Poemas neste tema

Serenidade e Paz Interior

António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Imergir No Não Saber,…

Imergir no não saber, no sono de água contornando o bordo de uma pedra leve, lisa, prosseguir na facilidade de quem nada no sono, nada, até tocar a pedra, quase, ilegível, e pronunciá-la obscura, na densidade, nova.
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Adélia Prado

Adélia Prado

Pensamentos À Janela

O que durante o dia foi pressa e murmuração
a boca da noite comeu.
Estrelas na escuridão são ícones potentes.
Como oráculos bíblicos,
os paradoxos da física me confortam.
Sou um corpo e respiro.
Suspeito poder viver
com meio prato e água.
771
Adélia Prado

Adélia Prado

Sinal No Céu

É um tom de laranja
sobre os montes
um pensamento inarticulado
de que a Virgem
pôs o mundo no colo
e passeia com ele nos rosais.
1 541
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Minha Própria Triste História

este é um modo terrível de viver:
cercado pelos
sempre-
irados,
desalmados e
alucinados.
mas minhas experiências de juventude foram
muito parecidas.
eu deveria ter-me ajustado a isso
nessa altura.
desde meu raivoso e furioso
e mesquinho pai
até
o montão de mulheres
que veio depois
todas elas consumidas pela
depressão,
raiva inútil,
gritaria e
piedade de si
sem
sentido.
felicidade e simples alegria
pareciam a todas elas serem
apenas doenças a
erradicar.
minha própria
história:
este modo terrível de
viver.
mas sinto que agora agarrei
a vitória
sobre toda essa inútil
negra e furiosa
histeria.
sobrevivi a tudo
isso e
podem me dar porradas com suas
vidas raivosas e
me queimar em meu
leito de morte.
mas de algum modo
encontrei uma paz
perpétua
que nunca conseguirão
tirar
de mim.
682
Affonso Romano de Sant'Anna

Affonso Romano de Sant'Anna

Música Nas Cinzas

Toda vez que soa esse adágio do concerto para oboé de Mozart
paro tudo
ponho os pés sobre a mesa, como agora,
olho a lagoa em frente, cruzo os braços
e começo a levitar.
Se eu morresse ouvindo essa música
chegaria do outro lado, tão asinho
que os anjos me tomariam por um dos seus.
Tantas vezes fiz soar no entardecer esses acordes
à beira-mar ou na montanha em minha casa de campo
que as azaleias, a grama, as cerejeiras e ciprestes
ressoam por si mesmos a melodia
quando desperto.
Um dia estarei morto
e peço que joguem minhas cinzas entre as flores.
Os que passarem nesta paisagem
além de aromas,
ouvirão acordes da eternidade.
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Francisco Nóbrega

Francisco Nóbrega

Solidão Amena

Malfazeja flor entre os homens
e os campinas humanas desgarradas,
rosa garrida com pétalas desfolhadas,
sombra perdida em horizontes sem fim,
tristeza alada...

Carregada com cores da sarjeta,
resplandeces, contudo, os tons da madrugada,
refúgio pobre de poeta angustiado,
prenhe de inspiração e ansiedade,
dor amada...

Amiga és dos puros, dos padres e dos poetas,
dos que labutam em claustro próprio,
gerando idéias, amargando sonhos,
e que ao fim deste clausura haja,
alegria ansiada...

Qual recato que conduz a dor d’alma,
escapando das mundanas vãs querelas,
arrematas teu leito de esperanças
ao encontro da luz anunciada,
amiga aureolada...

Mitigas a dor aos seres criadores,
na jornada sombria em que sua vida passa,
abrigo afetuoso de peregrinos escritores,
bálsamo amado com mágoas camufladas,
promessa sonhada...

Hás de levar-me aos cimos montanhosos,
donde se alcança o compreender sublime,
descortinando o mistério em plenitude,
amorizando o sonho de uma vida,
paz alcançada.

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Francisco José Rodrigues

Francisco José Rodrigues

Serena Noite

Noite, serena noite, eu volto ao teu
doce regaço como alguém que, ausente,
chorasse por teu seio e teu conforto
ou suplicasse por teus mornos braços.

Noite, serena noite, eu te amo como
se fosses minha mãe, ou meu refúgio
de todo o mal do mundo, ó noite cara
aos meus sentidos e aos meus passos ágeis.

