Poemas neste tema

Saudade e Ausência

Renata Trocoli

Renata Trocoli

Sem Titulo I

Vejo tua imagem no espelho.
Cada vez que imagino teu rosto
lembro de um sorriso doce e sincero.
Teus olhos tem um brilho único e especial
E sempre tiveram tranqüilidade e carinho.

Sem teus olhos não consigo imaginar vida nem beleza.
Sem tua boca e teu sorriso,
cada dia que passa fica mais vazio e triste.
Sem teu amor o dia escurece
A Noite entristece.

Os dias sem teus carinhos, sem tua voz,
parecem eternos martírios de lembranças.
Lembranças essas que por vezes me fazem sorrir,
e sempre me fazer chorar de saudades de você.

Esperanças de tocar teu rosto não tenho mais
Elas se acabaram
Na ultima vez que olhei
para teus olhos lindos.

Quem sabe a vida não me ensina
a te esquecer e não mais te esperar...
Quem sabe a noite não me mostra que a Lua
ainda continua linda sem você...
Quem sabe o dia não me diz que o céu e perfeito
e infinito mesmo sem ter você ao meu lado...

Te amo com todo meu coração...

1 069
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Imaginação E Realidade

há muitas mulheres solteiras no mundo
com um ou dois ou três filhos
e alguém se pergunta aonde foram os maridos
ou aonde foram
os amantes
deixando para trás
todas essas mãos e esses olhos e esses pés
e essas vozes.
ao passar por suas casas
gosto de abrir armários e
olhar o que há dentro
ou então debaixo da pia
ou no guarda-roupa –
espero encontrar o marido
ou o amante e ele me dirá:
“ei, parceiro, você não percebeu as
estrias, ela tem estrias
e peitos caídos e come
cebolas o tempo todo e peida... mas
sou um cara habilidoso. posso consertar coisas,
sei como usar um torno mecânico e
troco sozinho o óleo do carro. sei jogar
sinuca, boliche, posso chegar em 5º ou
6º em qualquer maratona por
aí. tenho um jogo de tacos de
golfe, lanço a bola a longas distâncias. sei
onde fica o clitóris e o que fazer com
ele. tenho um chapéu de caubói com as abas
dobradas para cima.
sou bom com o laço e com os punhos
conheço os últimos passos de dança.”

e eu direi, “veja só, estou de saída”.
e sumirei antes que ele acabe me desafiando
para uma queda de braços
ou me conte uma piada bagaceira
ou me mostre a tatuagem no seu
bíceps direito em movimento.

mas de fato
tudo o que encontro no armário são
xícaras de café e pratos marrons, grandes e rachados
e debaixo da pia uma pilha de trapos
endurecidos, e no guarda-roupa – mais cabides
do que roupas, e é só quando ela me mostra
o álbum e as fotos dele –
tão bom quanto uma calçadeira, ou um carrinho de
supermercado cujas rodas não estão emperradas –
que a dúvida íntima se desfaz, e as
páginas avançam e ali está uma criança com
um traje de banho vermelho e lá está
a outra
perseguindo uma gaivota em Santa Mônica.
e a vida se torna triste e nada perigosa
e, dessa maneira, boa o suficiente:
tê-la para lhe trazer uma xícara de café em
uma daquelas xícaras sem que ele
apareça.
1 217
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Isso Então...

é o mesmo que antes
ou que da outra vez
ou da vez anterior a essa.
eis um pau
e eis uma boceta
e eis um problema.

a cada vez
você pensa
bem eu aprendi desta vez:
vou dizer a ela que faça isso
e eu farei isto,
já não quero a coisa toda,
só um pouco de conforto
e um pouco de sexo
e apenas um mínimo de
amor.

agora novamente espero
e os anos vão escasseando.
tenho meu rádio
e as paredes da cozinha
são amarelas.
sigo esvaziando as garrafas
à espera
dos passos.

espero que a morte reserve
menos do que isto.
1 503
Renata Trocoli

Renata Trocoli

Sem Titulo

A saudade de teus meigos olhos a olhar-me com tanto amor

doe em meu peito com aguda tristeza, meu grande amor.

Tuas macias, delicadas e pequeninas m2os tocavam meu rosto

com tanto carinho e amor que n2o podia deixar-te

um minuto sem meus abraTos e doces palavras de amor.

