Poemas neste tema
Sol, amanhecer e pôr do sol
João Apolinário
ecologia lírica
A incógnita
acontece
na cor
que nasce
e reverdece
na flor
até ao limite
de olhá-la
como ela
é
____
O que é que cicia
o mistério (a essência)
desta atmosfera
de sol do meio dia
cuja transparência
parece que gera
o que a terra cria
____
Todos os mitos
imortais
cabem
subitamente
nos alicerces
originais
da semente
____
A pétala sabe
o destino oculto
de todas as coisas
onde o sol começa
____
Criar primeiro o ovo
para a raiz
do pássaro que voa
aquém da casca
Mudar depois as asas
da natureza
sem deixar de ser ave
e ser flor
gerar o movimento
assim eterno
da origem de ser
o que já é
____
O orvalho
respira
a solidão
da noite
na boca
da manhã
____
Um sopro
de luz
abre
no espaço
uma fenda
clara
para o dia
que nasce
acontece
na cor
que nasce
e reverdece
na flor
até ao limite
de olhá-la
como ela
é
____
O que é que cicia
o mistério (a essência)
desta atmosfera
de sol do meio dia
cuja transparência
parece que gera
o que a terra cria
____
Todos os mitos
imortais
cabem
subitamente
nos alicerces
originais
da semente
____
A pétala sabe
o destino oculto
de todas as coisas
onde o sol começa
____
Criar primeiro o ovo
para a raiz
do pássaro que voa
aquém da casca
Mudar depois as asas
da natureza
sem deixar de ser ave
e ser flor
gerar o movimento
assim eterno
da origem de ser
o que já é
____
O orvalho
respira
a solidão
da noite
na boca
da manhã
____
Um sopro
de luz
abre
no espaço
uma fenda
clara
para o dia
que nasce
1 208
Ruy Belo
Alegria sem nome
É uma leve breve voz
à superfície do dia
Ouvi-la lembra países
Ei-la que vem nupcial
sobre o grande rumor do mar
Não mancha o pensamento a paisagem
Nada comove
as águas paradas da manhã:
silvos caracóis canas e vimes
Vejo-a morrer nos pauis
onde inauguro gestos esquecidos
Alegria sem nome lhe chamo
e não conheço para ela nenhum outro nome
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 33 | Editorial Presença Lda., 1984
à superfície do dia
Ouvi-la lembra países
Ei-la que vem nupcial
sobre o grande rumor do mar
Não mancha o pensamento a paisagem
Nada comove
as águas paradas da manhã:
silvos caracóis canas e vimes
Vejo-a morrer nos pauis
onde inauguro gestos esquecidos
Alegria sem nome lhe chamo
e não conheço para ela nenhum outro nome
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 33 | Editorial Presença Lda., 1984
1 237
Ruy Belo
A história de um dia
A abóbada da tarde mais uma vez acaba
o sol de a fechar sobre a minha diária aventura
Viram-no partir pontualmente à mesma hora
quando num pouco de dia a um canto sempre a um canto
já eu tinha conseguido arredondar
uma íntima ampola de som para a palavra definitiva
Ia mesmo soltá-la eu que todo o dia fui para ela quando
ele me deixou e foi abrir outras portas
erguer verticalmente caídas esperanças
e passar novas mãos por tantas faces mortas
Só me resta recolher o meu rebanho de pensamentos
com um vago rumor de guizos
enquanto à beira-mar os camponeses deixam
palavras não aladas cair na água morta
Morro irremediavelmente nesses pensamentos
que ainda agora o sol iluminava
enquanto eu os estendia e os recolhia
e os orientava numa direcção que convinha
e os precipitava sobre o fumo de uma casa
sobre um buraco de luz ou uma coluna de fumo
mais volúveis que um bando de pássaros
Morro mais uma vez criticamente completo
Todos os gestos
carregados com vinte e quatro horas de história
de ventre ferido na aventura do restolho
petrificaram inevitavelmente
na face orientada de uma estátua
aqui ou noutro jardim
Todo o caminho é de regresso
Amanhã serei outro:
lavarei os dentes com toda a solenidade
como antigamente meu pai antes das grandes viagens
enquanto alguém no espelho
se encarregará de olhar pelos meus olhos
Assim sou passado de dia em dia
confiado pelo dia que parte ao dia que chega
não venha o sino que ao longe toca perturbar
as linhas de um rosto que recompus
e pus de pé na atmosfera doméstica
Fechar um postigo pode ser um gesto cheio de significado quando
na arrumada paisagem quotidiana
a expectativa marcada pela funda inspiração
