguém se importa.
713
Charles Bukowski
E As Triviais Vidas da Realeza Nunca Me Empolgaram Tampouco...
nunca me importei de ficar molhado, várias vezes eu entrava em
lugares durante uma chuva e alguém dizia: “Você está
molhado!” como se eu não tivesse nenhuma compreensão das circunstâncias.
mas parece que estou quase sempre em apuros com
a maioria das mentes: “você sabe que não penteou o
cabelo atrás?”
“seu sapato esquerdo está desamarrado...”
“acho que o seu relógio está cinco minutos atrasado...”
“seu carro precisa de uma lavagem...”
quando largarem aquela primeira bomba por aqui eles vão
entender por que razão eu ignorei tudo de cara.
os pingos de chuva de mim mesmo afinal vagando
em lugar algum
como digamos o Estrangulador de Boston.
ou como todas as garotinhas com seus
cachinhos
sentadas esperando.
lugares durante uma chuva e alguém dizia: “Você está
molhado!” como se eu não tivesse nenhuma compreensão das circunstâncias.
mas parece que estou quase sempre em apuros com
a maioria das mentes: “você sabe que não penteou o
cabelo atrás?”
“seu sapato esquerdo está desamarrado...”
“acho que o seu relógio está cinco minutos atrasado...”
“seu carro precisa de uma lavagem...”
quando largarem aquela primeira bomba por aqui eles vão
entender por que razão eu ignorei tudo de cara.
os pingos de chuva de mim mesmo afinal vagando
em lugar algum
como digamos o Estrangulador de Boston.
ou como todas as garotinhas com seus
cachinhos
sentadas esperando.
1 082
Charles Bukowski
Vivo Para Escrever E Agora Estou Morrendo
já contei antes e nunca foi publicado então
talvez eu não tenha contado direito, então
é assim: eu estava em Atlanta, morando num barraco
por $1.25 por semana.
sem luz.
sem aquecimento.
um frio de rachar, estou sem dinheiro mas tenho
selos
envelopes
papel.
mando cartas pedindo socorro, só que não conheço
ninguém.
tem os meus pais mas sei que eles não vão estar
nem aí.
escrevo uma pra eles
mesmo assim.
depois
pra quem mais?
o editor da New Yorker, ele deve me conhecer, eu
enviei um conto por semana pra ele por
anos.
e o editor da Esquire
e a Atlantic Monthly
e Harper’s.
“não estou submetendo texto”, eu
escrevia, “ou talvez esteja... de todo modo...”
e aí vinha a proposta: “só um dólar, vai
salvar a minha vida...” e etc. e etc...
e por algum motivo
eu tinha os endereços de Kay Boyle e Caresse
Crosby
e
escrevi para elas.
pelo menos Caresse tinha me publicado em sua
Portfolio...
levei todas as cartas até a caixa de correio
larguei lá dentro e
esperei.
pensei, alguém ficará com pena do escritor
faminto, sou um homem
dedicado:
vivo para escrever e agora estou
morrendo.
e
cada dia
eu achava que seria
meu último.
eu atrasava o aluguel, encontrava pedaços de comida
nas ruas, geralmente
congelados.
eu levava pra casa e descongelava
embaixo da colcha.
eu pensava no Fome de Hamsun
e
ria.
um dia frio era seguido por outro,
lentamente.
a primeira carta foi do meu pai,
seis páginas, e sacudi as páginas
repetidas vezes
mas não havia dinheiro
algum
só
conselhos,
o principal sendo
este: “você nunca será um
escritor! o que você escreve é feio
demais! ninguém quer ler essa
bosta!”
então chegou o
dia!
uma carta de Caresse
Crosby!
eu abri.
nada de dinheiro
mas
texto datilografado bonitinho:
“Caro Charles,
foi bom receber notícias
suas. desisti da
revista. moro agora num
castelo na Itália. é
no alto de uma montanha mas
embaixo há um vilarejo
com frequência desço lá
para ajudar os pobres. sinto
que é a minha missão.
com amor,
Caresse...”
ela não tinha lido minha carta?
eu
era o pobre!
