Poemas neste tema

Solidão

Carlos Felipe Moisés

Carlos Felipe Moisés

As Formas do Branco

Caminho pela neve
e o mundo principia neste branco.
Tenho a verdade, sonho breve,
branco retido no branco.

Girassol amanhecido longe,
a verdade apareceu-me nesse branco.
Tempo devorado como carne, corpo ferido,
vermelho sobre o branco.

Os pássaros nascem nas nuvens,
azul distante.
Tinha a verdade, perdi-a:
branco escondido no branco.

(Urna diurna, in Poemas Reunidos, São Paulo, Cultrix, 1974)

980
Carlos Felipe Moisés

Carlos Felipe Moisés

Retrato

Ah quem viu? Quem vê?
Onde se esconde a pátina invisível
que cobrindo está
eu sei
estas palavras
estas mãos
o sono
e quando olho é brisa?
O mundo exíguo aumenta
no soluço reticente.
Ponte rio estrada
o céu a casa
e o corpo descontente.
Mulher? Criança? Não foi.
É o sol
que lentamente se levanta
e grava a solitária imagem
em pálpebras reclusas.
Absurdo, o amor desliza.
Oferta sonho recusa
repto sudário:
o amor é vário
e as vozes obtusas.
Foi? Não foi?
Palácio ou cornamusa
o mundo nítido é fatal ausência.
O céu — destino
a intenção — certeza
e a incerteza se desnuda
na moldura breve do meu riso.

863
Carlos Felipe Moisés

Carlos Felipe Moisés

Cavalo Alado

Foi como ervas e arrancaram-no.
Hoje pasta absorto em campo sombrio
(perdido vôo, exílio nefasto) e
lambe cicatrizes de ferida nenhuma.

Às vezes relincha, reclina
o dorso à procura de um rasto,
resto de fome clandestina,
mas não rasteja: ergue a fronte
e sopra dardos de fogo no horizonte.

O pouco do nada que lhe coube
é muito. O peito chora sem lágrimas
enquanto a cauda e a mansa crina
ondulam (brisa leve, pranto
alheio), rolando nas dunas
e nas ervas que foi, entre urzes.

Arrancaram-no mal raiou a madrugada.
Hoje pasta absorto entre sombras,
se alimenta da noite e sabe
que eterno dura. Mais nada.

(Subsolo, São Paulo, Massao Ohno, 1989)

1 298
Carlos Figueiredo

Carlos Figueiredo

Fosse o hálito dos tigres

Fosse o hálito dos tigres
bálsamo

e reconciliasse
a carne pântana
que recobre como fios de amianto
esse interior em que vive
estrangeiro de si mesmo
isso que parece ser o ser humano

E findasse esse exílio

799
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

«Ribeirinho, ribeirinho,/Que vais a correr ao léu

«Ribeirinho, ribeirinho,
Que vais a correr ao léu
Tu vais a correr sozinho,
Ribeirinho, como eu.»
1 642
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

«Vesti-me toda de novo

«Vesti-me toda de novo
E calcei sapato baixo
Para passar entre o povo
E procurar quem não acho.»
1 334
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Sapatos

sapatos no armário como lírios de Páscoa,
meus sapatos sozinhos neste momento,
e outros sapatos com outros sapatos
como cães andando por avenidas,
e o fumo por si só não basta
e eu recebi uma carta de uma mulher num hospital,
amor, ela diz, amor,
mais poemas,
mas não escrevo,
não me entendo,
ela me manda fotografias do hospital
tiradas do ar,
mas me lembro dela em outras noites,
não morrendo,
sapatos com saltos como adagas
parados ao lado dos meus,
como essas noites fortes
podem mentir pra caramba,
como essas noites ficam quietas afinal
meus sapatos no armário
sobrevoados por casacões e camisas desengonçadas,
e eu olho para o buraco deixado pela porta
e as paredes, e não
escrevo.
1 216
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

A Goeldi

De uma cidade vulturina
vieste a nós, trazendo
o ar de suas avenidas de assombro
onde vagabundos peixes esqueletos
rodopiam ou se postam em frente a casas inabitáveis
mas entupidas de tua coleção de segredos,
ó Goeldi: pesquisador da noite moral sob a noite física.

Ainda não desembarcaste de todo
e não desembarcarás nunca.
Exílio e memória porejam das madeiras
em que inflexivelmente penetras para extrair
o vitríolo das criaturas
condenadas ao mundo.

