Poemas neste tema

Solidão

William Carlos Williams

William Carlos Williams

Danse Russe

If when my wife is sleeping

and the baby and Kathleen

are sleeping

and the sun is a flame-white disc

in silken mists

above shining trees,-

if I in my north room

dance naked, grotesquely

before my mirror

waving my shirt round my head

and singing softly to myself:

"I am lonely, lonely,

I was born to be lonely,

I am best so!"

If I admire my arms, my face,

my shoulders, flanks, buttocks

against the yellow drawn shades,-

Who shall say I am not

the happy genius of my household?

1 143
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

A noite é muito escura

É noite. A noite é muito escura. Numa casa a uma grande distância
Brilha a luz duma janela.
Vejo-a, e sinto-me humano dos pés à cabeça.
É curioso que toda a vida do indivíduo que ali mora, e que não sei quem é,
Atrai-me só por essa luz vista de longe.
Sem dúvida que a vida dele é real e ele tem cara, gestos, família e profissão.

Mas agora só me importa a luz da janela dele.
Apesar de a luz estar ali por ele a ter acendido,
A luz é a realidade imediata para mim.
Eu nunca passo para além da realidade imediata.
Para além da realidade imediata não há nada.
Se eu, de onde estou, só vejo aquela luz,
Em relação à distância onde estou há só aquela luz.
O homem e a família dele são reais do lado de lá da janela.
Eu estou do lado de cá, a uma grande distância.
A luz apagou-se.
Que me importa que o homem continue a existir?


08/11/1915
2 004
Paulo Teixeira

Paulo Teixeira

Cidade ao nascer da lua

A toda a largura do pano vê-se a cidade
com o seu perfil a velar-se, bizantino,
no poente. Abismada está na própria imagem,
onde o brilho do crisólito lembra,
num relance, o seu esplendor perdido:
invólucro fetal lançado, noite calada,
na água que ressuma, lenta, junto às margens.

O ouro foi todo acrisolado na água
em que ferveram as cinzas e a escória
de metais. A chuva e o vento vão
exfoliando as paredes, moendo as tintas,
até se não reconhecer mais o festo às fachadas.
Entre a solidão hirta das duas torres
a lua, mormosa, insinua-se.
648
Renato Rezende

Renato Rezende

Passeio

Demoro-me
no centro da cidade,
no Castelo, no Passeio.
Demoro-me
no Rio de Janeiro
como se fosse outrora
e se dissesse:
Ele demorava-se no Centro,
a esmo.
Demoro-me como quem quer
ser atropelado
sumir num tropeção
esquecer-se de si mesmo.
Demoro-me como se demoram
os mendigos que moram na rua
e que esperam o dia inteiro
para suas casas serem abandonadas.
Demoro-me como um destituído
cuja única felicidade
o clarão de luz na cara.


Rio de Janeiro, 2 de fevereiro 1997
1 051
Paulo Teixeira

Paulo Teixeira

Autobiografia cautelar

1
Como se escreve a vida com pronomes trocados,
se tudo nela se recusa a ser uma história
urdida em encontros e aventuras,
país como Helvécia onde nada acontece,
a peça sem mudança de cena onde,
antes de se dar por isso, cai o pano
que o espectador, entre o cínico e o cénico,
duvida alguma vez ter sido içado.    


2
Escrever a vida: tarefa odorífera
como a do homem que desenterra cadáveres
e os expõe para dissecação na mesa fria,
fétida cloaca onde não houve Brama
mais que o bramir das ondas,
nem aura que por ti subisse, helicoidal,
dias como serpentinas, céus como ovos de Páscoa,
transubstanciação em pleno dia,
fortuna em descendência colateral,
causas como Bilbau e Belfast,
violação e rapto para uma ilha deserta,
clímaces de ondas electromagnéticas
num qualquer hemisfério cerebral,
hipérbole (fora do poema),
nada que te olhe da altura de dois andares
na hierarquia dos teus dias;
só este sabor biliar que ascende à boca
de uma ferida ulcerada
no eixo transverso da alma.


