Poemas neste tema

Saudade e Ausência

Francisco Mallmann

Francisco Mallmann

I

trago-lhe boas notícias
finalmente será demolida
a parede e instalarão
para mim uma janela
nem posso acreditar
depois do tanto
que insisti
agora verei a ponte
agora verei o caminho
que fizeste ao fugir
fernando a vida é terrível
mas disseram-me que
às vezes se descansa eu
daqui mal posso esperar
800
D. Dinis

D. Dinis

Bem Me Podedes Vós, Senhor

Bem me podedes vós, senhor,
partir deste meu coraçom
graves coitas; mas sei que nom
mi poderíades tolher,
per bõa fé, nẽum prazer:
ca nunca o eu pud'haver
des que vos eu nom vi, senhor.

Podedes-mi partir gram mal
e graves coitas que eu hei
por vós, mia senhor; mas bem sei
que me nom podedes per rem
tolher prazer nem nẽum bem:
pois end'eu nada nom houv'en,
des que vos vi, senom mal.

Graves coitas e grand'afã
mi podedes, se vos prouguer,
partir mui bem, senhor; mais er
sei que nom podedes tolher,
o que em mi nom há: prazer,
des que vos nom pudi veer,
mais grave coit'e grand'afã.
704
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Visão de Clarice Lispector

Clarice
veio de um mistério, partiu para outro.

Ficamos sem saber a essência do mistério.
Ou o mistério não era essencial,
era Clarice viajando nele.

Era Clarice bulindo no fundo mais fundo,
onde a palavra parece encontrar
sua razão de ser, e retratar o homem.

O que Clarice disse, o que Clarice
viveu por nós em forma de história
em forma de sonho de história
em forma de sonho de sonho de história
(no meio havia uma barata
ou um anjo?)
não sabemos repetir nem inventar.
São coisas, são joias particulares de Clarice
que usamos de empréstimo, ela dona de tudo.

Clarice não foi um lugar-comum,
carteira de identidade, retrato.
De Chirico a pintou? Pois sim.
O mais puro retrato de Clarice
só se pode encontrá-lo atrás da nuvem
que o avião cortou, não se percebe mais.

De Clarice guardamos gestos. Gestos,
tentativas de Clarice sair de Clarice
para ser igual a nós todos
em cortesia, cuidados, providências.
Clarice não saiu, mesmo sorrindo.
Dentro dela
o que havia de salões, escadarias,
tetos fosforescentes, longas estepes,
zimbórios, pontes do Recife em bruma envoltas,
formava um país, o país onde Clarice
vivia, só e ardente, construindo fábulas.

Não podíamos reter Clarice em nosso chão
salpicado de compromissos. Os papéis,
os cumprimentos falavam em agora,
edições, possíveis coquetéis
à beira do abismo.
Levitando acima do abismo Clarice riscava
um sulco rubro e cinza no ar e fascinava.

Fascinava-nos, apenas.
Deixamos para compreendê-la mais tarde.
Mais tarde, um dia… saberemos amar Clarice.
814
Eduardo Pitta

Eduardo Pitta

A tua ausência

A tua ausência
a encher-se de dunas.

Aquele bater de vidraças
na orla da praia.

O silêncio a insistir
a recusar-se ao rumor.

E a vida a fluir,
lá fora.
666
D. Dinis

D. Dinis

Senhor, Que Mal Vos Nembrades

Senhor, que mal vos nembrades
de quanto mal por vós levei
e levo, ben'o creades,
que, par Deus, já poder nom hei
de tam grave coita sofrer;
mais Deus vos leixe part'haver
da mui gram coita que mi dades.

E se Deus quer que hajades
parte da mia coita, bem sei,
pero m'ora desamades,
log'entom amado serei
de vós, e podedes saber
qual coita é de padecer
aquesta de que me matades.

