Poemas neste tema

Saudade e Ausência

Afonso X

Afonso X

Bem Sabia Eu, Mia Senhor

Bem sabia eu, mia senhor,
que pois m'eu de vós partisse
que nunc' haveria sabor
de rem, pois vos eu nom visse,
porque vós sodes a melhor
dona de que nunca oísse
homem falar;
ca o vosso bom semelhar
sei que par
nunca lh'homem pod'achar.

E pois que o Deus assi quis,
que eu som tam alongado
de vós, mui bem seede fiz
que nunca eu sem cuidado
en viverei, ca já Paris
d'amor nom foi tam coitado
[e] nem Tristam;
nunca sofrerom tal afã,
nen'[o] ham
quantos som, nem seeram.

Que farei eu, pois que nom vir
o mui bom parecer vosso?
Ca o mal que vos foi ferir
aquel é [meu] x'est o vosso;
e por ende per rem partir
de vos muit'amar nom posso;
nen'[o] farei,
ante bem sei ca morrerei,
se nom hei
vós que [já] sempr'am[ar]ei.
855
Afonso X

Afonso X

Pois Que M'hei Ora D'alongar

Pois que m'hei ora d'alongar
de mia senhor, que quero bem,
porque me faz perder o sem,
quando m'houver del'a quitar,
direi, quando me lh'espedir:
de mui bom grado queria ir
log'e nunca [m'end'ar] viir.

Pois me tal coita faz sofrer,
qual sempr'eu por ela sofri,
des aquel dia 'm que a vi,
e nom se quer de mim doer
atanto lhi direi por en:
moir'eu e moiro por alguém
e nunca vos mais direi en.

E já eu nunca veerei
prazer com estes olhos meus,
de[s] quando a nom vir, par Deus,
e com coita que haverei,
chorando lhi direi assi:
moir'eu porque nom vej'aqui
a dona que nom vej’aqui.
695
Fernão Garcia Esgaravunha

Fernão Garcia Esgaravunha

Se Deus Me Leixe de Vós Bem Haver

Se Deus me leixe de vós bem haver,
senhor fremosa, nunca vi prazer
       des quando m'eu de vós parti.

E fez-mi o voss'amor tam muito mal,
que nunca vi prazer de mim, nem d'al,
       des quando m'eu de vós parti.

Houv'eu tal coita no meu coraçom
que nunca vi prazer, se ora nom,
       des quando m'eu de vós parti.
679
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Há dois dias que não vejo

Há dois dias que não vejo
Modo de tornar-te a ver.
Se outros também te não vissem,
Desejava sem sofrer.
1 271
Ruy Belo

Ruy Belo

Cor lapideum - Cor carneum

Quantos dias longe de ti andou meu coração
em configurações mais próximas de lábios
ó amor de sião nem eu o sei
Chorar era a minha forma de ser
verde salgueiro à beira destes dias
íntimos e trémulos. E ia-me das mãos
em águas que de rios tinham só
serem as lágrimas íntimas metáforas
com que me via longe ou simplismente em ti
Não bastou adoptar meus gélidos conceitos
nem tecer de grinaldas velhas saudades tuas
nem conceder ao sol humilde do portal
a condição atmosférica dos raios

Até que tu vieste provisoriamente
encher da tua ausência um coração
que só a fome alimenta
Até que tu poisaste tão serenamente
como a tardia folha que tem
insaciável vocação de chão


Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 28 | Editorial Presença Lda., 1984
1 200
Nuno Fernandes Torneol

Nuno Fernandes Torneol

Par Deus, Senhor, Em Gram Coita Serei

Par Deus, senhor, em gram coita serei
agora quando m'eu de vós quitar,
ca me nom hei d'al no mund'a pagar;
e, mia senhor, gram dereito farei,
       pois eu de vós os meus olhos partir
       e os vossos mui fremosos nom vir.

E bem mi o per devedes a creer
que me será mia mort', e m'é mester,
des quando vos eu veer nom poder;
nem Deus, senhor, nom me leixe viver,
       pois eu de vos os meus olhos partir
       e os vossos mui fremosos nom vir.

Pero sei-m'eu que me faço mal sem,
de vos amar, ca, des quando vos vi,
em mui gram coita fui, senhor, des i;
mais que farei, ai meu lum'e meu bem,
       pois eu de vós os meus olhos partir
       e os vossos mui fremosos nom vir?

