Poemas neste tema
Saudade e Ausência
António Ramos Rosa
A Noite da Rua
Mão longe
da mão longe a apagar-se
ao fim da mão a rua extrema fria
ao fim da mão a rua os olhos frios
mão da terra para
o sol frio
mão ou lâmpada
nos arbustos
Língua de sol a sombra nas esquinas
Mão fria tropeçada rente ao fim da rua
rente ao longe nua
no sol frio da noite
da mão longe a apagar-se
ao fim da mão a rua extrema fria
ao fim da mão a rua os olhos frios
mão da terra para
o sol frio
mão ou lâmpada
nos arbustos
Língua de sol a sombra nas esquinas
Mão fria tropeçada rente ao fim da rua
rente ao longe nua
no sol frio da noite
1 211
Luiz de Aquino
Alguém, se Não Vieres
Alguém, se Não Vieres
Eu preciso que me olhes nos olhos
e decifres a angústia
que te atrai e me tortura.
Eu preciso te dizer certas coisas
que se calaram em mim quando te vi
na manhã imprevista
e indecisa,
mas dizer estas coisas custa ânsias
incontroláveis.
Eu preciso de vez que te chegues a mim
e não me digas bom-dia
e nem me cobres os dias e noites
da nossa ausência.
Eu preciso de alguém
que converse comigo
no amanhecer.
Eu preciso que me olhes nos olhos
e decifres a angústia
que te atrai e me tortura.
Eu preciso te dizer certas coisas
que se calaram em mim quando te vi
na manhã imprevista
e indecisa,
mas dizer estas coisas custa ânsias
incontroláveis.
Eu preciso de vez que te chegues a mim
e não me digas bom-dia
e nem me cobres os dias e noites
da nossa ausência.
Eu preciso de alguém
que converse comigo
no amanhecer.
964
Daniel Faria
O meu projecto de morrer
O meu projecto de morrer é o meu ofício
Esperar é um modo de chegares
Um modo de te amar dentro do tempo
de Explicação das Árvores e de Outros Animais(1998)
Esperar é um modo de chegares
Um modo de te amar dentro do tempo
de Explicação das Árvores e de Outros Animais(1998)
2 165
Luiz Pimenta
O Jardim de Geralda
O Jardim de Geralda
Para minha querida sogra
Tenho quase certeza que
o van Gogh
conheceu o jardim de Geralda,
antes mesmo
dele ter existido.
O jardim de Geralda
sempre foi uma explosão.
Tem lírio,
tem antúrio...
Tem brinco-de-princesa
plantado
dentro do pneu.
Tem buganvília,
tem até...
amor-perfeito.
Tem tudo,
bem misturado,
assim como
é a vida.
Cadê você Geralda,
para cuidar do nosso jardim?
BH 10/01/97
Para minha querida sogra
Tenho quase certeza que
o van Gogh
conheceu o jardim de Geralda,
antes mesmo
dele ter existido.
O jardim de Geralda
sempre foi uma explosão.
Tem lírio,
tem antúrio...
Tem brinco-de-princesa
plantado
dentro do pneu.
Tem buganvília,
tem até...
amor-perfeito.
Tem tudo,
bem misturado,
assim como
é a vida.
Cadê você Geralda,
para cuidar do nosso jardim?
BH 10/01/97
1 004
Pablo Neruda
XXII
Amor, amor aquele e aquela,
se já não são, para onde foram?
Ontem, ontem disse a meus olhos
quando voltaremos a ver-nos?
E quando se muda a paisagem
são tuas mãos ou tuas luvas?
Quando canta o azul da água
como foge o rumor do céu?
se já não são, para onde foram?
Ontem, ontem disse a meus olhos
quando voltaremos a ver-nos?
E quando se muda a paisagem
são tuas mãos ou tuas luvas?
Quando canta o azul da água
como foge o rumor do céu?
635
Murillo Mendes
Canção do Exílio
Minha terra tem macieiras da Califórnia
onde cantam gaturamos de Veneza.
Os poetas da minha terra
são pretos que vivem em torres de ametista,
os sargentos do exército são monistas, cubistas,
os filósofos são polacos vendendo a prestações.
A gente não pode dormir
com os oradores e os pernilongos.
Os sururus em família têm por testemunha a Gioconda.
Eu morro sufocado
em terra estrangeira.
Nossas flores são mais bonitas
nossas frutas mais gostosas
mas custam cem mil réis a dúzia.
Ai quem me dera chupar uma carambola de verdade
e ouvir um sabiá com certidão de idade!
onde cantam gaturamos de Veneza.
Os poetas da minha terra
são pretos que vivem em torres de ametista,
os sargentos do exército são monistas, cubistas,
os filósofos são polacos vendendo a prestações.
A gente não pode dormir
com os oradores e os pernilongos.
Os sururus em família têm por testemunha a Gioconda.
Eu morro sufocado
em terra estrangeira.
Nossas flores são mais bonitas
nossas frutas mais gostosas
mas custam cem mil réis a dúzia.
Ai quem me dera chupar uma carambola de verdade
e ouvir um sabiá com certidão de idade!
676
Mário Beirão
Moda Alentejana
A ribeira do Xacafre
Vai rasa dos meus cuidados:
No escuro das águas tristes,
Há laivos ensanguentados…
Ó meus olhos, ó meus olhos,
— Noite e dia — que estais vendo?
A ribeira do Xacafre,
Da minha alma discorrendo!
Na ribeira do Xacafre,
uma voz suspira fundo:
A voz da minha saudade,
A despedir-se do Mundo!
Aldeia de Montes Velhos
Não posso querer-te mais:
És a luz do sol-nascente,
Abrindo, em flor, nos meus ais!
Aldeia de Montes Velhos,
És sempre luz de alvorada,
És sempre rosa do altar
Da chama duma «queimada»!
Eu hei-de florir na urze,
Arder no vento «suão»,
Lá, na Charneca das Naves,
Mar alto da Solidão! —
Vai rasa dos meus cuidados:
No escuro das águas tristes,
Há laivos ensanguentados…
Ó meus olhos, ó meus olhos,
— Noite e dia — que estais vendo?
A ribeira do Xacafre,
Da minha alma discorrendo!
Na ribeira do Xacafre,
uma voz suspira fundo:
A voz da minha saudade,
A despedir-se do Mundo!
Aldeia de Montes Velhos
Não posso querer-te mais:
És a luz do sol-nascente,
Abrindo, em flor, nos meus ais!
Aldeia de Montes Velhos,
És sempre luz de alvorada,
És sempre rosa do altar
Da chama duma «queimada»!
Eu hei-de florir na urze,
Arder no vento «suão»,
Lá, na Charneca das Naves,
Mar alto da Solidão! —
1 318
Ana Martins Marques
guarda-roupa
seu vestido de verão
sem você dentro
não é um vestido de verão
porque no vestido o verão
era você
Da série “Arquitetura de interiores”
sem você dentro
não é um vestido de verão
porque no vestido o verão
era você
Da série “Arquitetura de interiores”
1 192
Carlos Drummond de Andrade
A Mesa
E não gostavas de festa…
Ó velho, que festa grande
hoje te faria a gente.
