Poemas neste tema

Saudade e Ausência

Gilson Nascimento

Gilson Nascimento

Vento – Carinho

O mesmo vento - carinho
Que soprava antigamente
Entrando no meu caminho
Arrepia de mansinho
A nostalgia do ausente.

No arrepio toma conta
Da alma, do coração
Me percorre o corpo todo
Eu era velho, sou novo
Do vento à terna canção.

Mil saudades acordando
Num forte reavivar
Essa brisa vai girando
Ora lenta, ora acordada
A roda do recordar

Vento, pare, por favor
Deixe em paz minha emoção
Não mexa com a minha alma
O seu desejo é a calma
Jamais a recordação

919
Gilson Nascimento

Gilson Nascimento

Escorrego

Manhãzinha. Meu pai e eu saindo
De toalha rumamos nós sozinhos
Amiudar de galos. Sol sorrindo
Brisa mansa e sossego nos caminhos

Passada a nossa rua, a Guabiraba
Um dos bairros descalços da cidade
Cruzar de gente. O rumo é do mercado
Tudo é tão simples que me dá saudade

A bica do Escorrego. O corpo encaroçado
Uma mão me amparando – a imagem do cuidado
Evitando que a água o filho derrubasse

A volta, o dia claro, caminhando
E meu pai, satisfeito, me contando
Histórias várias de seu mundo antigo

O bar, o abafador, o café quente
O pão cheirando a forno à nossa frente
E o sol brincando réstias pelo chão

Esse tempo envelhece, mas não morre
Se fraqueja a saudade logo acorre
É amiga, é terna, é leve a sua mão

910
Rui Queimado

Rui Queimado

Nostro Senhor Deus! E Por Que Neguei

Nostro Senhor Deus! e por que neguei
a mia senhor, quando a eu veer
podia e lhe podera dizer
muitas coitas que por ela levei?
Ca já eu tal temp'houv'e atendi
outro melhor! E aquele perdi!
E outro tal nunca já cobrarei!

Ca já eu tal temp'houve que morei
u a podia eu mui bem veer
e u a vi mui melhor parecer
de quantas donas vi nem veerei!
E pero nunca lh'ousei dizer rem
de quantas coitas levei por gram bem
que lh'eu queria e quer'e querrei

mentr'eu viver! Mais já nom viverei
senom mui pouco, pois que a veer
eu nom poder; ca já nẽum prazer
de nulha cousa nunca prenderei;
ca nunca Deus quer que eu cuid'em al
senom porque lhe nom diss'o gram mal
e a gram coita que por ela hei.

Mais a que sazom que m'eu acordei
- quando a nom posso per rem veer,
nem quando nom poss'i conselh'haver!
Mais eu, cativo, e que receei?
Ca nom mi havia por end'a matar,
nem ar havia peor a estar
dela do que m'hoj'estou, ben'o sei.

Mais de que podia peor estar?
Pois eu nom vej'aquela que amar
sei mais de mim nem quantas cousas sei!
611
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Quando a manhã aparece

Quando a manhã aparece
Dizem que nasce alegria.
Isso era se Ela viesse.
Até de noite era dia.
1 961
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

O heavy day that comes with so much glee

O heavy day that comes with so much glee
Out of the East.
It turquoises the silence of the sea
And makes a feast
Of blueness of the waves that shiver and flee.

O heavy day because my love hath gone
And taken away
His white arms and his lips like poppies grown
Athwart that day
When I first saw him and felt my heart moan.

My hands are stretched towards his coming, and
He cometh not.
He seems a woman and his gesturing hand
Too oft bath wrought
Dreams of strange vice with him through my heart's sand.

He is scarce more than a child. His body is white,
His arms lie bare
Across my neck and cling like a delight
Of which my share
Is painful like a far sail in the night.

Oh, love, return! All this is dreams of thee
Return and wake
My trembling frame to that vile misery
That love doth take
For his body when the lovers are such as we.

Golden‑haired boy that cannot love me so
As I love him,
Look, life is short, our lips fade... Ay, I know
I am ugly and dim
But love a little or seem... Love me and go
Yet love ere going, and then let me dream
On what was real while life fades and goes slow...
1 463
Rui Queimado

Rui Queimado

Agora Viv'eu Como Querria

Agora viv'eu como querria
veer viver quantos me querem mal:
que nom vissem prazer de si nem d'al,
com'eu fiz sempre des aquel dia
que eu mia senhor nom pude veer.
Ca se nunca depois ar vi prazer,
Deus nom me valha (que poderia)!

