Poemas neste tema

Saudade e Ausência

Américo Gomes

Américo Gomes

Cibertolo

Eu ja fui um internauta
Som de modem, som de flauta
Cibernauta digital

Surfava toda a Web
Mails mandava, vocaltec
minha serva, listserv

Era minha companheira
por entre roteadores

Mas o teclado era frio
Eu era peixe sem rio, sem açude, sem maré

Voltei a sair à rua
Abracar a noite nua
As madrugadas sem fim

Cebertolo, cibernada
Mais vale um boa amada
No gibabaite da rede

Não essa de navegar
A rede de balançar
No singelo vai e vem

E quem quiser internet
Ficar inerme internado
Pelas redes virtuais

Fique aí, não diga nada
Pois nessa rede safada
Embora Gates agite
Não arrumei namorada
Fiquei na superestrada
E uma baita tendinite

825
Alfredo José Assunção

Alfredo José Assunção

Lembranças

Um violino, uma mulher.Um trago, uma dose.Um alguém que não quis.

Este alguém que me falta.esta luz que perdi,é o violino sozinho.Sou uma orquestra sem solo.

O beijo que bebiaé a dose que não tenho.O trago, transe maior,é o gozo que me foste.

Sem ti sou tão só!...Masturbo lembrançasde um violino, uma mulher,um trago, uma dose...

1 040
Antonio Ferreira dos Santos Júnior

Antonio Ferreira dos Santos Júnior

Pressentida Saudade

Pressentida saudade
Deste presente
Nos longes do meu futuro.

Corpo que apalpo
E que enlaço
E que prevejo a perda.

A saudade futura
Me oprime o presente
Que vivo.

956
Angela Santos

Angela Santos

Alvorecer

Será
nos olhos desse ser amado
que renascerei,
certa como a alvorada
que regressa após a escuridão

Será no corpo do ser amado
que despertarei de um sono antigo
onde esquecida me achei

Será no toque desse ser que eu amo
que minha pele saberá
porque desfiei esperas
e entorpeci a tristeza
inscrita nessa longa ausência
de a não ter só que fosse
ao alcance do olhar

No incêndio dos nossos corpos
o meu ser despertará,
Fénix que de novo voa a caminho da alvorada
indicando esse lugar onde seremos inteiras
corpo.. alma … coração
sem tempo que nos separe ou espaço de permeio
ao alcance do olhar ainda mais perto da mão,
tão simplesmente ficar
deitadas no mesmo chão.

1 131
Castro Alves

Castro Alves

A UMA ESTRANGEIRA

lembrança de uma noite no mar

Sens-tu mon coeur, comme tl palpite?
Le tien comme il battait gaiement!
Je men vais pourtant, ma petite,
Bien loin, bien vite,
Toujours taimant.
(Chanson)

Inês! nas terras distantes,
Aonde vives talvez,
Inda lembram-te os instantes
Daquela noite divina?...
Estrangeira, peregrina,
Quem sabes? — Lembras-te, Inês?

Branda noite! A noite imensa
Não era um ninho? — Talvez!...
Do Atlântico a vaga extensa
Não era um berço? — Oh! Se o era...
Berço e ninho... ai, primavera!
O ninho, o berço de Inês.

Às vezes estremecias...
Era de febre? Talvez...
Eu pegava-te as mãos frias
Pra aquentá-las em meus beijos...
Oh! palidez! Oh! desejos!
Oh! longos cílios de Inês.

Na proa os nautas cantavam;
Eram saudades?... Talvez!
Nossos beijos estalavam
Como estala a castanhola...
Lembras-te acaso, espanhola?
Acaso lembras-te, Inês?

Meus olhos nos teus morriam. . .
Seria vida? — Talvez!
E meus prantos te diziam:
"Tu levas minhalma, ó filha,
Nas rendas desta mantilha...
Na tua mantilha, Inês!"

De Cadiz o aroma ainda
Tinhas no seio. . . — Talvez!
De Buenos Aires a linda,
Volvendo aos lares, trazia
As rosas de Andaluzia
Nas lisas faces de Inês!

E volvia a Americana
Do Plata às vagas... Talvez?
E a brisa amorosa, insana
Misturava os meus cabelos
Aos cachos escuros, belos,
Aos negros cachos de Inês!

