Poemas neste tema
Sabedoria
Martha Medeiros
a força de um ato
a força de um ato
dura o tempo exato
para ser compreendida
depois disso é bobagem
vira longa-metragem
por acaso estendida
fora o essencial
nada mais é natural
vira apenas suporte
pena a vida não ter corte
dura o tempo exato
para ser compreendida
depois disso é bobagem
vira longa-metragem
por acaso estendida
fora o essencial
nada mais é natural
vira apenas suporte
pena a vida não ter corte
1 117
Manuel Bandeira
Céu
À criança olha
Para o céu azul.
Levanta a mãozinha,
Quer tocar o céu.
Não sente a criança
Que o céu é ilusão:
Crê que o não alcança,
Quando o tem na mão.
Para o céu azul.
Levanta a mãozinha,
Quer tocar o céu.
Não sente a criança
Que o céu é ilusão:
Crê que o não alcança,
Quando o tem na mão.
1 199
António Ramos Rosa
Jardim Sol
A lucidez é uma música da água
a respiração compreende sem imagens
Estamos dentro do incessante enigma
Somos a claridade do enigma
A facilidade é um rio
e um silêncio animal
Luz fácil
luz feliz
sol sem ruído jardim
sol
O caminho é uma pausa
o silêncio sem caminho
a respiração compreende sem imagens
Estamos dentro do incessante enigma
Somos a claridade do enigma
A facilidade é um rio
e um silêncio animal
Luz fácil
luz feliz
sol sem ruído jardim
sol
O caminho é uma pausa
o silêncio sem caminho
1 115
Fernando Pessoa
Quero ignorado, e calmo
Quero ignorado, e calmo
Por ignorado, e próprio
Por calmo, encher meus dias
De não querer mais deles.
Aos que a riqueza toca
O ouro irrita a pele.
Aos que a fama bafeja
Embacia-se a vida.
Aos que a felicidade
É sol, virá a noite.
Mas ao que nada espera
Tudo que vem é grato.
02/03/1933
Por ignorado, e próprio
Por calmo, encher meus dias
De não querer mais deles.
Aos que a riqueza toca
O ouro irrita a pele.
Aos que a fama bafeja
Embacia-se a vida.
Aos que a felicidade
É sol, virá a noite.
Mas ao que nada espera
Tudo que vem é grato.
02/03/1933
3 622
Fernando Pessoa
Quanto faças, supremamente faze.
Quanto faças, supremamente faz.
Mais vale, se a memória é quanto temos,
Lembrar muito que pouco.
E se o muito no pouco te é possível,
Mais ampla liberdade de lembrança
Te tornará teu dono.
27/02/1932
Mais vale, se a memória é quanto temos,
Lembrar muito que pouco.
E se o muito no pouco te é possível,
Mais ampla liberdade de lembrança
Te tornará teu dono.
27/02/1932
2 028
Fernando Pessoa
Tudo, desde ermos astros afastados
Tudo, desde ermos astros afastados
A nós, nos dá o mundo.
E a tudo, alheios, nos acrescentamos,
Pensando e interpretando.
A próxima erva a que não chega basta,
O que há é o melhor.
10/12/1931
A nós, nos dá o mundo.
E a tudo, alheios, nos acrescentamos,
Pensando e interpretando.
A próxima erva a que não chega basta,
O que há é o melhor.
10/12/1931
1 617
Fernando Pessoa
Domina ou cala. Não te percas, dando
Domina ou cala. Não te percas, dando
Aquilo que não tens.
Que vale o César que serias? Goza
Bastar-te o pouco que és.
Melhor te acolhe a vil choupana dada
Que o palácio devido.
27/09/1931
Aquilo que não tens.
Que vale o César que serias? Goza
Bastar-te o pouco que és.
Melhor te acolhe a vil choupana dada
Que o palácio devido.
27/09/1931
2 931
António Ramos Rosa
O Círculo da Casa
Sem te nomear e quase sem te ver, tu és o círculo
que me envolve quotidiano na sua luz pacífica.
Não te dissimulas, estás aqui, obliquamente
ao meu olhar, enquanto escrevo e em ti reparo.
A sabedoria simples seria estar em ti e onde estou
com todos os objectos calmos e as cores vivas
e a luz que em seus rectângulos é já presença
de quanto não sabemos e ainda esperamos.