nos revela duas ou três mãos
postas sobre a colina
Amanhã serei outro
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, págs. 37 e 38 | Editorial Presença Lda., 1984
o sol de a fechar sobre a minha diária aventura
Viram-no partir pontualmente à mesma hora
quando num pouco de dia a um canto sempre a um canto
já eu tinha conseguido arredondar
uma íntima ampola de som para a palavra definitiva
Ia mesmo soltá-la eu que todo o dia fui para ela quando
ele me deixou e foi abrir outras portas
erguer verticalmente caídas esperanças
e passar novas mãos por tantas faces mortas
Só me resta recolher o meu rebanho de pensamentos
com um vago rumor de guizos
enquanto à beira-mar os camponeses deixam
palavras não aladas cair na água morta
Morro irremediavelmente nesses pensamentos
que ainda agora o sol iluminava
enquanto eu os estendia e os recolhia
e os orientava numa direcção que convinha
e os precipitava sobre o fumo de uma casa
sobre um buraco de luz ou uma coluna de fumo
mais volúveis que um bando de pássaros
Morro mais uma vez criticamente completo
Todos os gestos
carregados com vinte e quatro horas de história
de ventre ferido na aventura do restolho
petrificaram inevitavelmente
na face orientada de uma estátua
aqui ou noutro jardim
Todo o caminho é de regresso
Amanhã serei outro:
lavarei os dentes com toda a solenidade
como antigamente meu pai antes das grandes viagens
enquanto alguém no espelho
se encarregará de olhar pelos meus olhos
Assim sou passado de dia em dia
confiado pelo dia que parte ao dia que chega
não venha o sino que ao longe toca perturbar
as linhas de um rosto que recompus
e pus de pé na atmosfera doméstica
Fechar um postigo pode ser um gesto cheio de significado quando
na arrumada paisagem quotidiana
a expectativa marcada pela funda inspiração
nos revela duas ou três mãos
postas sobre a colina
Amanhã serei outro
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, págs. 37 e 38 | Editorial Presença Lda., 1984
1 268
Vinicius de Moraes
Velha História
Depois de atravessar muitos caminhos
Um homem chegou a uma estrada clara e extensa
Cheia de calma e luz.
O homem caminhou pela estrada afora
Ouvindo a voz dos pássaros e recebendo a luz forte do sol
Com o peito cheio de cantos e a boca farta de risos.
O homem caminhou dias e dias pela estrada longa
Que se perdia na planície uniforme.
Caminhou dias e dias...
Os únicos pássaros voaram
Só o sol ficava
O sol forte que lhe queimava a fronte pálida.
Depois de muito tempo ele se lembrou de procurar uma fonte
Mas o sol tinha secado todas as fontes.
Ele perscrutou o horizonte
E viu que a estrada ia além, muito além de todas as coisas.
Ele perscrutou o céu
E não viu nenhuma nuvem.
E o homem se lembrou dos outros caminhos.
Eram difíceis, mas a água cantava em todas as fontes
Eram íngremes, mas as flores embalsamavam o ar puro
Os pés sangravam na pedra, mas a árvore amiga velava o sono.
Lá havia tempestade e havia bonança
Havia sombra e havia luz.
O homem olhou por um momento a estrada clara e deserta
Olhou longamente para dentro de si
E voltou.
Um homem chegou a uma estrada clara e extensa
Cheia de calma e luz.
O homem caminhou pela estrada afora
Ouvindo a voz dos pássaros e recebendo a luz forte do sol
Com o peito cheio de cantos e a boca farta de risos.
O homem caminhou dias e dias pela estrada longa
Que se perdia na planície uniforme.
Caminhou dias e dias...
Os únicos pássaros voaram
Só o sol ficava
O sol forte que lhe queimava a fronte pálida.
Depois de muito tempo ele se lembrou de procurar uma fonte
Mas o sol tinha secado todas as fontes.
Ele perscrutou o horizonte
E viu que a estrada ia além, muito além de todas as coisas.
Ele perscrutou o céu
E não viu nenhuma nuvem.
E o homem se lembrou dos outros caminhos.
Eram difíceis, mas a água cantava em todas as fontes
Eram íngremes, mas as flores embalsamavam o ar puro
Os pés sangravam na pedra, mas a árvore amiga velava o sono.
Lá havia tempestade e havia bonança
Havia sombra e havia luz.
O homem olhou por um momento a estrada clara e deserta
Olhou longamente para dentro de si
E voltou.
