Poemas neste tema
Sol, amanhecer e pôr do sol
Geir Campos
Haicai
Vento da manhã
varre as folhas pelo chão
do dia que nasce.
Olhos de afogado:
são de ver coisas terríveis
no fundo do mar.
varre as folhas pelo chão
do dia que nasce.
Olhos de afogado:
são de ver coisas terríveis
no fundo do mar.
1 283
Lili Gharcia
Tema de Verão
Abriu-se
a cortina
e a tarde se iluminou brusca.
As naturezas acenderam a luz do ar.
Todas as coisas
e as não-coisas foram tingidas.
Felicidade espreguiçou radiante de luz e ar.
Este Pedaço de mundo,
o meu mundo,
o não-mundo,
e até mesmo o universo paralelo, marginal,
respirou sem querer, raro.
Pronto.
Já era tarde para impedir
que os músculos e as vísceras
ficassem limpos, lavados.
Tarde para admitir qualquer verdade,
inclusive a de que
fomos inumanos pelo sol fresco
e, num átomo, somos um todo.
a cortina
e a tarde se iluminou brusca.
As naturezas acenderam a luz do ar.
Todas as coisas
e as não-coisas foram tingidas.
Felicidade espreguiçou radiante de luz e ar.
Este Pedaço de mundo,
o meu mundo,
o não-mundo,
e até mesmo o universo paralelo, marginal,
respirou sem querer, raro.
Pronto.
Já era tarde para impedir
que os músculos e as vísceras
ficassem limpos, lavados.
Tarde para admitir qualquer verdade,
inclusive a de que
fomos inumanos pelo sol fresco
e, num átomo, somos um todo.
683
Gilberto Avelino
Na Piscina
Aquém do mar,
a piscina
de águas azuis.
As sombras,
os ventos,
as mesas,
brancas,
circulando
a piscina.
A suavidade
da água de cocos.
Ou o doce e fino
sabor
da água das fontes,
após
comer-se
a leve gordura dos cascos,
a clara carne
das patas
dos vermelhos
caranguejos cozidos.
Ainda,
a carne seca,
assada nas brasas,
flamejando.
Em copos de cristal,
a tênue espuma
do vinho
branco
ou tinto,
com verdes-azeitonas
boiando.
Enterneciam a manhã
os blues
de Louis Armstrong.
Aquém do mar,
a piscina
de águas azuis.
De repente
vinhas,
a davas ao corpo
a carícia das águas.
Com o exíguo vestir,
em relevo expunhas
ao sol
o viço
da inapagável beleza
do teu corpo.
E do olhar
nasciam-me
salsas enlaçantes.
Não te esqueças,
portanto,
girassol de dezembro,
de que sempre volto
a ver
o azul dessas águas.
a piscina
de águas azuis.
As sombras,
os ventos,
as mesas,
brancas,
circulando
a piscina.
A suavidade
da água de cocos.
Ou o doce e fino
sabor
da água das fontes,
após
comer-se
a leve gordura dos cascos,
a clara carne
das patas
dos vermelhos
caranguejos cozidos.
Ainda,
a carne seca,
assada nas brasas,
flamejando.
Em copos de cristal,
a tênue espuma
do vinho
branco
ou tinto,
com verdes-azeitonas
boiando.
Enterneciam a manhã
os blues
de Louis Armstrong.
Aquém do mar,
a piscina
de águas azuis.
De repente
vinhas,
a davas ao corpo
a carícia das águas.
Com o exíguo vestir,
em relevo expunhas
ao sol
o viço
da inapagável beleza
do teu corpo.
E do olhar
nasciam-me
salsas enlaçantes.
Não te esqueças,
portanto,
girassol de dezembro,
de que sempre volto
a ver
o azul dessas águas.
2 343
António Ramos Rosa
Pedra de Sol Na Boca
Pedra de sol na boca
língua verde
ombros no horizonte
próximos
língua verde
ombros no horizonte
próximos
990
António Ramos Rosa
A Duna
A duna
ou quando
o sol
do sangue
ou quando
o sol
do sangue
526
António Ramos Rosa
O Movimento do Repouso
O movimento do repouso
a trama do sol sem figura
o vento ou o sol
ou talvez
o sopro do sol
um sopro quente perdido
tão rápido no silêncio sob as árvores
a trama do sol sem figura
o vento ou o sol
ou talvez
o sopro do sol
um sopro quente perdido
tão rápido no silêncio sob as árvores
1 169
António Ramos Rosa
Oscilação No Branco
A oscilação quase, quase pressentida, de um vocábulo ou de uma lâmpada branca. Mas o que oscila, invisível (quase?) não é palavra nem objecto. Poderá ser para um efeito poético uma nuvem ou uma sombra. Não é nada. Nem sequer oscila. Quem escreve sente a matéria gráfica e o branco da superfície da página. O que se passa? Alguém expira. O silêncio é feito da sufocação de uma impossível agonia. Ao sol. Na plenitude do sol. Na plenitude do branco. O que, talvez, oscile será o sentido absoluto de que livro, de que estranha estranheza e ilegível livro? Nenhuma frase pode corresponder à agonia dos que já não podem morrer e sucumbem infindavelmente na sua impossível morte. Nenhuma frase, nenhuma palavra… mas a brancura do sentido que a um tempo corrói e exalta os vocábulos, não é para a definitiva nudez que aponta sem que no entanto a possa alguma vez dizer?