As estrelas acordavam
Do fundo do mar... Talvez!
Na proa as ondas cantavam,
E a serenata divina
Tu, com a ponta da botina,
Marcavas no chão... Inês!

Não era cumplicidade
Do céu, dos mares? Talvez!
Dir-se-ia que a imensidade
— Conspiradora mimosa —
Dizia à vaga amorosa:
"Segreda amores a Inês!"

E como um véu transparente,
Um véu de noiva... talvez,
Da lua o raio tremente
Te enchia de casto brilho...
E a rastos no tombadilho
Caía a teus pés... Inês!

E essa noite delirante
Pudeste esquecer? — TaIvez...
Ou talvez que neste instante,
Lembrando-te inda saudosa,
Suspires, moça formosa!...
Talvez te lembres... Inês!

2 486
Castro Alves

Castro Alves

HINO AO SONO

Ó sono! ó noivo pálido
Das noites perfumosas,
Que um chão de nebulosas
Trilhas pela amplidão!
Em vez de verdes pâmpanos,
Na branca fronte enrolas
As lânguidas papoulas,
Que agita a viração.

Nas horas solitárias,
Em que vagueia a lua,
E lava a planta nua
Na onda azul do mar,
Com um dedo sobre os lábios
No vôo silencioso,
Vejo-te cauteloso
No espaço viajar!

Deus do infeliz, do mísero!
Consolação do aflito!
Descanso do precito,
Que sonha a vida em ti!
Quando a cidade tétrica
De angústia e dor não geme...
É tua mão que espreme
A dormideira ali.

Em tua branca túnica
Envolves meio mundo...
E teu seio fecundo
De sonhos e visões,
Dos templos aos prostíbulos,
Desde o tugúrio ao Paço,
Tu lanças lá do espaço
Punhados de ilusões! ...

Da vide o sumo rúbido,
Do hatchiz a essência,
O ópio, que a indolência
Derrama em nosso ser,
Não valem, gênio mágico,
Teu seio, onde repousa
A placidez da lousa
E o gozo de viver...

O sono! Unge-me as pálpebras...
Entorna o esquecimento
Na luz do pensamento,
Que abrasa o crânio meu.
Como o pastor da Arcádia,
Que uma ave errante aninha...
Minhalma é uma andorinha...
Abre-lhe o seio teu.

Tu, que fechaste as pétalas
Do lírio, que pendia,
Chorando a luz do dia
E os raios do arrebol,
Também fecha-me as pálpebras...
Sem Ela o que é a vida?
Eu sou a flor pendida
Que espera a luz do sol.

O leite das eufórbias
Pra mim não é veneno...
Ouve-me, ó Deus sereno!
Ó Deus consolador!
Com teu divino bálsamo
Cala-me a ansiedade!
Mata-me esta saudade,
Apaga-me esta dor.

Mas quando, ao brilho rútilo
Do dia deslumbrante,
Vires a minha amante
Que volve para mim,
Então ergue-me súbito...
É minha aurora linda...
Meu anjo... mais ainda...
É minha amante enfim!

Ó sono! Ó Deus noctívago!
Doce influência amiga!
Gênio que a Grécia antiga
Chamava de Morfeu,
Ouve!...E se minhas súplicas
Em breve realizares...
Voto nos teus altares
Minha lira de Orfeu!

3 013
Castro Alves

Castro Alves

VERSOS A UM VIAJANTE

Ai! nenhum mago da Caldéia sábia
A dor abrandará que me devora.
F. Varela

Tenho saudades das cidades vastas,
Dos ínvios cerros, do ambiente azul...
Tenho saudades dos cerúleos mares,
Das belas filhas do país do sul!

Tenho saudades de meus dias idos
— Pétlas perdidas em fatal paul —
Pétlas, que outrora desfolhamos juntos,
Morenas filhas do país do sul!

Lá onde as vagas nas areias rolam,
Bem como aos pés da Oriental Stambul...
E da Tijuca na nitente espuma
Banham-se as filhas do país do sul.

Onde ao sereno a magnólia esconde
Os pirilampos "de lanterna azul",
Os pirilampos, que trazeis nas coifas,
Morenas filhas do país do sul.

