Poemas neste tema
Saudade e Ausência
Homero Exposito
Laranjeira em flor
Era mais branda que a água
que a água branda
Era mais fresca que o rio,
laranjeira em flor
E nessa rua de estio,
rua perdida,
deixou um pedaço de vida
e se marchou
Primeiro há que saber sofrer,
depois amar, depois partir
e ao fim andar sem pensamento
Perfume de laranjeira em flor,
promessas vãs de um amor
que se escaparam no vento.
Depois, que importa do depois
Toda minha vida é o ontem
que me detém no passado
Eterna e velha juventude
que me há deixado acovardado
como um pássaro sem luz.
Que lhe haverão feito minhas mãos?
Que lhe haverão feito,
para me deixar no peito
tanta dor?
Dor de velho arvoredo
canção de esquina,
com um pedaço de vida,
laranjeira em flor
que a água branda
Era mais fresca que o rio,
laranjeira em flor
E nessa rua de estio,
rua perdida,
deixou um pedaço de vida
e se marchou
Primeiro há que saber sofrer,
depois amar, depois partir
e ao fim andar sem pensamento
Perfume de laranjeira em flor,
promessas vãs de um amor
que se escaparam no vento.
Depois, que importa do depois
Toda minha vida é o ontem
que me detém no passado
Eterna e velha juventude
que me há deixado acovardado
como um pássaro sem luz.
Que lhe haverão feito minhas mãos?
Que lhe haverão feito,
para me deixar no peito
tanta dor?
Dor de velho arvoredo
canção de esquina,
com um pedaço de vida,
laranjeira em flor
1 053
Marigê Quirino Marchini
Sonetos Venezianos
Melhora Amor, sorrindo, amor que tenho:
deste resto salino de lembranças
forma lagunas e o molhado lenho,
gôndolas que antecipam as bonanças;
do som e acorde, cores e aláude,
faz um quarteto de perfeita dor,
por onde, navegando em beatitude
de Veneza, em acústico langor
as vibrações nos ares geram paz,
vitrais em claridade bizantina
- abre-se o sol em círculos, refaz,
de lembranças salinas, de saudade,
Amor se espelha nágua cristalina,
dourados picos, rútila cidade.
deste resto salino de lembranças
forma lagunas e o molhado lenho,
gôndolas que antecipam as bonanças;
do som e acorde, cores e aláude,
faz um quarteto de perfeita dor,
por onde, navegando em beatitude
de Veneza, em acústico langor
as vibrações nos ares geram paz,
vitrais em claridade bizantina
- abre-se o sol em círculos, refaz,
de lembranças salinas, de saudade,
Amor se espelha nágua cristalina,
dourados picos, rútila cidade.
1 075
Mario Benedetti
Rosto de ti
Tenho uma solidão
tão concorrida
tão cheia de nostalgias
e de rostos teus
de adeuses faz tempo
e beijos bem vindos
de primeiras de troca
e de último vagão
Tenho uma solidão
tão concorrida
que posso organizá-la
como uma procissão
por cores
tamanhos
e promessas
por época
por tato e sabor
sem um tremer de mais
me abraço a tuas ausências
que assistem e me assistem
com meu rosto de ti
Estou cheio de sombras
de noites e desejos
de risos e de alguma maldição
Meus hóspedes concorrem
concorrem como sonhos
com seus rancores novos
sua falta de candura
eu lhe ponho uma vassoura
atrás da porta
porque quero estar só
com meu rosto de ti
Porém o rosto de ti
olha a outra parte
com seus olhos de amor
que já não amam
como vives
que buscam a sua fome
olham e olham
e apagar a jornada
as paredes se vão
fica a noite
as nostalgias se vão
não fica nada
Já meu rosto de ti
fecha os olhos
E é uma solidão
tão desolada
tão concorrida
tão cheia de nostalgias
e de rostos teus
de adeuses faz tempo
e beijos bem vindos
de primeiras de troca
e de último vagão
Tenho uma solidão
tão concorrida
que posso organizá-la
como uma procissão
por cores
tamanhos
e promessas
por época
por tato e sabor
sem um tremer de mais
me abraço a tuas ausências
que assistem e me assistem
com meu rosto de ti
Estou cheio de sombras
de noites e desejos
de risos e de alguma maldição
Meus hóspedes concorrem
concorrem como sonhos
com seus rancores novos
sua falta de candura
eu lhe ponho uma vassoura
atrás da porta
porque quero estar só
com meu rosto de ti
Porém o rosto de ti
olha a outra parte
com seus olhos de amor
que já não amam
como vives
que buscam a sua fome
olham e olham
e apagar a jornada
as paredes se vão
fica a noite
as nostalgias se vão
não fica nada
Já meu rosto de ti
fecha os olhos
E é uma solidão
tão desolada
2 826
José Angel Buesa
Poema do renunciamento
Passarás por minha vida sem saber que passaste
Passarás em silêncio por meu amor e, ao passar,
fingirei um sorriso, como um doce contraste
de dor de querer-te... e jamais o saberás.
