Poemas neste tema

Saudade e Ausência

Adélia Prado

Adélia Prado

Chorinho Doce

Eu já tive e perdi
uma casa,
um jardim,
uma soleira,
uma porta,
um caixão de janela com um perfil.
Eu sabia uma modinha e não sei mais.
Quando a vida dá folga, pego a querer
a soleira,
o portal,
o jardim mais a casa,
o caixão de janela e aquele rosto de banda.
Tudo impossível,
tudo de outro dono,
tudo de tempo e vento.
Então me dá choro, horas e horas,
o coração amolecido como um figo na calda.
2 029
João Airas de Santiago

João Airas de Santiago

Dizem-Mi a Mi Quantos Amigos Hei

Dizem-mi a mi quantos amigos hei
que nunca perderei coita d'amor,
se m'eu nom alongar de mia senhor;
e digo-lhis eu como vos direi:
       - Par Deus, sempr'eu alongado vevi
       dela e do seu bem, e nom vos perdi

coita d'amor. Pero dizem que bem
farei eu mia fazenda de viver
longi dela, que mi nom quer valer;
mais de tal guisa lhis dig'eu por en:
       - Par Deus, sempr'eu alongado vevi
       dela e do seu bem, e nom vos perdi

coita d'amor. Pero dizem que nom
poss'eu viver se me nom alongar
de tal senhor, que se nom quer nembrar
de mim; mais digo-lhis eu log'entom:
       - Par Deus, sempr'eu alongado vevi
       dela e do seu bem, e nom vos perdi

coita d'amor; nem alhur nem ali
nom lhi guarrei, ca muito lhi guari.
298
Emílio Moura

Emílio Moura

Marinha

Grito teu nome aos ventos.
Olha: há uma revoada marítima.
O horizonte se afasta, há um ritmo largo
de ondas que se espreguiçam.

Velas esguias,
para onde voam?

Sulcos de prata,
para onde levam?
Amiga, amiga! Ah, dize-me depressa:
Quem grita aos ventos o teu nome?
O mar, ou eu,
o grande mar que o está cantando?

989
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Mesma Coisa de Sempre, Shakespeare Através de Mailer –

para dentro de todos os instantes antes de
morrermos como lenha serrada eu gostaria de
pensar que aquilo que dissemos não
necessariamente nos seguirá para dentro
daquele buraco escuro que não é amor
ou sexo ou nada que conheçamos agora,
e quando os soldados marcharam
Turquia adentro eles tomaram a primeira
vila estuprando as garotas novas
e algumas das velhas também,
e Anderson e eu achamos um café
e sentamos ali bebendo escutando
a força aérea no alto cravando
suas presas e eu disse é a
mesma coisa de sempre Shakespeare através
de Mailer estocando sua esposa com a
mesma coisa mas a coisa errada,
e pensei se nós pudéssemos morrer aqui
agora daqui a um minuto como um instantâneo
de câmera seria bem melhor
todas as mulas e as damas bêbadas
eliminadas     os romances ruins     marcha
presa na lama     é melhor
morrer quando você está pronto
como lâminas de barbear e canções de cerveja
sob uma antiga melodia irlandesa
e aí certo turco deu um tiro
da escadaria e cindiu minha
manga como uma bunda apertada se curvando
e eu atirei de volta como pessoas numa
peça e fiquei pensando
Maria Maria será que
um dia verei Maria de novo, e
a imortalidade não pareceu
nem um pouco importante.
647
Emílio Moura

Emílio Moura

Exílio

Já nada vejo nessa bruma
que ora te esconde.
Quero encontrar-te, mas à noite
não me traz nenhuma
esperança de onde nem quando.

Amor, ah, quanto me deves!
Que é dos pés que, leves, leves,
roçaram por este chão?

Alma, és só tempo e solidão.

1 204
Adélia Prado

Adélia Prado

Insônia

O homem vigia.
Dentro dele, estumados,
uivam os cães da memória.
Aquela noite, o luar
e o vento no cipó-prata e ele,
o medo a cavalo nele,
ele a cavalo em fuga
das folhas do cipó-prata.
A mãe no fogão cantando,
os zangões, a poeira, o ar anímico.
Ladra seu sonho insone,
em saudade, vinagre e doçura.
1 503
Vinicius de Moraes

Vinicius de Moraes

O Bergantim da Aurora

Velho, conheces por acaso o bergantim da aurora
Nunca o viste passar quando a saudade noturna te leva para o convés
imóvel dos rochedos?
Há muito tempo ele me lançou sobre uma praia deserta, velho lobo
E todas as albas têm visto meus olhos nos altos promontórios, esperando.

