Poemas neste tema
Sol, amanhecer e pôr do sol
Celso Pinheiro
Mater
A minha mãe, uma velhinha doce,
De olhar de mel e beijos de torcazes,
A minha mãe, coitada! talvez fosse
A dindinha dos cravos e lilases!...
No seu ventre bendito Ela me trouxe
Nove meses... E um dia, sob audazes
Raios de sol primaveril, notou-se
Que surgira um bebê de olhos vivazes...
Era eu! era um poeta extravagante,
Que nascera sem festas nem alardes,
Quando o dia era um límpido diamante...
A minha mãe... matou-a o mês de Agosto!
E é por Ela que eu vou todas as tardes
Rezar na capelinha do Sol-posto!...
De olhar de mel e beijos de torcazes,
A minha mãe, coitada! talvez fosse
A dindinha dos cravos e lilases!...
No seu ventre bendito Ela me trouxe
Nove meses... E um dia, sob audazes
Raios de sol primaveril, notou-se
Que surgira um bebê de olhos vivazes...
Era eu! era um poeta extravagante,
Que nascera sem festas nem alardes,
Quando o dia era um límpido diamante...
A minha mãe... matou-a o mês de Agosto!
E é por Ela que eu vou todas as tardes
Rezar na capelinha do Sol-posto!...
1 110
Edigar de Alencar
Lenda
Um dia o sol levantou-se aborrecido
e resolveu mudar de ares.
Descambou para as bandas
do nordeste brasileiro
e foi parar numa terra hospitaleira,
onde a desgraça pouca é bobagem
e os homens amarelos e magros
dão surra em onça com o chapéu de couro.
A gente da terra
despertou a atenção do sol,
que começou a corricar pelas praias,
e pelos campos sem fim,
bebendo os riachos todos,
estorricando os caminhos,
derramando ouro
sobre as matas imensas,
cheias de xexéus e periquitos.
E o astro vagabundo gostou tanto
que nunca mais abandonou a terra.
e resolveu mudar de ares.
Descambou para as bandas
do nordeste brasileiro
e foi parar numa terra hospitaleira,
onde a desgraça pouca é bobagem
e os homens amarelos e magros
dão surra em onça com o chapéu de couro.
A gente da terra
despertou a atenção do sol,
que começou a corricar pelas praias,
e pelos campos sem fim,
bebendo os riachos todos,
estorricando os caminhos,
derramando ouro
sobre as matas imensas,
cheias de xexéus e periquitos.
E o astro vagabundo gostou tanto
que nunca mais abandonou a terra.
916
Fernando Pessoa
A DAY OF SUN
I love the things that children love
Yet with a comprehension deep
That lifts my pining soul above
Those in which life as yet doth sleep.
All things that simple are and bright,
Unnoticed unto keen‑worn wit,
With a child's natural delight
That makes me proudly weep at it.
I love the sun with personal glee,
The air as if I could embrace
Its wideness with my soul and be
A drunkard by expense of gaze.
I love the heavens with a joy
That makes me wonder at my soul,
It is a pleasure nought can cloy,
A thrilling I cannot control.
So stretched out here let me lie
Before the sun that soaks me up,
And let me gloriously die
Drinking too deep of living's cup;
Be swallowed of the sun and spread
Over the infinite expanse,
Dissolved, like a drop of dew dead
Lost in a super‑normal trance;
Lost in impersonal consciousness
And mingling in all life become
A selfless part of Force and Stress
And have a universal home;
And in a strange way undefined
Lose in the one and living Whole
The limit that I call my mind,
The bounded thing I call my soul.
Yet with a comprehension deep
That lifts my pining soul above
Those in which life as yet doth sleep.
All things that simple are and bright,
Unnoticed unto keen‑worn wit,
With a child's natural delight
That makes me proudly weep at it.
I love the sun with personal glee,
The air as if I could embrace
Its wideness with my soul and be
A drunkard by expense of gaze.
I love the heavens with a joy
That makes me wonder at my soul,
It is a pleasure nought can cloy,
A thrilling I cannot control.