O solo é um enigma simples, suave amêndoa
e é talvez o centro de um ser que se distrai.
Tácito é o amor que, sem o saber, é espaço
e adere à paz de um latente paraíso.
Aqui mesmo, sem pressa, é o gérmen e o aberto.
E o ócio e o sabor do mundo numa corrente sossegada.
que me envolve quotidiano na sua luz pacífica.
Não te dissimulas, estás aqui, obliquamente
ao meu olhar, enquanto escrevo e em ti reparo.
A sabedoria simples seria estar em ti e onde estou
com todos os objectos calmos e as cores vivas
e a luz que em seus rectângulos é já presença
de quanto não sabemos e ainda esperamos.
O solo é um enigma simples, suave amêndoa
e é talvez o centro de um ser que se distrai.
Tácito é o amor que, sem o saber, é espaço
e adere à paz de um latente paraíso.
Aqui mesmo, sem pressa, é o gérmen e o aberto.
E o ócio e o sabor do mundo numa corrente sossegada.
674
António Ramos Rosa
Mediadora da Coincidência
Escreve sobre paisagens de areia.
Conversa confiante com a pedra.
Solidária do sílex e dos campos
luminosos. Trabalha
nos flancos do mundo, na medula
obscura. Conhece os mínimos
movimentos, os íntimos
tecidos, a pupila,
o sexo da terra. Vibra
discreta e lancinante, espera
coincidir.
Conversa confiante com a pedra.
Solidária do sílex e dos campos
luminosos. Trabalha
nos flancos do mundo, na medula
obscura. Conhece os mínimos
movimentos, os íntimos
tecidos, a pupila,
o sexo da terra. Vibra
discreta e lancinante, espera
coincidir.
1 003
Fernando Pessoa
Ouvi contar que outrora, quando a Pérsia
Ouvi contar que outrora, quando a Pérsia
Tinha não sei qual guerra,
Quando a invasão ardia na Cidade
E as mulheres gritavam,
Dois jogadores de xadrez jogavam
O seu jogo contínuo.
À sombra de ampla árvore fitavam
O tabuleiro antigo,
E, ao lado de cada um, esperando os seus
Momentos mais folgados,
Quando havia movido a pedra, e agora
Esperava o adversário,
Um púcaro com vinho refrescava
Sobriamente a sua sede.
Ardiam casas, saqueadas eram
As arcas e as paredes,
Violadas, as mulheres eram postas
Contra os muros caídos,
Traspassadas de lanças, as crianças
Eram sangue nas ruas...
Mas onde estavam, perto da cidade,
E longe do seu ruído,
Os jogadores de xadrez jogavam
O jogo do xadrez.
Inda que nas mensagens do ermo vento
Lhes viessem os gritos,
E, ao reflectir, soubessem desde a alma
Que por certo as mulheres
E as tenras filhas violadas eram
Nessa distância próxima,
Inda que, no momento que o pensavam,
Uma sombra ligeira
Lhes passasse na fronte alheada e vaga,
Breve seus olhos calmos
Volviam sua atenta confiança
Ao tabuleiro velho.
Quando o rei de marfim está em perigo,
Que importa a carne e o osso
Das irmãs e das mães e das crianças?
Quando a torre não cobre
A retirada da rainha branca,
O saque pouco importa.
E quando a mão confiada leva o xeque
Ao rei do adversário,
Pouco pesa na alma que lá longe
Estejam morrendo filhos.
Mesmo que, de repente, sobre o muro
Surja a sanhuda face
Dum guerreiro invasor, e breve deva
Em sangue ali cair
O jogador solene de xadrez,
O momento antes desse
(É ainda dado ao cálculo dum lance
Pra a efeito horas depois)
É ainda entregue ao jogo predilecto
Dos grandes indif'rentes.
Caiam cidades, sofram povos, cesse
A liberdade e a vida,
Os haveres tranquilos e avitos
Ardem e que se arranquem,
Mas quando a guerra os jogos interrompa,
Esteja o rei sem xeque,
E o de marfim peão mais avançado
Pronto a comprar a torre.
Meus irmãos em amarmos Epicuro
E o entendermos mais
De acordo com nós-próprios que com ele,
Aprendamos na história
Dos calmos jogadores de xadrez
Como passar a vida.
