Poemas neste tema

Solidão

Carlos Falck

Carlos Falck

Bilhete à Ilha

Mudarei meu silêncio em ventania
E meu andar para o norte em ir ao cais;
Não me perguntarei se vou ou vais
ao mesmo ponto que antes nos unia.

Apenas caminharei e nesse andar
descobrirei se me segues ou te sigo.
Não me importo lembrar (se não te digo)
o que lembro se avisto cais ou mar.

Pois vou ao porto como se não fosse.
Desligado do sonho e dos sentidos
descubro que não tenho mais amigos
e que o verde do mar jamais foi doce.

E mais descobrirei quando bem frio,
meu corpo navegar no mar vazio.

900
Giselda Medeiros

Giselda Medeiros

Cação Para Buscar-te

Deixarei que o vento perpasse
o meu ser e dele retire
teu nome, teu gesto, teu vulto
para que eu possa respirar.

Deixarei que as estrelas roubem
teu brilho e em seu olhar azul
prenda-o, assim, verei luzir
uma outra vez o meu olhar.

E deixarei que o mar te alcance
com sua voz potente e rouca
para que eu possa ouvi em mim
a minha voz, já quase morta.

E deixarei que o tempo leve
a solidão que o teu silêncio
bordou nas fimbrias do meu ser,
naquela tarde que chovia,

E depois de tudo... ah! depois
quero ver minha alma cansada
ainda assim te procurar
sofregamente e nada, nada,
nada de ti reencontrar.

Talvez que sabe não te achando,
desesperada, e louca, e tonta,
se volta pra si, sonâmbula,
para encontrar-se, enfim, a sós.

Mas, como poderei achar-me
se não estiveres em mim?
Pois é no teu caminho vago
que traço o meu destino andante
de estrela, de rio, de vento,
margeando sempre a solidão

986
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Quem me dera, quando fores

Quem me dera, quando fores
Pela rua sem me ver,
Supor que há coisas melhores
E que eu as pudera ter.
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Mário Hélio

Mário Hélio

22-II(Poema para ayer)

onde havia teus olhos
grandes e dois
uma lâmpada de neon
fonte estranha e incompreendida
ponte achada e para sempre perdida
como um matagal de idéias incontaminadas
por isso incompreendidas
por um grito maior que a própria voz
por isso inaudível
por um amor sem nomes nem partidos
por isso tolo e desinteressante
por um grande mistério claro e simples
por isso profundo e sem sentido

558
Mário Hélio

Mário Hélio

27-VII (Incomunicável)

trancou-se no quarto
já sem mundo sem pátria pra ambicionar
já sem bússola sem norte para se abrigar
sem campo que a chuva regue
sem diabo que carregue
o nosso deus
e como não havia estrela pra contar
e como não havia doença pra curar
e como não havia remorso pra curar
e como não havia vida para matar
e como não havia morte para aumejar
ficou imóvel hirto supremo
lembrando as imperfeições das primeiras rimas.

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Gilson Nascimento

Gilson Nascimento

Dé e a bruxa

Tinha uma boneca rota, esfarrapada
A que com os dedos imprimia vida
Dava riso de graça à meninada
E tornou-se pessoa mui querida

No fundo de minhalma está guardada
A lembrança dos dois, que é incontida
Vejo a boneca, cara amarfanhada
Junto ao peito do dono, adormecida

O tempo – vil ladrão – tudo nos leva
Deixa, contudo, nalma de reserva
Algo que à infância roubou o coração

Dé e a bruxa, mortos, eu contemplo
Sem esquecer jamais o seu exemplo
Trazer com um trapo alegria à solidão

880
Mário Hélio

Mário Hélio

32-II(Persianas)

a cor da dúvida na pele
repele muitos carinhos
e as linhas compostas
em muitos caminhos
diferem apenas do homem sozinho
de estar-se solto e completo
apesar de ver de perto do mundo o outro mundor
que só engana ao homem só e às persianas
às vezes os ziguezagues tortos apelam às diferenças
e às divisões que as mentes fazem
mas o que eles ignoram
é que os cérebros apenas conhecem as diferenças
entre as cousas e as lousas
que eles ignoram
o instinto de bicho do homem só
e das múltiplas multidões aglomeradas em torno dele
e das lânguidas e insensíveis persianas
um homem fica mais só quando reflete
é assim que ficam todos os homens sós
e a solidão
mero deserto entre a palavra e o chão
estranha hora entre o clarão e a aurora
o teu aéreo olhar
que medes a distância
entre o provável e o improvável
e tudo sabes
o que não sabes é o sol que esconde
ou ofusca quem sabe a dor e a sede do homem só
e o linho das linhas das alheias persianas

604
Florbela Espanca

Florbela Espanca

Mendiga

Na vida nada tenho e nada sou;
Eu ando a mendigar pelas estradas...
No silêncio das noites estreladas
Caminho, sem saber para onde vou!