E teus filhos que não bebem
e o que gosta de beber,
em torno da mesa larga,
largavam as tristes dietas,
esqueciam seus fricotes,
e tudo era farra honesta
acabando em confidência.
Ai, velho, ouvirias coisas
de arrepiar teus noventa.
E daí, não te assustávamos,
porque, com riso na boca,
e a nédia galinha, o vinho
português de boa pinta,
e mais o que alguém faria
de mil coisas naturais
e fartamente poria
em mil terrinas da China,
já logo te insinuávamos
que era tudo brincadeira.
Pois sim. Teu olho cansado,
mas afeito a ler no campo
uma lonjura de léguas,
e na lonjura uma rês
perdida no azul azul,
entrava-nos alma adentro
e via essa lama podre
e com pesar nos fitava
e com ira amaldiçoava
e com doçura perdoava
(perdoar é rito de pais,
quando não seja de amantes).
E, pois, todo nos perdoando,
por dentro te regalavas
de ter filhos assim… Puxa,
grandessíssimos safados,
me saíram bem melhor
que as encomendas. De resto,
filho de peixe… Calavas,
com agudo sobrecenho
interrogavas em ti
uma lembrança saudosa
e não de todo remota
e rindo por dentro e vendo
que lançaras uma ponte
dos passos loucos do avô
à incontinência dos netos,
sabendo que toda carne
aspira à degradação,
mas numa via de fogo
e sob um arco sexual,
tossias. Hem, hem, meninos,
não sejam bobos. Meninos?
Uns marmanjos cinquentões,
calvos, vividos, usados,
mas resguardando no peito
essa alvura de garoto,
essa fuga para o mato,
essa gula defendida
e o desejo muito simples
de pedir à mãe que cosa,
mais do que nossa camisa,
nossa alma frouxa, rasgada…
Ai, grande jantar mineiro
que seria esse… Comíamos,
e comer abria fome,
e comida era pretexto.
E nem mesmo precisávamos
ter apetite, que as coisas
deixavam-se espostejar,
e amanhã é que eram elas.
Nunca desdenhe o tutu.
Vá lá mais um torresminho.
E quanto ao peru? Farofa
há de ser acompanhada
de uma boa cachacinha,
não desfazendo em cerveja,
essa grande camarada.
Ind’outro dia… Comer
guarda tamanha importância
que só o prato revele
o melhor, o mais humano
dos seres em sua treva?
Beber é pois tão sagrado
que só bebido meu mano
me desata seu queixume,
abrindo-me sua palma?
Sorver, papar: que comida
mais cheirosa, mais profunda
no seu tronco luso-árabe,
e que bebida mais santa
que a todos nos une em um
tal centímano glutão,
parlapatão e bonzão!
E nem falta a irmã que foi
mais cedo que os outros e era
rosa de nome e nascera
em dia tal como o de hoje
para enfeitar tua data.
Seu nome sabe a camélia,
e sendo uma rosa-amélia,
flor muito mais delicada
que qualquer das rosas-rosa,
viveu bem mais do que o nome,
porém no íntimo claustrava
a rosa esparsa. A teu lado,
vê: recobrou-se-lhe o viço.
Aqui sentou-se o mais velho.
Tipo do manso, do sonso,
não servia para padre,
amava casos bandalhos;
depois o tempo fez dele
o que faz de qualquer um;
e à medida que envelhece,
vai estranhamente sendo
retrato teu sem ser tu,
de sorte que se o diviso
de repente, sem anúncio,
és tu que me reapareces
noutro velho de sessenta.
Este outro aqui é doutor,
o bacharel da família,
mas suas letras mais doutas
são as escritas no sangue,
ou sobre a casca das árvores.
Sabe o nome da florzinha
e não esquece o da fruta
mais rara que se prepara
num casamento genético.
Mora nele a nostalgia,
citadino, do ar agreste,
e, camponês, do letrado.
Então vira patriarca.
Mais adiante vês aquele
que de ti herdou a dura
vontade, o duro estoicismo.
Mas, não quis te repetir.
Achou não valer a pena
reproduzir sobre a terra
o que a terra engolirá.
Amou. E ama. E amará.
Só não quer que seu amor
seja uma prisão de dois,
um contrato, entre bocejos
e quatro pés de chinelo.
Feroz a um breve contato,
à segunda vista, seco,
à terceira vista, lhano,
dir-se-ia que ele tem medo
de ser, fatalmente, humano.
Dir-se-ia que ele tem raiva,
mas que mel transcende a raiva,
e que sábios, ardilosos
recursos de se enganar
quanto a si mesmo: exercita
uma força que não sabe
chamar-se, apenas, bondade.
Esta calou-se. Não quis
manter com palavras novas
o colóquio subterrâneo
que num sussurro percorre
a gente mais desatada.
Calou-se, não te aborreças.
Se tanto assim a querias,
algo nela ainda te quer,
à maneira atravessada
que é própria de nosso jeito.
(Não ser feliz tudo explica.)
Bem sei como são penosos
esses lances de família,
e discutir neste instante
seria matar a festa,
matando-te — não se morre
uma só vez, nem de vez.
Restam sempre muitas vidas
para serem consumidas
na razão dos desencontros
de nosso sangue nos corpos
por onde vai dividido.
Ficam sempre muitas mortes
para serem longamente
reencarnadas noutro morto.
Mas estamos todos vivos.
E mais que vivos, alegres.
Estamos todos como éramos
antes de ser, e ninguém
dirá que ficou faltando
algum dos teus. Por exemplo:
ali ao canto da mesa,
não por humilde, talvez
por ser o rei dos vaidosos
e se pelar por incômodas
posições de tipo gauche,
ali me vês tu. Que tal?
Fica tranquilo: trabalho.
Afinal, a boa vida
ficou apenas: a vida
(e nem era assim tão boa
e nem se fez muito má).
Pois ele sou eu. Repara:
tenho todos os defeitos
que não farejei em ti,
e nem os tenho que tinhas,
quanto mais as qualidades.
Não importa: sou teu filho
com ser uma negativa
maneira de te afirmar.
Lá que brigamos, brigamos,
opa! que não foi brinquedo,
mas os caminhos do amor,
só amor sabe trilhá-los.
Tão ralo prazer te dei,
nenhum, talvez… ou senão,
esperança de prazer,
é, pode ser que te desse
a neutra satisfação
de alguém sentir que seu filho,
de tão inútil, seria
sequer um sujeito ruim.
Não sou um sujeito ruim.
Descansa, se o suspeitavas,
mas não sou lá essas coisas.
Alguns afetos recortam
o meu coração chateado.
Se me chateio? demais.
Esse é meu mal. Não herdei
de ti essa balda. Bem,
não me olhes tão longo tempo,
que há muitos a ver ainda.
Há oito. E todos minúsculos,
todos frustrados. Que flora
mais triste fomos achar
para ornamento de mesa!
Qual nada. De tão remotos,
de tão puros e esquecidos
no chão que suga e transforma,
são anjos. Que luminosos!
que raios de amor radiam,
e em meio a vagos cristais,
o cristal deles retine,
reverbera a própria sombra.
São anjos que se dignaram
participar do banquete,
alisar o tamborete,
viver vida de menino.
