Poemas neste tema

Sol, amanhecer e pôr do sol

Sully Prudhomme

Sully Prudhomme

O Cisne

Sem rumor, sob o espelho em lagos fundos, calmos,
O cisne impele a onda com as amplas palmas,
E desliza. A penugem em seus flancos, tal
Neves de abril tremendo ao sol de forma igual;
Mas, rijo, branco mastro a vibrar pelo vento,
Sua imensa asa o leva assim qual barco lento,
Passa seu belo peito acima de umas plantas,
Mergulha e sobre as águas o alonga, levanta,
Arqueia-o gracioso qual perfil de acanto
E guarda o negro bico em seu colo de encanto.
Ora ao longo dos pinhos, lar de sombra e paz,
Serpeia, deixando ervas espessas atrás
Arrastando-se assim como uma cabeleira,
E segue ele em suave e lânguida maneira.
A gruta onde o poeta escuta o que ele sente
E a fonte que lamenta um sempre eterno ausente
Lhe prazem; Lá gira ele; e a folha de salgueiro
Em silêncio caída, ao seu dorso se abeira.
Quanto mais ele faz-se ao largo; a se afastar
Do bosque escuro e, esplêndido, no azul reinar,
Só elegeu para saudar o alvor que admira
O lugar reluzente em onde o sol se mira.
E depois quando as margens tornam-se confusas,
Na hora onde toda forma é um espectro difuso,
Onde reduz um horizonte em rubro risco,
Enquanto nenhum junco ou espadana pisca,
Com as rãs verdes a soar no sereno ar
E quando o pirilampo refulge ao luar,
A ave, no sombrio lago aonde se reflete
O fulgor de uma noite láctea e violeta,
Como um jarro de prata em meio a diamantes,
Dorme, a cabeça entre asas e dois céus brilhantes.


tradução José Lino Grünewald
702
Virgílio Martinho

Virgílio Martinho

A Bebida Branca

A bebida branca é o arbusto
que nasce na duna ventosa.
Ao longe o mar não assusta
é a nuvem que o vento agita.

Estava na rocha havia sal
nos olhos a fogueira do sol
o mar era recorte tinha rosto
parecia um ombro sem corpo.

Desci a ravina era íngreme
a rocha abismo era medo,
descê-la requeria cuidado,
havia uma estrela escura.

Entre o dia e a noite a visão
a sirene do aviso buuuuu
chegar à praia estar salvo
entrar no arbusto ser vento

corpo erecto no sol extenso
água dentro certeza de vida
vai, menino, acerta as horas,
à tua frente tens o longe.

O molhado era o reino quieto
quase azevia entre areias
só a bolha do respirar
com o mergulho do menino

Tudo vem da bebida arbusto
do entre ser, na praia da duna
nos idos da memória veja-se
isto palavras olhos poesia.
1 134
Saulo Mendonça

Saulo Mendonça

Haicai

Sob o sol poente
engolindo as suas sombras:
camponeses retornam.

Cai a tarde em Tambaú.
Restos de nuvens
são bailados de andorinhas.

2 060
Ana Júlia Monteiro Macedo Sança

Ana Júlia Monteiro Macedo Sança

Poesia de Agosto

Foi em Agosto que descobri
O sabor das ondas nos teus olhos
O teu corpo úmido de maresia
Espraiando no perfil moreno do sol
Todo o êxtase viril que de ti vinha

Foi em Agosto que descobri em ti
O azul matizado do céu
O colorido do poente brincando em mim
Todo o sonho dos peixes
Fechados nas nossas mãos

Sonho porque te quero sonhar
E deixa-me dizer-te
Porque senão eu choro
Eu sou o espaço...
Uma dádiva...

Vem porque é Agosto
E quero cantar-te...

