Solidão
Mário de Sá-Carneiro
Escavação
Divago por mim mesmo a procurar,
Desço-me todo, em vão, sem nada achar,
E a minh'alma perdida não repousa.
Nada tendo, decido-me a criar:
Brando a espada: sou luz harmoniosa
E chama genial que tudo ousa
Unicamente à força de sonhar...
Mas a vitória fulva esvai-se logo
E cinzas, cinzas, só em vez de fogo...
– Onde existo que não existo em mim?
... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...
... ...
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... ...
Um cemitério falso sem ossadas –
Noites d'amor sem bocas esmagadas -
Tudo outro espasmo que princípio ou fim...
Nuno Júdice
Sonhei contigo
contigo embora nenhum sonho
possa ter habitantes, tu a quem chamo
amor, cada ano pudesse trazer
um pouco mais de convicção a
esta palavra. É verdade o sonho
poderá ter feito com que, nesta
rarefação de ambos, a tua presença se
impusesse - como se cada gesto
do poema te restituísse um corpo
que sinto ao dizer o teu nome,
confundindo os teus
lábios com o rebordo desta chávena
de café já frio. Então, bebo-o
de um trago o mesmo se pode fazer
ao amor, quando entre mim e ti
se instalou todo este espaço -
terra, água, nuvens, rios e
o lago obscuro do tempo
que o inverno rouba à transparência
da fontes. É isto, porém, que
faz com que a solidão não seja mais
do que um lugar comum saber
que existes, aí, e estar contigo
mesmo que só o silêncio me
responda quando, uma vez mais
te chamo.
Raimundo Bento Sotero
Um Vulto
Da rua torta e mal iluminada
Pela pálida luz da madrugada,
Um vulto ia varando a escuridão.
Quem seria tal vulto? Algum ladrão,
Resvalando furtivo na calada?
Um amante buscando sua amada?
Seria alma penada, assombração?
Fazia frio. Os cães se enrodilhavam,
Os pássaros noturnos não voavam,
E um silêncio mortal dava receio.
Somente aquele vulto vertical,
Envolto no silêncio sepulcral,
Impávido, seguia o seu passeio.
Li Po
BEBENDO AO LUAR
Só me senti.
Lua tão solitária,
Eu bebo a ti!
Esta ao lado é minha sombra,
Faz três contigo.
Porque hás-de ser tão distante?
Dança com ela e comigo.
Como nuvens dançaremos
A sombra e eu.
Eterno é o gozo, se atendes
O canto meu.
E unidos nesta embriaguez
(Mas sós de dia)
Estaremos juntos os três
Na Láctea Via.
Nuno Júdice
Poema (arredores)
A brancura
dos ossos, em contraste com a terra argilosa,
com a erva, com a parede arruinada, faz-me lembrar
leite, papel, cal,
e também as tuas mãos - frias. Bebo o seu brilho
numa nocturna memória. Uma contaminação de corpos
não reduz a minha solidão; nem a música,
nem o riso, nem o vinho. Lágrimas
numa plenitude de idade. O amor era uma paisagem. A voz
fundia-se numa perspectiva de vento. Palavras perdidas
como coisas, a travessia da tua pele num barco de lábios,
o traçado obscuro dos epitáfios da alma. Caminho
para te dizer uma determinação de sentido,
um destino ignorante dos fragmentos passados em que surges,
de pé, contra a janela, recebendo no rosto a luz
da primavera - imagem
póstuma em que te encontro triste,
e o teu sorriso me faz desejar a morte.
Nuno Júdice | "Obra Poética 1972-1985", pag. 252 | Quetzal Editores, 1999
Dora Ferreira da Silva
Habitas meu coração:
olhar de extensões alheias
a tempo e medida.
Tua voz tem asas de falcão e pousa
nas torres mais altas do meu ser
onde jamais me aventurei. É minha a tua solidão.
Sirvo-te em silêncio e às vezes
como a uma criança me apertas em teu peito:
acaricio então tua face estranho rei.
Outras vezes ouço passos ecoando
no enlace das colunas em seteiras escadas. Se grito
teu nome - és mil ressonâncias e seu eco em mim.
Manuel António Pina
Uma sombra
Quando eu bater à porta
não me reconheceremos.
Voltarei de um dia de trabalho,
subirei as escadas
e perder-me-ei para sempre
em qualquer sítio fora de qualquer sítio.
Não foi o caminho de casa que eu perdi?
