Poemas neste tema

Saudade e Ausência

D. Dinis

D. Dinis

O Voss'amig', Amiga, Vi Andar

O voss'amig', amiga, vi andar
tam coitado que nunca lhi vi par,
que adur mi podia já falar;
       pero quando me viu, disse-mi assi:
"Ai senhor, id'a mia senhor rogar,
       por Deus, que haja mercee de mi."

El andava trist'e mui sem sabor,
come quem é tam coitado d'amor,
e perdud'[há] o sem e a color,
       pero quando me viu, disse-mi assi:
"Ai senhor, ide rogar mia senhor,
       por Deus, que haja mercee de mi."

El, amiga, achei eu andar tal
come morto, ca é descomunal
o mal que sofr'e a coita mortal,
       pero quando me viu, disse-mi assi:
"Senhor, rogad'a senhor do meu mal,
       por Deus, que haja mercee de mi."
564
D. Dinis

D. Dinis

Nom Poss'eu, Meu Amigo

- Nom poss'eu, meu amigo,
com vossa soidade
viver, bem vo-lo digo,
e por esto morade,
       amigo, u mi possades
       falar e me vejades.

Nom poss', u vos nom vejo,
viver, ben'o creede,
tam muito vos desejo,
e por esto vivede,
       amigo, u mi possades
       falar e me vejades.

Naci em forte ponto
e, amigo, partide
o meu gram mal sem conto,
e por esto guaride,
       amigo, u mi possades
       falar e me vejades.

- Guarrei, ben'o creades,
senhor, u me mandardes.
755
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Este Viver Comum

Este viver comum
será nosso futuro
É nosso já presente
este amor que não temos

É nosso e nosso o tempo
que de tão longe somos
O pomo puro que negam
branco se fez no dia
566
Luís Filipe Castro Mendes

Luís Filipe Castro Mendes

Música Calada

Dizias que nos sobram as palavras:
e era o lugar perfeito para as coisas
esse escuro vazio no teu olhar.

E demorava a dura paciência,
fruto do frio nas nossas mãos vazias
que mais coisas não tinham para dar.

Dizia então a dor o nosso gesto
e durava nas coisas mais antigas
a solidão sem rasto que há no mar
499
Bernardo Pinto de Almeida

Bernardo Pinto de Almeida

Poema surdo

Chega a noite e surpreende
no meio do silêncio um longo bater de horas
num relógio que não ouves
mas desde sempre acompanhou todas as noites
num corredor que apenas vias
na obscuridade: o exacto retrato do teu medo
esse bater de um coração que traz o tempo
move o tempo
e mecânico
te retira em face da presença da morte
a escolha clara.

Segues caminhos vários
como sempre
todos eles conduzem até um rio inesperado mas de sempre conhecido
tal a tua sombra
tal a tua tumultuosa sombra de que foges
e procuras
como se apenas em vários movimentos
pudesses coexistir contigo mesmo.

Mas onde a doce escolha
a luz
a que haveria de trazer para debaixo dos teus olhos cansados
o acertado movimento
que os não conduzisse sempre para a cegueira?

Disse-o antes:
o amor sem amor devolve-te a ti mesmo
e tudo o que apenas se passou
insiste no horizonte dos teus olhos
e bate como se tivesse já acontecido há muito mais que cem anos
tens dentro de ti um século
e no entanto nada em ti se esqueceu
nem um vago momento rasga
a fotografia breve daquilo que foi
tudo parece impresso e és tu o papel
emaciado.

Queres dar sentido ao que não tem sentido
ou perceber um rosto no que já não tem rosto
e frágil pela noite que ainda te inunda os olhos
ver um fio condutor que lá não está.

E tudo à tua volta te desmente
nem a palavra exacta te soa nos ouvidos
nem a boca acompanha a forma das palavras:
como num filme mal dobrado as palavras descoincidem
com os movimentos dos lábios se estes falam. E tudo
te parece por dentro paisagem devastada
que semente alguma
o vento ainda trouxesse a visitar.

Há um tribunal em que és o réu e o advogado
e as testemunhas todas que perpassam
e és também o estrado e a balaustrada
e o juiz circunspecto que te escuta:
e o crime de que te acusam
jamais o perpetraste
mas ainda assim confessas
e pedes o castigo
para que nada reste do que foi a liberdade
para que de ti apenas fique um registo esquecido
num arquivo poeirento que jamais alguém visitará.