És metade sombra ou todo sombra?
Tuas relações com a luz como se tecem?
Amarias talvez, preto no preto,
fixar um novo sol, noturno; e denuncias
as diferentes espécies de treva
em que os objetos se elaboram:
a treva do entardecer e a da manhã;
a erosão do tempo no silêncio;
a irrealidade do real.

Estás sempre inspecionando
as nuvens e a direção dos ciclones.
Céu nublado, chuva incessante, atmosfera de chumbo
são elementos de teu reino
onde a morte de guarda-chuva
comanda
poças de solidão, entre urubus.

Tão solitário, Goeldi! mas pressinto
no glauco reflexo furtivo
que lambe a canoa de teu pescador
e na tarja sanguínea a irromper, escândalo, de teus negrumes
uma dádiva de ti à vida.

Não sinistra,
mas violenta
e meiga,
destas cores compõe-se a rosa em teu louvor.
1 106
Jorge Luis Borges

Jorge Luis Borges

Un lobo

Furtivo y gris en la penumbra última,
va dejando sus rastros en la margen
de este río sin nombre que ha saciado
la sed de su garganta y cuyas aguas
no repiten estrellas. Esta noche,
el lobo es una sombra que está sola
y que busca a la hembra y siente frío.
Es el último lobo de Inglaterra.
Odín y Thor lo saben. En su alta
casa de piedra un rey ha decidido
acabar con los lobos. Ya forjado
ha sido el fuerte hierro de tu muerte.
Lobo sajón, has engendrado en vano.
No basta ser cruel. Eres el último.
Mil años pasarán y un hombre viejo
te soñará en América. De nada
puede servirte ese futuro sueño.
Hoy te cercan los hombres que siguieron
por la selva los rastros que dejaste,
furtivo y gris en la penumbra última.



Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", pág. 605 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
1 467
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Meu Verdadeiro Amor Em Atenas

e eu me lembro da faca,
do modo como você toca uma rosa
e sai com sangue
e como você toca o amor do mesmo modo,
e como quando você quer entrar na autoestrada
os caminhões encurralam você na pista interna
luar e rugindo
atropelando sua bravura,
fazendo você pisar no freio
e pequenas imagens surgem na sua cabeça:
imagens de Cristo pendurado lá
ou Hiroshima
ou sua última esposa
fritando um ovo.
o modo como você toca uma rosa
é o modo como você se encosta nas laterais dos caixões
dos mortos,
o modo como você toca uma rosa
e vê os mortos rodopiando de volta
por baixo das suas unhas;
a faca
Gettysburg, as Ardenas, Flandres,
Átila, Muss –
de que me serve a história
quando tudo se reduz
à sombra das três da tarde
embaixo de uma folha?
e se a mente fica atormentada
e a rosa morde
como um cão,
dizem
que temos amor...
mas de que me serve o amor
quando todos nascemos
em diferentes momentos e lugares
e só nos encontramos
através de um truque dos séculos
e três passos casuais
à esquerda?
você quer dizer que
um amor que não encontrei
é menos do que um egoísmo
que chamo de próximo?
posso dizer agora
com sangue de rosa no fundo da minha mente,
posso dizer agora enquanto rodopiam os planetas
e toneladas de força são disparadas dentro do fim do espaço
para fazer Colombo parecer uma criança idiota
posso dizer agora
que porque gritei dentro de uma noite
e não me ouviram,
posso dizer agora
que me lembro da faca
e fico sentado num quarto fresco
e esfrego meus dedos ao apito do relógio
e calmamente penso em
Ajax e escarro
e galinhas ferroviárias atravessando os trilhos dourados,
e meu verdadeiro amor está em Atenas
600
A ou D,
enquanto fora da minha janela
pombos tropeçam enquanto voam
e por uma porta
de longa espera para um quarto vazio
rosas não conseguem
entrar ou sair,
ou amor ou mariposas ou relâmpago –
eu não irromperia nem em suspiro
nem em sorriso; poderiam nadas
como mariposas ou homens
existir como luz solar laranja sobre papel
dividido por nove?
Atenas fica agora a muitas milhas
e uma morte de distância,
e as mesas estão sujas pra cacete
e os lençóis e os pratos,
mas estou rindo; isso não é real;
mas é, dividido por nove
ou cem;
roupa limpa é amor
que não se coça
e suspira.
713
Carlos Falck

Carlos Falck

Poema

Minha dor é só minha.
Ganho luz no deserto
enquanto morro
de sede sobre a cal.
Agora, me pensando não resisto,
imagino-me Pierrot
num carnaval.