Quando sent5vamos debaixo das estrelas nas noites mornas

da bela primavera da P0rsia, me abraTavas com tanto medo

e chorava baixinho escondendo teu lindo rostinho delicado em meu

peito, e me fazia jura-te amor eterno.

Este amor que jurei e sinto sempre por ti minha linda princesa.

Sinto saudades de tuas palavras e teu carinho ao ver-me zangado e

preocupado, e como me acalmava com teu belo olhar sobre o meu,

sorrindo com doTura e colocando minha cabeTa em teus delicados

ombros para fazer com que a calma tomasse conta de meu coraT2o.

Por tantos dias fiquei a admirar tua beleza

enquanto dormias um sono tranq ilo e

quantas vezes tocava teus lindos cabelos negros, macios e perfumados

sem ter vontade de fechar os olhos para n2o perder t2o bela vis2o.

Quantas vezes ainda dormi cansado em teus pequeninos braTos

sentindo cada vez mais um amor puro e leal por ti.

Me abraTavas com doce saudade e com l5grimas nos olhos

depois de dias de batalha sem ver-me.

E cuidava de mim com tanto carinho e me amava com tanta saudade

que meus dias pareciam um doce sonho que n2o poderia nunca ter fim.

O mais triste meu amor foi perder-te.

Foi perceber que teu amor n2o mais me envolveria o corpo,

que n2o mais teria tua presenTa a cuidar de mim

nas noites de cansaTo ap s uma batalha.

Com uma linda e dolorosa promessa nos despedimos.

Tu me abraTaste chorosa e amedrontada,

e prometemos um amor eterno

por todos os lugares onde pass5ssemos. Aonde estiv0ssemos.

Hoje a saudade de teus doces olhinhos

a olhar-me com amor cegam meus dias.

Mas pelo menos ainda posso sentir teus perfume

e teus abraTos a me envolver...

1 080
Renata Trocoli

Renata Trocoli

Sem Titulo V

De noite, olhando para o céu tão limpo
e coberto de estrelas brilhantes,
com uma brisa soprando meus cabelos,
pude perceber que falta você esta fazendo.
Senti a brisa como se fosse suas mãos a me acariciar,
sempre me olhando com jeitinho apaixonado,
olhos brilhantes
e com seu sorriso discreto
estampado no rosto.

Lembrei de seus abraços.
Lembrei de quando me colocava em seus braços
e me dizia baixinho que me amava.
Lembrei de como você sorria feliz ao me ver,
e como meu coração pulava de felicidade
por ter você a meu lado.
A dor da separação ainda cala meu coração,
e me impede de não derramar mais lágrimas por você.
Eu que tinha tanto medo de magoar seu coração,
acabei magoada e ferida por aquele que tanto amava,
que tanto queria bem.
Senti como se o destino houvesse me traído,
fazendo com que tenha que viver longe de você.
Você não compreendia minha dor
de não estar a teu lado sempre,
e apavorou-se ao sentir seu coração tão envolvido
por um sentimento tão fora de seu controle.
Eu temia o pior, e ele aconteceu.
A separação veio,
a dor tomou lugar da alegria,
e você foi embora.
Me deixando machucada e infeliz,
sem ser ao menos dizer nada...

860
Roberto Pontes

Roberto Pontes

Se a Esmo a Apatia Te Acudir

Se a esmo a apatia te acudir
e a casa ficar triste e desbotada
será preciso lembrar a aflição
de quem te pensa e sempre silencia.

E quando a minha ausência sufocar
teu ser, sem lenitivo,
urge saber que assim eu te maltrato
e sofro longe esta dor comum.

Quando a solidão fingir que te domina
e a vida parecer um desespero
bom é que penses apenas no tesouro
contido ali no coração que ama.

Mas se nada suplantar a minha falta,
estejas certa que não sou teu deus,
certeza tenhas que não sou o sol,
porque navego os mesmos sentimentos.

822
Renata Trocoli

Renata Trocoli

Sem Titulo VIII

Você foi a luz que iluminou meu mundo.
Você foi o doce remédio que curou meu medo do escuro,
da dor, do amor, da noite, da vida.
Você foi o grande amor que nunca tive e sempre sonhei ter.
Meus sentimentos não mudaram por ti meu amor,
mas a vida tirou tuas doces carícias da minha convivência,
tua suave presença do meu caminho.
Por que a vida parece tão sem sentido agora?
Tuas palavras me iluminaram as noites escuras
e me encheram de belos sonhos de amor.
Amor que tive por ti, meu delicado príncipe.