eu precisava ser um camponês
italiano para me
qualificar?
e os editores das revistas nunca
responderam e tampouco
Kay Boyle
mas nunca gostei do que ela escrevia
de qualquer maneira.
e nunca esperei grande coisa
dos editores das
revistas.
mas Caresse
Crosby?
black sun press?
eu agora até lembro como
afinal saí de
Atlanta.
eu estava simplesmente vagando pelas
ruas e cheguei a uma
pequena área
arborizada.
havia uma cabana de zinco ali
e um grande letreiro vermelho
dizendo: “vagas de trabalho!”
dentro havia um homem com
agradáveis olhos azuis e ele era
bastante cordial
e assinei pra me juntar aos
operários de uma ferrovia:
“em algum ponto a oeste de
Sacramento.”
no caminho de volta
naquele vagão empoeirado de cem anos de idade com
os assentos rasgados e os ratos e
as latas de feijão com carne de porco
nenhum dos caras sabia que eu tinha sido
publicado na Portfolio junto com
Sartre, Henry Miller, Genet e
etc.
junto com reproduções de pinturas de
Picasso e etc. e etc.
e se tivessem ficado sabendo estariam
cagando e andando
e francamente
eu mesmo estava.
só algumas décadas depois
quando eu me via em circunstâncias ligeiramente melhores
que me aconteceu de ler sobre a morte de
Caresse Crosby
e outra vez fiquei desconcertado
por sua recusa em
mandar uma reles notinha para um
gênio americano faminto.
é isso
esta é a última vez que vou escrever essa
história.
ela deveria ser
publicada...
e se for vou receber centenas
de cartas
de gênios americanos famintos
pedindo uma prata, cinco pratas, dez ou
mais.
não vou lhes dizer que estou ajudando os
pobres, à la Caresse.
vou mandá-los ler
os Poemas reunidos de
Kay Boyle.
talvez eu não tenha contado direito, então
é assim: eu estava em Atlanta, morando num barraco
por $1.25 por semana.
sem luz.
sem aquecimento.
um frio de rachar, estou sem dinheiro mas tenho
selos
envelopes
papel.
mando cartas pedindo socorro, só que não conheço
ninguém.
tem os meus pais mas sei que eles não vão estar
nem aí.
escrevo uma pra eles
mesmo assim.
depois
pra quem mais?
o editor da New Yorker, ele deve me conhecer, eu
enviei um conto por semana pra ele por
anos.
e o editor da Esquire
e a Atlantic Monthly
e Harper’s.
“não estou submetendo texto”, eu
escrevia, “ou talvez esteja... de todo modo...”
e aí vinha a proposta: “só um dólar, vai
salvar a minha vida...” e etc. e etc...
e por algum motivo
eu tinha os endereços de Kay Boyle e Caresse
Crosby
e
escrevi para elas.
pelo menos Caresse tinha me publicado em sua
Portfolio...
levei todas as cartas até a caixa de correio
larguei lá dentro e
esperei.
pensei, alguém ficará com pena do escritor
faminto, sou um homem
dedicado:
vivo para escrever e agora estou
morrendo.
e
cada dia
eu achava que seria
meu último.
eu atrasava o aluguel, encontrava pedaços de comida
nas ruas, geralmente
congelados.
eu levava pra casa e descongelava
embaixo da colcha.
eu pensava no Fome de Hamsun
e
ria.
um dia frio era seguido por outro,
lentamente.
a primeira carta foi do meu pai,
seis páginas, e sacudi as páginas
repetidas vezes
mas não havia dinheiro
algum
só
conselhos,
o principal sendo
este: “você nunca será um
escritor! o que você escreve é feio
demais! ninguém quer ler essa
bosta!”
então chegou o
dia!
uma carta de Caresse
Crosby!
eu abri.
nada de dinheiro
mas
texto datilografado bonitinho:
“Caro Charles,
foi bom receber notícias
suas. desisti da
revista. moro agora num
castelo na Itália. é
no alto de uma montanha mas
embaixo há um vilarejo
com frequência desço lá
para ajudar os pobres. sinto
que é a minha missão.
com amor,
Caresse...”