1 096
Daniel Varoujan
Campo maduro
A minha terra é dourada...
Parece chama.
O grão se queima
e não se consome.
A minha terra é dourada...
o céu é de fogo,
o solo é imóvel
sob as estrelas.
A minha terra é dourada...
As espigas em quatro filas
revestiram-se
de sombra e sol.
A minha terra é dourada...
Passam como relâmpagos,
no meio das espigas,
as abelhas e os zangões.
A minha terra é dourada...
Do mar, das ondas de ouro
voa o pardal
levado pelo vento.
Dorme, terra dourada,
dorme, campo maduro,
colherei o teu ouro
com a foice de prata.
(Tradução de Carlos Freire, in Babel de Poemas, editora L&PM, 2004)
801
Avelino de Sousa
Queimadas
Sobre a planície rubra que arde qual paiol,
quanto o suão levanta do chão a palha seca,
a fornalha litúrgica e redonda do sol
esbraceja faúlhas, redemoinha, impreca.
Consome-se o restolho em estalos e sonidos
e a núvem de fumo sutrai-nos a lonjura;
as bocas inflamadas e os olhos incendidos
perdem-se secas, cegos, na héctica planura.
E após o apocalipse em escala diminuta,
quando tudo termina e o estrondear se cala,
resta a terra queimada, negra, rasa, bruta,
fundindo-se na sombra que desde o céu resvala.
Na planura sem fim que o acaso coroa
só uma aragem sopra, só o vento se inflama;
e eis que uma cigarra seu febril canto entoa:
remanescente luz ardendo sem ter chama.
quanto o suão levanta do chão a palha seca,
a fornalha litúrgica e redonda do sol
esbraceja faúlhas, redemoinha, impreca.
Consome-se o restolho em estalos e sonidos
e a núvem de fumo sutrai-nos a lonjura;
as bocas inflamadas e os olhos incendidos
perdem-se secas, cegos, na héctica planura.
E após o apocalipse em escala diminuta,
quando tudo termina e o estrondear se cala,
resta a terra queimada, negra, rasa, bruta,
fundindo-se na sombra que desde o céu resvala.
Na planura sem fim que o acaso coroa
só uma aragem sopra, só o vento se inflama;
e eis que uma cigarra seu febril canto entoa:
remanescente luz ardendo sem ter chama.
911
Carlos Drummond de Andrade
Tríptico de Sônia Maria do Recife
I
Meu Santo Antônio de Itabira
ou de Apipucos
ensina-me um verso
que seja brando e fale de amanhecer
e se debruce à beira-rio
e pare na estrada
e converse com a menina
como se costuma conversar com formigas
besouros
folhas de cajueiro de ingazeiro de amendoeira
esses assuntos importantíssimos
que não adianta o rei escutar
porque não entende nossa linpin-guapá-gempém.
Meu Santo Antônio de Itabira
ou de Apipucos
ensina-me um verso
que seja brando e fale de amanhecer
e se debruce à beira-rio
e pare na estrada
e converse com a menina
como se costuma conversar com formigas
besouros
folhas de cajueiro de ingazeiro de amendoeira
esses assuntos importantíssimos
que não adianta o rei escutar
porque não entende nossa linpin-guapá-gempém.
1 146
Gonzaga Leão
Soneto Um
No chão marcas de pés sujos de lama;
o alpendre para o sonho e para a rede;
janelas para a fuga; na parede
o salto do telhado; a noite e a cama
com destinos iguais para quem ama:
- água e fonte servindo `a mesma sede.
A casa em construção ainda, que de
de suor e barro se edifica, chama
para se completar, seus moradores.
Fumo de chaminé nos arredores
da noite terminada. E, no profundo
silêncio com que a vida se cobria,
um galo bate as asas e anuncia
a casa e a manhã dentro do mundo.
o alpendre para o sonho e para a rede;
janelas para a fuga; na parede
o salto do telhado; a noite e a cama
com destinos iguais para quem ama:
- água e fonte servindo `a mesma sede.
A casa em construção ainda, que de
de suor e barro se edifica, chama
para se completar, seus moradores.
Fumo de chaminé nos arredores
da noite terminada. E, no profundo
silêncio com que a vida se cobria,
um galo bate as asas e anuncia
a casa e a manhã dentro do mundo.
1 185
Carlos Drummond de Andrade
Passagem da Noite
É noite. Sinto que é noite
não porque a sombra descesse
(bem me importa a face negra)
mas porque dentro de mim,
no fundo de mim, o grito
se calou, fez-se desânimo.