Caminho no meu silêncio,
sou rio e riso.
Andei meu caminho
com passo indeciso.
Na face que tenho
pus cores sombrias;
nas mãos, só possuo
as coisas vazias
que herdei da aurora
num tempo sem traço.
Agora meu passo
não vai a nenhum
lugar. Ando a esmo
nem sinto-me o mesmo.

771
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

A vida é pouco aos bocados.

A vida é pouco aos bocados.
O amor é vida a sonhar.
Olho para ambos os lados
E ninguém me vem falar.
871
Giselda Medeiros

Giselda Medeiros

Cação Para Buscar-te

Deixarei que o vento perpasse
o meu ser e dele retire
teu nome, teu gesto, teu vulto
para que eu possa respirar.

Deixarei que as estrelas roubem
teu brilho e em seu olhar azul
prenda-o, assim, verei luzir
uma outra vez o meu olhar.

E deixarei que o mar te alcance
com sua voz potente e rouca
para que eu possa ouvi em mim
a minha voz, já quase morta.

E deixarei que o tempo leve
a solidão que o teu silêncio
bordou nas fimbrias do meu ser,
naquela tarde que chovia,

E depois de tudo... ah! depois
quero ver minha alma cansada
ainda assim te procurar
sofregamente e nada, nada,
nada de ti reencontrar.

Talvez que sabe não te achando,
desesperada, e louca, e tonta,
se volta pra si, sonâmbula,
para encontrar-se, enfim, a sós.

Mas, como poderei achar-me
se não estiveres em mim?
Pois é no teu caminho vago
que traço o meu destino andante
de estrela, de rio, de vento,
margeando sempre a solidão

985
Jorge Luis Borges

Jorge Luis Borges

On his blindness

In the fullness of the years, like it or not, a luminous mist surrounds me, unvarying, that breaks things down into a single thing, colourless, formless. Almost into thought. The elemental, vast night and the day teeming with people have become the fog of constant, tentative light that does not flag, and lies in wait at dawn. I longed to see just once a human face. Unknown to me the closed encyclopaedia, the sweet play in volumes I can do no more than hold, the tiny soaring birds, the moons of gold. Others have the world, for better or worse; I have this half-dark, and the toil of verse.



Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", pág. 609 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
1 698
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Nuvem alta, nuvem alta,

Nuvem alta, nuvem alta,
Porque é que tão alta vais?
Se tens o amor que me falta,
Desce um pouco, desce mais.
1 508
Carlos Falck

Carlos Falck

Bilhete à Ilha

Mudarei meu silêncio em ventania
E meu andar para o norte em ir ao cais;
Não me perguntarei se vou ou vais
ao mesmo ponto que antes nos unia.

Apenas caminharei e nesse andar
descobrirei se me segues ou te sigo.
Não me importo lembrar (se não te digo)
o que lembro se avisto cais ou mar.

Pois vou ao porto como se não fosse.
Desligado do sonho e dos sentidos
descubro que não tenho mais amigos
e que o verde do mar jamais foi doce.

E mais descobrirei quando bem frio,
meu corpo navegar no mar vazio.

899
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Uma Hora E Mais Outra

Há uma hora triste
que tu não conheces.
Não é a da tarde
quando se diria
baixar meio grama
na dura balança;
não é a da noite
em que já sem luz
a cabeça cobres
com frio lençol
antecipando outro
mais gelado pano;
e também não é a
do nascer do sol
enquanto enfastiado
assistes ao dia
perseverar no câncer,
no pó, no costume,
no mal dividido
trabalho de muitos;
não a da comida
hora mais grotesca
em que dente de ouro
mastiga pedaços
de besta caçada;
nem a da conversa
com indiferentes
ou com burros de óculos,
gelatina humana,
vontades corruptas,
palavras sem fogo,
lixo tão burguês,
lesmas de blackout
fugindo à verdade
como de um incêndio;
não a do cinema
hora vagabunda
onde se compensa,
rosa em tecnicolor,
a falta de amor,
a falta de amor,
a falta de amor;
nem essa hora flácida
após o desgaste
do corpo entrançado
em outro, tristeza
de ser exaurido
e peito deserto,
nem a pobre hora
da evacuação:
um pouco de ti
desce pelos canos,
oh! adulterado,
assim decomposto,
tanto te repugna,
recusas olhá-lo:
é o pior de ti?
Torna-se a matéria
nobre ou vil conforme
se retém ou passa?
Pois hora mais triste
ainda se afigura;
ei-la, a hora pequena
que desprevenido
te colhe e sozinho
na rua ou no catre
em qualquer república;
já não te revoltas
e nem te lamentas,
tampouco procuras
solução benigna
de cristo ou arsênico,
sem nenhum apoio
no chão ou no espaço,
roídos os livros,
cortadas as pontes,
furados os olhos,
a língua enrolada,
os dedos sem tato,
a mente sem ordem,
sem qualquer motivo
de qualquer ação,
tu vives: apenas,
sem saber por quê,
como, para quê,
tu vives: cadáver,
malogro, tu vives,
rotina, tu vives,
tu vives, mas triste
duma tal tristeza
tão sem água ou carme,
tão ausente, vago,
que pegar quisera
na mão e dizer-te:
Amigo, não sabes
que existe amanhã?
Então um sorriso
nascera no fundo
de tua miséria
e te destinara
a melhor sentido.
Exato, amanhã
será outro dia.
Para ele viajas.
Vamos para ele.
Venceste o desgosto,
calcaste o indivíduo,
já teu passo avança
em terra diversa.
Teu passo: outros passos
ao lado do teu.
O pisar de botas,
outros nem calçados,
mas todos pisando,
pés no barro, pés
n’água, na folhagem,
pés que marcham muitos,
alguns se desviam
mas tudo é caminho.
Tantos: grossos, brancos,
negros, rubros pés,
tortos ou lanhados,
fracos, retumbantes,
gravam no chão mole
marcas para sempre:
pois a hora mais bela
surge da mais triste.
782
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Uma Festa Aqui – Metralhadoras, Tanques, Um Exército Lutando Contra Homens Nos Telhados