3
Autobiografia do que se perdeu
como bagagem abandonada no passeio
e só a custo resgatas do oblívio;
bocados de canções que algum dia
te prenderam a uma coisa terrena;
o nome de duas ou três cidades
onde terias ficado um dia mais;
rostos que contigo se cruzaram
— puro assomo de beleza na noite —
sem deixarem sequer o leve tambor
dos seus dedos nas espáduas;
amigos em conversa com suas certezas
à mesa da solidão jornaleira;
amigos: perdidos em morte, indiferença,
cabalas de quem julgou que a poesia
podia ser a feira que lhes faz falta.


4
Autobiografia? Só a do efémero
ou do entardecer que dura
como único deslumbramento, fiel a ti
como gravata colorida, pura cenografia
sem palavras, carta do país das Hespérides
onde nunca ninguém foi nem espera de ti resposta.
631
Paulo Teixeira

Paulo Teixeira

Mulher à janela

Ela queria tomar o partido do visível,
a visão como vela armada para a viagem,
tensa como a corda do arco
na suspensão do gesto inocente sobre a seta.
Debruçada, num ofício de corpo presente,
viu passar toda a blandícia na brisa.

Agora recolhe-se ao copo facetado
de que uma só face dá para o mundo
como a alma no azul escuro de um vitral,
o vinho quente no fundo de um cálice:
o quarto onde guarda o estojo da sua vida
com o sombreamento do dia no soalho.

Exasperada pela cintura de gelo da vidraça,
para onde declina lentamente a face,
estenderia o braço se o ser em cada coisa
lhe fosse dado tocar: o mundo
de que ela fosse mais que o alto-relevo
fixo para sempre na moldura da janela.
757
Renato Rezende

Renato Rezende

Prenúncios de Gaivotas

Sou uma alma pequena
pousada na Terra.
Mais precisamente pousada numa pedra
na Urca, esta tarde.
Observo as nuvens, o céu
as gaivotas, o mar.
Tudo passa.
Adiante caminham
no calçamento da encosta da praia
--que brilha num banho de luz e ar--
dezenas de pessoas iguais a mim.
Todas passam, mas não notam
o esplendor da natureza.
Todas passam e percebo que pensam,
e são seus pensamentos que limitam o mar.
Seria a mente o limite do tempo?
Estamos todos vivendo menos,
presos dentro de nós mesmos.
Estamos todos sós
neste planeta azul, sob o sol.
Mas sinto que se der um salto
aprendo a voar.


Rio de Janeiro, 24 de fevereiro 1997
933
Nuno Júdice

Nuno Júdice

Aqui onde nada me espera

Aqui onde nada me espera, múltiplo
de nada e vestígio de um puro resto,
deixo-me ficar, deitado para o fundo
da terra e de costas para o horizonte,
na expectativa de hora nenhuma;
e um insecto de tempo pousa-me nos ombros,
toca-me com as suas asas impuras,
suja-me de vagos minutos - até que,
numa impaciência de dedos,
o esmago.



Nuno Júdice | "A Condescendência do Ser", pág. 25 | Quetzal Editores, 1988
1 161
Paulo Teixeira

Paulo Teixeira

Berghain

A cidade desliza lá fora com o luar.
Dentro, vai-se enchendo o silo de cimento.
Sobe-se por esta realidade arborescente
até à sala parlamentar onde,
sob uma vagina de Wolfgang Tillmans,
os olhos falam com o medo
a constelar as faces de desejo.

O desespero busca exprimir-se
no movimento acelerado dos braços,
no puro dinamismo dos ossos,    
a telegrafia sem fios:                 
a ela se entregam os funâmbulos
sobre altos cubos negros;
para ninguém ensaiam as suas acrobacias
e sortes de prestidigitação.

O ideograma das luzes banha-os
como num palco.
Desatrelados, soltos,
os corpos secos e nervosos             
deixam ver o íncubo,
o duplo espectral:
aqui acedem a um breve estatuto icónico,
emaciados cristos de tronco nu
e leather pants.

O WC é logo ali ao lado
e nas guaritas ao fundo do salão
perde-se em manobras de bastidores
quem não arrisca ir mais longe,
descer às fundas minas de estanho,
avançar às apalpadelas por território desconhecido,
o labirinto onde o Minotauro se alimenta
da carne de sete rapazes —
há que habituar os olhos à penumbra,
ao movimento dos corpos a tremeluzir
numa silente inquirição.

A música é um moscardo que zumbe ao longe
e o mundo apenas esse estrondo residual.   
 