Sonharei com o nácar virginal de tua testa;
sonharei com teus olhos de esmeralda de mar;
sonharei com teus lábios desesperadamente;
sonharei com teus beijos... e jamais o saberás
Talvez passes com outro que te diga ao ouvido
essas frases que ninguém como eu te dirá;
e afogando para sempre meu amor inadvertido,
te amarei mais que nunca... e jamais saberás.
Eu te amarei em silêncio, como algo inacessível,
como um sonho que nunca conseguirei realizar;
e o longínquo perfume de meu amor impossível
roçará teus cabelos... e jamais o saberás
E se um dia uma lágrima denuncia meu tormento
o tormento infinito que devo ocultar
te direi sorridente: "não é nada...foi o vento".
Me enxugarei a lágrima... e jamais o saberás
Passarás em silêncio por meu amor e, ao passar,
fingirei um sorriso, como um doce contraste
de dor de querer-te... e jamais o saberás.
Sonharei com o nácar virginal de tua testa;
sonharei com teus olhos de esmeralda de mar;
sonharei com teus lábios desesperadamente;
sonharei com teus beijos... e jamais o saberás
Talvez passes com outro que te diga ao ouvido
essas frases que ninguém como eu te dirá;
e afogando para sempre meu amor inadvertido,
te amarei mais que nunca... e jamais saberás.
Eu te amarei em silêncio, como algo inacessível,
como um sonho que nunca conseguirei realizar;
e o longínquo perfume de meu amor impossível
roçará teus cabelos... e jamais o saberás
E se um dia uma lágrima denuncia meu tormento
o tormento infinito que devo ocultar
te direi sorridente: "não é nada...foi o vento".
Me enxugarei a lágrima... e jamais o saberás
1 422
António Ramos Rosa
Este É o Lugar de Todas As Ausências
Este é o lugar de todas as ausências
no silêncio do azul.
Aqui sei que a luz
é o nada
e o alimento perfeito e transparente
que desata os nós sepultos.
no silêncio do azul.
Aqui sei que a luz
é o nada
e o alimento perfeito e transparente
que desata os nós sepultos.
596
Marta Gonçalves
O Adeus de Pituca
Pituca chegou como uma semente de sol. Era mansa, peluda. Os olhos, de ferrugem. Crescia Pituca nas manhãs de chuva. Crescia o riso nos lábios de Gerlanda. Tantas foram as gracinhas de Pituca. Conhecia as mãos de sua dona, o coração, a lágrima. Se a alma era cinza de Gerlanda, a de Pituca suspirava pelos cantos da casa. Havia um olhar sofrido no olho amarelo de Pituca vendo os sonhos desfeitos de sua dona. Pituca amava. Ouvia música. Imaginava um mundo melhor navegado de cardumes vermelhos. Andava claudicando e arranhava as portas. Pituca era a estrela de mercúrio. Pássaro sem asas, borboleta marrom na janela. Carinhos, conversas no adentrado da noite. Companheira de um tempo perdido. O biscoito mordido, brinquedo de Pituca. Segredos marcados no ponteiro do relógio. A melodia do fim amanhou a doença. O amor era verde no coração de Pituca. Amor que só os cães trazem no afago. Gerlanda guardava na concha das mãos o choro, o latido, o andar, o riso, o pelo de Pituca. Foram idades, aniversários, Natais, Pituca.