Sinto que nós somos noite,
que palpitamos no escuro
e em noite nos dissolvemos.
Sinto que é noite no vento,
noite nas águas, na pedra.
E que adianta uma lâmpada?
E que adianta uma voz?
É noite no meu amigo.
É noite no submarino.
É noite na roça grande.
É noite, não é morte, é noite
de sono espesso e sem praia.
Não é dor, nem paz, é noite,
é perfeitamente a noite.
Mas salve, olhar de alegria!
E salve, dia que surge!
Os corpos saltam do sono,
o mundo se recompõe.
Que gozo na bicicleta!
Existir: seja como for.
A fraterna entrega do pão.
Amar: mesmo nas canções.
De novo andar: as distâncias,
as cores, posse das ruas.
Tudo que à noite perdemos
se nos confia outra vez.
Obrigado, coisas fiéis!
Saber que ainda há florestas,
sinos, palavras; que a terra
prossegue seu giro, e o tempo
não murchou; não nos diluímos!
Chupar o gosto do dia!
Clara manhã, obrigado,
o essencial é viver!
não porque a sombra descesse
(bem me importa a face negra)
mas porque dentro de mim,
no fundo de mim, o grito
se calou, fez-se desânimo.
Sinto que nós somos noite,
que palpitamos no escuro
e em noite nos dissolvemos.
Sinto que é noite no vento,
noite nas águas, na pedra.
E que adianta uma lâmpada?
E que adianta uma voz?
É noite no meu amigo.
É noite no submarino.
É noite na roça grande.
É noite, não é morte, é noite
de sono espesso e sem praia.
Não é dor, nem paz, é noite,
é perfeitamente a noite.
Mas salve, olhar de alegria!
E salve, dia que surge!
Os corpos saltam do sono,
o mundo se recompõe.
Que gozo na bicicleta!
Existir: seja como for.
A fraterna entrega do pão.
Amar: mesmo nas canções.
De novo andar: as distâncias,
as cores, posse das ruas.
Tudo que à noite perdemos
se nos confia outra vez.
Obrigado, coisas fiéis!
Saber que ainda há florestas,
sinos, palavras; que a terra
prossegue seu giro, e o tempo
não murchou; não nos diluímos!
Chupar o gosto do dia!
Clara manhã, obrigado,
o essencial é viver!
1 357
Gilson Nascimento
Morte ao amanhecer
Na quieta e calada madrugada
Morrem as vozes, nascem os sussurros
Há um respirar, é tardo, é ofegante
Sopro débil de vida que se apaga
Junto ao leito a família reunida
Partilha a mágoa que enluta corações
Ninguém se comunica por palavras
Olhar e gesto casam no silêncio
Um pássaro se alegra, o dia nasce
E o claro sol que lhe assoma à face
Penetra, vivo, o quarto do doente
E o astro sua lida iniciando
Derrama luz no olhar do moribundo
O ocaso de uma vida alumiando
Morrem as vozes, nascem os sussurros
Há um respirar, é tardo, é ofegante
Sopro débil de vida que se apaga
Junto ao leito a família reunida
Partilha a mágoa que enluta corações
Ninguém se comunica por palavras
Olhar e gesto casam no silêncio
Um pássaro se alegra, o dia nasce
E o claro sol que lhe assoma à face
Penetra, vivo, o quarto do doente
E o astro sua lida iniciando
Derrama luz no olhar do moribundo
O ocaso de uma vida alumiando
904
Fernando Pessoa
Enquanto eu vir o sol luzir nas folhas
Enquanto eu vir o sol luzir nas folhas
E sentir toda a brisa nos cabelos
Não quererei mais nada.
Que me pode o Destino conceder
Melhor que o lapso sensual da vida
Entre ignorâncias destas?
Sábio deveras o que não procura,
Que, procurando, achara o abismo em tudo
E a dúvida em si mesmo.
Pomos a dúvida onde há rosas. Damos
Quase tudo do sentido a entendê-lo
E ignoramos, pensantes.
Estranha a nós a natureza extensa
Campos ondula, flores abre, frutos
Cora, e a morte chega.
Terei razão, se a alguém razão é dada,
Quando me a morte conturbar a mente
E já não veja mais
Que à razão de saber porque vivemos
Nós nem a achamos nem achar se deve,
Impropícia e profunda.
E sentir toda a brisa nos cabelos
Não quererei mais nada.
Que me pode o Destino conceder
Melhor que o lapso sensual da vida
Entre ignorâncias destas?