781
Romero Tavares da Silva

Romero Tavares da Silva

Saudade

Saudade em mim não falta
Por ter conhecido singela dama
Moça de estirpe tão alta
Que por ela todo o meu ser clama.

A princípio notei seu perfume
Me aproximei e percebi seu encanto
Me enredei em situação tão grave
Mas depois, sua lembrança foi um acalanto.

Acalanto do qual eu fugia
Como antigamente em alto mar temia
O marinheiro, da sereia, o canto.

Ao voltar como cometa ou estrela Dalva
Ela me ofuscou com sua tez tão alva
Que seu fulgor ainda me causa espanto.

888
Renata Trocoli

Renata Trocoli

Sem Titulo VII

Meu coração se despedaça...
Desta vez a dor é ainda mais aguda,
pois você me deu a esperança de uma nova vida...
Teu amor foi novo e
a coisa mais doce que eu podia sentir.
Seus lábios e suas mãos
me tocavam com carinho e ternura
que só você tinha...
só você tinha o poder de me alegrar e fazer palpitar
meu tão sensível e triste coração...
Com você longe de mim
me sinto mais uma vez perdida e solitária...
totalmente confusa e sem rumo.
Sem motivação para seguir meu caminho sozinha...
Sinto como se tivessem arrancado se aviso
meu bem mais precioso e amado...
Como se me tivessem roubado você de mim meu amor,
como se no caminho não existisse mais luz nem sentido...

797
Pablo Neruda

Pablo Neruda

Volta Espanha

 
 
Espanha, Espanha coração violeta,
me faltaste ao peito, tu me faltas
não como falta o sol na cintura
mas como o sal na garganta,
como o pão nos dentes, como o ódio
na colmeia negra, como o dia
em cima dos sobressaltos da aurora,
mas não é isso ainda, como o tecido
do elemento visceral, profunda
pálpebra que não fita e que não cede,
terreno mineral, rosa de osso
aberta em minha razão como um castelo.
 
A quem posso chamar senão à tua boca?
 
Tenho outros lábios que me representem?
 
Estás abandonada ou estou mudo?
 
Que significa tua calada esfera?
 
Aonde vou sem tua voz, areia mãe?
 
Que sou sem teu fanal crucificado?
 
Onde estou sem a água de tua rocha?
 
Que és tu se não me deste sangue?
Oh tormento! Recobra-me, recebe-me
antes que meu nome e minhas espigas
desapareçam na primavera.
Porque a tuas solidões iradas
vai meu destino acorrentado, ao peso
de tua vitória. A ti vou conduzido.
 
Espanha, és mais grave que uma data,
que uma adivinhação, que uma tormenta,
e não importa a torre desapiedada
de tua perdida voz, mas a dura
resistência, a pedra que sustenta.
 
Mas por que, se sou areia tua,
água em tuas águas, sangue em tuas feridas,
hoje me recusas a boca que me chama,
tua voz, a construção dê minha existência?
 
Peço ao que em teu ser é minha substância,
a teu dilaceramento de facas,
que se abram hoje, sobre a desventura,
as iluminações de teu rosto,
e te levantes, perfurando o céu,
rompendo as trevas e os sinais,
até surgir, farinha e alvorada,
lua acesa sobre os ossários.
 
Matarás. Mata, Espanha, santa virgem,
levanta-te empunhando a ternura
como uma cega rosa desatada
sobre as pedrarias infernais.
 
Vem a mim, devolve-me a torre
que me roubaram,
devolve-me a língua
e o povo que me esperam, espanta-me
com a unidade final de tua formosura.
Levanta-te em teu sangue e em teu fogo
o sangue que deste, o primeiro,
e o fogo, ninho de tua luz sagrada.
 
1 303
Afonso X

Afonso X

Med'hei do Pertigueiro Que Tem Deça

Med'hei do pertigueiro que tem Deça,
semelha Pero Gil na calvareça,
e nom vi mia senhor [há] mui gram peça,
       Mília nem Sancha Fernándiz, que muit'amo.
       - Antolha-xe-me riso, pertigueir', e chamo
       Mília e Sancha Fernándiz, que muit'amo.

