Poemas neste tema

Saudade e Ausência

Lois Pereiro

Lois Pereiro

Somentes

Somentes

intentaba conseguir

deixar na terra

algo de min que me sobrevivise

sabendo que deberia ter sabido

impedirme a min mesmo

descubrir que só fun un interludio

atroz entre dous muros de silencio

só puiden evitar vivindo á sombra

inocularlle para sempre a quen amaba

doses letais do amor que envelenaba

a súa alma cunha dor eterna

sustituíndo o desexo polo exilio

iniciei a viaxe sen retorno

deixándome levar sen resistencia

ó fondo dunha interna

aniquilación chea de nostalxia.



1 210
Maria Ângela Alvim

Maria Ângela Alvim

Sempre distante amor e perto anseio

Sempre distante amor e perto anseio,
e triste descambar do adeus e a ida
em promessa que apenas prometida
tanto levou do ser que o fez alheio.

De outra morte morrer, opõe receio?
Morre um morto após si, já em seguida
à perda ao largo de alma tão perdida?
Mortos são os que morrem vida em meio.

São os vivos de amor, que amor esquece,
e, súbito, na morte amadurece
antes de tudo mais que vai morrendo.

Feridos numa dor que está vivendo
no arrastar em gemido e em passo tardo,
ter sido, mais que ser, terrível fardo.

911
Francisco Karam

Francisco Karam

Coração Viajante

Chegam e vão entrando em mim
Como por um caminho aberto.

Passam e vão
Levando da poeira de minha carne
Na carne do seu corpo.

Ficam em mim, como na estrada,
As marcas dos seus pés
E o murmúrio distante dos seus cânticos.

O meu corpo tem saudades.
Ele as iluminou,
Como o braseiro dos serões,
Dando sangue, dando calor.

O meu corpo tem nostalgia.
Ele vive,
Na carne que elas levaram dele.
Na alma que elas arrancaram,
Aos punhados, dos meus olhos.

1 127
Fernando Cereja

Fernando Cereja

Qdo a cabeça

qdo a cabeça
papel
q se escreve
a saudade
borracha pincel
q se esquece.

788
Moacyr Felix

Moacyr Felix

Sentimento Clássico

Pisados, os olhos com que pisaste
a soleira escura de minha face;
e por mais pontes que entre nós lançasse,
ao que de fato sou nunca chegaste.

Que distâncias lamento, e que contraste !
Gravando em cada ser o amor que nasce
não encontrei o amor que me encontrasse:
amaram sem me ver, como me amaste.

Tinha os olhos tristes como eu tenho,
e o pranto que eu te trouxe de onde venho
é o mesmo que te espera adonde vais.

Se a mesma sóbria dor em tudo pomos,
não vês o que me calo. E assim nós somos
o que não somos nem seremos mais.

1 296
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

No grande espaço de não haver nada

No grande espaço de não haver nada
Que a noite finge, brilham mal os astros.
        Não há lua, e ainda bem.
Neste momento, Lídia, considero
Tudo, e um frio que não há me entra
        Na alma. Não existes.
1 373
Erorci Santana

Erorci Santana

LENÇO DE DISTÂNCIAS

Batem contra o solo os cascos dos alazões.
Impacientes, querem retesar mais uma vez
as cordas do corpo desse alferes,
o tal de Tiradentes. Amanheceu.
O verdeprimo pio do nambu madureceu
sob o ronco aterrador do trovão.
Choveu e estiou na estação. Qual?
Alguém lavrou e plantou. Nada se colheu?
Há tempo e não há tempo em teus átrios,
tua rude canção, tua faina nas auroras,
tua indizível, absconsa inquietação.
Uma casa, um pote de água fresca,
um coração. Eu te mando este cartão postal
e te aceno com meu lenço de distâncias,
branco de adeus e resignação.
Eu parto e permaneço. Estás e estiveste.
É na marra que me desvencilho
de tuas saúvas, de tuas cigarras,
de tuas lavras, de teu gado nubente,
de tuas águas trancadas, de tuas coivaras de milho.

Pátena e cálix, diamante, melro, arrozal.
Estão submersos os teus homens,
as dadivosas, graciosas e florais mulheres,
os prestos meninos e as pudicas meninas.
Emersos, para teu uso exclusivo, só os adjetivos.

Nas águas abissais desse teu mar
inda florescem oiro e cafezais; há séculos
um estigma de dor rui e rói o teu futuro.
Entanto, tu te ofertas à eternidade, condenada
a ficar cifrada em teu próprio ato de inquisição.

Milenar, vetusta, defesa à invasão
e à morada, ó minha Minas sitiada!
São Paulo, Boston, Lisboa, Tóquio,
aí vão os teus filhos evadidos.
De tuas vidas, de teus óbitos,
não existe assento nos tabeliães.
Tuas possessões atestam que em ti
ninguém morre e nada medra.

