Poemas neste tema

Sol, amanhecer e pôr do sol

Manuel Sobrinho

Manuel Sobrinho

Meu Sabiá

Subindo os alcantis, galgando o azul, varria
O áureo clarão da aurora as sombras no Nascente.
Sustenidos, bemóis, pelo festivo ambiente
Vibrava o passaredo, hinos entoando ao dia.

Vencendo pouco a pouco a tristeza e a apatia
Em que a envolvera a treva, inexoravelmente,
A natureza enfim livre e resplandecente,
Com régia majestade e intrepidez se erguia.

Tudo acordava e ria um rio amável, tudo!
Só na estreita gaiola, impassível e mudo,
Dir-se-ia meu sabiá num pensamento absorto...

É que — maldade humana! — o pobre passarinho,
De saudades, talvez, do profanado ninho,
Perdera a voz, que eu tanto ouvira... — Estava morto!

647
Maya Deren

Maya Deren

A F.M.

Eu esperei por você nos campos do entardecer
Olhos fechados, eu me deito sobre a grama
Ouvindo o som dos passos no balançar das árvores;
Esperando meus lábios sentirem lábios onde a brisa suave esteve;
Corpo tenso para sentir o calor das mãos onde o calor do sol brilhou.

Você não veio. Eu entrei
Queixando-me que o sol se pôs
E que o vento estava tão frio
E que as árvores faziam tanto barulho
Que era melhor tirar um cochilo dentro de casa.

:

To F.M.

I waited for you in the fields of afternoon’
Eyes closed, I lay upon the grass
Listening for the sound of steps in the swaying of the trees;
Waiting for my lips to feel lips where the soft breeze had been;
Body tense to feel the warmth of hands where warmth of sun had shone.

You did not come. I went inside
Complaining that the suns go down
And that the wind is far too chill
And that trees make so much noise
A person’d better take her nap indoors

973
Juan L. Ortiz

Juan L. Ortiz

Sim, as escamas do crepúsculo...

Sim, as escamas do crepúsculo
no fio, último?, de Novembro sobre o rio:
ou o êxtase dos véus de Novembro
fluindo até a noite, e mais além? ...
incrível de ecos
e de fugas e passagens
de não se sabe já
que despedida ou que chamado
Sim, o fluido profundo, sobre ouro,
que nimba o barranco
e inscreve misticamente uma árvore alta,
e irradia, até quando?
umas vagas pétalas de íris...
Sim, sim,
o verde e o celeste, revelados,
que tremem por volta das dez porque partem,
e na meia tarde se desfazem ou se perdem
em sua mesma água fragílima...
Sim, sim, sim
Mas veio a luz, estava só a luz
detrás das persianas da manhã íntima:
veio a criatura eterna, o sentimento das estrelas,
a eucaristia dos mundos, a alma primeira
antes, antes do prisma,
com essa flauta branca, inefavelmente branca, sempre imposta sobre o caos...
Veio a luz, veio a menina essencial,
impossivelmente pura das folhas e de suas próprias asas,
até um esquecimento cheio dela
como do olhar, único, de uma estiagem nunca vista....
(tradução de Idelber Avelar)
:
Sí, las escamas del crepúsculo...
Juan L. Ortiz
Sí, las escamas del crepúsculo
en el filo, último?, de Noviembre sobre el río:
o el éxtasis de los velos de Noviembre
fluyendo hasta la noche, y más allá?...
increíble de ecos
y de fugas y pasajes
de no se sabe ya
qué despedida o qué llamado...
Sí, el fluido profundo, sobre oro,
que nimba la barranca
e inscribe místicamente un árbol alto,
y radia, hasta cuándo?,
unos vagos pétalos de iris...
Sí, sí,
el verde y el celeste, revelados,
que tiemblan hacia las diez porque se van
y en la media tarde se deshacen o se pierden
en su misma agua fragilísima...
Sí, sí, sí...
Pero vino la luz, estaba sólo la luz
detrás de las persianas de la mañana íntima:
vino la criatura eterna, el sentimiento de las estrellas,
la eucaristía de los mundos, el alma primera
antes, antes del prisma,
con esa flauta blanca, inefablemente blanca, siempre impuesta
sobre el caos…
Vino la luz, vino la niña esencial,
imposiblemente pura de las hojas y de sus propias alas,
hasta un olvido lleno de ella
como de la mirada, única, de un estío nunca visto…
518
Sousândrade

Sousândrade

Canto Segundo [I

Opalescem os céus — clarões de prata —
Beatífica luz pelo ar mimoso
Dos nimbos d'alva exala-se, tão grata
Acariciando o coração gostoso!

