Poemas neste tema
Silêncio
Marina Colasanti
Lua de mel em Veneza
Na mesa à minha esquerda
as duas americanas
remexem nos pratos
com medo da comida
medo do garçom que canta
medo do vinho
do sol
da falta de ketchup.
À direita
na mesa
as alianças do casal brasileiro
brilham novas
a gomalina no cabelo dele brilha
antiga
os olhos não se buscam
embora as mãos se toquem
por cima da toalha
e em pleno meio-dia
a lua não é de mel.
Começa em quarto minguante
um longo silêncio conjugal.
as duas americanas
remexem nos pratos
com medo da comida
medo do garçom que canta
medo do vinho
do sol
da falta de ketchup.
À direita
na mesa
as alianças do casal brasileiro
brilham novas
a gomalina no cabelo dele brilha
antiga
os olhos não se buscam
embora as mãos se toquem
por cima da toalha
e em pleno meio-dia
a lua não é de mel.
Começa em quarto minguante
um longo silêncio conjugal.
1 092
Claudio Willer
Eros
viajantes inertes
imersos no silêncio dessas horas
quando o tempo não é mais tempo
porém lassidão
e nossos corpos arquejantes construções
envoltas em nudez
testemunhada apenas pelos objetos da casa,
os quadros na parede, os pesados móveis,
os livros e suas lombadas, vasos de plantas, espelhos
e mais a negra silhueta dos prédios recortados contra
a janela, rosto cego
da cidade agora adormecida a observar-nos fixamente,
eu bruxo, você sibila,
que deuses cultuamos?
ao escrevermos nossas biografias ocultas
que rituais refazemos?
agora parados na pausa dos sobressaltos
que alquimia inventamos?
o peso que nos paralisa e adormece
não é cansaço
porém outra coisa
sensação do profundo
o obscuro sentir
do mundo que respira
pelos poros da escuridão
e nós, manietados pelo prazer, apenas conscientes
da presença dos objetos da
casa, móveis, vasos de plantas, livros, os almofadões
espalhados pelo chão,
as roupas jogadas ao acaso e mais o negro recorte
dos prédios por trás da janela,
perfil da paisagem urbana, impassível testemunha,
mal sabemos quem somos
lembramo-nos apenas de nossos nomes
restam-nos o repouso e uma intuição
desperta para o morno mundo de nossos corpos
nunca havíamos sentido isso antes assim
In: WILLER, Claudio. ARTES e ofícios da poesia. Org. Augusto Massi. Apres. Leda Tenório da Motta. Porto Alegre: Artes e Ofícios; São Paulo: Secretaria Municipal de Cultura, 1991. p.110-11
imersos no silêncio dessas horas
quando o tempo não é mais tempo
porém lassidão
e nossos corpos arquejantes construções
envoltas em nudez
testemunhada apenas pelos objetos da casa,
os quadros na parede, os pesados móveis,
os livros e suas lombadas, vasos de plantas, espelhos
e mais a negra silhueta dos prédios recortados contra
a janela, rosto cego
da cidade agora adormecida a observar-nos fixamente,
eu bruxo, você sibila,
que deuses cultuamos?
ao escrevermos nossas biografias ocultas
que rituais refazemos?
agora parados na pausa dos sobressaltos
que alquimia inventamos?
o peso que nos paralisa e adormece
não é cansaço
porém outra coisa
sensação do profundo
o obscuro sentir
do mundo que respira
pelos poros da escuridão
e nós, manietados pelo prazer, apenas conscientes
da presença dos objetos da
casa, móveis, vasos de plantas, livros, os almofadões
espalhados pelo chão,
as roupas jogadas ao acaso e mais o negro recorte
dos prédios por trás da janela,
perfil da paisagem urbana, impassível testemunha,
mal sabemos quem somos
lembramo-nos apenas de nossos nomes
restam-nos o repouso e uma intuição
desperta para o morno mundo de nossos corpos
nunca havíamos sentido isso antes assim
In: WILLER, Claudio. ARTES e ofícios da poesia. Org. Augusto Massi. Apres. Leda Tenório da Motta. Porto Alegre: Artes e Ofícios; São Paulo: Secretaria Municipal de Cultura, 1991. p.110-11
1 046
Marina Colasanti
De caça a caçador
Para alcançar palavras que nos fogem
preciso é acarpetar os passos
velar de espesso véu nosso desejo
e esperá-las
calados
de tocaia.
Sempre haverá um momento
de descuido
em que a palavra
recolhidas asas
pousará sobre a língua
e será nossa.
Entrementes
há que tomar cuidado.
