Poemas neste tema
Saudade e Ausência
Sophia de Mello Breyner Andresen
Será Possível
Será possível que nada se cumprisse?
Que o roseiral a brisa as folhas de hera
Fossem como palavras sem sentido
— Que nada sejam senão seu rosto ido
Sem regresso nem resposta — só perdido?
Que o roseiral a brisa as folhas de hera
Fossem como palavras sem sentido
— Que nada sejam senão seu rosto ido
Sem regresso nem resposta — só perdido?
1 038
Edmir Domingues
Canto fúnebre a Garcia Lorca
Quando os cavalos negros não chegaram
e os brancos foram feitos de fumaça,
teu rosto em plena sombra, Federico,
era uma suave luz como não resta.
Os ciganos dormiam, Santiago
de Cuba na distância repousava,
mar de papel, os plátanos medusas,
e em tudo o odor das flores de tabaco.
No entanto, Federico, nós não fomos,
num coche de água negra, a Santiago,
antes levou-te o coche às águas mortas
entre o sabor do sangue e da revolta.
E se não foi às cinco de uma tarde
sucedeu numa estranha madrugada
quando era o sol de sangue (e a lua sangue)
em um reino de bêbedos distantes
como o ritmo da paz e da esperança.
E as faces alvas todas se voltaram
para o país das lágrimas noturnas.
Choramos os teus passos, Federico,
que os teus pés muito leves não pisaram.
Nós os de branco, os outros de cinzento,
os de azul, os de terra, os de amarelo,
fomos chorar-te junto aos que choravam
e que estavam vestidos de vermelho.
E eis que te digo então que os homens todos
são ratos e são deuses, nada importa
a cor das roupas várias com que cobrem
o corpo igual e nu e sem segredo.
Por trás das cores dorme a indisfarçada,
a humana condição que nos domina
que só nos dá ser grandes quando ouvimos,
canções como as que sempre nos cantavas.
Quando um poeta morre a vida morre
um pouco. E mais morreu quando morreste.
Mais triste o mundo resta, irmão tombado,
sem tua voz de estranha humanidade.
Há silêncio na terra e este meu canto
é teu, pois te reclama nessa ausência,
de ausentes que nós somos e distantes
como o ritmo da paz e da esperança.
e os brancos foram feitos de fumaça,
teu rosto em plena sombra, Federico,
era uma suave luz como não resta.
Os ciganos dormiam, Santiago
de Cuba na distância repousava,
mar de papel, os plátanos medusas,
e em tudo o odor das flores de tabaco.
No entanto, Federico, nós não fomos,
num coche de água negra, a Santiago,
antes levou-te o coche às águas mortas
entre o sabor do sangue e da revolta.
E se não foi às cinco de uma tarde
sucedeu numa estranha madrugada
quando era o sol de sangue (e a lua sangue)
em um reino de bêbedos distantes
como o ritmo da paz e da esperança.
E as faces alvas todas se voltaram
para o país das lágrimas noturnas.
Choramos os teus passos, Federico,
que os teus pés muito leves não pisaram.
Nós os de branco, os outros de cinzento,
os de azul, os de terra, os de amarelo,
fomos chorar-te junto aos que choravam
e que estavam vestidos de vermelho.
E eis que te digo então que os homens todos
são ratos e são deuses, nada importa
a cor das roupas várias com que cobrem
o corpo igual e nu e sem segredo.
Por trás das cores dorme a indisfarçada,
a humana condição que nos domina
que só nos dá ser grandes quando ouvimos,
canções como as que sempre nos cantavas.
Quando um poeta morre a vida morre
um pouco. E mais morreu quando morreste.
Mais triste o mundo resta, irmão tombado,
sem tua voz de estranha humanidade.
Há silêncio na terra e este meu canto
é teu, pois te reclama nessa ausência,
de ausentes que nós somos e distantes
como o ritmo da paz e da esperança.
693
Edmir Domingues
Fome de amor
Acordarei com fome nesta noite.
Fome do teu amor distante e vago
que repousa na borda de algum lago
que em seu silêncio todo acaso açoite
o teu repouso injusto, enquanto pago
um preço de recusa, enquanto foi-te
dado amor de vigília, de pernoite,
de uma insônia insuspeita. Entanto afago
a lembrança restante nesta quadra
ao passo que no lado escuro ladra
cão, demônio, orixá de bruxaria.
Dama do lago, antiga mas presente,
no tempo de esperar constantemente,
que há séculos se esquiva e renuncia.
Fome do teu amor distante e vago
que repousa na borda de algum lago
que em seu silêncio todo acaso açoite
o teu repouso injusto, enquanto pago
um preço de recusa, enquanto foi-te
dado amor de vigília, de pernoite,
de uma insônia insuspeita. Entanto afago
a lembrança restante nesta quadra
ao passo que no lado escuro ladra
cão, demônio, orixá de bruxaria.
Dama do lago, antiga mas presente,
no tempo de esperar constantemente,
que há séculos se esquiva e renuncia.
