Poemas neste tema

Solidão

Helga Holtz

Helga Holtz

Ausente

Ele dorme ausente dos meus olhos abertos,
guarda para si paisagens que desejo sonhar.
Sob pálpebras alvas de tecido sonolento
percebo o claro volume genital do seu olhar.
Desejo amparo de algum sono, quero fugir
do olho molhado, vermelho, recém-acordado,
intumescido de sono e que me espia chorar.

953
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

All my heart weeps for

All my heart weeps for
Is a cottage left
By some one before
Time into space crept,
A small cottage left
Near a silent shore.

There the constant waves
Murmur like vain rest.
There the soft raves
Like a soul possessed
Of rest that not saves.

There the shore‑winds breathe
Possibilities
Of less cares than wreathe
Round our lives their cries
From up and beneath.

Where that cottage is
Rests with wishing it.
Is therewhere is bliss?
No, nor does bliss fit
Into that strange place.

Why desire it then?
Ah, it's different
From the homes of men.
There perhaps are blent
Dreams and what we ken.

There at least alone,
Alone by the sea,
We shall cease to moan...
To moan need not be
Where we are alone...

These are words. Let sleep
Close our eyes to find
That small cottage, deep
In Farness. We are blind
And life is to weep.
1 513
Silvia Brito

Silvia Brito

Beijo

Beijo partido de vidro
incandescente.
De cores escorridas
e pincéis sujos.
Beijo de papel branco
No canto jogado.
Beijo cheio de ausências,
de cortes e dores,
De braços cansados.
Beijo de caminho sem volta,
de quarto vazio.
Beijo sem boca,
Sem corpo, sem custo.
Beijo no claro e vazio da minha alma
Que se solta...
Calma.

1 294
Liz Christine

Liz Christine

Senha

será que um dia
encontro alguém
que ame poesia
e vá além
odeie hipocrisia
será que eu acho
quem adore se divertir
quem goste de sair
mas... diacho!
não encontrei
ainda
apenas sonhei
com alguém
que vai me completar
além
de me fazer gozar
alguém que tenha
a minha senha
a chave perdida
em algum lugar
da minha vida

863
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Todos lá vão para a festa

Todos lá vão para a festa
Com um grande azul de céu.
Nada resta, nada resta...
Resta sim, que resta eu.
1 597
Naâmir

Naâmir

Paixão

Será, mago, que esquizóides se apaixonam?
Paixão é peregrinação
de pés descalços
em meio ao baile da superfície
É carregar uma cruz de odores e vácuos
por entre uma platéia barulhenta
para depositar aos pés
do ser desejado.

Esquizóides são eremitas do subterrâneo,
e tu estás em meio a uma orgia de palpáveis cheiros,
existires que se roçam,
e se umedecem,
e se mordem.

Esquizóides não suportam os grupos
de humana carne pensante.

estás confortável nas coisas e nos entes,
mandando que se curvem
ao teu egocentrismo bizarro
e és obedecido fielmente (?).

Esquizóides não suportam taras alheias
só há a própria loucura
a neurose do outro não comove.

Esquizóides têm covas
têm teias
suspiram hipnose.
Nunca vão à caça.
Apenas esperam.

Famintos,
sedentos,
inanes.

Com garras pontiagudas,
veneno em riste,
dentes rebrilhando na escuridão:
O esfacelamento dos curiosos é óbvio.

Não se iluda, mago, nem tema.
Enquanto estiveres na luz do mundo
Nenhum esquizóide te perseguirá para refeição.
Estás protegido pela realidade
que destrói esquizóides.

Ah... !
Mas deixaste cair uma migalha de ti num tango
no qual eu navegava
guiada por tua voz...
Não sabes o que esquizóides podem fazer com restos...
Nem te atrevas a prever
toda a poesia que vou criar
com tua lembrança.

438
José Eustáquio da Silva

José Eustáquio da Silva

Querer

luz pálida
sinal fechado
solidão me toque não
no outdoor vejo você

encanto de alquimista
qualquer coisa, qualquer vista
mar à vista
meu porto é você

meu olho chove
seu rosto jovem
meu grito mudo
sua boca morde
não me incomode
deixe-me amar

abraça-me em lá maior
me transe em música
e me deixe só...