Assim como as caçamos
palavras há também
em cada esquina
prontas
com unha e dente
a nos saltar em cima.
preciso é acarpetar os passos
velar de espesso véu nosso desejo
e esperá-las
calados
de tocaia.
Sempre haverá um momento
de descuido
em que a palavra
recolhidas asas
pousará sobre a língua
e será nossa.
Entrementes
há que tomar cuidado.
Assim como as caçamos
palavras há também
em cada esquina
prontas
com unha e dente
a nos saltar em cima.
604
Luci Collin
TENTAME
e entre nós e as palavras, o nosso querer falar
M. Cesariny
não havia palavra que coubesse
na carícia que os dedos fazem nas cordas
palavra que frutificasse ao falar
do deserto
um instrumento desafinado
que arranha a plenitude do lago
que quase inexiste
traz uma dor desconcebível e úmida
de dia frio de voz rachada
de sobreavisos
não havia palavra que se aproximasse
da carícia feita nas cordas deste instrumento inabitado
e a voz desconjuntada se esforçava para trazer
a manhã de volta
eu permeável pudesse nesta giga saber
que uma aridez ternária jamais não dói
não esboça certeza nem parelha
é arrítmica esta inquietação de perfumes abandonados
voz subsistida no som das carícias
nas horas eriçadas na suspensão
e eu aqui querendo que a palavra que fala
não seja só
o próprio deserto
M. Cesariny
não havia palavra que coubesse
na carícia que os dedos fazem nas cordas
palavra que frutificasse ao falar
do deserto
um instrumento desafinado
que arranha a plenitude do lago
que quase inexiste
traz uma dor desconcebível e úmida
de dia frio de voz rachada
de sobreavisos
não havia palavra que se aproximasse
da carícia feita nas cordas deste instrumento inabitado
e a voz desconjuntada se esforçava para trazer
a manhã de volta
eu permeável pudesse nesta giga saber
que uma aridez ternária jamais não dói
não esboça certeza nem parelha
é arrítmica esta inquietação de perfumes abandonados
voz subsistida no som das carícias
nas horas eriçadas na suspensão
e eu aqui querendo que a palavra que fala
não seja só
o próprio deserto
667
Walmir Ayala
32 [Onde ficou aquela hora
Onde ficou aquela hora
de sentar à mesa e ver
a água no vidro do copo?
Tirar da cesta o pão
passar no molho e gostar
de ver o abrir da sombra?
E em silêncio mastigar
a carne e o pomo, quente
o elo em torno da pobre
toalha e sua nódoa.
Nenhum lobo lá fora.
A comunhão completa
de olhos baixos e um canto
calando nas vasilhas.
Hoje o lobo está dentro.
Pelos cantos gememos,
sós pousamos no prato
uma fome imprecisa.
O pão nos sabe a ázimo
e o vinho avinagrado
sangra no lábio a pausa
de lembrar, sem recurso.
Já não temos ninguém
que nos dobre a toalha
e apague a luz.
Vagamos,
inofensivo lobo
de uma ira apagada.
E a lamparina, amor,
tremeluz do outro lado
como absorto fantasma.
In: AYALA, Walmir. Os reinos e as vestes. Pref. Lélia Coelho Frota. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986. (Poesia brasileira)
de sentar à mesa e ver
a água no vidro do copo?
Tirar da cesta o pão
passar no molho e gostar
de ver o abrir da sombra?
E em silêncio mastigar
a carne e o pomo, quente
o elo em torno da pobre
toalha e sua nódoa.
Nenhum lobo lá fora.
A comunhão completa
de olhos baixos e um canto
calando nas vasilhas.
Hoje o lobo está dentro.
Pelos cantos gememos,
sós pousamos no prato
uma fome imprecisa.
O pão nos sabe a ázimo
e o vinho avinagrado
sangra no lábio a pausa
de lembrar, sem recurso.
Já não temos ninguém
que nos dobre a toalha
e apague a luz.
Vagamos,
inofensivo lobo
de uma ira apagada.
E a lamparina, amor,
tremeluz do outro lado
como absorto fantasma.
In: AYALA, Walmir. Os reinos e as vestes. Pref. Lélia Coelho Frota. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986. (Poesia brasileira)
1 329
Marina Colasanti
Por instantes
Aquela fruteira
na outra mesa
aquela fruteira de nada
louça branca e um pé
aquela fruteira que acolhe
duas laranjas
e a pera
aquela fruteira que ali está apenas
para oferecer frutas
aquela fruteira
canta
aos meus olhos.
Pode ser o sol
que pousou-se ali como uma fruta a mais
Pode ser o leite da louça suspenso
sobre a branca toalha.
