Poemas neste tema

Saudade e Ausência

Gilson Nascimento

Gilson Nascimento

Terceiro soneto aos invernos de outrora

Caminho que se perde no distante
Passado que eu supus haver morrido
Mas que surge, eu o sinto nesse instante
Dos pingos dessa chuva ressurgido

Cantar de chuva me comove, sim
Porque mergulha nalma sem demora
É cantiga - saudade, não tem fim
É sempre um despertar do meu outrora

Eu te bendigo, chuva boa, amiga
Minha emoção me roga que te diga
Um presente trouxeste – o meu passado

E ao te sentir de leve o abrandar
Vejo o HOJE de mim se aproximar
E do meu lume o sonho é apagado

866
Gilson Nascimento

Gilson Nascimento

Vento – Carinho

O mesmo vento - carinho
Que soprava antigamente
Entrando no meu caminho
Arrepia de mansinho
A nostalgia do ausente.

No arrepio toma conta
Da alma, do coração
Me percorre o corpo todo
Eu era velho, sou novo
Do vento à terna canção.

Mil saudades acordando
Num forte reavivar
Essa brisa vai girando
Ora lenta, ora acordada
A roda do recordar

Vento, pare, por favor
Deixe em paz minha emoção
Não mexa com a minha alma
O seu desejo é a calma
Jamais a recordação

919
Gilson Nascimento

Gilson Nascimento

Rosa imortal

Minha mãe, pálida e fria
Mudez no gesto, na fala
Minha mãe que já não reza
Minha mãe de olhar apagado
De mãos álgida, inúteis
Não acenam.
Não abençoam.

Riso sem cor – desbotado
Palavra inerte – não soa
Lábios murchos – não se abrem
Flores que o vento da morte
Despetalando, esboroa

Mãe partindo às horas mortas
Do porto alvo da aurora
Nos braços da madrugada
Sem despedida, sem laivo
De beijo, de abraço ou riso.

Mãe – flor que não emurchece
Não cresta, não perde o brilh
Rosa orvalhada de prece
No jardim da alma do filho.

748
Gilson Nascimento

Gilson Nascimento

Escorrego

Manhãzinha. Meu pai e eu saindo
De toalha rumamos nós sozinhos
Amiudar de galos. Sol sorrindo
Brisa mansa e sossego nos caminhos

Passada a nossa rua, a Guabiraba
Um dos bairros descalços da cidade
Cruzar de gente. O rumo é do mercado
Tudo é tão simples que me dá saudade

A bica do Escorrego. O corpo encaroçado
Uma mão me amparando – a imagem do cuidado
Evitando que a água o filho derrubasse

A volta, o dia claro, caminhando
E meu pai, satisfeito, me contando
Histórias várias de seu mundo antigo

O bar, o abafador, o café quente
O pão cheirando a forno à nossa frente
E o sol brincando réstias pelo chão

Esse tempo envelhece, mas não morre
Se fraqueja a saudade logo acorre
É amiga, é terna, é leve a sua mão

911
Florbela Espanca

Florbela Espanca

Esfinge

Sou filha da charneca erma e selvagem.
Os giestais, por entre os rosmaninhos,
Abrindo os olhos d’oiro, p’los caminhos,
Desta minh’alma ardente são a imagem.

Embalo em mim um sonho vão, miragem:
Que tu e eu, em beijos e carinhos,
Eu a Charneca e tu o Sol, sozinhos,
Fôssemos um pedaço de paisagem!

E à noite, à hora doce da ansiedade
Ouviria da boca do luar
O De Profundis triste da saudade...

E à tua espera, enquanto o mundo dorme,
Ficaria, olhos quietos, a cismar...
Esfinge olhando a planície enorme...
2 232
Florbela Espanca

Florbela Espanca

Noturno

Amor! Anda o luar todo bondade,
Beijando a terra, a desfazer-se em luz...
Amor! São os pés brancos de Jesus
Que andam pisando as ruas da cidade!