So stretched out here let me lie
Before the sun that soaks me up,
And let me gloriously die
Drinking too deep of living's cup;
Be swallowed of the sun and spread
Over the infinite expanse,
Dissolved, like a drop of dew dead
Lost in a super‑normal trance;
Lost in impersonal consciousness
And mingling in all life become
A selfless part of Force and Stress
And have a universal home;
And in a strange way undefined
Lose in the one and living Whole
The limit that I call my mind,
The bounded thing I call my soul.
1 727
Celso Pinheiro
Crepúsculo
Crepúsculo. Dlin, dlon... Sinos gemendo aos dobres
Há paisagens no Céu e paisagens na Terra.
A alma branca da Torre e a alma verde da Serra,
Concentram-se a rezar, tristonhamente nobres...
A hemoptise da Luz mancha a toalha do rio...
Caravelas e naus, como enormes aranhas,
Em reverberações magníficas e estranhas,
Sobre as águas, a arfar, têm bailados de cio...
Chove, empastando o mato, uns filetes de sangue
Como cordas de sol do tear da Mocidade:
É a virgem-Natureza estuando em puberdade
Para a fecundação da Noite linda e langue...
Os velhos buritis dos confins da Floresta,
Vão pregando o Evangelho entre cardos e espinhos,
E a árvore seca, a rir, com seus frutos de ninhos,
É uma árvore de Natal engalanada em festa...
Chopin estende as mãos sobre as teclas de Poentex
E arranca a sinfonia estética das cores,
Enquanto nos vergéis as pequeninas flores
São mil bocas a arder na tarde flavescente!...
Há paisagens no Céu e paisagens na Terra.
A alma branca da Torre e a alma verde da Serra,
Concentram-se a rezar, tristonhamente nobres...
A hemoptise da Luz mancha a toalha do rio...
Caravelas e naus, como enormes aranhas,
Em reverberações magníficas e estranhas,
Sobre as águas, a arfar, têm bailados de cio...
Chove, empastando o mato, uns filetes de sangue
Como cordas de sol do tear da Mocidade:
É a virgem-Natureza estuando em puberdade
Para a fecundação da Noite linda e langue...
Os velhos buritis dos confins da Floresta,
Vão pregando o Evangelho entre cardos e espinhos,
E a árvore seca, a rir, com seus frutos de ninhos,
É uma árvore de Natal engalanada em festa...
Chopin estende as mãos sobre as teclas de Poentex
E arranca a sinfonia estética das cores,
Enquanto nos vergéis as pequeninas flores
São mil bocas a arder na tarde flavescente!...
1 164
Euclides Bandeira
Predileto
É o tipo que me encanta, o louro. De relance
Nos enche de ouro fluido as pupilas surpresas...
Não Esse, para aflar as emoções burguesas,
Que anêmico flavesce idílios em romance.
É o flamante, o galhardos.. O louro de proezas
Ruivas ao sol, chispando áscuas, raios, nuance,
Que eletriza e que cega! O louro, enfim, que avance
Ao superno fulgor de pupilas acesas!
Freme-se ao vê-lo; há nervo, há vibração, há francas
Aleluias de luz! — labaredas de sândalo
A se evolar... No azul umas volutas brancas...
—Por tudo isso eu o quero e por ser tão escol
O ouro que te esplendora, ó Rúbia! ó flor de escândalo!
Ainda me tremem na alma umas réstias de sol...
Nos enche de ouro fluido as pupilas surpresas...
Não Esse, para aflar as emoções burguesas,
Que anêmico flavesce idílios em romance.
É o flamante, o galhardos.. O louro de proezas
Ruivas ao sol, chispando áscuas, raios, nuance,
Que eletriza e que cega! O louro, enfim, que avance
Ao superno fulgor de pupilas acesas!
Freme-se ao vê-lo; há nervo, há vibração, há francas
Aleluias de luz! — labaredas de sândalo
A se evolar... No azul umas volutas brancas...
—Por tudo isso eu o quero e por ser tão escol
O ouro que te esplendora, ó Rúbia! ó flor de escândalo!
