Poemas neste tema

Saudade e Ausência

João Airas de Santiago

João Airas de Santiago

Amigo, Queredes-Vos Ir

Amigo, queredes-vos ir,
e bem sei eu que mi averrá:
enmentre morardes alá,
a quantos end'eu vir viir,
       a todos eu preguntarei
       como vos vai em cas d'el-rei.

Nom vos poderia dizer
quant'hei de vos irdes [pesar],
mais a quantos eu vir chegar
d'u ides com el-rei viver,
       a todos eu preguntarei
       como vos vai em cas d'el-rei.

Coitada ficarei d'amor
atá que mi vos Deus adusser,
mais a quantos eu já souber
que veerem d'u el-rei for,
       a todos eu preguntarei
       como vos vai em cas d'el-rei.

E, se disserem 'Bem', loarei
Deus, e graci-lo-ei a 'l-rei.
682
João Airas de Santiago

João Airas de Santiago

o Voss'amigo Que S'a Cas D'el-Rei

- O voss'amigo que s'a cas d'el-rei
foi, amiga, mui cedo vos verrá,
e partide as dõas que vos dará
- Amiga, verdade bem vos direi:
       fará-mi Deus bem, se mi o adusser,
       e sas dõas dé-as a quem quiser.

- Disserom-mi ora, se Deus mi perdom,
que vos trage dõas de Portugal,
e, amiga, non'as partades mal.
- Direi-vos, amiga, meu coraçom:
       fará-mi Deus bem, se mi o adusser,
       e sas dõas dé-as a quem quiser.

- Dizem, amiga, que nom vem o meu
amigo, mailo vosso cedo vem,
e partid'as dõas, que trage, bem.
- Direi-vos, amiga, o que dig'eu:
       fará-mi Deus bem, se mi o adusser,
       e sas dõas dé-as a quem quiser.

E bem sei eu [que], des que el veer,
haverei dõas e quant'al quiser.
763
Vinicius de Moraes

Vinicius de Moraes

Soneto Simples

Chegara enfim o mesmo que partira: a porta aberta e o coração voando ao
encontro dos olhos e das mãos. Velhos pássaros, velhas criaturas, almas
cinzentas plácidas passando — somente a amiga é como o melro branco!

E enfim partira o mesmo que chegara; o horizonte transpondo o pensamento
e nas auroras plácidas passando o doce perfil da amiga adormecida. Desejo
de morrer de nostalgia da noite dos vales tristes e perdidos... (foi quando
desceu do céu a poesia como um grito de luz nos meus ouvidos...)
1 162
Vinicius de Moraes

Vinicius de Moraes

Sonata do Amor Perdido

Lamento nº 1

Onde estão os teus olhos — onde estão? — Oh — milagre de amor que
escorres dos meus olhos!
Na água iluminada dos rios da lua eu os vi descendo e passando e fugindo
Iam como as estrelas da manhã. Vem, eu quero os teus olhos, meu amor!
A vida... sombras que vão e sombras que vêm vindo
O tempo... sombras de perto e sombras na distância — vem, o tempo quer a
vida!
Onde ocultar minha dor se os teus olhos estão dormindo?

Onde está tua face? Eu a senti pousada sobre a aurora
Teu brando cortinado ao vento leve era como asas fremindo
Teu sopro tênue era como um pedido de silêncio — oh, a tua face
iluminada!
Em mim, mãos se amargurando, olhos no céu olhando, ouvidos no ar
ouvindo
Na minha face o orvalho da madrugada atroz, na minha boca o orvalho do
teu nome!
Vem... Os velhos lírios estão fanando, os lírios novos estão florindo...


Intermédio

Sob o céu de maio as flores têm sede da luz das estrelas
Os róseos gineceus se abrem na sombra para a fecundação maravilhosa...
Lua, ó branca Safo, estanca o perfume dos corpos desfolhados na alvorada

Para que surja a ausente e sinta a música escorrendo do ar!
Vento, ó branco eunuco, traz o pólen sagrado do amor das virgens
Para que acorde a adormecida e ouça a minha voz...