E quem vivess'assi, viveria,
per bõa fé, em gram coita mortal,
ca 'si viv'eu por ũa dona qual
sab'hoje Deus e Santa Maria,
que a fezerom melhor parecer
de quantas donas vi e mais valer
em todo bem; e bem veeria

quem visse mia senhor; e diria,
eu [o] sei bem, por ela, que é tal
como vos eu dig'; e se me nom val
Deus (que mi a mostre!), já nom guarria
eu mais no mundo, ca nom hei poder
de já mais aquesta coita sofrer
do que sofr'i; e desejaria

muito mia mort', e querria morrer
por mia senhor, a que prazeria;

e por gram coita, em que me viver
vejo por ela, que perderia.
586
Rui Queimado

Rui Queimado

Nostro Senhor! E Ora Que Será

Nostro Senhor! e ora que será
de mim? Que moiro, porque me parti
de mia senhor mui fremosa, que vi
polo meu mal! E de mi que será,
Nostro Senhor? Ou ora que farei?
Ca, de pram, nẽum conselho nom hei,
nem sei que faça, nem que xe será

de mim, que moiro e nom me sei já
nẽum conselh'outro senom morrer!
E tam bom conselho nom poss'haver,
pois que nom cuido nunca veer já
esta senhor, que por meu mal amei,
des que a vi, e am'e amarei
mentr'eu viver; mais nom viverei já

mais des aqui, de pram, per nulha rem,
cuidando sempre no meu coraçom
no mui gram bem que lh'hoj'eu quer', e non'
a veer, nen'a cuidar já per rem
a veer. E com aqueste cuidar
cuid'a morrer; ca nom poss'hoj'osmar
com'eu possa viver per nulha rem,

poila nom vej'; e cuid'em quanto bem
lhe Vós fezestes em tod', ar cuid'al,
em com'a mim fezestes muito mal:
pois já quisestes que lh'eu tam gram bem
quisesse, nom mi fazer alongar
de a veer, e tam a meu pesar!
Nostro Senhor, u me faredes bem?

A la fé, nenlhur, aquesto sei já!
Ca, se a nom vir, nunc'haverei rem.
621
Jorge Luis Borges

Jorge Luis Borges

Haydée lange

Las naves de alto bordo, las azules
espadas que partieron de Noruega,
de tu Noruega y depredaron mares
y dejaron al tiempo y a sus días
los epitafios de las piedras rúnicas,
el cristal de un espejo que te aguarda,
tus ojos que miraban otras cosas,
el marco de una imagen que no veo
las verjas de un jardín junto al ocaso,
un dejo de Inglaterra en tu palabra,
el hábito de Sandburg, unas bromas,
las batallas de Bancroft y de Kohler
en la pantalla silencioso lúcida,
los viernes compartidos. Esas cosas,
sin nombrarte te nombran.



Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", pág. 618 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
1 506
Judas Isgorogota

Judas Isgorogota

A Notícia

"Mano:

Não calcula você como está transformado
Tudo aqui.
As vezes, tenho até de mim mesma indagado
Se tudo não será mais bonito que aí...
Eu bem sei que me engano.
De certo, não será; não será, pois, se fosse
Já teria você voltado ao seu rincão.
Mesmo assim, acredito
Que se o mundo daí é mais bonito
Não poderá, no entanto, ser mais doce
Ao seu bondoso coração
De irmão...

Olhe aqui: a Bibi de quando em vez me fala
De você,
E eu não sei porque após, tristíssima se cala.
Não sei, não sei porque...

Ah! como está bonito o jardim cá de casa!
A parreira cresceu
E apesar de viver sob este céu de brasa,
A roseira já está mais alta do que eu!
A laranjeira está coberta de asas louras,
Asas que vivem lhe fazendo festa...
Mais feliz do que eu...
Mais feliz, digo mal; nenhuma laranjeira,
Nenhuma árvore, enfim, da mais verde floresta,
Que exulte em florações belas e duradouras
Ou que tenha por trono a mais linda clareira,
Poderá ser feliz como quem já sofreu!