Ainda me tremem na alma umas réstias de sol...
388
Fernando Pessoa
THE DEATH OF THE TITAN
EPICUREAN
From night's great womb with pain the horrid morn hao broke,
Far o'er the throbbing earth the clattering thunders roar,
The Titan wakes at last, his front begrimed with gore,
His brutal gasp abrupt uproots the rugged oak.
In mortal throes he raves, and with his stertorous croak
The birds are struck, the streams with terror dried, the shore
Caves into sea, mounts break down to their horrid core,
The tottering crags are rent, is rent the cloud’s gray cloak.
The lightning shrinks, the seas in roaring clangor splash,
The giant sways and now, with sudden thunderous crash,
Falls, and the throned stars from glittering seats are torn.
He fell; the startl'd earth, with frantic fury stung,
Split, burst, and broke; the air with rankling curses rung
But in the sky the sun still smiled as in scorn.
From night's great womb with pain the horrid morn hao broke,
Far o'er the throbbing earth the clattering thunders roar,
The Titan wakes at last, his front begrimed with gore,
His brutal gasp abrupt uproots the rugged oak.
In mortal throes he raves, and with his stertorous croak
The birds are struck, the streams with terror dried, the shore
Caves into sea, mounts break down to their horrid core,
The tottering crags are rent, is rent the cloud’s gray cloak.
The lightning shrinks, the seas in roaring clangor splash,
The giant sways and now, with sudden thunderous crash,
Falls, and the throned stars from glittering seats are torn.
He fell; the startl'd earth, with frantic fury stung,
Split, burst, and broke; the air with rankling curses rung
But in the sky the sun still smiled as in scorn.
1 463
Jorge Luis Borges
Versos de catorce
A mi ciudad de patios cóncavos como cántaros
y de calles que surcan las leguas como un vuelo,
a mi ciudad de esquinas con aureola de ocaso
y arrabales azules, hechos de firmamento,
a mi ciudad que se abre clara como una pampa,
yo volví de las viejas tierras antiguas del Occidente
y recobré sus casas y la luz de sus casas
y la trasnochadora luz de los almacenes
y supe en las orillas, del querer, que es de todos
y a punta de poniente desangré el pecho en salmos
y canté la aceptada costumbre de estar solo
y el retazo de pampa colorada de un patio.
Dije las calesitas, noria de los domingos,
y el paredón que agrieta la sombra de un paraíso,
y el destino que acecha tácito, en el cuchillo,
y la noche olorosa como un mate curado.
Yo presentí la entraña de la voz las orillas,
palabra que en la tierra pone el azar del agua
y que da a las afueras su aventura infinita
y a los vagos campitos un sentido de playa.
Así voy devolviéndole a Dios unos centavos
del caudal infinito que me pone en las manos.
"Luna de enfrente" (1925)
Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", pág. 79 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
y de calles que surcan las leguas como un vuelo,
a mi ciudad de esquinas con aureola de ocaso
y arrabales azules, hechos de firmamento,
a mi ciudad que se abre clara como una pampa,
yo volví de las viejas tierras antiguas del Occidente
y recobré sus casas y la luz de sus casas
y la trasnochadora luz de los almacenes
y supe en las orillas, del querer, que es de todos
y a punta de poniente desangré el pecho en salmos
y canté la aceptada costumbre de estar solo
y el retazo de pampa colorada de un patio.
Dije las calesitas, noria de los domingos,
y el paredón que agrieta la sombra de un paraíso,
y el destino que acecha tácito, en el cuchillo,
y la noche olorosa como un mate curado.
Yo presentí la entraña de la voz las orillas,
palabra que en la tierra pone el azar del agua
y que da a las afueras su aventura infinita
y a los vagos campitos un sentido de playa.
Así voy devolviéndole a Dios unos centavos
del caudal infinito que me pone en las manos.
"Luna de enfrente" (1925)
Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", pág. 79 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
1 197
Fernando Pessoa
O dia esta a intentar raiar. As estrelas cosmopolitas
O dia esta a intentar raiar. As estrelas cosmopolitas
Fecham-se para nada no céu [solene?]