No triclínio, sobre um colchão sujo,
ou contra os pilares —
o stalker vigia a solidão
que aqui abriu a sua cerca.
572
Paulo Teixeira

Paulo Teixeira

Paisagem de inverno com igreja

«Nem braçada de lenha ou polvorinho de chifre
assinalam à maneira de cascos o caminho.
Nem berro de animal ou som de corneta acústica
se ouvem no deserto que vai de mim ao vulto
das montanhas como velas enfunadas na bruma.
A terra mudamente foi lavada pela neve
que a noite ilumina com a luz de branca cambraia
ou linho. Descarnadas foram as peles
e passada a carne pelo fumeiro.
Todos beberam esse licor de pétalas maceradas
sentados na távola redonda do entardecer.
Mas nem a luz das candeias nas janelas
ou o vapor doce da comida me dizem,
enquanto um rosário fremente passa
nas mãos frias, “Vem”, “É aqui a tua casa”.»
525
José Miguel Silva

José Miguel Silva

Estela Funerária

Era um rapaz sem vocação para o caminho,
um arco sem arqueiro.
Chama-se Elpenor.

Mais do que a palavra preocupava-o a lama
na sandália do poeta,
a mancha no tapete.

Movia-o a coragem de estar só,
divisão dos que celebram
o massacre da esperança.

Caiu a sua casa, vendeu as suas veias,
partiu para o desastre,
chegou à nossa frente.
1 048
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

27 - THE BROKEN WINDOW

THE BROKEN WINDOW

My heart is silent as a look.
There is a home beyond the hills.
My heart is silent as a look.
My home is there, beyond the hills.

I bear my heart like an old curse.
There is no reason for regret.
I bear my heart like an old curse.
Why should we reason or regret?

My heart dwells in me like a ghost.
Beyond the hills my hope lies dead.
My heart dwells with me like a ghost.
Beyond my hope the hills lie dead.

They took away my heart like weeds.
It was not true that I should live.
They took away my heart like weeds.
I could not think it true to live.

Now there are great stains in my heart.
They are like blood-stains on a floor.
Now there are great stains in my heart.
And my heart lies upon the floor.

The room is closed for ever now.
My heart is now buried alive.
My heart is closed for ever now.
The whole room is buried alive.
4 745
José Miguel Silva

José Miguel Silva

Não sei se são os trinta anos

Não sei o que se passa comigo:
cada vez me assusta mais a solidão.
Aos vinte anos, aos vinte e cinco,
figurava o paraíso como um quarto vazio,
onde o silêncio de um livro ressoava
pela noite dentro. Protegia dos amigos
minhas horas, dos irmãos, dos apelos
do telefone. Como um cego de nascença,
estudava a escuridão. Sonhava-me
recluso numa ilha de fragais, rodeado
de trincheiras, distante de pracetas,
acenos, convites para jantar:
O lamento era o meu hobby preferido.

Não sei se são os trinta anos, a chuva,
o sabor de mais um dia derrubado
nos transportes colectivos,
A queda maligna das primeiras folhas;
não sei o que é, talvez o teu amor
comece, pouco a pouco, a civilizar-me.
Agora, se chego a casa e tu não estás,
corro a pôr música, abro janelas,
agarro-me ao telefone, como um náufrago,
incapaz de suportar por um segundo
o terror emboscado debaixo da cama,
atrás das estantes, dentro de mim.
1 348
Renato Rezende

Renato Rezende

Águas de Março

Amanhece chovendo
no meu apartamento
em Laranjeiras.
Tudo está mais lento.
Até mesmo o morro de pedra, sob a água,
o mirante de Dona Marta
fica mais doce, doce molhado, doce aço.
Chega até minha cama de solteiro
o cheiro suave da chuva,
e do vento:
o casamento
entre todos os elementos do universo.
Trégua
na luta geral da vida.
A cortina d'água na janela
se transforma numa tela
onde se projeta meu exílio
(esta vida nesta terra).
Memória.
A chuva molha
antigas companheiras
de cama em manhãs cinzentas como esta.
As férias na fazenda,
a infância
e o que ela teve de assombrosa e santa.
As tardes solitárias
na Espanha, na Itália, na França.
Ah, a Europa
de poliglotas cópulas.
(Toda chuva
a continuação da última).
Talvez em algumas dessas horas
eu tenha sido pleno.
Talvez em alguns desses momentos
de silêncio
eu tenha sido inteiro.
Chove. A água
silencia o tempo
e une a pedra à alma.