E eu ponho-me a pensar... Quanta saudade
Das ilusões e risos que em ti pus!
Traçaste em mim os braços duma cruz,
Neles pregaste a minha mocidade!

Minh’alma, que eu te dei, cheia de mágoas,
E nesta noite o nenúfar dum lago
’Stendendo as asas brancas sobre as águas!

Poisa as mãos nos meus olhos com carinho,
Fecha-os num beijo dolorido e vago...
E deixa-me chorar devagarinho...
3 105
Pablo Neruda

Pablo Neruda

Tarde - LXV

Matilde, onde estás? Notei, para baixo,
entre gravata e coração, acima,
certa melancolia intercostal:
era que de repente estavas ausente.


Fez-me falta a luz de tua energia
e olhei devorando a esperança,
olhei o vazio que é sem ti uma casa,
não ficam senão trágicas janelas.


De puro taciturno o teto escuta
cair antigas chuvas desfolhadas,
plumas, o que a noite aprisionou:


e assim te espero como casa só
e voltarás a ver-me e habitar-me.
De outro modo me doem as janelas.
1 159
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Passando a vida em ver passar a de outros,

Passando a vida em ver passar a de outros,
Botões de flor de um esforço nunca aberto
Na antiga semelhança com os deuses
        Que andam nos campos
A ensinar aos que as Parcas não ignoram
Como a vida se deve usar, e como
Há outro uso que agrícola dos campos
        E outro das fontes
Que beber delas na hora da sede.
Passando assim a vida, destruindo
O que fiamos ontem  (...)
        Penélopes tristes.
1 356
Florbela Espanca

Florbela Espanca

Cinzento

Poeiras de crepúsculos cinzentos,
Lindas rendas velhinhas, em pedaços,
Prendem-se aos meus cabelos, aos meus
[braçosComo brancos fantasmas, sonolentos...

Monges soturnos deslizando lentos,
Devagarinho, em mist’riosos passos...
Perde-se a luz em lânguidos cansaços...
Ergue-se a minha cruz dos desalentos!

Poeiras de crepúsculos tristonhos,
Lembram-me o fumo leve dos meus sonhos,
A névoa das saudades que deixaste!

Hora em que o teu olhar me deslumbrou...
Hora em que a tua boca me beijou...
Hora em que fumo e névoa te tornaste...
2 012
Florbela Espanca

Florbela Espanca

O Meu Mal

A meu irmão

Eu tenho lido em mim, sei-me de cor,
Eu sei o nome ao meu estranho mal:
Eu sei que fui a renda dum vitral,
Que fui cipreste, caravela, dor!

Fui tudo que no mundo há de maior:
Fui cisne, e lírio, e águia, e catedral!
E fui, talvez, um verso de Nerval,
Ou um cínico riso de Chamfort...

Fui a heráldica flor de agrestes cardos,
Deram as minhas mãos aroma aos nardos...
Deu cor ao eloendro a minha boca...

Ah! de Boabdil fui lágrima na Espanha!
E foi de lá que eu trouxe esta ânsia estranha,
Mágoa não sei de quê! Saudade louca!
2 033
Judas Isgorogota

Judas Isgorogota

Língua Portuguesa

Quando vieste de além, entre a incerteza
E o destemor dos teus, vestida vinhas
Da mais bela roupagem portuguesa!
Ah! quem te vira o talhe puro, as linhas
Esculturais e a excelsa realeza
De rainha de todas as rainhas!

Vinhas do Tejo múrmuro... Trazias
Na voz magoada o som das melodias,
No olhar, a queixa dos que lá se vão...
E a tristeza de todas as cigarras,
E a saudade de todas as guitarras
A soluçar, dentro do coração!

Vinhas radiante! Sob os céus pasmados,
A Cruz de Cristo nas infladas velas
Te indicava o caminha do Ideal!
E mar em fora, recordando fados,
Eras a alma das próprias caravelas
Universalizando Portugal!