771
José Eustáquio da Silva

José Eustáquio da Silva

Tive

vou assim sem rumo

chutando pedras pelo caminho

tenho lenço e documento

só não tenho pra onde ir

já tive ao menos um amor

que chutava pedras comigo

hoje me restam apenas as pedras

apenas as pedras...

frias pedras...

1 021
José Eustáquio da Silva

José Eustáquio da Silva

Coadjuvante

não sou dono, tomo conta
não sou pai, sou referência
não sou filho sou produto
não sou estou
não tenho alugo
não choro me calo
não sorrio riem de mim...

não sofro, me agüento
não rezo, espero
não faço, obedeço
não crio, recrio
não durmo, adormeço
não quero, basta-me sonhar

não vejo, me mostram
não penso, dispenso
não falo, ouço
não vou, já estou de volta
não grito, silencio
não dou opiniões, observo

não tenho amigos, brinco com letras
não tenho motivos, faço poesias
não tenho razão, tenho coração
não tenho dinheiro, tenho inspiração

não construo, imagino
não canto, caetaneio
não escrevo, sinto
não minto, invento
não sou nada, sou eu
não tento, desisto
não vivo
existo...

1 074
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

VISÃO

Há um país imenso mais real
Do que a vida que o mundo mostra ter
Mais do que a Natureza natural
À verdade tremendo de viver.

Sob um céu uno e plácido e normal
Onde nada se mostra haver ou ser
Onde nem vento geme, nem fatal
A ideia de uma nuvem se faz crer,

Jaz — uma terra não — não um solo
Mas estranha, gelando em desconsolo
A alma que vê esse pais sem véu,

Hirtamente silente nos espaços
Uma floresta de escarnados braços
Inutilmente erguidos para o céu.
2 996
João Fortunato

João Fortunato

História Triste

Ao Vasco Granja

Debaixo da magnólia
No jardim sossegado
O menddigo adormecera…

Agora,
Já não tinha calor
Aquele corpo enregelado,
Ali, no banco, abandonado,
A vida, dele se esquecera.

Uma flor que caíra
Ao velho chapéu se lhe prendera…
E os raros que passavam
Na noite silencioso,
Não passavam,
E, de mais não cuidando,
Riam
Da caricatura
Do chapéu roto florido!

Somente um cão vadio
Que se fora aproximando
Tentou saber quqlquer coisa;
Mas logo também se ia,
Soltando triste latido,
Ao sentir a mão tão fria
Que, do banco, imóvel, pendia…

Neste momento fugiu
Um pássaro que se assustou;
A magnólia estremeceu,
E mais uma flor tombou…

Já longe, o cão vadio,
Aos pávidos astros uivou…

(in Antologia de Poetas Alentejanos)

837
José Maria Nascimento

José Maria Nascimento

Tempos de Zona

A gilete se aprofunda sobre um amontoado de sífilis
as coxas um mapa de tantas cicatrizes.
Em cada mesa uma constante mudança
nunca ou quase nunca renovada
que é infeliz a nostálgica canção
brotando do disco como brota um fruto.

A toalha que envolve o corpo
é a miragem de tantas taras
é a fumaça perdida no trago
é a faca jogada no bueiro
é o anel cravado nos dentes
é o ouro entranhado no ventre
é o líquido da virgindade vendida.

Por dentro de uma garrafa
toda uma vida aqui se torna calma.
No espaço do gole
para o soluço inauguramos
os encontros passados com os amigos mais tristes
bailando nesta rua 28
vinte e oito vezes apaixonados.

850
João Manuel Simões

João Manuel Simões

Diálogo Comigo

Falo comigo, falo.
Mas só me escuto quando,
em silêncio pensando,
me calo.

O que diz minha boca?
Mentira vã, sonora?
Tudo o que digo agora,
sufoca.

Ânsia íntima, larga,
de seguir só e mudo.
Tudo o que conto, tudo
amarga.

Minha voz de ontem brota
de um legendário hoje.
Subitamente foge,
ignota.

Quem serei? Desconheço.
Se chegar a sabê-lo,
a ninguém o revelo:
esqueço.