Rio de Janeiro, 17 de março 1997
962
Renato Rezende

Renato Rezende

Copacabana, 1997

O mar brilha e arde.
O mar, areia líquida.
É tarde
em Copacabana
e na minha vida.
Pessoas de idade
caminham de mãos dadas.
Jovens quase pelados
patinam em velocidade
ou jogam vôlei.
Crianças gritam
atrás de bolas e cachorros.
A luz excessiva
me fere a vista.
A vida excessiva
me fere a vida.
Atravesso a avenida
em alta perplexidade.
"Quem sou eu e o que faço
entre as coisas?"
Sem nenhuma vontade
me sento
me disfarço
e peço um copo de álcool.

Depois danço e grito e salto.


Rio de Janeiro, 2 de abril 1997
929
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Mother of things impossible,

Mother of things impossible,
Sister of what can never be,
Thou whose closed lips will never tell
The words whose lack is misery
Sit by my side while I ignore.
Smile by my ignorance of thee,
And my lost solitude restore.

O life is sad as things unwilled,
Love is the day that never comes
To those blind as my soul, and filled
With that presade of coming drums
When the city shall fall, that haunts
The inner vision whose night hums
In us while death startingly chaunts.

O interpret my soul to me!
Give me no truth, no sight, no road,
But take from me the misery
Of conciousness and the unseen goal
Of seeking ever what doth seem.
Lighten with being-near my load!
O let me hold thy hand and dream!


22/07/1916
4 421
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

When shall we rest?

When shall we rest?
The ceaseless waves
They have no quest.
The trees peace-ripe.
Their lifeless life
From sorrow saves.

When shall we go?
Wither? We care
Nothing to know.
Sorrow is here.
Aught may us cheer
Now of dim there.

What in us shall
Cease and leave peace?
Life holds in thrall
Our joy like pain,
Our loss-like gain,
Our stayed release.

Love cannot bless.
Bliss cannot live.
Joy's short caress
Passes like wind
Suddenly thinned
We dream and grieve.

Outward from us
There lies the land
Less luminous,
Where we may rest,
Leaving all quest,
Wishing no strand.

Ready the bark
For our repose.
Let us embark.
The sea is lone?
We are alone,
Pain but pain shows.

Remember nought.
Cease like a light
Suddenly not.
Merge like a dream
Into the stream
Of its own night.


25/04/1917
4 466
Jorge Melícias

Jorge Melícias

À beira das salinas os homens declinam,

as cabeças como cometas fulminantes.

De longe a longe vêm os filhos,

trazem a solidão como um metal aceso nas costas

trazem um enxame de dardos.

E a memória é um pulso atravessado.

Quando partem fecham atrás de si as portas,

e os homens voltam a sentar-se sobre as estacas

e brilham.

de A Luz nos Pulmões(2000)

888
José Miguel Silva

José Miguel Silva

Sinopse

Nem martelo nem bigorna, como sempre
desejei: as tardes à janela, sem vizinhos nem
ardis, a injustiça reduzida ao mecanismo
natural da bicharada, o lavradio do amor
a tempo inteiro.

Só me falta, para tudo
proteger em cobardia, uma campânula
de cego na cabeça, aprender a fechar olhos
e ouvidos ao avanço hertziano da desdita.
Então serei feliz e integral como um cadáver.
1 045
Paulo Teixeira

Paulo Teixeira

Carta do Pacífico

Rot ist der Abend auf der Insel von Palau
                                    und die Schatten sinken —

                                                                              Gottfried Benn


Querem-me de volta
deste posto avançado do Império
e eu quero ser só massa de gelo do Norte
à deriva em águas quentes.

Vaguear de ilha em ilha
seguindo a pista que os seus nomes
gravaram num mapa mudo,
tendo por religião esta imoralidade
amável de quem mostra as partes sem pudor,    
e meditar sob um telhado em forma de cone
a um deus sem nome ainda.

Apanhar o que o mar traz à praia,             
as mercadorias lançadas pelos vapores de passagem,
folhas de palma, mangas e papaias,                   
no bolso escondido um punhal malaio.    

Podia morrer aqui — esplendidamente.