E senhor, certa sejades
que des entom nom temerei
coita que mi dar possades,
e tod'o meu sem cobrarei
que mi vós fazedes perder;
e vós cobrades conhocer,
tanto que m'algum bem façades.
555
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Através da Memória

a Jorge de Sena

Apenas sei que o Verão em mim cantou
Um breve tempo, e já não canta mais.
EDNA St. VINCENT MILLAY*

Não é apenas o dom
extremo da delicada atenção,
a generosa paciência,
esse toque subtil que se desfere,
após o gosto cheio da palavra redonda,
na zona branca da perfeição.

A página
ali esperava.
Mas quanto antes
na azáfama alheia e neutra
duma viagem de eléctrico,
numa paragem,
num cinema,
numas escadas toscas, solitárias,
num gosto de café, nesse amargo especial
do cigarro, que é um convite, um sinal,
ela, a forma esplêndida,
com a miragem dum espelho,
com a auréola duma árvore brilhante,
nua como uma espada,
brilhara,
na mente fatigada, mas logo límpida,
sinal brusco, e, no entanto, liso,
a forma preciosa.

Não.
Não fora apenas esse dom inato,
nem essa pureza rápida da inspiração,
nem esse acalento sossegado à noite,
esse cerrar de lábios,
esse branco vazio,
esse tumultuar de palavras prontas
a passar pelo crivo.

Não.
Mas já no tempo, nesse longo ciciar
de folhas durando na memória,
de dicionários rotos e tristes,
mas que é gostoso desfolhar na impaciência,
já nessa amorosa e repetida paciência
com que se inclinara ao longo de crepúsculos
em que meninos atiravam pedras longe,
sim, sobretudo nos crepúsculos,
nessa limpa mágoa que nos vem de árvores ao frio
e dos seus braços magros,
já, já se adivinhara esse respirar de sílabas
fluindo em graça pura,
não plumas,
mas sílabas certas e claras,
sílabas onde o destino bate
com a grave leveza de quem dança
de noite, entre as estrelas.


essa saudade calma
alguma vez pousara
na fronte do poeta;
já esse Verão uma tarde
depusera
seu pó alegre e estático
como um pólen
nas suas mãos suaves.

Mas nunca
ele cantara assim.
* Estes versos são extraídos de uma tradução do soneto «What lips my lips have kissed», da autoria de Jorge de Sena, inserta na página «Cultura e Arte», de O Comércio do Porto, de 12 de Agosto de 1958. O poema «Através da Memória» foi publicado na página «Artes e Letras» do Diário de Notícias, em homenagem a Jorge de Sena por essa tradução. A expressão «saudade calma», empregada neste poema, é também extraída da referida tradução.
616
Eduardo Pitta

Eduardo Pitta

Pouco tenho para alinhavar

Pouco tenho para alinhavar.
Dizer-te que estou longe
não apaga esta ausência que,
inelutavelmente,
nos distanciou.
  
Cercam-nos muros de silêncio
opresso.
A própria hera não ousa
na despudorada nudez branca
de paredes que interditam 
a fantasia ao forasteiro
voraz.
O gesto tolhido,
o pretexto adiado
e a memória a estiolar.
702
Afonso Lopes de Baião

Afonso Lopes de Baião

Senhor, Que Grav'hoj'a Mi É

Senhor, que grav'hoj'a mi é
de m'haver de vós a partir!
Ca sei, de pram, pois m'eu partir,
que mi averrá, per bõa fé:
       haverei, se Deus me perdom!,
       gram coita no meu coraçom.

E pois partir os olhos meus
de vós, que eu quero gram bem,
e vos nom virem, sei eu bem
que mi averrá, senhor, par Deus:
       haverei, se Deus me perdom!,
       gram coita no meu coraçom.

E se Deus algum bem nom der
de vós, que eu por meu mal vi
(tam grave dia vos eu vi!),
se de vós grado nom houver,
       haverei, se Deus me perdom!,
       gram coita no meu coraçom.
855
Virgílio Martinho

Virgílio Martinho

Estar Longe do Verde Prado

Estar longe do verde prado
onde as vacas ruminam ais.
Estar longe da égua ciosa
que corre veloz nos pinhais.