Tenho saudades... ai! de ti, São Paulo,
— Rosa de Espanha no hibernal Friul —
Quando o estudante e a serenata acordam
As belas filhas do país do sul.

Das várzeas longas, das manhãs brumosas,
Noites de névoas, ao rugitar do sul,
Quando eu sonhava nos morenos seios
Das belas filhas do país do sul.

1 962
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Dias são dias, e noites

Dias são dias, e noites
São noites e não dormi...
Os dias a não te ver
As noites pensando em ti.
1 921
Castro Alves

Castro Alves

O HÓSPEDE

Choro por ver que os dias passam breves
E te esqueces de mim quando tu fores;
Como as brisas que passam doudas, leves,
E não tornam atrás a ver as flores.
Teófilo Braga

Onde vais, estrangeiro! Por que deixas
O solitário albergue do deserto?
O que buscas além dos horizontes?
Por que transpor o píncaro dos montes,
Quando podes achar o amor tão perto?...

"Pálido moço! Um dia tu chegaste
De outros climas, de terras bem distantes...
Era noite!... A tormenta além rugia...
Nos abetos da serra a ventania
Tinha gemidos longos, delirantes.

"Uma buzina restrugiu no vale
Junto aos barrancos onde geme o rio...
De teu cavalo o galopar soava,
E teu cão ululando replicava
Aos surdos roncos do trovão bravio.

"Entraste! A loura chama do brasido
Lambia um velho cedro crepitante,
Eras tão triste ao lume da fogueira...
Que eu derramei a lágrima primeira
Quando enxuguei teu manto gotejante!

"Onde vais, estrangeiro? Por que deixas
Esta infeliz, misérrima cabana?
Inda as aves te afagam do arvoredo...
Se quiseres... as flores do silvedo
Verás inda nas tranças da serrana.

"Queres voltar a este país maldito
Onde a alegria e o riso te deixaram?
Eu não sei tua história... mas que importa?...
... Bóia em teus olhos a esperança morta
Que as mulheres de lá te apunhalaram.

"Não partas, não! Aqui todos te querem!
Minhas aves amigas te conhecem.
Quando à tardinha volves da colina
Sem receio da longa carabina
De lajedo em lajedo as corças descem!

"Teu cavalo nitrindo na savana
Lambe as úmidas gramas em meus dedos,
Quando a fanfarra tocas na montanha,
A matilha dos ecos te acompanha
Ladrando pela ponta dos penedos.

"Onde vais, belo moço? Se partires
Quem será teu amigo, irmão e pajem?
E quando a negra insônia te devora,
Quem, na guitarra que suspira e chora,
Há de cantar-te seu amor selvagem?

"A choça do desterro é nua e fria!
O caminho do exílio é só de abrolhos!
Que família melhor que meus desvelos?...
Que tenda mais sutil que meus cabelos
Estrelados no pranto de teus olhos? ...

"Estranho moço! Eu vejo em tua fronte
Esta amargura atroz que não tem cura.
Acaso fulge ao sol de outros países,
Por entre as balças de cheirosos lises,
A esposa que tua alma assim procura?

"Talvez tenhas além servos e amantes,
Um palácio em lugar de uma choupana,
E aqui só tens uma guitarra e um beijo,
E o fogo ardente de ideal desejo
Nos seios virgens da infeliz serranal. . ."
—————

No entanto Ele partiu!... Seu vulto ao longe
Escondeu-se onde a vista não alcança...
... Mas não penseis que o triste forasteiro
Foi procurar nos lares do estrangeiro
O fantasma sequer de uma esperança!...

1 908
Amélia Rodrigues

Amélia Rodrigues

Lembranças

Queria morrer
Em seus braços
Com o seu suor escorrendo
Pelo meu corpo...

Queria morrer
Ao seu lado
Com a sua vida animando
Os meus últimos suspiros...

Queria morrer
Amando
Pois assim não viveria
À espera da sua volta,
Sonhando com com o seu amor!

Queria morrer
Com a lembrança
Para não buscá-lo jamais!

Queria morrer
Enrodilhada
Em suas pernas,
Em seus braços,
E então não sofreria mais
Essa falta
Que você me faz.

Queria morrer
Feliz
E abandonar essa vida vazia...

Queria morrer
Assim
Já que não posso viver
Com você!