1 102
António Ramos Rosa
Entre o Sal E o Sol
Esta página é talvez o deserto ou talvez uma praia. Percorre-a, sílaba por sílaba, até que. Uma sílaba, uma parede coberta de folhagem. Folhagem ou água ou vento. Uma boca devorada pela língua ou pelo sol. Uma praia na pele entre o sal e o sol. Uma frase, uma só frase despojada, nua, selvagem. As gaivotas sublinham uma boca enublada e límpida. A mão levanta-se até tocar uma raiz, uma veia, uma palavra. O texto é um clamor de silêncios e sombras e luzes. O corpo é uma sombra luminosa, uma pedra fresquíssima. Toca-lhe. É um animal entre o vento e o sol. É uma sombra ondulante e leve. Que respira entre a areia e a água.
1 224
António Ramos Rosa
O Lugar
a Lídia Jorge
Algo está por dizer Ao longe o diamante
da distância a promessa fulgurante
Aqui onde tudo será como uma festa
ao fundo das áleas de ciprestes e pinheiros
as amorosas arcadas transparentes
a praia que se estende um lábio fulvo
algo adormece no sossego de nenhuma vaga
nenhuma espuma Um navio silencioso
As palavras iniciam a delicada translucidez
*
Branco domínio do ser aéreo movimento
imóvel Um caminho redondo
em torno de uma torre O sabor de viver
em claridade e calma Espiral
a partir do solo até ao sol Transparência
compacta com as grandes pedras claras
os insectos a seiva a hera sobre os troncos
os anéis do dia
*
Eis o esplendor no seu repouso de praia
Todas as tensões e intensidades se tornaram um arco
Aqui a nascente ressoa no lugar central
as formas puras resplandecem com as suas sombras lúcidas
a construção é clara
*
Amplitude imensa da água serena
o júbilo tranquilo na circulação amiga
esplendor vivacidade clamor branco
o lugar da presença e da evidência
das escadas de pedra
das portas esculpidas
o que se respira é o tempo o espaço o oiro leve
Algo está por dizer Ao longe o diamante
da distância a promessa fulgurante
Aqui onde tudo será como uma festa
ao fundo das áleas de ciprestes e pinheiros
as amorosas arcadas transparentes
a praia que se estende um lábio fulvo
algo adormece no sossego de nenhuma vaga
nenhuma espuma Um navio silencioso
As palavras iniciam a delicada translucidez
*
Branco domínio do ser aéreo movimento
imóvel Um caminho redondo
em torno de uma torre O sabor de viver
em claridade e calma Espiral
a partir do solo até ao sol Transparência
compacta com as grandes pedras claras
os insectos a seiva a hera sobre os troncos
os anéis do dia
*
Eis o esplendor no seu repouso de praia
Todas as tensões e intensidades se tornaram um arco
Aqui a nascente ressoa no lugar central
as formas puras resplandecem com as suas sombras lúcidas
a construção é clara
*
Amplitude imensa da água serena
o júbilo tranquilo na circulação amiga
esplendor vivacidade clamor branco
o lugar da presença e da evidência
das escadas de pedra
das portas esculpidas
o que se respira é o tempo o espaço o oiro leve
1 059
António Ramos Rosa
Presença Solar E Sólida Fugidia…
… Recolho-me para escutar… o silêncio resolver-se-á na conjugação de palavras sólidas e brancas… palavras que substituirão o sentido pela arcaica ressonância de uma disseminação… as palavras serão a realização aberta à qualificação mais livre e nula
… É um novo silêncio e um novo sol
sobre a mesa de pedra
o meu desejo à claridade da folha
lança-se
sobre um campo verde
ao abandono vejo
a força material dos membros e o tronco de mulher
as pernas fortes laceradas pelos espinhos
pernas solares sólidas para os caminhos solitários e íngremes
ignoro se invento esta presença
com as palavras ou se algo se abriu
no interior de um olhar
ignoro se estas palavras vêm da visão
de uma figura entrevista entre as árvores…
uma energia intensa… é quase um grito
que cega e liberta
e se suspende ao abandono na página
e então será o arranque ou a explosão
a planície líquida onde a figura emerge…
a solidez compacta dos seios
o triângulo negro do púbis
o triunfo branco das pernas sólidas redondas
Vejo-te transcrita palpitante seda
forma alta e pura branca e livre
nascida do desejo e da linguagem sólida
quem te chamaria o sol entre as árvores vibrante
se mais que o sol deslumbras e és solar