Sábio deveras o que não procura,
Que, procurando, achara o abismo em tudo
E a dúvida em si mesmo.
Pomos a dúvida onde há rosas. Damos
Quase tudo do sentido a entendê-lo
E ignoramos, pensantes.
Estranha a nós a natureza extensa
Campos ondula, flores abre, frutos
Cora, e a morte chega.
Terei razão, se a alguém razão é dada,
Quando me a morte conturbar a mente
E já não veja mais
Que à razão de saber porque vivemos
Nós nem a achamos nem achar se deve,
Impropícia e profunda.
1 002
Ruy Belo
Enterro sob o sol
Era a calma do mar naquele olhar
Ela era semelhante a uma manhã
teria a juventude de um mineral
Passeava por vezes pelas ruas
e as ruas uma a uma eram reais
Era o cume da esperança: eternizava
cada uma das coisas que tocava
Mas hoje é tudo como um fruto de setembro
ó meu jardim sujeito à invernia
A aurora da cólera desponta
já não sei da idade do amor
Só me resta colher as uvas do castigo
Sou um alucinado pela sede
Caminho sob o sol enterro de água
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 2, pág. 13 | Editorial Presença Lda., 1981
Ela era semelhante a uma manhã
teria a juventude de um mineral
Passeava por vezes pelas ruas
e as ruas uma a uma eram reais
Era o cume da esperança: eternizava
cada uma das coisas que tocava
Mas hoje é tudo como um fruto de setembro
ó meu jardim sujeito à invernia
A aurora da cólera desponta
já não sei da idade do amor
Só me resta colher as uvas do castigo
Sou um alucinado pela sede
Caminho sob o sol enterro de água
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 2, pág. 13 | Editorial Presença Lda., 1981
1 414
Ruy Belo
Na colina do instante
Há um cheiro de absinto quando os capricórnios
da casca apodrecida dos carvalhos velhos
iniciam seu voo pelo mês de junho
Colhemos avelãs ao longo do jardim
onde as tílias ao vento espalham o aroma
A frescura da fruta vence o sol rasante
Somos quem fomos caminhamos tão de leve
temos tamanha dignidade de crianças
que nem a morte aqui de nós se lembraria
nem mesmo a monstruosa flor de outros destinos
nem qualquer outra das repúblicas do ódio
encresparia o calmo mar do fim da tarde
É à celebração sagrada do acaso
à festa da essência mineral do mundo
que o sol procede no segredo deste templo
A tarde é tudo e tudo são caminhos
Somos eleitos cúmplices da hora
Aqui não chega o desatino do verão
esqueço a aversão dos meus antepassados
e levanto-me sobre a derradeira luz
Por instantes sou eu ninguém morreu aqui
ó minha vida esse processo que perdi
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 2, pág. 17 | Editorial Presença Lda., 1981
da casca apodrecida dos carvalhos velhos
iniciam seu voo pelo mês de junho
Colhemos avelãs ao longo do jardim
onde as tílias ao vento espalham o aroma
A frescura da fruta vence o sol rasante
Somos quem fomos caminhamos tão de leve
temos tamanha dignidade de crianças
que nem a morte aqui de nós se lembraria
nem mesmo a monstruosa flor de outros destinos
nem qualquer outra das repúblicas do ódio
encresparia o calmo mar do fim da tarde
É à celebração sagrada do acaso
à festa da essência mineral do mundo
que o sol procede no segredo deste templo
A tarde é tudo e tudo são caminhos
Somos eleitos cúmplices da hora
Aqui não chega o desatino do verão
esqueço a aversão dos meus antepassados
e levanto-me sobre a derradeira luz
Por instantes sou eu ninguém morreu aqui
ó minha vida esse processo que perdi
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 2, pág. 17 | Editorial Presença Lda., 1981
1 262
Nuno Júdice
Lua
Apaga-se um grito negro quando as
foices
matinais decepam a noite . É o sol
que nasce, mesmo quando o olhar o
não alcança. São as aves que acordam,
em quantos arbustos, em
quantas margens! Mas
não os ouvimos. Nada nos acorda deste
fim de ceifa; e é o sonho
que nos prende, no seu campo
de nuvens, à pele de pérolas
pálidas da deusa
branca.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 21 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
foices
matinais decepam a noite . É o sol
que nasce, mesmo quando o olhar o
não alcança. São as aves que acordam,
em quantos arbustos, em
quantas margens! Mas
não os ouvimos. Nada nos acorda deste
fim de ceifa; e é o sonho
que nos prende, no seu campo
de nuvens, à pele de pérolas
pálidas da deusa
branca.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 21 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
1 250
Affonso Romano de Sant'Anna
Ver o Nada
Estou limpando os filtros da percepção, olhando o nada:
– o mar batendo nas pedras
– essas andorinhas girando em alegres círculos
catando insetos no ar.