1 520
Herberto Helder

Herberto Helder

3J

Girassóis percorrem o dia fotosférico,
demorado. Mergulham devagar o peso até ao coração
unido. Pétalas e pálpebras, soletrou-as
conjugalmente
o ouro. Acolhe-os a côncava casa
do sono. Rodaram como bilhas ou amonites ou ancas
pálidas — ao sopro e número
do fogo. Passou a onda abaladora.
E fecham agora os olhos sobre a deslumbrante
chaga das núpcias.
Alto e baixo, pai e filha, ouro e imagem,
transmutaram-se numa só massa exaltada.
—Acame redonda que se fecha
na sua casa madura.
989
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Por Uma Aridez Fecunda

É o tempo de uma árvore ou de um cão,
é essa grave simplicidade de estar
com o Sol.
É o tempo em que sentados na pedra
ouvíamos a erva. E era Verão.
*
De nada, nem de música,
nem de qualquer glória humilde...
Apenas esta secura de meio-dia,
esta sem-razão tão grande como a vela
no mar.
Oh, ninguém viu o ouvido da árvore,
mas ouvi-o eu.
*
Mais uma vez longamente
qualquer coisa que seja a negação de tudo isto!
Na fenda da muralha
o riso da árvore,
um outro tempo,
um desvio no destino,
a claridade a pique.
*
Não de rosas
nem de breves titilações.
Mas somente a quebra
branca
a aurora de pedra
o frio dos lábios no sonho
a terra junto
um abraço ao poço.
1 051
Silva Avarenga

Silva Avarenga

Madrigal XXIX

Não desprezes, ó Glaura, entre estas flores,
Com que os prados matiza a bela Flora,
O jambo, que os Amores
Colheram ao surgir a branca Aurora.
A Dríade suspira, geme e chora
Aflita e desgraçada.
Ela foi despojada... os ais lhe escuto...
Verás neste tributo,
Que por sorte feliz nasceu primeiro,
Ou fruto, que roubou da rosa o cheiro,
Ou rosa transformada em doce fruto.

950
Adélia Prado

Adélia Prado

Móbiles

Que belo poema se poderia escrever.
Coisas espicaçadoras não faltam,
hortigranjeiros esperando transporte
e tudo que é necessário:
tenho que fazer o almoço.
Ou supostamente ético:
batia gente na porta,
Tialzi no corador virava as calcinhas todas
de modo a esconder o fundo.
Uma laranjeira rebrota,
preciosa árvore do mato dá espinhos,
folhinhas miúdas, flores cujas pétalas
são fios agrupados em contas de odorífero ouro.
Elas explicam o mundo como os pintinhos explicam,
perfeitos até as unhas, emplumados, vivos,
invencível delicadeza
que homem algum já fez com sua mão.
Surpreendido de noite com a mão nos ouvidos,
o moço dizia: não durmo, é a música do bar,
este galo seu que canta fora de hora.
Mentira. É por causa da vida que não dorme,
da zoeira sem fim que a vida faz.
Quer casar e não pode,
seu emprego é mau,
seu pâncreas, ingrato e preguiçoso.
Eu me casei e tenho a mesma medida de aflição.
O dia passa, a noite, saio da sombra e digo:
é só isso que eu quero,
ficar no sol até enrugar o couro.
Mas vai-se o sol também atrás do morro,
a noite vem e passa sobre mim
que longe de espelhos alimento sonhos
quanto a viagens, glórias,
homens raros me ofertando colares, palavras
que se podem comer, de tão doces,
de tão aquecidas, corporificadas.
A parreira verga de flores,
eu durmo inebriada,
achando pouca a beleza do mundo,
ansiando a que não passa nem murcha
nem fica alta, nem longe,
nem foge de encontrar meu duro olhar de gula.
A beleza imóvel,
a cara de Deus que vai matar minha fome.
1 233
Fernando Fitas

Fernando Fitas

As vozes e os corpos

Os corpos ergem-se ao sol
dão início à caminhada
cada dia começado
nas vozes que se levantam.

Vêm do fundo do tempo
do mais profundo da vida
como farinha de trigo
-sempre amassada sofrida.

E dos longes donde vêm
(tamanha é a lonjura...)
que as vozes estendem-se ao longe
marulhando espaço fora.

E entre montes e cerros
tangem liras suas cordas
que "o cante" estende-se ainda
por vozes que erguem os corpos
e os corpos erguem a vida.
714
Fernando Fitas

Fernando Fitas

Crepúsculo

Crepúsculo

Os pássaros em bando
pousavam no arvoredo
cansados do céu.