São anjos; e mal sabias
que um mortal devolve a Deus
algo de sua divina
substância aérea e sensível,
se tem um filho e se o perde.
Conta: catorze na mesa.
Ou trinta? serão cinquenta,
que sei? se chegam mais outros,
uma carne cada dia
multiplicada, cruzada
a outras carnes de amor.
São cinquenta pecadores,
se pecado é ter nascido
e provar, entre pecados,
os que nos foram legados.
A procissão de teus netos,
alongando-se em bisnetos,
veio pedir tua bênção
e comer de teu jantar.
Repara um pouquinho nesta,
no queixo, no olhar, no gesto,
e na consciência profunda
e na graça menineira,
e dize, depois de tudo,
se não é, entre meus erros,
uma imprevista verdade.
Esta é minha explicação,
meu verso melhor ou único,
meu tudo enchendo meu nada.
Agora a mesa repleta
está maior do que a casa.
Falamos de boca cheia,
xingamo-nos mutuamente,
rimos, ai, de arrebentar,
esquecemos o respeito
terrível, inibidor,
e toda a alegria nossa,
ressecada em tantos negros
bródios comemorativos
(não convém lembrar agora),
os gestos acumulados
de efusão fraterna, atados
(não convém lembrar agora),
as fina-e-meigas palavras
que ditas naquele tempo
teriam mudado a vida
(não convém mudar agora),
vem tudo à mesa e se espalha
qual inédita vitualha.
Oh que ceia mais celeste
e que gozo mais do chão!
Quem preparou? que inconteste
vocação de sacrifício
pôs a mesa, teve os filhos?
quem se apagou? quem pagou
a pena deste trabalho?
quem foi a mão invisível
que traçou este arabesco
de flor em torno ao pudim,
como se traça uma auréola?
quem tem auréola? quem não
a tem, pois que, sendo de ouro,
cuida logo em reparti-la,
e se pensa melhor faz?
quem senta do lado esquerdo,
assim curvada? que branca,
mas que branca mais que branca
tarja de cabelos brancos
retira a cor das laranjas,
anula o pó do café,
cassa o brilho aos serafins?
quem é toda luz e é branca?
Decerto não pressentias
como o branco pode ser
uma tinta mais diversa
da mesma brancura… Alvura
elaborada na ausência
de ti, mas ficou perfeita,
concreta, fria, lunar.
Como pode nossa festa
ser de um só que não de dois?
Os dois ora estais reunidos
numa aliança bem maior
que o simples elo da terra.
Estais juntos nesta mesa
de madeira mais de lei
que qualquer lei da república.
Estais acima de nós,
acima deste jantar
para o qual vos convocamos
por muito — enfim — vos querermos
e, amando, nos iludirmos
junto da mesa
vazia.
Ó velho, que festa grande
hoje te faria a gente.
E teus filhos que não bebem
e o que gosta de beber,
em torno da mesa larga,
largavam as tristes dietas,
esqueciam seus fricotes,
e tudo era farra honesta
acabando em confidência.
Ai, velho, ouvirias coisas
de arrepiar teus noventa.
E daí, não te assustávamos,
porque, com riso na boca,
e a nédia galinha, o vinho
português de boa pinta,
e mais o que alguém faria
de mil coisas naturais
e fartamente poria
em mil terrinas da China,
já logo te insinuávamos
que era tudo brincadeira.
Pois sim. Teu olho cansado,
mas afeito a ler no campo
uma lonjura de léguas,
e na lonjura uma rês
perdida no azul azul,
entrava-nos alma adentro
e via essa lama podre
e com pesar nos fitava
e com ira amaldiçoava
e com doçura perdoava
(perdoar é rito de pais,
quando não seja de amantes).
E, pois, todo nos perdoando,
por dentro te regalavas
de ter filhos assim… Puxa,
grandessíssimos safados,
me saíram bem melhor
que as encomendas. De resto,
filho de peixe… Calavas,
com agudo sobrecenho
interrogavas em ti
uma lembrança saudosa
e não de todo remota
e rindo por dentro e vendo
que lançaras uma ponte
dos passos loucos do avô
à incontinência dos netos,
sabendo que toda carne
aspira à degradação,
mas numa via de fogo
e sob um arco sexual,
tossias. Hem, hem, meninos,
não sejam bobos. Meninos?
Uns marmanjos cinquentões,
calvos, vividos, usados,
mas resguardando no peito
essa alvura de garoto,
essa fuga para o mato,
essa gula defendida
e o desejo muito simples
de pedir à mãe que cosa,
mais do que nossa camisa,
nossa alma frouxa, rasgada…
Ai, grande jantar mineiro
que seria esse… Comíamos,
e comer abria fome,
e comida era pretexto.
E nem mesmo precisávamos
ter apetite, que as coisas
deixavam-se espostejar,
e amanhã é que eram elas.
Nunca desdenhe o tutu.
Vá lá mais um torresminho.
E quanto ao peru? Farofa
há de ser acompanhada
de uma boa cachacinha,
não desfazendo em cerveja,
essa grande camarada.
Ind’outro dia… Comer
guarda tamanha importância
que só o prato revele
o melhor, o mais humano
dos seres em sua treva?
Beber é pois tão sagrado
que só bebido meu mano
me desata seu queixume,
abrindo-me sua palma?
Sorver, papar: que comida
mais cheirosa, mais profunda
no seu tronco luso-árabe,
e que bebida mais santa
que a todos nos une em um
tal centímano glutão,
parlapatão e bonzão!
E nem falta a irmã que foi
mais cedo que os outros e era
rosa de nome e nascera
em dia tal como o de hoje
para enfeitar tua data.
Seu nome sabe a camélia,
e sendo uma rosa-amélia,
flor muito mais delicada
que qualquer das rosas-rosa,
viveu bem mais do que o nome,
porém no íntimo claustrava
a rosa esparsa. A teu lado,
vê: recobrou-se-lhe o viço.
Aqui sentou-se o mais velho.
Tipo do manso, do sonso,
não servia para padre,
amava casos bandalhos;
depois o tempo fez dele
o que faz de qualquer um;
e à medida que envelhece,
vai estranhamente sendo
retrato teu sem ser tu,
de sorte que se o diviso
de repente, sem anúncio,
és tu que me reapareces
noutro velho de sessenta.
Este outro aqui é doutor,
o bacharel da família,
mas suas letras mais doutas
são as escritas no sangue,
ou sobre a casca das árvores.
Sabe o nome da florzinha
e não esquece o da fruta
mais rara que se prepara
num casamento genético.
Mora nele a nostalgia,
citadino, do ar agreste,
e, camponês, do letrado.
Então vira patriarca.
Mais adiante vês aquele
que de ti herdou a dura
vontade, o duro estoicismo.
Mas, não quis te repetir.
Achou não valer a pena
reproduzir sobre a terra
o que a terra engolirá.
Amou. E ama. E amará.
Só não quer que seu amor
seja uma prisão de dois,
um contrato, entre bocejos
e quatro pés de chinelo.
Feroz a um breve contato,
à segunda vista, seco,
à terceira vista, lhano,
dir-se-ia que ele tem medo
de ser, fatalmente, humano.