E que entontecimento e que vertigem
Quando chegaste, enfim, à terra virgem,
E nela ergueste os braços teus, em cruz...
E que emoção, quando o imortal Cruzeiro
Pôs a teus pés, diante do mundo inteiro,
Sua coroa esplêndida de luz!

Depois, rendendo humilde vassalagem,
Todos te deram as pepitas de ouro
Que enfeitaram teu seio juvenil.
De então, onde fulgisse tua imagem,
Fulgia às tuas mãos o áureo tesouro,
Imensurável, deste meu Brasil!

E, certa noite, ao pé da Guanabara,
Surges envolta só na tule rara
De amor e sonhos, que te deu Jaci...
E, armas à mão, morena entre as morenas,
Tendo à cabeça teu cocar de penas,
Te lançaste à conquista de Peri!

Ah! quem te visse, após, em pleno dia,
Desnuda, ao sol, não te conheceria...
Qual irmã gêmea de Paraguassu,
Desafiavas uma raça inteira
Com teus coleios de onça traiçoeira
E com o feitiço do teu colo nu...

Mas, quem te olhasse, a sós, na noite quente,
Ah! como te acharia diferente
Ao ver-te, olhos molhados, a chorar,
Tua guitarra amiga dedilhando,
O teu fado liró, triste, cantando
E os dois olhos perdidos lá no mar...

Se me alegra o te ver brasileirinha,
Oh! lusitana e doce língua minha,
Não me envaidece, entanto, essa ilusão...
Que hás de ser portuguesa, na verdade,
Enquanto houver no mundo uma saudade,
Uma guitarra, um fado e um coração!

1 342
Judas Isgorogota

Judas Isgorogota

A Notícia

"Mano:

Não calcula você como está transformado
Tudo aqui.
As vezes, tenho até de mim mesma indagado
Se tudo não será mais bonito que aí...
Eu bem sei que me engano.
De certo, não será; não será, pois, se fosse
Já teria você voltado ao seu rincão.
Mesmo assim, acredito
Que se o mundo daí é mais bonito
Não poderá, no entanto, ser mais doce
Ao seu bondoso coração
De irmão...

Olhe aqui: a Bibi de quando em vez me fala
De você,
E eu não sei porque após, tristíssima se cala.
Não sei, não sei porque...

Ah! como está bonito o jardim cá de casa!
A parreira cresceu
E apesar de viver sob este céu de brasa,
A roseira já está mais alta do que eu!
A laranjeira está coberta de asas louras,
Asas que vivem lhe fazendo festa...
Mais feliz do que eu...
Mais feliz, digo mal; nenhuma laranjeira,
Nenhuma árvore, enfim, da mais verde floresta,
Que exulte em florações belas e duradouras
Ou que tenha por trono a mais linda clareira,
Poderá ser feliz como quem já sofreu!

E os cravos, os jasmins... Nestes últimos dias,
Não podendo sair a passeio, contente
Fico em casa a ouvir as cantigas suaves
Dos pássaros beijando o jasmineiro em flor.
Só agora é que sei que é o amor tão somente
Quem tece aquelas doces melodias
E alinda as penas trêfegas das aves...
Só agora é que sei que tudo aquilo é amor...

Meu irmão, ao depois que você foi embora
Como tudo mudou...
A mamãe está boa, o papai com saúde,
E o seu trabalho agora
Já não é tão pesado nem tão rude...
A casa inteira, enfim, se transformou
O silêncio é completo. Aquela meninada
Vivaz, com a qual você, quando escrevia,
Sempre implicava solenemente,
Hoje em dia,
Muito embora não lhe fizesse nada,
Não me procura como antigamente...

Adeus. Escreva sempre. O papai o abençoa,
Manda um beijo a mamãe. Como ela é boa...
Como tem resisitido à vida que lhe dou...
É ela quem está esta carta escrevendo,
Esta carta que irá, através da distância,
Dar-lhe a nossa saudade...