Abril mês charmoso, cativante. Mês de flores, quaresmeiras, ipês amarelos. Mês em que o sol aquece a face e banha de alfazema a pele. Mês escolhido para a canção de despedida. Em abril Pituca se foi ao país dos duendes. Deixou lembranças, um choro doído, um aperto no coração de Gerlanda. Anjinhos lilases tocavam blues e Pituca levava no corpo o mundo de Gerlanda.
No inverno o vento traz o choro vestido de ausência.
Pituca habita uma estrela azul e sonha
com Gerlanda.
Abril mês charmoso, cativante. Mês de flores, quaresmeiras, ipês amarelos. Mês em que o sol aquece a face e banha de alfazema a pele. Mês escolhido para a canção de despedida. Em abril Pituca se foi ao país dos duendes. Deixou lembranças, um choro doído, um aperto no coração de Gerlanda. Anjinhos lilases tocavam blues e Pituca levava no corpo o mundo de Gerlanda.
No inverno o vento traz o choro vestido de ausência.
Pituca habita uma estrela azul e sonha
com Gerlanda.
1 160
Fernando Pessoa
A lembrada canção,
A lembrada canção,
Amor, renova agora.
Na noite, olhos fechados, tua voz
Dói-me no coração
Por tudo quanto chora.
Cantas ao pé de mim, e eu estou a sós.
Não, a voz não é tua
Que se ergue e acorda em mim
Murmúrios de saudade e de inconstância,
O luar não vem da lua
Mas do meu ser afim
Ao mito, à mágoa, à ausência e à distância.
Não, não é teu o canto
Que como um astro ao fundo
Da noite imensa do meu coração
Chama em vão, chama tanto...
Quem sou não sei... e o mundo?...
Renova, amor, a antiga e vã canção.
Cantas mais que por ti,
Tua voz é uma ponte
Por onde passa, inúmero, um segredo
Que nunca recebi –
Murmúrio do horizonte,
Água na noite, morte que vem cedo.
Assim, cantas sem que existas.
Ao fim do luar pressinto
Melhores sonhos que estes da ilusão
01/01/1920
Amor, renova agora.
Na noite, olhos fechados, tua voz
Dói-me no coração
Por tudo quanto chora.
Cantas ao pé de mim, e eu estou a sós.
Não, a voz não é tua
Que se ergue e acorda em mim
Murmúrios de saudade e de inconstância,
O luar não vem da lua
Mas do meu ser afim
Ao mito, à mágoa, à ausência e à distância.
Não, não é teu o canto
Que como um astro ao fundo
Da noite imensa do meu coração
Chama em vão, chama tanto...
Quem sou não sei... e o mundo?...
Renova, amor, a antiga e vã canção.
Cantas mais que por ti,
Tua voz é uma ponte
Por onde passa, inúmero, um segredo
Que nunca recebi –
Murmúrio do horizonte,
Água na noite, morte que vem cedo.
Assim, cantas sem que existas.
Ao fim do luar pressinto
Melhores sonhos que estes da ilusão
01/01/1920
4 027
Charles Bukowski
Neblina
pior neblina
que já vi
estava voltando de carro da
praia
com meu chapa Desmond
quando
ela
chegou
era tão grossa
que dava
para cortá-la com
a proverbial
faca.
e nós estávamos um bocado
bêbados.
não podíamos sair
fora da estrada porque tínhamos
medo de
bater nos carros já estacionados
no
acostamento
mas paramos por
um momento e
Desmond subiu
no capô
e se ajoelhou nele
e disse, "está bem,
vamos, vou
guiar você!"
e eu arranquei
e
Desmond berrava,
"MERDA! NÃO CONSIGO
VER NADA!"
e ele começou
a rire eu
comecei a rir.
eu mal podia
ver sua bunda
enfiada lá
no capô
e então ele
disse
de novo: "MERDA!