Não ficou alguém em qualquer sítio,
uma sombra passando diante de nós,
e principalmente fora de nós?
Agora quem sente
isto fora de mim,
quem é este Ausente?
Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", pág. 108 | Assirio & Alvim, 2012
Fábio Afonso de Almeida
É só
Não tenho medo, é só.
O silêncio que restar
Junto com a solidão que ficou
E sufoco com decoro.
Náo quero chorar, é só.
Não foi eu que escolhi
O caminho que tomei.
Se não quero te perder,
Mas me perco no meu ego,
Mesmo assim eu me aceito,
Não tenho forças, é só.
Contudo, espero, não divago,
Apenas tenho pudor.
Se assim sou, não renego,
Tenho brios que sustentam.
Tenho apenas eu e é só.
Esmeralda Santos
Paisagem do Alentejo
Luz, um deslumbramento!
Cortou a solidão um bater de asa
E um velho em seu jumento...
Vamos andando. Na extensão imensa
Perde-se em nosso olhar...
Nenhuma variante. À luz intensa,
Longe... um monte a alvejar...
E sempre, em fatigante simetria,
Oliveiras curvadas,
Rugosas, semelhando à luz do dia
Velhas encarquilhadas.
Só planície monótona e igual
O nosso olhar avista;
E o sol, num monte, a dardejar na cal,
Deslumbra... fere a vista.
Surgem agora, em curva harmoniosa,
Os cerros, as colinas.
Há na paz doce, triste e religiosa,
Unções quase divinas!
Retrocedemos. Sempre a sensação
Do só e da tristeza...
Mas deu a imensidade ao coração
Mais calma e mais grandeza!
À luz poente os cerros oferecem
Mil reverberações:
Tons fortes de violeta, que esmorecem
Em róseas gradações.
Deus! a que veio a minha nostalgia
A esta imensidade?
É grande, eu sei, mas dá-me uma agonia
O horror da eternidade!
(Lisboa, 1934)
Nuno Júdice
Pede à noite que não a deixe sozinha
durante o sonho, e não sabe que o caminho
estava indicado nos seus olhos, procura o vazio
com a mão segura entre lençol e cobertor,
como se nesse intervalo houvesse ainda
uma saída para o desejo. No sono em que
a maré da noite se desfez num impulso
de névoa, os seus lábios murmuraram
o nome que não tem corpo; e em vão
esperaram o beijo que os iria selar,
os dedos que se afundariam no oceano
dos cabelos, a respiração que
lhe daria o ritmo da manhã. Por isso,
a mulher que acorda pede à noite que não
a deixe sozinha, como se o abraço antigo
se pudesse prolongar, ou o sol
não trouxesse o dia para junto dela.
Renato Russo
Esperando Por Mim
Que meu sorriso era sincero
Sou tão cínico às vezes
O tempo todo
Estou tentando me defender
Digam o que disserem
O mal do século é a solidão
Cada um de nós imerso em sua própria arrogância
Esperando por um pouco de afeição
Hoje não estava nada bem
Mas a tempestade me distrai
Gosto dos pingos de chuva
Dos relâmpagos e dos trovões
Hoje à tarde foi um dia bom
Saí pra caminhar com meu pai
Conversamos sobre coisas da vida
E tivemos um momento de paz
É de noite que tudo faz sentido
No silêncio eu não ouço meus gritos
E o que disserem
Meu pai sempre esteve esperando por mim
E o que disserem
Minha mãe sempre esteve esperando por mim
E o que disserem
Meus verdadeiros amigos sempre esperaram por mim
E o que disserem
Agora meu filho espera por mim
Estamos vivendo
E o que disserem
Os nossos dias serão para sempre
Elisa Lucinda
Late Ilusão
geme ao meu lado o meu cão
acabado de chegar
late ilusões ao meu ouvido
e meu sentido
diz que ele veio pra ficar
Mas a vida passa e vira
páginas da folhinha
o que era cheia e domingo
foi minguando em segundas e terças
e meu homem, minha besta
voltou novo e repetido
como se fosse ficar até sexta
três dias de ele chegando de madrugada
Três dias de ele nadando na minha água
Conversas de homem e mulher
beijo na boca
tirar a roupa
novos latidos de ilusão no meu duvido
meu homem partiu na derradeira manhã
todo agradecido
dos momentos de amor que uivou comigo
eu fiquei lua sozinha no céu com aquela saudade amarela
e ele na terra cantando latindo partindo
uivando pra ela.
