Poemas neste tema

Saudade e Ausência

Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Reunião Em Dezembro

Dezembro, e dói (ou não?) um pouco
esse abrir os braços para abraçar
o corpo, ou o sem-corpo, de uma espera
nervosa.

Dezembro, e não te lembra
os que não estão mais para jogar
o jogo repetido da esperança?

Oh, não te faças de amargo.
Joga também, mas chama
ao balcão da memória
e junto do teu corpo
aqueles companheiros dispersados
em não sei que país não mapeado,
pois sem nome e latitude,
onde o tempo sem número é repleto
(ou deserto) de todo pensamento.
E reserva
poltronas especiais para os que ainda há pouco
se foram. Não estão acostumados
ainda ao novo lar, ou somos nós
que de perdê-los não nos demos conta?
Repara: a teu aceno
as perdas deste ano se transformam
em nova relação interior.
Ganhamos o perdido. Vem chegando
cada um no seu passo costumeiro,
no seu modo de ser e de existir.

Esta
é Ana Amélia, rainha sem diadema.
Reina em doçura entre estudantes
e anjos barrocos. Calmos decassílabos
fluem de suas mãos e vão voando
para onde a poesia se concentra
em bondade e beleza:
sinônimo de alma.

Para um instante, Murilo; olha, Miranda,
quanta coisa fizeste na inquietude
de fazer coisas. Pois não basta, homem?
As artes mais as letras te agradecem
quanto penaste por amor de sonhos
culturais, que no esquecimento somem.

Mas que rumor é este, que risada
rouca, feliz, irada, insubmissa,
entre as festas do povo se anuncia?
É carnaval, folclore, são vivências
de um gato, da Amazônia, que sei mais?
O furacão chamado Eneida
tem garras verdes e quedou tranquilo.

Pelo telefone, a voz te pede
a colaboração do suplemento.
Anos a fio, vida a fio.
José Condé faz o jornal,
mas seu coração foge ao plantão
e perfura, no chão natal,
o poço dorido-alegre
de imagens pernambucanas.

Willy Lewin, viola ou violino
afinadíssimo, ouvido apenas
em surdina de câmara e recato.
Que requinte no seu sigilo,
seu desencanto modulado:

a melhor poesia é um signo
abafado.

Brumoso Luís Santa Cruz: a cruz,
entre súcubos a espicaçá-lo,
exorciza lêmures. Vago,
fantasmal ele próprio, ouvindo-lhe
a voz baixa, é o sussurro que ouves
de um mundo abissal, de sombras.

Por último vem teu compadre
e teu irmão Emílio, o doce
mavioso Moura irmão mineiro. Sorrindo,
como a pedir desculpas de uma falta:
“Fui proibido de beber
e de pitar um cigarrinho”
e de outra falta, mais grave:
“Fui-me embora, deixei você falando
sozinho”.

Dezembro, e o que perdido
foi neste ano, volta, iluminado
pelo claro pensar,
e reanima-se
o jogo eterno (e vão?), o jogo
da vida renascendo de si mesma.

02/12/1971
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Alberto da Costa e Silva

Alberto da Costa e Silva

Outro Adeus

Sob o teto e a ferrugem
do mercado, em Fortaleza,
ele tocava a rabeca
e era cego. Tocava

com a cabeça inclinada,
esta mesma que vejo
na fieira de músicos
sobre a porta da igreja

larga e ocre de Sória,
os mesmos pés descalços
e chagados na pedra,

e a voz que me chega,
baixa, rouca, irritante,
toda sujo e pobreza.

Como dizer a outrem
o que está no meu sangue?
Que levei ao curral
os corcéis de Patroclo
e deitei minha nuca
sobre um colo de espinhos?

Mas, em Medinaceli,
Alberca e entardeceres,
senti o mesmo cheiro
de palha, urina e pêlo
de um jumento suado
sob o sol de Sobral
e o rancor da saudade
e a saudade sonhada.

Por que reparo tanto
em cada coisa, atento
ao poro, ao grão, ao risco,
ao veio, à sombra e ao brilho?

Para me amanhecer.
E não ter, à distância
de outro chão e outra luz,
esta carne. Contemplo

o cego e o céu do tempo:
um odor de farelo
repousa a servidão

deste corpo em que perco
o que em nós há de encontro
entre o ausente e o eterno.