Ó noite, tu me encobres, protetora,
contra todos os males, contra olhares,
que hostilizam, olhares que torturam

este pobre de mim ao dia exposto.
Noite, serena noite, eu volto ao teu
doce regaço com meus passos ágeis.

1 093
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

73. Perdido o Centro, Perdida a Rosa

73
Perdido o centro, perdida a rosa
quando a vulnerável lâmpada, quando
apagado for o sinal dilacerado

a interrupção dos sinais será a fuga
ou o apaziguamento das imagens vivas
os animais caminhando musicais
as pedras mais vivas do que as mãos

no entanto mais vivas do que as pedras
quando apagada a terra os olhos lentos
verão serenamente o esplendor do muro.
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Flávio Villa-Lobos

Flávio Villa-Lobos

Estio

Mar alto, tanto mar... frágil ilha
ondas seculares
azul, vento azul
calafrio de suspirares
água de côco
aldeia de pescadores
canto dos cantares

Nuvens brancas
aves de arribação
vôos rasantes
espumas
na arrebentação
conchas multicores
grãos de areia
infinitos milhares

Praia dos amores
corpos em contracanto
contraceno de bocas
pele a pele
morena cor de jambo
calores

Ode à lua cheia
velas içadas
maré de roldão
emaranhado na rede
brasa no fogo
- peixe bom
fogueira acesa
amena madrugada
- quase canção
vida em paz
voleio dos ventos
- magna estação.

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Reinaldo Ferreira

Reinaldo Ferreira

Regresso de parte alguma

Regresso de parte alguma
Rico mais do que partira,
Pois trago coisa nenhuma
Sem desespero e sem ira.

Agora vivo contente
No meu exílio sereno;
Tomei tamanho de gente
E não me dói ser pequeno.

Pedra parada na calma
Tranquilidade dos charcos,
Deixem dormir minha alma,
Como apodrecem os barcos

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Marcelo Ribeiro

Marcelo Ribeiro

Armas da Paixão

Removes
a poeira fina de minha alma
E sopras toda melancolia para fora
Tomas o Sol por tua tocha
E a Lua como espada

Te aquartelas em meus sonhos
E fechas as estradas da discórdia
Vestes o manto da paixão
E pelejas contra o mundo;
Em vão...

Rende-se ao que sinto
Amando-te, traspassado pelo fogo da razão
Não minto!
Vejo-te soltar as armas
Despir-se parva
Entregando-se, por fim
Amada

Desnuda-te o espírito
Cumprindo-se ao rito
Acabando por seres minha;
Nua, cândida, alva...

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Reinaldo Ferreira

Reinaldo Ferreira

Porque a não tenho? Tão doce

Porque a não tenho? Tão doce
E tão ao pé de acabar!
Largando, como se fosse
Um barco novo a chegar!

Quisera-a, para brinquedo
Da minha vã meninice.
Nem brincaria, com medo
Que ela, de frágil, partisse.

Bastava só que ficasse
Mito a roçar-se no Fim
E o seu sorriso acalmasse
A angústia dentro de mim.

2 000
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

As Palavras Brancas do Ar

As palavras brancas do ar

aqui

no cimo plano
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António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

A Sombra do Vento

A sombra do vento

a sombra e o vento

para respirar

no vento     na sombra
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António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Casa Entre Árvores

Casa entre árvores

tranquila próxima

na transparência

opaca e azul     opaca

E azul
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António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

O Movimento do Repouso

O movimento do repouso
a trama do sol sem figura
o vento ou o sol
ou talvez
o sopro do sol
um sopro quente perdido
tão rápido no silêncio sob as árvores
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António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Uma Felicidade Nos Dedos

Uma felicidade nos dedos
um fluir cálido o sol
captado no repouso sobre a mesa
e escrito aqui um sol tão rápido

Nada se separa sob os dedos
ignorantes da divisão do vidro
E se o pássaro fica
sem o canto
não o sabem os dedos

Eles deslizam sobre a superfície
na absoluta densidade indesvendável
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António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Não Deusas Habitam Este Átrio

Não deusas habitam este átrio
onde alguém tocaria uma flauta
No meio da rua está uma pedra verde

A tranquilidade é suave mas incita
a uma inquieta procura     Já não vejo
a montanha na altura     escrevo
na rarefacção do texto inexorável

Os nomes? Que dizer se a trave obscura
se não vê ou os passos já se perdem
A terra espera a paciência de algum nome
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António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