Lamento nº 2

Teu corpo sobre a úmida relva de esmeralda, junto às acácias amarelas
Estavas triste e ausente — mas dos teus seios ia o sol se levantando
Oh, os teus seios desabrochados e palpitantes como pássaros amorosos
E a tua garganta agoniada e teu olhar nas lágrimas boiando!
Oh, a pureza que se abraçou às tuas formas como um anjo
E sobre os teus lábios e sobre os teus olhos está cantando!

Tu não virás jamais! Teus braços como asas frágeis roçaram o espaço
sossegado
Na poeira de ouro teus dedos se agitam, fremindo, correndo, dançando...
Vais... teus cabelos desvencilhados rolam em onda sobre a tua nudez
perfeita
E toda te incendeias no facho da alma que está queimando...
Oh, beijemos a terra e sigamos a estrela que vai do fogo nascer no céu
parado
É a Música, é a Música que vibra e está chamando!
1 324
João Airas de Santiago

João Airas de Santiago

Ir-Vos Queredes, E Nom Hei Poder

Ir-vos queredes, e nom hei poder,
par Deus, amigo, de vos en tolher,
e, se ficardes, vos quero dizer,
meu amig', o que vos por en farei:
os dias que vós a vosso prazer
       nom passastes, eu vo-los cobrarei.

Se vos fordes, sofrerei a maior
coita que sofreu molher por senhor;
e, se ficardes polo meu amor,
direi-vo'lo que vos por en farei:
os dias que vós a vosso sabor
       nom passastes, eu vo-los cobrarei.

Ides-vos e teendes-m'em desdém
e fico eu mui coitada por en;
e ficade por mi, ca vos convém,
e direi-vos que vos por en farei:
os dias que vós nom passastes bem,
       ai meu amigo, eu vo-los cobrarei.
700
Vinicius de Moraes

Vinicius de Moraes

Soneto a Katherine Mansfield

O teu perfume, amada — em tuas cartas
Renasce, azul... — são tuas mãos sentidas!
Relembro-as brancas, leves, fenecidas
Pendendo ao longo de corolas fartas.

Relembro-as, vou... nas terras percorridas
Torno a aspirá-lo, aqui e ali desperto
Paro; e tão perto sinto-te, tão perto
Como se numa foram duas vidas.

Pranto, tão pouca dor! tanto quisera
Tanto rever-te, tanto!... e a primavera
Vem já tão próxima!... (Nunca te apartas

Primavera, dos sonhos e das preces!)
E no perfume preso em tuas cartas
À primavera surges e esvaneces.

Rio, 1937
1 172
João Airas de Santiago

João Airas de Santiago

Ir-Vos Queredes, Amigo

Ir-vos queredes, amigo,
daqui, por me fazer pesar,
e, pois vos queredes quitar
daqui, vedes que vos digo:
       quitade bem o coraçom
       de mim, e ide-vos entom.

E pois vos ides, sabiades
que nunca maior pesar vi,
e, pois vos queredes daqui
partir, vedes que façades:
       quitade bem o coraçom
       de mim, e ide-vos entom.
671
Vinicius de Moraes

Vinicius de Moraes

Solilóquio

Talvez os imensos limites da pátria me lembrem os puros
E amargue em meu coração a descrença.
Sinto-me tão cansado de sofrer, tão cansado! — algum dia, em alguma parte
Hei de lançar também as âncoras ardentes das promessas
Mas no meu coração intranquilo não há senão fome e sede
De lembranças inexistentes.

O que resta da grande paisagem de pensamentos vividos
Dize, minha alma, senão o vazio?
São verdades as lágrimas, os estremecimentos, os tédios longos
As caminhadas infinitas no oco da eterna voz que te obriga?
E no entanto o que crê em ti não tem o teu amor aprisionado
Escravo de fruições efêmeras...

Ah, será para sempre assim... o beijo pouco do tempo
Na face presa da eternidade
E em todos os momentos a sensação pobre de estar vivendo
E ter em si somente o que não pode ser vivido
E em todos os momentos a beleza, e apenas
Num só momento a prece...

Nunca me sorrirão vozes infantis no corpo, e quem sabe por tê-las
Muito ardentemente desejado...
Talvez os limites da pátria me lembrem os puros e enlouqueça
Em mim o que não foi da carne conquistado.
Muitas vezes hei de me dizer que não sou senão juventude
No seio do pântano triste.