Estar longe, cada vez mais,
da laranja que verteu sumo.
Estar longe do por onde vais,
que tudo, mas tudo, acabou fumo.
921
Fernando Fitas

Fernando Fitas

Deitado foi teu corpo

Deitado foi teu corpo
sobre a cama
na comunhão efémera
dos corpos,
na generosa entrega acontecida

E dilatando-se um corpo
noutro corpo
foi mais intensa
e mais sublime a dádiva,
foi mais belo e verdadeiro o amor

Deitado foi teu corpo
sobre a cama
onde hoje jaz inerte
o pó do tempo.
694
D. Dinis

D. Dinis

Que Trist'hoj'é Meu Amigo

Que trist'hoj'é meu amigo,
amiga, no seu coraçom,
ca nom pode falar migo
nem veer-m', e faz gram razom
       meu amigo de trist'andar,
       pois m'el nom vir e lh'eu nembrar.

Trist'anda, se Deus mi valha,
ca me nom viu, e dereit'é,
e por esto faz sem falha
mui gram razom, per bõa fé,
       meu amigo de trist'andar,
       pois m'el nom vir e lh'eu nembrar.

D'andar triste faz guisado,
ca o nom vi, nem viu el mi
nem ar oíu meu mandado,
e por en faz gram dereit'i
       meu amigo de trist'andar,
       pois m'el nom vir e lh'eu nembrar.

Mais, Deus, como pode durar
que já nom morreu com pesar?
733
Afonso Lopes de Baião

Afonso Lopes de Baião

Madre, Des Que Se Foi Daqui

Madre, des que se foi daqui
meu amigo, nom vi prazer,
nem mi o queredes [vós] creer,
e moir'e, se nom é assi,
       nom vejades de mi prazer
       que desejades a veer.

Des que s'el foi, per bõa fé,
chorei, madre, dos olhos meus
com gram coita, sab'hoje Deus,
e moir'e, se assi nom é,
       nom vejades de mi prazer
       que desejades a veer.

De mia mort'hei mui gram pavor,
mia madre, se cedo nom vem,
e al nom duvidedes en,
ca, se assi nom é, senhor,
       nom vejades de mi prazer
       que desejades a veer.
721
D. Dinis

D. Dinis

Que Muit'há Já Que Nom Vejo

Que muit'há já que nom vejo
mandado do meu amigo,
pero, amiga, pôs migo
bem aqui, u mi ora sejo,
       que logo m'enviaria
       mandad'ou s'ar tornaria.

Muito mi tarda, sem falha,
que nom vejo seu mandado,
pero houve-m'el jurado
bem aqui, se Deus mi valha,
       que logo m'enviaria
       mandad'ou s'ar tornaria.

E que vos verdade diga:
el seve muito chorando,
er seve por mi jurando
u m'agora sej', amiga,
       que logo m'enviaria
       mandad'ou s'ar tornaria.

Mais, pois nom vem nem envia
mandad', é mort'ou mentia.
709
Silva Avarenga

Silva Avarenga

A Roseira

Rondó LII

Ah! roseira desgraçada,
Dedicada aos meus amores,
Tuas flores mal se abriram,
E caíram de pesar!

Quando Glaura me dizia
Que era sua esta roseira,
De esperança lisonjeira
Me senda consolar.
Mas a sorte, que invejosa
Este alívio não consente,
Não há mal que não invente
Rigorosa em maltratar.

Ah! roseira desgraçada,
Dedicada aos meus amores,
Tuas flores mal se abriram,
E caíram de pesar!

Da risonha primavera
Esperei os dias belos:
Glaura... oh dor! os teus cabelos
Quem Pudera coroar.
Já não vives oh que mágoa!
E a roseira que foi tua,
Eu a vejo estéril, nua,
Junto d’água desmaiar.

Ah! roseira desgraçada,
Dedicada aos meus amores,
Tuas flores mal se abriram,
E caíram de pesar!

Parca iníqua, atroz, funesta,
Era teu o infausto agouro;
Já levaste o meu tesouro,
Mais não resta que roubar.

Nem às flores permitiste...
Oh! que bárbara impiedade!
Fica só cruel saudade,
Fica o triste suspirar.