Estou na janela deste hotel há várias horas
vendo
esse estupendo Sol se pondo sobre o nada.
Sou tudo
o mar, a pedra, o pássaro, o Sol
um coração pequeno qual inseto
pulsando secretamente na janela
que me alberga no universo.
– o mar batendo nas pedras
– essas andorinhas girando em alegres círculos
catando insetos no ar.
Estou na janela deste hotel há várias horas
vendo
esse estupendo Sol se pondo sobre o nada.
Sou tudo
o mar, a pedra, o pássaro, o Sol
um coração pequeno qual inseto
pulsando secretamente na janela
que me alberga no universo.
1 144
Nuno Júdice
Anjo da guarda
O anjo que desce do espírito com a tarde,
que queima o chão da página, que
mancha de orvalho os campos do inverno,
onde a erva insiste em manter-se,
tem o olhar cansado do infinito. Pego-lhe
na mão, ouvindo o arrastar de asas
por trás de mim, enquanto avançamos
pelo alcatrão. É certo que um anjo não
foi feito para andar; e que os seus passos
desenham um voo desajeitado na hesitação
bêbeda de um rumo. Mas sento-o na
cadeira da taberna; ponho à sua frente
o amargo cálice da aguardente matinal; e
vejo-o engolir até ao fundo as gotas de
fogo do inferno, saboreando o sol que
desponta, por um instante, de entre as
nuvens que o expulsaram.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 19 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
que queima o chão da página, que
mancha de orvalho os campos do inverno,
onde a erva insiste em manter-se,
tem o olhar cansado do infinito. Pego-lhe
na mão, ouvindo o arrastar de asas
por trás de mim, enquanto avançamos
pelo alcatrão. É certo que um anjo não
foi feito para andar; e que os seus passos
desenham um voo desajeitado na hesitação
bêbeda de um rumo. Mas sento-o na
cadeira da taberna; ponho à sua frente
o amargo cálice da aguardente matinal; e
vejo-o engolir até ao fundo as gotas de
fogo do inferno, saboreando o sol que
desponta, por um instante, de entre as
nuvens que o expulsaram.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 19 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
1 131
Nuno Júdice
Dísticos
No princípio era o luar, com as suas
veias de leite e os seus seios a arfar.
E vieram os sonhos brancos da madrugada,
que vestiram as folhas de geada.
Nasceu nos teus ombros a manhã,
curvada como a figueira anã.
Nada disto se pode dizer
quando não há maneira de te esquecer.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 30 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
veias de leite e os seus seios a arfar.
E vieram os sonhos brancos da madrugada,
que vestiram as folhas de geada.
Nasceu nos teus ombros a manhã,
curvada como a figueira anã.
Nada disto se pode dizer
quando não há maneira de te esquecer.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 30 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
1 379
Nuno Júdice
Rotina
Ao abrir a janela do quarto para outras
janelas de outros quartos, ao veres a rua que desemboca
noutras ruas, e as pessoas que se cruzam, no início da
manhã, sem pensarem com quem se cruzam
em cada início de manhã, talvez te apeteça
voltar para dentro, onde ninguém te espera. Mas
o dia nasceu - um outro dia - e a contagem do tempo
começou a partir do momento em que
abriste a janela, e em que todas as janelas
da rua se abriram, como a tua. Então, resta-te
saber com quem te irás cruzar, esta manhã: se
o rosto que vais fixar, por uns instantes, retribuirá
o teu gesto; ou se alguém, no primeiro café que
tomares, te devolverá a mesma inquietação
que saboreias, enquanto esperas que o líquido
arrefeça.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 27 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
janelas de outros quartos, ao veres a rua que desemboca
noutras ruas, e as pessoas que se cruzam, no início da
manhã, sem pensarem com quem se cruzam
em cada início de manhã, talvez te apeteça
voltar para dentro, onde ninguém te espera. Mas
o dia nasceu - um outro dia - e a contagem do tempo
começou a partir do momento em que
abriste a janela, e em que todas as janelas
da rua se abriram, como a tua. Então, resta-te
saber com quem te irás cruzar, esta manhã: se
o rosto que vais fixar, por uns instantes, retribuirá
o teu gesto; ou se alguém, no primeiro café que
tomares, te devolverá a mesma inquietação
que saboreias, enquanto esperas que o líquido
arrefeça.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 27 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
1 503
Affonso Romano de Sant'Anna
Isto & História,1968
Ontem, 67 estudantes foram presos na Cinelândia
enquanto se manifestavam contra o governo.