Pode ser seu silêncio de objeto
entre ruídos.
Contido em meu olhar
o tempo da fruteira se detém.
E já mão alheia se estende
e colhe o sol.
Villa Serbelloni, Bellagio, 1999
na outra mesa
aquela fruteira de nada
louça branca e um pé
aquela fruteira que acolhe
duas laranjas
e a pera
aquela fruteira que ali está apenas
para oferecer frutas
aquela fruteira
canta
aos meus olhos.
Pode ser o sol
que pousou-se ali como uma fruta a mais
Pode ser o leite da louça suspenso
sobre a branca toalha.
Pode ser seu silêncio de objeto
entre ruídos.
Contido em meu olhar
o tempo da fruteira se detém.
E já mão alheia se estende
e colhe o sol.
Villa Serbelloni, Bellagio, 1999
1 263
Walmir Ayala
A Bailarina Gris
de Degas
PENDIDA
como de uma corola o tempo de
uma flor, ela treme:
seu rosto de vinho e maçã
flui no nostálgico acento
com que ao vento se curva, uma tênue
figura.
De chuva
é a leveza de seu olhar parado, de espuma
é seu sapato, e seu pé
informado e prudente arma um pássaro triste na
[sombra.
PENDIDA,
debruçada de si como uma lágrima
a bailarina rompe
o segredo: do outro lado é que se esvai
a rosa, seu sangue
é este espanto de que se forma o corpo
do silêncio.
In: AYALA, Walmir. Museu de câmara = Museo de camara. Madri: Artes Gráf. Luis Pérez, 1986 (Xanela).
NOTA: Título em espanhol: "La Bailarina Gris
PENDIDA
como de uma corola o tempo de
uma flor, ela treme:
seu rosto de vinho e maçã
flui no nostálgico acento
com que ao vento se curva, uma tênue
figura.
De chuva
é a leveza de seu olhar parado, de espuma
é seu sapato, e seu pé
informado e prudente arma um pássaro triste na
[sombra.
PENDIDA,
debruçada de si como uma lágrima
a bailarina rompe
o segredo: do outro lado é que se esvai
a rosa, seu sangue
é este espanto de que se forma o corpo
do silêncio.
In: AYALA, Walmir. Museu de câmara = Museo de camara. Madri: Artes Gráf. Luis Pérez, 1986 (Xanela).
NOTA: Título em espanhol: "La Bailarina Gris
1 315
Luci Collin
Alinho
É preciso voltar
às rosas mais antigas
e suas exuberâncias
e seus frêmitos de infinito
às palavras surgentes
às vozes prometidas
nos ecos do que amanhece
é preciso voltar
aos gatos que compõem a noite
às cálidas cantorias
ao flagrante do gosto
aos votos interrompidos
às garatujas nos muros
às cigarras já sem valia
voltar será sempre preciso
girar a chave de formato único
pisar nas tábuas lassas e confessas
ouvir o apelo do oco
a ascese dos líquens no tronco
fazer irromper acenos que
contem não só desfechos.
Os silêncios recuperam
a porosidade das rochas
o advento das peças da flor
o insabido da brasa
e a razão à palavra.
É preciso acalentar
o momento em que se resolve
a história do espinho
e saborear
o estremecimento.
às rosas mais antigas
e suas exuberâncias
e seus frêmitos de infinito
às palavras surgentes
às vozes prometidas
nos ecos do que amanhece
é preciso voltar
aos gatos que compõem a noite
às cálidas cantorias
ao flagrante do gosto
aos votos interrompidos
às garatujas nos muros
às cigarras já sem valia
voltar será sempre preciso
girar a chave de formato único
pisar nas tábuas lassas e confessas
ouvir o apelo do oco
a ascese dos líquens no tronco
fazer irromper acenos que
contem não só desfechos.
Os silêncios recuperam
a porosidade das rochas
o advento das peças da flor
o insabido da brasa
e a razão à palavra.
É preciso acalentar
o momento em que se resolve
a história do espinho
e saborear
o estremecimento.
697
Bocage
Já sobre o coche de ébano estrelado
Já sobre o coche de ébano estrelado,
Deu meio giro a Noite escura e feia,
Que profundo silêncio me rodeia
Neste deserto bosque, à luz vedado!
Jaz entre as folhas Zéfiro abafado,
O Tejo adormeceu na lisa areia;
Nem o mavioso rouxinol gorjeia,
Nem pia o mocho, às trevas acostumado.
Só eu velo, só eu, pedindo à Sorte
Que o fio com que está mihalma presa
À vil matéria lânguida, me corte.