Quero-te, porém, vida, súplica! o medo de mim mesmo
Não há na minha saudade.
É que dói não viver em amor e em renúncia
Quando o amor e a renúncia são terras dentro de mim
E uma vez mais me deitarei no frio, guia de luz perdido
Sem mistérios e sem sombra.

Bem viram os que temeram a minha angústia e as que se disseram:
— Ele perdeu-se no mar!
No mar estou perdido, sem céu e sem terra e sem sede de água
E nada senão minha carne resiste aos apelos do ermo...
O que restará de ti, homem triste, que não seja a tua tristeza
Fruto sobre a terra morta...

Não pensar, talvez... Caminhar ciliciando a carne
Sobre o corpo macerado da vida
Ser um milhão na mesma cidade desabitada
E sendo apenas um, ir acordando o amor e a angústia
E da inquietação vinda e multiplicada, arrancar um riso sem força
Sobre as paisagens inúteis.

Mas, oh, saber... — saber até o fundo do conhecimento
Sobre as aves e os lírios!
Saber a pureza bailando no pensamento como um gênio perfeito
E na alma os cantos límpidos e os voos de uma poesia!
E nada poder, nada, senão ir e vir como a sombra do condenado
Pelo silêncio em escuta...

E não sou um covarde... — sofro pelas manhãs e pelas tardes
E pelas noites desvaneço...
No entanto, é covarde que me sinto no olhar dos que me amam
E no prazer que arranco cem vezes da carne ou do espírito que quero
Ai de mim, tão grande, tão pequeno... — e quando o digo intimamente!
E em ambos, sem pânico...

E me pergunto: Serei vazio de amor como os ciprestes
No seio da ventania?
Serei vazio de serenidade como as águas no seio do abismo
Ou como as parasitas no seio da mata serei vazio de humildade?
Ou serei o amor eu mesmo e a calma e a humildade eu mesmo
No seio do infinito vazio?

E me pergunto: O que é o perigo, onde a sua fascinação profunda
E o gosto ardente de morrer?
Não é a morte o meu voto murmurante
Que caminha comigo pelas estradas e adormece no meu leito?
O que é morrer senão viver placidamente
Na imutável espera?

Nada respondo — nada responde o desespero
Solidão sem desvario.
Mas resta, resta a ânsia das palavras murmuradas ao vento
E a emoção das visões vividas no seu melhor momento
Resta a posse longínqua e em eterna lembrança
Da imagem única.

Resta?... Já me disse blasfêmias no âmago do prazer sentido
Sobre o corpo nu da mulher
Já arranquei de mim mesmo o sumo da sabedoria
Para fazê-lo vibrar dolorosamente à minha vontade
E no entanto... posso me glorificar de ter sido forte
Contra o que sempre foi?

Hão de ir todos, todos, para as celebrações e para os ritos
Ficarei em casa, sem lar
Hei de ouvir as vozes dos amantes que não se entediam
E dos amigos que não se amam e não lutam
As portas abertas, à espera dos passos do retardatário
Não receberei ninguém.

Talvez nos imensos limites da pátria estejam os puros
E apenas em mim o ilimitado...
Mas oh, cerrar os olhos, dormir, dormir longe de tudo
Longe mesmo do amor longe de mim!
E enquanto se vão todos, heróicos, santos, sem mentira ou sem verdade
Ficar, sem perseverança...
1 208
Vinicius de Moraes

Vinicius de Moraes

Soneto de Contrição

Eu te amo, Maria, eu te amo tanto
Que o meu peito me dói como em doença
E quanto mais me seja a dor intensa
Mais cresce na minha alma teu encanto.

Como a criança que vagueia o canto
Ante o mistério da amplidão suspensa
Meu coração é um vago de acalanto
Berçando versos de saudade imensa.

Não é maior o coração que a alma
Nem melhor a presença que a saudade
Só te amar é divino, e sentir calma...

E é uma calma tão feita de humildade
Que tão mais te soubesse pertencida
Menos seria eterno em tua vida.