Oh! doce enlevo! oh! bem-aventurança!
Paradíseas manhãs! riso dos céus!
Inocência do amor e da esperança
Da natureza estremecida em Deus!

Visão celeste! angélica encarnada
Co'a nitente umidez d'ombros de leite,
Onde encontra amor brando, almo deleite,
E da infância do tempo a hora foi nada!

A claridade aumenta, a onda desliza,
Cintila co'o mais puro luzimento;
De púrpura, de ouro, a c'roa se matiza
Do tropical formoso firmamento!

Qual um vaso de fina porcelana
Que de através o sol alumiasse,
Qual os relevos da pintura indiana
É o oriente do dia quando nasce.

Uma por uma todas se apagaram
As estrelas, tamanhas e tão vivas,
Qual os olhos que lânguidas cativas,
Mal nutridas de amores, abaixaram.

Aclaram-se as encostas viridantes,
A espreguiçar-se a palma soberana;
Remonta a Deus a vida, à origem d'antes,
Amiga e matinal, donde dimana.

Acorda a terra; as flores da alegria
Abrem, fazem do leito de seus ramos
Sua glória infantil; alcion em clamos
Passa cantando sobre o cedro ao dia

Lindas loas boiantes; o selvagem
Cala-se, evoca doutro tempo um sonho,
E curva a fronte... Deus, como é tristonho
Seu vulto sem porvir em pé na margem!

Talvez a amante, a filha haja descido,
Qual esse tronco, para sempre o rio —
Ele abana a cabeça co'o sombrio
Riso do íris da noite entristecido.

(...)


Publicado no livro Impressos (1868/1869). Poema integrante da série Guesa Errante.

In: SOUSÂNDRADE. O Guesa. Londres: Cooke e Halsted, The Moorfields Press, 1888

NOTA: Poema inacabado, composto de 13 canto
2 601
Lorine Niedecker

Lorine Niedecker

Poema

O varal está posto
mas totem nenhum diferencia a tribo Niedecker
das outras; a cada sete dias vão às águas:
veneram o sol; temem a chuva e, dos vizinhos, os olhos;
erguem aos céus as mãos desde o solo
e penduram ou despencam pela brancura de seu todo.

(tradução de Ricardo Domeneck)

///

Poem
Lorine Niedecker

The clothesline post is set
yet no totem-carvings distinguish the Niedecker tribe
from the rest; every seventh day they wash:
worship sun; fear rain, their neighbors' eyes;
raise their hands from ground to sky,
and hang or fall by the whiteness of their all.


799
Juan Gelman

Juan Gelman

Chega

chega
não quero mais morte
não quero mais dor ou sombras chega
meu coração é esplêndido como uma palavra

meu coração tornou-se belo como o sol
que sai voa canta meu coração
é cedo um passarinho
e depois teu nome

teu nome sobe todas as manhãs
aquece o mundo e se põe
só em meu coração
sol em meu coração

(Tradução de Ricardo Domeneck)



Basta

basta
no quiero más de muerte
no quiero más de dolor o sombras basta
mi corazón es espléndido como una palabra

mi corazón se há vuelto bello como el sol
que sale vuela canta mi corazón
es de temprano un pajarito
y después es tu nombre

tu nombre sube todas las mañanas
calienta el mundo y se pone
solo en mi corazón
sol en mi corazón.