solar e sólida nos caminhos ásperos
viajante das manhãs de um sossego de fábula
terra terra verde e doirada ó fulva deusa
que corres como um arco sobre as hastes
tuas pernas brancas revelam-se sob as vestes
branquejam sobre a página incendeiam-se
sólidas solares cálidas fogosas
como te materializas se te apagas branca
e mais não és que um sopro dissipado
estas palavras no entanto te levantam
ó amor de um corpo que a linguagem liga
ambígua intermitente e luminosa embora
como transmitir tua geometria das formas
se te fragmento e dilacero te perco…
A presença viva apaga-se entre as pedras no papel… apaga-se mas não se anula… fica o seu rastro alucinante… uma visão vaga mas ardente… o desejo de retornar ao canto… ouvi-la cantar no próprio movimento das formas ó perfume da solidez divina terrena brancura invulnerável…
… É um novo silêncio e um novo sol
sobre a mesa de pedra
o meu desejo à claridade da folha
lança-se
sobre um campo verde
ao abandono vejo
a força material dos membros e o tronco de mulher
as pernas fortes laceradas pelos espinhos
pernas solares sólidas para os caminhos solitários e íngremes
ignoro se invento esta presença
com as palavras ou se algo se abriu
no interior de um olhar
ignoro se estas palavras vêm da visão
de uma figura entrevista entre as árvores…
uma energia intensa… é quase um grito
que cega e liberta
e se suspende ao abandono na página
e então será o arranque ou a explosão
a planície líquida onde a figura emerge…
a solidez compacta dos seios
o triângulo negro do púbis
o triunfo branco das pernas sólidas redondas
Vejo-te transcrita palpitante seda
forma alta e pura branca e livre
nascida do desejo e da linguagem sólida
quem te chamaria o sol entre as árvores vibrante
se mais que o sol deslumbras e és solar
solar e sólida nos caminhos ásperos
viajante das manhãs de um sossego de fábula
terra terra verde e doirada ó fulva deusa
que corres como um arco sobre as hastes
tuas pernas brancas revelam-se sob as vestes
branquejam sobre a página incendeiam-se
sólidas solares cálidas fogosas
como te materializas se te apagas branca
e mais não és que um sopro dissipado
estas palavras no entanto te levantam
ó amor de um corpo que a linguagem liga
ambígua intermitente e luminosa embora
como transmitir tua geometria das formas
se te fragmento e dilacero te perco…
A presença viva apaga-se entre as pedras no papel… apaga-se mas não se anula… fica o seu rastro alucinante… uma visão vaga mas ardente… o desejo de retornar ao canto… ouvi-la cantar no próprio movimento das formas ó perfume da solidez divina terrena brancura invulnerável…
534
António Ramos Rosa
A Partir do Deserto
Abre-se o espaço uma corola se abre
a partir do deserto
um silêncio se apaga outro silêncio de água
Desce a dançarina exacta
até ao extremo da brancura
A noite é verde
na distância dos cabelos
Nenhuma imagem subsiste
Nenhuma gota de sangue
O sol repousa numa obscura nuvem
Absoluta a suavidade sem espera
um aroma sem aroma
o silêncio entre os corpos
a partir do deserto
um silêncio se apaga outro silêncio de água
Desce a dançarina exacta
até ao extremo da brancura
A noite é verde
na distância dos cabelos
Nenhuma imagem subsiste
Nenhuma gota de sangue
O sol repousa numa obscura nuvem
Absoluta a suavidade sem espera
um aroma sem aroma
o silêncio entre os corpos
1 067
António Ramos Rosa
A Deusa Visível
¿Cómo decir lo que veo tan claro?
ÁNGEL CRESPO
Tão viva e ardente e tão clara
no ar em que ela ondula e treme
mais brilhante do que a luz e mais serena
não se adivinha não se imagina a deusa
que não vi e claramente vejo
dormindo no silêncio sem latidos
Como dizer o que é mais claro que a claridade
a visão nua de uma mulher na luz
mais completa e mais diurna
do que o dia?
A claridade apaga a claridade
ÁNGEL CRESPO
Tão viva e ardente e tão clara
no ar em que ela ondula e treme
mais brilhante do que a luz e mais serena
não se adivinha não se imagina a deusa
que não vi e claramente vejo
dormindo no silêncio sem latidos
Como dizer o que é mais claro que a claridade
a visão nua de uma mulher na luz
mais completa e mais diurna
do que o dia?