In: SILVA, Alberto da Costa e. As linhas da mão. Pref. Antônio Carlos Villaça. Rio de Janeiro: Difel; Brasília: INL, 1978. Poema integrante da série As Linhas da Mão.
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Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Presença de Mira

A Stefan Baciu


O errante colar de lembranças e metáforas
apaga-se no colo de Mira.
Maintenant je ne serais nulle part.
Quem sabe?
Mira, hei de encontrá-la sempre em alguns versos
que falam da criança construindo na areia
palácios e jardins da pátria proibida;
que contam do domingo, cesta de solidão,
e da mulher agitando um xale imaginário,
e do esquecimento, que é um papagaio de papel.

Não preciso escutar
o tambor do corcunda anunciando as notícias
para saber de Mira.
Neste grão de café encontro Mira pensando no Brasil.
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João Baveca

João Baveca

Vossa Menag', Amigo, Nom É Rem

Vossa menag', amigo, nom é rem,
ca, de pram, houvestes toda sazom
a fazer quant'eu quisesse e al nom,
e por rogo nem por mal nem por bem
       sol nom vos poss'esta ida partir.

Nunca vos já de rem hei a creer,
ca sempr'houvestes a fazer por mi
quant'eu mandass', e mentides-m'assi;
e, pero faç'i todo meu poder,
       sol nom vos poss'esta ida partir.

Que nom houvess'antre nós qual preito há,
per qual [bem] vos foi sempre [mui] mester
devíades por mi a fazer que quer;
e, pero vos mil vezes roguei já,
       sol nom vos poss'esta ida partir.
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Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Odylo, Na Manhã

Manhã de domingo. Odylo nos deixa.
Domingo, a pausa de Deus, logo de manhã,
à hora singela do café.
Domingo, tempo de paz. Odylo é pacífico.
Uma dor antiga, instalada em seu flanco esquerdo
(para não dizer que na alma se instalou),
acompanha com fidelidade os seus passos
e não o torna amargo ou revoltado.
De fala mansa, Odylo,
e doce coração, convive com ela
como o irmão conversa com o irmão,
e o amigo no amigo se contempla: sem palavras.
Eis que recebe o súbito chamado.
Odylo, poeta e repórter, acontece-lhe isto:
Deus é que vai entrevistá-lo
e mostrar-lhe face a face
a poesia sem versos do Inefável.
Odylo parte na manhã de domingo,
transportado — não vi, que meus olhos precários
se ofuscam à visão dessas coisas altíssimas —,
transportado por teorias de anjos exatamente da cor e do talhe
dos pintados por Nazareth, pintora de anjos, crianças e sonhos.
A dor antiga o abandona para ceder espaço
à Esperança recompensada.
Odylo sobe e logo à porta de Deus vai encontrar
seus filhos que chegaram tão cedo. E amigos e companheiros
(seu padrinho Manuel, entre muitos).
Não vi, que essas altíssimas coisas fogem à minha tosca percepção,
mas facilmente um cristão imagina
o sorriso de Odylo, respondendo
domingo de manhã
ao sorriso de Deus.21/08/1979
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João Baveca

João Baveca

Amig', Entendo Que Nom Houvestes

Amig', entendo que nom houvestes
poder d'alhur viver, e veestes
a mia mesura, e nom vos val rem,
ca tamanho pesar mi fezestes
       que jurei de vos nunca fazer bem.

Quisera-m'eu nom haver jurado,
tanto vos vejo viir coitado
a mia mesura, mas que prol vos tem?
Ca, u vos fostes sem meu mandado,
       jurei que nunca vos fezesse bem.

Por sempre serdes de mi partido,
nom vos há prol de seer viido
a mia mesura, e gram mal m'é en,
ca jurei, tanto que fostes ido,
       que nunca jamais vos fezesse bem.
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Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Tim-Tim Para Luís Martins

I

Caro Luís inspetor federal de colégios
sem colégios para inspecionar
(padre sem igreja, maquinista sem locomotiva, amante sem amada)
no ano-fumaça — lembra-se? — de 38.
Designam você para Jaú,
solução mais perto, mais amável.
Lá vai o inspetor com uma camisa na pasta
e a convicção de que Jaú é pertíssimo.
Chega nove horas e meia depois:
uma hora a cavalo, da fazenda à estação,
uma hora de trem a Jundiaí,
quatro horas e meia de Jundiaí a Ityrapina
(com y, que agrava a distância),
finalmente três horas até Jaú.
Gasta você na brincadeira
com passagens, hotel e refeições
mais da metade do mesquinho ordenado futuro
e terá de voltar três vezes por semana…
Ser funcionário às vezes dói
como canelada. Ou faca no estômago.