.
.
.
1 400
Cunha Santos Filho

Cunha Santos Filho

Motel

O mênstruo da aurora em tom vermelho
repete-me abatido na vidraça
minha imagem em dó, ré, mi, coalha no espelho
o sol, lavando o resto, vê e passa

é a manhã, rebento do meu sono, afoito
me mudo para a lâmpada que, acesa,
crava minha sombra sobre a mesa
caneta e eu, poema, eterno coito

saudades dela em mim como estrias
na pele. E como é dura removê-las
devassos nós dormimos quando é dia

que às noites, como cães lassos de orgia
se ela faz suruba com as estrelas
eu vivo em coito anal com a poesia

1 207
Tereza Cristina Fraga

Tereza Cristina Fraga

Nublando

Acordei!
A casa estava quente como o meu corpo.
No silêncio do quarto a percepçåo
De que o amanhå havia acabado de despertar.

Entre olhos sonolentos,
O corpo arrepiado,
Transformou a superfície lisa em leves ondas.

Todos os músculos foram esticados.
Cada fibra estendida ao extremo.

A boca abriu-se...

Na frente o espelho revelava a silhueta,
Que dengosa percebeu suas formas delicadas
Nas curvas acentuadas. Sorri...

O tempo nublado percorreu e penetrou no aposento.
Intrometido!

Transformou a quietude com o suave zumbir dos ventos.
Trocou a cor pálida das paredes.
Deu vontade de cobrir, ficar encolhida, quieta.

Era hora da partida que nåo pode deixar para amanhå o adeus de todos os dias.

Deixei que os minutos passassem, nåo fiz queståo de segurá-los.

Que o tempo nublado chegasse, penetrasse todos os meus poros.

Que as horas permitissem aos minutos serem donos do tempo.
No peito arfante os dois elementos se misturaram, nublando
Meus pensamentos.

Fizeram do corpo moradia.

891
Tereza Cristina Fraga

Tereza Cristina Fraga

Querendo

O sol penetra
Traz as pessoas para começar o dia.

As crianças sonolentas
Os adultos quase despertos.

Na copa eståo as Marias
Na porta o Joåo
Nas ruas a solidåo.

Sobre um céu
Dentro da terra

E o mar qual distante de meus olhos
Que eståo perto do cerrado
Tristes
Encabulados.

Procurando uma vontade
Esse tolo desejo
De mato molhado.
De um bicho ao meu lado.

823
Clodoveu A. de Almeida

Clodoveu A. de Almeida

Saudades

Tardes cor de ouro,
violáceas, afetuosas.
Tardes de pressentimento, de meditação,
que inundais de perfume e que cobris de rosas
meigos recantos de meu coração.

Tardes de doçura e recolhimento,
aveludadas, de arminho
Insinuais a delícia do carinho
e a beleza sem par do querer bem.
Enfeitais o infinito em linda cor de vinho,
lembrais a suavidade espiritual de alguém.

Vós que viveis acompanhando
toda a melancolia de meu ser,
ide longe, longe, para quem eu amo
dizei-lhe coisas que não sei dizer.

Tardes de reclínio, tardes de bondade,
cheias de mansidão crepuscular,
ide, contai-lhe esta agônica saudade
dizei-lhe da Amizade,
do amor
e do pesar...

Voai, voai, através destes espaços,
tardes religiosas, tardes calmas
e levai-lhe o aconchego de meus braços
uní eternamente as nossas almas.

1 119
Teixeira de Melo

Teixeira de Melo

Ao Sol

Não te amo, ó Sol, senão como rascunho
Da luz de Deus! senão como lembrança
Da mão que te acendeu, lâmpada de ouro,
Por sobre o abismo em que eu treina da morte,
A teus pés pela vida às tontas erro.

Verme que esconde um átomo da essência
Que te anima e renova! Átomo mesmo
Do pó da eternidade em frágil vaso
Amassado de sangue e pranto e orgulho!

Águia sem asas — fito-te um momento
E tua luz me embebeda e faz vertigens!
Amo o silêncio, a sombra, o isolamento,
Embora os do sepulcro! E tu, abutre
De asas de fogo, eterno pirilampo
Em basta selva, acima esvoaçando
De milhões de cadáveres corruptos
Que o tempo, rio rápido e revolto,
Roda té o mar sem raias do infinito,
Insultas minha dor, meu pranto estancas!