A claridade apaga a claridade
1 133
António Ramos Rosa
Insituável Lugar
Um oblíquo solo Um contorno
adormecido iluminado
Confiança na lentidão para um desvio
e uma aliança no intacto
Canais inextricáveis
em todos os sentidos Nenhum
centro mas
estigmas eflúvios sussurros
sombras de animais furtivos
o bafo germinal o negro
do interdito corpo
Insituável lugar cintilações
de um jogo Como
iniciar a espiral para além do magma?
Desenrola-se sobre os resíduos sob o vento
uma espécie de
animal ou fábula ou deus pequeno
Sombras resvalam O amarelo
contém o negro As veias traçam
o contorno de umas palavras de pedra
Nenhuma semelhança na folhagem opaca
Um caminho nocturno principia
para a presença talvez de uma figura
Conivência do sangue com o ar
quando nasce uma folha um sol
quando o deslumbramento da ferida
fogos minúsculos no mármore ascendem
tenazes ténues moléculas
ao longo de uma língua de sombra e verde
um clamor se eleva no limiar
de uma profunda câmara
de frescura
a linguagem confunde-se com a nascente
a clara boca abre-se ao esquecimento
adormecido iluminado
Confiança na lentidão para um desvio
e uma aliança no intacto
Canais inextricáveis
em todos os sentidos Nenhum
centro mas
estigmas eflúvios sussurros
sombras de animais furtivos
o bafo germinal o negro
do interdito corpo
Insituável lugar cintilações
de um jogo Como
iniciar a espiral para além do magma?
Desenrola-se sobre os resíduos sob o vento
uma espécie de
animal ou fábula ou deus pequeno
Sombras resvalam O amarelo
contém o negro As veias traçam
o contorno de umas palavras de pedra
Nenhuma semelhança na folhagem opaca
Um caminho nocturno principia
para a presença talvez de uma figura
Conivência do sangue com o ar
quando nasce uma folha um sol
quando o deslumbramento da ferida
fogos minúsculos no mármore ascendem
tenazes ténues moléculas
ao longo de uma língua de sombra e verde
um clamor se eleva no limiar
de uma profunda câmara
de frescura
a linguagem confunde-se com a nascente
a clara boca abre-se ao esquecimento
1 099
António Ramos Rosa
Onde Os Deuses Se Encontram
Não busques não esperes
*
Como procurar a nudez do simples?
Os deuses encontram-se no refúgio aberto sombreado
*
O círculo dilata-se e dilata-nos
O lugar revela-se no esplendor da luz
*
O mar levanta as suas lâmpadas brancas
*
Diz de novo a fascinante simplicidade
*
Diz agora as minúcias
deslumbrantes
arcos na areia insectos frutos
*
Tanta luz tanta sombra iluminada!
*
Como procurar a nudez do simples?
Os deuses encontram-se no refúgio aberto sombreado
*
O círculo dilata-se e dilata-nos
O lugar revela-se no esplendor da luz
*
O mar levanta as suas lâmpadas brancas
*
Diz de novo a fascinante simplicidade
*
Diz agora as minúcias
deslumbrantes
arcos na areia insectos frutos
*
Tanta luz tanta sombra iluminada!
571
António Ramos Rosa
Na Conjunção Radiosa do Habitar
Na conjunção radiosa do habitar
as distâncias fluem
no nunca afirmado esplendor
de rajadas sedentas e solares.
as distâncias fluem
no nunca afirmado esplendor
de rajadas sedentas e solares.
1 103
José Saramago
27
Lavaram as feridas na água do mar e agora estão sentados na areia enquanto as sentinelas vigiam no alto das dunas
E este o preço da paz quando o amanhecer vem perto e o medo de morrer é esse mais humano de não viver bastante
A penumbra que ainda esconde as águas cheira a algas pisadas e a guelras e tem o poder inesperado de fazer inchar os músculos pobres
Se afastássemos o quase inaudível bater da onda poderíamos dizer que o silêncio fecha todo o horizonte e logo é absoluto quando o primeiro arco do sol começa a erguer-se
O mundo durante o minuto seguinte vai ficar rubro cereja e os homens e as mulheres parecem flutuar no interior de um forno e são imortais
Distante julgaríamos o ano de 1993 e contudo é tempo dele ainda
Mas soltas esparsas esperanças sobrevivem aos mortos intermináveis e ao sangue tanto que este sol encontra na praia uma tribo que repousa entre duas batalhas
E não já como tantas vezes antes um rebanho de carneiros fugitivos com chagas de vergonha no lugar dos cornos arrancados
Ó eloquentemente diríamos ó se não fosse preferível que percorrêssemos nós esta praia manchada de sangue dizendo algumas e discretas palavras em voz baixa meus amigos
Tanto mais que do lado do mar se aproxima voando o primeiro bando de gaivotas que desde há muito muito tempo é visto nesta terra ocupada
Sinal de que talvez nos reconheça enfim a vida e de que nem tudo se perdeu nas abjecções que consentimos algumas vezes cúmplices