II

Como, não sei, você surge em Minas (jornalista?)
na posse do ilustríssimo Governador-Mor Valadares
entre luminárias bailes populares festança grossa.
De manhã, excursão
ao sonho barroco de Ouro Preto, Congonhas, Tiradentes,
à qual, que lástima, você não comparece,
pois é de dormir tarde ou mesmo não dormir
quando a cimitarra da lua ceifa a imensidão mineira.
Suas noites são de prosear com amigos em torno de honesta cerveja
e as manhãs para o sono velado pelo Deus dos boêmios.
Ir a Minas e não ver o Aleijadinho!
Muitos anos lhe punge n’alma esse pecado.

III

De novo em Belo Horizonte. Desta vez, o Congresso
de Escritores estentóricos discutindo o porvir nacional.
Salvemos a Pátria mediante nossas prosopopeias!
Gosto de quedar a seu lado no Bar Pinguim
noites seguidas e melodiosas, alheios à retórica,
em doce paz de consciência.
Você imita Segall à perfeição
e eu admiro sua digna mansuetude entre os paladinos adversos.
Ensina (sem pretensão) a gentil dignidade.

IV

Lembro coisas assim a esmo
para conjurar a acidez da notícia de sua morte,
a mais injusta, a mais absurda para alguém como você,
que viveu em doçura, sem atropelar ninguém
no pensamento ou na vida.
Quis restaurar sua presença no bar, em minha casa, na rua.
Conservar você perto da gente, malgrado o final.
Este não é um protesto. É um tim-tim no copo cheio de saudade.

23/04/1981
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Hilda Hilst

Hilda Hilst

O Poeta Inventa Viagem, Retorno e Morre de Saudade (I)

Se for possível, manda-me dizer:
- É lua cheia. A casa está vazia -
Manda-me dizer, e o paraíso
Há de ficar mais perto, e mais recente
Me há de parecer teu rosto incerto.
Manda-me buscar se tens o dia
Tão longo como a noite. Se é verdade
Que sem mim só vês monotonia.
E se te lembras do brilho das marés
De alguns peixes rosados
Numas águas
E dos meus pés molhados, manda-me dizer:
- É lua nova -
E revestida de luz te volto a ver.
in Júbilo Memória Noviciado da Paixão (1974)
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João Baveca

João Baveca

Ora Veerei, Amiga, Que Fará

Ora veerei, amiga, que fará
o meu amigo, que nom quis creer
o que lh'eu dix'e soube-me perder:
ca de tal guisa me guardam del já
       que nom hei eu poder de fazer rem
       por el, mais esto buscou el mui bem.

El quis comprir sempre seu coraçom
e soub'assi sa fazenda trager
que tod'home nos podia 'ntender,
e por aquest'as guardas tantas som
       que nom hei eu poder de fazer rem
       por el, mais esto buscou el mui bem.

E, pero lh'eu já queira des aqui
o maior bem que lhi possa querer,
pois nom poder, nom lhi farei prazer;
e digo-vos que me guardam assi
       que nom hei eu poder de fazer rem
       por el, mais esto buscou el mui bem.

E vedes vós: assi conteç'a quem
nom sab'andar em tal preito com sem.
453
Vasco Graça Moura

Vasco Graça Moura

As aves migram em Setembro

as aves migram em setembro.
nem vou com elas, nem
guardo delas
a mínima memória.

escurece mais cedo,
o tempo não se rouba,
escoa-se como o frio
por uma camisola

até dentro da pele.
as aves migram
calmamente, eu
permaneço aqui

de guarda à água lisa que viu passar seus bandos
e em que hás-de debruçar-te.
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João Garcia de Guilhade

João Garcia de Guilhade

Que Muitos Me Preguntarám

Que muitos me preguntarám,
quando m'ora virem morrer,
por que moir', e quer'eu dizer
quanto x'ende pois saberám:
       moir'eu, porque nom vej'aqui
       a dona que nom vej'aqui.

E preguntar-m'-am, eu o sei,
da dona que diga qual é,
e juro-vos, per bõa fé,
que nunca lhis en mais direi:
       moir'eu, porque nom vej'aqui
       a dona que nom vej'aqui.

E dirám-mi que parecer
virom aqui donas mui bem,
e direi-vo-lhis eu por en
quanto m'ora oístes dizer:
       moir'eu, porque nom vej'aqui
       a dona que nom vej'aqui.