Consola-me este horror, esta tristeza,
Porque a meus olhos se afigura a Morte
No silêncio total da Natureza.
Deu meio giro a Noite escura e feia,
Que profundo silêncio me rodeia
Neste deserto bosque, à luz vedado!
Jaz entre as folhas Zéfiro abafado,
O Tejo adormeceu na lisa areia;
Nem o mavioso rouxinol gorjeia,
Nem pia o mocho, às trevas acostumado.
Só eu velo, só eu, pedindo à Sorte
Que o fio com que está mihalma presa
À vil matéria lânguida, me corte.
Consola-me este horror, esta tristeza,
Porque a meus olhos se afigura a Morte
No silêncio total da Natureza.
3 229
Marina Colasanti
Tinnitus auricularis
Há muito
não me habita o silêncio.
Sou constante verão
cantar de grilos
que em meio ao meu pensar
fizeram ninho.
Tudo é noite de estio
sendo tormento
tudo é estridor.
Quisera estar sozinha
e não consigo
com este vozerio que
me acompanha,
e ainda assim, sempre só
estou comigo
pois ouço sons que ninguém mais escuta
como se ouvir cantar fosse
castigo.
Ponho brincos de ouro
nas orelhas
mas na oculta raiz
dos meus cabelos
o farfalhar se expande
das espigas.
E eu,
tão urbana, vou
por entre carros
com meu secreto campo
atrás do rosto
contracanto de insetos
como escudo
que interponho ao alarido da cidade.
não me habita o silêncio.
Sou constante verão
cantar de grilos
que em meio ao meu pensar
fizeram ninho.
Tudo é noite de estio
sendo tormento
tudo é estridor.
Quisera estar sozinha
e não consigo
com este vozerio que
me acompanha,
e ainda assim, sempre só
estou comigo
pois ouço sons que ninguém mais escuta
como se ouvir cantar fosse
castigo.
Ponho brincos de ouro
nas orelhas
mas na oculta raiz
dos meus cabelos
o farfalhar se expande
das espigas.
E eu,
tão urbana, vou
por entre carros
com meu secreto campo
atrás do rosto
contracanto de insetos
como escudo
que interponho ao alarido da cidade.
1 130
Marília Garcia
terremoto
um terremoto replicando
por vários dias,
à noite as luzes de néon paradas
e, na manhã seguinte,
a tremedeira outra vez.
você pensa que o futuro
ainda não chegou, mas
de repente o terremoto
replicando faz tremer a língua
os dentes e tudo o que é
matéria.
por mais que use as palmas
para cobrir os ouvidos,
a ternura — o que você quer dizer? —
aliás, a tremura chega
arrastando tudo.
era como um país virando mar
um terremoto replicando
sem parar. se as réplicas consistem
em tremedeiras, e se uma língua é desenhada
fora das linhas,
como conciliar o
inconciliável?, pergunto
no momento de maior
desligamento e
ele responde:
— agora o seu wasabi
tem radioatividade.
essa cor brilhante,
de um verde quase prata,
era como a luz batendo no mar
bem na hora em que o chão —
e tudo recomeça.
quero pedir
silêncio, mas não sei lidar
com o imponderável.
um dia acordo
e não espero
mais resposta.
por vários dias,
à noite as luzes de néon paradas
e, na manhã seguinte,
a tremedeira outra vez.
você pensa que o futuro
ainda não chegou, mas
de repente o terremoto
replicando faz tremer a língua
os dentes e tudo o que é
matéria.
por mais que use as palmas
para cobrir os ouvidos,
a ternura — o que você quer dizer? —
aliás, a tremura chega
arrastando tudo.
era como um país virando mar
um terremoto replicando
sem parar. se as réplicas consistem
em tremedeiras, e se uma língua é desenhada
fora das linhas,
como conciliar o
inconciliável?, pergunto
no momento de maior
desligamento e
ele responde:
— agora o seu wasabi
tem radioatividade.
essa cor brilhante,
de um verde quase prata,
era como a luz batendo no mar
bem na hora em que o chão —
e tudo recomeça.
quero pedir
silêncio, mas não sei lidar
com o imponderável.
um dia acordo
e não espero
mais resposta.
968
Marília Garcia
em loop, a fala do soldado
vivo numa caixa preta
de 20 centímetros.
vejo o mundo por um visor,
no meio uma cruz
para mirar as coisas
prédios estradas objetos cachorros.
tudo que passa pelo quadro
vira alvo, então penso em algo
linear: você já reparou que algumas imagens
se repetem? de repente,
um cisco no olho.