Dir-se-ia que ele tem raiva,
mas que mel transcende a raiva,
e que sábios, ardilosos
recursos de se enganar
quanto a si mesmo: exercita
uma força que não sabe
chamar-se, apenas, bondade.
Esta calou-se. Não quis
manter com palavras novas
o colóquio subterrâneo
que num sussurro percorre
a gente mais desatada.
Calou-se, não te aborreças.
Se tanto assim a querias,
algo nela ainda te quer,
à maneira atravessada
que é própria de nosso jeito.
(Não ser feliz tudo explica.)
Bem sei como são penosos
esses lances de família,
e discutir neste instante
seria matar a festa,
matando-te — não se morre
uma só vez, nem de vez.
Restam sempre muitas vidas
para serem consumidas
na razão dos desencontros
de nosso sangue nos corpos
por onde vai dividido.
Ficam sempre muitas mortes
para serem longamente
reencarnadas noutro morto.
Mas estamos todos vivos.
E mais que vivos, alegres.
Estamos todos como éramos
antes de ser, e ninguém
dirá que ficou faltando
algum dos teus. Por exemplo:
ali ao canto da mesa,
não por humilde, talvez
por ser o rei dos vaidosos
e se pelar por incômodas
posições de tipo gauche,
ali me vês tu. Que tal?
Fica tranquilo: trabalho.
Afinal, a boa vida
ficou apenas: a vida
(e nem era assim tão boa
e nem se fez muito má).
Pois ele sou eu. Repara:
tenho todos os defeitos
que não farejei em ti,
e nem os tenho que tinhas,
quanto mais as qualidades.
Não importa: sou teu filho
com ser uma negativa
maneira de te afirmar.
Lá que brigamos, brigamos,
opa! que não foi brinquedo,
mas os caminhos do amor,
só amor sabe trilhá-los.
Tão ralo prazer te dei,
nenhum, talvez… ou senão,
esperança de prazer,
é, pode ser que te desse
a neutra satisfação
de alguém sentir que seu filho,
de tão inútil, seria
sequer um sujeito ruim.
Não sou um sujeito ruim.
Descansa, se o suspeitavas,
mas não sou lá essas coisas.
Alguns afetos recortam
o meu coração chateado.
Se me chateio? demais.
Esse é meu mal. Não herdei
de ti essa balda. Bem,
não me olhes tão longo tempo,
que há muitos a ver ainda.
Há oito. E todos minúsculos,
todos frustrados. Que flora
mais triste fomos achar
para ornamento de mesa!
Qual nada. De tão remotos,
de tão puros e esquecidos
no chão que suga e transforma,
são anjos. Que luminosos!
que raios de amor radiam,
e em meio a vagos cristais,
o cristal deles retine,
reverbera a própria sombra.
São anjos que se dignaram
participar do banquete,
alisar o tamborete,
viver vida de menino.
São anjos; e mal sabias
que um mortal devolve a Deus
algo de sua divina
substância aérea e sensível,
se tem um filho e se o perde.
Conta: catorze na mesa.
Ou trinta? serão cinquenta,
que sei? se chegam mais outros,
uma carne cada dia
multiplicada, cruzada
a outras carnes de amor.
São cinquenta pecadores,
se pecado é ter nascido
e provar, entre pecados,
os que nos foram legados.
A procissão de teus netos,
alongando-se em bisnetos,
veio pedir tua bênção
e comer de teu jantar.
Repara um pouquinho nesta,
no queixo, no olhar, no gesto,
e na consciência profunda
e na graça menineira,
e dize, depois de tudo,
se não é, entre meus erros,
uma imprevista verdade.
Esta é minha explicação,
meu verso melhor ou único,
meu tudo enchendo meu nada.
Agora a mesa repleta
está maior do que a casa.
Falamos de boca cheia,
xingamo-nos mutuamente,
rimos, ai, de arrebentar,
esquecemos o respeito
terrível, inibidor,
e toda a alegria nossa,
ressecada em tantos negros
bródios comemorativos
(não convém lembrar agora),
os gestos acumulados
de efusão fraterna, atados
(não convém lembrar agora),
as fina-e-meigas palavras
que ditas naquele tempo
teriam mudado a vida
(não convém mudar agora),
vem tudo à mesa e se espalha
qual inédita vitualha.
Oh que ceia mais celeste
e que gozo mais do chão!
Quem preparou? que inconteste
vocação de sacrifício
pôs a mesa, teve os filhos?
quem se apagou? quem pagou
a pena deste trabalho?
quem foi a mão invisível
que traçou este arabesco
de flor em torno ao pudim,
como se traça uma auréola?
quem tem auréola? quem não
a tem, pois que, sendo de ouro,
cuida logo em reparti-la,
e se pensa melhor faz?
quem senta do lado esquerdo,
assim curvada? que branca,
mas que branca mais que branca
tarja de cabelos brancos
retira a cor das laranjas,
anula o pó do café,
cassa o brilho aos serafins?
quem é toda luz e é branca?
Decerto não pressentias
como o branco pode ser
uma tinta mais diversa
da mesma brancura… Alvura
elaborada na ausência
de ti, mas ficou perfeita,
concreta, fria, lunar.
Como pode nossa festa
ser de um só que não de dois?
Os dois ora estais reunidos
numa aliança bem maior
que o simples elo da terra.
Estais juntos nesta mesa
de madeira mais de lei
que qualquer lei da república.
Estais acima de nós,
acima deste jantar
para o qual vos convocamos
por muito — enfim — vos querermos
e, amando, nos iludirmos
junto da mesa
vazia.
2 019
Sophia de Mello Breyner Andresen
Vii. Trevas
O que foi antigamente manhã limpa
Sereno amor das coisas e da vida
É hoje busca desesperada busca
De um corpo cuja face me é oculta.
Sereno amor das coisas e da vida
É hoje busca desesperada busca
De um corpo cuja face me é oculta.
1 695
Carlos Drummond de Andrade
Ser
O filho que não fiz
hoje seria homem.
Ele corre na brisa,
sem carne, sem nome.
Às vezes o encontro
num encontro de nuvem.
Apoia em meu ombro
seu ombro nenhum.
Interrogo meu filho,
objeto de ar:
em que gruta ou concha
quedas abstrato?
Lá onde eu jazia,
responde-me o hálito,
não me percebeste,
contudo chamava-te
como ainda te chamo
(além, além do amor)
onde nada, tudo
aspira a criar-se.
O filho que não fiz
faz-se por si mesmo.
hoje seria homem.
Ele corre na brisa,
sem carne, sem nome.
Às vezes o encontro
num encontro de nuvem.
Apoia em meu ombro
seu ombro nenhum.
Interrogo meu filho,
objeto de ar:
em que gruta ou concha
quedas abstrato?
Lá onde eu jazia,
responde-me o hálito,
não me percebeste,
contudo chamava-te
como ainda te chamo
(além, além do amor)
onde nada, tudo
aspira a criar-se.
O filho que não fiz
faz-se por si mesmo.
2 493
Fernando Tavares Rodrigues
Rosa dos Ventos
Ao sul de mim existe um porto
Que não se bebe.
Apenas se pressente.
Me embriaga
E , contudo, não se mede.