Ah! ia-me esquecendo
De uma coisa, afinal, de pequena importância:
— Mano, a paralisia me atacou..."

1 181
Florbela Espanca

Florbela Espanca

A Um Livro

No silêncio de cinzas do meu Ser
Agita-se uma sombra de cipreste,
Sombra roubada ao livro que ando a ler,
A esse livro de mágoas que me deste!

Estranho livro aquele que escreveste,
Artista da saudade e do sofrer!
Estranho livro aquele em que puseste
Tudo o que eu sinto, sem poder dizer!

Leio-o e folheio, assim, toda a minh’alma.
O livro que me deste é meu e salma
As orações que choro e rio e canto!...

Poeta igual a mim, ai quem me dera
Dizer o que tu dizes!... Quem soubera
Velar a minha Dor desse teu manto!...
2 338
Pablo Neruda

Pablo Neruda

Tarde - LXXV

Esta é a casa, o mar e a bandeira.
Errávamos por outros longos muros.
Não achávamos a porta nem o som
desde a ausência como desde mortos.


E ao fim a casa abre seu silêncio,
entramos a pisar o abandono,
os momentos mortos, o adeus vazio,
a água que chorou no encanamento.


Chorou, chorou a casa noite e dia,
gemeu com as aranhas4, entreaberta,
se desgastou desde seus olhos negros,


e agora de repente a revolvemos viva,
a povoamos e não nos reconhece:
tem que florescer, e não se acorda.






4 Aranhas – pequenas carruagens puxadas por cavalos. (N.T.)
1 030
Pablo Neruda

Pablo Neruda

Noite - LXXXIX

Quando eu morrer quero tuas mãos em meus olhos:
quero a luz e o trigo de tuas mãos amadas
passar uma vez mais sobre mim seu viço:
sentir a suavidade que mudou meu destino.


Quero que vivas enquanto eu, adormecido, te espero,
quero que teus ouvidos sigam ouvindo o vento,
que cheires o amor do mar que amamos juntos
e que sigas pisando a areia que pisamos.


Quero que o que amo continue vivo
e a ti amei e cantei sobre todas as coisas,
por isso segue tu florescendo, florida,


para que alcances tudo o que meu amor te ordena,
para que passeie minha sombra por teu pelo,
para que assim conheçam a razão de meu canto.
1 609
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Amanhã estas letras em que te amo

Amanhã estas letras em que te amo.
        Serão vistas, tu morta.
Corpo, eras vida para que o não foras,
        Tão bela! Versos restam.
Quem o (...)
1 365
Castro Alves

Castro Alves

HINO AO SONO

Ó Sono! ó noivo pálido
Das noites perfumosas,
Que um chão de nebulosas
Trilhas pela amplidão!
Em vez de verdes pâmpanos,
Na branca fronte enrolas
As lânguidas papoulas,
Que agita a viração.

Nas horas solitárias,
Em que vagueia a lua,
E lava a planta nua
Na onda azul do mar,
Com um dedo sobre os lábios
No vôo silencioso,
Vejo-te cauteloso
No espaço viajar!

Deus do infeliz, do mísero!
Consolação do aflito!
Descanso do precito,
Que sonha a vida em ti!
Quando a cidade tétrica
De angústia e dor não geme...
É tua mão que espreme
A dormideira ali.

Em tua branca túnica
Envolves meio mundo.
E teu seio fecundo
De sonhos e visões,
Dos templos aos prostíbulos
Desde o tugúrio ao Paço,
Tu lanças lá do espaço
Punhados de ilusões!...

Da vida o sumo rúbido,
Do hatchiz a essência,
O ópio, que a indolência
Derrama em nosso ser,
Não valem, gênio mágico,
Teu seio, onde repousa
A placidez da lousa
E o gozo de viver...

Ó sono! Unge-me as pálpebras..
Entorna o esquecimento
Na luz do pensamento,
Que abrasa o crânio meu.
Como o pastor da Arcádia,
Que uma ave errante aninha...
Minhalma é uma andorinha...
Abre-lhe o seio teu.