E pergunto-me o que havia no teu rosto
que animal demente prenunciava
na sua a voz mortal que preparava
entre sonhos o sem fim e sem lamento.
754
D. Dinis

D. Dinis

Amiga, Faço-Me Maravilhada

- Amiga, faço-me maravilhada
como pode meu amigo viver
u os meus olhos nom pode veer
ou como pod'alá fazer tardada;
ca nunca tam gram maravilha vi:
poder meu amigo viver sem mi;
e, par Deus, é cousa mui desguisada.

- Amiga, estad[e] ora calada
um pouco, e leixad'a mim dizer:
per quant'eu sei cert'e poss'entender,
nunca no mundo foi molher amada
come vós de voss'amig'; e assi,
se el tarda, sol nom é culpad'i;
se nom, eu quer'en ficar por culpada.

- Ai amiga, eu ando tam coitada
que sol nom poss'em mi tomar prazer,
cuidand'em como se pode fazer
que nom é já comigo de tornada;
e, par Deus, porque o nom vej'aqui,
que é morto gram sospeita tom'i,
e, se mort'é, mal dia eu fui nada.

- Amiga fremosa e mesurada,
nom vos dig'eu que nom pode seer
voss'amigo, pois hom'é, de morrer;
mais, por Deus, nom sejades sospeitada
doutro mal del, ca des quand'eu naci,
nunca doutr'home tam leal oí
falar, e quem end'al diz, nom diz nada.
826
Afonso Mendes de Besteiros

Afonso Mendes de Besteiros

Oimais Quer'eu Punhar de Me Partir

Oimais quer'eu punhar de me partir
daqueste mund', e farei gram razom,
poilo leixou a mia senhor, e nom
pud'i viver e fui alhur guarir.
E por esto quer'eu, por seu amor,
leixá'lo mundo falso, traedor,
desemparado, que me foi falir.

E nom haverá pois quen'o servir
com'eu servi, nem tam longa sazom;
e ficará desemparad'entom,
pois m'end'eu for, que mia senhor fez ir.
E pois que já nom há prez nem valor
eno mundo d'u se foi mia senhor,
Deus me cofonda se eu i guarir!

E pois que eu i mia senhor nom vir,
e vir as outras que no mundo som,
nom me podia dar o coraçom
de ficar i. E por vos nom mentir,
quero-m'end'ir; e pois que m'end'eu for
daqueste mundo, que est a peor
cousa que sei, querrei-me del riir!
471
D. Dinis

D. Dinis

Amigo, Queredes-Vos Ir?

- Amigo, queredes-vos ir?
- Si, mia senhor, ca nom poss'al
fazer, ca seria meu mal
e vosso; por end'a partir
mi convém daqueste logar;
mais que gram coita d'endurar
mi será, pois me sem vós vir!

- Amig', e de mim que será?
- Bem, senhor bõa e de prez;
e, pois m'eu for daquesta vez,
o vosso mui bem se passará;
mais morte m'é de m'alongar
de vós e ir-m'alhur morar,
mais pass'o voss'ũa vez já.

- Amig', eu sem vós morrerei.
- Nom querrá Deus esso, senhor;
mais, pois u vós fordes nom for,
o que morrerá eu serei;
mais quer'eu ant'o meu passar
ca assi do voss'aventurar;
ca eu sem vós de morrer hei!

- Queredes-mi, amigo, matar?
- Nom, mia senhor; mais, por guardar
vós, mato-mi, que mi o busquei.
936
Afonso Mendes de Besteiros

Afonso Mendes de Besteiros

Que Sem Meu Grado Me Parti

Que sem meu grado me parti
de mia senhor e do meu bem,
que quero melhor doutra rem!
E em grave dia naci
por eu nunca poder veer,
poila nom vi, nẽum prazer!
[...]
569
Adélia Prado