“eu vivo numa caixa preta”,
disse. estamos sentados
lado a lado no trem
— em silêncio — os dois de calça verde
e camisa branca.
sei que não está tudo bem,
levanto o olhar tentando alcançar
o dele e ouço apenas a voz
de frente para o alvo.
vivo numa caixa preta, diz,
e eu não sei como parar
a repetição.
de 20 centímetros.
vejo o mundo por um visor,
no meio uma cruz
para mirar as coisas
prédios estradas objetos cachorros.
tudo que passa pelo quadro
vira alvo, então penso em algo
linear: você já reparou que algumas imagens
se repetem? de repente,
um cisco no olho.
“eu vivo numa caixa preta”,
disse. estamos sentados
lado a lado no trem
— em silêncio — os dois de calça verde
e camisa branca.
sei que não está tudo bem,
levanto o olhar tentando alcançar
o dele e ouço apenas a voz
de frente para o alvo.
vivo numa caixa preta, diz,
e eu não sei como parar
a repetição.
702
Vargas Neto
Meio-dia
Todo o ar treme sob o sol do meio-dia!
O capim se dobrou sobre si mesmo, trepidando...
A gente olhando o campo
tem a impressão que derramam sobre ele
qualquer coisa derretida !
O gado invadiu as restingas e os capões,
para fugir à graxa quente, que o sol derrama
derretida
sobre a grama.
No lombo da coxilha
só um cavalo velho bate o casco,
varado de sede,
porque teve preguiça de fugir do sol,
porque tem preguiça de descer à sanga
Debaixo dos cinamomos da fazenda
a peonada dorme, estirada de costas, com o chapéu nos olhos.
Um guaipeca, deitado aos pés de um peão
erra bocadas nas moscas, estalando os dentes.
Depois cocoricoca uma galinha que botou
e tudo volta ao silêncio porque o calor tonteia.
Até o vento tem preguiça de ventar!...
Apenas se ouve, zunindo, longo, infindo,
o monótono zunzum das moscas vagabundas...
O capim se dobrou sobre si mesmo, trepidando...
A gente olhando o campo
tem a impressão que derramam sobre ele
qualquer coisa derretida !
O gado invadiu as restingas e os capões,
para fugir à graxa quente, que o sol derrama
derretida
sobre a grama.
No lombo da coxilha
só um cavalo velho bate o casco,
varado de sede,
porque teve preguiça de fugir do sol,
porque tem preguiça de descer à sanga
Debaixo dos cinamomos da fazenda
a peonada dorme, estirada de costas, com o chapéu nos olhos.
Um guaipeca, deitado aos pés de um peão
erra bocadas nas moscas, estalando os dentes.
Depois cocoricoca uma galinha que botou
e tudo volta ao silêncio porque o calor tonteia.
Até o vento tem preguiça de ventar!...
Apenas se ouve, zunindo, longo, infindo,
o monótono zunzum das moscas vagabundas...
981
Yeda Prates Bernis
Variações em Tom Maior
A noite, trêmula,
com seu fardo de sombras
nos ombros.
Ponteiros invisíveis giram,
esgarçam, pouco a pouco,
um fado de opaca tristeza.
Um galo, voz claríssima,
chameja em prata
espaço entre as trevas.
Borboletas brincam de roda:
sobre um sino
acordam o silêncio de bronze.
Uma azaléia
molhada de cristal
ensaia vôo.
Asas de andorinhas
salpicam no céu
claridades e levezas.
com seu fardo de sombras
nos ombros.
Ponteiros invisíveis giram,
esgarçam, pouco a pouco,
um fado de opaca tristeza.
Um galo, voz claríssima,
chameja em prata
espaço entre as trevas.
Borboletas brincam de roda:
sobre um sino
acordam o silêncio de bronze.
Uma azaléia
molhada de cristal
ensaia vôo.
Asas de andorinhas
salpicam no céu
claridades e levezas.
835
Charles Bukowski
Amor & Fama & Morte
agora ela senta do lado de fora de minha janela
como uma velha senhora indo ao mercado;
ela senta e me olha,
sua nervosamente
através de fios e neblina e um latido de cão
até que de súbito
eu bato na tela com um jornal
como se fosse esmagar uma mosca
e você pode ouvir o grito
cortar esta cidade plana
e então a coisa se vai.
a maneira de terminar um poema
como este
é se tornar de repente
silencioso.
como uma velha senhora indo ao mercado;
ela senta e me olha,
sua nervosamente
através de fios e neblina e um latido de cão
até que de súbito
eu bato na tela com um jornal
como se fosse esmagar uma mosca
e você pode ouvir o grito
cortar esta cidade plana
e então a coisa se vai.
a maneira de terminar um poema
como este
é se tornar de repente
silencioso.