Ah! roseira desgraçada,
Dedicada aos meus amores,
Tuas flores mal se abriram,
E caíram de pesar!

De teus ramos a beleza
Era o mimo destes prados;
Move agora, ó ímpios fados!
De tristeza a lamentar.
Horrorosos são meus males;
Tudo encontro em névoa escura;
Vem comigo a desventura
Estes vales assombrar.

Ah! roseira desgraçada,
Dedicada aos meus amores,
Tuas flores mal se abriram,
E caíram de pesar!

1 116
D. Dinis

D. Dinis

Amiga, Muit'há Gram Sazom

Amiga, muit'há gram sazom
que se foi daqui com el-rei
meu amigo, mais já cuidei
mil vezes no meu coraçom
       que algur morreu com pesar,
       pois nom tornou migo falar.

Por que tarda tam muito lá
e nunca me tornou veer,
amiga, si veja prazer,
mais de mil vezes cuidei já
       que algur morreu com pesar,
       pois nom tornou migo falar.

Amiga, o coraçom seu
era de tornar ced'aqui
u visse os meus olhos em mim,
e por en mil vezes cuid'eu
       que algur morreu com pesar,
       pois nom tornou migo falar.
847
Silva Avarenga

Silva Avarenga

Madrigal XXXIV

Ditoso e brando vento, por piedade
Entrega à linda Glaura os meus suspiros;
E voltado os teus giros,
Vem depois consolar minha saudade.
Não queiras imitar a crueldade
Do injusto amor, da triste desventura,
Que empenhada procura o meu tormento.
Ditoso e brando vento,
Voa destes retiros,
E entrega à linda Glaura os meus suspiros.

987
D. Dinis

D. Dinis

Dos Que Ora Som Na Hoste

Dos que ora som na hoste,
amiga, querria saber
se se verrám tard'ou toste,
por quanto vos quero dizer:
       porque é alá meu amigo.

Querria saber mandado
dos que alá som, ca o nom sei,
amiga, par Deus, de grado,
por quanto vos ora direi:
       porque é alá meu amigo.

E queredes que vos diga?
Se Deus bom mandado mi dê,
querria saber, amiga,
deles novas, vedes porquê:
       porque é alá meu amigo.

Ca por al nom vo-lo digo.
787
Silva Avarenga

Silva Avarenga

Madrigal III

Voai, suspiros tristes;
Dizei à bela Glaura o que eu padeço,
Dizei o que em mim vistes,
Que choro, que me abraso, que esmoreço.

Levai em roxas flores convertidos
Lagrimosos gemidos, que me ouvistes:
Voai, suspiros tristes;
Levai minha saudade;
E, se amor ou piedade vos mereço,
Dizei à bela Glaura o que eu padeço.

1 391
Silva Avarenga

Silva Avarenga

O Jasmineiro

Rondó XI

Venturoso Jasmineiro,
Sobranceiro ao claro Rio,
Já do Estio o ardor se acende,
Ah! defende este lugar.

Ache Glaura na frescura
Destas penhas encurvadas
Moles heras abraçaras
Com ternura a vegetar.

Ache mil e mil Napéias,
E inda mais e mais Amores,
Do que mostra o campo flores,
Do que areias tem o mar.

Venturoso Jasmineiro,
Sobranceiro ao claro Rio,
Já do Estio o ardor se acende,
Ah! defende este lugar.

Branda Ninfa que me escutas
Desse monte cavernoso,
Nem o raio luminoso
Nestas grutas possa entrar.

Hás de ver com dor, e espanto,
Como pálida a Tristeza
Dos seixinhos na aspereza
Faz meu pranto congelar,

Venturoso Jasmineiro,
Sobranceiro ao claro Rio,
Já do Estio o ardor se acende,
Ah! defende este lugar.

Glaura bela, que resiste
Aos rigores da saudade,
Veja em muda soledade
Sono triste bocejar.

Sobre o musgo em rocha fria
Adormeça ao som das águas,
E sonhando injustas mágoas,
Chegue um dia a suspirar.