NÃO CONSIGO
VER NADA!"
e nós dois começamos
a rir cada vez
mais
uma risada que
não conseguíamos parar
toda aquela neblina
ao nosso redor
enquanto
seguíamos
só continuávamos
a dirigir e
a rir
passamos por
cruzamento após
cruzamento
frequentemente ouvindo
motores e buzinas
mas sem ver
nada
até que em um
cruzamento a
neblina se desfez
um pouco
consegui entrever
um posto de gasolina
uma lanchonete
e havia uma
luz verde
e
Desmond estava
ausente
saí fora
e estacionei no
posto de gasolina e
esperei
e lá veio
Desmond a pé
através da
neblina
berrei e
acenei e ele me
viu
correu até o carro
e entrou
dirigimos para
L.A.
uma semana mais tarde
ele foi para
Hlinois para ver
a mulher com a qual
havia
rompido
e eu
nunca mais
o vi.
que já vi
estava voltando de carro da
praia
com meu chapa Desmond
quando
ela
chegou
era tão grossa
que dava
para cortá-la com
a proverbial
faca.
e nós estávamos um bocado
bêbados.
não podíamos sair
fora da estrada porque tínhamos
medo de
bater nos carros já estacionados
no
acostamento
mas paramos por
um momento e
Desmond subiu
no capô
e se ajoelhou nele
e disse, "está bem,
vamos, vou
guiar você!"
e eu arranquei
e
Desmond berrava,
"MERDA! NÃO CONSIGO
VER NADA!"
e ele começou
a rire eu
comecei a rir.
eu mal podia
ver sua bunda
enfiada lá
no capô
e então ele
disse
de novo: "MERDA!
NÃO CONSIGO
VER NADA!"
e nós dois começamos
a rir cada vez
mais
uma risada que
não conseguíamos parar
toda aquela neblina
ao nosso redor
enquanto
seguíamos
só continuávamos
a dirigir e
a rir
passamos por
cruzamento após
cruzamento
frequentemente ouvindo
motores e buzinas
mas sem ver
nada
até que em um
cruzamento a
neblina se desfez
um pouco
consegui entrever
um posto de gasolina
uma lanchonete
e havia uma
luz verde
e
Desmond estava
ausente
saí fora
e estacionei no
posto de gasolina e
esperei
e lá veio
Desmond a pé
através da
neblina
berrei e
acenei e ele me
viu
correu até o carro
e entrou
dirigimos para
L.A.
uma semana mais tarde
ele foi para
Hlinois para ver
a mulher com a qual
havia
rompido
e eu
nunca mais
o vi.
1 053
Marilina Ross
Ponte invisível
Estás...
estás em mim
embora não estejas aqui.
No canto
mais quente
onde guardo o amor.
Entras
e te instalas
com naturalidade
em cada cavidade
e sê também
Que estou
batendo igual
dentro de ti
no lugar
do grande prazer
e a grande dor.
Pela
ponte invisível
para os demais
navega
vela ao vento
nossa liberdade
de amarmos
contra todos
e apesar
de tempos
de distâncias
porque do mesmo modo
estás
Estás
estás em mim
embora não estejas
hoje aqui.
estás em mim
embora não estejas aqui.
No canto
mais quente
onde guardo o amor.
Entras
e te instalas
com naturalidade
em cada cavidade
e sê também
Que estou
batendo igual
dentro de ti
no lugar
do grande prazer
e a grande dor.
Pela
ponte invisível
para os demais
navega
vela ao vento
nossa liberdade
de amarmos
contra todos
e apesar
de tempos
de distâncias
porque do mesmo modo
estás
Estás
estás em mim
embora não estejas
hoje aqui.
812
Alfonsina Storni
O rogo
Senhor, Senhor, faz já tanto tempo, um dia
Sonhei um amor como jamais pudera
Sonhá-lo ninguém, algum, amor que fora
A vida toda, toda a poesia...
E passava o inverno e não vinha,
E passava também a primavera,
E o verão de novo persistia,
E o outono me encontrava em minha espera.