Sem ele, que poderei fazer, pobre velho? ele existe porque há homens que
fogem
Um dia, porque pensasse em Deus eu me vi limpo de todas as feridas
E eu dormi — ai de mim! — não dormia há tantas noites! — dormi e eles
me viram calmo
E me deram às ondas que tiveram pena da minha triste mocidade.

Mas que me vale, santo velho, ver o meu corpo são e a minha alma doente
Que me vale ver minha pele unida e meu peito alto para o carinho?
Se eu voltar os olhos, tua filha talvez os ame, que eles são belos, velho lobo
Antes o bergantim fantasma onde as cordoalhas apodrecem no sangue das
mãos...

Nunca o conhecerás, ó alma de apóstolo, o grande bergantim da madrugada
Ele não corre os mesmos mares que o teu valente brigue outrora viu
O mar que perdeste matava a fome de tua mulher e de teus filhos
O mar que eu perdi era a fome mesma, velho, a eterna fome...

Nunca o conhecerás. Há em tuas grandes rugas a vaga doçura dos caminhos
pobres
Teus sofrimentos foram a curta ausência, a lágrima dos adeuses
Quando a distância apagava a visão de duas mulheres paradas sobre a
última rocha
Já a visão espantosa dos gelos brilhava nos teus olhos — oh, as baleias brancas!...

Mas eu, velho, sofri a grande ausência, o deserto de Deus, o meu deserto
Como esquecimento tive o gelo desagregado dos seios nus e dos ventres
boiando
Eu, velho lobo, sofri o abandono do amor, tive o exaspero
Ó solidão, deusa dos vencidos, minha deusa...

Nunca o compreenderás. Nunca sentirás porque um dia eu corri para o
vento
E desci pela areia e entrei pelo mar e nadei e nadei.
Sonhara...: “Vai. O bergantim é a morte longínqua, é o eterno passeio do
pensamento silencioso
É o judeu dos mares cuja alma avara de dor castiga o corpo errante...”

E fui. Se tu soubesses que a ânsia de chegar é a maior ânsia
Teus olhos, ó alma de crente, se fechariam como as nuvens
Porque eu era a folha morta diante dos elementos loucos
Porque eu era o grão de pó na réstia infinita.

Mas sofrera demais para não ter chegado
E um dia ele surgiu como um pássaro atroz
Vi-lhe a negra carcaça à flor das ondas mansas
E o branco velame inchado de cujos mastaréus pendiam corpos nus.

Mas o homem que chega é o homem que mais sofre
A memória é a mão de Deus que nos toca de leve e nos faz sondar o
caminho atrás
Ai! sofri por deixar tudo o que tinha tido
O lar, a mulher e a esperança de atingir Damasco na minha fuga...

Cheguei. Era afinal o vazio da perpétua prisão longe do sofrimento
Era o trabalho forçado que esquece, era o corpo doendo nas chagas abertas
Era a suprema magreza da pele contendo o esqueleto fantástico
Era a suprema magreza do ser contendo o espírito fantástico.

Fui. Por toda a parte homens como eu, sombras vazias
Homens arrastando vigas, outros velhos, velhos faquires insensíveis
As fundas órbitas negras, a ossada encolhida, encorujada
Corpos secos, carne sem dor, morta de há muito.

Por toda a parte homens como eu, homens passando
Homens nus, murchos, esmagando o sexo ao peso das âncoras enormes
Bocas rígidas, sem água e sem rum, túmulos da língua árida e estéril.
Mãos sangrando como facas cravadas na carne das cordas.

Nunca poderás imaginar, ó coração de pai, o bergantim da aurora
Que caminha errante ao ritmo fúnebre dos passos se arrastando
Nele vivi o grande esquecimento das galeras de escravos
Mas brilhavam demais as estrelas no céu.

E um dia — era o sangue no meu peito — eu vi a grande estrela
A grande estrela da alba cuja cabeleira aflora às águas
Ela pousou no meu sangue como a tarde nos montes apaziguados
E eu pensei que a estrela é o amor de Deus na imensa altura.