Adélia Prado

Um Homem Habitou Uma Casa

A graça da morte, seu desastrado encanto
é por causa da vida,
porque o céu fica a oeste da casa de meu pai,
onde moram: toda a riqueza do mundo e minha alma.
Lá tem um canto na parede
pra onde eu vou escondida comer com o prato na mão,
de onde vejo Jerusalém, as cúpulas faiscando,
a Rosa de Jericó desabrochada.
Daquele ângulo,
as doenças graves ficam domesticadas,
inocentes ficam minha prima e seus cinco filhos
[bastardos.
O tiro, o álcool, a imprecação, mesmo o medo
assentam na caneca de chá,
no fundo grosso de misericórdia e açúcar,
incansável paciência.
As ervas de remédio machucadas põem cheiro na
[santidade
no esforço de repetir: sim, meu Deus,
sim, meu corpo fraco,
sim, que saudade da bicicleta,
de sair pra rua sacudindo
meu invencível poder sobre buracos e pedras,
sim, a juventude me comove tanto,
sim, minha fadiga que nem tanta é,
comparada à que na cruz, ó meu Pai, padeceste por mim.
O corpo sente dores?
Eu comia assim:
arroz, feijão, cebola crua,
mas o prato tinha a beirada bordada.
A colher oxidava,
mas, no cabo, miosótis gravados.
O corpo sente alegrias, a língua as come
claras, quentes, indubitáveis como sóis.
Morre-se?
As matemáticas eu entendo mais.
1 411
D. Dinis

D. Dinis

Por Deus, Amigo, Quem Cuidaria

Por Deus, amigo, quem cuidaria
que vós nunca houvéssedes poder
de tam longo tempo sem mi viver?
E des oimais, par Santa Maria,
       nunca molher deve, bem vos digo,
       muit'a creer per juras d'amigo.

Dissestes-mi u vos de mim quitastes:
"Log'aqui serei convosco, senhor";
e jurastes-mi polo meu amor,
e des oimais, pois vos perjurastes,
       nunca molher deve, bem vos digo,
       muit'a creer per juras d'amigo.

Jurastes-m'entom muit'aficado
que logo logo, sem outro tardar,
vos queríades pera mi tornar,
e des oimais, ai meu perjurado,
       nunca molher deve, bem vos digo,
       muit'a creer per juras d'amigo.

E assi farei eu, bem vos digo,
por quanto vós passastes comigo.
712
Renato Russo

Renato Russo

Sete Cidades

Já me acostumei com a tua voz
Com teu rosto e teu olhar
Me partiram em dois
E procuro agora o que é minha metade
Quando não estás aqui
Sinto falta de mim mesmo
E sinto falta do meu corpo junto ao teu
Meu coração é tão tosco e tão pobre
Não sabe ainda os caminhos do mundo
Quando não estás aqui
Tenho medo de mim mesmo
E sinto falta do teu corpo junto ao meu
Vem depressa prá mim
Que eu não sei esperar
Já fizemos promessas demais
E já me acostumei com a tua voz:
Quando estou contigo estou em paz
Quando não estás aqui,
Meu espírito se perde, voa longe

995
Renato Russo

Renato Russo

Angra dos Reis

Deixa, se fosse sempre assim quente
Deita aqui perto de mim
Tem dias em que tudo está em paz
E agora todos os dias são iguais

Se fosse só sentir saudade
Mas tem sempre algo mais
Seja como for
É uma dor que dói no peito
Pode rir agora que estou sozinho
Mas não venha me roubar

Vamos brincar perto da usina
Deixa prá lá, a angra é dos reis
Por que se explicar se não existe perigo ?

Senti seu coração perfeito batendo à toa
E isso dói
Seja como for
É uma dor que dói no peito
Pode rir agora que estou sozinho
mas não venha me roubar

Vai ver que não é nada disso
Vai ver que já não sei quem sou
Vai ver que nunca fui mesmo
A culpa é toda sua e nunca foi
Mesmo se as estrelas começassem a cair
E a luz queimasse tudo ao redor
E fosse o fim chegando cedo
E você visse nosso corpo em chamas
Deixa prá lá.

Quando as estrelas começarem a cair
Me diz, me diz prá onde a gente vai fugir ?

1 675
D. Dinis

D. Dinis

Gram Temp'há, Meu Amigo, Que Nom Quis Deus

Gram temp'há, meu amigo, que nom quis Deus
que vos veer podesse dos olhos meus,
e nom pom, com tod'esto, em mi os seus
olhos mia madr', amig', e pois est assi,
       guisade de nos irmos, por Deus, daqui,
       e faça mia madr'o que poder des i.

Nom vos vi há gram tempo, nem se guisou,
ca o partiu mia madr[e], a que pesou
daqueste preit', e pesa, e mi guardou
que vos nom viss', amig', e, pois est assi,
       guisade de nos irmos, por Deus, daqui,
       e faça mia madr'o que poder des i.