Senhor, Senhor: minhas costas estão desnudas.
Faça estalar ali, com mão rude,
O açoite que sangra aos perversos!
Que está a tarde já sobre minha vida,
E esta paixão ardente e desmedida,
A hei perdido, Senhor fazendo versos.
Sonhei um amor como jamais pudera
Sonhá-lo ninguém, algum, amor que fora
A vida toda, toda a poesia...
E passava o inverno e não vinha,
E passava também a primavera,
E o verão de novo persistia,
E o outono me encontrava em minha espera.
Senhor, Senhor: minhas costas estão desnudas.
Faça estalar ali, com mão rude,
O açoite que sangra aos perversos!
Que está a tarde já sobre minha vida,
E esta paixão ardente e desmedida,
A hei perdido, Senhor fazendo versos.
1 074
Maria Aparecida Reis Araújo
Domínios da Casa
É esta nitidez abrindo
lentamente as portas
ao encontro das horas.
Cheiro de sol em pomares e vinhos.
Acordes nas bordas de um cálice
desfiando memória no tempo.
Território de vidas a casa
é um canto explícito de ausências.
Reacendendo chamas aquecendo o coração.
lentamente as portas
ao encontro das horas.
Cheiro de sol em pomares e vinhos.
Acordes nas bordas de um cálice
desfiando memória no tempo.
Território de vidas a casa
é um canto explícito de ausências.
Reacendendo chamas aquecendo o coração.
867
Roberto Juarroz
Poema dedicado a Antonio Porchia
Havemos amado juntos tantas coisas
que é difícil amá-las separados.
Parece que se houveram afastado de repente
ou que o amor fora uma formiga
escalando os declives do céu.
Havemos vivido juntos tanto abismo
que sem você tudo parece superfície,
orbita de simulados que resvalam,
tensão sem extensões,
vigilância de corpos sem presença.
Havemos perdido juntos tanto nada
que o hábito persiste e se da volta
e agora tudo é ganância de nada.
O Tempo se converte em anti-tempo
porque já não o pensas.
Havemos calado e falado juntos
que até calar e falar são duas traições,
duas substâncias sem justificação,
dois substitutos.
O havemos buscado todo.
O havemos falado todo.
O havemos deixado todo.
Unicamente não nos deram tempo
para encontrar o buraco de tua morte
ainda que fora também para deixá-lo.
que é difícil amá-las separados.
Parece que se houveram afastado de repente
ou que o amor fora uma formiga
escalando os declives do céu.
Havemos vivido juntos tanto abismo
que sem você tudo parece superfície,
orbita de simulados que resvalam,
tensão sem extensões,
vigilância de corpos sem presença.
Havemos perdido juntos tanto nada
que o hábito persiste e se da volta
e agora tudo é ganância de nada.
O Tempo se converte em anti-tempo
porque já não o pensas.
Havemos calado e falado juntos
que até calar e falar são duas traições,
duas substâncias sem justificação,
dois substitutos.
O havemos buscado todo.
O havemos falado todo.
O havemos deixado todo.
Unicamente não nos deram tempo
para encontrar o buraco de tua morte
ainda que fora também para deixá-lo.
1 137
Florbela Espanca
Aos Olhos D’Ele
É noite de luar casto e divino.
Tudo é brancura, tudo é castidade...
Parece que Jesus, doce bambino,
Anda pisando as ruas da cidade...
E eu que penso na suavidade
Do tempo que não volta, que não passa,
Olho o luar, chorando de saudade
De teus olhos claros cheios de graça!...
Oceanos de luz que procurando
O seu leito d’amor, andam sonhando
Por esta noite linda de luar...
Talvez o perfumado, o brando leito
Que procurais, ó olhos, no meu peito
Esteja à vossa espera a soluçar...
Tudo é brancura, tudo é castidade...
Parece que Jesus, doce bambino,
Anda pisando as ruas da cidade...
E eu que penso na suavidade
Do tempo que não volta, que não passa,
Olho o luar, chorando de saudade
De teus olhos claros cheios de graça!...
Oceanos de luz que procurando
O seu leito d’amor, andam sonhando
Por esta noite linda de luar...