E pois vos Deus fez parecer melhor
de quantas outras eno mundo som,
por mal de mim e do meu coraçom,
com'haverei já do mundo sabor,
       pois eu de vós os meus olhos partir
       e os vossos mui fremosos nom vir?
666
Dom Francisco Manuel de Melo

Dom Francisco Manuel de Melo

Soneto II

Alegria Custosa

Enfim que aquela hora é já chegada,
Que até nos passos traz preço e ventura,
Tão merecida de uma fé tão Pura,
E de um tão limpo amor tão esperada.

Ela tardou em vir, como rogada
Da viva saudade, que ainda dura.
Ora bem pode vir, e estar segura,
Que há de ser possuída a desejada.

Senhora, se com lágrimas convinha
sentir somente o mal, e agora o canto,
É digno de outra glória verdadeira;

Não cuideis que é fraqueza da alma minha,
Mas que, de costumada sempre ao pranto,
Não sabe festejar de outra maneira.

1 285
Nuno Fernandes Torneol

Nuno Fernandes Torneol

Ir-Vos Queredes, Mia Senhor

Ir-vos queredes, mia senhor,
e fic'end'eu com gram pesar,
que nunca soube rem amar
ergo vós, des quando vos vi.
E pois que vos ides daqui,
       senhor fremosa, que farei?

E que farei eu, pois nom vir
o vosso mui bom parecer?
Nom poderei eu mais viver,
se me Deus contra vós nom val.
Mais ar dizede-me vós al:
       senhor fremosa, que farei?

E rog'eu a Nostro Senhor
que, se vós vos fordes daquém,
que me dê mia morte por en,
ca muito me será mester.
E se mi a El dar nom quiser,
       senhor fremosa, que farei?

Pois mi assi força voss'amor
e nom ouso vosco guarir,
des quando me de vós partir,
eu que nom sei al bem querer
querria-me de vós saber:
       senhor fremosa, que farei?
738
Debora Bottcher

Debora Bottcher

Reino de Mar

As Lendas contam que
Do outro lado do Mar,
No Reino de Mar,
Há um vale onde são guardadas
Todas as coisas perdidas da Terra.
Os sonhos perdidos,
As horas perdidas,
Os tesouros perdidos...
As pessoas - depois de muita busca -,
Vão até lá procurar
Atos e dias perdidos.
E ficam surpresas por encontrar
Um Amor perdido...
Simplesmeste porque,
Apesar de sentirem falta dele,
O buscaram sempre em lugares errados...

942
Nuno Fernandes Torneol

Nuno Fernandes Torneol

Quando Mi Agora For E Mi Alongar

Quando mi agora for e mi alongar
de vós, senhor, e nom poder veer
esse vosso fremoso parecer,
quero-vos ora por Deus preguntar:
       senhor fremosa, que farei entom?
       Dized', ai coita do meu coraçom!

E dizede-m': em que vos fiz pesar,
por que mi assi mandades ir morrer?
Ca me mandades ir alhur viver!
E pois m'eu for e me sem vós achar,
       senhor fremosa, que farei entom?
       Dized', ai coita do meu coraçom!

E nom sei eu como possa morar
u nom vir vós, que me fez Deus querer
bem, por meu mal; por en quero saber:
[e] quando vos nom vir, nem vos falar,
       senhor fremosa, que farei entom?
       Dized', ai coita do meu coraçom!
852
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Andei sozinho na praia

Andei sozinho na praia
Andei na praia a pensar
No jeito da tua saia
Quando lá estiveste a andar.
2 121
Deborah Brennand

Deborah Brennand

Anjo da Noite

Dá-me a ilha de Samos como brinde de noivado
BENGIERD

E sendo o ser todo ser
eu, vetusta ou jovem lusa,
dei o meu olhar de claridade
à vastidão única das brumas
e só no coração uma saudade
era de havidos campos,
campos quase não vistos,
ó enamorado de minha formosura.

Sombria ou ruiva foi a cabeleira
o pouso da coroa em garras.
Abutre no alvor da minha fronte
cravando unhas de diamantes
assim em disse que as mulheres
não deviam usar trajes escarlates.
Talvez dez dias e oito noites passassem
nas distantes florestas de Lorvão.