Tinha o manto do sol... quem mo roubou?!
Quem pisou minhas rosas desfolhadas?!
Quem foi que sobre as ondas revoltadas
A minha taça de oiro espedaçou?!

Agora vou andando e mendigando,
Sem que um olhar dos mundos infinitos
Veja passar o verme, rastejando...

Ah, quem me dera ser como os chacais
Uivando os brados, rouquejando os gritos
Na solidão dos ermos matagais!...
2 782
Florbela Espanca

Florbela Espanca

Esfinge

Sou filha da charneca erma e selvagem.
Os giestais, por entre os rosmaninhos,
Abrindo os olhos d’oiro, p’los caminhos,
Desta minh’alma ardente são a imagem.

Embalo em mim um sonho vão, miragem:
Que tu e eu, em beijos e carinhos,
Eu a Charneca e tu o Sol, sozinhos,
Fôssemos um pedaço de paisagem!

E à noite, à hora doce da ansiedade
Ouviria da boca do luar
O De Profundis triste da saudade...

E à tua espera, enquanto o mundo dorme,
Ficaria, olhos quietos, a cismar...
Esfinge olhando a planície enorme...
2 232
João José Cochofel

João José Cochofel

Os Dias Íntimos

Mói música um realejo,
poético de convenção.
Mas é hoje o que agrada
ao meu coração.

Com castanhas assadas,
chuva na imaginação,
e luzes molhadas
no asfalto do chão,

Egoísmo de bicho,
simulado ou não,
mas que bem me sabe
esta solidão.

Ó comedida felicidade,
com teu ópio vão
sobre tanta náusea
passa a tua mão.

1 417
Mário Hélio

Mário Hélio

36-VI-(Litografia)

que voz sopra os sons
nessas horas sincopadas
no silêncio dos homens?
que voz assoprará
o assombro
o sombrio ressumbro
os sobrolhos selvagens
da solidão?
e sobrará um silvo
seda e sono solto.

894
Majela Colares

Majela Colares

O Pastor e Sua Aldeia

a Altino Caixeta de Castro

Eu creio que a eternidade nasceu na aldeia

Lucian Blaga

O ladrido infinito de um cão morto
nas vozes de outros cães é repetido

muito além, incessante ao nosso ouvido
mais além, muito além da voz de um cão

trago a lua no bolso e o sol na mão
e um rebanho de cabras e de estrelas

no desejo incomum de sempre tê-las
na distante lembrança de uma aldeia

pervagando a memória das areias
onde estrelas e cabras pastam sonhos

trago à sombra de alpendres breve sono
pressentindo o rangido da tramela

despertado ao contorno da janela
no silêncio imortal da noite fria

canta o galo, outra vez, e denuncia
(seu cantar tem a cor da lua cheia)

o prenúncio de um dia em outro dia
da eterna solidão - eterna aldeia.

1 018
Florbela Espanca

Florbela Espanca

Prince Charmant

A Raul Proença

No lânguido esmaecer das amorosas
Tardes que morrem voluptuosamente
Procurei-O no meio de toda a gente.
Procurei-O em horas silenciosas

Das noites da minh’alma tenebrosas!
Boca sangrando beijos, flor que sente...
Olhos postos num sonho, humildemente...
Mãos cheias de violetas e de rosas...

E nunca O encontrei!... Prince Charmant
Como audaz cavaleiro em velhas lendas
Virá, talvez, nas névoas da manhã!

Ah! Toda a nossa vida anda a quimera
Tecendo em frágeis dedos frágeis rendas...
– Nunca se encontra Aquele que se espera!... –
2 264
João Gulart de Souza Gomos

João Gulart de Souza Gomos

dia

encher d’água os pratos
e descobrir o óbulo
(há baratas!)
lavar a latrina e arrumar
almofadas no sofá
- costume dos antigos -
dor, rotina

videos, games
eletrônicos
barbitúricos coloridos
oligofônicos

tempos idos de filosofia
é noite é dia é noite
de manhã chovia

Goulart Gomes, Salvador, BA

754
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Eu vi ao longe um navio

Eu vi ao longe um navio
Que tinha uma vela só,
Ia sozinho no mar...
Mas não me fazia dó.
1 238
António Gomes Leal

António Gomes Leal

A fome de Camões

Este vulto, portanto, que caminha
Altas horas, ao frio das nortadas,
É Camões que se definha
Nas ruas de Lisboa abandonadas.
É Camões que a sorte vil, mesquinha,
Faz em noites de fome torturadas,
Ele o velho cantor de heróis guerreiros!...
Vagar errante como os vis rafeiros.