Incendiava-se
a lenha na lareira.

A noite
vestia devagar
a vastidão dos campos.
720
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Ex-Voto

Pelo muito que oiço
pelo nada que sou
pelo galo que cantou
pelos meus ossos.
Pela simples paz
duma terra ao sol.
Pelo dia que nasce.
*
Melodia rente
à pobreza inerente
ao frágil caule
da vida desnuda.
Esplende no solo
da terra sem gente
de grãos para pombos,
miúdos escombros.
Na mínima renda
de pedras e pó,
sol de amor e paz.
*
Pela hora vagarosa,
pela mão do amigo,
pela colina ondulada.
Pelas ondas do corpo
da amada.

Pelas ervas, pelo tronco
e pela copa
de grande tranquilidade.
Pelo sono bem merecido
dum chão de terra batido,
pelo macadame da praia
e pela lisura das plantas
pés e palmas.
*
Pela verde melodia
de como é cedo viver.
Quando ainda era verde
um canavial de esperança.
E quando ainda cantava
um pássaro na espessura.
E entre o amor e a pedra
o brilho de um rio havia.
Quando ainda era que seja
o pó de oiro e o ar de abelhas.
*
Pela invenção do teu corpo
e pela paz que dorme nele.
É um país de pupilas
sobre dunas.

E pelos ombros das árvores
que não abraço.
1 138
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Um Caminho de Palavras

Sem dizer o fogo — vou para ele. Sem enunciar as pedras, sei que as piso — duramente, são pedras e não são ervas. O vento é fresco: sei que é vento, mas sabe-me a fresco ao mesmo tempo que a vento. Tudo o que sei, já lá está, mas não estão os meus passos nem os meus braços. Por isso caminho, caminho, porque há um intervalo entre tudo e eu, e nesse intervalo caminho e descubro o meu caminho.
*
Mas entre mim e os meus passos há um intervalo também: então invento os meus passos e o meu próprio caminho. E com as palavras de vento e de pedra, invento o vento e as pedras, caminho um caminho de palavras.
*
Caminho um caminho de palavras
(porque me deram o sol)
e por esse caminho me ligo ao sol
e pelo sol me ligo a mim
*
E porque a noite não tem limites
alargo o dia e faço-me dia
e faço-me sol porque o sol existe
*
Mas a noite existe
e a palavra sabe-o
1 177
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Sobre o Rosto da Terra

a Maria Alberta Menéres
e E.M. de Melo e Castro
Sobe da nossa condição uma vontade de brancura. Até ao interior das casas, até à evidência dos rostos. A brancura iguala a liberdade do dia ao ascendermos à planura onde se respira de pé, rosto a rosto, na facilidade do vento.
*
Entre fios luminosos, rasteiros. Perpassa o vento baixo (o solo tem essa rugosidade amorosa que o dedo declina). As narinas respiram a paz na memória longínqua dum galo, fonte de eternidade. Estar, estar assim sobre o rosto da terra.
*
As evidências comovem-se. No acompanhamento do mar, animados pelo sussurro unânime. Os poucos que somos constelamo-nos estrela do mar. Em cada bico geramos um irmão futuro que canta a nossa liberdade.
*
De um quarto quente, corremos a uma varanda, uma praia ou uma janela. O mar visita-nos mesmo no espelho. Ao crepúsculo, um sangue alaranjado aflui ao rosto das casas. Depois do mar, sulcamos a terra, a caminho da noite, viajamos na brisa, na fugitiva liberdade dos nossos sonhos.
*
Escolho a vaga breve, a súbita, que emerge na planura fatigante. A aridez da luz irisa os arabescos móveis. Estendo a rede de sombra, onde os sonhos afluem. O breve tempo de construir a casa de vento onde circula a paz viva entre clareiras de espaço e corpos libertos.
*
Semeamos no mar os grãos da sede. O seu bafo transporta-nos a uma frescura milenária. O mar devasta-nos as ruínas, os muros, as construções míopes. Regressamos a uma idade nova onde as habitações não ignoram a pureza dos joelhos.
*
Há um caminho que te conduz até ao sono, ao nível do mar.
*
Regresso a um tempo de insecto. Este ar de montanha — o meu quarto, como a vida surda dum planeta. Aos meus ouvidos, a planície propaga-se de planície em planície, num silêncio de página.
*
Fresca amargura, fruto de erva. Terra indecisa, terra de nuvem.
*
De cada lado do caminho, o acompanhamento do branco. O cotovelo do muro.
*
Muro de ataque
resto para viver