Estão agora sobre nós as gaivotas pairando e deixam pender um pouco a cabeça para melhor nos fitarem e decidirem quem somos
Entretanto o sol saiu inteiro da madrugada enquanto mal feridos nos erguemos e as sentinelas gritam a reunir porque o inimigo vem perto
E este o preço da paz quando o amanhecer vem perto e o medo de morrer é esse mais humano de não viver bastante
A penumbra que ainda esconde as águas cheira a algas pisadas e a guelras e tem o poder inesperado de fazer inchar os músculos pobres
Se afastássemos o quase inaudível bater da onda poderíamos dizer que o silêncio fecha todo o horizonte e logo é absoluto quando o primeiro arco do sol começa a erguer-se
O mundo durante o minuto seguinte vai ficar rubro cereja e os homens e as mulheres parecem flutuar no interior de um forno e são imortais
Distante julgaríamos o ano de 1993 e contudo é tempo dele ainda
Mas soltas esparsas esperanças sobrevivem aos mortos intermináveis e ao sangue tanto que este sol encontra na praia uma tribo que repousa entre duas batalhas
E não já como tantas vezes antes um rebanho de carneiros fugitivos com chagas de vergonha no lugar dos cornos arrancados
Ó eloquentemente diríamos ó se não fosse preferível que percorrêssemos nós esta praia manchada de sangue dizendo algumas e discretas palavras em voz baixa meus amigos
Tanto mais que do lado do mar se aproxima voando o primeiro bando de gaivotas que desde há muito muito tempo é visto nesta terra ocupada
Sinal de que talvez nos reconheça enfim a vida e de que nem tudo se perdeu nas abjecções que consentimos algumas vezes cúmplices
Estão agora sobre nós as gaivotas pairando e deixam pender um pouco a cabeça para melhor nos fitarem e decidirem quem somos
Entretanto o sol saiu inteiro da madrugada enquanto mal feridos nos erguemos e as sentinelas gritam a reunir porque o inimigo vem perto
1 205
José Saramago
22
E porque os antigos deuses haviam morrido por inúteis os homens descobriram outros que sempre tinham existido encobertos pela sua não necessidade
O primeiro de todos foi a montanha porque era ela que no seu mais alto pico sustentava o peso do céu
Aquele mesmo céu que os velhos deuses em tempos idos habitaram e donde de pais para filhos desprezaram os homens porque desprezo fora impor-lhes salvações contra a sua própria humanidade
O segundo deus foi o sol porque ensinara a redescobrir a roda embora houvesse tribos que veneravam a lua pela mesma razão
Essas porém em noites de quarto minguante ou crescente traziam os olhos baixos
Provando assim que sempre cada tribo tem o deus que prefere e não outros
Mas a nova mitologia a isto se resumiu porque um dia houve um homem que subiu ao pico da montanha e por essa maneira se viu que sozinho levantara o céu
E outro pegou nas rodas que haviam sido o sol e a lua e lançou-as para longe onde não brilharam
Definitivamente deus só ficou o rio porque os homens vão mergulhar nele as mãos e o rosto e têm estrelas nos olhos quando se levantam
Enquanto as águas por sua vez transportam ao céu e ao sol se o há a turvidão salgada das lágrimas e do suor
E as plantas verdes que dentro de água vivem estremecem sob o vento que traz aquele cheiro de homem a que a terra ainda não se habituou
O primeiro de todos foi a montanha porque era ela que no seu mais alto pico sustentava o peso do céu
Aquele mesmo céu que os velhos deuses em tempos idos habitaram e donde de pais para filhos desprezaram os homens porque desprezo fora impor-lhes salvações contra a sua própria humanidade
O segundo deus foi o sol porque ensinara a redescobrir a roda embora houvesse tribos que veneravam a lua pela mesma razão
Essas porém em noites de quarto minguante ou crescente traziam os olhos baixos
Provando assim que sempre cada tribo tem o deus que prefere e não outros
Mas a nova mitologia a isto se resumiu porque um dia houve um homem que subiu ao pico da montanha e por essa maneira se viu que sozinho levantara o céu
E outro pegou nas rodas que haviam sido o sol e a lua e lançou-as para longe onde não brilharam
Definitivamente deus só ficou o rio porque os homens vão mergulhar nele as mãos e o rosto e têm estrelas nos olhos quando se levantam
Enquanto as águas por sua vez transportam ao céu e ao sol se o há a turvidão salgada das lágrimas e do suor
E as plantas verdes que dentro de água vivem estremecem sob o vento que traz aquele cheiro de homem a que a terra ainda não se habituou
1 104
José Saramago
18
Muito perto do lugar escolhido para o novo acampamento as quatro mulheres que transportavam o fogo gritaram de desespero