E meus olhos dormiram no beijo da estrela fugitiva
Ai de mim! não dormia há tantas noites! — dormi e eles me viram calmo
E a serpente que eu nunca supus viver no seio da miséria
Deu-me às ondas que tiveram pena da minha triste mocidade.

Eis por que estou aqui, velho lobo, esperando
O grande bergantim que eu sei não voltará
Mas tornar, pobre velho, é perder tua filha, é verter outro sangue
Antes o bergantim fantasma, onde o espaço é pobre e a caminhada eterna.

Eis por que, velho lobo, aqui estou esperando
À luz da mesma estrela, nos altos promontórios
Aqui a morte me acolherá docemente, esperando
O grande bergantim que eu sei não voltará.
1 115
João Airas de Santiago

João Airas de Santiago

Amigo, Quando Me Levou

Amigo, quando me levou
mia madr', [a] meu pesar, daqui,
nom soubestes novas de mi,
e por maravilha tenho
por nom saberdes quando vou
nem saberdes quando venho.

Pero que vos [ch]amades meu
amigo, nom soubestes rem
quando me levarom daquém,
e maravilho-me ende
por nom saberdes quando m'eu
venh'ou quando vou daquende.

Catei por vós quand'a partir-
-m'houve daqui e pero nom
vos vi nem veestes entom,
e mui queixosa vos ando
por nom saberdes quando m'ir
quer'ou se verrei já quando.

E por amigo nom tenho
o que nom sabe quando vou
nem sabe quando me venho.
519
Adélia Prado

Adélia Prado

Modinha

Quando eu fico aguda de saudade eu viro só ouvido.
Encosto ele no ar, na terra, no canto das paredes,
pra escutar nefando, a palavra nefando.
Um homem que já morreu cantava “a flor mimosa
desbotar não pode, nem mesmo o tempo
de um poder nefando” — mais dolorido canta
quem não é cantor.
A alma dele zoando de tão grave, tocável
como o ar de sua garganta vibrando.
No juízo final, se Deus permitisse,
eu acordava um morto com este canto,
mais que o anjo com sua trombeta.
1 312
Diamond

Diamond

Horário de Verão

Por razão econômica, interesse nacional
Uma porra de decreto, governamental!
Me rouba uma hora de vida,
Pra me devolver, caso eu sobreviva
À chatura daquele horário eleitoral,
Ao calor e ao cupim, que voando
Em squizo zig-zag, me entra pelas ventas
Com a maior intimidade, e nada é pessoal.
Lá pelas horas tantas, em frente à televisão,
Se não faltar energia, essa única diversão,
Suando tomo outro banho, por pura recreação
Já não consigo dormir, desde que você partiu,
Com saudade da hora roubada, eta decreto de m....
P.... que o pariu.

Viver a plenitude da liberdade poética e depois
morrer.

822
João Airas de Santiago

João Airas de Santiago

Meu Amigo, Vós Morredes

Meu amigo, vós morredes
porque vos nom leixam migo
falar e moir'eu, amigo,
por vós e, fé que devedes,
       algum conselh'i hajamos
       ante que assi moiramos.

Ambos morremos, sem falha,
por quanto nós nom podemos
falar e, pois que morremos,
amigo, se Deus vos valha,
       algum conselh'i hajamos
       ante que assi moiramos.

De mia madr'hei gram queixume
porque nos anda guardando
e morremos i cuidando;
ai meu amig'e meu lume,
       algum conselh'i hajamos
       ante que assi moiramos.

E por que o nom guisamos,
pois nós tant'o desejamos?
637
Diamond

Diamond

Gorda! Eu?