Numa grande premeditação de raiar o dia
O céu empalidece no oriente...
É quase azul negro o escuro claro onde estão semeadas as estrelas.
Ergo a cabeça da orgia dos astros.
Raça contraditória do abismo.
Começamos a esfinges.
Fecham-se para nada no céu [solene?]
Numa grande premeditação de raiar o dia
O céu empalidece no oriente...
É quase azul negro o escuro claro onde estão semeadas as estrelas.
Ergo a cabeça da orgia dos astros.
Raça contraditória do abismo.
Começamos a esfinges.
1 355
Jorge Luis Borges
Último sol en Villa Luro
Tarde como de Juicio Final.
La calle es como una herida abierta en el cielo.
Yo no sé si fue un Ángel o un ocaso la claridad que ardió en la hondura.
Insistente, como una pesadilla, carga sobre mí la distancia. Al horizonte un alambrado le duele.
El mundo está como inservible y tirado.
En el cielo es de día, pero la noche es traicionera en las zanjas.
Toda la luz está en las tapias azules y en ese alboroto de chicas.
Ya no sé si es un árbol o es un dios, ese que asoma por la verja herrumbrada.
Cuántos países a la vez: el campo, el cielos, las afueras. Hoy he sido rico de calles y de ocaso filoso y de la tarde hecha estupor.
Lejos, me devolveré a mi pobreza.
"Luna de enfrente" (1925)
Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", pág. 78 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
La calle es como una herida abierta en el cielo.
Yo no sé si fue un Ángel o un ocaso la claridad que ardió en la hondura.
Insistente, como una pesadilla, carga sobre mí la distancia. Al horizonte un alambrado le duele.
El mundo está como inservible y tirado.
En el cielo es de día, pero la noche es traicionera en las zanjas.
Toda la luz está en las tapias azules y en ese alboroto de chicas.
Ya no sé si es un árbol o es un dios, ese que asoma por la verja herrumbrada.
Cuántos países a la vez: el campo, el cielos, las afueras. Hoy he sido rico de calles y de ocaso filoso y de la tarde hecha estupor.
Lejos, me devolveré a mi pobreza.
"Luna de enfrente" (1925)
Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", pág. 78 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
2 132
Olegário Mariano
Arco-Íris
Choveu tanto esta tarde
Que as árvores estão pingando de contentes.
As crianças pobres, em grande alarde,
Molham os pés nas poças reluzentes.
A alegria da luz ainda não veio toda.
Mas há raios de sol brincando nos rosais.
As crianças cantam fazendo roda,
Fazendo roda como os tangarás:
"Chuva com sol!
Casa a raposa com o rouxinol."
De repente, no céu desfraldado em bandeira,
Quase ao alcance da nossa mão,
O Arco-da-Velha abre na tarde brasileira
A cauda em sete cores, de pavão.
Publicado no livro Canto da Minha Terra (1930).
In: MARIANO, Olegário. Toda uma vida de poesia: poesias completas, 1911/1955. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1957. v.
Que as árvores estão pingando de contentes.
As crianças pobres, em grande alarde,
Molham os pés nas poças reluzentes.
A alegria da luz ainda não veio toda.
Mas há raios de sol brincando nos rosais.
As crianças cantam fazendo roda,
Fazendo roda como os tangarás:
"Chuva com sol!
Casa a raposa com o rouxinol."
De repente, no céu desfraldado em bandeira,
Quase ao alcance da nossa mão,
O Arco-da-Velha abre na tarde brasileira
A cauda em sete cores, de pavão.
Publicado no livro Canto da Minha Terra (1930).
In: MARIANO, Olegário. Toda uma vida de poesia: poesias completas, 1911/1955. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1957. v.
2 215
Vicente de Carvalho
Sonho Póstumo
I
Poupem-me, quando morto, à sepultura: odeio
A cova, escura e fria.
Ah! deixem-me acabar alegremente, em meio
Da luz, em pleno dia.
O meu último sono eu quero assim dormi-lo:
— Num largo descampado,
Tendo em cima o esplendor do vasto céu tranquilo
E a primavera ao lado.