1 244
Marina Colasanti
Tempo afora, morte adentro
Gordas como repolhos
as rosas são irmãs das hortaliças
na horta portuguesa que vejo
da janela.
A abóbora esquecida no telhado
talo cortado
avança em madurez varando o tempo
como as unhas de Carlos Magno
vararam as luvas morte adentro.
Íntimos brancos secam no varal
tocados de azul por um jeans.
Além dos muros de pedra
além das oliveiras
a torre medieval é quase jovem.
E as mós do silêncio gastam o tempo
enquanto flui
improvável
este ano 2000.
as rosas são irmãs das hortaliças
na horta portuguesa que vejo
da janela.
A abóbora esquecida no telhado
talo cortado
avança em madurez varando o tempo
como as unhas de Carlos Magno
vararam as luvas morte adentro.
Íntimos brancos secam no varal
tocados de azul por um jeans.
Além dos muros de pedra
além das oliveiras
a torre medieval é quase jovem.
E as mós do silêncio gastam o tempo
enquanto flui
improvável
este ano 2000.
957
Moacyr Felix
Porque
A Márcia e Jorge Vanderley
Porque a poesia nunca está na soma
e sim no tempo que é maior que o tempo
da vida medida entre doze números,
o poeta está solto por dentro dos relógios
e movimenta ponteiros que ninguém vê e onde
o incomensurável brinca
com os raios de sol ou as finas gotas de chuva
sobre o passar das árvores e dos animais e dos homens.
O poeta está livre por dentro dos relógios
e o seu coração ali bate e bate e bate
lado a lado com todas as engrenagens do mundo.
O mistério, no entanto, é o jardineiro do seu sangue
exilado entre palavras que nunca foram proferidas.
Porque a poesia nunca está na soma
o poema tem um tempo próprio e voa
nas raízes do canto em que se asila
o silêncio ou a mais funda esperança
do primeiro homem que sonhou
pendurar uma estrela-d'alva nos roteiros
da infinita sombra em que as horas decidem
nascimento e morte no tempo do homem.
Porque a poesia nunca está na soma
o poeta está livre por dentro dos relógios.
Assim como o morto em suas memórias.
Publicado no livro Em Nome da Vida (1981).
In: FÉLIX, Moacyr. Antologia poética. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1993. p.5
Porque a poesia nunca está na soma
e sim no tempo que é maior que o tempo
da vida medida entre doze números,
o poeta está solto por dentro dos relógios
e movimenta ponteiros que ninguém vê e onde
o incomensurável brinca
com os raios de sol ou as finas gotas de chuva
sobre o passar das árvores e dos animais e dos homens.
O poeta está livre por dentro dos relógios
e o seu coração ali bate e bate e bate
lado a lado com todas as engrenagens do mundo.
O mistério, no entanto, é o jardineiro do seu sangue
exilado entre palavras que nunca foram proferidas.
Porque a poesia nunca está na soma
o poema tem um tempo próprio e voa
nas raízes do canto em que se asila
o silêncio ou a mais funda esperança
do primeiro homem que sonhou
pendurar uma estrela-d'alva nos roteiros
da infinita sombra em que as horas decidem
nascimento e morte no tempo do homem.
Porque a poesia nunca está na soma
o poeta está livre por dentro dos relógios.
Assim como o morto em suas memórias.
Publicado no livro Em Nome da Vida (1981).
In: FÉLIX, Moacyr. Antologia poética. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1993. p.5
1 264
Fernando Pessoa
Já oiço o impetuoso
Já oiço o impetuoso
Circular ruído de arrastadas folhas,
E num vago abrir d'olhos na luz sinto
As amarelidões e palidezes
Onde o outono sopra nuamente.
Deixá-lo que assim seja — que me importa?
Como um fresco lençol eu quereria
Puxar sombra e silêncio sobre mim
E dormir — ah dormir! — num deslizar
Suave e brando para a inconsciência
Num apagar sentido docemente.
Circular ruído de arrastadas folhas,
E num vago abrir d'olhos na luz sinto
As amarelidões e palidezes
Onde o outono sopra nuamente.
Deixá-lo que assim seja — que me importa?
Como um fresco lençol eu quereria
Puxar sombra e silêncio sobre mim
E dormir — ah dormir! — num deslizar
Suave e brando para a inconsciência
Num apagar sentido docemente.