José Tolentino Mendonça
Os Girassóis
não é fácil deixar a tua mão
De quarto em quarto
quem espera
o terror de não haver ninguém
As paisagens alteram-se sem resolução
narrativas imortais desaparecem
e os girassóis assim
vulneráveis a desconhecidas ordens
Tu estás tão perto
mas sofro tanto
porque não vejo
como possa falar de ti
entre dois ou três séculos
Manuel António Pina
O intruso
diante do meu rosto,
não suportarei
o meu puro olhar.
Quem me procurará
entre os homens?
Um intruso grita
dentro de mim, oiço-o no coração
como um irmão medonho
sonhando a minha vida
por outro vivida
em mim, também um sonho.
Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", pág. 109 | Assirio & Alvim, 2012
Fábio Afonso de Almeida
Madrugada
Vagando sozinho pelas ruas
Sentia ainda na carne teu calor
E no cérebro a dureza das tuas palavras.
A lua pálida, distante
Parecia patética e indiferente
A saltar de beiral em beiral
No cimo das casas antigas.
Parecia zombar:
Vai, seu cabeça oca, vai novamente
Vai encontrar a solidão que te persegue
Chorar mais uma vez o abandono.
Quem te mandou sonhar?
Golgona Anghel
Vem, noite coisíssima e pindérica
Vem, noite de copos, noite de loucos,
estou só e sem inspiração.
Chamemos a lucidez e a sua escola de dactilografia
para ditar uns carmes.
Vem, Senhora, mulher sócia da compaixão,
vem pingar-me uma gota de Dostoiewhisky na goela.
Noite de Natal, noite de cristal,
noite dos Óscares, noite da Iguana,
noite dos museus,
apanha o primeiro táxi e vem.
Vem semear piolhos de ouro na juba deste boémio.
Vamos os dois corrigir o mundo
com moscatéis e valeriana.
Confia em mim.
Sou forte, sou vigoroso, Senhora!
O deboche sabe-me de cor.
O meu nome é Simão, o apelido Budoar.
Os meus olhos, duas alfaces.
Sou jovem, um bezerro, Madame!
Tenho por alimento mamilos de galáxias.
Por Deus, um computador.
Assim, sem roupa, pareço perigoso.
Mas se me vir de robe,
não passo de um criminoso meigo
que faz cócegas à sua presa
e sabe canções de embalar.
Carlos Drummond de Andrade
Viver
era isso, mais nada?
Era só a batida
numa porta fechada?
E ninguém respondendo,
nenhum gesto de abrir:
era, sem fechadura,
uma chave perdida?
Isso, ou menos que isso,
uma noção de porta,
o projeto de abri-la
sem haver outro lado?
O projeto de escuta
à procura de som?
O responder que oferta
o dom de uma recusa?
Como viver o mundo
em termos de esperança?
E que palavra é essa
que a vida não alcança?
Nuno Júdice
Guia de mercado
de preço os barris: mas podemos comprá-la
ao desbarato, ao sair de casa, sem conhecer
ninguém.
Nos centros comerciais, a melancolia
vende-se em sacos de plástico, que se acumulam
nos carrinhos das compras, e se arrumam
nos frigoríficos da alma.
Nas bolsas, sobem as cotações
do desespero; mas quem o quiser comprar,
encontra sempre um accionista compreensivo
para o oferecer a preço de saldo.
E quem quiser um amor de empréstimo,
só tem de esperar que os juros desçam, e
pô-lo a render no banco da esquina, onde
a vida é mais barata.
Reynaldo Bessa
como figurinhas coladas
no horizonte,
navios iam e vinham parados,
fugiam dos nossos olhos
da margem, da terra, de longe,
de muito longe eu embarcava neles, pedindo;
navios, navios, me levem a lugar nenhum.
Al Berto
LÁPIDE, DE «CARTA DA ÁRVORE TRISTE»
iridiscência lume
que incendeia o coração daquele cujo ofício
é escrever e olhar o mundo a partir da treva
humildemente
foi este o trabalho que te predestinaram
viver e morrer nesse simulacro de inferno
meu deus! tinha de escolher a melhor maneira de arder
até que de mim nada restasse senão osso
e meia dúzia se sílabas sujas
Al Berto
Notas para o diário
sílabas sibilantes, lâmpadas acesas, corpos palpáveis,
vivos e limpos.
a dor de todas as ruas vazias.
sinto-me capaz de caminhar na língua aguçada deste
silêncio. e na sua simplicidade, na sua clareza, no seu abis-
mo.
sinto-me capaz de acabar com esse vácuo, e de aca-
bar comigo mesmo.
a dor de todas as ruas vazias.
mas gosto da noite e do riso de cinzas. gosto do
deserto, e do acaso da vida. gosto dos enganos, da sorte e
dos encontros inesperados.
pernoito quase sempre no lado sagrado do meu cora-
ção, ou onde o medo tem a precaridade doutro corpo.
a dor de todas as ruas vazias.
pois bem, mário - o paraíso sabe-se que chega a lis-
boa na fragata do alfeite. basta pôr uma lua nervosa no
cimo do mastro, e mandar arrear o velame.