Morreu-lhe o escravo, o seu fiel amigo,
O seu amparo e seu bordão no mundo,
Morreu-lhe o humilde companheiro antigo,
No seu vácuo deixando um vácuo fundo.
Hoje, pois, triste, velho, sem abrigo,
Faminto, abandonado e vagabundo,
Tenta esmolar também pelas esquinas.
Ó lágrimas!... Ó glória! Ó ruínas!...

1 776
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Dentro da Árvore

Por entre os ramos e as sombras sem tristeza
em claro e sonâmbulo vagar
mais baixo do que o dia com suas lâmpadas de espuma
em abóbadas de sombra entre o verde e a cinza.

Era a terra do sono e da solidão e da partilha
e a respiração da ausência. O destino
era próximo da mesa da folhagem, a sede
calma. E o sentido era um sonho
que se encarnava num flanco aberto.

Porque nascíamos em núpcias transparentes
com o ar adormecido num meio-dia completo.
Porque no fundo escuro amávamos a altura verde
e recebíamos a frescura de uns dedos ignorados.
704
Roy Campbell

Roy Campbell

CRIAÇÃO DO POETA

Há nas manadas um novilho torto
Que cobre as vacas e os tropéis conduz,
Até que os velhos touros ciumentos
Correm com ele dos pastos em que vivem.

E à noite, ouvindo a rumorosa selva,
Desesperado por poder ter medo,
Os magros flancos vai chicoteando
A golpes duros da pesada cauda.

Longe dos cornos que em falange guardam
As manadas dormindo, lobos vence;
A noite cai, os leopardos seguem-no,
E todo o dia as moscas o aguilhoam.

1 012
Pablo Neruda

Pablo Neruda

LIX

Por que não nasci misterioso?
Por que cresci sem companhia?

Quem me mandou desvencilhar
as portas de meu próprio orgulho?

E quem saiu para viver por mim
quando eu dormia ou adoecia?

Que bandeira se desatou
ali onde não me esqueceram?
1 100
Joachim Du Bellay

Joachim Du Bellay

Ó FRANÇA, MÃE DAS LEIS

O França, mãe das leis, das artes e das lutas,
O leite do teu seio amamentou-me outrora:
Em busca do redil, como um cordeiro, agora,
Teu nome eu vou dizendo às florestas e às grutas.

Então, cruel, por que sem resposta me deixas,
Se, como filho teu, já fui reconhecido?
França, França, responde a meu triste gemido.
Somente me responde o eco das minhas queixas.

Entre os lobos cruéis, os campos percorrendo,
Sinto chegar o inverno, o seu gelo trazendo
A meu corpo transido arrepio tamanho.

A cordeiro nenhum tem faltado alimento,
Nenhum receia o lobo, a friagem e o vento:
E no entanto não sou a escória do rebanho.

1 149
Pablo Neruda

Pablo Neruda

Acontece

Bateram à minha porta em 6 de agosto,
aí não havia ninguém
e ninguém entrou, sentou-se numa cadeira
e transcorreu comigo, ninguém.

Nunca me esquecerei daquela ausência
que entrava como Pedro por sua causa
e me satisfazia com o não ser,
com um vazio aberto a tudo.

Ninguém me interrogou sem dizer nada
e contestei sem ver e sem falar.

Que entrevista espaçosa e especial!
1 355
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Pague Seu Aluguel Ou Saia

em algum lugar a princesa morta
dorme com um novo amante;
só tenho alguns pacotes vazios de tocos
de cigarro que sobraram
pescados de volta pelas redes de anseios
mas tudo está bem
exceto a cor e a conduta
da abelha,
a cera demasiado vermelha
e um bilhete da mulher
na colina
que compra meus quadros:
"preocupada com você. ligue-
-me. amor. R.",
e outro bilhete sob a
porta:
"pague seu aluguel ou saia".
o aquecedor está ligado e
há um pote de pura pimenta
em pó a encarar-me,
e papel para datilografar
para preencher com poemas;
tudo está bem,
calçadas ecoam os cliques dos
saltos,
motores dão partida,
e eu tenho que lavar essas malditas
xícaras rachadas de café;
e eu me pergunto: como vai você hoje, meu
amigo?
como você está? desapontado?
infeliz?
eu? é duro. duro como um
bom poema.
mas eu me sinto muito bem,
e realmente,
essencialmente, daqui a pouco eu
vou comer
ou picadinho ou ensopado, qualquer coisa
de dentro de uma lata.
eu também poderei fazer levantamento de pesos e
espero
continuar me sentindo legal, embora meu
rádio esteja chiando
e fale de besteiras como
bons serviços de jatos;
agora são 7:30, e esse é
o jeito de homens
viverem e morrerem: não o jeito de Eliot
mas
meu jeito, nosso jeito,
quietos como uma asa fechada,
ódio queimado como em uma chaminé;
os lençóis baixando
rasgados pelo tempo
e à minha direita há uma faca que
não cortaria nem mesmo uma cebola
mas eu não tenho nenhuma cebola para
cortar, e
eu espero que você também
esteja se sentindo bem.
1 092
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Sobre Latas De Cerveja E Embalagens De Açúcar