1 232
Charles Bukowski
No 6
vou mesmo com o cavalo no 6
numa tarde chuvosa
um copo de papel com café
na mão
falta ainda um pouco,
o vento fazendo voejar em espiral
pequenas cambaxirras do
telhado da arquibancada superior,
os jóqueis surgindo
para uma meia corrida
em silêncio
e a chuva mansa fazendo
tudo
de uma só vez
parecer quase igual,
os cavalos em paz uns
com os outros
antes da guerra bêbada
e eu estou na parte coberta da arquibancada
ansiando por
cigarros
conformado com o café,
então os cavalos se aproximam
levando seus homenzinhos
dali –
é fúnebre e gracioso
e agradável
como o abrir
das flores.
numa tarde chuvosa
um copo de papel com café
na mão
falta ainda um pouco,
o vento fazendo voejar em espiral
pequenas cambaxirras do
telhado da arquibancada superior,
os jóqueis surgindo
para uma meia corrida
em silêncio
e a chuva mansa fazendo
tudo
de uma só vez
parecer quase igual,
os cavalos em paz uns
com os outros
antes da guerra bêbada
e eu estou na parte coberta da arquibancada
ansiando por
cigarros
conformado com o café,
então os cavalos se aproximam
levando seus homenzinhos
dali –
é fúnebre e gracioso
e agradável
como o abrir
das flores.
1 221
Fernando Pessoa
Meu coração. o almirante errado
Meu coração. o almirante errado
Que comandou a armada por haver
Tentou caminho onde o negou o Fado,
Quis ser feliz quando o não pôde ser.
E assim, [fechado?], absurdo, postergado,
Dado ao que nos resulta de se abster,
Não foi dado, não foi dado, não foi dado
E o verso errado deixa-o entender.
Mas há compensações absolutórias
Na sombra — no silencio da derrota
Que tem mais rosas de alma que as vitórias.
E assim surgiu, Imperial, a frota
Carregada de anseios e de glórias
Com que o almirante prosseguiu na rota.
Que comandou a armada por haver
Tentou caminho onde o negou o Fado,
Quis ser feliz quando o não pôde ser.
E assim, [fechado?], absurdo, postergado,
Dado ao que nos resulta de se abster,
Não foi dado, não foi dado, não foi dado
E o verso errado deixa-o entender.
Mas há compensações absolutórias
Na sombra — no silencio da derrota
Que tem mais rosas de alma que as vitórias.
E assim surgiu, Imperial, a frota
Carregada de anseios e de glórias
Com que o almirante prosseguiu na rota.
869
Fernando Pessoa
Monólogo à Noite
Tenha eu a dimensão e a forma informe
Da sombra e no meu próprio ser sem forma
Eu me disperse e suma!
Toma-me, ó noite enorme, e faz-me parte
Do teu frio e da tua solidão,
Consubstancia-me com os teus gestos
Parados, de silêncio e de incerteza,
Casa-me no teu sentido de (...)
E anulamente... Que eu me torne parte
Das raízes nocturnas e dos ramos
Que se agitam ao luar... Seja eu p'ra sempre
Uma paisagem numa encosta em ti...
Numa absoluta e (...) inconsciência
Eu seja o gesto irreal do teu beijo
E a cor do teu luar nos altos montes
Ou, negrume absoluto teu, que eu seja
Apenas quem tu és e nada mais...
Suspende-me no teu aéreo modo,
Comigo envolve as estrelas e espaço!
E que o meu vasto orgulho se contente
De teu ter infinito, e a vida tenha
Piedade por mim próprio no consolo
Da tua calma inúmera e macia...
Da sombra e no meu próprio ser sem forma
Eu me disperse e suma!
Toma-me, ó noite enorme, e faz-me parte
Do teu frio e da tua solidão,
Consubstancia-me com os teus gestos
Parados, de silêncio e de incerteza,
Casa-me no teu sentido de (...)
E anulamente... Que eu me torne parte
Das raízes nocturnas e dos ramos
Que se agitam ao luar... Seja eu p'ra sempre
Uma paisagem numa encosta em ti...
Numa absoluta e (...) inconsciência
Eu seja o gesto irreal do teu beijo
E a cor do teu luar nos altos montes
Ou, negrume absoluto teu, que eu seja
Apenas quem tu és e nada mais...
Suspende-me no teu aéreo modo,
Comigo envolve as estrelas e espaço!
E que o meu vasto orgulho se contente
De teu ter infinito, e a vida tenha
Piedade por mim próprio no consolo
Da tua calma inúmera e macia...
1 445
Antonio Porcchia
Prelúdio
Que nos assusta tanto do silêncio?
Por que chamar em nosso auxílio o ruído?