ela não tinha lido minha carta?
eu
era o pobre!
eu precisava ser um camponês
italiano para me
qualificar?
e os editores das revistas nunca
responderam e tampouco
Kay Boyle
mas nunca gostei do que ela escrevia
de qualquer maneira.
e nunca esperei grande coisa
dos editores das
revistas.
mas Caresse
Crosby?
black sun press?
eu agora até lembro como
afinal saí de
Atlanta.
eu estava simplesmente vagando pelas
ruas e cheguei a uma
pequena área
arborizada.
havia uma cabana de zinco ali
e um grande letreiro vermelho
dizendo: “vagas de trabalho!”
dentro havia um homem com
agradáveis olhos azuis e ele era
bastante cordial
e assinei pra me juntar aos
operários de uma ferrovia:
“em algum ponto a oeste de
Sacramento.”
no caminho de volta
naquele vagão empoeirado de cem anos de idade com
os assentos rasgados e os ratos e
as latas de feijão com carne de porco
nenhum dos caras sabia que eu tinha sido
publicado na Portfolio junto com
Sartre, Henry Miller, Genet e
etc.
junto com reproduções de pinturas de
Picasso e etc. e etc.
e se tivessem ficado sabendo estariam
cagando e andando
e francamente
eu mesmo estava.
só algumas décadas depois
quando eu me via em circunstâncias ligeiramente melhores
que me aconteceu de ler sobre a morte de
Caresse Crosby
e outra vez fiquei desconcertado
por sua recusa em
mandar uma reles notinha para um
gênio americano faminto.
é isso
esta é a última vez que vou escrever essa
história.
ela deveria ser
publicada...
e se for vou receber centenas
de cartas
de gênios americanos famintos
pedindo uma prata, cinco pratas, dez ou
mais.
não vou lhes dizer que estou ajudando os
pobres, à la Caresse.
vou mandá-los ler
os Poemas reunidos de
Kay Boyle.
1 227
Charles Bukowski
Sozinho Num Tempo de Exércitos
eu tinha 22 anos naquela pensão na Filadélfia e eu estava faminto e
louco num próspero mundo em guerra
e certa noite sentado na minha janela vi no quarto do outro
lado em outra pensão da Filadélfia
uma jovem agarrar um jovem e beijá-lo com grande alegria e
paixão.
foi então que me dei conta do buraco depravado em que eu havia me
metido:
eu queria ser aquele jovem naquele momento
mas não queria fazer as muitas coisas que ele provavelmente fizera para ir
até onde havia chegado.
pior ainda, eu me dei conta de que poderia estar errado.
saí do meu quarto e comecei a percorrer as ruas.
segui caminhando muito embora eu não tivesse comido naquele
dia.
(o dia comeu você!, cantava o coro)
caminhei, caminhei.
devo ter caminhado 8 quilômetros, então
voltei.
as luzes no quarto do outro lado estavam
apagadas.
as minhas também.
tirei a roupa e me deitei.
eu não queria ser o que queriam que eu
fosse.
e então
como eles
eu dormi.
louco num próspero mundo em guerra
e certa noite sentado na minha janela vi no quarto do outro
lado em outra pensão da Filadélfia
uma jovem agarrar um jovem e beijá-lo com grande alegria e
paixão.
foi então que me dei conta do buraco depravado em que eu havia me
metido:
eu queria ser aquele jovem naquele momento
mas não queria fazer as muitas coisas que ele provavelmente fizera para ir
até onde havia chegado.
pior ainda, eu me dei conta de que poderia estar errado.
saí do meu quarto e comecei a percorrer as ruas.
segui caminhando muito embora eu não tivesse comido naquele
dia.
(o dia comeu você!, cantava o coro)
caminhei, caminhei.
devo ter caminhado 8 quilômetros, então
voltei.
as luzes no quarto do outro lado estavam
apagadas.
as minhas também.
tirei a roupa e me deitei.
eu não queria ser o que queriam que eu
fosse.
e então
como eles
eu dormi.