Talvez o perfumado, o brando leito
Que procurais, ó olhos, no meu peito
Esteja à vossa espera a soluçar...
2 075
Maria Aparecida Reis Araújo
Distância
Sol de memória
na incógnita das horas.
Ruídos na pele expectante
e olhos transidos de espera.
No ouro das molduras
fios de ausência perdidos
no mosaico de lembranças.
Buscam o rosto distante.
na incógnita das horas.
Ruídos na pele expectante
e olhos transidos de espera.
No ouro das molduras
fios de ausência perdidos
no mosaico de lembranças.
Buscam o rosto distante.
868
Alexandre S. Santos
Vê
Vê, lá longe, no horizonte?
Costumo, lá, deitar meus sentimentos;
recosto no mais alto monte
a fronte envolta por escarlates momentos.
Lá longe, no horizonte.
Vê aqueles galhos verdes na herdade?
Sob eles brincam minhas fantasias;
ornadas de risos, de lágrimas - saudade
do que não houve e do porvir - de alegrias.
Naqueles galhos verdes na herdade.
Vê aquela penugem a bailar no vento?
Deposito nela a esperança do encontrar
nas vindouras dobras do tempo
o amor, como onda que chega do mar.
Naquela penugem a bailar no vento.
Vê, essa lua, prenhe de lume?
Aguarda nossos sonhos num enlace,
feito ninho onde se aprume:
onde pouse a penugem e morra o impasse.
Sob a lua prenhe de lume.
Costumo, lá, deitar meus sentimentos;
recosto no mais alto monte
a fronte envolta por escarlates momentos.
Lá longe, no horizonte.
Vê aqueles galhos verdes na herdade?
Sob eles brincam minhas fantasias;
ornadas de risos, de lágrimas - saudade
do que não houve e do porvir - de alegrias.
Naqueles galhos verdes na herdade.
Vê aquela penugem a bailar no vento?
Deposito nela a esperança do encontrar
nas vindouras dobras do tempo
o amor, como onda que chega do mar.
Naquela penugem a bailar no vento.
Vê, essa lua, prenhe de lume?
Aguarda nossos sonhos num enlace,
feito ninho onde se aprume:
onde pouse a penugem e morra o impasse.
Sob a lua prenhe de lume.
943
Florbela Espanca
Sol Posto
Sol posto. O sino ao longe dá Trindades
Nas ravinas do monte andam cantando
As cigarras dolentes... E saudades
Nos atalhos parecem dormitando...
É esta a hora em que a suave imagem
Do bem que já foi nosso nos tortura
O coração no peito, em que a paisagem
Nos faz chorar de dor e d’amargura...
É a hora também em que cantando
As andorinhas vão p’lo meio das ruas
Para os ninhos, contentes, chilreando...
Quem me dera também, amor, que fosse
Esta a hora de todas a mais doce
Em que eu unisse as minhas mãos às tuas!...
Nas ravinas do monte andam cantando
As cigarras dolentes... E saudades
Nos atalhos parecem dormitando...
É esta a hora em que a suave imagem
Do bem que já foi nosso nos tortura
O coração no peito, em que a paisagem
Nos faz chorar de dor e d’amargura...
É a hora também em que cantando
As andorinhas vão p’lo meio das ruas
Para os ninhos, contentes, chilreando...
Quem me dera também, amor, que fosse
Esta a hora de todas a mais doce
Em que eu unisse as minhas mãos às tuas!...
2 477
Florbela Espanca
A Esta Hora...
A esta hora branda d’amargura,
A esta hora triste em que o luar
Anda chorando, Ó minha desventura
Onde estás tu? Onde anda o teu olhar?
A noite é calma e triste... a murmurar
Anda o vento, de leve, na doçura
Ideal do aveludado ar
Onde estrelas palpitam... Noite escura
Dize-me onde ele está o meu amor,
Onde o vosso luar o vai beijar,
Onde as vossas estrelas co fulgor
Do seu brilho de fogo o vão cobrir! ...
Dize-me onde ele está!... Talvez a olhar
A mesma noite linda a refulgir...