(Sons harmoniosos, rudes ou violentos,
porém ruídos ao fim. Ao fim sons).
Tememos do silêncio a eloqüência?
Encontraremos ao fim nós mesmos,
responder a pergunta que a ciência
não pode responder em seu silêncio?
Quem sou, por que estou neste mundo,
qual é a razão de minha existência?
Vale o chorar silencioso, vale o rir alegre?
Valem, enfim, a luta e a violência?
Deixemos que o silêncio nos inunde
para que Deus responda no silêncio,
no vértice mesmo em si fundem
o empenho divino e nosso empenho.
Assim conhecerá a alma sua resposta
e a dirá a mente, sem palavras,
celebrando do culto a grande festa
que com a chave do silêncio se abra.
Por que chamar em nosso auxílio o ruído?
(Sons harmoniosos, rudes ou violentos,
porém ruídos ao fim. Ao fim sons).
Tememos do silêncio a eloqüência?
Encontraremos ao fim nós mesmos,
responder a pergunta que a ciência
não pode responder em seu silêncio?
Quem sou, por que estou neste mundo,
qual é a razão de minha existência?
Vale o chorar silencioso, vale o rir alegre?
Valem, enfim, a luta e a violência?
Deixemos que o silêncio nos inunde
para que Deus responda no silêncio,
no vértice mesmo em si fundem
o empenho divino e nosso empenho.
Assim conhecerá a alma sua resposta
e a dirá a mente, sem palavras,
celebrando do culto a grande festa
que com a chave do silêncio se abra.
748
Isaac Felipe Azofeifa
Poema IV
Tu me deixas aqui ou partes comigo?
Estou dentro de ti ou é que me chamas?
Vives única em mim ou encontro o mundo em ti,
contigo?
A ordem das coisas em que te amo,
onde começa ou acaba?
Agora está o silêncio aposentado
na rosa do ar
e uma árvore perto trina entre os pássaros
para sombrear teu sonho ou é meu sonho?
É esta uma prisão ou acaso o vasto céu
começa aqui onde teus pés
tocam juntos a terra, ou é a lua?
De pronto entro na luz que já habito
e meus olhos se encontram com tua testa.
Busco sair de ti e te levo dentro
de mim, sem encontrar-te.
Sem como, onde ou quando.
Cego na luz com meu olhar aberto
a tanta multidão de ti que ando
extraviado na noite na metade do dia.
Estou dentro de ti ou é que me chamas?
Vives única em mim ou encontro o mundo em ti,
contigo?
A ordem das coisas em que te amo,
onde começa ou acaba?
Agora está o silêncio aposentado
na rosa do ar
e uma árvore perto trina entre os pássaros
para sombrear teu sonho ou é meu sonho?
É esta uma prisão ou acaso o vasto céu
começa aqui onde teus pés
tocam juntos a terra, ou é a lua?
De pronto entro na luz que já habito
e meus olhos se encontram com tua testa.
Busco sair de ti e te levo dentro
de mim, sem encontrar-te.
Sem como, onde ou quando.
Cego na luz com meu olhar aberto
a tanta multidão de ti que ando
extraviado na noite na metade do dia.
992
Marina Colasanti
PALAZZO D'ACCURSIO
De que cor era a porta
do ateliê de Morandi?
Azul, diz a memória.
Mas a memória pode estar errada.
Azul, verde, cinzenta
qualquer me serve
desde que na parede o fio da luz
suba como nanquim até a tomada
e o papel pardo que recobre a mesa
tenha marcado em circulos e traços
o lugar certo
o único lugar de cada objeto.
Dormem sono de seda
nas vitrinas
as rosas falsas,
as garrafas esperam verticais
os goivos jazem.
A um canto
a estufa conta de um calor passado.
O ateliê, como os quadros,
foi transformado em peça de museu.
Gravada nos sulcos
das chapas de zinco
percorre o silêncio das salas
a voz da água forte.
Bolonha 1994
do ateliê de Morandi?
Azul, diz a memória.
Mas a memória pode estar errada.
Azul, verde, cinzenta
qualquer me serve
desde que na parede o fio da luz
suba como nanquim até a tomada
e o papel pardo que recobre a mesa
tenha marcado em circulos e traços
o lugar certo
o único lugar de cada objeto.
Dormem sono de seda
nas vitrinas
as rosas falsas,
as garrafas esperam verticais
os goivos jazem.
A um canto
a estufa conta de um calor passado.
O ateliê, como os quadros,
foi transformado em peça de museu.
Gravada nos sulcos
das chapas de zinco
percorre o silêncio das salas
a voz da água forte.
Bolonha 1994
726