Ninguém morrera subitamente ninguém fora arrebatado aos ares pelas águias mecânicas que os ocupantes lançavam sobre os bandos fugitivos
Mas ao apagar-se o fogo acontecera a desgraça de todas mais temida porque com ela seria o tempo do pavor sem remédio do negrume gelado da solidão
E metade da horda viria certamente a sucumbir na tentativa de arrancar às cidades ocupadas um novo lume se para tanto tivesse coragem
Reuniram-se em volta das cinzas e ali mesmo o chefe foi deposto e as quatro mulheres apedrejadas mas não até à morte
Porque os perseguidos estavam tão certos de morrer que respeitavam a vida e provavelmente por isso morriam com tanta facilidade
Assim começou aquela primeira noite de escuridão com todo o bando amassado numa nódoa de sombra sob o pálido e distante luzeiro das estrelas
Como sempre faziam ao fim do dia contaram-se e souberam que eram menos um
E quando apesar da sua tão grande miséria tornaram a lamentar-se por este pouco
Uma criança disse que vira afastar-se na direcção do poente um homem da tribo e que isso fora depois de o lume se apagar
A noite foi como um lastro de lama porque as estrelas estavam longe e ardiam friamente
E o dia seguinte nasceu e passou sem que se movessem dali comeram dormiram e alguns juntaram os sexos para não terem tanto medo
Outra noite se levantou da terra e vieram os lobos mecânicos que levaram consigo de rastos os dez homens mais fortes
Só se afastaram quando o sol começou a aparecer e uivaram de longe com as suas gargantas de ferro enquanto das feridas dos mortos pingava o sangue
Então sobre o disco vermelho viram os homens e as mulheres sobreviventes um ponto negro que aumentava e julgaram que o próprio sol ia apagar-se
Até ao momento em que distinguiram o homem que corria para eles o companheiro que os deixara duas noites antes e que nesse homem havia também um ponto luminoso
Uma labareda que vinha no braço levantado e que era a própria mão ardendo da luz do sol roubada
Ninguém morrera subitamente ninguém fora arrebatado aos ares pelas águias mecânicas que os ocupantes lançavam sobre os bandos fugitivos
Mas ao apagar-se o fogo acontecera a desgraça de todas mais temida porque com ela seria o tempo do pavor sem remédio do negrume gelado da solidão
E metade da horda viria certamente a sucumbir na tentativa de arrancar às cidades ocupadas um novo lume se para tanto tivesse coragem
Reuniram-se em volta das cinzas e ali mesmo o chefe foi deposto e as quatro mulheres apedrejadas mas não até à morte
Porque os perseguidos estavam tão certos de morrer que respeitavam a vida e provavelmente por isso morriam com tanta facilidade
Assim começou aquela primeira noite de escuridão com todo o bando amassado numa nódoa de sombra sob o pálido e distante luzeiro das estrelas
Como sempre faziam ao fim do dia contaram-se e souberam que eram menos um
E quando apesar da sua tão grande miséria tornaram a lamentar-se por este pouco
Uma criança disse que vira afastar-se na direcção do poente um homem da tribo e que isso fora depois de o lume se apagar
A noite foi como um lastro de lama porque as estrelas estavam longe e ardiam friamente
E o dia seguinte nasceu e passou sem que se movessem dali comeram dormiram e alguns juntaram os sexos para não terem tanto medo
Outra noite se levantou da terra e vieram os lobos mecânicos que levaram consigo de rastos os dez homens mais fortes
Só se afastaram quando o sol começou a aparecer e uivaram de longe com as suas gargantas de ferro enquanto das feridas dos mortos pingava o sangue
Então sobre o disco vermelho viram os homens e as mulheres sobreviventes um ponto negro que aumentava e julgaram que o próprio sol ia apagar-se
Até ao momento em que distinguiram o homem que corria para eles o companheiro que os deixara duas noites antes e que nesse homem havia também um ponto luminoso
Uma labareda que vinha no braço levantado e que era a própria mão ardendo da luz do sol roubada
1 104
Birago Diop
Presságio
Um sol todo nu – um sol amarelo
Um sol todo nu de apressada alvorada
Derrama vagas de ouro do lado de lá da
Margem do rio todo amarelo.
Um sol todo nu – um sol todo branco
Um sol todo nu e todo branco
Derrama vagas de prata
Sobre o rio branco branco.
Um sol todo nu – um sol todo rubro
Um sol todo nu e todo rubro
Derrama vagas de rubro sangue
Sobre o rio repleto de rubro.
:
Présage
Un soleil tout nu - un soleil tout jaune
Un soleil tout nu d'aube hâtive
Verse des flots d'or sur la rive
Du fleuve tout jaune.
Un soleil tout nu - un soleil tout blanc
Un soleil tout nu et tout blanc
Verse des flots d'argent
Sur le fleuve tout blanc.