E nom dig'eu das outras mal
nem bem, nem sol nom falo i;
mais, pois vejo que moir'assi,
dig'est', e nunca direi al:
       moir'eu, porque nom vej'aqui
       a dona que nom vej'aqui.
758
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

A lembrada canção,

A lembrada canção,
Amor, renova agora.
Na noite, olhos fechados, tua voz
Dói-me no coração
Por tudo quanto chora.
Cantas ao pé de mim, e eu estou a sós.

Não, a voz não é tua
Que se ergue e acorda em mim
Murmúrios de saudade e de inconstância,
O luar não vem da lua
Mas do meu ser afim
Ao mito, à mágoa, à ausência e à distância.

Não, não é teu o canto
Que como um astro ao fundo
Da noite imensa do meu coração
Chama em vão, chama tanto...
Quem sou não sei... e o mundo?...
Renova, amor, a antiga e vã canção.

Cantas mais que por ti,
Tua voz é uma ponte
Por onde passa, inúmero, um segredo
Que nunca recebi –
Murmúrio do horizonte,
Água na noite, morte que vem cedo.

Assim, cantas sem que existas.
Ao fim do luar pressinto
Melhores sonhos que estes da ilusão


01/01/1920
4 027
João Garcia de Guilhade

João Garcia de Guilhade

U M'eu Parti D'u M'eu Parti

U m'eu parti d'u m'eu parti,
log'eu parti aquestes meus
olhos de veer e, par Deus,
quanto bem havia perdi,
ca meu bem tod'era 'm veer;
e mais vos ar quero dizer:
pero vejo, nunca ar vi.

Ca nom vej'eu, pero vej'eu:
quanto vej'eu nom mi val rem,
ca perdi o lume por en,
porque nom vej'a quem me deu
esta coita que hoj'eu hei,
que jamais nunca veerei,
se nom vir o parecer seu.

Ca já ceguei, quando ceguei;
de pram ceguei eu log'entom,
e já Deus nunca me perdom,
se bem vejo, nem se bem hei;
pero, se me Deus ajudar
e me cedo quiser tornar
u eu bem vi, bem veerei.
663
João Garcia de Guilhade

João Garcia de Guilhade

Se M'ora Deus Gram Bem Fazer Quisesse

Se m'ora Deus gram bem fazer quisesse,
nom m'havia mais de tant'a fazer:
leixar-m'aqui, u m'ora 'stou, viver;
e do seu bem nunca m'El outro desse!
Ca já sempr'eu veeria daqui
aquelas casas u mia senhor vi,
e cataria alá quant'eu quisesse.

Daqui vej'eu Barcelos e Faria,
e vej'as casas u já vi alguém,
per bõa fé, que me nunca fez bem,
vedes por quê: porque xe nom queria.
E pero sei que me matará Amor,
enquant'eu fosse daqui morador,
nunca eu já del morte temeria.

Par Deus Senhor, viçoso viveria
e em gram bem e em mui gram sabor!
Veê'las casas u vi mia senhor,
e catar alá... quant'eu cataria!
Mentr'eu daquesto houvess'o poder,
daquelas casas que vejo veer,
nunca en já os olhos partiria!

E esso pouco que hei de viver,
vivê-lo-ia a mui gram prazer,
ca mia senhor nunca mi o saberia.
634
Ruy Belo

Ruy Belo

Quanto morre um homem

Quando eu um dia decisivamente voltar a face
daquelas coisas que só de perfil contemplei
quem procurará nelas as linhas do teu rosto?
Quem dará o teu nome a todas as ruas
que encontrar no coração e na cidade?
Quem te porá como fruto nas árvores ou como paisagem
no brilho de olhos lavados nas quatro estações?
Quando toda a alegria for clandestina
alguém te dobrará em cada esquina?



Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, págs. 38 e 39 | Editorial Presença Lda., 1984
1 832
João Garcia de Guilhade

João Garcia de Guilhade

Quantos Ham Gram Coita D'amor

Quantos ham gram coita d'amor
eno mundo, qual hoj'eu hei,
querriam morrer, eu o sei,
e haveriam en sabor;
mais, mentr'eu vos vir, mia senhor,
       sempre m'eu querria viver
       e atender e atender.

Pero já nom posso guarir,
ca já cegam os olhos meus
por vós, e nom mi val i Deus
nem vós; mais, por vos nom mentir,
enquant'eu vos, mia senhor, vir,
       sempre m'eu querria viver
       e atender e atender.