Bailem sobre o meu corpo asas trêmulas, asas
Palpitando de leve,
De insetos de ouro e azul, ou rubros como brasas,
Ou claros como neve.
De entre moutas em flor, oscilantes na aragem,
Úmidas e cheirosas,
Espalhando em redor frescuras de folhagem,
E perfumes de rosas,
Subam, jovializando o ar, canções suaves
— A música sonora
Em que parece rir a alegria das aves,
Encantadas da aurora.
E cada flor que um galho acaso dependura
À beira dos caminhos
Entreabra o seio ao sol, às brisas, à doçura
De todos os carinhos.
Passe em redor de mim um frêmito de gozo
E um calor de desejo,
E soe o farfalhar das árvores, moroso
Como o rumor de um beijo.
Palpite a natureza inteira, bela e amante,
Volutuosa e festiva.
E tudo vibre e esplenda, e tudo fulja e cante,
E tudo sonhe e viva.
A sepultura é noute onde rasteja o verme...
Ó luz que eu tanto adoro,
Amortalha-me tu! E possa eu desfazer-me
No ar claro e sonoro!
Publicado no livro Poemas e Canções (1908).
In: CARVALHO, Vicente de. Poemas e canções. 17.ed. São Paulo: Saraiva, 196
Poupem-me, quando morto, à sepultura: odeio
A cova, escura e fria.
Ah! deixem-me acabar alegremente, em meio
Da luz, em pleno dia.
O meu último sono eu quero assim dormi-lo:
— Num largo descampado,
Tendo em cima o esplendor do vasto céu tranquilo
E a primavera ao lado.
Bailem sobre o meu corpo asas trêmulas, asas
Palpitando de leve,
De insetos de ouro e azul, ou rubros como brasas,
Ou claros como neve.
De entre moutas em flor, oscilantes na aragem,
Úmidas e cheirosas,
Espalhando em redor frescuras de folhagem,
E perfumes de rosas,
Subam, jovializando o ar, canções suaves
— A música sonora
Em que parece rir a alegria das aves,
Encantadas da aurora.
E cada flor que um galho acaso dependura
À beira dos caminhos
Entreabra o seio ao sol, às brisas, à doçura
De todos os carinhos.
Passe em redor de mim um frêmito de gozo
E um calor de desejo,
E soe o farfalhar das árvores, moroso
Como o rumor de um beijo.
Palpite a natureza inteira, bela e amante,
Volutuosa e festiva.
E tudo vibre e esplenda, e tudo fulja e cante,
E tudo sonhe e viva.
A sepultura é noute onde rasteja o verme...
Ó luz que eu tanto adoro,
Amortalha-me tu! E possa eu desfazer-me
No ar claro e sonoro!
Publicado no livro Poemas e Canções (1908).
In: CARVALHO, Vicente de. Poemas e canções. 17.ed. São Paulo: Saraiva, 196
1 953
Vicente de Carvalho
A Voz do Sino
I
Tarde triste e silenciosa
De vila de beira-mar:
Uma tarde cor-de-rosa
Que vai morrendo em luar...
(...)
De súbito, rumoreja
Violentamente o ar:
Na torrezinha da igreja
Rompe o sino a badalar.
Ponho-me atento, a escutá-lo:
Que diz, alto e repentino,
Esse bater de um badalo
Num sino?
Badalo que assim badalas
No sino que assim ressoa,
Aves, já nenhuma voa:
Dormem; e vais acordá-las
À-toa...
Vais espantar quanta moça
Aí pelos arredores
Depois de um dia de roça,
De enxada e de soalheira,
Dedica a tarde ligeira
A tarefas bem melhores:
Pelas discretas beiradas
De alguma fonte; fiadas
Na proteção pitoresca
De ramagens, folha, flores;
Que fazem elas? Coitadas,
Bebem, nas mãos, água fresca...
Lavam as caras tostadas...
Ou cuidam dos seus amores...
Badalo que assim badalas
No sino que assim ressoa,
Olha que vais espantá-las
À-toa...