Tu, que fechaste as pétalas
Do lírio, que pendia,
Chorando a luz do dia
E os raios do arrebol,
Também fecha-me as pálpebras...
Sem Ela o que é a vida?
Eu sou a flor pendida
Que espera a luz do sol.

O leite das eufórbias
Pra mim não é veneno...
Ouve-me, ó Deus sereno!
Ó Deus consolador!
Com teu divino bálsamo
Cala-me a ansiedade!
Mata-me esta saudade,
Apaga-me esta dor.

Mas quando, ao brilho rútilo
Do dia deslumbrante,
Vires a minha amante
Que volve para mim,
Então ergue-me súbito...
É minha aurora linda...
Meu anjo... mais ainda...
É minha amante enfim!

Ó sono! Ó Deus noctívago!
Doce influência amiga!
Gênio que a Grécia antiga
Chamava de Morfeu,
Ouve!... E se minhas súplicas
Em breve realizares...
Voto nos teus altares
Minha lira de Orfeu!

1 671
Pablo Neruda

Pablo Neruda

Regresso

Ardente é voltar à espuma que acossa minha casa, ao vazio
que deixa o oceano depois de entregar sua carreta de trovões,
tocar outra vez com o sangue a rajada de frio e salmoura
que morde a beira do Chile aventando a areia amarela.

É azul regressar à terra escolhida durante o combate,
levantar a bandeira de um homem sem reino
e esperar da luz uma rede que aprisione a trêmula prata
dos peixes escuros que povoam o pélago puro.

É eterno comer outra vez com o vinho ancestral no copo
a carne enrolada, os tomates de Janeiro com a linguiça,
a pimenta cuja fresca fragrância te ataca e te morde,
e a esta hora de sol as humitas6 de sal e delícia
desenroladas de suas folhas de ouro como virgens no sacrifício.
985
Pablo Neruda

Pablo Neruda

Acontece

Bateram à minha porta em 6 de agosto,
aí não havia ninguém
e ninguém entrou, sentou-se numa cadeira
e transcorreu comigo, ninguém.

Nunca me esquecerei daquela ausência
que entrava como Pedro por sua causa
e me satisfazia com o não ser,
com um vazio aberto a tudo.

Ninguém me interrogou sem dizer nada
e contestei sem ver e sem falar.

Que entrevista espaçosa e especial!
1 355
Castro Alves

Castro Alves

HEBRÉIA

Flos campi et lilium
convallium
(Cântico
dos Cânticos)

Pomba desprança sobre um mar descolhos!
Lírio do vale oriental, brilhante!
Estrela vésper do pastor errante!
Ramo de murta a recender cheirosa!. ..

Tu és, ó filha de Israel formosa...
Tu és, ó linda, sedutora Hebréia...
Pálida rosa da infeliz Judéia
Sem ter o orvalho, que do céu deriva!

Por que descoras, quando a tarde esquiva
Mira-se triste sobre o azul das vagas?
Serão saudades das infindas plagas,
Onde a oliveira no Jordão se inclina?

Sonhas acaso, quando o sol declina,
A terra santa do Oriente imenso?
E as caravanas no deserto extenso?
E os pegureiros da palmeira à sombra?!...

Sim, fora belo na relvosa alfombra,
Junto da fonte, onde Raquel gemera,
Viver contigo qual Jacó vivera
Guiando escravo teu feliz rebanho..

Depois nas águas de cheiroso banho
Como Susana a estremecer de frio --
Fitar-te, ó flor do babilônio rio,
Fitar-te a medo no salgueiro oculto...

Vem pois!... Contigo no deserto inculto,
Fugindo às iras de Saul embora,
Davi eu fora, -- se Micol tu foras,
Vibrando na harpa do profeta o canto...

Não vês?... Do seio me goteja o pranto
Qual da torrente do Cédron deserto!...
Como lutara o patriarca incerto
Lutei, meu anjo, mas caí vencido.