Venturoso Jasmineiro,
Sobranceiro ao claro Rio,
Já do Estio o ardor se acende,
Ah! defende este lugar.

Com seus olhos Glaura inflame
Os desejos namorados,
Que em abelhas transformados,
Novo enxame cubra o ar.

Vinde, abelhas amorosas,
Sem temer o meu desgosto,
Doce néctar no seu rosto
Entre rosas procurar.

Venturoso Jasmineiro,
Sobranceiro ao claro Rio,
Já do Estio o ardor se acende,
Ah! defende este lugar.

982
D. Dinis

D. Dinis

Chegou-M'or'aqui Recado,

Chegou-m'or'aqui recado,
amiga, do voss'amigo,
e aquel que falou migo
diz-mi que é tam coitado
       que per quanta poss'havedes
       já o guarir nom podedes.

Diz que hoje tercer dia
bem lhi partírades morte,
mais houv'el coita tam forte
e tam coitad'er jazia
       que per quanta poss'havedes
       já o guarir nom podedes.

Com mal que lhi vós fezestes
jurou-mi, amiga fremosa,
que, pero vós poderosa
fostes del quanto quisestes,
       que per quanta poss'havedes
       já o guarir nom podedes.

E gram perda per fazedes
u tal amigo perdedes.
760
Fernando Fitas

Fernando Fitas

Mais do que o rumor

Mais do que o rumor
das folhas rente ao chão
é o pressentido som
das nossas vozes
solidariamente obrigadas
ao silêncio

E mais do que a nudez
pousada nos teus olhos
é esta certeza
de não saber as palavras
do teu corpo
amanhecendo no frio
de todas as esperas

Gélidos desertos
nos braços do poema
743
D. Dinis

D. Dinis

Com'ousará Parecer Ante Mi

Com'ousará parecer ante mi
o meu amig', ai amiga, por Deus,
e com'ousará catar estes meus
olhos, se o Deus trouxer per aqui,
       pois tam muit'há que nom vẽo veer-
       -mi e meus olhos e meu parecer?

Amiga, ou como s'atreverá
de m'ousar sol dos seus olhos catar,
se os meus olhos vir um pouc'alçar,
ou no coraçom como o porrá?
       Pois tam muit'há que nom vẽo veer-
       -mi e meus olhos e meu parecer.

Ca sei que nom terrá el por razom,
como quer que m'haja mui grand'amor,
de m'ousar veer, nem chamar senhor,
nem sol non'o porrá no coraçom;
       pois tam muit'há que nom vẽo veer-
       -mi e meus olhos e meu parecer.
743
D. Dinis

D. Dinis

Nom Chegou, Madre, o Meu Amigo

Nom chegou, madre, o meu amigo,
e hoj'est o prazo saido;
       ai madre, moiro d'amor!

Nom chegou, madr', o meu amado,
e hoj'est o prazo passado;
       ai madre, moiro d'amor!

E hoj'est o prazo saido;
por que mentiu o desmentido?
       ai madre, moiro d'amor!

E hoj'est o prazo passado;
por que mentiu o perjurado?
       ai madre, moiro d'amor!

Por que mentiu o desmentido,
pesa-mi, pois per si é falido;
       ai madre, moiro d'amor!

Por que mentiu o perjurado,
pesa-mi, pois mentiu per seu grado;
       ai madre, moiro d'amor!
2 120
D. Dinis

D. Dinis

Bom Dia Vi Amigo,

Bom dia vi amigo,
pois seu mandad'hei migo,
       louçana.

Bom dia vi amado,
pois mig'hei seu mandado,
       louçana.

Pois seu mandad'hei migo,
rog'eu a Deus e digo
       louçana.

Pois migo hei seu mandado,
rog'eu a Deus de grado,
       louçana.

Rog'eu a Deus e digo
por aquel meu amigo,
       louçana.

[Rog'eu a Deus de grado
por aquel namorado,
       louçana.]

Por aquel meu amigo,
que o veja comigo,
       louçana.

Por aquel namorado,
que fosse já chegado,
       louçana.
1 014