1 818
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Uma Distância de Sombra Sem Palavras

Uma distância de sombra sem palavras
Uma distância e uma palavra mas não era
a distância nem a sombra era só ela
ela na nudez da ausência ela só ela

Seria a terra o pé e a sombra do seu braço
já não era a pedra do seu peito mas a erva
a sua perfeição de sombra sobre o rosto
e o seu rosto nu o seu rosto sem sombra

Era a distância e o alto corpo frágil
na distância e na presença em sua água
com os frutos frágeis do seu ser e o medo
de ser tão pura no ardor de ser
1 140
Castro Alves

Castro Alves

Partida do meu Mestre do Coração

O Exmo. Sr. D. Antônio de Macedo Costa, Bispo do Pará

Oh! Que silêncio expressivo!
Que triste melancolia!
Tudo nos diz dores;
Tudo nos diz agonia!
Chora terno o caro mestre,
O disciplo também chora;
Que todos sofrem agora!

Apenas ouço soluços
Arrancados dentre prantos!
Tristes ais, filhos da dor,
Partidos de peitos tantos!
Frases puras que bem dizem
O sofrer, as aflições,
Que pungem tais corações!...

Mas por que todos conjuntos,
Estais assim a chorar?
Que motivo vossas almas
Pôde assim sensibilizar?
Que motivo vossos peitos
Faz assim starem sofrendo;
Tantas dores padecendo?

Ai! É que a ausência penosa
Já pouco tarda a chegar!
É que impiedoso o destino
Dos olhos vai nos roubar
O mestre, o mestre querido,
Que nos sabia ensinar
A nosso Deus adorar!

Ai! É que dentro em breve
(Talvez pra sempre, oh! meu Deus!)
Não possamos mais ouvir
Os santos conselhos seus!
Ele tão bom nos guiava
A salvo por entre a lida
Desta tão custosa vida!

Chora, bem triste, Ginásio,
Derrama pranto sem fim!
Ah! Chora que isto consola
A quem sofre dor assim!.
Chora, que não mais verás
Unido alegre contigo
O teu mestre, o teu amigo!

Chora, chora, meu Ginásio.
Eis a hora de partir,
Dhora em diante saudades
Cruéis vos hão de ferir!
Que a nós juntos como agora
Não mais há de alumiar
Este sol, que vês brilhar.

A pátria nos tira o mestre
É — nos preciso ceder;
Mas nos não proíbe o pranto,
Nem no-lo pode tolher;
Que então seria matar
Fé de amigo os sentimentos
E aumentar-nos os tormentos!...

Ginásio Baiano. 14 de julho de 1861.
O discípulo amigo do coração

1 763
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Aqui Ele Diz a Minha Única Pátria

Aqui ele diz a minha única pátria
era uma pedra era um lugar e uma sombra
não sei em qualquer parte agora não
havia a mão de alguém havia um corpo

e era a minha única pátria a minha sombra
era o que ele dizia a sua amiga
aquela pedra e sombra e árvore aquela amiga
era a sua única pátria agora não
1 084
Thereza Magalhães Pinto

Thereza Magalhães Pinto

Intransferível

Deixo exiladas
na distância do tempo
efêmero e rude
as lembranças do amor
que vive em mim e
exaltei mais do que pude.

Queixo-me calada
um saldar de profundo
escuro olhar de sensações
e luzes enfim
inexistentes.

Concentro-me
impiedosa, veemente
nos meus
séculos incríveis
de solidão total.

968
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Quem Me Deu o Braço E o Ombro E o Fruto

Quem me deu o braço e o ombro e o fruto
da água limpa do seu corpo ó quando
foi que te vi num espelho sem a sombra
no fulgor do espaço em teus cabelos claros

Todos te viram ninguém te viu e foi então que vi
eras tu não eras tu jamais e eras tu
e sem nome na tua boca sem tua boca
eu vivi na distância inerte e nu

Quem não me viu e me viu e deu o nome
que não havia ao domínio puro da água
quem foi a única que me ouviu que me ouve ainda
que sombra fresca ainda que sopro sobre mim
1 113
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Diana através dos ramos

Diana através dos ramos
Espreita a vinda de Endymion
Endymion que nunca vem,
Endymion, Endymion,
Lá longe na floresta…
E a sua voz chamando
Exclama através dos ramos
Endymion, Endymion…

Assim choram os deuses…
1 119
Jaumir Valença da Silveira

Jaumir Valença da Silveira

Fluminense FM

O sol, o céu e o sal;
onda cobrindo a areia.

