Poemas neste tema

Separação e fim de relação

Paio Gomes Charinho

Paio Gomes Charinho

Dizem, Senhor, Ca Dissestes Por Mi

- Dizem, senhor, ca dissestes por mi
que foi já temp'e que foi já sazom
que vos prazia d'oirdes entom
em mi falar e que nom é já 'ssi.
- Dizem verdad', amigo, porque nom
entendia o que pois entendi.

- E, senhor, dizem, pero vos tal bem
quero que moiro, que rem nom me val,
ca vós dizedes dest'amor atal:
que nunca vos ende senom mal vem.
- Dizem verdad', amigo, e pois é mal,
nom i faledes, ca prol nom vos tem.

- Pero cuid'eu, fremosa mia senhor,
des que vos vi, que sempre me guardei
de vos fazer pesar. Mais que farei,
ca por vós moir'e nom hei d'al sabor?
- Nom vos há prol, amigo, ca já sei
o por que era todo o voss'amor.
686
Paio Soares de Taveirós

Paio Soares de Taveirós

Quando Se Foi Meu Amigo

Quando se foi meu amigo,
jurou que cedo verria,
mais, pois nom vem falar migo,
por en, por Santa Maria,
       nunca mi por el roguedes,
       ai donas, fé que devedes.

Quando se foi, fez-mi preito
que se verria mui cedo,
e mentiu-mi, tort'há feito,
e pois de mi nom há medo,
       nunca mi por el roguedes,
       ai donas, fé que devedes.

O que vistes que dizia
que andava namorado,
pois que nom veo o dia
que lh'eu havia mandado,
       nunca mi por el roguedes,
       ai donas, fé que devedes.
701
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

O malmequer que arrancaste

O malmequer que arrancaste
Deu-te nada no seu fim,
Mas o amor que me arrancaste,
Se deu nada, foi a mim.
1 446
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Uma Mudança de Hábito

Shirley chegou à cidade com uma perna quebrada
e conheceu o chicano que fumava
longos charutos slim
e eles foram morar juntos
na Beacon Street
5º andar;
a perna não atrapalhava
muito e
eles assistiam televisão juntos
e Shirley cozinhava, de
muletas e tudo;
havia um gato, Bogey,
e eles tinham alguns amigos
e falavam sobre esportes e Richard Nixon
e de como era difícil tocar
as coisas.
funcionou por alguns meses,
Shirley se livrou até do gesso,
e o chicano, Manuel,
conseguiu um emprego no Biltmore,
Shirley costurava todos os botões caídos
das camisas de Manuel, remendava e emparelhava as meias
dele, então
um dia Manuel retornou para casa, e
ela havia sumido –
sem discussão, sem bilhete, apenas
sumira, levando todas as roupas
e pertences, e
Manuel sentou-se junto à janela e olhou para a rua
e não foi ao trabalho
na manhã seguinte nem
na outra e nem
na outra,
sequer ligou para avisar,
perdeu o emprego,
recebeu uma multa por estacionamento proibido, fumou
quatrocentos e sessenta cigarros, foi
preso por embriaguez, saiu por
fiança, foi
a julgamento e se confessou
culpado.

quando o aluguel venceu ele
se mudou da Beacon Street,
deixou o gato e foi viver com
seu irmão e
os dois enchiam a cara
todas as noites
e falavam sobre o quão
terrível
era a vida.

Manuel jamais voltou a fumar
aqueles longos charutos slim
porque Shirley sempre dizia
como
ele ficava bonito
com eles na boca.
824
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Deste-me um adeus antigo

Deste-me um adeus antigo
À maneira de eu não ser
Mais que o amigo do amigo
Que havias de poder ter.
896
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Teus olhos querem dizer

Teus olhos querem dizer
Aquilo que se não diz...
Tenho muito que fazer...
Que sejas muito feliz!
849
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Cerveja

não sei quantas garrafas de cerveja
consumi esperando que as coisas
melhorassem.
não sei quanto vinho e uísque
e cerveja
principalmente cerveja
consumi depois
de rompimentos com mulheres –
esperando o telefone tocar
esperando o som dos passos,
e o telefone nunca toca
antes que seja tarde demais
e os passos nunca chegam
antes que seja tarde demais.
quando meu estômago já está saindo
pela boca
elas chegam frescas como flores de primavera:
“mas que diabos você está fazendo?
vai levar três dias antes que você possa me comer!”