730
Sophia de Mello Breyner Andresen
Enquanto Longe Divagas
I
Enquanto longe divagas
E através de um mar desconhecido esqueces a palavra
— Enquanto vais à deriva das correntes
E fugitivo perseguido por inomeadas formas
A ti próprio te buscas devagar
— Enquanto percorres os labirintos da viagem
E no país de treva e gelo interrogas o mudo rosto das sombras
— Enquanto tacteias e duvidas e te espantas
E apenas como um fio te guia a tua saudade da vida
Enquanto navegas em oceanos azuis de rochas negras
E as vozes da casa te invocam e te seguem
Enquanto regressas como a ti mesmo ao mar
E sujo de algas emerges entorpecido e como drogado
— Enquanto naufragas e te afundas e te esvais
E na praia que é teu leito como criança dormes
E devagar devagar a teu corpo regressas
Como jovem toiro espantado de se reconhecer
E como jovem toiro sacodes o teu cabelo sobre os olhos
E devagar recuperas tua mão teu gesto
E teu amor das coisas sílaba por sílaba
II
O meu amor da vida está paralisado pelo teu sono
É como ave no ar veloz detida
Tudo em mim se cala para escutar o chão do teu regresso
III
Pois no ar estremece tua alegria
— Tua jovem rijeza de arbusto —
A luz espera teu perfil teu gesto
Teu ímpeto tua fuga e desafio
Tua inteligência tua argúcia teu riso
Como ondas do mar dançam em mim os pés do teu regresso
Junho de 1974
Enquanto longe divagas
E através de um mar desconhecido esqueces a palavra
— Enquanto vais à deriva das correntes
E fugitivo perseguido por inomeadas formas
A ti próprio te buscas devagar
— Enquanto percorres os labirintos da viagem
E no país de treva e gelo interrogas o mudo rosto das sombras
— Enquanto tacteias e duvidas e te espantas
E apenas como um fio te guia a tua saudade da vida
Enquanto navegas em oceanos azuis de rochas negras
E as vozes da casa te invocam e te seguem
Enquanto regressas como a ti mesmo ao mar
E sujo de algas emerges entorpecido e como drogado
— Enquanto naufragas e te afundas e te esvais
E na praia que é teu leito como criança dormes
E devagar devagar a teu corpo regressas
Como jovem toiro espantado de se reconhecer
E como jovem toiro sacodes o teu cabelo sobre os olhos
E devagar recuperas tua mão teu gesto
E teu amor das coisas sílaba por sílaba
II
O meu amor da vida está paralisado pelo teu sono
É como ave no ar veloz detida
Tudo em mim se cala para escutar o chão do teu regresso
III
Pois no ar estremece tua alegria
— Tua jovem rijeza de arbusto —
A luz espera teu perfil teu gesto
Teu ímpeto tua fuga e desafio
Tua inteligência tua argúcia teu riso
Como ondas do mar dançam em mim os pés do teu regresso
Junho de 1974
1 340
Fernando Pessoa
Saudades, só portugueses
Saudades, só portugueses
Conseguem senti-las bem,
Porque têm essa palavra
Para dizer que as têm.
Conseguem senti-las bem,
Porque têm essa palavra
Para dizer que as têm.
3 508
Fernando Pessoa
Dias são dias, e noites
Dias são dias, e noites
São noites e não dormi...
Os dias a não te ver
As noites pensando em ti.
São noites e não dormi...
Os dias a não te ver
As noites pensando em ti.
1 921
Charles Bukowski
Quente
ela era quente, ela era tão quente
eu não queria que ninguém mais ficasse com ela,
e quando eu não chegava em casa a tempo
ela já tinha se mandado, e eu não suportava isso –
eu enlouquecia...
era ridículo, eu sei, infantil,
mas eu estava preso naquilo, eu estava preso.
entreguei a correspondência toda
e aí Henderson me colocou na coleta noturna
num velho caminhão do exército,
o maldito troço começou a esquentar na metade da coleta
e a noite avançava
eu pensando sobre a minha quente Miriam
e pulando pra dentro e pra fora do caminhão
enchendo malotes de correspondência
o motor cada vez mais aquecido
o ponteiro da temperatura estava no máximo
QUENTE QUENTE
como Miriam.
eu saltava pra dentro e pra fora
só mais 3 coletas e na estação
eu estaria, meu carro
esperando pra me levar até Miriam sentada em meu sofá azul
uísque com gelo na mão
cruzando as pernas e balançando os tornozelos
como de costume,
só mais duas coletas...
o caminhão enguiçou num semáforo, era o inferno
tomando conta
de novo...
eu precisava estar em casa às 8, 8 era o horário limite para Miriam.
fiz a última coleta e o caminhão enguiçou numa sinaleira
a ½ quadra da estação...
o motor não pegava, não tinha como pegar...
tranquei as portas, tirei a chave e fui correndo até a
estação...
joguei as chaves na mesa... registrei minha saída...
“o seu maldito caminhão está enguiçado na sinaleira,
Pico com Western...”
...atravessei o corredor às pressas, enfiei a chave na porta,
abri... o copo da bebida estava lá com um bilhete:
filho da puta:
eu esperei até oito e 5
cê não me ama
seu filho da puta
alguém vai me amar
fiquei esperando dia todo
Miriam
eu servi um drinque e deixei a água ir enchendo a banheira
havia 5.000 bares na cidade
e eu percorreria 25 deles
procurando por Miriam
seu ursinho de pelúcia roxo segurava o bilhete
recostado num travesseiro
dei um drinque para o ursinho, um drinque para mim
e entrei na água
quente.
eu não queria que ninguém mais ficasse com ela,
e quando eu não chegava em casa a tempo
ela já tinha se mandado, e eu não suportava isso –
eu enlouquecia...
era ridículo, eu sei, infantil,
mas eu estava preso naquilo, eu estava preso.
entreguei a correspondência toda
e aí Henderson me colocou na coleta noturna
num velho caminhão do exército,
o maldito troço começou a esquentar na metade da coleta
e a noite avançava
eu pensando sobre a minha quente Miriam
e pulando pra dentro e pra fora do caminhão
enchendo malotes de correspondência
o motor cada vez mais aquecido
o ponteiro da temperatura estava no máximo
QUENTE QUENTE
como Miriam.
eu saltava pra dentro e pra fora
só mais 3 coletas e na estação
eu estaria, meu carro
esperando pra me levar até Miriam sentada em meu sofá azul
uísque com gelo na mão
cruzando as pernas e balançando os tornozelos
como de costume,
só mais duas coletas...
o caminhão enguiçou num semáforo, era o inferno
tomando conta
de novo...
eu precisava estar em casa às 8, 8 era o horário limite para Miriam.
fiz a última coleta e o caminhão enguiçou numa sinaleira
a ½ quadra da estação...
o motor não pegava, não tinha como pegar...
tranquei as portas, tirei a chave e fui correndo até a
estação...
joguei as chaves na mesa... registrei minha saída...