Badalas... E eu que te falo
Não sei e nem imagino
Que pretendes tu, badalo,
A bater, bater no sino.
Talvez convoques à ceia
Pescadores que, lidando,
Nem viram que entardeceu;
Algum se estendeu na areia
A descansar; senão quando,
De cansado adormeceu...
(...)
Publicado no livro Poemas e Canções (1908).
In: CARVALHO, Vicente de. Poemas e canções. 17.ed. São Paulo: Saraiva, 196
Tarde triste e silenciosa
De vila de beira-mar:
Uma tarde cor-de-rosa
Que vai morrendo em luar...
(...)
De súbito, rumoreja
Violentamente o ar:
Na torrezinha da igreja
Rompe o sino a badalar.
Ponho-me atento, a escutá-lo:
Que diz, alto e repentino,
Esse bater de um badalo
Num sino?
Badalo que assim badalas
No sino que assim ressoa,
Aves, já nenhuma voa:
Dormem; e vais acordá-las
À-toa...
Vais espantar quanta moça
Aí pelos arredores
Depois de um dia de roça,
De enxada e de soalheira,
Dedica a tarde ligeira
A tarefas bem melhores:
Pelas discretas beiradas
De alguma fonte; fiadas
Na proteção pitoresca
De ramagens, folha, flores;
Que fazem elas? Coitadas,
Bebem, nas mãos, água fresca...
Lavam as caras tostadas...
Ou cuidam dos seus amores...
Badalo que assim badalas
No sino que assim ressoa,
Olha que vais espantá-las
À-toa...
Badalas... E eu que te falo
Não sei e nem imagino
Que pretendes tu, badalo,
A bater, bater no sino.
Talvez convoques à ceia
Pescadores que, lidando,
Nem viram que entardeceu;
Algum se estendeu na areia
A descansar; senão quando,
De cansado adormeceu...
(...)
Publicado no livro Poemas e Canções (1908).
In: CARVALHO, Vicente de. Poemas e canções. 17.ed. São Paulo: Saraiva, 196
3 612
Jorge Luis Borges
Andrés Armoa
Los años le han dejado unas palabras en guaraní, que sabe usar cuando la
ocasión lo requiere, pero que no podría traducir sin algún trabajo.
Los otros soldados lo aceptan, pero algunos (no todos) sienten que algo ajeno
hay en él, como si fuera hereje o infiel o padeciera un mal.
Este rechazo lo fastidia menos que el interés de los reclutas.
No es bebedor, pero suele achisparse los sábados.
Tiene la costumbre del mate, que puebla de algún modo la soedad.
Las mujeres no lo quieren y él no las busca.
Tiene un hijo en Dolores. Hace años que no sabe nada de él, a la manera de la
gente sencilla que no se escribe.
No es hombre de buena conversación, pero suele contar, siempre con las mismas
palabras, aquella larga marcha de tantas leguas desde Junín hasta San Carlos.
Quizá la cuenta con las mismas palabras, porque las sabe de memoria y ha
olvidado los hechos.
No tiene catre. Duerme sobre el recado y no sabe qué cosa es la pesadilla.
Tiene la conciencia tranquila. Se ha limitado a cumplir órdenes.
Goza de la confianza de sus jefes.
Es el degollador.
Ha perdido la cuenta de las veces que ha visto el alba en el desierto.
Ha perdido la cuenta de las gargantas, pero no olvidará la primera y los
visajes que hizo el pampa.
Nunca lo ascenderán. No debe llamar la atención.
En su provincia fue domador. Ya es incapaz de jinetear un bagual, pero le
gustan los caballos y los entiende.
Es amigo de un indio.
Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", pág. 549 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
ocasión lo requiere, pero que no podría traducir sin algún trabajo.
Los otros soldados lo aceptan, pero algunos (no todos) sienten que algo ajeno
hay en él, como si fuera hereje o infiel o padeciera un mal.
Este rechazo lo fastidia menos que el interés de los reclutas.
No es bebedor, pero suele achisparse los sábados.
Tiene la costumbre del mate, que puebla de algún modo la soedad.