a mulher é durável
vive sete anos e meio a mais
que o homem, bebe muito pouca cerveja
porque sabe como ela é ruim para a
aparência.

enquanto enlouquecemos
elas saem
dançam e riem
com caubóis cheios de tesão.

bem, há a cerveja
sacos e mais sacos de garrafas vazias de cerveja
e quando você pega uma
as garrafas caem através do fundo úmido
do saco de papel
rolando
tilintando
cuspindo cinza molhada
e cerveja choca,
ou então os sacos caem às 4 horas
da manhã
produzindo o único som em sua vida.

cerveja
rios e mares de cerveja
cerveja cerveja cerveja
o rádio toca canções de amor
enquanto o telefone permanece mudo
e as paredes seguem
paradas e estáticas
e a cerveja é tudo o que há.
1 706
Charles Bukowski

Charles Bukowski

A Tragédia Das Folhas

despertei para a aridez e as samambaias estavam mortas,
as plantas nos vasos, amarelas como milho;
minha mulher partira
e as garrafas vazias como cadáveres exangues
cercavam-me com sua inutilidade;
o sol seguia bem, no entanto,
e o bilhete da minha senhoria se quebrava num belo e
resignado tom de amarelo; o que se precisava agora
era de um bom comediante, ao velho estilo, um bobo da corte
com piadas sobre a dor absurda; a dor é absurda
porque ela existe, quando nada mais;
cuidadosamente faço a barba com uma velha navalha
o homem que uma vez tinha sido jovem e
dizia ter gênio; mas
essa é a tragédia das folhas,
as samambaias mortas, as plantas mortas;
e eu caminho por um corredor negro
onde a senhoria se mantém
execrável e decisiva,
mandando-me para o inferno,
balançando seus braços gordos e sudorentos
e gritando
gritando pelo aluguel
porque o mundo falhou conosco
duplamente.
1 174
Marília Garcia

Marília Garcia

estereofonia

ESTEREOFONIA

nunca falei tão sério, disse e olhei
para cima: seu rosto no meio das gotas,
o guarda-chuva preto como uma moldura redonda
e você parado, cantando, virado para o vidro
do carro, sem ouvir mais nada
só a voz
 a voz cantando no meio da chuva
e o eco no vidro do carro.

essa poderia ser a descrição
completa, mas o caminho mais rápido,
de um ponto a outro, ele respondeu,
eu podia ter ido embora na hora
os cílios partidos e aquela voz
cantando - mas o caminho mais rápido,
ele diz, e eu olho pra cima de novo
e lembro da cor malva
e dele dizendo que é quase
malva, tem um pingo que torna tudo
malva, mas a única cor que lembro
era o nublado daquele dia
a única cor era o
chumbo daquela vez:
eu olhei pra cima e você ia embora
pelas escadas. no último degrau
não se vira mais.

- esse poema contém 12 passos, ele diz,
e eu saio contando a distância
enquanto caminho dizendo o poema de cor,
mas daquele dia só me lembro
da cor de chumbo e a voz
em eco no vidro do carro.

olho para cima outra vez
e vejo sempre o mesmo
guarda-chuva preto, moldura para
descongelar cada um dos degraus,
para descongelar a ordem
do verso seguinte:
panorâmica, golpe e caixa-preta.

você vai sempre pelo som?
- que som?
613
Felipe Vianna

Felipe Vianna

RIO CORRENTE

Marília, Marília,
Meu primeiro amor,
Wagner assim me questionou:
- Por que deixaste o teu amor?
Se eu fosse tu,
Casava com ela.
Respondi-lhe sem pestanejo:
- Se eu fosse eu,
Também casaria com ela, mas,
Ela não é mais ela.

25/05/2001

649
Felipe Larson

Felipe Larson

BELA ELÉTRICA APRENDIZ

O teu sorriso
O teu destino
Me diz com não te amar?

O teu segredo?
Teve algum beijo?
Me diz como não te desejar?

Te dei a rosa
Te dei a vida
Você não soube aproveitar
Agora chora
Não vejo a hora
De isso tudo terminar

Agora liga
Nem desperdiça
Solta a verdade no ar

Mas não tem volta
Vê se você se toca
Pra depois não se machucar

993
Manuel Machado

Manuel Machado

A chuva

Eu tive uma vez amores.
Hoje é dia de lembranças.
Eu tive uma vez amores.