Hoje, lá na praia
Nesse domingo blue
A vi com um carrinho de bebe
Tão lindo seu filhinho
Não quis me aproximar, baby
Mas de longe observei que
Continuas a mais linda mulher
Que eu conheci, three years ago
O cabelo, outra cor, melhor
Um pouco mais gorda, talvez
O busto um pouco maior
O mesmo lindo sorriso
Os mesmos olhos azuis
Nenhuma saudade de mim

948
Nuno Júdice

Nuno Júdice

Carta de Orfeu a Eurídice (5)

Como se o sol não trouxesse com ele a hostilidade
do dia! E o seu esplendor não comprometesse a recordação
que me enche, e o desejo com que a mão procura a mão
que lhe falta! As estações prosseguem o seu ciclo; a um inverno
sucede a primavera; e as árvores respiram o primeiro vento
com uma ânsia diferente, anunciando a próxima floração. Eu,
preso às palavras, perco-me no seu labirinto. Ouço-te,
porém: e é sempre no caminho que fica sem saída,
de onde há muito caiu a cal, deixando
as feridas de gesso de onde os meus olhos bebem
o que sobra da tua imagem, que a tua voz me traz a música todos os dias
que não voltarão a nascer.

Talvez não fosse por aí que eu devesse ter
ido; mas que outra saída tem um labirinto senão a que parece
abrir-se num descampado florido, para depois se fechar
em becos, no reino sem futuro das sombras? Diz-me:
adivinhavas o que iria suceder? Ou não ouviste
o que te disse, quando falámos, em frente
desses cafés que arrefeciam, de tudo e nada: o nada
das coisas da vida, as que nos prendem ao instante que passa,
a súbita solidão de um fim de tarde, ou o ruído das crianças,
vindo da rua, que atravessa o espírito até se perder numa obscura
memória de infância; e tudo o resto - esse castelo antigo para que me empurra
um impulso do coração, agora que a taça se esvazia à minha frente
e nenhuma curva de caminho me desvia para o teu rosto.

Então, apago uma a uma as lâmpadas do ocaso? Como
o sacristão louco que avançou pela cripta, derrubando as estátuas
do culto? Não é isso o amor - essa outra religião a que devotamos o mais secreto do ser; a hesitação de uma bailarina
sem saber o lugar que lhe pertence num cenário de conversas; ou
o céu a que aspiramos, nesta terra que nos rouba cada pedaço
de tempo, para o devorar num banquete de astros finais. Podia
explicar-te o que é fictício, o que se perde do outro lado
do que pensamos que seja - a própria vida. Mas ela é
outra coisa: o que se constrói por dentro de nós,
nos intervalos da sensação, e se ergue de todas as horas
solitárias; e o que nos indica, na flor, o que não perece,
para além do seu centro de efémera beleza.


Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", págs. 54 a 56 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
1 631
Nuno Júdice

Nuno Júdice

Carta de Orfeu a Eurídice (4)

Nessas tardes em que despias o coração, e mo
entregavas num gesto de orvalho primaveril, o calor
de um sorriso de olhos fechados atravessava-me
a alma, e misturava-se com a terra húmida
das sensações. Podia dizer-te: este é o pólen que nenhum
insecto poderá roubar da corola onde se fabbrica o éter
do amor; e ouvir o teu riso, dissipando um temporal
de emoções. Nós éramos um - e essa unidade dividia-nos,
quando no seu interior estremecia uma hesitação,
corrompendo o espanto do outro.

Porque não pôde ser assim, sempre, e a ilusão
se dissipou como se uma corrente de ar tivesse atravessado
o quarto, levando com a sua passagem o brilho que
os teus lhos me davam? Ou não existe já, esse amor,
nalgum compartimento do caminho que nos abre
a agonia da ausência? Tu,
na decisão do teu silêncio; e eu, escudado pelo vazio que
envolve os seres que a vida rejeita. Mas que outras provas
querias? Só o teu nome, repetido na clausura
do inferno? Ou a secura dos lábios que o dizem, como
se a palavra não absorvesse o doce bálsamo
do teu corpo?

Vê o que ouso: esta vontade de perecer,
um sonho de eternidade, a ilusão do encontro
para além do humano, onde os deuses se
dissipam com a primeira luz do dia. Falo de mim, então,
como se o meu tempo fosse outro; rompo as fronteiras
que o divino impõe, e essas que eu próprio me coloco,
seguindo o caminho de um astro hostil. Alinho
na berma todas as perguntas que não voltarão a ter resposta: Onde estás? Que negra cortina desceu
sobre o passeio de onde eu te via chegar, enquanto a esplanada
se enchia com os nómadas estivais? Quando voltarei a ouvir a tua voz cansada, agora que um lamento
de pálpebras se sobrepõe a esse fogo de artifício que
batia contra as janelas do norte?