O Lugar

a Lídia Jorge
Algo está por dizer Ao longe o diamante
da distância a promessa fulgurante
Aqui onde tudo será como uma festa
ao fundo das áleas de ciprestes e pinheiros
as amorosas arcadas transparentes
a praia que se estende um lábio fulvo
algo adormece no sossego de nenhuma vaga
nenhuma espuma Um navio silencioso
As palavras iniciam a delicada translucidez
*
Branco domínio do ser aéreo movimento
imóvel Um caminho redondo
em torno de uma torre O sabor de viver
em claridade e calma Espiral
a partir do solo até ao sol Transparência
compacta com as grandes pedras claras
os insectos a seiva a hera sobre os troncos
os anéis do dia
*
Eis o esplendor no seu repouso de praia
Todas as tensões e intensidades se tornaram um arco
Aqui a nascente ressoa no lugar central
as formas puras resplandecem com as suas sombras lúcidas
a construção é clara
*
Amplitude imensa da água serena
o júbilo tranquilo na circulação amiga
esplendor vivacidade clamor branco
o lugar da presença e da evidência
das escadas de pedra
das portas esculpidas
o que se respira é o tempo o espaço o oiro leve
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António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Celebração da Terra

Desenhar o sono e o volume da cabeça
que no sóbrio sossego vai caindo
É o momento da terra das cigarras dos montes
a janela está aberta
às presenças intactas
*
É uma presença da água e da luz na água
a superfície isenta límpida de uma página
A palavra é o ar não é ainda a palavra
nada se inventa que não seja um torso aéreo
o dia completa-se com o dia
*
Aqui se recebem as ondas sobre as ondas
o corpo já não espera vive numa planície
Tudo respira e tudo é exacto e puro
Ondulação do simples ondulação do completo
O universo é a terra que respira é o corpo liberto
A luz cria o silêncio e a palavra a indizível unidade
Tudo se compreende no domínio do ar
Não há labirintos mas caminhos e horizontes clareiras
Tudo o que se agita é leve e confirma o silêncio
*
Num tumulto lento quase paralisado
o âmbito dilata-se sobre a sombra
a terra compreende-se nas vertentes duplas
da água nasce a árvore silenciosa
e o ar reconstitui a terra submersa
O fulgor alimenta uma palavra límpida
*
Além do ar o ar azul
além da terra a terra verde e azul
além da água a água verde azul ou cinza
três reinos num só reino um só domínio aéreo
*
Uma névoa se desfaz o céu presença plácida
e completa
nenhuma interrogação trai a claridade viva
nenhum pesar nenhum ardor nenhuma fúria
tudo se consome e reaviva em tranquilas presenças
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António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Na Extrema Claridade

Leve prodígio vegetações
dispersas
de qualidade incerta
mas feliz
*
Ela aparece quando aparece
ela flui desliza eleva-se
e o tremor é exacto no seu ápice
Uma asa dispersa os nomes
a área simplifica-se até ao branco
O seu desaparecimento é vertical
*
Uma vibração suave (talvez ela)
da luz na exactidão completa
Quem a conhece
conhece a simplicidade extrema
a nudez da primeira claridade
*
Estremece estremece quando
a vibração do mundo
se reflecte noutra luz incerta
que a reclama no seu corpo incerto
*
Se é aqui o corpo a exaltação da terra
a cintilação de um corpo submerso
aceitação da água
na transparência tranquila
de outras palavras aqui que se inclinam
*
O temor dos seus olhos o tremor
do seu corpo as linhas
paralelas sombrias
onde se oculta o seio e a água viva
*
Reparte-se divide-se mas inteira
estende-se entre as colunas
prossegue uma viagem imóvel numa nuvem
*
Se a figura atravessa os declives
desce os degraus até à luz mais rasa
se ler agora é o vestido e a sombra
a transparência do animal na sombra
*
Ela é pedra em cada palavra e o fulgor
silencioso
de um torso que avança em transparência aérea
1 123
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Num Repouso de Fundura Agreste

Num repouso de fundura agreste
na ressonância suave da folhagem
encontrar as mais simples palavras
entreabrir as portas mais serenas.
1 138
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Na Nudez do Labirinto

Na nudez do labirinto
ouvimos
o simples estar aqui.
1 140
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Entre Mar E Sombra a Delícia

Entre mar e sombra a delícia
de um vento que abre um espaço original.
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