E os cravos, os jasmins... Nestes últimos dias,
Não podendo sair a passeio, contente
Fico em casa a ouvir as cantigas suaves
Dos pássaros beijando o jasmineiro em flor.
Só agora é que sei que é o amor tão somente
Quem tece aquelas doces melodias
E alinda as penas trêfegas das aves...
Só agora é que sei que tudo aquilo é amor...

Meu irmão, ao depois que você foi embora
Como tudo mudou...
A mamãe está boa, o papai com saúde,
E o seu trabalho agora
Já não é tão pesado nem tão rude...
A casa inteira, enfim, se transformou
O silêncio é completo. Aquela meninada
Vivaz, com a qual você, quando escrevia,
Sempre implicava solenemente,
Hoje em dia,
Muito embora não lhe fizesse nada,
Não me procura como antigamente...

Adeus. Escreva sempre. O papai o abençoa,
Manda um beijo a mamãe. Como ela é boa...
Como tem resisitido à vida que lhe dou...
É ela quem está esta carta escrevendo,
Esta carta que irá, através da distância,
Dar-lhe a nossa saudade...

Ah! ia-me esquecendo
De uma coisa, afinal, de pequena importância:
— Mano, a paralisia me atacou..."

1 181
Rui Queimado

Rui Queimado

Direi-Vos Que Mi Aveo, Mia Senhor

Direi-vos que mi aveo, mia senhor,
i logo quando m'eu de vós quitei:
houve por vós, fremosa mia senhor,
a morrer; e morrera... mais cuidei
       que nunca vos veeria des i
       se morress'... e por esto nom morri.

Cuidand'em quanto vos Deus fez de bem
em parecer e em mui bem falar,
morrera eu; mais polo mui gram bem
que vos quero, mais me fez Deus cuidar
       que nunca vos veeria des i
       se morress'... e por esto nom morri.

Cuidand'em vosso mui bom parecer
houv'a morrer, assi Deus me perdom,
e polo vosso mui bom parecer
morrera eu; mais acordei-m'entom
       que nunca vos veeria des i
       se morress'... e por esto nom morri.

Cuidand'em vós houv'a morrer assi!
E cuidand'em vós, senhor, guareci!
718
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Eu no tempo não choro que me leve

Eu no tempo não choro que me leve
A juventude, o já encanecer
A cabeça que pouco ainda esteve
Sob o Sol solto e a tarde a arrefecer.

Nem choro que não me ames, que faleça
O amor que vi em ti, que também haja
Uma tarde do amar, que desfaleça
E a noite fique, (...)

Mais que tudo choro já não te amar,
Sim, choro a tragédia de não ser o mesmo na alma,
De te ser infiel sem infidelidade,
De me ter esquecido de ti sem propriamente te aborrecer.

Não é o tempo ido em que te amei que choro.
Choro não te amar já por isso ser natural.
Choro ter-te esquecido, choro não me poder lembrar
Com saudade do tempo em que te amei.

Isso é que choro, sim, com as verdadeiras lágrimas
Que contém em si os piores mistérios —
A morte essencial das coisas,
O acabar das almas, mais grave que o dos corpos,
O abismo onde a única esperança é poder haver Deus
E um outro sentido desconhecido a tudo que se teve e se foi
Um outro lado, nem côncavo nem convexo à curva da vida.
1 577
Afonso X

Afonso X

Ai Eu Coitada, Como Vivo Em Gram Cuidado

Ai eu coitada, como vivo em gram cuidado
por meu amigo que hei alongado;
       muito me tarda
       o meu amigo na Guarda.

Ai eu coitada, como vivo em gram desejo
por meu amigo que tarda e nom vejo;
       muito me tarda
       o meu amigo na Guarda.
1 382
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Todos os dias que passam

Todos os dias que passam
Sem passares por aqui
São dias que me desgraçam
Por me privarem de ti.
1 768
Judas Isgorogota

Judas Isgorogota

Língua Portuguesa

Quando vieste de além, entre a incerteza
E o destemor dos teus, vestida vinhas
Da mais bela roupagem portuguesa!
Ah! quem te vira o talhe puro, as linhas
Esculturais e a excelsa realeza
De rainha de todas as rainhas!

Vinhas do Tejo múrmuro... Trazias
Na voz magoada o som das melodias,
No olhar, a queixa dos que lá se vão...
E a tristeza de todas as cigarras,
E a saudade de todas as guitarras
A soluçar, dentro do coração!