Rio, 1938
1 389
Martha Medeiros

Martha Medeiros

Perguntas

Quantas vezes você andava na rua e sentiu um perfume e lembrou de alguém que gosta muito?
Quantas vezes você olhou para uma paisagem em uma foto, e não se imaginou lá com alguém... 
Quantas vezes você estava do lado de alguém, e sua cabeça não estava ali? 
Alguma vez você já se arrependeu de algo que falou dois segundos depois de ter falado? 
Você deve ter visto que aquele filme, que vocês dois viram juntos no cinema, vai passar na TV... 
E você gelou porque o bom daquele momento já passou... 
E aquela música que você não gosta de ouvir porque lembra algo ou alguém que você quer esquecer mas não consegue? 
Não teve aquele dia em que tudo deu errado, mas que no finzinho aconteceu algo maravilhoso? 
E aquele dia em que tudo deu certo, exceto pelo final que estragou tudo? 
Você já chorou por que lembrou de alguém que amava e não pôde dizer isso para essa pessoa? 
Você já reencontrou um grande amor do passado e viu que ele mudou? 
Para essas perguntas existem muitas respostas... 
Mas o importante sobre elas não é a resposta em si... 
Mas sim o sentimento... 
Todos nós amamos, erramos ou julgamos mal... 
Todos nós já fizemos uma coisa quando o coração mandava fazer outra... 
Então, qual a moral disso tudo? 
Nem tudo sai como planejamos portanto, uma coisa é certa... 
Não continue pensando em suas fraquezas e erros, faça tudo que puder para ser feliz hoje! 
Não deite com mágoas no coração. 
Não durma sem ao menos fazer uma pessoa feliz! 
E comece com você mesmo!
1 313
Vinicius de Moraes

Vinicius de Moraes

Soneto de Carta e Mensagem

“Sim, depois de tanto tempo volto a ti
Sinto-me exausta e sou mulher e te amo
Dentro de mim há frutos, há aves, há tempestades
E apenas em ti há espaço para as consolações.

“Sim, meus seios vazios me mortificam — e nas noites
Eles têm ânsias de semente que sente germinar seu broto
Ah, meu amado! é sobre ti que eu me debruço
E é como se me debruçasse sobre o infinito!

“Pesa-me, no entanto, o medo de que me tenhas esquecido
Ai de mim! que farei sem o meu homem, sem o meu esposo
Que rios não me levarão de esterilidade e de tristeza?

“Mulher, para onde caminharei senão para a sombra
Se tu, oh meu companheiro, não me fecundares
E não esparzires do teu grão a terra pálida dos lírios?...”
1 121
João Baveca

João Baveca

U Vos Nom Vejo, Senhor, Sol Poder

U vos nom vejo, senhor, sol poder
nom hei de mim, nem me sei conselhar,
nem hei sabor de mi, erg'em cuidar
em como vos poderia veer;
       e pois vos vejo, maior coita hei
       que ant'havia, senhor, porque m'hei

end'a partir. E quem viu nunca tal
coita sofrer qual eu sofro? Ca sem
perç'e dormir. E tod'esto mi avém
por vos veer, senhor, e nom por al!
       E pois vos vejo, maior coita hei
       que ant'havia, senhor, porque m'hei

end'a partir. E por en sei que nom
perderei coita, mentr'eu vivo for,
ca, u vos eu nom vejo, mia senhor,
por vos veer, perç'este coraçom.
       E pois vos vejo, maior coita hei
       que ant'havia, senhor, porque m'hei

end'a partir, mia senhor, e bem sei
que d'ũa destas coitas morrerei.
471
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Vii. Trevas

O que foi antigamente manhã limpa
Sereno amor das coisas e da vida
É hoje busca desesperada busca
De um corpo cuja face me é oculta.
1 694
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Despedida

Na estação na tarde o fumo
O rumor o vaivém as faces
Anónimas
Criam no interior do amor um outro cais

As lágrimas
O fogo da minha alma as queima antes que brotem
1 991
Silva Dutra

Silva Dutra

Soneto do Mistério Ontológico

Simone, a amada que não sai da mente,
e cuja ausência o próprio amor deplora,
lembra ser o que eu era antigamente
e não o que eu podia ter agora.

Não é mais o problema, em mim tão triste
um mistério de forma disfarçada;
mesmo porque alguma coisa existe,
alguma coisa no lugar do nada.

Qualquer coisa de essência põe Simone
diante de mim, assim como um mistério.
Mas o problema, o que me deixa insone,

é ter que refletir num "eu" tão sério.
Nada há oculto do que me seduz,
que a sombra só existe pela luz.