Mas outros tantos, 60 mil, talvez
foram à praia, no mesmo dia.
Fazia um sol estupendo.
Nenhum desses se importava com isto ou a história,
senão com o sol em suas peles bronzeadas, raquetes e pernas.
Que nenhuma folha ou fio de vossos cabelos caia
sem que Aquele que está no Céu o consinta.
Aqueles dois que bebem seu chope no bar da praia,
a babá que empurra o carrinho do bebê,
a colegial azul e branca que toma ônibus
o policial e o cacetete
isto ou aquilo – tudo é história.
Agora, por exemplo,
não estou lendo Marx, a Bíblia ou o que Levi-Strauss
escreveu sobre os bororos,
mas ouvindo os Blood, Sweat and Tears.
enquanto se manifestavam contra o governo.
Mas outros tantos, 60 mil, talvez
foram à praia, no mesmo dia.
Fazia um sol estupendo.
Nenhum desses se importava com isto ou a história,
senão com o sol em suas peles bronzeadas, raquetes e pernas.
Que nenhuma folha ou fio de vossos cabelos caia
sem que Aquele que está no Céu o consinta.
Aqueles dois que bebem seu chope no bar da praia,
a babá que empurra o carrinho do bebê,
a colegial azul e branca que toma ônibus
o policial e o cacetete
isto ou aquilo – tudo é história.
Agora, por exemplo,
não estou lendo Marx, a Bíblia ou o que Levi-Strauss
escreveu sobre os bororos,
mas ouvindo os Blood, Sweat and Tears.
1 026
Nuno Júdice
O movimento da mulher quando anda
"... uma jovem mulher com sua harpa de sombra..."
Herberto Helder
O movimento da mulher quando anda
desenha-se no próprio ar, deixando um sulco que
agita os ramos em que ainda sobram algumas
flores. Posso compará-lo com um rasto de onda
que rebentou, sobrando só essa espuma quase
transparente que o sol atravessa; mas a mulher
quando anda tem a densidade do mármore
de uma antiga estátua, embora o seu corpo se
molde à resistência do sol que, ao incidir na sua
pele, solta os brilhos que ela afasta com os
braços, em busca de sombra. É assim, digo, que
o movimento da mulher quando anda transforma
o seu corpo em aresta de luz, por entre as cores
e as formas que o prendem, e de que as suas
pernas se libertam quando saltam a vedação
e pousam na terra, do outro lado, como harpa
num instante de repouso.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 63 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
Herberto Helder
O movimento da mulher quando anda
desenha-se no próprio ar, deixando um sulco que
agita os ramos em que ainda sobram algumas
flores. Posso compará-lo com um rasto de onda
que rebentou, sobrando só essa espuma quase
transparente que o sol atravessa; mas a mulher
quando anda tem a densidade do mármore
de uma antiga estátua, embora o seu corpo se
molde à resistência do sol que, ao incidir na sua
pele, solta os brilhos que ela afasta com os
braços, em busca de sombra. É assim, digo, que
o movimento da mulher quando anda transforma
o seu corpo em aresta de luz, por entre as cores
e as formas que o prendem, e de que as suas
pernas se libertam quando saltam a vedação
e pousam na terra, do outro lado, como harpa
num instante de repouso.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 63 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
2 262
Affonso Romano de Sant'Anna
Se Eu Dissesse
Se eu dissesse que o crepúsculo está coalhado de sangue
diriam que isto é uma banalidade
que só um mau poeta ousa escrever.
E, no entanto, o crepúsculo está coalhado de sangue.
Não só o crepúsculo, também a alvorada.
E quanto a isto não há muito que se possa fazer.
diriam que isto é uma banalidade
que só um mau poeta ousa escrever.
E, no entanto, o crepúsculo está coalhado de sangue.
Não só o crepúsculo, também a alvorada.
E quanto a isto não há muito que se possa fazer.
1 191
Fernando Pessoa
Os galos cantam e estou bebedíssimo.
Os galos cantam e estou bebedíssimo.
Não fiz nada da vida senão tê-la.
Mal amei, bebi bem, sonhei muitíssimo.
Minha intenção não foi a minha estrela.