Med'hei do pertigueir'e ando soo,
que semelha Pero Gil no feijoo,
e nom vi mia senhor, ond'hei gram doo,
       Mília nem Sancha Fernándiz, que muit'amo.
       - Antolha-xe-me riso, pertigueir', e chamo
       Mília e Sancha Fernándiz, que muit'amo.

Med'hei do pertigueiro tal que mejo,
que semelha Pero Gil no vedejo,
e nom vi mia senhor, ond'hei desejo:
       Mília nem Sancha Fernándiz, que muit'amo.
       - Antolha-xe-me riso, pertigueir', e chamo
       Mília e Sancha Fernándiz, que muit'amo.
656
Afonso X

Afonso X

Ai Eu Coitada, Como Vivo Em Gram Cuidado

Ai eu coitada, como vivo em gram cuidado
por meu amigo que hei alongado;
       muito me tarda
       o meu amigo na Guarda.

Ai eu coitada, como vivo em gram desejo
por meu amigo que tarda e nom vejo;
       muito me tarda
       o meu amigo na Guarda.
1 384
Afonso X

Afonso X

Pois Que M'hei Ora D'alongar

Pois que m'hei ora d'alongar
de mia senhor, que quero bem,
porque me faz perder o sem,
quando m'houver del'a quitar,
direi, quando me lh'espedir:
de mui bom grado queria ir
log'e nunca [m'end'ar] viir.

Pois me tal coita faz sofrer,
qual sempr'eu por ela sofri,
des aquel dia 'm que a vi,
e nom se quer de mim doer
atanto lhi direi por en:
moir'eu e moiro por alguém
e nunca vos mais direi en.

E já eu nunca veerei
prazer com estes olhos meus,
de[s] quando a nom vir, par Deus,
e com coita que haverei,
chorando lhi direi assi:
moir'eu porque nom vej'aqui
a dona que nom vej’aqui.
699
Afonso X

Afonso X

Bem Sabia Eu, Mia Senhor

Bem sabia eu, mia senhor,
que pois m'eu de vós partisse
que nunc' haveria sabor
de rem, pois vos eu nom visse,
porque vós sodes a melhor
dona de que nunca oísse
homem falar;
ca o vosso bom semelhar
sei que par
nunca lh'homem pod'achar.

E pois que o Deus assi quis,
que eu som tam alongado
de vós, mui bem seede fiz
que nunca eu sem cuidado
en viverei, ca já Paris
d'amor nom foi tam coitado
[e] nem Tristam;
nunca sofrerom tal afã,
nen'[o] ham
quantos som, nem seeram.

Que farei eu, pois que nom vir
o mui bom parecer vosso?
Ca o mal que vos foi ferir
aquel é [meu] x'est o vosso;
e por ende per rem partir
de vos muit'amar nom posso;
nen'[o] farei,
ante bem sei ca morrerei,
se nom hei
vós que [já] sempr'am[ar]ei.
859
Roberto Pontes

Roberto Pontes

Poema para Foto Antiga

Vivo sem medida essa ausência
Que mesmo basta o teu retrato.
Mas, se a todo instante mudamos
O teu sorriso fixado no papel
Continua sereno e suplicante
Como antigamente.

Por isso, enquanto se abre a meus olhos
O heliotropo plantado há tempos,
Fujo com eles da fotografia
Porque não sei onde te encontras
E se o mesmo sorriso ainda nos pertence.

Por isso é que não basta o tal retrato
E ponho meus olhos na flor que foi semente.

1 093
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

O Combate da Luz

A Alphonsus de Guimaraens Filho


O combate da luz
contra os monstros da sombra:
assim tua poesia
é alvorada e angústia.

Pousa a morte nos ramos
do tronco apendoado.
Mas da seiva rebentam
novos, florentes cânticos.

Não pode o céu noturno
desfazer os berilos,
os íntimos diamantes
do verso teu ao mundo,

inefável presente
não de matéria vã:
do que melhor define
o fluido sentimento,

o lancinante anseio,
a sublimada essência
do amor, cativo e livre
— teu lírico segredo.