Vinhas radiante! Sob os céus pasmados,
A Cruz de Cristo nas infladas velas
Te indicava o caminha do Ideal!
E mar em fora, recordando fados,
Eras a alma das próprias caravelas
Universalizando Portugal!

E que entontecimento e que vertigem
Quando chegaste, enfim, à terra virgem,
E nela ergueste os braços teus, em cruz...
E que emoção, quando o imortal Cruzeiro
Pôs a teus pés, diante do mundo inteiro,
Sua coroa esplêndida de luz!

Depois, rendendo humilde vassalagem,
Todos te deram as pepitas de ouro
Que enfeitaram teu seio juvenil.
De então, onde fulgisse tua imagem,
Fulgia às tuas mãos o áureo tesouro,
Imensurável, deste meu Brasil!

E, certa noite, ao pé da Guanabara,
Surges envolta só na tule rara
De amor e sonhos, que te deu Jaci...
E, armas à mão, morena entre as morenas,
Tendo à cabeça teu cocar de penas,
Te lançaste à conquista de Peri!

Ah! quem te visse, após, em pleno dia,
Desnuda, ao sol, não te conheceria...
Qual irmã gêmea de Paraguassu,
Desafiavas uma raça inteira
Com teus coleios de onça traiçoeira
E com o feitiço do teu colo nu...

Mas, quem te olhasse, a sós, na noite quente,
Ah! como te acharia diferente
Ao ver-te, olhos molhados, a chorar,
Tua guitarra amiga dedilhando,
O teu fado liró, triste, cantando
E os dois olhos perdidos lá no mar...

Se me alegra o te ver brasileirinha,
Oh! lusitana e doce língua minha,
Não me envaidece, entanto, essa ilusão...
Que hás de ser portuguesa, na verdade,
Enquanto houver no mundo uma saudade,
Uma guitarra, um fado e um coração!

1 340
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

38 - ANAMNESIS

Somewhere where I shall never live
        A palace garden bowers
Such beauty that dreams of it grieve.

There, lining walks immemorial,
        Great antenatal flowers
My lost life before God recall.

There I was happy and the child
        That had cool shadows
Wherein to feel sweetly exiled.

They took all these true things away.
        O my lost meadows!
My childhood before Night and Day!
1 135
Afonso X

Afonso X

Med'hei do Pertigueiro Que Tem Deça

Med'hei do pertigueiro que tem Deça,
semelha Pero Gil na calvareça,
e nom vi mia senhor [há] mui gram peça,
       Mília nem Sancha Fernándiz, que muit'amo.
       - Antolha-xe-me riso, pertigueir', e chamo
       Mília e Sancha Fernándiz, que muit'amo.

Med'hei do pertigueir'e ando soo,
que semelha Pero Gil no feijoo,
e nom vi mia senhor, ond'hei gram doo,
       Mília nem Sancha Fernándiz, que muit'amo.
       - Antolha-xe-me riso, pertigueir', e chamo
       Mília e Sancha Fernándiz, que muit'amo.

Med'hei do pertigueiro tal que mejo,
que semelha Pero Gil no vedejo,
e nom vi mia senhor, ond'hei desejo:
       Mília nem Sancha Fernándiz, que muit'amo.
       - Antolha-xe-me riso, pertigueir', e chamo
       Mília e Sancha Fernándiz, que muit'amo.
655
Rui Queimado

Rui Queimado

O Meu Amig', Ai Amiga

O meu amig', ai amiga,
a que muita prol buscastes
quando me por el rogastes,
pero vos outra vez diga
       que me vós por el roguedes,
       nunca me por el roguedes.

El verrá, ben'o sabiades,
dizer-vos que é coitado;
mais sol nom seja pensado,
pero o morrer vejades,
       que me vós por el roguedes,
       nunca me por el roguedes.