deflagração seca
*
Garganta na terra. Mãos rasas na extensão do vento, livre na pele, coágulo, raiz do tempo.
*
Sobre a pedra de ferro, reunido na espessura de osso, refrescado pelas ervas, tão flexíveis, acordo com o rosto de ar.
*
Olho nascente à beira do chão, húmido de penugens, de uma pureza de dedo, de um sono lúcido sobre o solo, numa manhã de claridade ao rés de tudo.
*
Saio da sombra à ardência do vento. Uma lâmpada se acende na planura oscilante.
*
Cabeça de lâmpada, punho reflexo. Olhos de água abertos, atravessa a cidade derrotada, a caminho do dia de água. Um homem de ervas, com uma arma de pedra, dá-me o bom dia da flor do vento.
*
Sou filho do primeiro dia que vem, da primeira hora sem memória. O pão branco da manhã da terra, ei-lo coração, língua do presente salvo na tua mão.
*
Percorro esse braço de sofrimento, esse promontório sulcado. As flores espalmadas de sangue, a incisão das unhas, os sulcos das algemas. Terra de memória abrupta, veias subterrâneas, acesas.
*
Neste deserto de lua, sem fronteiras, na unidade do vento. Uma palavra renova-se da margem de um ouvido a outro, ó memória nova.
*
O muro basta-me para conter a sede. A terra dá-me a certeza da sua vontade, o seu pão de pedras. A fronte recebe o vento. Vivo devorado de espaço, aberto à luz, como um tronco a que uma cabeça assoma, voltada ao horizonte.
*
Bebi a cor do mar e regressei às ervas, ao espelho dos muros. Deitei-me na terra, todas as sílabas eram de ar, o vento tecia a seda de uma pausa livre.
*
Dureza de estrada, paciência de um caminhar sem árvores, voluntário de passo a passo. Nenhum rosto. A luz inclina-se até se debruçar sobre os montículos de terra. Neste silêncio raso a terra não respira.
*
O ar tremula seco sobre as barreiras. Caminho em direcção às pedras. Um tronco rugoso como uma paragem no silêncio.
*
Da superfície emerge a cabeça duma lâmpada, a casca dum fruto. A fenda do muro mostra a terra que se esboroa. O vento passa como uma pá.
*
A terra fresca humedecendo a pedra, o campo abandonado onde o ar se suspende e seca contra o muro.
1 286
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Tentando a Possibilidade

Com o gosto obscuro da terra
de um corpo que abracei
— mais lento espero
mais dentro da noite estou.

Obscuro e nu procuro
esta evidência nova
— um rosto que consinto
ao ar presente, incerto.

O quarto não é uma caverna verde
— bate-lhe o sol tranquilamente.

Há um canto onde me insiro como um lagarto
entre duas pedras

mas nesta cadeira móvel
procuro dirigir os raios
tão lentamente quanto me é possível
sobre um objecto vivo

Que ele fale
que eu fale por ele
ou ele fale por mim
— que esta distância fale,
novo equilíbrio entre diferenças.
*
Violento o corpo,
água entre paredes, estrela presa
e firme, dentes claros,
água renovada surgindo boca a boca
— e firme e novo, água subindo,
paredes altas,
água que o vento alastra sobre as árvores,
cabelos que esvoaçam ao ar livre
e firme, um corpo novo entre a espuma.
999
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

O Nascimento do Poema

O poema que surge
da vontade de ser
o ar sobre o fogo
a silenciosa casa

É ar novo nos olhos
é o espaço do dia
Tu ouves: não existe
Tu queres e continua

Nada é que tu oiças
Nem está lá dentro
Uma folha tão nova
tão verde imaginas

Nada é que esperes
e anseias que seja
porque queres viver
o sol que desejas
*
O sol é tão longe
e é toda a tua vida
o sol que tu negas
a terra inteira