961
Jorge Nascimento

Jorge Nascimento

Auto-retrato

Cresce dentro de mim, doloroso, humilde pranto;
Alma surda e esquizofrênica, inútil de tristezas,
Desertei da vida pela aspiração do amargo canto
E mesmo assim ainda tive que banhar-me de torpezas;

Quem agora irá prover a insanidade do meu sonho,
Eu, que sempre tive o bem ajustado e negro desvario
De nunca permanecer nas proporções onde me ponho,
Errante e só, comandado pela minha bússola de desvio

Sempre a refulgir, nos oceanos de uma sinistra paz;
Meu reino imbecil, descoberto por defeituoso impostor,
Repetente de todas as classes da infâmia sempre audaz;

Minha terra sombria de obscenidade, na voz de um homem
A quem determinaram inteira sujeição ao destino opressor,
Abençoado, enquanto vida tiver, as horas que me consomem!

1 018
Jorge Nascimento

Jorge Nascimento

Temporalidade do Desígnio

Já é tempo de construir o poema,
sentir que tudo foi exposto à crítica
e assim revisitar ocultos locais da mente.
Já é tempo de codificar o estilo,
confrontá-lo com as horas mortas
e reanimar todos os sentimentos vazios.
Já é tempo de atribuir-se condição
e sobrepor-se acima do tédio vital,
reanimando sozinho todas as vicissitudes.
Já é tempo de não contemporizar com os erros
e demonstrá-los na imperfeita tábua da lei,
feita para administrar os mais íntimos conflitos.
Já é tempo de renunciar ao medo e expor-se
aos desígnios do tempo magoados de esperanças.
Já é tempo de retornar ao amor das palavras impronunciadas,
readquirindo confiança na sabedoria das sílabas tortas
e novamente sentir a febre de quem recomeça a vida
com a certeza de estiolar novas e gradativas angústias
em meio ao torpor das inutilidades,
fazendo-se monge da solidão e confessor de si mesmo
e fugir para o desvão das ruas noturnas e becos absconsos.
Somente assim será possível a reconstrução tão almejada
de reflorescer no presente as esperanças mortas do passado
que ainda insistem em sobreviver de alegorias
e expectativas elementares que se iniciam
com a nitidez das auroras e fundam-se
com o ácido arrebol das ilusões partidas.
Já é tempo de recomeçar a viver mais uma vez
cultivando sonhos e recusando realidades
e deste modo retornar tranqüilo e confiante
ao deserto onírico das mágoas crepusculares
tão sábias em tecer enigmas e decifrar antigos sofrimentos.

855
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

DILUENTE

DILUENTE

A vizinha do número quatorze ria hoje da porta
De onde há um mês saiu o enterro do filho pequeno.
Ria naturalmente com a alma na cara.
Está certo: é a vida.
A dor não dura porque a dor não dura.
Está certo.
Repito: está certo.
Mas o meu coração não está certo.
O meu coração romântico faz enigmas do egoísmo da vida.

Cá está a lição, ó alma da gente!
Se a mãe esquece o filho que saiu dela e morreu,
Quem se vai dar ao trabalho de se lembrar de mim?
Estou só no mundo, como um peão de cair.
Posso morrer como o orvalho seca.
Por uma arte natural de natureza solar,
Posso morrer à vontade da deslembrança,
Posso morrer como ninguém...
Mas isto dói,
Isto é indecente para quem tem coração...
Isto...
Sim, isto fica-me nas goelas como uma sanduíche com lágrimas...
Gloria? Amor? O anseio de uma alma humana?
Apoteose ás avessas...
Dêem-me Agua de Vidago, que eu quero esquecer a Vida!
1 339
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

There is no peace save where I am not,

There is no peace save where I am not,
The woods are gay where I never pass,
Nothing but shadows are where my thought
Plunges its feet in the moist dead grass.

Nothing save shadows and day elsewhere
Waiting for those that await and hope.
A horror lays its wind on my hair,
And a cold hand does for my cold hand grope.

Yet nothing in me save pain merits this,
Nothing in me save this merits pain.
Oh, Mother of Shadows, whose ice-dead kiss
Is madness, hasten towards my brain!
1 044
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

NAVAL ODE

Alone, on the deserted quay, this summer morning,
I look towards the bar, I look towards the Indefinite,
I look and find pleasure in seeing,
Little, black and clear, a steamer coming in.
It is very far yet, distinct and classic after its own fashion.
It leaves on the distant air behind it the vain curls of its smoke.
It is coming in, and morn comes in with it, and on the river
Here, there, naval life awakes,
Sails arise, tugs advance,
Small boats jut out from behind the ships in the port.
There is a vague breeze.
But my soul is with the things that I see least,
With the in-coming steamer,
Because it is with Distance, with Morn,
With the naval meaning of this Hour,
With the painful softness that rises in me like a qualm,
Like a beginning of sea-sickness, but in my soul.