“o seu maldito caminhão está enguiçado na sinaleira,
Pico com Western...”
...atravessei o corredor às pressas, enfiei a chave na porta,
abri... o copo da bebida estava lá com um bilhete:
filho da puta:
eu esperei até oito e 5
cê não me ama
seu filho da puta
alguém vai me amar
fiquei esperando dia todo
Miriam
eu servi um drinque e deixei a água ir enchendo a banheira
havia 5.000 bares na cidade
e eu percorreria 25 deles
procurando por Miriam
seu ursinho de pelúcia roxo segurava o bilhete
recostado num travesseiro
dei um drinque para o ursinho, um drinque para mim
e entrei na água
quente.
1 094
Carlos Drummond de Andrade
Aos Santos de Junho
Meu santo Santo Antônio de Lisboa,
repara em quanto coração aflito,
a padecer milhões por coisa à toa.
Por que não baixas, please, do infinito?
O mundo é o mesmo após aquela tarde
em que, à falta de gente, por encanto,
falaste aos peixes, e eles, sem alarde,
meditavam em roda de teu manto.
Não sabemos, Antônio, o que queremos,
nem sabemos querer, porém confiamos
de teu amor nos cândidos extremos
e nessa fiúza todos continuamos.
Se não sorris a nosso petitório,
acudindo ao que houver de mais urgente,
se, em vez do café, levas o tório,
como pode o pessoal ficar contente?
Alferes, capitão de soldo largo,
tua civilidade nos proteja.
Não nos deixes papar arroz amargo,
e os brotos (de grinalda?) leva à igreja.
Olha as coisas perdidas, Antoninho:
vergonha, isqueiro, tempo… Se encontrares
um coração jogado no caminho,
traze-o de volta ao dono, pelos ares.
E tu, senhor São João, que vens chegando
ao estrondo de bombas (de hidrogênio?),
salve! mas, por favor, dize: até quando
o jeito é ensurdecer: por um milênio?
Sei que não és culpado, meu querido.
Amas o fogo, a sorte, a clara de ovo,
a flor de samambaia e seu sentido
mágico, à meia-noite, para o povo.
E o manjerico verde, casamento
com rapaz; ou, senão, murcho, com velho.
Responde, João: em julho vem aumento?
(Bem sei que o assunto foge ao Evangelho.)
Mas dançaremos todos por lembrar-te,
e pulando, sem pânico, a fogueira,
pobres clientes do câncer e do enfarte,
ao clarão de outra chama verdadeira
que arde em nós, não se extingue e nos consola,
ó João Batista degolado e suave,
bendiremos a graça de teu nome,
e na funda bacia a alma se lave.
Não importa, se ardemos: esta brasa,
como o petróleo, é nossa. Mas, bondoso
e friorento São João: ao cego, em Gaza,
dá-lhe em sonho um balcão, para seu gozo.
E tu, ó Pedro astuto e rude, rocha
no caminho do incréu, baixa e descansa,
contando-nos teus contos de carocha,
os mesmos em Caeté como na França.
Tens as chaves do céu ou do Tesouro?
Aqui a turma — é pena — se interessa
bem mais pela segunda — tanto ouro
nas almas se perdendo… A vida é essa.
E o mais que se dissipa em schiaparellis,
balenciagas, espécies superfinas
(que não sei como pôr os erres e eles),
em peles balzaquianas e meninas.
Pedro-piloto-barca: a teu prestígio,
da vida este canhestro e mau aluno,
evitando de longe o curso estígio,
ganha a sabedoria de Unamuno.
No alto não me recebes, mas à porta,
os coros inefáveis surpreendendo,
cultivarei as minhas flores de horta:
a saudade do céu é um dividendo.
Antônio, Pedro, João: aos três oferto
esta saudade em nós, sem testemunho:
pois, se o homem rasteja em rumo incerto,
balões sobem ao céu, no mês de junho.
17/06/1956
repara em quanto coração aflito,
a padecer milhões por coisa à toa.
Por que não baixas, please, do infinito?
O mundo é o mesmo após aquela tarde
em que, à falta de gente, por encanto,
falaste aos peixes, e eles, sem alarde,
meditavam em roda de teu manto.
Não sabemos, Antônio, o que queremos,
nem sabemos querer, porém confiamos
de teu amor nos cândidos extremos
e nessa fiúza todos continuamos.
Se não sorris a nosso petitório,
acudindo ao que houver de mais urgente,
se, em vez do café, levas o tório,
como pode o pessoal ficar contente?
Alferes, capitão de soldo largo,
tua civilidade nos proteja.
Não nos deixes papar arroz amargo,
e os brotos (de grinalda?) leva à igreja.
Olha as coisas perdidas, Antoninho:
vergonha, isqueiro, tempo… Se encontrares
um coração jogado no caminho,
traze-o de volta ao dono, pelos ares.
E tu, senhor São João, que vens chegando
ao estrondo de bombas (de hidrogênio?),
salve! mas, por favor, dize: até quando
o jeito é ensurdecer: por um milênio?