Que vos nom vi há muito, e nulha rem
nom vi des aquel tempo de nẽum bem,
ca o partiu mia madr[e], e fez por en
que vos nom viss', amig', e, pois est assi,
       guisade de nos irmos, por Deus, daqui,
       e faça mia madr'o que poder des i.

E se [o] nom guisardes mui ced'assi,
matades-vos, amig', e matades-mi.
578
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Augusto Frederico Schmidt 10 Anos Depois

10 ANOS DEPOIS
Veleja o poeta em mar desconhecido?
Bebe de novo em invisível fonte?
Schmidt inquieto, nunca adormecido,
brinca talvez na linha do horizonte.
1 127
D. Dinis

D. Dinis

Meu Amig', U Eu Sejo

Meu amig', u eu sejo,
nunca perço desejo
senom quando vos vejo,
       e por en vivo coitada
com este mal sobejo
       que sofr'eu, bem talhada.

U quer que sem vós seja,
sempr'o meu cor deseja
vós, atá que vos veja,
       e por en vivo coitada
com gram coita sobeja
       que sofr'eu, bem talhada.

Nom é senom espanto,
u vos nom vejo, quanto
       hei desej', e quebranto,
e por en vivo coitada
com aqueste mal tanto
       que sofr'eu, bem talhada.
627
Vinicius de Moraes

Vinicius de Moraes

Romanza

Branca mulher de olhos claros
De olhar branco e luminoso
Que tinhas luz nas pupilas
E luz nos cabelos louros
Onde levou-te o destino
Que te afastou para longe
Da minha vista sem vida
Da minha vida sem vista?

Andavas sempre sozinha
Sem cão, sem homem, sem Deus
Eu te seguia sozinho
Sem cão, sem mulher, sem Deus
Eras a imagem de um sonho
A imagem de um sonho eu era
Ambos levando a tristeza
Dos que andam em busca do sonho.

Ias sempre, sempre andando
E eu ia sempre seguindo
Pisando na tua sombra
Vendo-a às vezes se afastar
Nem sabias quem eu era
Não te assustavam meus passos
Tu sempre andando na frente
Eu sempre atrás caminhando.

Toda a noite em minha casa
Passavas na caminhada
Eu te esperava e seguia

Na proteção do meu passo
E após o curto caminho
Da praia de ponta a ponta
Entravas na tua casa
E eu ia, na caminhada.

Eu te amei, mulher serena
Amei teu vulto distante
Amei teu passo elegante
E a tua beleza clara
Na noite que sempre vinha
Mas sempre custava tanto
Eu via a hora suprema
Das horas da minha vida.

Eu te seguia e sonhava
Sonhava que te seguia
Esperava ansioso o instante
De defender-te de alguém
E então meu passo mais forte
Dizia: quero falar-te
E o teu, mais brando, dizia:
Se queres destruir... vem.

Eu ficava. E te seguia
Pelo deserto da praia
Até avistar a casa
Pequena e branca da esquina.
Entravas. Por um momento
Esperavas que eu passasse
Para o olhar de boa-noite
E o olhar de até-amanhã.

Quase um ano o nosso idílio.
Uma noite... não passaste.
Esperei-te ansioso, inquieto

Mas não vieste. Por quê?
Foste embora? Procuraste
O amor de algum outro passo
Que em vez de seguir-te sempre
Andasse sempre ao teu lado?

Eu ando agora sozinho
Na praia longa e deserta
Eu ando agora sozinho
Por que fugiste? Por quê?
Ao meu passo solitário
Triste e incerto como nunca
Só responde a voz das ondas
Que se esfacelam na areia.

Branca mulher de olhos claros
Minha alma ainda te deseja
Traze ao meu passo cansado
A alegria do teu passo
Onde levou-te o destino
Que te afastou para longe
Da minha vista sem vida
Da minha vida sem vista?

1 268
Renato Russo

Renato Russo

Mil Pedaços

Eu não perdi
E mesmo assim você me abandonou
Você quis partir
E agora estou sozinho
Mas vou me acostumar
Com o silêncio em casa
om um prato só na mesa
Eu não me perdi
O Sândalo perfuma
O machado que feriu
Adeus adeus
Adeus meu grande amor
E tanto faz
De tudo o que ficou
Guardo um retrato teu
E a saudade mais bonita
Eu não me perdi
E mesmo assim ninguém te perdoou
Pobre coração - quando o teu
Estava comigo era tão bom.
Não sei por quê
Acontece assim e é sem querer
O que não era pra ser:
Vou fugir dessa dor.
Meu amor, se quiseres voltar - volta não
Porque me quebraste em mil pedaços.