Mas é outro movimento de raízes. Empurra-as
uma fermentação de fogo na fulgurância dos campos. Lembras-te?
O sémen que escorre pela pedra, enquanto o teu rosto
se transforma - ó amante melancólica do outono,
por quem os sinos chamam, e cuja beleza escorre numa pele
de nuvem, encobrindo a tristeza que adivinho
numa súbita inflexão de voz. Falo, por fim, da medida
das palavras: o que te obriga a cortar este tempo que nos resta
com a lâmina do desânimo? Possuí-te sobre a pedra
da vida, limpando o musgo das convicções; e é aí
que te reencontro, como se o céu mantivesse o azul,
imóvel, sugerindo a harmonia do presente.

Falo-te, ainda, ó última das mulheres amadas, como
se me pertencesses! E um sabor de cinza nasce do silêncio
que me responde.


Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", págs. 52 a 54 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018









1 262
João Airas de Santiago

João Airas de Santiago

Que Mui Leda Que Eu Mia Madre Vi

Que mui leda que eu mia madre vi
quando se foi meu amigo daqui,
e eu nunca fui leda nem dormi,
       amiga, depois que s'el foi daquém;
       e ora já dizem-mi del que vem,
       e mal grad'haja mia madre por en.

Ela foi [mui] leda, poilo viu ir,
e eu mui triste, poilo vi partir
de mi, ca nunca mais pudi dormir,
       amiga, depois que s'el foi daquém;
       e ora já dizem-mi del que vem
       e mal grad'haja mia madre por en.

De[s] quando s'el foi daqui a [e]l- rei,
foi mia madre mui led[a], e[u] o sei,
[e] eu fui [mui] triste sempr'e chorei,
       amiga, depois que s'el foi daquém;
       e ora já dizem-mi del que vem
       e mal grad'haja mia madre por en.
550
João Airas de Santiago

João Airas de Santiago

Vai-S', Amiga, Meu Amigo Daqui

Vai-s', amiga, meu amigo daqui
triste, ca diz que nunca lhi fiz bem,
mais, se o virdes ou ante vós vem,
dizede-lhi ca lhi dig'eu assi:
       que se venha mui ced'e, se veer
       cedo, que será como Deus quiser.

Per bõa fé, nom lhi poss'eu fazer
bem, e vai triste no seu coraçom,
mais, se o virdes, se Deus vos perdom,
dizede-lhi que lhi mand'eu dizer
       que se venha mui ced'e, se veer
       cedo, que será como Deus quiser.

Queixa-s'el e diz que sempre foi meu,
e diz gram dereito, per bõa fé,
e nom lhi fiz bem, e tem que mal é,
mais dizede-lhi vós que lhi dig'eu
       que se venha mui ced'e, se veer
       cedo, que será como Deus quiser.

E nom se queixe, ca nom lh'há mester,
e filhe o bem quando lho Deus der.
505
João Airas de Santiago

João Airas de Santiago

Par Deus, Mia Madr', Houvestes Gram Prazer

Par Deus, mia madr', houvestes gram prazer
quando se foi meu amigo daqui,
e ora vem, e praz en muit'a mi;
mais ũas novas vos quero dizer:
       se vos pesar, sofrede-o mui bem,
       ca 'ssi fij'eu, quando s'el foi daquém.

Ca fostes vós mui leda do meu mal
quando s'el foi, e querrei-vos eu já
mal por end', e dizem-mi que verrá
mui ced', e quero-vos eu dizer al:
       se vos pesar, sofrede o mui bem,
       ca 'ssi fij'eu, quando s'el foi daquém.
472
Dora Ferreira da Silva

Dora Ferreira da Silva

Alguém

Alguém desfecha a flecha do vôo:
reflexo no vidro onde a chuva
penteia os cabelos.
Cantiva de muitas lágrimas
dos suspiros do vento
nesta casa pousada na montanha
aguardo criança flor anjo ou passaro.
Pensamentos alígeros - andorinhas
nos aguaceiros de verão
traçam oblíquas, desaparecem
no céu que escurece.
Abraçada à minha alma
não sinto o tempo latejar por perto.
O incerto longe é a minha vocação.
O longe do longe onde talvez
estás sempre em despedida
do invólucro que não te retém. E eu
sempre atrás do aceno teu
do aroma que te esquece e se esvai.
Se um lenço de fino linho
se desprendesse de teus dedos (sonho meu)
o caçaria como a um pássaro
que longe vivia
e me pertencia.