Tu vês sem dó arcar a humanidade
Sob o peso de séculos e séculos
Sempre moça e garrida e fátua sempre,
À luz dos raios concertando as braças
Que o vento desatou, tingindo as faces
Macilentas da orgia e das insônias,
E abrindo os alvos seios infecundos
Ao beijo frio do que tem mais ouro!
Tu vês de longe a louca humanidade,
Nova Eva despertando entre as delícias
Da vida sem a morte, ambicionando
Outra vida melhor, mais curta embora!
Penélope senil que se não cansa
De a eterna teia desmanchar contudo
Que o esposo a venha achar tecendo ainda!
Ou doida Ofélia a desfolhar sem fino
Sua coroa de noiva – antes da noite!
E o mundo de Panúrgio e Sancho Pança
Te vê passar também como um sarcasmo
Palpitante de fel, e ri-se ao ver-te!

É sempre nova a velha humanidade!
Só o homem passa — palha ou flor de feno —
Nas garras do tufão que não te alcança!
Como ela viverás... mas momento
A mão que te acendeu pode apagar-te.
Eu te amaria, ó Sol, se por um dia
Conhecesse o segredo que me escondes
Das tontas gerações que patinharam
— Como as de hoje — na lama e adormeceram
Na esteira do passado, entre as neblinas
Das era que, impassível como o tempo,
Desde o primeiro dia alumiaste.

Podes, feixe de luz que te desatas
No colo requeimado do universo,
Dar-me um raio dos teus com que ilumine
Minha cegueira a tatear na sombra
Das exploradas minas de ouro puro,
Hoje cinza e carvão, dessa linguagem
Sublime e rude — do cantor mendigo
Da Grécia, o heróico berço em que tu nasces,
E onde Byron morreu contigo, ó Grécia!

Ó Sol, olho de Deus aberto sempre,
Guia meus passos trêmulos ainda
Por entre as flores dos jardins celestes
Em que Camões ceifou perpétuos louros!
Para cantar as lendas esquecidas
Do ninho meu paterno, à sombra amiga
Das copadas mangueiras embalado
Pelas auras dos trópicos aos cantos
Da ferrenha araponga do deserto;
Para cantar as graças feiticeiras
Do meu berço de musgo inda selvagem
Como os primeiros que dormiram nele,
Dá-me um raio dos teus! um só me bastar
Que me esqueçam depois... terei vivido!
Que tu, página branca para o mundo,
Irás talvez vagar onde eu já durma,

No leito frio em que me espera o olvido.
Hei de acordar das matas seculares
Onde o silêncio é o canto do passado,
O gênio adormecido desses tempos
Que sob os olhos meus às vezes passam.

Dá-me imagens de fogo ainda virgens
Das mãos calmas dos cantores todos.
Triste bardo das raças do deserto,
Hei de perdir-te, ó Sol, que as requeimaste,
A história triste das extintas tribos!
Hei de rasgar a página mais pura
Do livro virginal da natureza!
Hei de arrancar ao colibri — das penas
O pó dourado e azul — para escrevê-la!
Hei de quebrar as asas furta-cores
Das nossas borboletas, para dá-las
Em saudoso holocausto à pátria e ao lmundo!

1 011
Carvalho Nogueira

Carvalho Nogueira

Madrugada Pura

Ah, madrugada pura dos meus sonhos,
que seria de mim sem teus minutos,
sem tuas ruas longas e caladas
para o passeio do meu pensamento?

Se não fosse a certeza de que vens
depois de cada noite, que faria
de tanta solidão que enche o meu quarto
de tanta angústia que não cabe em mim?

Ah, se não fosses tu, quem me daria
os beijos que alimentam minha boca
nos momentos de fome de minhalma?

Além de beijos, madrugada pura,
que seria de mim, se não me desses
o mel para a colmeia dos meus versos?