Houve sol e houve alegria.
Um dia, já bem passado...,
houve sol e houve alegria.

De tudo, que me há ficado?
Da mulher que me amava,
de tudo, que me há ficado?

...O aroma de seu nome,
a lembrança de seus olhos
e o aroma de seu nome.

1 125
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Entreguei-te o coração,

Entreguei-te o coração,
E que tratos tu lhe deste!
É talvez por estar estragado
Que ainda não mo devolveste...
1 633
Otto Rene Catillo

Otto Rene Catillo

Os amantes

Se haviam
encontrado faz pouco
e logo
se haviam separado,
levando
cada um consigo
seu nunca ou seu jamais
sua afirmação de esquecimento
sua golpeadora dor.

Porém o último beijo
que voara de suas bocas,
era um planeta azul.
Girando
entorno a sua ausência
e eles
viviam de sua luz
igual que de sua recordação.

721
Ibn Zaidûn

Ibn Zaidûn

Me censurais que ele me substitua

Me censurais que ele me substitua
nos afetos daquela a quem amo;
mas não há nisso desonra alguma:
ela era um manjar delicioso
e sua melhor parte a mim coube,
o resto deixei para este rato.
(Ibn Zaidún - ao saber que a princessa Wallâda tinha um novo amante. Versão livre de Ricardo Domeneck a partir de uma tradução castelhana de Manuel Francisco Reina, Antología de la poesía andalusí).
675
Juana de Ibarbourou

Juana de Ibarbourou

Implacável

E te dei o cheiro
De todas minhas dálias e narcos em flor.
E te dei o tesouro
Das fundas minas de meus sonhos de ouro.
E te dei mel,
Do favo moreno que finge minha pele.
E tudo te dei!
E como uma fonte generosa e viva para tua alma fui.
E tu, deus de pedra
Entre cujas mãos nem a hera cresce;
E tu deus de ferro
Ante cujas plantas velei como um cachorro,
Desdenhaste o ouro, o mel e o cheiro.
E agora retornas, mendigo de amor!
A buscar as dálias, a implorar o ouro,
A pedir de novo todo aquele tesouro!
Ouve, mendigo:
Agora que tu queres é que eu não quero,
Se o roseiral floresce,
É já para outro que em casulo cresce.
Vá embora, deus de pedra,
Sem fontes, sem dálias, sem mel, sem hera
Igual que uma estátua,
A quem Deus baixara do pedestal, por vaidade.
Vá embora, deus de ferro!
Que junto a outras plantas se há estendido o cachorro!

1 302
Matheus Tonello

Matheus Tonello

Eclipse Solar

Foi num dia límpido de verão
Que tudo chegou ao seu fim
Tendo o Sol como testemunha
Você disse: -Eu não te quero pra mim!

Neste dia, as pombas não voaram para o sul
O vento parou de soprar ao norte
O dia perdeu todo seu encanto
Para mim, só restou a morte.

O Sol neste dia se escondeu por completo
E logo cessou de brilhar
Se escondeu por trás da formosa Lua
E em prantos, pôs-se inteiramente a chorar!

1 304
Torquato Neto

Torquato Neto

Pra Dizer Adeus

adeus
vou pra não voltar
e onde quer que eu vá
sei que vou sozinho
tão sozinho amor
nem é bom pensar
que eu não volto mais
desse meu caminho

ah,
pena eu não saber
como te contar
que o amor foi tanto
e no entanto eu queria dizer
vem
eu só sei dizer
vem
nem que seja só
pra dizer adeus.


In: TORQUATO NETO. Os últimos dias de paupéria: do lado de dentro. Org. Ana Maria S. de Araújo Duarte e Waly Salomão. 2.ed. rev. e aum. São Paulo: M. Limonad, 1982

NOTA: Música de Edu Lob
3 280
Raimundo Correia

Raimundo Correia

Conchita

Adeus aos filtros da mulher bonita;
A esse rosto espanhol, pulcro e moreno;
Ao pé que no bolero... ao pé pequeno;
Pé que, alígero e célere, saltita...

Lira do amor, que o amor não mais excita,
A um silêncio de morte eu te condeno;
Despede-te; e um adeus, no último treno,
Soluça às graças da gentil Conchita:

A esses, que em ondas se levantam, seios
Do mais cheiroso jambo; a esses quebrados
Olhos meridionais de ardência cheios;

A esses lábios, enfim, de nácar vivo,
Virgens dos lábios de outrem, mas corados
Pelos beijos de um sol quente e lascivo.