Mulher cujo perfume só recordo
Na madrugada fria, ainda doente.
A Norte, porém, quando confessa
Vontades que traz apetecidas
Confesso que me aquece, nessa pressa,
Outras mulheres que cria já esquecidas.
A Oeste bastava outra vontade
Para alcançar a praia repetida
Que outro gesto quisera e de vaidade.
Finalmente, a Leste, a despedida,
Abraço que ficou por acabar,
Palavra de começo e de partida
Que o tempo não deixou acreditar...
Que não se bebe.
Apenas se pressente.
Me embriaga
E , contudo, não se mede.
Mulher cujo perfume só recordo
Na madrugada fria, ainda doente.
A Norte, porém, quando confessa
Vontades que traz apetecidas
Confesso que me aquece, nessa pressa,
Outras mulheres que cria já esquecidas.
A Oeste bastava outra vontade
Para alcançar a praia repetida
Que outro gesto quisera e de vaidade.
Finalmente, a Leste, a despedida,
Abraço que ficou por acabar,
Palavra de começo e de partida
Que o tempo não deixou acreditar...
951
Fernando Tavares Rodrigues
Jantar
Jantar
sozinho, comer
O resto da minha sede.
Como se alguém repartisse
A fome de apetecer
Outro corpo que se bebe
E que depois nos fugisse....
sozinho, comer
O resto da minha sede.
Como se alguém repartisse
A fome de apetecer
Outro corpo que se bebe
E que depois nos fugisse....
1 030
Fernando Tavares Rodrigues
Construção
Construir-te
verso a verso
Tijolo a tijolo de saudade.
Palácio que supuz noutra cidade,
Conquista que sofreu um vento adverso.
Cristal que me cegou quando te quis,
Luxúria do teu corpo onde não estive.
E só faltou que tu fosses feliz
Nesse intervalo breve em que te tive....
verso a verso
Tijolo a tijolo de saudade.
Palácio que supuz noutra cidade,
Conquista que sofreu um vento adverso.
Cristal que me cegou quando te quis,
Luxúria do teu corpo onde não estive.
E só faltou que tu fosses feliz
Nesse intervalo breve em que te tive....
1 132
Francisco Carvalho
Lavoura
As minhas mãos
já foram robustas
já plantaram
sementes de milho
nas terras dos filisteus
hoje só semeiam
as lavouras do adeus.
já foram robustas
já plantaram
sementes de milho
nas terras dos filisteus
hoje só semeiam
as lavouras do adeus.
2 263
Carlos Drummond de Andrade
Praça da Liberdade Sem Amor
I
A praça dos namorados
é a praça do poder.
Saudades de Ouro Preto lacrimejam
entre penhascos de cimento
e o desejo (frustrado) de pegar na tua mão.
O guarda viu?
E se o bonde passar, com o pai da moça,
no flagrante do gesto?
Sopra na praça um vento de telégrafo.
No cerne do palácio, o homem invisível
espalha coletores
juízes
delegados militares
sobre as serranias mais enevoadas.
Chegam, chapéu preto — terno preto, os coronéis
para a súplica e a ronha de pigarro.
Não olham o verde, vão direto.
O lago não reflete
senão a renda de silêncio
que paira sobre a hora embalsamada.
Entram. Sussurram.
Ungidos saem para os municípios.
(Coreto?
A música estilhaça tico-ticos,
mas é só uma ruga, no domingo.)
À noite, todas as noites, impreterível,
a lua amortalha o poder, os canteiros, os guardas
em gelada mansuetude. O amor, sempre iludido,
espera amanhã pegar na tua mão.
II
Tambores (já contei).
Evém o Rei, na armadura de herói de Flandres.
Carece recebê-lo em francês, com todas as honras,
ameninando a praça do poder.
Para longe os penhascos de mentira,
os itacolumis nostálgicos,
o timbre ouro-pretano amortecido.
A divina simetria explode em rosas,
repuxos a Le Nôtre
sem Le Nôtre.
Passa o Rei, passa a Rainha,
passa a ilustre comitiva,
as festas belgas passam, e começa
o footing ritmado dos vestidos.
Vitrina movente, vai e volta.
Não lhes toquem, porém, às namoradas
de sapatos brancos, branquejando
na aleia retilínea
sob as vistas de irmãos abengalados.
Será sempre, na praça poderosa
o não poder pegar a tua mão?
Quantos anos à espera neste banco
que se vai corroendo, enquanto a rosa
em desejo na haste é já ferrugem
e, no palácio, outro (invisível) homem
despacha delegados infinitos
para infinitos burgos dominados?
A mão vazia alisa o banco e tua ausência.
A praça dos namorados
é a praça do poder.
Saudades de Ouro Preto lacrimejam
entre penhascos de cimento
e o desejo (frustrado) de pegar na tua mão.
O guarda viu?
E se o bonde passar, com o pai da moça,
no flagrante do gesto?
Sopra na praça um vento de telégrafo.
No cerne do palácio, o homem invisível
espalha coletores
juízes
delegados militares
sobre as serranias mais enevoadas.
Chegam, chapéu preto — terno preto, os coronéis
para a súplica e a ronha de pigarro.
Não olham o verde, vão direto.
O lago não reflete
senão a renda de silêncio
que paira sobre a hora embalsamada.
Entram. Sussurram.
Ungidos saem para os municípios.
(Coreto?
A música estilhaça tico-ticos,
mas é só uma ruga, no domingo.)
À noite, todas as noites, impreterível,
a lua amortalha o poder, os canteiros, os guardas
em gelada mansuetude. O amor, sempre iludido,
espera amanhã pegar na tua mão.
II
Tambores (já contei).
Evém o Rei, na armadura de herói de Flandres.
Carece recebê-lo em francês, com todas as honras,
ameninando a praça do poder.
Para longe os penhascos de mentira,
os itacolumis nostálgicos,
o timbre ouro-pretano amortecido.
A divina simetria explode em rosas,
repuxos a Le Nôtre
sem Le Nôtre.
Passa o Rei, passa a Rainha,
passa a ilustre comitiva,
as festas belgas passam, e começa
o footing ritmado dos vestidos.
Vitrina movente, vai e volta.
Não lhes toquem, porém, às namoradas
de sapatos brancos, branquejando
na aleia retilínea
sob as vistas de irmãos abengalados.
Será sempre, na praça poderosa
o não poder pegar a tua mão?
Quantos anos à espera neste banco
que se vai corroendo, enquanto a rosa
em desejo na haste é já ferrugem
e, no palácio, outro (invisível) homem
despacha delegados infinitos
para infinitos burgos dominados?
A mão vazia alisa o banco e tua ausência.
949
Carlos Drummond de Andrade
Dormitório
Noite azul-baça no dormitório onde três lâmpadas
de tom velado controlam minha ensimesmada quietude.
Que faço aqui, longe de Minas e meus guardados,
neste castelo de aulas contínuas e rezas longas?
Prisão de luxo, todo conforto, luz inspetora
de sonhos ilícitos. Joelho esticado: nenhuma saliência
a transgredir a horizontal postura de sono puro.
Fria Friburgo, mas aqui dentro a paz de feltro.