Proscrito, exilado,                             
banido eu mesmo da Fama,
só, mas valente e leal ao meu nome,
sem armas nem mea culpa,
com um grande vazio na memória —           
sob outra constelação zodiacal.

Querem-me salvo e praticável
e eu desejo é estar à margem,         
ser orla, limítrofe,
lá onde no molhe rebenta a onda      
que vem de longe e chega aos pés da casa.

Nada me redime
e sei que nada mereço —
honras e comendas,
rendas e reparações de guerra.

A minha réplica preferida é a brisa.

Este o meu cavalete —             
curvas, meandros,
uma enseada na hora
em que se atenuam os contornos
e se resolve, num misto de fumo e de névoa,    
a última disposição atmosférica.

A floresta das chuvas
abriu clareiras de verde
no Pacífico azul.

O mundo é uma elegia distante
e a Europa: esta ficção retrospectiva.
684
Renato Rezende

Renato Rezende

No Lixo

O homem mais bonito
está catando restos
no depósito de lixo.
A pessoa pura
se perdeu em apuros.
No mundo moderno
o amor é complexo:
quanto menos beijo
mais eterno.
Há várias epidemias
que assolam a população
como se fôssemos vermes.
Mas não morremos.
Sobrevivemos
ao próprio tempo.
No meio da multidão
no Paço
Imperial,
na estação Central,
eu juro
eu confesso
que me perco.
Sou ninguém,

mas tenho o coração aceso.


Rio de Janeiro, 18 de abril 1997
960
Manuel António Pina

Manuel António Pina

Sob escombros

Um tempo houve em que,
de tão próximo, quase podias ouvir
o silêncio do mundo pulsando
onde também tu eras mundo, coisa pulsante.

Extinguiu-se esse canto
não na morte
mas na vida excluída
da clarividência da infância

e de tudo o que pulsa,
fins e começos,
e corrompida pela estridência
e pela heterogeneidade.

Agora respondes por nomes supostos,
habitante de países hábeis e reais,
e precisas de ajuda para as coisas mais simples,
o pensamento, o sofrimento, a solidão.

A música, só voltarás a escutá-la
numa noite lívida,
uma noite mais vulnerável do que todas
(o presente desvanecendo-se, o passado cada vez mais lento)
um pouco antes de adormece
sob escombros.

Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", pág. 360 | Assírio & Alvim, 2012

1 640
Renato Rezende

Renato Rezende

O Balde

Rio de Janeiro,
minha cidade de agora.

Me preencho
com teu peso.

Sou um balde que flutua
com um furo
em tuas águas sujas
e pouco a pouco afunda.

As três da madrugada
às três da tarde,
no túnel, na orla;
a mesma hora
se desdobra

desde o Império romano?

Rio de Janeiro, segundo milênio
da era de Cristo

quase findo.

O umbigo é o centro
do universo. O umbigo
de ninguém em concreto.

Tempo de menos.

Os que estão vivos
mal compreendem a vida.
Somos muito milhões de indivíduos
e para a maioria deles
não teria nada a dizer.

A não ser, talvez
"toda vida
é sagrada"
(e isto dito
dar as costas).

Conheço umas centenas de pessoas
que são minha idéia de humanidade.
Acho a humanidade doce.
Estou só.

Tenho desejos.
Mas nenhum ímpeto.

Até mesmo o sexo
ficou melhor imaginado
do que vivido.

Atravesso vários bairros
várias vidas.

Sou ouro e lixo.
Nas minhas asas puras
acolho, recolho
tua porra
e tua excremento.

Rio eterna
efêmera
aberta
Roma, Atenas, Pompéia.


Rio de Janeiro, 2 de maio 1997
721
Manuel António Pina

Manuel António Pina

As coisas

Há em todas as coisas uma mais-que-coisa
fitando-nos como se dissesse: "Sou eu",
algo que já lá não está ou se perdeu
antes da coisa, e essa perda é que é a coisa.

Em certas tardes altas, absolutas,
quando o mundo por fim nos recebe
como se também nós fôssemos mundo,
a nossa própria ausência é uma coisa.

Então acorda e os livros imaginam-nos
do tamanho da sua solidão.
Também nós tivemos um nome
mas, se alguma vez o ouvimos, não o reconhecemos.


Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", pág. 356 | Assírio & Alvim, 2012

2 384