A esta hora triste em que o luar
Anda chorando, Ó minha desventura
Onde estás tu? Onde anda o teu olhar?
A noite é calma e triste... a murmurar
Anda o vento, de leve, na doçura
Ideal do aveludado ar
Onde estrelas palpitam... Noite escura
Dize-me onde ele está o meu amor,
Onde o vosso luar o vai beijar,
Onde as vossas estrelas co fulgor
Do seu brilho de fogo o vão cobrir! ...
Dize-me onde ele está!... Talvez a olhar
A mesma noite linda a refulgir...
1 960
Florbela Espanca
O que mais me comove
O que mais me comove e me contrista
Neste pesar que se apossou de mim
E não saber (que tenebrosa egoísta!)
se te lembras de mim!
Qualquer pesar em que a memoria insista
Recorda a nossa angustia. É uma aflição.
E eu vivo a repetir. Longe da vista...
longe do coração...
Neste pesar que se apossou de mim
E não saber (que tenebrosa egoísta!)
se te lembras de mim!
Qualquer pesar em que a memoria insista
Recorda a nossa angustia. É uma aflição.
E eu vivo a repetir. Longe da vista...
longe do coração...
1 548
Marcelo Almeida de Oliveira
Viagem
Enxuga o choro, amor
conserva a chama
enxerga a chance
enxagua o olho
no meu retorno
pro seu chamego.
conserva a chama
enxerga a chance
enxagua o olho
no meu retorno
pro seu chamego.
874
Florbela Espanca
Escuta...
À Beatriz Carvalho
Escuta, amor, escuta a voz que ao teu ouvido
Te canta uma canção na rua em que morei,
Essa soturna voz há de contar-te, amigo
Por essa rua minha os sonhos que sonhei!
Fala d’amor a voz em tom enternecido,
Escuta-a com bondade. O muito que te amei
Anda pairando aí em sonho comovido
A envolver-te em oiro!... Assim s’envolve um rei!
Num nimbo de saudade e doce como a asa
Recorta-se no céu a minha humilde casa
Onde ficou minh’alma assim como penada
A arrastar grilhões como um fantasma triste.
É dela a voz que fala, é dela a voz que existe
Na rua em que morei... Anda crucificada!
Escuta, amor, escuta a voz que ao teu ouvido
Te canta uma canção na rua em que morei,
Essa soturna voz há de contar-te, amigo
Por essa rua minha os sonhos que sonhei!
Fala d’amor a voz em tom enternecido,
Escuta-a com bondade. O muito que te amei
Anda pairando aí em sonho comovido
A envolver-te em oiro!... Assim s’envolve um rei!
Num nimbo de saudade e doce como a asa
Recorta-se no céu a minha humilde casa
Onde ficou minh’alma assim como penada
A arrastar grilhões como um fantasma triste.
É dela a voz que fala, é dela a voz que existe
Na rua em que morei... Anda crucificada!
2 139
Florbela Espanca
O Teu Segredo
O mundo diz-te alegre porque o riso
Desabrocha em tua boca, docemente
Como uma flor de luz! Meigo sorriso
Que na tua boca poisa alegremente!
Chama-te o mundo alegre. Ai, meu amor,
Só eu inda li bem nessa alegria!...
Também parece alegre a triste cor
Do sol, à tarde, ao despedir-se o dia!...
És triste; eu sei. Toda suavidade
Tão roxa, como é roxa uma saudade
É a tua alma, amor, cheia de mágoa.
Eu sei que és triste, sei. O meu olhar
Descobriu o segredo, que a cantar
Repoisa nos teus olhos rasos d’água! ...
Desabrocha em tua boca, docemente
Como uma flor de luz! Meigo sorriso
Que na tua boca poisa alegremente!
Chama-te o mundo alegre. Ai, meu amor,
Só eu inda li bem nessa alegria!...
Também parece alegre a triste cor
Do sol, à tarde, ao despedir-se o dia!...
És triste; eu sei. Toda suavidade
Tão roxa, como é roxa uma saudade
É a tua alma, amor, cheia de mágoa.