Calçada, porrada, breu,
cerveja noite adentro.

Segredo tanto eu tenho,
só você que escutava,

acho que agora eu morro
um pouco sem tua voz

ouvido, garganta, língua,
sobra um pouco de nada.

Saudade de quem te acredita.
Adeus,
maldita.

959
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Em Hydra, Evocando Fernando Pessoa

Quando na manhã de Junho o navio ancorou em Hydra
(E foi pelo som do cabo a descer que eu soube que ancorava)
Saí da cabine e debrucei-me ávida
Sobre o rosto do real — mais preciso e mais novo do que o imaginado
Ante a meticulosa limpidez dessa manhã num porto
Ante a meticulosa limpidez dessa manhã num porto de uma ilha grega
Murmurei o teu nome
O teu ambíguo nome
Invoquei a tua sombra transparente e solene
Como esguia mastreação de veleiro
E acreditei firmemente que tu vias a manhã
Porque a tua alma foi visual até aos ossos
Impessoal até aos ossos
Segundo a lei de máscara do teu nome
Odysseus — Persona
Pois de ilha em ilha todo te percorreste
Desde a praia onde se erguia uma palmeira chamada Nausikaa
Até às rochas negras onde reina o cantar estridente das sereias
O casario de Hydra vê-se nas águas
A tua ausência emerge de repente a meu lado no deck deste barco
E vem comigo pelas ruas onde procuro alguém
Imagino que viajasses neste barco
Alheio ao rumor secundário dos turistas
Atento à rápida alegria dos golfinhos
Por entre o desdobrado azul dos arquipélagos
Estendido à popa sob o voo incrível
Das gaivotas de que o sol espalha impetuosas pétalas
Nas ruínas de Epheso na avenida que desce até onde esteve o mar
Ele estava à esquerda entre colunas imperiais quebradas
Disse-me que tinha conhecido todos os deuses
E que tinha corrido as sete partidas
O seu rosto era belo e gasto como o rosto de uma estátua roída pelo mar
Odysseus
Mesmo que me prometas a imortalidade voltarei para casa
Onde estão as coisas que plantei e fiz crescer
Onde estão as paredes que pintei de branco
Há na manhã de Hydra uma claridade que é tua
Há nas coisas de Hydra uma concisão visual que é tua
Há nas coisas de Hydra a nitidez que penetra aquilo que é olhado por um deus
Aquilo que o olhar de um deus tornou impetuosamente presente —
Na manhã de Hydra
No café da praça em frente ao cais vi sobre as mesas
Uma disponibilidade transparente e nua
Que te pertence
O teu destino deveria ter passado neste porto
Onde tudo se torna impessoal e livre
Onde tudo é divino como convém ao real
Hydra, Junho de 1970
3 840
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

O Impossível Grito

à Mila
Se eu pudesse caminhar com palavras lentas sóbrias
e se eu pudesse falar-te ou gritar
como um vento selvagem
se tu pudesses ver-me se eu te pudesse olhar
— aqui onde escrevo e nada principia
aqui onde o embate é nulo contra o bloco
onde se cerra o muro onde a ferida não fala

Nenhum impulso emerge do ilimite vazio
nenhum punho se ergue entre as pregas do abismo

Se escrevo ou falo ainda é o mutismo que fala
se olho é através de um não olhar
se prossigo sei que a minha sede é vã
onde estou é aquém de toda a origem
onde estás é além de todo o encontro

E todavia escrevo terminando onde escrevo
sem o gérmen que abriria o diálogo da água
sem a dissonância viva de quem está ainda algures
emparedado
e crê que um grito alguém ainda o ouviria

E todavia se escrevo é porque talvez espere
avançar entre os muros para uma praia secreta
que um sinal ilumine este deserto de cinza
que uma pergunta abale este bloco inamovível

Se eu pudesse falar-te através desta espessura
se tu pudesses ver-me se eu te pudesse olhar
oh quem pudera gritar como o vento selvagem
quem pudera desatar o nó oculto sempre
o nome oculto sempre!