I look from afar at the steamer, with a great independence of mind
And a whell begins to spin in me, very slowly.

The steamers that enter the bar in the morning,
Bring to my eyes with their coming
The glad and sad mystery of all who arrive and depart.
They bring memories of distant quays, and of other moments
Of another kind of the same mankind in other ports.
Every (...), every departure of a ship,
Is — I feel it in me like my blood —
Unconsciously symbolic, terribly
Threatening metaphysical meanings
That startle in me the being I once …

Ah, every quay is a regret made of stone!
And when the ship leaves the quay
And we note suddenly that a space is widening
Between the quay and the ship,
There comes to me, I know not why, a recent anguish,
A mist of feelings of sadness
That shines in the sun of my mosy anguishes
Like the first window the morning strikes on,
And clings round me like some one else's remembrance
Which is somehow mysteriously mine.

Ah, who knows, who knows,
If I did not leave long ago, before Myself,
A quay; if I did not depart, a ship in
The oblique sun of morning,
From another kind of port?
Who knows if I did not leave, before the hour
Of the exterior world as I see it
Dawned for me,
A large quay full of few people,
Of a great half-awakened city,
Of a great city commercial, overgrown, apopletical,
As much as that can be outside Time and Space?

Ay, from a quay, from a quay somehow material,
Real, visible as a quay, really a quay,
The Absolute Quay on whose type, unconsciously imitated,
Insensibly evoked,

We men have built
Our quays in our harbours,
Our quays, of actual stone overlooking true water,
Which, once built, suddenly show themselves to be
Real-Things, Things-Spirits, Entities in Stone-Souls,
At certain moments of ours of root-sentiments
When it seems that a door is opened in the outer world
And, without anything changing
Everything reveals itself to be different.

Ah, the Great Quay whence we embarked in Ship-Nations!
The Great Earlier Quay, eternal and divine!
Of what port? Over what waters? And why do I think of this?
A Great Quay like all other quays, but the Only One.
Full, as they are, of murmurous silences in the fore-dawns
And budding with the dawns in a noise of cranes
And arrivals of goods-trains
And under the black, occasional and light cloud
Of the smoke of the chimneys of the near factories
Which clouds its ground, black with small shining coal,
As if it were the shadow of a cloud passing over dark water.

Ah, what essentiality of mystery and arrested senses
In a divine revealing ecstasy
At the hours coloured like silences and anguishes
Is the bridge between any quay and THE QUAY!

Quay blackly reflected in the still waters,
Suddle [?] on board the ships,
Oh wandering and unstable soul of the people who live in ships,
Of the symbolic people who pass and for whom, nothing lasts
For when the vessel returns to the port,
There is always some change on board!

On continual flights, goings, drunknness of the Different!
Eternal soul of navigators and navigations!
Hulls slowly reflected in the waters
When the ship leaves the port!
To float as soul of life, to depart as voice,
To live the moment tremulously on eternal waters!
To wake to more direct days than the days of Europe,
To see mysterious ports over the loneliness of the sea,
To double distant capes and see sudden great landscapes
Of unnumbred astonished alones!

Ah, the distant beaches, the quays seen from afar,
And then the near beaches and the quays seen from near.
The mystery of each departure and of each arrival,
The painful instability and incomprehensibility
Of this impossible universe
At each naval hour ever more deeply felt right in my skin.
The absurd sob that our souls spill
Over the ever-different tracts of seas with islands afar,
Over the distant lines of the coasts we merely pass by,
Over the clear growing-clear of ports, with their houses and their people,
When the ship nears the land.