In: CORREIA, Raimundo. Poesias completas. Org. pref. e notas Múcio Leão. São Paulo: Ed. Nacional, 1948. v.1, p.8
1 645
Simone Brantes

Simone Brantes

Queen Primer

Você me dava aulas de inglês na biblioteca da Maison
as aulas de inglês tinham passado a ser
a única chance de ver você
foi você mesma que decidiu e se propôs a ser
a minha professora de inglês
eu fazia todas as lições
eu era muito dedicada
à língua inglesa
vocabulário entonação sintaxe
eu fazia de tudo para que em algum lugar
a perfeição de alguma prática revogasse
a imperfeição do amor
que tinha acabado
e doía pra valer
eu buscava ali alguma santidade
alguma paixão de mártir
e então do nada
você me escreveu uma carta
na qual cancelava todas as aulas
entre nós você disse
não pode haver nada nem amor
nem aulas de inglês

§

É hora de dormir
a testa pesa os olhos
ardem
O dia foi movimento
entre bairros
no seu carro
que se deteriorou tanto
desde
a última vez
que andei nele
como o seu coração
desde a última vez
Acho que em ambos
as peças estão bambas
E me inquieto
alguma vai
se soltar
e cair
irrecuperável
entre os galhos que depois da
ventania
vamos vendo tombados
pela estrada
908
Valdir L. Queiroz

Valdir L. Queiroz

Dissertação II

Perdi-a no sábado inebriante,

com álcool amenizado...

820
Marília Garcia

Marília Garcia

É UMA LOVE STORY E É SOBRE UM ACIDENTE

primeiro, a cena congelada.
um dedo pousa no vidro,
a tela vibra.
você lembra o que
disse na hora? você gritou? doeu?
você lembra do que aconteceu?
— a curva, a chuva, um clarão.

você lembra o que disse na hora
em que o carro deslizou?
três horas na chuva esperando,
a curva, o estrondo — você lembra?
você entre as ferragens
perguntando o que houve.

(mas isso é um acidente
e é sobre uma love story)

o amor, diz, é um efeito especial,
pensa que viu tudo
mas quando acende a luz
os pontos
cegos se espalham:
uma fossa abissal, uma nuvem
de distância e uma cidade chamada vidro ou
vértice
volpi ou verdi.

o amor é alguém entrando
na geometria da sua mão.
neste momento atravessa o corredor:
— não há mais isso entre nós,
de onde o timbre da sua voz
um efeito-estertor.
o amor é isso, diz, não um corvo,
mas um impermeável vermelho pendurado
na janela vindo de outro poema
para tocar na sua tela.
é você comendo o que sobrou
depois do estrondo.

“é difícil olhar as coisas
diretamente”,
elas são muito luminosas
ou muito escuras

2/3 deste país são feitos de água
e sempre que se vira, um
afogamento.
apenas um mergulho
dizia a imagem. vamos ver o deserto,
andar pelo centro do mundo?

mas isso é um dicionário
e é sobre uma love story.
687
Mário Donizete Massari

Mário Donizete Massari

Nada a dizer

O que dizer das mãos,
se os dedos inágeis
já não tecem paixões

O que dizer dos
braços
se foi num abraço
que te perdi

Restará talvez
o que dizer de nós
do que tentamos ser

Vã tentativa,
diluída
na expectativa
de se conhecer

579
Manuel António Pina

Manuel António Pina

Partida

De súbito extinguiu-se qualquer coisa,
soltou-se qualquer peça de uma máquina incompreensível
de que dependia, afinal, a minha vida;
tornou-se tudo demasiadamente literal,
até eu estar ali, sem compreender;
e até eu não compreender parecia
algo inteiramente incompreensível;
o mundo, que via pela primeira vez,
via-o através de uns olhos que não me pertenciam,
que não pertenciam, porque eu próprio era
um acontecimento incompreensível acontecendo,
algo que me acontecia não sabia a quem;
o comboio afastava-se levando-te
para fora de mim como alguém sonhando,
e eu e tudo o que de mim sabia desaparecera
e ficara um sítio vazio
onde as últimas horas da tarde
como aves extenuadas pousavam.


Manuel António Pina | "Todas as palavras" | Poesia reunida, Ed. Assírio & Alvim, 2012
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