No azul mortiço de oitenta camas, boiam saudades
de longes Estados, distintas casas, tantas pessoas.
Incochilável, o irmão vigilante também passeia
sob cortinas sua memória particular?
Uns já roncando. O azul nublado envolve em rendas
de morte vaga os degredados filhos-família.
Fugir, nem penso. Mas fujo insone, meu pensamento
alcança o longe, apalpo-me egresso do grande cárcere.
Vou correndo, vou voando,
chego em casa de surpresa,
assusto meu pai-e-mãe:
— Não quero, não quero mais,
não quero mais voltar lá.
(É tudo que sai da boca,
é tudo que sei dizer.)
— Que papelão!
Se não voltar, te castigo,
te deserdo, te renego.
O dinheiro posto fora,
as esperanças frustradas,
botarei na tua conta
em cifras de maldição.
— O que o senhor fizer
está bem feito, acabou-se,
mas não me tire de junto
da família e do meu quarto.
Me ponha tangendo gado
ou pregando ferradura,
me faça catar café,
aos capados dar lavagem,
mas eu não volto mais lá.
É bom demais para mim,
é tudo superior,
mas lá eu sou infeliz,
lá eu aprendo obrigado,
não por gosto de aprender.
Tem hora de liberdade
e hora de cativeiro,
mas a segunda é total,
a primeira, imaginária.
Tem hora de se explicar,
hora de pedir desculpa,
hora de ganhar medalha,
hora de engolir chacota
(é a hora de ler a nota
do nosso comportamento),
hora de não reclamar,
hora de…
Por Deus, não quero voltar
a esse estranho paraíso
calçado de pão de ló,futebol e humilhação.
— Já disse: está decidido.
Some da minha presença.
— Papai!…
A tosse ao lado me traz de volta ao azul-penumbra.
Quando termina, se é que termina, o meu exílio?
Que tempo é novembro, se ainda há novembro no calendário?
Na noite infinda, por que minha noite ainda é maior?
Fugir não adianta. Não adianta senão: dormir.
de tom velado controlam minha ensimesmada quietude.
Que faço aqui, longe de Minas e meus guardados,
neste castelo de aulas contínuas e rezas longas?
Prisão de luxo, todo conforto, luz inspetora
de sonhos ilícitos. Joelho esticado: nenhuma saliência
a transgredir a horizontal postura de sono puro.
Fria Friburgo, mas aqui dentro a paz de feltro.
No azul mortiço de oitenta camas, boiam saudades
de longes Estados, distintas casas, tantas pessoas.
Incochilável, o irmão vigilante também passeia
sob cortinas sua memória particular?
Uns já roncando. O azul nublado envolve em rendas
de morte vaga os degredados filhos-família.
Fugir, nem penso. Mas fujo insone, meu pensamento
alcança o longe, apalpo-me egresso do grande cárcere.
Vou correndo, vou voando,
chego em casa de surpresa,
assusto meu pai-e-mãe:
— Não quero, não quero mais,
não quero mais voltar lá.
(É tudo que sai da boca,
é tudo que sei dizer.)
— Que papelão!
Se não voltar, te castigo,
te deserdo, te renego.
O dinheiro posto fora,
as esperanças frustradas,
botarei na tua conta
em cifras de maldição.
— O que o senhor fizer
está bem feito, acabou-se,
mas não me tire de junto
da família e do meu quarto.
Me ponha tangendo gado
ou pregando ferradura,
me faça catar café,
aos capados dar lavagem,
mas eu não volto mais lá.
É bom demais para mim,
é tudo superior,
mas lá eu sou infeliz,
lá eu aprendo obrigado,
não por gosto de aprender.
Tem hora de liberdade
e hora de cativeiro,
mas a segunda é total,
a primeira, imaginária.
Tem hora de se explicar,
hora de pedir desculpa,
hora de ganhar medalha,
hora de engolir chacota
(é a hora de ler a nota
do nosso comportamento),
hora de não reclamar,
hora de…
Por Deus, não quero voltar
a esse estranho paraíso
calçado de pão de ló,futebol e humilhação.
— Já disse: está decidido.
Some da minha presença.
— Papai!…
A tosse ao lado me traz de volta ao azul-penumbra.
Quando termina, se é que termina, o meu exílio?
Que tempo é novembro, se ainda há novembro no calendário?
Na noite infinda, por que minha noite ainda é maior?
Fugir não adianta. Não adianta senão: dormir.
1 159
Firmino Rodrigues da Silva
Nénia
Niterói, Niterói, que é do sorriso
Donoso de ventura, que teus lábios
Outrora enfeitiçava? Cor de jambo
Pelo sol destes céus enrubescido
Já não são tuas faces; nem teus olhos
Lampejam de alegria. — Que é da coroa
De madressilva, de cecéns e rosas,
Que a fronte engrinaldava? — Ei-la de rojo
Trespassada de pranto, e as flores murchas
Mirradas pelo sopro do infortúnio.
De teus formosos olhos se desatam
Dois arroios de lágrimas; — tu choras,
Desventurada mãe, a perda infausta
Do filho teu amado; e que outro filho
Mais sincero chorar há merecido?!
Da noite o furacão prostrou tremendo
Audaz Jequitibá, que ainda na infância
Com a cima excelsa devassava os céus!
— Eu o vi pelos raios matutinos
Do sol apenas nado, auritingido
Ainda sepulta em trevas a floresta!
Eu o vi, e asilou-me a sua sombra.
Também sou filho teu, oh minha pátria,
E o melhor dos amigos hei perdido,
Da minha guarda o anjo... eia deixemos
Amargurado pranto deslizar-se
Por faces, onde o riso só folgara:
Que ele mitigue dor que não tem cura!
Eu disse; — e majestosa e bela ergueu-se
A princesa do vale... Ei-la que os olhos
Crava nos céus, e aos céus as mãos levanta;
De tanta desventura enternecida
A viração da tarde parecia
Com ela suspirar, gemer-lhe em torno,
As luzidias tranças esparzindo-lhe
Pelo moreno colo tão formoso.
O Sol já descambava pra o ocidente,
E em cima das montanhas semelhando
Um círio aceso pela mão dos séculos
A fronte iluminava-lhe: — direis
Que da maternidade o gênio augusto,
Ante do Eterno as aras majestosas
Que a natureza por si mesmo erguera,
Sobrepondo à montanha altos serros,
Lenitivo a seus males implorava.
— Oh! que mais lhe restava no infortúnio,
Senão volver pra o céu olhos maternos,
Para o céu, derradeiro, único abrigo,
Onde a esperança de vê-lo se acoitava? —
Ouvi que ela dizia:
"— Oh! meu filho,
Entre milhares filho o mais prezado;
Oh! meu anjo, por que me abandonaste?
Ainda ontem pendente do meu seio
Com sorrisos aos beijos respondias
Que amor de mãe nos lábios te arroiava.
De mil aromas perfumada a brisa
Embalava teu berço na palmeira,
E as rosas das campinas desfolhavam-se,
Porque teu vímeo leito amaciassem:
Oh! de meus filhos, filho o mais prezado;
Oh! meu anjo, por que me abandonaste?...