Ah, the freshness of morns when we arrive,
And the paleness of the morns when we depart,
When our entrails are gripped up
And a vague sensation resembling a fear
— The ancestral fear of going away and leaving,
The mysterious ancestral terror of Arrivals and New Things —
Grips up our skin and gives us qualms
And all our anguished body feels,
As if it were our soul,
An unexplained desire to feel this in some other way:
A regret at something,
A perturbation of tendernesses towards what vague fatherland?
What coast? what ship? what quay?
That thought sickens within us
And only a great vaccum remains in us,
A hollow satiety of naval minutes,
And a vague anxiety that would be weariness or pain
If it knew how to be that…

The summer morning is, nevertheless, slightly cool,
A slight night-dullness lies yet on the shaken air.
The wheel within me quickens its motion slightly.
And the steamer keeps on coming in, because surely it must coming in,
And not because I see it moving in its excessive distance.

In my imagination it is already near and visible
In all the extent of the lines of its portholes,
And everything trembles in me, all my flesh and all my skin,
On account of that creature that never arrives in any ship
And whom I have come to await to-day on this quay, through an oblique command.
1 671
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Meu coração, mistério batido pelas lonas dos ventos...

Meu coração, mistério batido pelas lonas dos ventos...
Bandeira a estralejar desfraldadamente ao alto,
Árvore misturada, curvada, sacudida pelo vendaval,
Agitada como uma espuma verde pegada a si mesma,
(...)
Para sempre condenada à raiz de não se poder exprimir!
Queria gritar alto com uma voz que dissesse!
Queria levar ao menos a um outro coração a consciência do meu!
Queria ser lá fora...
Mas o que Sou? O trapo que foi bandeira,
As folhas varridas para o canto que foram ramos,
As palavras socialmente desentendidas, até por quem as aprecia,
Eu que quis fora a minha alma inteira,
E ficou só a chapéu do mendigo debaixo do automóvel,
Estragado estragado,
E o riso dos rápidos Soou para trás na estrada dos felizes...
1 172
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

CORPOS

O meu corpo é o abismo entre eu e eu.

Se tudo é um sonho sob o sonho aberto
Do céu irreal, sonhar-te é possuir-te,
E possuir-te é sonhar-te de mais perto

As almas sempre separadas,
Os corpos são o sonho de uma ponte
Sobre um abismo que nem margens tem

Eu porque me conheço, me separo
De mim, e penso, e o pensamento é avaro

A hora passa. Mas meu sonho é meu.
2 161
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Cossante

Ondas da praia onde vos vi,
Olhos verdes sem dó de mim,
Ai Avatlântica!

Ondas da praia onde morais,
Olhos verdes intersexuais.
Ai Avatlântica!

Olhos verdes sem dó de mim,
Olhos verdes, de ondas sem fim,
Ai Avatlântica!

Olhos verdes, de ondas sem dó,
Por quem me rompo, exausto e só
Ai Avatlântica!

Olhos verdes, de ondas sem fim,
Por quem jurei de vos possuir,
Ai Avatlântica!

Olhos verdes sem lei nem rei,
Por quem juro vos esquecer,
Ai Avatlântica!
1 453
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Desperto de sonhar-te

Desperto de sonhar-te
Quando inda a noite é funda,
E um céu estelar faz parte
Do silêncio que inunda.
Perdi poder amar-te
E a treva me circunda.

Talvez que relembrasse,
Sonhando-te, outro ser,
E aquilo que sonhasse
Fosse tornar a ter.
Mas despertei, e faz-se
Claro em meu quarto a ver.

Insónia de perder-te!
Quem foste já não sei.
Pela janela verte
Cada astro a sua lei.
Como, sem sonhar ter-te?...
Porque não dormirei?
1 375
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

E o som só dentro do relógio acentuado

E o som só dentro do relógio acentuado
No serão sem ninguém das casas de jantar da província
Põe-me o tempo inteiro em cima da alma,
E enquanto não chega a hora do chá das tias velhas,
O meu coração ouve o tempo passar e sofre comigo.

Tic-tac mais sonolento que o dos outros relógios —
Na parede, de madeira, este tem pêndulo e oscila.
O meu coração tem saudades não sabe de quê.
Tenho que morrer...
Tic-tac mecânico e certo — serão sereno mecânico na província.
1 589
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

A quem a Natureza não fez belo

A quem a Natureza não fez belo
Com seu corpo lhe disse: Tu não ames!
A fealdade é o destinado selo
Com que uma alma é votada à solidão.
1 414