Quanto quiser, tanto more
meu amigo em outra terra
e ande comigo a guerra;
mais, pero ante vós chore,
       que me vós por el roguedes,
       nunca me por el roguedes.
622
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Ah o som de abanar o ferro da engomadeira

Ah o som de abanar o ferro da engomadeira
À janela ao lado da minha infância debruçada!
O som de estarem lavando a roupa no tanque!
Todas estas coisas são, de qualquer modo,
Parte do que sou.
(Ó ama morta, que é do teu carinho grisalho?)
Minha infância da altura da cara pouco acima da mesa...
Minha mão gordinha pousada na borda da toalha que se enrodilhava.
E eu olhava por cima do prato, nas pontas dos pés.
(Hoje se me puser nas pontas dos pés, é só intelectualmente.)
E a mesa que tenho não tem toalha, nem quem lhe ponha toalha...
Estudei o fermento da falência
Na demonologia da imaginação...
1 599
Fernão Garcia Esgaravunha

Fernão Garcia Esgaravunha

Tod'home Que Deus Faz Morar

Tod'home que Deus faz morar
u est a molher que gram bem
quer, bem sei eu ca nunca tem
gram coita no seu coraçom,
pero se a pode veer;
mais quem end'há lonj'a viver
aquesta coita nom há par!

Ca, pois u ela est' estar
pode, nom sabe nulha rem
de gram coita, ca, de pram, tem
assi eno seu coraçom:
qual bem lhi quer de lho dizer;
e nom pode gram coita haver
enquant'en'aquesto cuidar.

E quem bem quiser preguntar
por gram coita, mim pregunt'en,
ca eu a sei, vedes per quem:
per mim e per meu coraçom.
E mia senhor mi a faz saber
e o seu mui bom parecer
e Deus, que m'en fez alongar

por viver sempr'em gram pesar
de mim, e por perder o sem
com haver a viver sem quem
sei eu bem no meu coraçom.
Ca nunca já posso prazer,
u a nom vir, de rem prender.
Vedes que coita d'endurar!

E o que atal nom sofrer
non'o devedes a creer
de gram coita, se i falar!
688
Fernanda Teixeira

Fernanda Teixeira

Não Pedirei Adeus

Reflito minha vida,
a compartilho contigo.
De uma luz preciso,
de um caminho para seguir;

A saudade
que
como nunca me atingiu
Ao pensar nos bons momentos
que só você...

Volta,
preciso,
volta, volta pra mim!

Nem esses campos infinitos me consolam
da tristeza de assim...

Não me faça pedir adeus
pois nesses campos me afogaria,
ao me lembrar de teus beijos molhados,
que ainda tocam os meus lábios,
e vagam por mim;

Não, não foste embora,
continuaste aqui,
em minha memória,
mas ainda preciso de ti;
te clamo:
volta,
volta pra mim !

776
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

O sol doirava-te a cabeça loura.

O sol doirava-te a cabeça loura.
És morta. Eu vivo. Ainda há mundo e aurora.
1 425
Fernão Garcia Esgaravunha

Fernão Garcia Esgaravunha

A Melhor Dona Que Eu Nunca Vi

A melhor dona que eu nunca vi,
per bõa fé, nem que oí dizer,
e a que Deus fez melhor parecer,
mia senhor est, e senhor das que vi,
de mui bom preço e de mui bom sem,
per bõa fé, e de tod'outro bem
de quant'eu nunca doutra dona oí.

E bem creede, de pram, que é 'ssi,
e será já, enquant'ela viver,
e quen'a vir e a bem conhocer,
sei eu, de pram, que dirá que é 'ssi.
Ainda vos de seu bem mais direi:
é muit'amada, pero que nom sei
quen'a tam muito ame come mim.

E por tod'esto mal dia naci,
porque lhe sei tamanho bem querer,
como lh'eu quer'e vejo-me morrer,
e non'a vej', e mal dia naci!
Mais rog'a Deus, que lhe tanto bem fez,
que El me guise com'algũa vez
a veja ced', u m'eu dela parti,

com melhor coraçom escontra mim.
757
Fernão Garcia Esgaravunha

Fernão Garcia Esgaravunha

Hom'a Que Deus Bem Quer Fazer

Hom'a que Deus bem quer fazer,
nom lhe faz tal senhor amar
a que nom ouse rem dizer,
com gram pavor de lhe pesar;
nen'o ar faz longe morar
d'u ela é, sem seu prazer;

com'agora mim faz viver,
que me nom sei conselh'achar,
com tam gram coita de sofrer,
em qual m'eu ora vej'andar,
com'haver sempr'a desejar
mais doutra rem de a veer.

Mais nom pod'aquesto saber
senom a quem Deus quiser dar
a coita que El fez haver
a mim, des que me foi mostrar
a que El fez melhor falar
do mund'e melhor parecer.
636
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Por muito que pense e pense

Por muito que pense e pense
No que nunca me disseste,
Teu silêncio não convence.
Faltaste quando vieste.
1 370