Na pedra que tu és a vida se anulou
com medo.
Esse o teu único segredo.
736
Fernão Rodrigues Lobo Soropita

Fernão Rodrigues Lobo Soropita

A uma partida

Partistes-vos, e [a] alma juntamente
Em partes desiguais se me partiu;
A melhor, que era vossa, vos seguiu;
Ficou-me a outra, fraca e descontente.

Bem sei que a natureza o não consente,
Mas Amor, que mais pode, o consentiu,
Por que a fé que em presença vos serviu,
Também vos sirva agora, estando ausente.

Eu, sem mim e sem vós, não sei que espero,
Nem com que maravilhas me sustento
Nas sombras tristes do meu bem passado.

Só sei que cada dia mais vos quero,
E que por mais que possa o esquecimento,
Nunca poderá mais que meu cuidado.
555
Tasso da Silveira

Tasso da Silveira

Poema 17

Esquece o tempo. O tempo não existe.
Acende a chama às límpidas lanternas.
Nossas almas, a ansiar no mundo triste,
são de uma mesma idade: são eternas.

Se no meu rosto lês mortais cansaços,
é natural.A luta foi renhida:
caminhei tantos passos, tantos passos
para que te encontrasse em minha vida...

Não medites o tempo. Se muito antes
de ti cheguei, para a áspera, inclemente
sina de navegar por este mar,

foi para que tivesse olhos orantes,
e me purificasse longamente
na infinita aflição de te esparar...

1 054
Salette Tavares

Salette Tavares

Amor Silêncio

Amor silêncio amargo a roçar-me a morte
grito partido do vidro sobre o peito
ilha deserta no meio das capitais do norte
grilhetas ajustadas no rio em que me deito.

Distância cumulada remanso duma espera
ponte de aventura do dois à unidade
amor brilho raiando a chave do desejo
minuto adormecido ao pé da eternidade.

Amor tempo suspenso, ó lânguido receio,
no pranto do meu canto és a presença forte
estame estremecido dissimulado anseio
amor milagre gesto incandescente porte.

Amor olhos perdidos a riscar desenhos
em largo movimento o espaço circular
amor segundo breve, lanceta, tempo eterno
no rápido castigo da lua a gotejar.

1 584
Gilson Nascimento

Gilson Nascimento

Biête do sertão

Zé, meu fi, esse biête
É pra mode ti contá
Que eu tive ternantonte
No nosso amado sertão
E com a boca escancarada
Numa bruta gargaiada
Tudo se ria pra mim.

As prantação bem verdinha
Viçosa, já cricidinha
Os pé de pau fulorado
Os boi, lustroso e cevado
E o pasto cuma um tapete
Ispaiado pulo chão
Tudo se ria pra mim

As nuve, baixa e cinzenta
E o ri com a água barrenta
Com aquele gargulejá
Qui faiz gosto se iscutá
Curria brabo, avexado
Cuma quem faz um mandado
Pra no má si dispejá.

E os pés de mi bunecando
E os pendão balançando
Com o vento que da lonjura
A chuva ia assoprando
Tudo se ria pra mim.

E vendo os bicho e as coisa
Com tanta sastifação
Mi ri com a cara e com a alma
Confesso, num nego não
E a nutiça da alegria
De quando in vez eu iscutava
Num baticum arrastado
Que era vê um aboiado
Do meu véio coração

Me alembrei das pescaria
Que dô! Que arrecordação!
A lua, culara, cheinha
Varava a mata todinha
E feito uma tuáia de prata
Caía em riba do rio
Briava na escuridão.

Meu fi, nesse dia eu sube
Que nóis é que nem os pau
Tem raiz grossa e cumprida
Que margúia pulo chão
Lá se interra, lá se agruda
Não há home de sustança
Que arranque elas não.

Eles vem dum pé de pranta
Que tem uma bunita fulô
Cheia de viço e de cô
Nóis chama ela de amô
E veve no coração

951
Gentil Braga

Gentil Braga

O Orvalho

Nas flores mimosas, nas folhas virentes
Da planta, do arbusto, que surge do chão,
Reúnem-se as gotas do orvalho nitentes,
Tombadas à noite da aérea soidão.

Provindas dos ares, dos astros caídas
Em globos argênteos de um puro brilhar,
Descansam nas flores, às plantas dão vida,
Remontam-se aos astros, erguendo-se ao ar.

A luz das estrelas, do vidro mais fino
O trêmulo, incerto, brilhante luzir,
Não tem mor beleza, fulgor mais divino,
Nem pode mais claro, mais belo fulgir.