Las mujeres no lo quieren y él no las busca.
Tiene un hijo en Dolores. Hace años que no sabe nada de él, a la manera de la
gente sencilla que no se escribe.
No es hombre de buena conversación, pero suele contar, siempre con las mismas
palabras, aquella larga marcha de tantas leguas desde Junín hasta San Carlos.
Quizá la cuenta con las mismas palabras, porque las sabe de memoria y ha
olvidado los hechos.
No tiene catre. Duerme sobre el recado y no sabe qué cosa es la pesadilla.
Tiene la conciencia tranquila. Se ha limitado a cumplir órdenes.
Goza de la confianza de sus jefes.
Es el degollador.
Ha perdido la cuenta de las veces que ha visto el alba en el desierto.
Ha perdido la cuenta de las gargantas, pero no olvidará la primera y los
visajes que hizo el pampa.
Nunca lo ascenderán. No debe llamar la atención.
En su provincia fue domador. Ya es incapaz de jinetear un bagual, pero le
gustan los caballos y los entiende.
Es amigo de un indio.
Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", pág. 549 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
1 094
Fernando Pessoa
V - Lá fora vai um redemoinho de sol
V
Lá fora vai um redemoinho de sol os cavalos do carroussel...
Árvores, pedras, montes, bailam parados dentro de mim...
Noite absoluta na feira iluminada, luar no dia de sol lá fora,
E as luzes todas da feira fazem ruído dos muros do quintal...
Ranchos de raparigas de bilha à cabeça
Que passam lá fora, cheias de estar sob o sol,
Cruzam-se com grandes grupos peganhentos de gente que anda na feira,
Gente toda misturada com as luzes das barracas com a noite e com o luar,
E os dois grupos encontram-se e penetram-se
Até formarem só um que é os dois...
A feira e as luzes da feira e a gente que anda na feira,
E a noite que pega na feira e a levanta ao ar,
Andam por cima das copas das árvores cheias de sol,
Andam visivelmente por baixo dos penedos que luzem ao sol,
Aparecem do outro lado das bilhas que as raparigas levam à cabeça,
E toda esta paisagem de Primavera é a lua sobre a feira,
E toda a feira com ruídos e luzes é o chão deste dia de sol...
De repente alguém sacode esta hora dupla como numa peneira
E, misturado, o pó das duas realidades cai
Sobre as minhas mãos cheias de desenhos de portos
Com grandes naus que se vão e não pensam em voltar...
Pó de oiro branco e negro sobre os meus dedos...
As minhas mãos são os passos daquela rapariga que abandona a feira,
Sozinha e contente como o dia de hoje...
Lá fora vai um redemoinho de sol os cavalos do carroussel...
Árvores, pedras, montes, bailam parados dentro de mim...
Noite absoluta na feira iluminada, luar no dia de sol lá fora,
E as luzes todas da feira fazem ruído dos muros do quintal...
Ranchos de raparigas de bilha à cabeça
Que passam lá fora, cheias de estar sob o sol,
Cruzam-se com grandes grupos peganhentos de gente que anda na feira,
Gente toda misturada com as luzes das barracas com a noite e com o luar,
E os dois grupos encontram-se e penetram-se
Até formarem só um que é os dois...
A feira e as luzes da feira e a gente que anda na feira,
E a noite que pega na feira e a levanta ao ar,
Andam por cima das copas das árvores cheias de sol,
Andam visivelmente por baixo dos penedos que luzem ao sol,
Aparecem do outro lado das bilhas que as raparigas levam à cabeça,
E toda esta paisagem de Primavera é a lua sobre a feira,
E toda a feira com ruídos e luzes é o chão deste dia de sol...
De repente alguém sacode esta hora dupla como numa peneira
E, misturado, o pó das duas realidades cai
Sobre as minhas mãos cheias de desenhos de portos
Com grandes naus que se vão e não pensam em voltar...
Pó de oiro branco e negro sobre os meus dedos...
As minhas mãos são os passos daquela rapariga que abandona a feira,
Sozinha e contente como o dia de hoje...
1 355
Anterior
Página 33