Eu sou o lótus para o chão pendido.
Vem ser o orvalho oriental, brilhante!.
Ai! guia o passo ao viajor perdido,
Estrela vésper do pastor errante!...

1 679
Emily Dickinson

Emily Dickinson

MINHA VIDA ACABOU DUAS VEZES

Já morri duas vezes, e vivo.
Resta-me ver enfim
Se terceira vez na outra vida
Sofrerei assim

Dor tão funda e desesperada,
O pungir quotidiano e eterno.
Só sabemos do Céu que é adeus,
Basta a saudade como Inferno.

(Tradução
de Manuel Bandeira)

2 039
Olegário Mariano

Olegário Mariano

De Papo Pro Á, 1931

I

Não quero outra vida
Pescando no rio
De jereré
Tenho peixe bom...
Tem siri-patola
De dá com o pé

Quando no terreiro
Faz noite de luá
E vem a saudade
Me atormentá
Eu me vingo dela
Tocando viola
De papo pro á

II

Se compro na feira
Feijão rapadura
Pra que trabaiá
Eu gosto do rancho
O home não deve
Se amofiná
Estribilho


In: MASCARENHAS, Mário. O melhor da música popular brasileira. São Paulo: Irmãos Vitale, 1982. v.4, p.146-147

NOTA: Música de Joubert de Carvalh
996
Castro Alves

Castro Alves

Canção do Violeiro

Passa, ó vento das campinas,
Leva a canção do tropeiro.
Meu coração stá deserto,
Stá deserto o mundo inteiro.
Quem viu a minha senhora
Dona do meu coração?

Chora, chora na viola,
Violeiro do sertão.

Ela foi-se ao pôr da tarde
Como as gaivotas do rio.
Como os orvalhos que descem
Da noite num beijo frio,
O cauã canta bem triste,
Mais triste é meu coração.

Chora, chora na viola,
Violeiro do sertão.

E eu disse: a senhora volta
Com as flores da sapucaia.
Veio o tempo, trouxe as flores,
Foi o tempo, a flor desmaia.
Colhereira, que além voas,
Onde está meu coração?

Chora, chora na viola,
Violeiro do sertão.

Não quero mais esta vida,
Não quero mais esta terra.
Vou procurá-la bem longe,
Lá para as bandas da serra.
Ai! triste que eu sou escravo!
Que vale ter coração?

Chora, chora na viola,
Violeiro do sertão.

3 461
Vicente de Carvalho

Vicente de Carvalho

A Partida da Monção

VI

Ei-las, as toscas naus de borda rastejante
À flor das águas, naus de estreitos rios quietos;
Ei-las, prestes a abrir para o sertão distante,
Para assombros de glória, o seu vôo de insetos.

Apinhem-se na praia os velhos, derramando
De encarquilhadas mãos inúteis para mais
A bênção dos que já se sentem bruxoleando
Aos que lhes vão tornar os nomes imortais.

(...)

Noivas, com os corações envoltos na penumbra
Indecisa do amor que se orgulha e se dói,
Vinde trazer-lhes vosso olhar de que ressumbra
Saudade pelo amante e enlevo pelo herói...

Ao largo, enfim! Clarins e buzinas atroam.
E as canoas, na luz da manhã cor-de-rosa,
Pairam por um momento em pleno rio; aproam
Para o sertão. E rompe a marcha vagarosa.

Nos barrancos, até rente d'água investidos
De filhos a sorrir e de mães a chorar,
Lancem as frouxas mãos e os olhos comovidos
O derradeiro adeus e o derradeiro olhar...

VII

Longe, na solidão do campo undoso e verde,
O rio serpenteia. Em cada contorção
Mais se afasta. E a fugir, pouco a pouco se perde
No majestoso, vago, infinito sertão...


Publicado no livro Poemas e Canções (1908).

In: CARVALHO, Vicente de. Poemas e canções. 17.ed. São Paulo: Saraiva, 196
2 065