E o meu reino era cinzento em culpas,
o meu legado agouro e mal.
Ó enamorado da minha póstuma formosura,
por que de mim tão pouco sabes?

1 066
José Afonso

José Afonso

Trovas antigas

O que mais me prende à vida
Não é amor de ninguém.
É que a morte de esquecida
Deixa o mal e leva o bem.

Olha a triste viuvinha
que anda na roca a fiar
É bem feito, é bem feito
que não tem com quem casar

Quem se vai casar ao longe
Ao perto tendo com quem
Alva flor da laranjeira
Não a dará a ninguém

No cimo daquela serra
Está um lenço de mil cores
Está dizendo Viva, Viva
Morra quem não tem amores

1 909
Nuno Fernandes Torneol

Nuno Fernandes Torneol

Que Coita Tamanha Hei a Sofrer

Que coita tamanha hei a sofrer,
por amar amig'e non'o veer,
       e pousarei sô lo avelanal.

Que coita tamanha hei endurar,
por amar amig'e nom lhi falar,
       e pousarei sô lo avelanal.

Por amar amig'e nom lhi falar,
nem lh'ousar a coita que hei mostrar,
       e pousarei sô lo avelanal.

Por amar amig'e o nom veer,
nem lh'ousar a coita que hei dizer,
       e pousarei sô lo avelanal.

Nom lhe ousar a coita que hei dizer,
e nom mi dam seus amores lezer,
       e pousarei sô lo avelanal.

Nom lhe ousar a coita que hei mostrar,
e nom mi dam seus amores vagar,
       e pousarei sô lo avelanal.
708
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

O guardanapo dobrado

O guardanapo dobrado
Quer dizer que se não volta.
Tenho o coração atado:
Vê se a tua mão mo solta.
1 464
Nuno Fernandes Torneol

Nuno Fernandes Torneol

Foi-S'um Dia Meu Amigo Daqui

Foi-s'um dia meu amigo daqui
e nom me viu, e porque o nom vi,
       madre, ora morrerei.

Quando m'el viu, nom foi polo seu bem,
ca morre agora por mi e por en,
       madre, ora morrerei.

Foi-s'el daqui e nom m'ousou falar
nem eu a el, e por en com pesar,
       madre, ora morrerei.
486
Natália Correia

Natália Correia

O Livro dos Amantes IX

Pusemos tanto azul nessa distância
ancorada em incerta claridade
e ficamos nas paredes do vento
a escorrer para tudo o que ele invade.

Pusemos tantas flores nas horas breves
que secam folhas nas árvores dos dedos.
E ficámos cingidos nas estátuas
a morder-nos na carne dum segredo.

1 899
Pero da Ponte

Pero da Ponte

Vistes, Madr', o Escudeiro Que M'houver'a Levar Sigo?

- Vistes, madr', o escudeiro que m'houver'a levar sigo?
Menti-lh'e vai-mi sanhudo, mia madre, bem vo-lo digo.
       Madre, namorada me leixou,
       madre, namorada mi há leixada,
       madre, namorada me leixou.

- Madre, vós que me mandastes que mentiss'a meu amigo,
que conselho mi daredes ora, poilo nom hei migo?
       Madre, namorada me leixou,
       madre, namorada mi há leixada,
       madre, namorada me leixou.

- Filha, dou-vos por conselho que, tanto que vos el veja,
que toda rem lhi façades que vosso pagado seja.
       - Madre, namorada me leixou,
       madre, namorada mi há leixada,
       madre, namorada me leixou.

- Pois escusar nom podedes, mia filha, seu gasalhado,
des oimais eu vos castigo que lh'andedes a mandado.
       - Madre, namorada me leixou,
       madre, namorada mi há leixada,
       madre, namorada me leixou.
600
Pero da Ponte

Pero da Ponte

Pois Vos Ides Daqui, Ai Meu Amigo

Pois vos ides daqui, ai meu amigo,
conselhar-vos-ei bem, se mi creverdes:
tornade-vos mais cedo que poderdes,
e guisarei como faledes migo;
       e, pois, amigo, comigo falardes,
       atal mi venha qual mi vós orardes.