Pois pelo amor resgatas
o pensamento lúgubre,
a dor de antigas fontes,
as perdidas paragens,

e na era absurda crias
a ligação perene
da saudade dos anjos
na chama da poesia.
1 188
Airas Nunes

Airas Nunes

Oí Hoj'eu Ua Pastor Cantar

Oí hoj'eu ũa pastor cantar
u cavalgava per ũa ribeira,
e a pastor estava senlheira
e ascondi-me pola ascuitar;
e dizia mui bem este cantar:
"Sô lo ramo verd'e frolido
vodas fazem a meu amigo,
e choram olhos d'amor".

E a pastor parecia mui bem,
e chorava e estava cantando,
e eu mui passo fui-mi achegando
pola oír e sol nom falei rem;
e dizia este cantar mui bem:
"Ai estorninho do avelanedo,
cantades vós e moir'eu e pen'
e d'amores hei mal".

E eu oí-a sospirar entom,
e queixava-se estando com amores,
e fazi'[ũ]a guirlanda de flores,
des i chorava mui de coraçom
e dizia este cantar entom:
"Que coita hei tam grande de sofrer:
amar amig'e non'ousar veer!
E pousarei sô lo avelanal".

Pois que a guirlanda fez a pastor,
foi-se cantando, indo s'en manselinho,
e tornei-m'eu logo a meu caminho,
ca de a nojar nom houve sabor;
e dizia este cantar bem a pastor:
"Pela ribeira do rio
cantando ia la virgo
d'amor:
«quem amores há
como dormirá,
ai bela frol?»".
814
Bernardo Bonaval

Bernardo Bonaval

A Bonaval Quer'eu, Mia Senhor, Ir

A Bonaval quer'eu, mia senhor, ir
e des quand'eu ora de vós partir
       os meus olhos nom dormirám.

Ir-m'-ei, pero m'é grave de fazer;
e des quand'eu ora de vós tolher
       os meus olhos nom dormirám.

Todavia bem será de provar
de m'ir; mais des quand'eu de vós quitar
       os meus olhos nom dormirám.
753
Castro Alves

Castro Alves

Diálogo dos Ecos

E chegou-se pra a vivenda
Risonho, calmo, feliz...
Escutou... mas só ao longe
Cantavam as juritis...
Murmurou: "Vou surpr’endê-la!"
E a porta ao toque cedeu...
"Talvez agora sonhando
Diz meu nome o lábio seu,
Que a dormir nada prevê..."

E o eco responde: — Vê! ...

"Como a casa está tão triste!
Que aperto no coração! ...
Maria!... Ninguém responde!
Maria, não ouves, não?...
Aqui vejo uma saudade
Nos braços de sua cruz...
Que querem dizer tais prantos,
Que rolam tantos, tantos,
Sobre as faces da saudade
Sobre os braços de Jesus?...
Oh! quem me empresta uma luz?...
Quem me arranca a ansiedade,
Que no meu peito nasceu?
Quem deste negro mistério
Me rasga o sombrio véu?...

E o eco responde: — Eu! ...

E chegou-se para o leito
Da casta flor do sertão...
Apertou coa mão convulsa
O punhal e o coração! ...
Stava inda tépido o ninho
Cheio de aromas suaves...
E — como a pena, que as aves
Deixam no musgo ao voar, —
Um anel de seus cabelos
Jazia cortado a esmo
Como relíquia no altar! ...
Talvez prendendo nos elos
Mil suspiros, mil anelos,
Mil soluços, mil desvelos,
Que ela deu-lhes pra guardar!...
E o pranto em baga a rolar ...

"Onde a pomba foi perder-se?
Que céu minha estrela encerra?
Maria, pobre criança,
Que fazes tu sobre a terra?"

E o eco responde: — Erra!

"Partiste! Nem te lembraste
Deste martírio sem fim!...
Não! perdoa... tu choraste
E os prantos, que derramaste
Foram vertidos por mim...
Houve pois um braço estranho
Robusto, feroz, tamanho,
Que pôde esmagar-te assim?...

E o eco responde: — Sim!

E rugiu: "Vingança! guerra!
Pela flor, que me deixaste,
Pela cruz em que rezaste,
E que teus prantos encerra!
Eu juro guerra de morte
A quem feriu desta sorte
O anjo puro da terra...
Vê como este braço é forte!
Vê como é rijo este ferro !
Meu golpe é certo... não erro.
Onde há sangue, sangue escorre!...
Vilão! Deste ferro e braço,
Nem a terra, nem o espaço,
Nem mesmo Deus te socorre !!..."