913
Alexandre Guarnieri

Alexandre Guarnieri

Penhasco

assoalho visitado às bordas do fiorde
suas escarpas de basalto | o espaço
entre o ar e o mar embaixo que quase
julgaríamos raso | hirtas suas afiadas
bordas | símiles às de uma faca
árabe ( arqueada ( cimitarra
| o que as navalhas da erosão
erigem é este grupo de rochedos
pouco a pouco sendo degolado
assim o penhasco largo | vasto:
ponto turístico para narcisos
e suicidas | amplo plenário de
pedra d’onde se observa o sol
nascer | ou se pôr | platô sólido
observatório possível | existe
essa muralha terrena | pesaroso
mármore erguido| lugar de uma
solidão extrema | avizinhando o
mar triste a esse chão de limites
602
Pat Lowther

Pat Lowther

Antes que chegue o demolidor

Antes que cheguem os demolidores
Arranque pela raiz o lírio
No ângulo duro de terra
Ao lado da casa.
Agache-se sobre o lixo e os despojos
Contra a escada gradeada do porão
(O relâmpago repentino
De sol
Nas suas costas
Por entre o abrir
E fechar
Do varal aos sopros de março,
Ascensão e queda de luz ágil
Como a golpes.)
Aqui o ensaboar em mucos
De uma vida inteira
Azeda a terra,
Neste canto
Sob a escada,
Mas não matou
Os bichos-de-conta
Nem as pupas das mariposas
Que roçam seus dedos
Ao cavar
Em busca da raiz robusta, redonda,
A raiz do lírio
Que de alguma forma, sem sentido,
Tampouco foi morta
Mas cresceu a cada ano
Uma assombrada infância,
Uma arregalada Páscoa.
Encaixote-a entre as fotos,
O polidor da prataria,
E as últimas roupas por lavar
Que não mais
Hão de subir e tremular
Ao sol que destroça.
Marque sua caixa: X
Duas linhas que se cruzam,
Um ponto em grade
Do tempo
E das estações do ano.
Antes que cheguem os demolidores,
Carregue para longe
O bulbo-relâmpago do sol.
(tradução de Ricardo Domeneck)
297
Cludia Nobre de Oliveira

Cludia Nobre de Oliveira

O Sol

(em homenagem ao verão)

Em tempo de sol abre uma flor que não é primavera.....
cai uma folha que não é outono ...
o pássaro voa e sorri, o homem relaxa..

Em tempo de sol meu dia é alegre, meu dia é o mar,
é a esperança de abraçar o céu, pular, cantar...

Em tempo de sol minha vida é leve é alegre...
porque é em tempo de sol que a natureza mais se enaltece
comandando tudo com a energia do astro maior
a luz eterna a luz Divina
para todos irmãos

982
Cleonice Rainho

Cleonice Rainho

O Sol

O sol é estrela enorme
fulgurante, dourada
e sua luz vem de longe
foco de imensa lanterna,
dardejando raios.

O sol é trabalhador,
desde o alvorecer
acorda os homens
— Sabem para quê?

O sol fertiliza as plantas,
aclara e aquece
campos e cidades.

Não dorme, não descansa,
nem fica tonto
com tantos planetas
girando à sua volta.

Quando aqui é noite,
está em outros lugares,
onde de novo impera
como "Rei do Dia".

965
Cleonice Rainho

Cleonice Rainho

Na Praia

Meus pés na areia
os olhos no ar.

Vasto e imenso,
lindo e livre,
mar-espaço
— uma paisagem só.

Marulho das ondas,
voz do mar,
azul da manhã,
alegria do céu.
No meu coração
— um canto só.

968
Cleonice Rainho

Cleonice Rainho

Passarinhos

No fio grosso,
um molho de fios,
passarinhos pousam
e cantam de manhãzinha.

São fios do telefone,
vão levar recados pra alguém,
trazer recados pra mim.

Mas o canto fica,
— trinados de alegria
que vêm com o sol do dia.