Ao donoso raiar da juventude
Vi-o mais belo do que o sol de julho
Que, desfeita a neblina, alto resplende!
De louro mel os lábios borrifou-lhe
Mimosa jataí; — branca açucena
Mais cândida não era que seu peito, —
Puro como os desejos dá inocência
Ingênua simpatia lhe esparzira
Um não sei quê de amável no semblante,
Que vê-lo era prezá-lo; — a fronte augusta
Traía o gênio que alma lhe acendia...
Oh! de meus filhos ufania e glória,
Oh! meu anjo, por que me abandonaste? —
Que é feito do condor que o vôo ardido
Arrojava por cima desses Andes?
Dos céus nas sendas transviou-se acaso?
...................................... Ai! quão triste,
Quão sozinha deixou-me na floresta,
Gemendo de saudade! Vem, meu filho,
Consolo de meus males, minha esperança;
Oh! meu anjo, por que me abandonaste? —
Tal como o rouco som das rotas vagas
Que contra as penedias bramam fúrias
Confuso burburinho ao longe ecoa
De gente que aproxima: — Ei-los — meus filhos,
Seus semblantes são pálidos; o gênio
Lampeja nos seus olhos cintilantes!
— Marchai avante, prole de esperança,
À glória, à glória, que o futuro é nosso... —
Mas que é dele? Não vai na vossa frente!
Ohl que é feito do rei da mocidade,
Tupá, Tupá, oh numem de meus pais!
Qual majestoso Chimborazo, esbelto
Alcantilado colo dentre os picos
Dos desvairados Andes, oh meu filho,
Em meio dessas turmas avultavas —
Oh Tupá, oh Tupá, que mal te hei feito!
Não guiarei a turma das donzelas
Quando coréias rápidas tecendo
Por princesa dos jogos me aclamarem.
— Minhas irmãs, eu lhes direi, deixai-me
Na solidão chorar minhas desgraças;
Sem dó, nem compaixão, roubou-me a morte
Do meu cocar a pena mais mimosa;
A jóia peregrina do meu cinto,
O lírio mais formoso das campinas,
O lume de meus olhos! — Oh meu filho,
Ainda canta a araponga, e o rio volve
Na ruiva areia a lôbrega corrente;
Ainda retouca a laranjeira a coma
Verde-negra de flores alvejantes;
E tu já não existes! ..............................
Primeiro volverão séculos e séculos
Que outra palmeira tão gentil se ostente
Nestas florestas altas, gigantescas!
Como estalarão tantas esperanças
Num momento de dor! — Eia, dizei-mo,
Erguidas serras, broncas penedias
Oh! Tupá, oh Tupá, que mal te hei feito?!...
Não pude mais dizer... por entre as matas
Como um sonho ligeira a vi sumir-se.
E o oco som das vagas nos cachopos,
E o sibilo dos ventos nas florestas,
E o eco das montanhas, e o dos vales,
A modo que num coro majestoso
Ainda as últimas queixas repetiam:
Oh! Tupá! Oh! Tupá! que mal te hei feito
Donoso de ventura, que teus lábios
Outrora enfeitiçava? Cor de jambo
Pelo sol destes céus enrubescido
Já não são tuas faces; nem teus olhos
Lampejam de alegria. — Que é da coroa
De madressilva, de cecéns e rosas,
Que a fronte engrinaldava? — Ei-la de rojo
Trespassada de pranto, e as flores murchas
Mirradas pelo sopro do infortúnio.
De teus formosos olhos se desatam
Dois arroios de lágrimas; — tu choras,
Desventurada mãe, a perda infausta
Do filho teu amado; e que outro filho
Mais sincero chorar há merecido?!
Da noite o furacão prostrou tremendo
Audaz Jequitibá, que ainda na infância
Com a cima excelsa devassava os céus!
— Eu o vi pelos raios matutinos
Do sol apenas nado, auritingido
Ainda sepulta em trevas a floresta!
Eu o vi, e asilou-me a sua sombra.
Também sou filho teu, oh minha pátria,
E o melhor dos amigos hei perdido,
Da minha guarda o anjo... eia deixemos
Amargurado pranto deslizar-se
Por faces, onde o riso só folgara:
Que ele mitigue dor que não tem cura!
Eu disse; — e majestosa e bela ergueu-se
A princesa do vale... Ei-la que os olhos
Crava nos céus, e aos céus as mãos levanta;
De tanta desventura enternecida
A viração da tarde parecia
Com ela suspirar, gemer-lhe em torno,
As luzidias tranças esparzindo-lhe
Pelo moreno colo tão formoso.
O Sol já descambava pra o ocidente,
E em cima das montanhas semelhando
Um círio aceso pela mão dos séculos
A fronte iluminava-lhe: — direis
Que da maternidade o gênio augusto,
Ante do Eterno as aras majestosas
Que a natureza por si mesmo erguera,
Sobrepondo à montanha altos serros,
Lenitivo a seus males implorava.
— Oh! que mais lhe restava no infortúnio,
Senão volver pra o céu olhos maternos,
Para o céu, derradeiro, único abrigo,
Onde a esperança de vê-lo se acoitava? —
Ouvi que ela dizia:
"— Oh! meu filho,
Entre milhares filho o mais prezado;
Oh! meu anjo, por que me abandonaste?
Ainda ontem pendente do meu seio
Com sorrisos aos beijos respondias
Que amor de mãe nos lábios te arroiava.
De mil aromas perfumada a brisa
Embalava teu berço na palmeira,
E as rosas das campinas desfolhavam-se,
Porque teu vímeo leito amaciassem:
Oh! de meus filhos, filho o mais prezado;
Oh! meu anjo, por que me abandonaste?...
Ao donoso raiar da juventude
Vi-o mais belo do que o sol de julho
Que, desfeita a neblina, alto resplende!
De louro mel os lábios borrifou-lhe
Mimosa jataí; — branca açucena
Mais cândida não era que seu peito, —
Puro como os desejos dá inocência
Ingênua simpatia lhe esparzira
Um não sei quê de amável no semblante,
Que vê-lo era prezá-lo; — a fronte augusta
Traía o gênio que alma lhe acendia...
Oh! de meus filhos ufania e glória,
Oh! meu anjo, por que me abandonaste? —
Que é feito do condor que o vôo ardido
Arrojava por cima desses Andes?
Dos céus nas sendas transviou-se acaso?
...................................... Ai! quão triste,
Quão sozinha deixou-me na floresta,
Gemendo de saudade! Vem, meu filho,
Consolo de meus males, minha esperança;
Oh! meu anjo, por que me abandonaste? —
Tal como o rouco som das rotas vagas
Que contra as penedias bramam fúrias
Confuso burburinho ao longe ecoa
De gente que aproxima: — Ei-los — meus filhos,
Seus semblantes são pálidos; o gênio
Lampeja nos seus olhos cintilantes!
— Marchai avante, prole de esperança,
À glória, à glória, que o futuro é nosso... —
Mas que é dele? Não vai na vossa frente!
Ohl que é feito do rei da mocidade,
Tupá, Tupá, oh numem de meus pais!
Qual majestoso Chimborazo, esbelto
Alcantilado colo dentre os picos
Dos desvairados Andes, oh meu filho,
Em meio dessas turmas avultavas —
Oh Tupá, oh Tupá, que mal te hei feito!