899
Vinicius de Moraes

Vinicius de Moraes

A Partida

Quero ir-me embora pra estrela
Que vi luzindo no céu
Na várzea do setestrelo.
Sairei de casa à tarde
Na hora crepuscular
Em minha rua deserta
Nem uma janela aberta
Ninguém para me espiar
De vivo verei apenas
Duas mulheres serenas
Me acenando devagar.
Será meu corpo sozinho
Que há de me acompanhar
Que a alma estará vagando
Entre os amigos, num bar.
Ninguém ficará chorando
Que mãe já não terei mais
E a mulher que outrora tinha
Mais que ser minha mulher
É mãe de uma filha minha.
Irei embora sozinho
Sem angústia nem pesar
Antes contente da vida
Que não pedi, tão sofrida
Mas não perdi por ganhar.
Verei a cidade morta
Ir ficando para trás
E em frente se abrirem campos
Em flores e pirilampos
Como a miragem de tantos
Que tremeluzem no alto.
Num ponto qualquer da treva
Um vento me envolverá
Sentirei a voz molhada
Da noite que vem do mar
Chegar-me-ão falas tristes
Como a querer me entristar
Mas não serei mais lembrança
Nada me surpreenderá:
Passarei lúcido e frio
Compreensivo e singular
Como um cadáver num rio
E quando, de algum lugar
Chegar-me o apelo vazio
De uma mulher a chorar
Só então me voltarei
Mas nem adeus lhe darei
No oco raio estelar
Libertado subirei.
1 302
Rodrigo Carvalho

Rodrigo Carvalho

Ausência II

É o mesmo céu;
longe.
São as mesmas estrelas;
egoístas.
É o mesmo ambiente;
insignificante.
É a mesma saudade. É a mesma dor.
Mas eu não queria essa "mesmice"!
Eu só queria o mesmo carinho,
a mesma boca,
o mesmo corpo,
a mesma alma,
o mesmo Amor.
O mesmo amor que me faz ficar de pé.

Eu só queria dançar.
Queria, com ela, dançar,
numa atmosfera rosada. . .

Salvador, 22 de setembro de 1996

727
Edmir Domingues

Edmir Domingues

Cidade Submersa

Acordo súbito, é tarde
e a surpresa me surpreende,
encheu-se-me de água o quarto
os livros bóiam no teto
grandes peixes taciturnos
espiam-me o sono imenso.
Desperto pondero os fatos
não sei por que não sei como
respiro não tendo guelras
no centro das águas mansas
e a vida se me parece
como antes naturalmente.

Mas o quarto submarino
nunca o vira nem soubera
e entanto as águas estavam
lá dentro literalmente.
Será que a guerra dos mundos
no meu sono começara?
ou que o degelo dos pólos
se fizera num momento?
Os russos e americanos
também contidos nas águas
será que enfim maldiriam
do tempo da guerra fria?

Fria mesmo era a água fria
que me estava enchendo o quarto.
Levanto-me e já percorro
a casa e a casa era toda
o aquário onde os bichos d'água
faziam o seu passeio.

Saio à rua e não há rua
que a cidade está submersa
e o longo painel das águas
se desenrola no tempo.

Ah que eu sempre suspeitara
que esta cidade tão plana
seria um dia contida
no dorso verde do mar.
que o mar guardava os seus mangues
como espias traiçoeiros
como cúmplices danados
mesmo no seio da incauta.

Percorro a cidade toda
cidade não há, se acaso
não se há de dizer cidade
das águas que a devoraram,
porém é um mundo de mágica
o aquário onde vejo e sinto
toda a fauna do mistério
desenvolvendo o seu jogo.

Eis que com pouco me encontro
no Parque Treze de Maio
ao lado do qual dormia
a sombra da Faculdade.
As antigas namoradas
travestidas de sereias
será que estão pela praça
com suas caudas de peixe?
Já percorro a praça toda
como em domingos antigos
mas o parque está deserto
ninguém que veja o meu passo.