Sei que não és culpado, meu querido.
Amas o fogo, a sorte, a clara de ovo,
a flor de samambaia e seu sentido
mágico, à meia-noite, para o povo.
E o manjerico verde, casamento
com rapaz; ou, senão, murcho, com velho.
Responde, João: em julho vem aumento?
(Bem sei que o assunto foge ao Evangelho.)
Mas dançaremos todos por lembrar-te,
e pulando, sem pânico, a fogueira,
pobres clientes do câncer e do enfarte,
ao clarão de outra chama verdadeira
que arde em nós, não se extingue e nos consola,
ó João Batista degolado e suave,
bendiremos a graça de teu nome,
e na funda bacia a alma se lave.
Não importa, se ardemos: esta brasa,
como o petróleo, é nossa. Mas, bondoso
e friorento São João: ao cego, em Gaza,
dá-lhe em sonho um balcão, para seu gozo.
E tu, ó Pedro astuto e rude, rocha
no caminho do incréu, baixa e descansa,
contando-nos teus contos de carocha,
os mesmos em Caeté como na França.
Tens as chaves do céu ou do Tesouro?
Aqui a turma — é pena — se interessa
bem mais pela segunda — tanto ouro
nas almas se perdendo… A vida é essa.
E o mais que se dissipa em schiaparellis,
balenciagas, espécies superfinas
(que não sei como pôr os erres e eles),
em peles balzaquianas e meninas.
Pedro-piloto-barca: a teu prestígio,
da vida este canhestro e mau aluno,
evitando de longe o curso estígio,
ganha a sabedoria de Unamuno.
No alto não me recebes, mas à porta,
os coros inefáveis surpreendendo,
cultivarei as minhas flores de horta:
a saudade do céu é um dividendo.
Antônio, Pedro, João: aos três oferto
esta saudade em nós, sem testemunho:
pois, se o homem rasteja em rumo incerto,
balões sobem ao céu, no mês de junho.
17/06/1956
2 025
Charles Bukowski
Cometi Um Erro
me estiquei até o alto do armário
e puxei uma calcinha azul
e mostrei a ela e
perguntei “é sua?”
e ela olhou e falou:
“não, essa pertence a um cão”.
ela foi embora depois disso e não a vi
desde então. não está na casa dela.
continuo indo lá, deixando bilhetes enfiados
por baixo da porta. volto lá e os bilhetes
continuam ali. tiro a cruz de Malta
arranco-a do espelho do meu carro, amarro-a
com um cadarço em sua maçaneta, deixo
um livro de poemas.
quando retorno na noite seguinte tudo
continua ali.
sigo rondando as ruas em busca daquele
encouraçado sangue-vinho que ela dirige
com uma bateria fraca, e as portas
pendendo de dobradiças quebradas.
dirijo pelas ruas
a um centímetro de chorar,
envergonhado de meu sentimentalismo e
possível amor.
um velho confuso dirigindo na chuva
perguntando-se onde a boa sorte
foi parar.
e puxei uma calcinha azul
e mostrei a ela e
perguntei “é sua?”
e ela olhou e falou:
“não, essa pertence a um cão”.
ela foi embora depois disso e não a vi
desde então. não está na casa dela.
continuo indo lá, deixando bilhetes enfiados
por baixo da porta. volto lá e os bilhetes
continuam ali. tiro a cruz de Malta
arranco-a do espelho do meu carro, amarro-a
com um cadarço em sua maçaneta, deixo
um livro de poemas.
quando retorno na noite seguinte tudo
continua ali.
sigo rondando as ruas em busca daquele
encouraçado sangue-vinho que ela dirige
com uma bateria fraca, e as portas
pendendo de dobradiças quebradas.
dirijo pelas ruas
a um centímetro de chorar,
envergonhado de meu sentimentalismo e
possível amor.
um velho confuso dirigindo na chuva
perguntando-se onde a boa sorte
foi parar.
1 074
Mário-Henrique Leiria
Pegada na areia
Pegada na areia
recortada ainda
como o sinal distante
que espera apenas
a prevista vinda
do mar em maré cheia
para então partir
barco oscilante
vazio como o búzio
abandonado
entre os escombros
a recordar
um rosto perdido
de mulher
envolto em algas
com manchas solares
até aos ombros
num tempo já esquecido
sorriso de mulher
a desaparecer suavemente
atrás da duna
como a leve escuna
que parte ao sol poente
todos os demónios
cantando em tua mão
o mar
a solidão
recortada ainda
como o sinal distante
que espera apenas
a prevista vinda
do mar em maré cheia
para então partir
barco oscilante
vazio como o búzio
abandonado
entre os escombros
a recordar
um rosto perdido
de mulher
envolto em algas
com manchas solares
até aos ombros
num tempo já esquecido
sorriso de mulher
a desaparecer suavemente
atrás da duna
como a leve escuna
que parte ao sol poente
todos os demónios
cantando em tua mão
o mar
a solidão
584
Fernando Pessoa
Ó meu amor! ó meu damasco, ó minha seda.
Ó meu amor! ó meu damasco, ó minha seda,
Ó meu guizo de prata,
Meu colar de pérolas deixado em cima da cómoda,
Minha aliança de ouro em dedos já velhinhos e fieis,
Minha cantiga de raparigas ao poente,
Ó meu fumo de cigarro, tão inútil e tão necessário,
Minha Bíblia para as crianças brincarem,
Minha amante que eu queria trazer ao colo como uma filha...
Olha, tenho as mãos em febre...
Tenho a testa a escaldar, tenho os olhos muito estranhos...
Todos olham para o brilho dos meus olhos e espetam-se neles...