E tu já foste
tua mão perdeu-se
ele intacto vive
*
Ele existe mas como
como o alcançar e ver
como ser a clareira
dardo e espiga viva

Tão alto e inteiro se eleva
tão só e pleno e próximo
Como um muro de fé
alheio à tua vida?
*
De nada apenas surge
e que avenidas rasga
que dia se desenha?
tudo é intacto e nu

Navio que a tua mão
conduz circularmente
é ele que te conduz
a si mesmo
*
Espero que ele me invente
onde e aqui eu estou
de novo a respirar
a folha imaginada

exacta e verde e viva

Esta aventura vale?
Não podes desistir
dizer que nada vale
se o nada mesmo enfrentas

Esse nada que ele é
se tu mesmo não forças
se tu mesmo não queres
ser nada para ele
*
Nada nada eu quero
para ele surgir
dele mesmo em mim
tão evidente e nu

como tudo o que vejo
*
Escrevo para ouvi-lo
e vê-lo desenhar-se
justificar-se abrir-se
como eu próprio sou

só onde ele se ergue

Não acredito nele
antes de surgir
Nunca sei que vai ser
nem quando é se é

nunca sei ele sabe
e eu só sei quando inteiro
ele passou antes de mim
*
Esse rosto exacto
que incompleto vive
essa certeza nova
nos próprios passos viva

essa esperança louca
que de si mesma vive
e a sombra que tu és
feliz porque tu brilhas

onde ele mesmo é
*
Irás onde ele te espera
Serás o que ele diz
Sabes a sua força
E tremes de alegria

Quem sabe alguma vez
de tanto o procurares
verás que nada és
senão a voz que passa
*
Sem ele nada vale
e não suportas ser
a repetida igual
e contínua passagem

Por ele nada é certo
a não ser ele mesmo
no momento em que surge
negando-te inteiro
*
Por isso desesperas
tão diferente é
do dia que tu vives
e tão súbito igual
a tudo o que vais sendo

e em que brilha ao passar
*
Quiseste que ele fosse
Desejaste-o evidente
Ele aí está tremendo
na sua audácia nova

de ser tão ser em si

a verde folha viva
que tu vês e respiras
1 106
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

E Vem o Dia

E vem o dia, as casas juntas,
a evidência das calçadas, dos planos,
árvores presentes, verdes, gente andando,
uma planura no vento, esquinas breves,
uma rapariga dúctil e sonora acaso,
a claridade metálica, o estrépito do sol,
a água cerrada dum amor da cidade.
*
Não construo. Apenas cedo a este desejo
vago que infunde o ar.
Sou renovado e liso, sou, não sou,
ganho-me na espera e no desejo
de ser já ser, não ser, outro que sou
fora da miséria, na miséria, vivo,
respirando, abrindo-me, perdendo-me,
cedendo.
*
É esta a noite, este o dia já,
este o viver,
roubado ou não, lavado, sim,
de suores, de punhos, desta calma
aberta em si, total, amanhecida,
na noite próxima, devagar, assim.
539
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Princípio de Estação

Venho do sol (uma cortina de bruma
envolve o dia). Testemunha
de uma solidão fresca, sem recordar,
sem esperar, volto a olhar no espaço mudo.
O cheiro a chão lavado.
Uma direcção entre vagas sensações.
Não existe uma pergunta. Suspenso, avanço
entre vazios.
*
Não penso ou penso: que há?
Entretanto, o dia prossegue pardamente.
É tinta e não seiva o que escorre do aparo,
mas impregno o que escrevo de algo mais
que não existe ainda, que aspiro apenas
a ser a face densa, aberta, impenetrável
e real.
*
Não surpreender apenas por
gosto dum fulgor ou excesso.
As paredes oferecem uma face percorrida
de mil sulcos. A procura é infinita
neste silêncio das coisas junto à terra.
Desprendido, olho um muro ou o firmamento.
A poeira é deliciosa quando fresca.
982
José Saramago