E tenho que fazem mal sem,
quantos d'amor coitados som,
de querer sa morte, se nom
houverom nunca d'amor bem,
com'eu faç'; e, senhor, por en
       sempre m'eu querria viver
       e atender e atender.
826
Martha Medeiros

Martha Medeiros

no mesmo vagão, eu e alguém

no mesmo vagão, eu e alguém
conversa vai, conversa vem
chega a estação


lembrança vai, lembrança vem
meu coração
até hoje não desceu do trem
1 326
Alexandre S. Santos

Alexandre S. Santos

Vê, lá longe, no horizonte?
Costumo, lá, deitar meus sentimentos;
recosto no mais alto monte
a fronte envolta por escarlates momentos.
Lá longe, no horizonte.

Vê aqueles galhos verdes na herdade?
Sob eles brincam minhas fantasias;
ornadas de risos, de lágrimas - saudade
do que não houve e do porvir - de alegrias.
Naqueles galhos verdes na herdade.

Vê aquela penugem a bailar no vento?
Deposito nela a esperança do encontrar
nas vindouras dobras do tempo
o amor, como onda que chega do mar.
Naquela penugem a bailar no vento.

Vê, essa lua, prenhe de lume?
Aguarda nossos sonhos num enlace,
feito ninho onde se aprume:
onde pouse a penugem e morra o impasse.
Sob a lua prenhe de lume.

943
Ruy Belo

Ruy Belo

Toque de campainha

Entre rosa e a chuva é tudo solidão
Nenhuma mão vence a distância
que separa uma e outra ou no portão
começa e termina na infância

Ia jurar que outrora estive aqui
ou uma que não esta porta ao fim passarei
E tudo coube no olhar com que não vi
aquele rosto ali mas outro que não sei



Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 49 | Editorial Presença Lda., 1984
985
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Velha cadeira deixada

Velha cadeira deixada
No canto da casa antiga
Quem dera ver lá sentada
Qualquer alma minha amiga.
2 647
João Garcia de Guilhade

João Garcia de Guilhade

Estes Meus Olhos Nunca Perderám

Estes meus olhos nunca perderám,
senhor, gram coita, mentr'eu vivo for;
e direi-vos, fremosa mia senhor,
destes meus olhos a coita que ham:
       choram e cegam, quand'alguém nom veem,
       e ora cegam por alguém que veem.

Guisado têm de nunca perder
meus olhos coita e meu coraçom,
e estas coitas, senhor, mĩas som:
mais los meus olhos, por alguém veer,
       choram e cegam, quand'alguém nom veem,
       e ora cegam por alguém que veem.

E nunca já poderei haver bem,
pois que Amor já nom quer nem quer Deus;
mais os cativos destes olhos meus
morrerám sempre por veer alguém:
       choram e cegam, quand'alguém nom veem,
       e ora cegam por alguém que veem.
2 068
João Garcia de Guilhade

João Garcia de Guilhade

Par Deus, Amigas, Já Me Nom Quer Bem

Par Deus, amigas, já me nom quer bem
o meu amigo, pois ora ficou
onde m'eu vim e outra o mandou;
e direi-vos, amigas, ũa rem:
       se m'el quisesse como soía,
       já 'gora, amigas, migo seria.

E já cobrad[o] é seu coraçom,
pois el ficou, u lh'a mia cinta dei,
[.............................]
e, mias amigas, se Deus mi perdom,
       se m'el quisesse como soía,
       já 'gora, amigas, migo seria.

Fez-m'el chorar muito dos olhos meus
com gram pesar que m'hoje fez prender:
quant'eu dixi, outro m'ouvira dizer,
ai mias amigas, se mi valha Deus;
       se m'el quisesse como soía,
       já 'gora, amigas, migo seria.
642
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Olhas para mim às vezes

Olhas para mim às vezes
Como quem sabe quem sou.
Depois passam dias, meses,
Sem que vás por onde vou.
1 350
Vasko Popa

Vasko Popa

Musgo

Sonho amarelo da ausência
Do alto das telhas ingênuas
Aguarda

Aguarda para descer
Sobre as pálpebras fechadas da terra
Sobre as faces apagadas das casas
Sobre as mãos apaziguadas das árvores

Aguarda imperceptível
Para a mobília enviuvada
Abaixo no quarto
Revestir cuidadoso
De uma capa amarela


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