Eu tenho febre e tenho sede e lembro-me de ti por causa disso
Porque se eu te tivesse como te quereria ter
(Não sei se é de um modo físico, ou de um modo psíquico)
Eu não teria nem febre, nem sede, nem a testa a arder,
Nem os olhos secos, muito secos, sob a fronte...
Tu não sabes o que tem sido a minha vida!...
Tu não sabes que martírio tem sido o meu...
Se tu soubesses o que é amar as coisas simples e calmas
E não ter jeito para procurar senão as outras coisas!
Se tu soubesses porque é que quando eu estou na minha quinta de dia
Tenho saudades dela como se não estivesse lá...
Se tu soubesses o que eu sinto à noite, nos hotéis, pelas ruas,
Se tu soubesses! Mas eu próprio não sei o que é que sinto...
Minha lantejoula, minha casa de bonecas,
Ó meus brinquedos da minha infância atados com cordéis!
Ó meu regimento que passa com a banda à frente,
Minha noite no circo, nos cavalinhos, a rir dos palhaços...
Ó minha (...)
Ó meu guizo de prata,
Meu colar de pérolas deixado em cima da cómoda,
Minha aliança de ouro em dedos já velhinhos e fieis,
Minha cantiga de raparigas ao poente,
Ó meu fumo de cigarro, tão inútil e tão necessário,
Minha Bíblia para as crianças brincarem,
Minha amante que eu queria trazer ao colo como uma filha...
Olha, tenho as mãos em febre...
Tenho a testa a escaldar, tenho os olhos muito estranhos...
Todos olham para o brilho dos meus olhos e espetam-se neles...
Eu tenho febre e tenho sede e lembro-me de ti por causa disso
Porque se eu te tivesse como te quereria ter
(Não sei se é de um modo físico, ou de um modo psíquico)
Eu não teria nem febre, nem sede, nem a testa a arder,
Nem os olhos secos, muito secos, sob a fronte...
Tu não sabes o que tem sido a minha vida!...
Tu não sabes que martírio tem sido o meu...
Se tu soubesses o que é amar as coisas simples e calmas
E não ter jeito para procurar senão as outras coisas!
Se tu soubesses porque é que quando eu estou na minha quinta de dia
Tenho saudades dela como se não estivesse lá...
Se tu soubesses o que eu sinto à noite, nos hotéis, pelas ruas,
Se tu soubesses! Mas eu próprio não sei o que é que sinto...
Minha lantejoula, minha casa de bonecas,
Ó meus brinquedos da minha infância atados com cordéis!
Ó meu regimento que passa com a banda à frente,
Minha noite no circo, nos cavalinhos, a rir dos palhaços...
Ó minha (...)
1 627
Mário-Henrique Leiria
Origem dos sonhos esquecidos
Entre a bicicleta e a laranja
vai a distância de uma camisa branca
Entre o pássaro e a bandeira
vai a distância dum relógio solar
Entre a janela e o canto do lobo
vai a distância dum lago desesperado
Entre mim e a bola de bilhar
vai a distância dum sexo fulgurante
Qualquer pedaço de floresta ou tempestade
pode ser a distância
entre os teus braços fechados em si mesmos
e a noite encontrada para além do grito das panteras
qualquer grito de pantera
pode ser a distância
entre os teus passos
e o caminho em que eles se desfazem lentamente
Qualquer caminho
pode ser a distância
entre tu e eu
Qualquer distância
entre tu e eu
é a única e magnífica existência
do nosso amor que se devora sorrindo
vai a distância de uma camisa branca
Entre o pássaro e a bandeira
vai a distância dum relógio solar
Entre a janela e o canto do lobo
vai a distância dum lago desesperado
Entre mim e a bola de bilhar
vai a distância dum sexo fulgurante
Qualquer pedaço de floresta ou tempestade
pode ser a distância
entre os teus braços fechados em si mesmos
e a noite encontrada para além do grito das panteras
qualquer grito de pantera
pode ser a distância
entre os teus passos
e o caminho em que eles se desfazem lentamente
Qualquer caminho
pode ser a distância
entre tu e eu
Qualquer distância
entre tu e eu
é a única e magnífica existência
do nosso amor que se devora sorrindo
661
Manuel Bandeira
Do Que Dissestes...
Do que dissestes, alma fria,
Já nada vos acode mais?...
Éramos sós... Fora chovia...
Quanta ternura em mim havia!
(Em vós também... Por que o negais?)
Hoje, contudo, nem me olhais...
Pobre de mim! Por que seria?
Acaso arrependida estais
Do que dissestes?
É bem possível que o estejais...
O amor é cousa fugidia...
Eu, no entretanto, que em tal dia
Gozei momentos sem iguais,
Eu não me esquecerei jamais
Do que dissestes.
Já nada vos acode mais?...
Éramos sós... Fora chovia...
Quanta ternura em mim havia!
(Em vós também... Por que o negais?)
Hoje, contudo, nem me olhais...
Pobre de mim! Por que seria?
Acaso arrependida estais
Do que dissestes?
É bem possível que o estejais...
O amor é cousa fugidia...
Eu, no entretanto, que em tal dia
Gozei momentos sem iguais,
Eu não me esquecerei jamais
Do que dissestes.
1 155
Manuel Bandeira
Pierrot Místico
Torna a meu leito, Colombina!
Não procures em outros braços
Os requintes em que se afina
A volúpia dos meus abraços.
Os atletas poderão dar-te
O amor próximo das sevícias...
Só eu possuo a ingênua arte
Das indefiníveis carícias...
Meus magros dedos dissolutos
Conhecem todos os afagos
Para os teus olhos sempre enxutos
Mudar em dois brumosos lagos...