E o eco responde: — Corre !
Como o cão ele em tomo o ar aspira,
Depois se orientou.
Fareja as ervas... descobriu a pista
E rápido marchou.

....................................

No entanto sobre as águas, que cintilam,
Como o dorso de enorme crocodilo,
Já manso e manso escoa-se a canoa;
Parecia assim vista — ao sol poente —
Esses ninhos, que o vento lança às águas,
E que na enchente vão boiando à toa! ...

2 255
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Presença de Mira

A Stefan Baciu


O errante colar de lembranças e metáforas
apaga-se no colo de Mira.
Maintenant je ne serais nulle part.
Quem sabe?
Mira, hei de encontrá-la sempre em alguns versos
que falam da criança construindo na areia
palácios e jardins da pátria proibida;
que contam do domingo, cesta de solidão,
e da mulher agitando um xale imaginário,
e do esquecimento, que é um papagaio de papel.

Não preciso escutar
o tambor do corcunda anunciando as notícias
para saber de Mira.
Neste grão de café encontro Mira pensando no Brasil.
1 060
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Odylo, Na Manhã

Manhã de domingo. Odylo nos deixa.
Domingo, a pausa de Deus, logo de manhã,
à hora singela do café.
Domingo, tempo de paz. Odylo é pacífico.
Uma dor antiga, instalada em seu flanco esquerdo
(para não dizer que na alma se instalou),
acompanha com fidelidade os seus passos
e não o torna amargo ou revoltado.
De fala mansa, Odylo,
e doce coração, convive com ela
como o irmão conversa com o irmão,
e o amigo no amigo se contempla: sem palavras.
Eis que recebe o súbito chamado.
Odylo, poeta e repórter, acontece-lhe isto:
Deus é que vai entrevistá-lo
e mostrar-lhe face a face
a poesia sem versos do Inefável.
Odylo parte na manhã de domingo,
transportado — não vi, que meus olhos precários
se ofuscam à visão dessas coisas altíssimas —,
transportado por teorias de anjos exatamente da cor e do talhe
dos pintados por Nazareth, pintora de anjos, crianças e sonhos.
A dor antiga o abandona para ceder espaço
à Esperança recompensada.
Odylo sobe e logo à porta de Deus vai encontrar
seus filhos que chegaram tão cedo. E amigos e companheiros
(seu padrinho Manuel, entre muitos).
Não vi, que essas altíssimas coisas fogem à minha tosca percepção,
mas facilmente um cristão imagina
o sorriso de Odylo, respondendo
domingo de manhã
ao sorriso de Deus.21/08/1979
1 099
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Reunião Em Dezembro

Dezembro, e dói (ou não?) um pouco
esse abrir os braços para abraçar
o corpo, ou o sem-corpo, de uma espera
nervosa.

Dezembro, e não te lembra
os que não estão mais para jogar
o jogo repetido da esperança?

Oh, não te faças de amargo.
Joga também, mas chama
ao balcão da memória
e junto do teu corpo
aqueles companheiros dispersados
em não sei que país não mapeado,
pois sem nome e latitude,
onde o tempo sem número é repleto
(ou deserto) de todo pensamento.
E reserva
poltronas especiais para os que ainda há pouco
se foram. Não estão acostumados
ainda ao novo lar, ou somos nós
que de perdê-los não nos demos conta?
Repara: a teu aceno
as perdas deste ano se transformam
em nova relação interior.
Ganhamos o perdido. Vem chegando
cada um no seu passo costumeiro,
no seu modo de ser e de existir.

Esta
é Ana Amélia, rainha sem diadema.
Reina em doçura entre estudantes
e anjos barrocos. Calmos decassílabos
fluem de suas mãos e vão voando
para onde a poesia se concentra
em bondade e beleza:
sinônimo de alma.

Para um instante, Murilo; olha, Miranda,
quanta coisa fizeste na inquietude
de fazer coisas. Pois não basta, homem?
As artes mais as letras te agradecem
quanto penaste por amor de sonhos
culturais, que no esquecimento somem.

Mas que rumor é este, que risada
rouca, feliz, irada, insubmissa,
entre as festas do povo se anuncia?
É carnaval, folclore, são vivências
de um gato, da Amazônia, que sei mais?
O furacão chamado Eneida
tem garras verdes e quedou tranquilo.