Ninguém não, porque estão peixes
nadando tranqüilamente
iluminando o passeio
nessa luz difusa e vaga
que é sempre própria dos peixes.
Calamares cor de cinza
envolvem os seus tentáculos
como as estrelas do inferno
nos seios de bronze escuro
das estátuas no silêncio.
Será que apenas eu vivo
existo em toda a cidade?
Ou aquelas que eu buscara
estão vivendo do sono
porquanto é tarde da noite?
(Impossível ter certeza
se a vida nos nega sempre
certeza plena das coisas.)
Resta que eu viva pesquisa
nesta cidade afogada
num campo de mar - pai nosso
cruzado da reconquista.

Procuro o rio, ora o ri
é uma ficção tão somente
junto das formas estranhas
das pontes debaixo d água.

Arcos (as pontes) ligando
dois pontos mal divisados
neste instante em que eu os vejo
já me parecem mais belos
dessa beleza mais pura
que vem da inutilidade.

Mas sinto que sofro muito
sabendo o rio afogado,
e somente então percebo
o quanto amava esse rio
que amor só se sente pleno
depois do instante da perda.

Cruzo a ponte, na avenida
cefalópodes descansam
as suas formas fantásticas
a um passo do meio-fio.
Larvas, actinias, estrelas
do mar, no que fora terra,
emprestam a tudo o aspecto
de um quadro sobre a parede

Microplantas iluminam
com suas roupas de fósforo
os meus passos no passeio
de ver a cidade minha.
Percebe-se no ambiente
tão grandes luminescências
que eu na verdade suspeito
que os peixes que têm luz própria
subiram todos do abismo
para ver esta cidade                                   
há tanto tempo famosa.

Na rua Nova lagostas
deslizam contornos vagos,
mexilhões no calçamento
enfeitam de novo brilho
o pouso onde os pés descansam,
sifonóforos, retidos,                         
têm espasmos de agonia
com seus tentáculos presos                       
nos fios da rede elétrica.

Busco o Pátio de São Pedro
para a surpresa feliz,
porque são peixes barrocos
os que em cardume se encontram
neste recinto sagrado,
respeitando a arquitetura
e o nosso próprio respeito.

E em tudo reina um silêncio
que talvez não seja unânime,
mas que é a realidade
para os ouvidos que tenho
mal refeitos da surpresa,
mas ah ouvidos escutam
um sino batendo ao longe
e uma canção se espalhando
pela espessura das águas.
Procuro seguir o rumo
da voz do sino e percebo
- milagre de São Francisco -
tocando o sino da Penha
tangido pelas correntes
marinhas, ou por si próprios,
lembrando que a fé subsiste
mesmo no íntimo das águas.

Oh bairro de São José
pedaço da minha infância,
das tuas ruas tão tristes
somente uma rua triste
entre as ruas da cidade
(a rua das Águas Verdes)
não hã de trocar de nome.

Nesta altura já percebo
toda a cidade submersa
pelo que já não me sobra
mais a razão de viver.

Subo à tona onde me ferem
as flechas da madrugada
que vem surgindo do mar.
Nem as copas das palmeiras
emergem do lençol d água
e apenas se vê no extremo
alguns dos montes de Olinda.

      Respiro profundamente
      o ar frio da manhã fria,
      e como um peixe me afogo
      no ar que agora me sufoca,
      e morro dessa asfixia
      na mansa luz da manhã.

                                          Recife, janeiro de 1958.
731
Edmir Domingues

Edmir Domingues

Cidade Submersa

CIDADE SUBMERSA

 

 Acordo súbito, é tarde

e a surpresa me surpreende,

encheu-se-me de água o quarto

os livros bóiam no teto

grandes peixes taciturnos

espiam-me o sono imenso.

 Desperto pondero os fatos

não sei por que não sei como

respiro não tendo guelras

no centro das águas mansas

e a vida se me parece

como antes naturalmente.


Mas o quarto submarino

nunca o vira nem soubera

e entanto as águas estavam

lá dentro literalmente.

 Será que a guerra dos mundos

no meu sono começara?

ou que o degelo dos pólos

se fizera num momento?

 Os russos e americanos

também contidos nas águas

será que enfim maldiriam

do tempo da guerra fria?

 

Fria mesmo era a água fria

que me estava enchendo o quarto.

Levanto-me e já percorro

a casa e a casa era toda

o aquário onde os bichos d'água

faziam do seu passeio.


Saio à rua e não há rua

que a cidade está submersa

e o longo painel das águas

se desenrola no tempo.