Quando em êxtase os olhos viro,
Ah se pudesses, fútil presa,
Sentir na dor do meu suspiro
A minha infinita tristeza!...
Insensato aquele que busca
O amor na fúria dionisíaca!
Por mim desamo a posse brusca.
A volúpia é cisma elegíaca...
A volúpia é bruma que esconde
Abismos de melancolia...
Flor de tristes pântanos onde
Mais que a morte a vida é sombria...
Minh'alma lírica de amante
Despedaçada de soluços,
Minh'alma ingênua, extravagante,
Aspira a desoras de bruços
Não às alegrias impuras,
Mas a aquelas rosas simbólicas
De vossas ardentes ternuras,
Grandes místicas melancólicas!...
Não procures em outros braços
Os requintes em que se afina
A volúpia dos meus abraços.
Os atletas poderão dar-te
O amor próximo das sevícias...
Só eu possuo a ingênua arte
Das indefiníveis carícias...
Meus magros dedos dissolutos
Conhecem todos os afagos
Para os teus olhos sempre enxutos
Mudar em dois brumosos lagos...
Quando em êxtase os olhos viro,
Ah se pudesses, fútil presa,
Sentir na dor do meu suspiro
A minha infinita tristeza!...
Insensato aquele que busca
O amor na fúria dionisíaca!
Por mim desamo a posse brusca.
A volúpia é cisma elegíaca...
A volúpia é bruma que esconde
Abismos de melancolia...
Flor de tristes pântanos onde
Mais que a morte a vida é sombria...
Minh'alma lírica de amante
Despedaçada de soluços,
Minh'alma ingênua, extravagante,
Aspira a desoras de bruços
Não às alegrias impuras,
Mas a aquelas rosas simbólicas
De vossas ardentes ternuras,
Grandes místicas melancólicas!...
1 493
Fernando Pessoa
O som contínuo da chuva
O som contínuo da chuva
A se ouvir lá fora bem
Deixa-nos a alma viúva
Daquilo que já não tem.
[...]
A se ouvir lá fora bem
Deixa-nos a alma viúva
Daquilo que já não tem.
[...]
1 538
Fernando Pessoa
V - Ténue, roçando sedas pelas horas,
V
Ténue, roçando sedas pelas horas,
Teu vulto ciciante passa e esquece,
E dia a dia adias para prece
O rito cujo ritmo só decoras...
Um mar longínquo e próximo humedece
Teus lábios onde, mais que em ti, descoras...
E, alada, leve, sobre a dor que choras,
Sem querer saber de ti a tarde desce...
Erra no anteluar a voz dos tanques...
Na quinta imensa gorgolejam águas,
Na treva vaga ao meu ter dor estanques...
Meu império é das horas desiguais,
E dei meu gesto lasso às algas mágoas
Que há para além de sermos outonais...
Ténue, roçando sedas pelas horas,
Teu vulto ciciante passa e esquece,
E dia a dia adias para prece
O rito cujo ritmo só decoras...
Um mar longínquo e próximo humedece
Teus lábios onde, mais que em ti, descoras...
E, alada, leve, sobre a dor que choras,
Sem querer saber de ti a tarde desce...
Erra no anteluar a voz dos tanques...
Na quinta imensa gorgolejam águas,
Na treva vaga ao meu ter dor estanques...
Meu império é das horas desiguais,
E dei meu gesto lasso às algas mágoas
Que há para além de sermos outonais...
1 350
Fernando Pessoa
VI - Venho de longe e trago no perfil,
VI
Venho de longe e trago no perfil,
Em forma nevoenta e afastada,
O perfil de outro ser que desagrada
Ao meu actual recorte humano e vil.
Outrora fui talvez, não Boabdil,
Mas o seu mero último olhar, da estrada
Dado ao deixado vulto de Granada,
Recorte frio sob o unido anil...
Hoje sou a saudade imperial
Do que já na distância de mim vi...
Eu próprio sou aquilo que perdi...
E nesta estrada para Desigual
Florem em esguia glória marginal
Os girassóis do império que morri...
Venho de longe e trago no perfil,
Em forma nevoenta e afastada,
O perfil de outro ser que desagrada
Ao meu actual recorte humano e vil.
Outrora fui talvez, não Boabdil,
Mas o seu mero último olhar, da estrada
Dado ao deixado vulto de Granada,
Recorte frio sob o unido anil...
Hoje sou a saudade imperial
Do que já na distância de mim vi...
Eu próprio sou aquilo que perdi...
E nesta estrada para Desigual
Florem em esguia glória marginal
Os girassóis do império que morri...
1 187
Paio Gomes Charinho
Senhor Fremosa, Pois Que Deus Nom Quer,
Senhor fremosa, pois que Deus nom quer,
nem mia ventura, que vos eu veer
possa, convém-m'hojemais a sofrer
todas las coitas que sofrer poder
por vós; e quero já sempre coidar
em qual vos vi, e tal vos desejar
tôdolos dias em que eu viver.
E morte assi venha quando vẽer!
Ca desejos nom hei eu de perder
da mansedume e do bom parecer
e da bondade, se eu bem fezer,
que em vós há; mais quer'a Deus rogar
que me leixe meu temp'assi passar,
desejando qual vos vi, e sofrer.
Ca em desejos é tod'o meu bem.
E dizem outros que ham mal, senhor,
desejando; mais eu filh'i sabor,
ca desejo qual vos vi e por en
vivo, ca sempre cuid'em qual vos vi
e atal vos desejei des ali
e desejarei mentr'eu vivo for.