o boi, eu,
eu estou com frio esta noite
esta manhã
as 4 da madrugada
só com uma lata de cerveja e 2
charutos;
mulher e criança saindo
quarta-feira;
o rádio toca uma ária escocesa e
o velho aquecedor solta
gás, gás, gás,
se eu apenas conseguisse dormir.
eu não consigo dormir.
a morte nem sempre chega como uma bomba
ou uma puta gorda
às vezes a morte rasteja polegada a polegada
como uma pequena aranha rastejando na sua barriga
enquanto você
dorme.
isso não é novidade para você,
eu sei.
as mãos do meu esqueleto rezam esta noite
rezam por algo
não sei
o quê.
minhas mãos seguram este charuto
sobre meu sonho
esvaziado.
eu sou
meio que uma piada suja
contada vezes demais contada tarde demais
quando as pessoas não conseguem mais
rir.
há uma embalagem na mesa.
leio seu rótulo, diz:
medidas de açúcar: 1 libra de pó igual a
4 e 1/2 xícaras coadas; 1 libra granulada igual a
2 e 1/2 xícaras etc.
agora, aí está um novo mundo! eu fico sentado e olho de soslaio a caixa,
esquecendo de tudo:
General Grant
sopa de ervilhas
etc.
o boi, eu, estou com frio esta noite.
amanhã vou à mercearia arrumar embalagens de cartolina vazias
para que eles possam empacotar suas
coisas. a mulher guarda toda espécie de cartas, retalhos,
fotografias. a garotinha, é claro, tem seus
brinquedos de garotinha.
preciso de mais para ler. leio minha lata de cerveja. diz:
fermentada com água pura de fonte da primavera de Rocky Mountain
que se converte em mijo; fermentada da carne que
se converte em repasto para vermes;
fermentada com amor que se converte em nada; minha terra e
sua terra; meu túmulo e seu túmulo; um gosto de
mel; um sonho de uma noite de ouro; eu vim por esse caminho por
um tempo e depois parti: fermentado, ferrado,
emprestado, cedido e mentido em nome da
Vida.
eu tomo essa cerveja.
paguei por
ela.
agora são 5:30 da manhã e muita gente fodeu e
dormiu e agora está saindo de seus pequenos sonhos enquanto
o homem no rádio pergunta se eu quero dinheiro emprestado por
minha casa.
consigo dormir com isso. consigo dormir pensando que
quem sabe na próxima vez em que houver tumultos nas ruas
quem sabe eles me deixem participar
mesmo minha pele sendo da cor errada
e enquanto eles estão lutando por Cadillacs e
TVs a cores
eu estarei lutando por outra coisa -
para quê
neste momento
não está claro para
mim.
mas pode ser que quando eu despertar tudo isso esteja claro
neste momento
é terminar o charuto
esperar pela mercearia abrir e
trocar esses shorts
sujos.
1 049
Gaio Petrónio Árbitro

Gaio Petrónio Árbitro

LECTO COMPOSITUS

Alongado no leito, e a noite silenciosa,
Mal eu cansados olhos ao repouso dava,
Quando o cruel Amor me agarra plos cabelos,
Me acorda e manda que em su honra eu vele.
Ó escravo meu, me diz, ó tu que a mil amaste,
Sozinho jazes só, ó duro peito, aqui?
Descalço e semi-nu, atiro-me pra fora,
Pelos caminhos vou, sem que caminho encontre.
E sigo sempre, e paro, e no parar hesito
Entre a vergonha de ir e o tédio de voltar.
Calam-se humanas vozes, e da rua os ruídos,
Ave nenhuma canta, e sequer ladram cães.
De tudo, apenas eu me atrevo a estar desperto,
Obedecendo ao império, Grande Amor, de ti.

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