Un soleil tout nu - un soleil tout rouge
Un soleil tout nu et tout rouge
Verse des flots de sang rouge
Sur le fleuve tout rouge.
945
Pedro Kilkerry
Horas Ígneas
I
Eu sorvo o haxixe do estio...
E evolve um cheiro, bestial,
Ao solo quente, como o cio
De um chacal.
Distensas, rebrilham sobre
Um verdor, flamâncias de asa...
Circula um vapor de cobre
Os montes — de cinza e brasa.
Sombras de voz hei no ouvido
— De amores ruivos, protervos —
E anda no céu, sacudido,
Um pó vibrante de nervos.
O mar faz medo... que espanca
A redondez sensual
Da praia, como uma anca
De animal.
II
O Sol, de bárbaro, estangue,
Olho, em volúpia de cisma,
Por uma cor só do prisma,
Veleiras, as naus — de sangue...
III
Tão longe levadas, pelas
Mãos de fluido ou braços de ar!
Cinge uma flora solar
— Grandes Rainhas — as velas.
Onda por onda ébria, erguida,
As ondas — povo do mar —
Tremem, nest'hora a sangrar,
Morrem — desejos da Vida!
IV
Nem ondas de sangue... e sangue
Nem de uma nau — Morre a cisma.
Doiram-me as faces do prisma
Mulheres — flores — num mangue...
In: CAMPOS, Augusto de. ReVisâo de Kilkerry. São Paulo: Fundação Estadual de Cultura, 1970
Eu sorvo o haxixe do estio...
E evolve um cheiro, bestial,
Ao solo quente, como o cio
De um chacal.
Distensas, rebrilham sobre
Um verdor, flamâncias de asa...
Circula um vapor de cobre
Os montes — de cinza e brasa.
Sombras de voz hei no ouvido
— De amores ruivos, protervos —
E anda no céu, sacudido,
Um pó vibrante de nervos.
O mar faz medo... que espanca
A redondez sensual
Da praia, como uma anca
De animal.
II
O Sol, de bárbaro, estangue,
Olho, em volúpia de cisma,
Por uma cor só do prisma,
Veleiras, as naus — de sangue...
III
Tão longe levadas, pelas
Mãos de fluido ou braços de ar!
Cinge uma flora solar
— Grandes Rainhas — as velas.
Onda por onda ébria, erguida,
As ondas — povo do mar —
Tremem, nest'hora a sangrar,
Morrem — desejos da Vida!
IV
Nem ondas de sangue... e sangue
Nem de uma nau — Morre a cisma.
Doiram-me as faces do prisma
Mulheres — flores — num mangue...
In: CAMPOS, Augusto de. ReVisâo de Kilkerry. São Paulo: Fundação Estadual de Cultura, 1970
2 497
Angela Santos
Ressonâncias
Subrepticiamente
um tremor se anuncia nas profundezas
lateja nas veias, em cada fibra, em cada músculo
e emerge à terra de ninguém onde me abandonei....
subitamente um rio galga as margens,
vou na corrente indo onde me leva,
não sou de mim, mesmo que me saiba e sinta
nasço de cada maré, em todos os ciclos lunares
e a cada manhã regresso desse lugar
onde sempre irei na senda do que houver perdido....
Carrego, as sombras e a alva, sou o caos que se ordena
a cada instante que respira,
e nenhuma outra voz ecoa nas labirínticas dobras da memória
que não essa que vem de um lugar e tempo inexplicitos.
Sou no eterno retorno onde me descubro e refaço,
E vivo do inaudito
raiz de mim onde asas ganho,
lugar do desatino onde me acerto
a cada erro, a cada dor, a cada passo, a cada rasgo de infinito.
um tremor se anuncia nas profundezas
lateja nas veias, em cada fibra, em cada músculo
e emerge à terra de ninguém onde me abandonei....
subitamente um rio galga as margens,
vou na corrente indo onde me leva,
não sou de mim, mesmo que me saiba e sinta
nasço de cada maré, em todos os ciclos lunares
e a cada manhã regresso desse lugar
onde sempre irei na senda do que houver perdido....
Carrego, as sombras e a alva, sou o caos que se ordena
a cada instante que respira,
e nenhuma outra voz ecoa nas labirínticas dobras da memória
que não essa que vem de um lugar e tempo inexplicitos.
Sou no eterno retorno onde me descubro e refaço,
E vivo do inaudito
raiz de mim onde asas ganho,
lugar do desatino onde me acerto
a cada erro, a cada dor, a cada passo, a cada rasgo de infinito.
643
Angela Santos
Instantes
Espanto e
assombro
navegam meus dias
e na visão de uma gota de orvalho
toda a luz de um cristal plangente
se revela no instante
em que o mistério se acerca.