1 448
João Airas de Santiago

João Airas de Santiago

A Meu Amigo Mandad'enviei

A meu amigo mandad'enviei
a Toled', amiga, per boa fé,
e mui bem creo que já co el é;
preguntad', e gradecer-vo-lo-ei,
       em quantos dias poderá chegar
       aqui de Toledo quem bem andar.

Ca do mandadeiro sei eu mui bem
que, depois que lh'o mandado disser,
que se verrá mais cedo que poder;
e, amiga, sabede vós d'alguém
       em quantos dias poderá chegar
       aqui de Toledo quem bem andar.

E sempre catam estes olhos meus
per u eu cuido que há de viir
o mandadeir', e moiro por oír
novas del, e preguntade, por Deus,
       em quantos dias poderá chegar
       aqui de Toledo quem bem andar.
634
Edmundo de Bettencourt

Edmundo de Bettencourt

Canção

Não te deites, coração,
A sombra dos teus amores.
Não durmas, olha por eles,
Com alegrias e dores.

Não tenhas medo. O calor
Que vem das serras ao mar,
Erguendo incêndios, não queima
O que não é de queimar.

Agradece ao vento frio
Que traz chuva miudinha:
É neve que se aproxima,
Tormenta que se avizinha...

Nos incêndios naturais
Queima ramos de saudades
E faz a tua canção
Do grito das tempestades!

1 146
Herberto Helder

Herberto Helder

Quatro Poemas Árabes - Decepção

Disseram que a minha Layla vive em Tayma,
quando os barcos do estio aí lançam as âncoras.

Eis porém que se esgotaram os meses de verão.
Porque a arrasta o exílio de lugar em lugar?
999
Adélia Prado

Adélia Prado

Enredo Para Um Tema

Ele me amava, mas não tinha dote,
só os cabelos pretíssimos e uma beleza
de príncipe de histórias encantadas.
Não tem importância, falou a meu pai,
se é só por isto, espere.
Foi-se com uma bandeira
e ajuntou ouro pra me comprar três vezes.
Na volta me achou casada com D. Cristóvão.
Estimo que sejam felizes, disse.
O melhor do amor é sua memória, disse meu pai.
Demoraste tanto, que... disse D. Cristóvão.
Só eu não disse nada,
nem antes, nem depois.
1 511
João Airas de Santiago

João Airas de Santiago

Amigas, o Que Mi Quer Bem

Amigas, o que mi quer bem
dizem-mi ora muitos que vem,
       pero non'o posso creer,
       ca tal sabor hei de o veer
       que o nom posso creer.

O que eu amo mais ca mim
dizem que cedo será aqui,
       pero non'o posso creer,
       ca tal sabor hei de o veer
       que o nom posso creer.

O que se foi daqui muit'há
dizem-mi que cedo verrá,
       pero non'o posso creer,
       ca tal sabor hei de o veer
       que o nom posso creer.

E nunca mi o farám creer
se mi o nom fezerem veer.
335
João Airas de Santiago

João Airas de Santiago

Foi-S'o Meu Amigo a Cas D'el-Rei

Foi-s'o meu amigo a cas d'el-rei
e, amigas, com grand'amor que lh'hei,
quand'el veer, já eu morta serei,
mais nom lhe digam que morri assi,
       ca, se souber com'eu por el morri,
       será mui pouca sa vida des i.

Per nulha rem nom me posso guardar
que nom moira ced'e com gram pesar,
e, amigas, quand'el aqui chegar,
nom sábia per vós qual mort'eu prendi,
       ca, se souber com'eu por el morri,
       será mui pouca sa vida des i.

Eu morrerei cedo, se Deus quiser,
e, amigas, quand'el aqui veer,
desmesura dirá quem lhi disser
qual mort'eu filhei des que o nom vi,
       ca, se souber com'eu por el morri,
       será mui pouca sa vida des i.

Já nom posso de morte guarecer,
mais, quando s'el tornar por me veer,
nom lhi digam como m'el fez morrer
ante tempo, porque se foi daqui,
       ca, se souber com'eu por el morri,
       será mui pouca sa vida des i.
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