E o sol, que rutila no manto dourado,
Feitura sublime das nuvens do céu,
Beijando estas gotas com um beijo inflamado,
Desfaz tais prodígios nos beijos que deu.

Quem foi que as vertera, quem foi que as chorara?
Quem, límpido orvalho, do céu vos lançou?
Quem pôs sobre a terra beleza tão rara?
Quem foi que nos ares o orvalho formou?

Dos anjos, que outrora baixaram da esfera,
Morada longínqua dos anjos de Deus,
São prantos o orvalho, que o amor os vertera,
Depois que perdidos volveram-se aos céus.

Baixados à terra sedentos de amores
Gozaram delícias de um breve durar;
Depois em lembrança dos tempos melhores
Os anjos à noite costumam chorar.

E o pranto saudoso dos olhos vertido
Converte-se em chuva de fino cristal;
Procura das flores o cálice querido,
Recai sobre as plantas do monte ou do val.

E os anjos sozinhos vagueiam no espaço,
Buscando as imagens, que o céu lhes roubou,
Seguidos das nuvens, do lúcido traço,
Que o brilho das asas tras eles deixou.

E a voz, que dos lábios lhes sai suspirante,
Semelha um queixume pungente de dor;
E o ar, que circula girando incessante,
Repete os suspiros só filhos do amor.

Em vão tais suspiros, tão tristes endeixas,
Pesares tão fundos são todos em vão!
Ninguém os escuta; carpidos ou queixas
Vai tudo sumido na etérea soidão.

E os anjos, que outrora viveram de amores,
Gozando delícias de extremos sem-par,
Saudosos relembram seus tempos melhores,
E tem por consolo seu triste chorar.

E o pranto saudoso dos olhos vertido
Converte-se em chuva de fino cristal,
Procura das flores o cálice querido,
Recai sobre as plantas do monte ou do val.

2 374
Eduardo Pitta

Eduardo Pitta

A tua ausência

A tua ausência
a encher-se de dunas.

Aquele bater de vidraças
na orla da praia.

O silêncio a insistir
a recusar-se ao rumor.

E a vida a fluir,
lá fora.
666
Gilberto Diener

Gilberto Diener

Amor Caipirano

Vaga viola, viola cigana a clarear...
Morrer de amor é loucura.
Beira de rio, sol de meio-dia;
Porta aberta a reparar:
As embarcações vão subindo o rio,
Assim como os bichos a desninhar
Na variação das estações,
Vai-se madurando amor à roça...
Tenho pensado com o coração
Na sua vota repentina;
Sua chegada sempre faz estourar as maritacas nos quintais.

Vaga presença, chiar intenso...
Cigarras nas árvores desfolhadas
E nós atracados corpo a corpo,
Feito bichos no cio,
Estalando nas folhas secas...
Amor imenso fazia alastrar queimadas
Por entre jaraguás secos,
Peito ardendo em labaredas...
Morrer assim!!!
Beira de estrada poeirenta
Rostos pálidos na estiagem.
Se acabar assim!!!
Ipês roxeando, amarelando...
Morrer de amor é loucura.

Vaga viola, viola cigana a clarear...
A espera de uma vida toda
Percorrida pelas estiagens e lagoas prateadas,
Na derrubada dos ranchos e matas,
O taquaral era só ventania
E a ventania era só varal
Era uma hora medonha:
Preso ao seu visgo, resistia...
Tudo se recomeçava novamente
E as coisas se punham no lugar.
Amar demais sempre trouxe fortes momentos,
Mas em nenhum instante sequer se desfez a espera;
Sua chegada é marcada
Pelo estouro das maritacas em meu peito.
Alegria de minha vida clareia...
Viola cigana, viola doida varrida...
Amor caipirano.
Bahia / 1982

906
Eduardo Pitta

Eduardo Pitta

Pouco tenho para alinhavar

Pouco tenho para alinhavar.
Dizer-te que estou longe
não apaga esta ausência que,
inelutavelmente,
nos distanciou.
  
Cercam-nos muros de silêncio
opresso.
A própria hera não ousa
na despudorada nudez branca
de paredes que interditam 
a fantasia ao forasteiro
voraz.
O gesto tolhido,
o pretexto adiado
e a memória a estiolar.
702
Pedro António Correia Garção

Pedro António Correia Garção

Soneto

Três vezes vi, Marília, de alva lua,
Cheio de luz o rosto prateado,
Sem que dourasse o campo matizado,
A linda aurora da presença tua.

Então subindo à serra calva e nua,
De um íngreme rochedo pendurado,
Os olhos alongando pelo prado,
Chamava, mas em vão, a morte crua.

Ali comigo vinham ter pastores,
Que meus suspiros férvidos ouviam,
Cortados do alarido dos clamores.