Pelo telefone, a voz te pede
a colaboração do suplemento.
Anos a fio, vida a fio.
José Condé faz o jornal,
mas seu coração foge ao plantão
e perfura, no chão natal,
o poço dorido-alegre
de imagens pernambucanas.

Willy Lewin, viola ou violino
afinadíssimo, ouvido apenas
em surdina de câmara e recato.
Que requinte no seu sigilo,
seu desencanto modulado:

a melhor poesia é um signo
abafado.

Brumoso Luís Santa Cruz: a cruz,
entre súcubos a espicaçá-lo,
exorciza lêmures. Vago,
fantasmal ele próprio, ouvindo-lhe
a voz baixa, é o sussurro que ouves
de um mundo abissal, de sombras.

Por último vem teu compadre
e teu irmão Emílio, o doce
mavioso Moura irmão mineiro. Sorrindo,
como a pedir desculpas de uma falta:
“Fui proibido de beber
e de pitar um cigarrinho”
e de outra falta, mais grave:
“Fui-me embora, deixei você falando
sozinho”.

Dezembro, e o que perdido
foi neste ano, volta, iluminado
pelo claro pensar,
e reanima-se
o jogo eterno (e vão?), o jogo
da vida renascendo de si mesma.

02/12/1971
1 191
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Tim-Tim Para Luís Martins

I

Caro Luís inspetor federal de colégios
sem colégios para inspecionar
(padre sem igreja, maquinista sem locomotiva, amante sem amada)
no ano-fumaça — lembra-se? — de 38.
Designam você para Jaú,
solução mais perto, mais amável.
Lá vai o inspetor com uma camisa na pasta
e a convicção de que Jaú é pertíssimo.
Chega nove horas e meia depois:
uma hora a cavalo, da fazenda à estação,
uma hora de trem a Jundiaí,
quatro horas e meia de Jundiaí a Ityrapina
(com y, que agrava a distância),
finalmente três horas até Jaú.
Gasta você na brincadeira
com passagens, hotel e refeições
mais da metade do mesquinho ordenado futuro
e terá de voltar três vezes por semana…
Ser funcionário às vezes dói
como canelada. Ou faca no estômago.

II

Como, não sei, você surge em Minas (jornalista?)
na posse do ilustríssimo Governador-Mor Valadares
entre luminárias bailes populares festança grossa.
De manhã, excursão
ao sonho barroco de Ouro Preto, Congonhas, Tiradentes,
à qual, que lástima, você não comparece,
pois é de dormir tarde ou mesmo não dormir
quando a cimitarra da lua ceifa a imensidão mineira.
Suas noites são de prosear com amigos em torno de honesta cerveja
e as manhãs para o sono velado pelo Deus dos boêmios.
Ir a Minas e não ver o Aleijadinho!
Muitos anos lhe punge n’alma esse pecado.

III

De novo em Belo Horizonte. Desta vez, o Congresso
de Escritores estentóricos discutindo o porvir nacional.
Salvemos a Pátria mediante nossas prosopopeias!
Gosto de quedar a seu lado no Bar Pinguim
noites seguidas e melodiosas, alheios à retórica,
em doce paz de consciência.
Você imita Segall à perfeição
e eu admiro sua digna mansuetude entre os paladinos adversos.
Ensina (sem pretensão) a gentil dignidade.

IV

Lembro coisas assim a esmo
para conjurar a acidez da notícia de sua morte,
a mais injusta, a mais absurda para alguém como você,
que viveu em doçura, sem atropelar ninguém
no pensamento ou na vida.
Quis restaurar sua presença no bar, em minha casa, na rua.
Conservar você perto da gente, malgrado o final.
Este não é um protesto. É um tim-tim no copo cheio de saudade.

23/04/1981
1 283
Bernardo Bonaval

Bernardo Bonaval

A Dona Que Eu Am'e Tenho Por Senhor

A dona que eu am'e tenho por senhor
amostrade-mi-a, Deus, se vos en prazer for,
       senom dade-mi a morte.

A que tenh'eu por lume destes olhos meus
e por que choram sempr', amostrade-mi-a, Deus,
       senom dade-mi a morte.

Essa que vós fezestes melhor parecer
de quantas sei, ai, Deus!, fazede-mi-a veer,
       senom dade-mi a morte.

Ai Deus! que mi a fezestes mais ca mim amar,
mostrade-mi-a, u possa com ela falar,
       senom dade-mi a morte.
2 817