1 079
Helena Parente Cunha
Sem Palavras
por que que me fiz
só e triste
sem palavras?
o rosto escasso
traça os silêncios
que empenho
sucedo
horizontes vagos
rotas sem metas
espera vã
da hora súbita
por que dizer
só e triste
sem palavras?
o rosto escasso
traça os silêncios
que empenho
sucedo
horizontes vagos
rotas sem metas
espera vã
da hora súbita
por que dizer
1 196
Charles Bukowski
Eu Tenho Um Quarto
eu tenho um quarto aqui em cima onde me sento sozinho e é bem
parecido com meus quartos do passado – garrafas e papéis, livros,
cintos, pentes, jornais velhos, lixo de todo tipo espalhado.
minha desordem jamais foi escolha, ela apenas chegou e
permaneceu.
no tempo de cada um não há nunca tempo suficiente para deixar
tudo arrumado – há sempre colapso, perda, a
dura matemática da
confusão e
do cansaço.
somos arengados por imensas e triviais tarefas
e chegam os momentos de estoicismo ou de horror quando fica
impossível pagar uma conta de gás ou até responder à ameaça da
Receita Federal ou de cupins ou da condenação papal de entregar
a alma para autovigilância.
tenho um quarto aqui em cima e é bem o mesmo de sempre:
o fracasso de viver grandiosamente com a mulher ou com o
universo, fica tão abafado, tudo em carne viva com auto-
acusação, atrito, re-
prises.
tenho um quarto aqui em cima e já tive este mesmo quarto em
tantas cidades – os anos subitamente remotos, sigo
sentado e o sentimento é igual ao da minha juventude.
o quarto sempre foi – ainda é – melhor à noite –
o amarelo da luz elétrica enquanto bebo
sentado – tudo de que precisamos era um pequeno retiro
de todo o irritante absurdo:
sempre poderíamos aguentar o pior se nos fosse permitido
às vezes o mais ínfimo despertar do pesadelo,
e os deuses, até aqui, nos permitiram
isso.
tenho um quarto aqui em cima e me sento sozinho nos extremos
flutuantes, batentes, loucos, e sou preguiçoso nestes campos da dor
e as minhas amigas, as paredes, apoiam essa aposta-única –
meu coração não consegue rir mas às vezes sorri
na luz elétrica amarela: ter chegado tão longe para
sentar sozinho
de novo
neste quarto aqui em cima.
parecido com meus quartos do passado – garrafas e papéis, livros,
cintos, pentes, jornais velhos, lixo de todo tipo espalhado.
minha desordem jamais foi escolha, ela apenas chegou e
permaneceu.
no tempo de cada um não há nunca tempo suficiente para deixar
tudo arrumado – há sempre colapso, perda, a
dura matemática da
confusão e
do cansaço.
somos arengados por imensas e triviais tarefas
e chegam os momentos de estoicismo ou de horror quando fica
impossível pagar uma conta de gás ou até responder à ameaça da
Receita Federal ou de cupins ou da condenação papal de entregar
a alma para autovigilância.
tenho um quarto aqui em cima e é bem o mesmo de sempre:
o fracasso de viver grandiosamente com a mulher ou com o
universo, fica tão abafado, tudo em carne viva com auto-
acusação, atrito, re-
prises.
tenho um quarto aqui em cima e já tive este mesmo quarto em
tantas cidades – os anos subitamente remotos, sigo
sentado e o sentimento é igual ao da minha juventude.
o quarto sempre foi – ainda é – melhor à noite –
o amarelo da luz elétrica enquanto bebo
sentado – tudo de que precisamos era um pequeno retiro
de todo o irritante absurdo:
sempre poderíamos aguentar o pior se nos fosse permitido
às vezes o mais ínfimo despertar do pesadelo,
e os deuses, até aqui, nos permitiram
isso.
tenho um quarto aqui em cima e me sento sozinho nos extremos
flutuantes, batentes, loucos, e sou preguiçoso nestes campos da dor
e as minhas amigas, as paredes, apoiam essa aposta-única –
meu coração não consegue rir mas às vezes sorri
na luz elétrica amarela: ter chegado tão longe para
sentar sozinho
de novo
neste quarto aqui em cima.