Ca sem desejos nunca eu vi quem
podess'haver tam verdadeir'amor
como hoj'eu hei, nem fosse sofredor
do que eu sofr'; e esto me mantém:
grandes desejos que hei. E assi
quero viver; e o que for de mi
seja, ca esto tenh'eu por melhor:
desejar sempre; ca des que nom vi
vós nom vivera rem do que vivi:
senom coidando em qual vos vi, senhor.
nem mia ventura, que vos eu veer
possa, convém-m'hojemais a sofrer
todas las coitas que sofrer poder
por vós; e quero já sempre coidar
em qual vos vi, e tal vos desejar
tôdolos dias em que eu viver.
E morte assi venha quando vẽer!
Ca desejos nom hei eu de perder
da mansedume e do bom parecer
e da bondade, se eu bem fezer,
que em vós há; mais quer'a Deus rogar
que me leixe meu temp'assi passar,
desejando qual vos vi, e sofrer.
Ca em desejos é tod'o meu bem.
E dizem outros que ham mal, senhor,
desejando; mais eu filh'i sabor,
ca desejo qual vos vi e por en
vivo, ca sempre cuid'em qual vos vi
e atal vos desejei des ali
e desejarei mentr'eu vivo for.
Ca sem desejos nunca eu vi quem
podess'haver tam verdadeir'amor
como hoj'eu hei, nem fosse sofredor
do que eu sofr'; e esto me mantém:
grandes desejos que hei. E assi
quero viver; e o que for de mi
seja, ca esto tenh'eu por melhor:
desejar sempre; ca des que nom vi
vós nom vivera rem do que vivi:
senom coidando em qual vos vi, senhor.
620
Fernando Pessoa
XII - Ela ia, tranquila pastorinha,
XII
Ela ia, tranquila pastorinha,
Pela estrada da minha imperfeição.
Seguia-a, como um gesto de perdão,
O seu rebanho, a saudade minha...
«Em longes terras hás-de ser rainha»
Um dia lhe disseram, mas em vão...
Seu vulto perde-se na escuridão...
Só sua sombra ante meus pés caminha...
Deus te dê lírios em vez desta hora,
E em terras longe do que eu hoje sinto
Serás, rainha não, mas só pastora —
Só sempre a mesma pastorinha a ir,
E eu serei teu regresso, esse indistinto
Abismo entre o meu sonho e o meu porvir...
Ela ia, tranquila pastorinha,
Pela estrada da minha imperfeição.
Seguia-a, como um gesto de perdão,
O seu rebanho, a saudade minha...
«Em longes terras hás-de ser rainha»
Um dia lhe disseram, mas em vão...
Seu vulto perde-se na escuridão...
Só sua sombra ante meus pés caminha...
Deus te dê lírios em vez desta hora,
E em terras longe do que eu hoje sinto
Serás, rainha não, mas só pastora —
Só sempre a mesma pastorinha a ir,
E eu serei teu regresso, esse indistinto
Abismo entre o meu sonho e o meu porvir...
1 583
Paio Gomes Charinho
Ora Me Venh'eu, Senhor, Espedir
Ora me venh'eu, senhor, espedir
de vós, a que muit'há que aguardei;
e ora me quero de vós partir
sem galardom de camanho temp'hei
que vos servi, e quero-m'ir viver
em atal terra, u nunca prazer
veja, nem cante, nem possa riir.
Ca sõo certo, des que vos nom vir,
que outro prazer nunca veerei;
e, mal que haja, nom hei de sentir
senom o voss'; e assi andarei
triste, cuidando no vosso parecer,
e, chorando, muitas vezes dizer:
- Senhor, já nunca vos posso servir!
E do meu corpo que será, senhor,
quand'el d'alá o vosso desejar?
E que fará quem vos há tal amor
e vos nom vir, nem vos poder falar?
Ca vejo vós e por vós morr'aqui
- pois que farei ou que será de mim
quand'em terra u vós fordes nom for?
Ora com graça de vós, a melhor
dona do mundo – ca muit'hei d'andar;
e vós ficades de mim pecador,
ca vos servi muit'e galardoar
nom mi o quisestes; e vou-m'eu daqui,
d'u eu tanto lazerei e servi,
buscar u viva pouc'e sem sabor.
E, mia senhor, tod'est'eu mereci
a Deus; mais vós, de como vos servi,
mui sem vergonha irei per u for
- ora com graça de vós, mia senhor.
de vós, a que muit'há que aguardei;
e ora me quero de vós partir
sem galardom de camanho temp'hei
que vos servi, e quero-m'ir viver
em atal terra, u nunca prazer
veja, nem cante, nem possa riir.
Ca sõo certo, des que vos nom vir,
que outro prazer nunca veerei;
e, mal que haja, nom hei de sentir
senom o voss'; e assi andarei
triste, cuidando no vosso parecer,
e, chorando, muitas vezes dizer:
- Senhor, já nunca vos posso servir!
E do meu corpo que será, senhor,
quand'el d'alá o vosso desejar?
E que fará quem vos há tal amor
e vos nom vir, nem vos poder falar?
Ca vejo vós e por vós morr'aqui
- pois que farei ou que será de mim
quand'em terra u vós fordes nom for?
Ora com graça de vós, a melhor
dona do mundo – ca muit'hei d'andar;
e vós ficades de mim pecador,
ca vos servi muit'e galardoar
nom mi o quisestes; e vou-m'eu daqui,
d'u eu tanto lazerei e servi,
buscar u viva pouc'e sem sabor.
E, mia senhor, tod'est'eu mereci
a Deus; mais vós, de como vos servi,
mui sem vergonha irei per u for
- ora com graça de vós, mia senhor.