se o amor pudesse continuar como papel de piche
ou até mesmo na medida do significado
mas não funciona
não pode funcionar
há babacas demais
mulheres que escondem suas pernas demais
exceto em camas especiais
há moscas demais no
teto e tem sido um verão
quente
e os distúrbios em Los Angeles
terminaram faz uma semana
e queimaram prédios e mataram policiais e
homens brancos e
eu sou um homem branco e acho que não fiquei particularmente
alvoroçado porque sou um homem branco e sou pobre
e pago por ser pobre
porque faço tão poucas paradas de mão para os outros quanto
possível
e então sou pobre porque escolhi ser e acho que
não é tão desconfortável desse
jeito
e então ignorei os distúrbios
porque concluí que ambos negros e brancos
queriam várias coisas que não interessavam
a mim
além disso tendo uma mulher aqui que fica muito alvoroçada com
discriminação a Bomba segregação
você sabe você sabe
eu deixo ela ir falando até que por fim a conversa
me cansa
pois não ligo muito para a
resposta padrão
ou as confusas criaturas solitárias que gostam de se unir a uma
CAUSA simplesmente porque uma causa as arranca de sua
babosa
imbecilidade rumo a um fluxo de
ação. já eu gosto de tempo para pensar, pensar, pensar...
mas foi uma festa aqui, sério, metralhadoras, tanques,
o exército lutando contra homens nos telhados...
a mesma coisa que acusamos a Rússia de fazer. bem, é
um jogo escroto, e não sei o que fazer, exceto
se for como um amigo meu disse que eu disse certa noite quando
eu estava bêbado: “Nunca mate alguém, mesmo que pareça
ser a última ou a única coisa a fazer”.
riso. tudo bem. poderia deixar você feliz
que eu até tenha um fluxo de remorso quando mato uma
mosca. uma formiga. uma pulga. mas vou em frente. eu as mato e
vou em frente.
deus, o amor é mais estranho do que numerais mais estranho
do que
relva pegando fogo mais estranho do que o corpo morto de uma criança
afogada no fundo de uma banheira, sabemos tão
pouco, sabemos tanto, não sabemos
o bastante.
de qualquer forma, realizamos nossos movimentos, intestinais,
às vezes
sexuais, às vezes celestiais, às vezes espúrios, ou
às vezes percorremos um museu para ver o que
restou de nós ou disso, a triste paralisia estrangulada de fundo
de manicômio envidraçado e congelado e estéril
suficiente para fazer você querer sair para o sol de novo
e dar uma olhada, mas no parque e nas ruas
os mortos continuam passando como se já estivessem
num museu. talvez o amor seja sexo. talvez o amor seja uma tigela de
mingau. talvez o amor seja um rádio desligado.
de qualquer jeito, foi uma festa.
uma semana atrás.
hoje fui à pista com rosas nos meus olhos. dólares no
meu
bolso. manchetes no beco. são mais de cento e cinquenta quilômetros de
trem,
só de ida. um grupo de bêbados voltando, duros de novo, o
sonho
abatido de novo, corpos oscilando; tagarelando no vagão do bar e eu
estou ali
também, bebendo, rabiscando a esperança que resta na penumbra,
o
barman era um negro e eu era branco. maus lençóis. demos
um jeito.
nada de festa.
os jornais ricos ficam falando “A Revolução
Negra” e
“A Ruptura da Família Negra”. o trem entrou na cidade
afinal,
e eu me livrei dos 2 homossexuais que estavam me pagando
bebidas, e
fui mijar e fazer uma ligação e enquanto eu passava
pelo
acesso rumo à latrina masculina havia 2 negros numa
banca de engraxate
engraxando sapatos de homens brancos e os homens brancos lhes
permitiam fazê-lo.
caminhei até um bar mexicano
e tomei alguns uísques e quando saí a garçonete me deu um
papelzinho com seu nome, endereço e número de telefone
escritos, e quando cheguei na rua joguei o papel na sarjeta
entrei no meu carro e dirigi rumo à Zona Oeste de Los
Angeles
e tudo parecia igual igual como sempre foi
e na Alvarado com a Sunset eu reduzi pra 65
vi um policial gordo em sua moto
com uma cara hedionda e alerta
e fiquei enojado comigo mesmo e com
todo mundo, todo o pouco que qualquer um de nós
tinha feito, amor, amor, amor,
e as torres balançavam como velhas stripteasers
rezando pela mágica perdida, e eu segui dirigindo
engraxando os sapatos de todos os negros e gringos da
América, incluindo
os meus.
685
Gilson Nascimento