Fui eu que enterrei o meu nome sob a pedra
Fui eu que me enterrei para sempre sob o nome
Tudo em mim é ausência ou um contacto vão

Por isso tu não me vês e eu não te vejo a ti
Mas se eu te escrevo ainda estas palavras nuas
estas palavras mais pobres do que a sombra vazia!

Não será este um caminho uma forma do grito?

Aqui onde escrevo algo principia
aqui o embate contra um bloco negro
aqui se abre um muro aqui a ferida fala
aqui designo a pedra da asfixia

A forma desgarrada de um grito flutua
1 006
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

A Caminho Na Ausência

à Ângela Maria
É talvez uma pedra ou talvez uma folha
uma pedra sem sombra uma folha sem sangue

Talvez o primeiro nome o primeiro grito
seja esta pedra ou esta folha ou este nome

Este é o único lado da sombra
mas qual é a ferida
de que lado é a boca
a sombra oculta um rosto
o muro terá uma boca?
onde é que a ferida fala?

A mão conhece a pedra
o lugar do silêncio
mas o frio desta pedra
a sombra desta folha
não desoculta o nome
e apenas no branco
um ombro se desenha
o ombro do muro e não do corpo

A sede desta boca sobre a página
não inicia o nome que a mão tacteia em vão
Onde é que a folha ou a boca sabe a sangue
onde está o sangue desta sombra?

A porta aonde bate a mão não soa
são pedras e folhas nomes sem o nome
abraço os braços mas são braços de terra
e a terra é uma palavra no papel

Digo árvore árvore como um grito
ou chamo as folhas o vento a terra o fogo
Onde é que o pulso vibra com a tensão do nome?
Onde é que pedra a pedra se diz o nome e a ferida?

O grito desenha um rasto na sombra das palavras
O corpo encontrará sobre os ossos das letras
a graça dos músculos a música da água?

O que resta é a ferida silenciosa
a pedra silenciosa
resíduos filamentos ervas palavras sombras
entre as folhas
uma lâmpada escura
entre as mãos
esta folha
esta folha
silenciosa

O quarto está vazio e o eco só responde
a palavras indistintas

Interrogo a página
a porta branca do vazio
Até a sede morreu junto ao poço de escombros
A mão desenha o gesto vão de afugentar
a própria mão
O pulso ainda palpita
e a boca ainda deseja

Mas a mão não desiste de tocar pedras sombras
as raízes duras das palavras escuras
as pálpebras vazias
e o vazio entre as letras
e nunca a serenidade do nome

Onde é o outro lado da sombra?
A mão busca entre as folhas a lâmpada clara
Há um caminho que conduz ao horizonte
à casa
onde as palavras repousam
e a ferida fala o seu nome obscuro

A ausência renasce sob cada palavra
Um paciente furor apossa-se do corpo
Um paciente furor rasga a folha violenta
arranca a primeira pedra
o primeiro passo
sobre a água
de uma boca outra boca outro corpo

O caminho não cessa entre esta mão
e a folha
A mão há-de encontrar a mão
novas palavras nascerão
sobre outros lábios noutro muro noutro caminho

E talvez o caminho seja o princípio sempre
Sempre a ausência e o desejo ardente
Sempre o grito a renascer da ferida silenciosa
Sempre o silêncio e o seu nome incessante
1 078
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Presença Ausência

a Jean Malrieu
Chamo-te chamo-te ao rés da terra
face de sombra e erva             Não és o rosto nem a
sombra do corpo
Chamo-te face de sombra
e erva
sem saber se te chamo
ou se escrevo apenas a sombra de uma palavra

Se te encontrasse diria esplendor     diria rosto
viveria como uma folha à sombra de uma folha

Tantas sombras sombras             Se escrever fosse
percorrer o teu corpo
ou as feridas em que a terra sangra

Que palavras são estas no deserto
que palavras tão lentas
tão pobres

Quando é que foste o esplendor
e os membros altos se juntavam lentos
chama sobre chama
boca contra boca?