1 029
Israel Correia
Sabedoria, Idade e Vida
Precoce cansaço do assédio dos fracos
E dos agudos latidos em torno da caravana
Cometo crime sensato buscando o nirvana
Abandonando de vez a loucura dos palcos
Nada a ser provado. Pois na solidão existo.
Sabedoria chega quando o calvário ferra
Necessária é a dor da coroa de espinhos
Ao judeu despercebido do que ela revela
Assim, idade perfeita estes trinta e três
Tenho anos nesta vida pela última vez
Nunca fui o fruto duma só semente
Nunca a mesma terra, nunca a mesma gente
Povo que doravante não vê, não ouve, não fala
Massa inanimada, só consente e cala!
E dos agudos latidos em torno da caravana
Cometo crime sensato buscando o nirvana
Abandonando de vez a loucura dos palcos
Nada a ser provado. Pois na solidão existo.
Sabedoria chega quando o calvário ferra
Necessária é a dor da coroa de espinhos
Ao judeu despercebido do que ela revela
Assim, idade perfeita estes trinta e três
Tenho anos nesta vida pela última vez
Nunca fui o fruto duma só semente
Nunca a mesma terra, nunca a mesma gente
Povo que doravante não vê, não ouve, não fala
Massa inanimada, só consente e cala!
484
João Bosco da Encarnação
Essa Noite
Essa Noite
Essa noite estranha,
é uma noite de medo,
pavor de mim mesmo.
Quando penso eme vejo
pensante,
ouço o ruído incessante
— enervante —
do mar,
tenho medo.
Do latido de um cão
longínquo,
tenho medo.
E receio tanto
a escuridão silenciosa
da noite...
E me assusto tanto
com o barulho da folha seca
e do vento tenebroso
na encosta...
A existência só
e a coexistência só
de um mundo de mortos
me amedrontam,
apavoram.
E tenho um pavor imenso
de ser e de sentir...
Queria ser apenas algo
e não querer...
O pavor do silêncio noturno,
povoado de fantasmas
que riem do meu temor,
o medo da morte
porque parece uma noite
de silêncio profundo,
faz ouvir minha fraqueza,
um cão latindo ao longe,
triste,
um som de silêncio no ouvido,
enlouquece
e assusta como se houvesse
— e talvez haja —
algum estranho na escuridão.
E me assusto
com a escuridão e o silêncio
— nadas —
que reinam em mim...
Vazio que reina em mim
— tudo —
possível e impossível.
Alma solitária
jogada num abismo,
vê-se lá de cima do penhasco
onde o mar encontra as pedras,
um grunhido,
um bafo ofegante
— monstro —
nas minhas costas infinitas,
do tamanho da escuridão
que esconde o mar dos olhos
e nos ouvidos
preenche a imaginação.
Essa noite estranha,
é uma noite de medo,
pavor de mim mesmo.
Quando penso eme vejo
pensante,
ouço o ruído incessante
— enervante —
do mar,
tenho medo.
Do latido de um cão
longínquo,
tenho medo.
E receio tanto
a escuridão silenciosa
da noite...
E me assusto tanto
com o barulho da folha seca
e do vento tenebroso
na encosta...
A existência só
e a coexistência só
de um mundo de mortos
me amedrontam,
apavoram.
E tenho um pavor imenso
de ser e de sentir...
Queria ser apenas algo
e não querer...
O pavor do silêncio noturno,
povoado de fantasmas
que riem do meu temor,
o medo da morte
porque parece uma noite
de silêncio profundo,
faz ouvir minha fraqueza,
um cão latindo ao longe,
triste,
um som de silêncio no ouvido,
enlouquece
e assusta como se houvesse
— e talvez haja —
algum estranho na escuridão.
E me assusto
com a escuridão e o silêncio
— nadas —
que reinam em mim...
Vazio que reina em mim
— tudo —
possível e impossível.
Alma solitária
jogada num abismo,
vê-se lá de cima do penhasco
onde o mar encontra as pedras,
um grunhido,
um bafo ofegante
— monstro —
nas minhas costas infinitas,
do tamanho da escuridão
que esconde o mar dos olhos
e nos ouvidos
preenche a imaginação.
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