Diante das coisas do mundo
se abrem feridas
e cascatas de luz se derramam também
se abertas as fendas
por onde entrar possam
os sinais aos olhos invisíveis
Estremeço
diante de um beijo
que se sente como pura vibração
num recanto de uma esquina qualquer
trocado, marcado em duas bocas
que ignoro, exibindo ao mundo
na expressão de um beijo
a incontida força que assoma à boca
da paixão
Em tudo me sinto,
e nada é ausência ou sem sentido
se desço ao centro do assombro
que rasga meus olhos
e deixa perenes sinais
Sobre a varanda dos meus dias
espero a luz da revelação,
e pressagio
em cada momento que passa
o inesperado mensageiro
do mistério da vida
que persigo.
Deixo-me levar no que vem
abraçando isso que não sei dizer
e na doce melopeia que me embala,
surgida desse ficar atenta
sacudo resquícios de raiva insuspeita
e sinto-me perto...mais perto de mim.
assombro
navegam meus dias
e na visão de uma gota de orvalho
toda a luz de um cristal plangente
se revela no instante
em que o mistério se acerca.
Diante das coisas do mundo
se abrem feridas
e cascatas de luz se derramam também
se abertas as fendas
por onde entrar possam
os sinais aos olhos invisíveis
Estremeço
diante de um beijo
que se sente como pura vibração
num recanto de uma esquina qualquer
trocado, marcado em duas bocas
que ignoro, exibindo ao mundo
na expressão de um beijo
a incontida força que assoma à boca
da paixão
Em tudo me sinto,
e nada é ausência ou sem sentido
se desço ao centro do assombro
que rasga meus olhos
e deixa perenes sinais
Sobre a varanda dos meus dias
espero a luz da revelação,
e pressagio
em cada momento que passa
o inesperado mensageiro
do mistério da vida
que persigo.
Deixo-me levar no que vem
abraçando isso que não sei dizer
e na doce melopeia que me embala,
surgida desse ficar atenta
sacudo resquícios de raiva insuspeita
e sinto-me perto...mais perto de mim.
996
Angela Santos
A Nossa Casa
Entrando,
a luz a domina,
a canela e o jasmim
se fundem e expandem
a nossa casa ...
Dentro
as paredes reflectem
a luz que a ilumina
e se derrama pelo chão...
Nossos livros, nossos quadros
musica, fotografias
nossa cama, nossas marcas
pelos cantos
Fora
colhem o dia e respiram
as flores,
e o serra da estrela, saltita
ao ver-te passar o umbral..
a nossa casa...
Abre-se a porta
a luz anuncia a chegada...
a rede baloiça,
acendo um cigarro
e deitas-te a meu lado...
A tarde serena cai
sobre as Buganvilias
e os coqueirais
e algo em nós se ilumina...
a mesma luz se derrama
nos brancos lençóis de linho
onde acordas tu e eu...
a luz de todas as manhãs
adentrando nossa casa,
invadindo nossas vidas...
a luz a domina,
a canela e o jasmim
se fundem e expandem
a nossa casa ...
Dentro
as paredes reflectem
a luz que a ilumina
e se derrama pelo chão...
Nossos livros, nossos quadros
musica, fotografias
nossa cama, nossas marcas
pelos cantos
Fora
colhem o dia e respiram
as flores,
e o serra da estrela, saltita
ao ver-te passar o umbral..
a nossa casa...
Abre-se a porta
a luz anuncia a chegada...
a rede baloiça,
acendo um cigarro
e deitas-te a meu lado...
A tarde serena cai
sobre as Buganvilias
e os coqueirais
e algo em nós se ilumina...
a mesma luz se derrama
nos brancos lençóis de linho
onde acordas tu e eu...
a luz de todas as manhãs
adentrando nossa casa,
invadindo nossas vidas...
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Angela Santos
Dança do
Sol
Esperei o sol
chegar
sabendo que como flor desabrochando
a ele se abriria o coração
E no meio da dança
eu então me vi
qual adoradora da estrela-rainha,
evocar teu nome.
e claramente à luz do meu dia
límpidos emergiram
contornos, sinais, nuances da alma
que te fazem estar dentro e fora de mim
É à luz do sol
que o coração vive e se dá em oferenda
à mulher amada e ao chão que pisa.
esse lugar que de longe me chama
a cumprir o que foi
inscrito em minha sina.
Esperei o sol
chegar
sabendo que como flor desabrochando
a ele se abriria o coração
E no meio da dança
eu então me vi
qual adoradora da estrela-rainha,
evocar teu nome.
e claramente à luz do meu dia
límpidos emergiram
contornos, sinais, nuances da alma
que te fazem estar dentro e fora de mim
É à luz do sol
que o coração vive e se dá em oferenda
à mulher amada e ao chão que pisa.
esse lugar que de longe me chama
a cumprir o que foi
inscrito em minha sina.
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