é isto que é preciso dizer: daqui ninguém sai sem
cadastro.
a dor de todas as ruas vazias.
sujo os olhos com sangue. chove torrencialmente. o
filme acabou. não nos conheceremos nunca.
a dor de todas as ruas vazias.
os poemas adormeceram no desassossego da idade.
fulguram na perturbação de um tempo cada dia mais
curto. e, por vezes, ouço-os no transe da noite. assolam-me
as imagens, rasgam-me as metáforas insidiosas, porcas. ..e
nada escrevo.
o regresso à escrita terminou. a vida toda fodida - e
a alma esburacada por uma agonia tamanho deste mar.
a dor de todas as ruas vazias.
Fernando Pessoa
Já não me importo
Até com o que amo ou creio amar.
Sou um navio que chegou a um porto
E cujo movimento é ali estar.
Nada me resta
Do que quis ou achei.
Cheguei da festa
Como fui para lá ou ainda irei
Indiferente
A quem sou ou suponho que mal sou,
Fito a gente
Que me rodeia e sempre rodeou,
Com um olhar
Que, sem o poder ver,
Sei que é sem ar
De olhar a valer.
E só me não cansa
O que a brisa me traz
De súbita mudança
No que nada me faz.
02/09/1935
Álvares de Azevedo
Um Cadáver de Poeta
não pesaste sobre a terra: a terra te seja leve!
L. UHLAND.
I
De tanta inspiração e tanta vida
Que os nervos convulsivos inflamava
E ardia sem conforto...
O que resta? uma sombra esvaecida,
Um triste que sem mãe agonizava...
Resta um poeta morto!
Morrer! e resvalar na sepultura,
Frias na fronte as ilusões — no peito
Quebrado o coração!
Nem saudades levar da vida impura
Onde arquejou de fome... sem um leito!
Em treva e solidão!
Tu foste como o sol; tu parecias
Ter na aurora da vida a eternidade
Na larga fronte escrita...
Porém não voltarás como surgias!
Apagou-se teu sol da mocidade
Numa treva maldita!
Tua estrela mentiu. E do fadário
De tua vida a página primeira
Na tumba se rasgou...
Pobre gênio de Deus, nem um sudário!
Nem túmulo nem cruz! como a caveira
Que um lobo devorou!...
II
Morreu um trovador — morreu de fome.
Acharam-no deitado no caminho:
Tão doce era o semblante! Sobre os lábios
Flutuava-lhe um riso esperançoso.
E o morto parecia adormecido.
Ninguém ao peito recostou-lhe a fronte
Nas horas da agonia! Nem um beijo
Em boca de mulher! nem mão amiga
Fechou ao trovador os tristes olhos!
Ninguém chorou por ele... No seu peito
Não havia colar nem bolsa d'oiro;
Tinha até seu punhal um férreo punho...
Pobretão! não valia a sepultura!
Todos o viam e passavam todos.
Contudo era bem morto desde a aurora.
Ninguém lançou-lhe junto ao corpo imóvel
Um ceitil para a cova!... nem sudário!
O mundo tem razão, sisudo pensa,
E a turba tem um cérebro sublime!
De que vale um poeta — um pobre louco
Que leva os dias a sonhar — insano
Amante de utopias e virtudes
E, num tempo sem Deus, ainda crente?
(...)
Imagem - 00280001
Publicado no livro Poesias de Manuel Antônio Álvares de Azevedo (1853). Poema integrante da série Segunda Parte.
In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.1
NOTA: Poema composto de 7 parte
Fernando Pessoa
Tudo quanto penso,
Tudo quanto sou
É um deserto imenso
Onde nem eu estou.
Extensão parada
Sem nada a estar ali,
Areia peneirada
Vou dar-lhe a ferroada
Da vida que vivi.
(...)
11/03/1935