Eu sei que és triste, sei. O meu olhar
Descobriu o segredo, que a cantar
Repoisa nos teus olhos rasos d’água! ...
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Florbela Espanca
Doce Certeza
Por essa vida fora hás de adorar
Lindas mulheres, talvez; em ânsia louca,
Em infinito anseio hás de beijar
Estrelas d’oiro fulgindo em muita boca!
Hás de guardar em cofre perfumado
Cabelos d’oiro e risos de mulher,
Muito beijo d’amor apaixonado;
E não te lembrarás de mim sequer!..
Hás de tecer uns sonhos delicados...
Hão de por muitos olhos magoados,
Os teus olhos de luz andar imersos!...
Mas nunca encontrarás p’la vida fora,
Amor assim como este amor que chora
Neste beijo d’amor que são meus versos!
Lindas mulheres, talvez; em ânsia louca,
Em infinito anseio hás de beijar
Estrelas d’oiro fulgindo em muita boca!
Hás de guardar em cofre perfumado
Cabelos d’oiro e risos de mulher,
Muito beijo d’amor apaixonado;
E não te lembrarás de mim sequer!..
Hás de tecer uns sonhos delicados...
Hão de por muitos olhos magoados,
Os teus olhos de luz andar imersos!...
Mas nunca encontrarás p’la vida fora,
Amor assim como este amor que chora
Neste beijo d’amor que são meus versos!
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Pablo Neruda
Noite - XCIV
Se morro sobrevive-me com tanta força pura
que despertes a fúria do pálido e do frio,
de Sul a Sul levanta teus olhos indeléveis,
de sol a sol que soe tua boca de guitarra.
Não quero que vacilem teu riso nem teus passos,
não quero que pereça minha herança de alegria,
não chames a meu peito, estou ausente.
Vive em minha ausência como numa casa.
É uma casa tão grande a ausência
que passarás nela através dos muros
e penderás os quadros no ar.
É uma casa tão transparente a ausência
que eu sem vida te verei viver
e se sofres, meu amor, morrerei outra vez.
que despertes a fúria do pálido e do frio,
de Sul a Sul levanta teus olhos indeléveis,
de sol a sol que soe tua boca de guitarra.
Não quero que vacilem teu riso nem teus passos,
não quero que pereça minha herança de alegria,
não chames a meu peito, estou ausente.
Vive em minha ausência como numa casa.
É uma casa tão grande a ausência
que passarás nela através dos muros
e penderás os quadros no ar.
É uma casa tão transparente a ausência
que eu sem vida te verei viver
e se sofres, meu amor, morrerei outra vez.
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Florbela Espanca
Aonde?...
Ando a chamar por ti, demente, alucinada,
Aonde estás, amor? Aonde... aonde... aonde?...
O eco ao pé de mim segreda... desgraçada...
E só a voz do eco, irônica, responde!
Estendo os braços meus! Chamo por ti ainda!
O vento, aos meus ouvidos, soluça a murmurar;
Parece a tua voz, a tua voz tão linda
Cantando como um rio banhado de luar!
Eu grito a minha dor, a minha dor intensa!
Esta saudade enorme, esta saudade imensa!
E só a voz do eco à minha voz responde...
Em gritos, a chorar, soluço o nome teu
E grito ao mar, à terra, ao puro azul do céu:
Aonde estás, amor? Aonde... aonde... aonde?...
Aonde estás, amor? Aonde... aonde... aonde?...
O eco ao pé de mim segreda... desgraçada...
E só a voz do eco, irônica, responde!
Estendo os braços meus! Chamo por ti ainda!
O vento, aos meus ouvidos, soluça a murmurar;
Parece a tua voz, a tua voz tão linda
Cantando como um rio banhado de luar!
Eu grito a minha dor, a minha dor intensa!
Esta saudade enorme, esta saudade imensa!
E só a voz do eco à minha voz responde...
Em gritos, a chorar, soluço o nome teu
E grito ao mar, à terra, ao puro azul do céu:
Aonde estás, amor? Aonde... aonde... aonde?...
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