José Saramago

14

Nos quatro pontos cardeais os vigias defendem o sono cansado da tribo ou rebanho de gente que vagueia pelos campos

Um homem ao norte uma mulher ao sul outro homem a oriente e a ocidente a segunda mulher

Estão sentados de pernas cruzadas atentos a todas as sombras e gritam quando há perigo

Mas porque os perseguidores não gostam de atacar na escuridão a noite decorre muitas vezes calma apenas fria

Ao amanhecer a tribo acorda e divide-se em quatro grupos conforme os pontos cardeais e vai agradecer aos vigias a vida conservada

Depois o homem do norte e a mulher do sul o homem do oriente e a mulher do ocidente juntam os sexos porque assim foi decidido que deveria acontecer todas as manhãs

Enquanto a união dura cantam em redor a única canção feliz que não esqueceram

O sol levanta-se sobre os quatro corpos nus que são a esperança inconsciente da tribo

Entretanto acende-se a primeira fogueira e o fumo azul da lenha sobe para o céu
997
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Presentificação

O que quer a sombra
— nada sabe —
movimentos próximos,
surto que começa
alarga… Eis um muro

bem firme.
Eis a terra ou sua sombra,
o moinho arbitrário: alguém que espera.
Eis a firmeza operária:
o que me quer, este abraço
que vos chega,
ou esta nuvem espaçada, este intervalo:
onde nada sussurra.
*
Como se o mapa limpo,
ouvido agora aberto,
onde o mar se espelha para um olhar que o absorva,
afirma-se no vago:
o horizonte de sempre,
luz de múltiplos dedos,
pedras solares.
*
Nada me separa
neste vau, nada me distingue:
a luminosa fome,
a gula dum sol sedoso,
passear neste silêncio,
acordar de leve
uma luz preciosa e lenta
que se escuta.
*
Como quem desce, pára e são ossos,
é uma presença inerte de pedra,
um grande campo de dejectos, latas,
e o sol brilha cruamente,
um galo súbito maravilhoso.
*
Descer à inércia de uma sombra,
de um hausto reparador,
onde se propaga lenta, obscura, qualquer claridade,
um sinal se forma de fome e suavidade,
o barro desenhado, a mão no bojo:
olhar assim, comer, pousar, romper.
539
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Varanda

Se estou presente em ti
espaço em que me afirmo
surpreendente e simples

as palavras surgem na ordem livre
numerosas solares
degrau a degrau subo à varanda
onde o sol é uma flor extraordinária
sobre um mar negro de ingenuidade
*
Os mais simples traços
delicados rectos
levemente oblíquos
— na chuva dum rosto
largo como o sol
lábios fluindo,
um seio sobre o mar.
*
Defino-me deste lado — ardente.
Prossigo mais um degrau — o dia é claro.
Uma brisa sopra nos interstícios.
Na varanda uma nuvem se desfaz.
Tudo é perfil em traços nítidos.
*
De janela a janela o dia é plural.
O mar atravessa-se entre os postes.
Uma toalha crespa
dá-me a palavra lavada e seca.

(A dança vertical
no sono)
Encerrado em limites densos
o Verão respira num corpo

Rodopia sobre camadas frescas
assente sobre si no centro
em folhas sobre folhas
numa rosa fechada

Eu espero imóvel
entre paredes nuas.
587
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Transcrição da Terra

Para um jardim sem flores
de que matéria? e espaço
e largos corredores,
à mesa no meio-dia,

mesa de pedra fria
ou de madeira lisa
de algum tronco redondo
ainda verde. E o sol.
*
Só no silêncio: o espaço.
O solo coado: por
alguma árvore? Um corpo
matinal ao lado.

O vento que respira
ou o hálito de mulher,
moça feliz, calada,
e vida e sol e nada.
*
Para um jardim de espaço,
pedra de sol, mas pedra
e áleas quase nuas,
nudez do ar, do espaço.