Porquê estas palavras         estas sombras de pedra
pedras de sombra
jogos nulos no vazio da areia

Se te chamo não sei com que palavra
te acordarei
Que argila límpida
te moldará o rosto que olhos de água
me darão teu corpo na surpresa da terra

E todavia chamo-te na ténue pulsação destas palavras tão ténues como pálpebras de areia chamo-te sem saber se te vejo se

tu existes para aquém ou para além destas palavras
chamo-te com as ervas
com a sombra
com a água
com as pedras
com esta árvore de silêncio

Chamo-te com as mãos da terra

Mas não estarás tu sempre presente na ausência? Não serás tu a figura nula inacessível que vive no silêncio do espaço branco? Não sei já quem tu és se tens um corpo se escrever é perder-te ainda mais se caminho em vão ou se te encontro na própria perda se já te achei e te acho a cada passo

lâmpada branca
esparsa
nesta página
jovem braço
de um poema
em que posso escrever de novo
jardim
espaço
e ver os teus olhos
da cor do ar
1 153
Mário Donizete Massari

Mário Donizete Massari

Longa noite curta

O apito de um guarda noturno
O barulho de um cão que ladra à[distância
Um bêbado dizendo asneiras

O grilo entoa seu canto
A coruja desfaz seu encanto
O motor de um carro passando

O vagalume clareia o espaço
A borboleta pousa na flor
Os homens fazem amor

Nessa longa noite curta
Meu pensamento é você

532
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

A Imagem Que Conduz Ao Corpo

A mão dispersa na folhagem
a mão perdida a boca já exausta
onde tocar a pedra as sílabas da pedra?

Aqui uma sombra branca Não inicial
Este lugar inabitável não é o princípio nem o centro
Como alcançar o coração de alguma coisa
a substância o centro ou a terra do poema

Começo sem amor sempre demasiado cedo
Interrogo não um insecto nem uma pedra
Percorro um muro com um olhar cego
Estou tão longe da realidade como do poema
A distância é infinita Tu não estás aqui
E não sou eu e sou eu ainda Tudo é de menos
e de mais

A mão toca não um silêncio não as sílabas
de um corpo longo e fresco mas uma corrente
congelada uma parede árida calcinada

Como encontrar a imagem que conduz ao corpo
como percorrer as veias vivas do silêncio
e fazer-te estremecer os leves lábios?
Como estar sendo ser estando
junto à boca unida e firme
e trémula
do poema?

Se soubesse desenhar as linhas negras
que abrem a brancura completa
do corpo
que deixam entrever a espuma nos cabelos
no sulco que divide as amorosas pernas
onde o murmúrio permanece do sangue sob as mãos
escreveria as linhas intensas do poema?

As mãos completar-se-iam no perfil ardente
O presente seria o instante do abrigo imenso
A luz dos teus olhos banharia as palavras
e tu serias o corpo luminoso
com os membros libertos sob a água viva

Escrever seria amar-te? Seria
interromper este deserto limpar a ferida aberta?
Seria entrar no interior do centro fresco
percorrer essa praia que ninguém ainda pisou
beijar os teus sinais e a sede límpida
que desenha toda a chama alta do teu corpo?

Escrever seria estar contigo no interior da chama
beber o orvalho das palavras nos teus lábios?
No interior de um barco de folhagem verde
animado de um braço intensamente vivo
ligando-me cada vez mais à linguagem do teu corpo?

Estou já tão perto de ti que uma sombra soluça
Estou tão perto de ti que o poema principia
Toco as sílabas da pedra as sílabas do corpo
A minha língua arde sobre o teu ombro frágil
O perdão do teu olhar é o amor da luz
1 099
Mário Hélio

Mário Hélio

2 - II (Avis rara)

ser vontade de pássaro,
as asas adejar pelo infinito crocitante
e acenar aos mecenas de saturno
que eu também vôo!
mas é a fala que cala,
resvala no último ogro que há.
força mágica que assassina as estrelas,
riso de fogo que incendeia a alma,
no entanto feroz vejo-te calma,
e me olhas, eu te olho, e nos olhamos
num olhar patético e néscio até.
eu poderia dizer da tua voz doce e mansa
sáltria divina cavatina de delírio
sei porém que inadvertida
pela imagem da força da distância
irá impelida pelo amargor que envolve toda vida,
e tua boca que ora ri e me deleita
se abrirá como em rictus selvagem
sinto e pressinto
que ferirá minhalma
que busca a tua qual orfeu a amada
o teu olhar em negra claridade
ofuscando os sóis.

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