603
Fernando Pessoa
X - Aconteceu-me do alto do infinito
X
Aconteceu-me do alto do infinito
Esta vida. Através de nevoeiros,
Do meu próprio ermo ser fumos primeiros,
Vim ganhando, e através estranhos ritos
De sombra e luz ocasional, e gritos
Vagos ao longe, e assomos passageiros
De saudade incógnita, luzeiros
De divino, este ser fosco e proscrito...
Caiu chuva em passados que fui eu.
Houve planícies de céu baixo e neve
Nalguma coisa de alma do que é meu.
Narrei-me a sombra e não me achei sentido
Hoje sei-me o deserto onde Deus teve
Outrora a sua capital de olvido...
Aconteceu-me do alto do infinito
Esta vida. Através de nevoeiros,
Do meu próprio ermo ser fumos primeiros,
Vim ganhando, e através estranhos ritos
De sombra e luz ocasional, e gritos
Vagos ao longe, e assomos passageiros
De saudade incógnita, luzeiros
De divino, este ser fosco e proscrito...
Caiu chuva em passados que fui eu.
Houve planícies de céu baixo e neve
Nalguma coisa de alma do que é meu.
Narrei-me a sombra e não me achei sentido
Hoje sei-me o deserto onde Deus teve
Outrora a sua capital de olvido...
807
Paio Gomes Charinho
Par Deus, Senhor, de Grado Queria
Par Deus, senhor, de grado queria
se Deus quisesse, de vós ũa rem:
que nom desejass'eu o vosso bem
como desej'a noit'e o dia,
por muit'afã que eu sofr'e sofri
por vós, senhor; e oimais des aqui
poss'entender que faç'i folia.
E pois nom quer a ventura mia
que vos doades do mal que mi avém
por vós, senhor, e maravilh'é-m'en
como nom moir'e morrer devia;
por en rog'a Deus que me valha i,
que sab'a coita que por vós sofr'i,
senom, mia morte mais me valria.
se Deus quisesse, de vós ũa rem:
que nom desejass'eu o vosso bem
como desej'a noit'e o dia,
por muit'afã que eu sofr'e sofri
por vós, senhor; e oimais des aqui
poss'entender que faç'i folia.
E pois nom quer a ventura mia
que vos doades do mal que mi avém
por vós, senhor, e maravilh'é-m'en
como nom moir'e morrer devia;
por en rog'a Deus que me valha i,
que sab'a coita que por vós sofr'i,
senom, mia morte mais me valria.
556
Paio Gomes Charinho
Senhor, Sempr'os Olhos Meus
Senhor, sempr'os olhos meus
ham sabor de vos catar
e que os vossos pesar
nunca vejam; e, por Deus,
nom vos pês e catarám
vós, que a desejar ham
sempr'enquanto vivo for;
ca nunca podem dormir,
nem haver bem, senom ir
u vos vejam; e, senhor,
nom vos pês e catarám
vós, que a desejar ham
sempre, mia senhor; ca prez
nom é fazerde-lhes mal;
mais, por Deus, e nom por al,
que os vossos taes fez,
nom vos pês e catarám
vós, que a desejar ham.
ham sabor de vos catar
e que os vossos pesar
nunca vejam; e, por Deus,
nom vos pês e catarám
vós, que a desejar ham
sempr'enquanto vivo for;
ca nunca podem dormir,
nem haver bem, senom ir
u vos vejam; e, senhor,
nom vos pês e catarám
vós, que a desejar ham
sempre, mia senhor; ca prez
nom é fazerde-lhes mal;
mais, por Deus, e nom por al,
que os vossos taes fez,
nom vos pês e catarám
vós, que a desejar ham.
628
Paio Gomes Charinho
As Frores do Meu Amigo
As frores do meu amigo
briosas vam no navio,
e vam-s[e] as frores
daqui bem com meus amores,
idas som as frores,
daqui bem com [meus amores].
As frores do meu amado
briosas vam [ẽ]no barco,
e vam-s[e] as frores
daqui bem com meus amores,
idas som as frores,
daqui bem com [meus amores].
Briosas vam no navio
pera chegar ao ferido,
e vam-s[e] as frores
daqui bem com meus amores,
idas som as frores,
daqui bem com [meus amores].
Briosas vam ẽno barco
pera chegar ao fossado,
e vam-s[e] as frores
daqui bem com meus amores,
idas som as frores,
daqui bem com [meus amores].
Pera chegar ao ferido
servir mi, corpo velido,
e vam-s[e] as frores
daqui bem com meus amores,
idas som as frores,
daqui bem com [meus amores].
Pera chegar ao fossado
servir mi, corpo loado,
e vam-s[e] as frores
daqui bem com meus amores,
idas som as frores,
daqui bem com [meus amores].
briosas vam no navio,
e vam-s[e] as frores
daqui bem com meus amores,
idas som as frores,
daqui bem com [meus amores].
As frores do meu amado
briosas vam [ẽ]no barco,
e vam-s[e] as frores
daqui bem com meus amores,
idas som as frores,
daqui bem com [meus amores].
Briosas vam no navio
pera chegar ao ferido,
e vam-s[e] as frores
daqui bem com meus amores,
idas som as frores,
daqui bem com [meus amores].
Briosas vam ẽno barco
pera chegar ao fossado,
e vam-s[e] as frores
daqui bem com meus amores,
idas som as frores,
daqui bem com [meus amores].
Pera chegar ao ferido
servir mi, corpo velido,
e vam-s[e] as frores
daqui bem com meus amores,
idas som as frores,
daqui bem com [meus amores].
Pera chegar ao fossado
servir mi, corpo loado,
e vam-s[e] as frores
daqui bem com meus amores,
idas som as frores,
daqui bem com [meus amores].
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