Os galos cantam e eu cada vez mais
Absorto no disperso que o álcool dá.
Curara-me talvez a vida, ou sais,
Ou poder crer, ou desejar o que há.
Cantam tantos tão galos que me irrita
Que a noite que ainda dura possa ser.
Mas virá o dia, e, ao fim da parte escrita,
A morte marra e eu deixo-me colher.
Não fiz nada da vida senão tê-la.
Mal amei, bebi bem, sonhei muitíssimo.
Minha intenção não foi a minha estrela.
Os galos cantam e eu cada vez mais
Absorto no disperso que o álcool dá.
Curara-me talvez a vida, ou sais,
Ou poder crer, ou desejar o que há.
Cantam tantos tão galos que me irrita
Que a noite que ainda dura possa ser.
Mas virá o dia, e, ao fim da parte escrita,
A morte marra e eu deixo-me colher.
1 419
Nuno Júdice
Retrato com véu
Um espaço branco que se atravessa nos olhos de
quem viaja por dentro da noite, com o tédio da chegada
preso a um desejo de eternidade. Alguém a espera,
ainda, cheio de uma certeza que se dissipa
no horizonte da manhã. Um traço de luz rodeia
o seu rosto; e logo se apaga, quando todas as convicções
a envolvem com o halo da sua estranheza. Os críticos
falaram de tudo o que habitou o seu sonho; e deram
uma interpretação exacta do que ela dá a ver
a quem se atravessa no seu caminho. O que não
dizem, porém, é o que se torna cada vez mais evidente,
à medida que o tempo irrompe pela frase
que os seus lábios fecharam. Ninguém ouviu
o murmúrio que nasceu desse breve silêncio; e
uma forma pesada como a nuvem do outono desceu
sobre ela, cobrindo-a com a teia de aranha
dos séculos antigos, ou como o véu que
não voltou a usar.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 68 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
quem viaja por dentro da noite, com o tédio da chegada
preso a um desejo de eternidade. Alguém a espera,
ainda, cheio de uma certeza que se dissipa
no horizonte da manhã. Um traço de luz rodeia
o seu rosto; e logo se apaga, quando todas as convicções
a envolvem com o halo da sua estranheza. Os críticos
falaram de tudo o que habitou o seu sonho; e deram
uma interpretação exacta do que ela dá a ver
a quem se atravessa no seu caminho. O que não
dizem, porém, é o que se torna cada vez mais evidente,
à medida que o tempo irrompe pela frase
que os seus lábios fecharam. Ninguém ouviu
o murmúrio que nasceu desse breve silêncio; e
uma forma pesada como a nuvem do outono desceu
sobre ela, cobrindo-a com a teia de aranha
dos séculos antigos, ou como o véu que
não voltou a usar.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 68 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
935
Nuno Júdice
Sinfonia em branco
Desenham uma curva de abóbada sob o
impulso do branco. Os braços bordejam
o cais de um beijo esquecido, e
o olhar fixa-se numa erupção de azul
que se solta do sexo flamejante
do sol. Aquietam-se num mistério
de nimbo matinal, enquanto um piano
ressoa no fundo dos seus ouvidos,
de onde sobe o canto que lhes
estremece os corpos. Uma ressaca de
constelações seca-lhes a boca; e
não falam, murmurando apenas
uma queixa de outono. Mas logo
a luz verde da manhã entra pela
janela, empurrando um pássaro
desorientado para dentro de casa. Ao
persegui-lo com a vista, a melancolia
desaparece dos seus rostos. Despertam
para o dia. Pouco a pouco, a névoa
dos seus vestidos dissipa-se;
e veste-as apenas uma ondulação
de luz transparente.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 81 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
impulso do branco. Os braços bordejam
o cais de um beijo esquecido, e
o olhar fixa-se numa erupção de azul
que se solta do sexo flamejante
do sol. Aquietam-se num mistério
de nimbo matinal, enquanto um piano
ressoa no fundo dos seus ouvidos,
de onde sobe o canto que lhes
estremece os corpos. Uma ressaca de
constelações seca-lhes a boca; e
não falam, murmurando apenas
uma queixa de outono. Mas logo
a luz verde da manhã entra pela
janela, empurrando um pássaro
desorientado para dentro de casa. Ao
persegui-lo com a vista, a melancolia
desaparece dos seus rostos. Despertam
para o dia. Pouco a pouco, a névoa
dos seus vestidos dissipa-se;
e veste-as apenas uma ondulação
de luz transparente.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 81 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
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