Ah que eu sempre suspeitara

que esta cidade tão plana

seria um dia contida

no dorso verde do mar.

que o mar guardava os seus mangues

como espias traiçoeiros

como cúmplices danados

mesmo no seio da incauta.

 

Percorro a cidade toda

cidade não há, se acaso

não se há de dizer cidade

das águas que a devoraram,

porém é um mundo de mágica

o aquário onde vejo e sinto

toda a fauna do mistério

desenvolvendo o seu jogo.


Eis que com pouco me encontro

no Parque Treze de Maio

ao lado do qual dormia

a sombra da Faculdade.

As antigas namoradas

travestidas de sereias

será que estão pela praça

com suas caudas de peixe?

Já percorro a praça toda

como em domingos antigos

mas o parque está deserto

ninguém que veja o meu passo.


 Ninguém não, porque estão peixes

 nadando tranqüilamente

 iluminando o passeio

 nessa luz difusa e vaga

 que é sempre própria dos peixes.

 Calamares cor de cinza

 envolvem os seus tentáculos

 como as estrelas do inferno

 nos seios de bronze escuro

 das estátuas no silêncio.

 Será que apenas eu vivo

 existo em toda a cidade?

 Ou aquelas que eu buscara

 estão vivendo do sono

 porquanto é tarde da noite?

 (Impossível ter certeza

 se a vida nos nega sempre

 certeza plena das coisas.)

 Resta que eu viva pesquisa

 nesta cidade afogada

 num campo de mar - pai nosso

 cruzado da reconquista.

 

Procuro o rio, ora o ri

é uma ficção tão somente

junto das formas estranhas

das pontes debaixo d água.


Arcos (as pontes) ligando

dois pontos mal divisados

neste instante em que eu os vejo

já me parecem mais belos

dessa beleza mais pura

que vem da inutilidade.


Mas sinto que sofro muito

sabendo o rio afogado,

e somente então percebo

o quanto amava esse rio

que amor só se sente pleno

depois do instante da perda.


Cruzo a ponte, na avenida

cefalópodes descansam

as suas formas fantásticas

a um passo do meio-fio.

Larvas, actinias, estrelas

do mar, no que fora terra,

emprestam a tudo o aspecto

de um quadro sobre a parede


Microplantas iluminam

com suas roupas de fósforo

os meus passos no passeio

de ver a cidade minha.

Percebe-se no ambiente

tão grandes luminescências

que eu na verdade suspeito

que os peixes que têm luz própria

subiram todos do abismo

para ver esta cidade                                   

há tanto tempo famosa.


Na rua Nova lagostas

deslizam contornos vagos,

mexilhões no calçamento

enfeitam de novo brilho

o pouso onde os pés descansam,

sifonóforos, retidos,
                            
têm espasmos de agonia

com seus tentáculos presos                       

nos fios da rede elétrica.

 

Busco o Pátio de São Pedro

para a surpresa feliz,

porque são peixes barrocos

os que em cardume se encontram

neste recinto sagrado,

respeitando a arquitetura

e o nosso próprio respeito.


E em tudo reina um silêncio

que talvez não seja unânime,

mas que é a realidade

para os ouvidos que tenho

mal refeitos da surpresa,

mas ah ouvidos escutam

um sino batendo ao longe

e uma canção se espalhando

pela espessura das águas.

Procuro seguir o rumo

da voz do sino e percebo

- milagre de São Francisco -

tocando o sino da Penha

tangido pelas correntes

marinhas, ou por si próprios,

lembrando que a fé subsiste

mesmo no íntimo das águas.

 

Oh bairro de São José

pedaço da minha infância,

das tuas ruas tão tristes

somente uma rua triste

entre as ruas da cidade

(a rua das Águas Verdes)

não hã de trocar de nome.

 

Nesta altura já percebo

toda a cidade submersa

pelo que já não me sobra

mais a razão de viver.


 
Subo à tona onde me ferem

as flechas da madrugada

que vem surgindo do mar.

Nem as copas das palmeiras

emergem do lençol d água

e apenas se vê no extremo

alguns dos montes de Olinda.

 

      Respiro profundamente

      o ar frio da manhã fria,

      e como um peixe me afogo

      no ar que agora me sufoca,

      e morro dessa asfixia

      na mansa luz da manhã.