Nom mi tardedes, com'outra vegada
mi tardastes, [ca] muit'hei en gram medo,
mais punhade de vos viirdes cedo,
ca nossa fala muit'é bem parada;
       e, pois, amigo, comigo falardes,
       atal mi venha qual mi vós orardes.

E, se vós queredes meu gasalhado,
venha-vos em mente o que vos rogo:
pois vos ides, de vos viirdes logo,
e falarei convosco mui de grado;
       e, pois, amigo, comigo falardes,
       atal mi venha qual mi vós orardes.
722
Pero da Ponte

Pero da Ponte

Foi-S'o Meu Amigo Daqui

Foi-s'o meu amigo daqui
na hoste, por el-rei servir,
e nunca eu depois dormir
pudi, mais bem tenh'eu assi:
       que, pois m'el tarda e nom vem,
       el-rei o faz, que mi o detém.

E gram coita nom perderei
per rem, meos de o veer,
ca nom há o meu cor lezer;
pero tanto de conort'hei:
       que, pois m'el tarda e nom vem,
       el-rei o faz, que mi o detém.

E bem se devia nembrar
das juras que m'entom jurou
u m'el mui fremosa leixou,
mais, donas, podedes jurar
       que, pois m'el tarda e nom vem,
       el-rei o faz, que mi o detém.
566
Pero da Ponte

Pero da Ponte

Mia Madre, Pois Se Foi Daqui

Mia madre, pois se foi daqui
o meu amig'e o nom vi,
nunca fui leda nem dormi,
bem vo-lo juro, des entom,
       madr', e el por mi outrossi,
       tam coitad'é seu coraçom.

Mia madre, como viverei?
Ca nom dórmio nem dormirei,
pois meu amigo em cas d'el-rei
me tarda tam longa sazom,
       madr', e el por mi outrossi,
       tam coitad'é seu coraçom.

Pois sab'el ca lhi quer'eu bem
melhor ca mi nem outra rem,
porque mi tarda e nom vem
faz sobre mi gram traiçom,
       madr', e el por mi outrossi,
       tam coitad'é seu coraçom.

E direi-vos que nos avém:
eu perço [i] por el o sem
e el por mi o coraçom.
495
Pero da Ponte

Pero da Ponte

Por Deus, Amig', E Que Será de Mi

Por Deus, amig', e que será de mi,
pois me vós ides com el-rei morar?
A como me vós soedes tardar,
outro conselh', amigo, nom sei i
       senom morrer, e pois nom haverei
       a gram coita que ora por vós hei.

Ides-vos vós ora e tam grand'afã
leixades mi com o meu coraçom
que mi nom jaz i al, se morte nom,
ca bom conselho nom sei i de pram,
       senom morrer, e pois nom haverei
       a gram coita que ora por vós hei.

Pois me vos ides, vedes que será,
meu amigo, des que vos eu nom vir:
os meus olhos nom poderám dormir,
nem bem deste mundo nom mi valrá
       senom morrer, e pois nom haverei
       a gram coita que ora por vós hei.

Aquesta ida tam sem meu prazer,
por Deus, amigo, será quando for,
mais, pois vos ides, amig'e senhor,
nom vos poss'eu outra guerra fazer
       senom morrer, e pois nom haverei
       a gram coita que ora por vós hei.
691
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Tenho um lenço que esqueceu

Tenho um lenço que esqueceu
A que se esquece de mim.
Não é dela, não é meu,
Não é princípio nem fim.
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Nuno Júdice

Nuno Júdice

Estrelas

Desfaço nas mãos os figos, os fios
fugazes de setembro, enquanto o seu leite
escorre pelas folhas verdes que
os envolvem. Esses figos, que me traziam
em cestos de vime, eram mel na boca
que os saboreava. Secos, iam parar
aos frascos fechados para o inverno, de onde
os tirava para os meter no bolso,
antes de sair. "O que tens aí?", perguntavas-me. E
eu passava-te para a mão um desses figos, e via
como o abrias, chupando os seus grânulos,
e passeando na boca a amêndoa que
o recheava. Onde estarás?, pergunto. Poderia
ainda hoje partilhar, contigo, um
desses figos do inverno? Ou o seu leite secou,
nos cantos dos lábios, roubando-te
as palavras e o húmido murmúrio
do amor?


Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 24 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
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