Gilson Nascimento

Dé e a bruxa

Tinha uma boneca rota, esfarrapada
A que com os dedos imprimia vida
Dava riso de graça à meninada
E tornou-se pessoa mui querida

No fundo de minhalma está guardada
A lembrança dos dois, que é incontida
Vejo a boneca, cara amarfanhada
Junto ao peito do dono, adormecida

O tempo – vil ladrão – tudo nos leva
Deixa, contudo, nalma de reserva
Algo que à infância roubou o coração

Dé e a bruxa, mortos, eu contemplo
Sem esquecer jamais o seu exemplo
Trazer com um trapo alegria à solidão

878
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

VISÃO

Há um país imenso mais real
Do que a vida que o mundo mostra ter
Mais do que a Natureza natural
À verdade tremendo de viver.

Sob um céu uno e plácido e normal
Onde nada se mostra haver ou ser
Onde nem vento geme, nem fatal
A ideia de uma nuvem se faz crer,

Jaz — uma terra não — não um solo
Mas estranha, gelando em desconsolo
A alma que vê esse pais sem véu,

Hirtamente silente nos espaços
Uma floresta de escarnados braços
Inutilmente erguidos para o céu.
2 995
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

DILUENTE

DILUENTE

A vizinha do número quatorze ria hoje da porta
De onde há um mês saiu o enterro do filho pequeno.
Ria naturalmente com a alma na cara.
Está certo: é a vida.
A dor não dura porque a dor não dura.
Está certo.
Repito: está certo.
Mas o meu coração não está certo.
O meu coração romântico faz enigmas do egoísmo da vida.

Cá está a lição, ó alma da gente!
Se a mãe esquece o filho que saiu dela e morreu,
Quem se vai dar ao trabalho de se lembrar de mim?
Estou só no mundo, como um peão de cair.
Posso morrer como o orvalho seca.
Por uma arte natural de natureza solar,
Posso morrer à vontade da deslembrança,
Posso morrer como ninguém...
Mas isto dói,
Isto é indecente para quem tem coração...
Isto...
Sim, isto fica-me nas goelas como uma sanduíche com lágrimas...
Gloria? Amor? O anseio de uma alma humana?
Apoteose ás avessas...
Dêem-me Agua de Vidago, que eu quero esquecer a Vida!
1 339
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Baila em teu pulso delgado

Baila em teu pulso delgado
Uma pulseira que herdaste...
Se amar alguém é pecado,
És santa, nunca pecaste.
1 329
João José Cochofel

João José Cochofel

Os Dias Íntimos

Mói música um realejo,
poético de convenção.
Mas é hoje o que agrada
ao meu coração.

Com castanhas assadas,
chuva na imaginação,
e luzes molhadas
no asfalto do chão,

Egoísmo de bicho,
simulado ou não,
mas que bem me sabe
esta solidão.

Ó comedida felicidade,
com teu ópio vão
sobre tanta náusea
passa a tua mão.

1 417
Raquel Nobre Guerra

Raquel Nobre Guerra

deus por cima

deus por cima
o grande abandono
1 234