Não guiarei a turma das donzelas
Quando coréias rápidas tecendo
Por princesa dos jogos me aclamarem.
— Minhas irmãs, eu lhes direi, deixai-me
Na solidão chorar minhas desgraças;
Sem dó, nem compaixão, roubou-me a morte
Do meu cocar a pena mais mimosa;
A jóia peregrina do meu cinto,
O lírio mais formoso das campinas,
O lume de meus olhos! — Oh meu filho,
Ainda canta a araponga, e o rio volve
Na ruiva areia a lôbrega corrente;
Ainda retouca a laranjeira a coma
Verde-negra de flores alvejantes;
E tu já não existes! ..............................
Primeiro volverão séculos e séculos
Que outra palmeira tão gentil se ostente
Nestas florestas altas, gigantescas!
Como estalarão tantas esperanças
Num momento de dor! — Eia, dizei-mo,
Erguidas serras, broncas penedias
Oh! Tupá, oh Tupá, que mal te hei feito?!...
Não pude mais dizer... por entre as matas
Como um sonho ligeira a vi sumir-se.
E o oco som das vagas nos cachopos,
E o sibilo dos ventos nas florestas,
E o eco das montanhas, e o dos vales,
A modo que num coro majestoso
Ainda as últimas queixas repetiam:
Oh! Tupá! Oh! Tupá! que mal te hei feito
3 127
Arsenii Tarkovskii
Cai a noite sobre as montanhas da Geórgia;
Cai a noite sobre as montanhas da Geórgia;
À minha frente ruge o Aragva.
Estou em paz e triste; há um lampejo em meus suspiros,
Meus suspiros são todos teus,
Teus, e de mais ninguém... Minha melancolia
Está insensível a angústias e apreensões,
E meu coração arde e ama mais uma vez,
Pois nada pode fazer além de amar.
Todo instante que passávamos juntos
Era uma celebração, uma Epifania,
No mundo inteiro, nós os dois sozinhos.
Eras mais audaciosa, mais leve que a asa de um pássaro,
Estonteante como uma vertigem, corrias escada abaixo
Dois degraus por vez, e me conduzias
Por entre lilases úmidos, até teu domínio
No outro lado, para além do espelho.
Enquanto isso o destino seguia nossos passos
Como um louco de navalha na mão.
Arseni Tarkóvski (1907 - 1989)
1 248
Carlos Drummond de Andrade
Vida Vidinha
A solteirona e seu pé de begônia
a solteirona e seu gato cinzento
a solteirona e seu bolo de amêndoas
a solteirona e sua renda de bilro
a solteirona e seu jornal de modas
a solteirona e seu livro de missa
a solteirona e seu armário fechado
a solteirona e sua janela
a solteirona e seu olhar vazio
a solteirona e seus bandós grisalhos
a solteirona e seu bandolim
a solteirona e seu noivo-retrato
a solteirona e seu tempo infinito
a solteirona e seu travesseiro
ardente, molhado
de soluços.
a solteirona e seu gato cinzento
a solteirona e seu bolo de amêndoas
a solteirona e sua renda de bilro
a solteirona e seu jornal de modas
a solteirona e seu livro de missa
a solteirona e seu armário fechado
a solteirona e sua janela
a solteirona e seu olhar vazio
a solteirona e seus bandós grisalhos
a solteirona e seu bandolim
a solteirona e seu noivo-retrato
a solteirona e seu tempo infinito
a solteirona e seu travesseiro
ardente, molhado
de soluços.
1 571
Fernanda dos Santos
Vai
Vai-me o pensamento
voa longe
vive a flutuar
Navega
carrega
sossega
essa minha saudade de amar !
voa longe
vive a flutuar
Navega
carrega
sossega
essa minha saudade de amar !
890
Fabio Valor Caldas
Janela
Foi da janela do meu quarto
Que te vi pela primeira e última vez,
Com o meu olhar sonolento
Observava a tua presença.
Seus cabelos brincando com o vento,
E seus olhos distraídos,
Suas pernas em passos frágeis,
E seus belos movimentos perdidos.
Uma passo gracioso saindo da calçada,
No momento em que um alegre
passarinho cantava em seu cortejo,
E você apenas caminhava...
Até que o carro te surpreendeu,
Derrubou-te no chão
Sujando tudo de sangue,
Levando sua alma para longe de mim.
Que te vi pela primeira e última vez,
Com o meu olhar sonolento
Observava a tua presença.
Seus cabelos brincando com o vento,
E seus olhos distraídos,
Suas pernas em passos frágeis,
E seus belos movimentos perdidos.
Uma passo gracioso saindo da calçada,
No momento em que um alegre
passarinho cantava em seu cortejo,
E você apenas caminhava...
Até que o carro te surpreendeu,
Derrubou-te no chão
Sujando tudo de sangue,
Levando sua alma para longe de mim.
932
Flávio Villa-Lobos
Legados
Velejo por entre correntes marítimas
que o navio do destino
faz balançar,
arrastando meu sonho
em torvelinho, rumo às águas profundas
do imensurável mar.
As ondas eram pequenas,
pequeno era meu desejo de amar.
Quando me libertei da timidez
era tarde, tarde demais.
As ondas viraram vagas, vagalhões
e afundaram meu barco de papel.
As estrelas da anunciação
- que brilhavam como sóis
no mapa do céu -
apagaram-se todas.
Levaram com elas
o caminho do sonho acalentado
- inútil saber se sobreviveu.
Restou a figura do vento bravo
ventania carregando ao léu
minhas lágrimas velozes,
deixando-me apenas
um olhar vago,
eternamente escravo
do que não aconteceu.
que o navio do destino
faz balançar,
arrastando meu sonho
em torvelinho, rumo às águas profundas
do imensurável mar.
As ondas eram pequenas,
pequeno era meu desejo de amar.
Quando me libertei da timidez
era tarde, tarde demais.
As ondas viraram vagas, vagalhões
e afundaram meu barco de papel.
As estrelas da anunciação
- que brilhavam como sóis
no mapa do céu -
apagaram-se todas.
Levaram com elas
o caminho do sonho acalentado
- inútil saber se sobreviveu.
Restou a figura do vento bravo
ventania carregando ao léu
minhas lágrimas velozes,
deixando-me apenas
um olhar vago,
eternamente escravo
do que não aconteceu.
904
Lois Pereiro
Luz e sombras de amor resucitado
Tristemente convivo coa túa ausencia
sobrevivo á distancia que nos nega
mentres bordeo a fronteira entre dous mundos
sen decidir cal deles pode darme
a calma que me esixo para amarte
sen sufrir pola túa indiferencia
a miña retirada preventiva
dunha batalla que xa sei perdida
resolto a non entrar xamais en ti
pero non á tortura de evitarte.
sobrevivo á distancia que nos nega
mentres bordeo a fronteira entre dous mundos
sen decidir cal deles pode darme
a calma que me esixo para amarte
sen sufrir pola túa indiferencia
a miña retirada preventiva
dunha batalla que xa sei perdida
resolto a non entrar xamais en ti
pero non á tortura de evitarte.
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