                                          Recife, janeiro de 1958.
991
Vinicius de Moraes

Vinicius de Moraes

Balada do Cavalão

A tarde morre bem tarde
No morro do Cavalão...
Tem um poder de sossego.
Dentro do meu coração
Quanto sangue derramado!

Balança, rede, balança...

Susana deixou minha alma
Numa grande confusão
Seu berço ficou vazio
No morro do Cavalão:
Pequena estrela da tarde.

Ah, gosto da minha vida
Sangue da minha paixão!

Levou o anjo o outro anjo
Da saudade de seu pai
Susana foi de avião
Com quinze dias de idade
Batendo todos os recordes!

Que tarde que a tarde cai!

Poeta, diz teu anseio
Que o santo te satisfaz:
Queria fazer mais um filho
Queria tanto ser pai!

V oam cardumes de aves
No cristal rosa do ar.
V ontade de ser levado
Pelas correntes do mar
Para um grande mar de sangue!

E a vida passa depressa
No morro do Cavalão
Entre tantas flores, tantas
Flores tontas, parasitas
Parasitas da nação.

Quanta garrafa vazia
Quanto limão pelo chão!

Menina, me diz um verso
Bem cheio de ingratidão?
- Era uma vez um poeta
No morro do Cavalão
Tantas fez que a dor-de-corno
Bateu com ele no chão
Arrastou ele nas pedras
Espremeu seu coração
Que pensa usted que saiu?
Saiu cachaça e limão.

Susana nasceu morena
E é Mello Moraes também:
É minha filha pequena
Tão boa de querer bem!

Oh, Saco de São Francisco
Que eu avisto a cavaleiro
Do morro do Cavalão!
(O Saco de São Francisco
Xavier não chama não
Há de ser sempre de Assis:
São Francisco Xavier
É nome de uma estação)
Onde está minha alegria
Meus amores onde estão?

A casa das mil janelas
É a casa do meu irmão
Lá dentro me esperam elas
Que dormem cedo com medo
Da trinca do Cavalão.

Balança, rede, balança...
1 005
Herberto Helder

Herberto Helder

Poemas Dos Peles-Vermelhas - Canção de Amor

Levantei-me cedo, cedo — e era azul
toda a manhã.
Porém, o meu amor já havia partido:

— já tinha atravessado as grandes portas da aurora.

No monte Papago a presa na agonia
olhou-me
com os olhos da minha amada.
867
Herberto Helder

Herberto Helder

Poemas Dos Peles-Vermelhas - Pintura Na Areia

Para curar-me, o feiticeiro
pintou tua imagem
no deserto:
areia de oiro — teus olhos,
areia vermelha — a tua boca,
areia azul para os cabelos,
e branca, branca areia, para as minhas lágrimas.

Pintou durante o dia, e tu
crescias como uma deusa
sobre a imensa tela amarela.
E pela tarde o vento dispersou
tua sombra colorida.
E, como sempre, na areia
nada ficou senão o símbolo das minhas lágrimas:
areia prateada.
1 261
Vinicius de Moraes

Vinicius de Moraes

Lápide de Sinhazinha Ferreira

A vida sossega
Lírios em repouso
Adormecestes cega
Na visão do esposo.

A paixão é pouso
Que a treva não nega
A morte carrega
E o sono dá gozo.

Não vos vejo em paz
Nem vos penso bem
Na minha saudade.

Sinto que vagais
Ao lado de alguém
Pela eternidade.
1 144
João Garcia de Guilhade

João Garcia de Guilhade

Chus Mi Tarda, Mias Donas, Meu Amigo

Chus mi tarda, mias donas, meu amigo,
que el migo posera,
e crece-m'end'ũa coita tam fera
que nom hei o cor migo,
       e jurei já que, atá que o visse,
       que nunca rem dormisse.

Quand'el houv'a fazer a romaria,
pôs-m'um dia talhado
que veesse, [e] nom vem, mal pecado,
hoje se compr'o dia;
       e jurei já que, atá que o visse,
       que nunca rem dormisse.

Aquel dia que foi de mi partido
el mi jurou chorando
que verria, e pôs-mi praz'e quando;
já o praz'é saído;
       e jurei já que, atá que o visse,
       que nunca rem dormisse.
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