Tanto que a causa do meu mal sabiam,
Julgando sem remédio minhas dores,
Por não poder-me consolar, fugiam.

1 636
Gaitano Antonaccio

Gaitano Antonaccio

Versos Finais

Meus poemas são doces notas do nosso amor
São aves que gorjeiam no espaço da dor ..

Minhas rimas são rudes frases de acusação,
Sentenças condenatórias de urna paixão ...

Minhas estrofes descrevem o teu perfume
Mas cada sílaba jorra o fel do meu ciúme ...

Não consigo decassilabar meus versos
Nesse teu corpo de infinitos universos!...

Minhas palavras, românticas e teatrais,
Nem no sentimento te encontram mais,

Na poesia que te faço, fico perplexo,
Não consigo despertar amor e sexo

Nem faço amor na poesia que te faço,
E nem consigo amar no teu regaço ...

Meus versos não possuem mais sentido
São apenas saudade de um amor perdido...

1 064
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Puseste a mantilha negra

Puseste a mantilha negra
Que hás-de tirar ao voltar.
A que me puseste na alma
Não tiras. Mas deixa-a estar!
1 362
Ana Garrett

Ana Garrett

Poder Cósmico

Poder cósmico tem esse teu olhar,
terno e macio como nunca.
Envolvente em estrelhas a brilhar,
fazendo-me querer voltar atrás.

Não me olhes como fazes.
Fico parada a olhar-te também,
torturada e porém,
tentada a abraçar-te.

Ah...se eu pudesse
dár-te o céu em recompensa,
não havia quem mais bem te fizesse.

É disto e daquilo, vês,
que me lembro a cada instante,
ter-te junto de mim, constante
e muito ausente.

Pudera eu recuperar essas horas
faria tudo, tudo sem demoras.
Salvar-te-ia, amor, dessa gente.

E hoje é apenas igual a ontem,
sem mais sentimentos.
Os dias passam ao meu lado indiferentes.
Perdi a minha Rosa dos Ventos...

800
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Trazes os brincos compridos,

Trazes os brincos compridos,
Aqueles brincos que são
Como as saudades que temos
A pender do coração.
1 882
Ana Garrett

Ana Garrett

Converti-me num lago

Converti-me num lago
travessado por barqueiros sem destino,
e, como uma altiva ave de rapina,
solto-me em gritos e
lanço o meu último gemido.

Numa despedida efémera
cruzo o mundo, alheia, a voar
e das águas serenas que brotam dos meus olhos,
acrescento ao universo mais um mar,
onde iças as tuas velas
e prossegues uma história que foi minha,
a navegar.

825
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Sorrow no more for the faded rose,

Sorrow no more for the faded rose,
Nor of the yellow lily despair.
These, as we see them, are but their shows.
They are elsewhere.

Tis but their shadow lives in our light.
As we see them (...)
They live more truly in our delight
Than in their forms.

The beauty they had was never lost,
It moved away
From the present hour and the form once tossed
Into space and day.

But the undying essence of the (...)

The rose that faded from yesterday
Is where yesterday is.
I shall have again the flower and the day,
The self and the bliss.
1 393
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Quando ela pôs o chapéu

Quando ela pôs o chapéu
Como se tudo acabasse,
Sofri de não haver véu
Que inda um pouco a demorasse.
2 740
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

45 - THE LOOPHOLE

I shall not come when thou wilt call,
        For when thou call'st I am with thee.
        When I think of thee, within me
Thyself art, and thy thought self’s all.

Thy presence is thy absence drest
        In thy body that hides thy soul.
Tis in me that thou art possessed,
        'Tis in my thoughts that thou art whole.

Outside thee, given to time and space,
        Thy body, thy mere loss to me,
Partakes of change and age and place?
        Belongs to other laws than thee.

In my dream of thee nothing changes
        Thyself to other than thou art.
        Thy corporal presence is that part
Of thee that thee from thee estranges.

Therefore call me, but await not.
        Thy voice, summed to my dreaming thee,
Shall put new beauty on that thought
        Of thy body that dwells in me.

Thy voice heard from afar shall bring
        Nearer to me thy presence dreamed.
        Brighter and clearer than it seemed
It grow'th in my imagining.

Then call no more. Thy voice twice heard
        Along the real space would be
        Too near now to reality.
Thy second voice were thy first blurred.

Call me but once. I close mine eyes
        And let the second call be dreamed,
        Thy body's vision lightly gleamed
On my seeing memory of thy cries.

The rest, eyes shut lest thou appear.
        Shall be thy clear continuance
        In my dream's constancy askance.
Keep far, keep silent, come not here,

For thou wouldst come too near for sight
        And out of my thoughts step to thee,
        Putting on thy dreamed body in me
        (Thy body's form‑dream infinite)
        Thy limit, visibility.
1 241