1 065
Cida Pedrosa

Cida Pedrosa

o sol anestesia

o sol anestesia a dor e de dor é feito
como deve ser feito de dor o frio do outro campo
670
Cida Pedrosa

Cida Pedrosa

UM CERTO SOL SOBRE SÃO PAULO

para maria josé oiticica


o sol se põe em são paulo

a brisa rasteira
rasteja meus pés
que se põem entre o azul
e o mostarda do sofá da tua sala

o sol se põe
sob os aviões da planície
e eu
pássaro aceso
                     espero
nesta casa de marias
que voam nas asas da panair

o sol se põe sob são paulo
e eu
pássaro sem saída
                     grito
teu nome de ateu

são paulo anda à margem

à margem de mim
à margem de ti
à margem de nós

são paulo anda à margem do mar
e o pôr do sol voa mais alto
que as luzes de neon
799
Cleonice Rainho

Cleonice Rainho

O Banho do Beija-Flor

De manhãzinha,
com o jardineiro
e sua mangueira,
vem o beija-flor.
Baila nos galhos,
baila, oscila e voa
em volta da roseira.

Brilha a alegria
em seus olhinhos.
Ergue as asas,
abre o bico,
engolindo pingos
e respingos
na delícia da água.

O peito sobe e desce
no côncavo de uma folha
— sua banheirinha.

Até que o sol vem
formando arco-íris
em sua plumagem
e ele flutua, fulgura,
beijando a luz.

884
Cleonice Rainho

Cleonice Rainho

Gaivotas

Vêm e voam,
asas coloridas,
ao fulgor do sol.

Umas guiam as outras
na pureza e paz
do vôo fraterno.

Vigiam as ondas,
aos borrifos dágua,
pra lá e pra cá.

Maiores, menores,
abaixo, acima,
um bailado
verdeazul,
no ar molhado
do mar.

Quando beijam a água,
engolindo o peixe,
é errada e torta
a dança das gaivotas
cegas
pelo ardor do sal.

880
Nuno Júdice

Nuno Júdice

No barco

Sobre estas escuras águas pouso o corpo e flutuo.

Do mesmo modo flutua a memória sobre a minha obscura alma,

e o seu desenho reflecte-se na atmosfera sombria

do entardecer. "Ficarei?", pergunto,

e sem esperar resposta olho a outra margem e o cais

a aproximar-se. Por fim, não desembarco. À espera do regresso

seguro-te as mãos, embora ninguém esteja comigo. Em silêncio

respiro o cheiro das máquinas; "para onde me conduzes,

ó infindável morte, por entre os vivos e as suas sombras", ouço-me

dizer-te. Para que não me respondas, deixando-me preso

a um banco de barco, sacudido pelos temporais, vendo a chuva cair

por detrás dos vidros.



Nuno Júdice | "Obra Poética" (1972 - 1985), pág. 92 | Quetzal Editores, 1999







1 215
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Símbolos? Estou farto de símbolos...

Símbolos? Estou farto de símbolos...
Mas dizem-me que tudo é símbolo.
Todos me dizem nada.
Quais símbolos? Sonhos. –
Que o sol seja um símbolo, está bem...
Que a lua seja um símbolo, está bem...
Que a terra seja um símbolo, está bem...
Mas quem repara no sol senão quando a chuva cessa,
E ele rompe as nuvens e aponta para trás das costas
Para o azul do céu?
Mas quem repara na lua senão para achar
Bela a luz que ela espalha, e não bem ela?
Mas quem repara na terra, que é o que pisa?
Chama terra aos campos, às árvores, aos montes.
Por uma diminuição instintiva,
Porque o mar também é terra...

Bem, vá, que tudo isso seja símbolo...
Mas que símbolo é, não o sol, não a lua, não a terra,
Mas neste poente precoce e azulando-se
O sol entre farrapos finos de nuvens,
Enquanto a lua é já vista, mística, no outro lado,
E o que fica da luz do dia
Doura a cabeça da costureira que pára vagamente à esquina
Onde demorava outrora com o namorado que a deixou?
Símbolos? Não quero símbolos...
Queria – pobre figura de miséria e desamparo! –
Que o namorado voltasse para o costureira.


18/12/1934
2 656