1 550
D. Dinis

D. Dinis

Coitada Viv', Amigo, Porque Vos Nom Vejo

Coitada viv', amigo, porque vos nom vejo,
e vós vivedes coitad'e com gram desejo
de me veer e mi falar, e por en sejo
sempr'em coita tam forte
que nom m'é senom morte,
come quem viv', amigo, em tam gram desejo.

Por vos veer, amigo, vivo tam coitada,
e vós por me veer, que oimais nom é nada
a vida que fazemos, e maravilhada
sõo de como vivo,
sofrendo tam esquivo
mal, ca mais mi valria de nom seer nada.

Por vos veer, amigo, nom sei quem sofresse
tal coita qual eu sofr'e vós, que nom morresse,
e, com aquestas coitas, eu, que nom nacesse,
nom sei de mim que seja,
e da mort'hei enveja
a tod[o] home ou molher que já morresse.
709
D. Dinis

D. Dinis

Vai-S'o Meu Amig'alhur Sem Mi Morar

Vai-s'o meu amig'alhur sem mi morar
e, par Deus, amiga, hei end'eu pesar,
porque s'ora vai, eno meu coraçom,
tamanho que esto nom é de falar:
ca lho defendi, e faço gram razom.

Defendi-lh'eu que se nom fosse daqui,
ca todo meu bem perderia per i,
e ora vai-s[e] e faz-mi gram traiçom;
e des oimais nom sei que seja de mim,
nem vej[o] i, amiga, se morte nom.
729
D. Dinis

D. Dinis

Amigo, Pois Vos Nom Vi

Amigo, pois vos nom vi,
nunca folguei nem dormi,
mais ora já des aqui
       que vos vejo, folgarei
e verei prazer de mi,
       pois vejo quanto bem hei.

Pois vos nom pudi veer,
jamais nom houvi lezer,
e, u vos Deus quis trager,
       que vos vejo, folgarei
e verei de mim prazer,
       pois vejo quanto bem hei.

Des que vos nom vi, de rem
nom vi prazer e o sem
perdi, mais, pois que mi avém
       que vos vejo, folgarei
e verei todo meu bem,
       pois vejo quanto bem hei.

De vos veer a mim praz
tanto que muito é assaz,
mais, u m'este bem Deus faz
       que vos vejo, folgarei
e haverei gram solaz,
       pois vejo quanto bem hei.
820
D. Dinis

D. Dinis

Nom Sei Hoj', Amigo, Quem Padecesse

Nom sei hoj', amigo, quem padecesse
coita qual padesco que nom morresse,
senom eu coitada, que nom nacesse,
       porque vos nom vejo com'eu queria;
e quisesse Deus que m'escaecesse
       vós que vi, amig[o], em grave dia.

Nom sei, amigo, molher que passasse
coita qual eu passo que já durasse,
que nom morress[e] ou desasperasse,
       porque vos nom vejo com'eu queria;
e quisesse Deus que me nom nembrasse
       vós que vi, amig[o], em grave dia.

Nom sei, amigo, quem o mal sentisse
que eu senço, que o sol encobrisse,
senom eu coitada, que Deus maldisse,
       porque vos nom vejo com'eu queria;
e quisesse Deus que nunca eu visse
       vós que vi, amig[o], em grave dia.
659
Ruy Pereira e Alvim

Ruy Pereira e Alvim

Sonho Anfíbio

Viver na espuma das ondas
o meu sonho de mar.
Beijar a língua de areia
e refluir
nas ondas submissas
para voltar
a percorrer o sonho
a vida inteira
entre a terra e o porvir.

E viver na espuma das ondas
sem ter pátria no tempo
na saudade sem lar.

1 022
Vinicius de Moraes

Vinicius de Moraes

Carne

Que importa se a distância estende entre nós léguas e léguas
Que importa se existe entre nós muitas montanhas?
O mesmo céu nos cobre
E a mesma terra liga nossos pés.
No céu e na terra é tua carne que palpita
Em tudo eu sinto o teu olhar se desdobrando
Na carícia violenta do teu beijo.
Que importa a distância e que importa a montanha
Se tu és a extensão da carne
Sempre presente?
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