Compasso aberto e largo,
arquitectura calma,
aberta à terra, às claras,
aos braços e às pernas,

ao tronco que respira
aos olhos que se inundam
ou que inventam o espaço
a partir do olhar

este chão lavado.
Terra de sol, silêncio
de uma cor repousada
— a própria calma animada.
*
As janelas rasgadas
transparentes, pensadas:
os ombros altos, jorros
na suavidade sanguínea.

Mental serenidade,
gravidade sem peso,
o ar em sua casa
alonga-se em carícia

de múltiplas notícias
desdobradas, seguidas
de silêncios sonoros
de terra e gente viva.
*
Tudo é calado alento,
tudo é sombra verde
de um pensar sobre o sono
das relvas espalhadas.

Tudo sobe e se alarga
em sua casa de espaço,
tudo tem massas claras,
compactas, leves, puras.

A casa projectada
é um poema aberto:
oásis branco e recto
sobre um calmo deserto.
*
Abertas salas claras
onde os passos propagam
o futuro nome do ar,
presente por criar.

Presente por abrir
e caminhar por salas
de espaço mais solar
de mais sol e ar.

E cada vez mais salas
quartos de espaço uno,
sussurrantes, lavadas,
da sede de criar.
*
Eis a terra transcrita
no seu surto sonoro:
manhã que se faz pedra
para ouvirmos respirar.

Falamos nestas salas
conscientes de ser pedra
e vidro e terra espessa
no sangue novo e claro.

Eis o rumor tão escuro
e fresco das origens
exalando-se das traves
translúcidas, reais.
1 164
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Corpos

Como um calhau ao sol ao fim da praia
lisa, polida pela água e pelo vento,
corpo unido, firme e novo
na sua fronteira de dentes contra a morte.

Corpos, gritos, rolados, unidos, curvos. Corpos de veias onduladas, sangue e pedra, água e cal, corpos navegantes, velas enfunadas, fomes vermelhas, sedes de paz, matéria viva nocturna, simplicidade nova e isenta, revolta marulhante, bandeira de cabelos, brusquidão óssea, temperatura amarga, soluços ardentes, vazios plenos, sinceridade mole, invasão da morte, garganta sorrindo aberta ao sol.

Na ondulação dos fios, em pleno ar, cabeleira exausta, tumultuosa e suave, como um fogo único, dedos e cabelos num só desfiar de fios, numa só cabeleira de ar.
1 214
Eunaldo Costa

Eunaldo Costa

Flamejam luzes no meu peito

Flamejam luzes no meu peito
Quando começo a ouvir
A primeira partitura da madrugada,

Então, em êxtase, vôo como um pássaro
E colho a estrela que o tempo
Modelou para as minhas mãos
Que vão traçar o rumo dos rios
Que andam com o corpo ferido de âncoras

Alado, sinto que eu e o som
Da vida somos um só,
E que minha alma, banhada
De prata e sol, se transforma
Numa rosa mágica de um signo do zodíaco,
Neste momento começo a ouvir
A segunda partitura da madrugada.
E a minha consciência se veste do verdor das algas.

875
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

O Espaço Livre

Desocupado, livre,
sem vestígios, ao sol,
tronco devorado pela luz,
ondulada frescura no dorso,
sem laços, sem raízes, desabitado.

Conheço o tempo
e a demora
lenta,
o vazio da casa na manhã,
a manhã deserta ao sol,
a cegueira da luz tão leve,
o deserto simples,
o nome prolongado e nulo.

Estou
no silêncio,
na habitação do silêncio,
no mar imaginado,
na planura verde sussurrante,
na seara das brisas,
nos adeuses prolongados em ondas desfeitas,
no vazio da terra fresca,
no silêncio sempre novo,
nas vozes sobre o mar,
no sono sobre o mar.

Estou deitado
e alto.
Sou a tranquilidade dos montes,
a lenta curva das baías,
os olhos subterrâneos da água,
a liberdade dispersa do vento,
a claridade de tudo.

Escrevo sobre dunas
silenciosamente.
Oiço o tempo que não passa.
Um século de frescura
inunda-me.
Não esperava habitar esta vasta clareira
límpida.
Não esperava respirar esta brisa de paz,
de liberdade isenta,
de morte desvelada,
de vida renovada.

Abraço todo o espaço na liberdade viva.
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