Tudo o que é sério pouco nos importe,
O grave pouco pese,
O natural impulso dos instintos
Que ceda ao inútil gozo
(Sob a sombra tranquila do arvoredo)
De jogar um bom jogo.
O que levamos desta vida inútil
Tanto vale se é
A glória, a fama, o amor, a ciência, a vida,
Como se fosse apenas
A memória de um jogo bem jogado
E uma partida ganha
A um jogador melhor.
A glória pesa como um fardo rico,
A fama como a febre,
O amor cansa, porque é a sério e busca,
A ciência nunca encontra,
E a vida passa e dói porque o conhece...
O jogo do xadrez
Prende a alma toda, mas, perdido, pouco
Pesa, pois não é nada.
Ah! sob as sombras que sem qu'rer nos amam,
Com um púcaro de vinho
Ao lado, e atentos só à inútil faina
Do jogo do xadrez,
Mesmo que o jogo seja apenas sonho
E não haja parceiro,
Imitemos os persas desta história,
E, enquanto lá por fora,
Ou perto ou longe, a guerra e a pátria e a vida
Chamam por nós, deixemos
Que em vão nos chamem, cada um de nós
Sob as sombras amigas
Sonhando, ele os parceiros, e o xadrez
A sua indiferença.
01/06/1916
Tinha não sei qual guerra,
Quando a invasão ardia na Cidade
E as mulheres gritavam,
Dois jogadores de xadrez jogavam
O seu jogo contínuo.
À sombra de ampla árvore fitavam
O tabuleiro antigo,
E, ao lado de cada um, esperando os seus
Momentos mais folgados,
Quando havia movido a pedra, e agora
Esperava o adversário,
Um púcaro com vinho refrescava
Sobriamente a sua sede.
Ardiam casas, saqueadas eram
As arcas e as paredes,
Violadas, as mulheres eram postas
Contra os muros caídos,
Traspassadas de lanças, as crianças
Eram sangue nas ruas...
Mas onde estavam, perto da cidade,
E longe do seu ruído,
Os jogadores de xadrez jogavam
O jogo do xadrez.
Inda que nas mensagens do ermo vento
Lhes viessem os gritos,
E, ao reflectir, soubessem desde a alma
Que por certo as mulheres
E as tenras filhas violadas eram
Nessa distância próxima,
Inda que, no momento que o pensavam,
Uma sombra ligeira
Lhes passasse na fronte alheada e vaga,
Breve seus olhos calmos
Volviam sua atenta confiança
Ao tabuleiro velho.
Quando o rei de marfim está em perigo,
Que importa a carne e o osso
Das irmãs e das mães e das crianças?
Quando a torre não cobre
A retirada da rainha branca,
O saque pouco importa.
E quando a mão confiada leva o xeque
Ao rei do adversário,
Pouco pesa na alma que lá longe
Estejam morrendo filhos.
Mesmo que, de repente, sobre o muro
Surja a sanhuda face
Dum guerreiro invasor, e breve deva
Em sangue ali cair
O jogador solene de xadrez,
O momento antes desse
(É ainda dado ao cálculo dum lance
Pra a efeito horas depois)
É ainda entregue ao jogo predilecto
Dos grandes indif'rentes.
Caiam cidades, sofram povos, cesse
A liberdade e a vida,
Os haveres tranquilos e avitos
Ardem e que se arranquem,
Mas quando a guerra os jogos interrompa,
Esteja o rei sem xeque,
E o de marfim peão mais avançado
Pronto a comprar a torre.
Meus irmãos em amarmos Epicuro
E o entendermos mais
De acordo com nós-próprios que com ele,
Aprendamos na história
Dos calmos jogadores de xadrez
Como passar a vida.
Tudo o que é sério pouco nos importe,
O grave pouco pese,
O natural impulso dos instintos
Que ceda ao inútil gozo
(Sob a sombra tranquila do arvoredo)
De jogar um bom jogo.
O que levamos desta vida inútil
Tanto vale se é
A glória, a fama, o amor, a ciência, a vida,
Como se fosse apenas
A memória de um jogo bem jogado
E uma partida ganha
A um jogador melhor.
A glória pesa como um fardo rico,
A fama como a febre,
O amor cansa, porque é a sério e busca,
A ciência nunca encontra,
E a vida passa e dói porque o conhece...
O jogo do xadrez
Prende a alma toda, mas, perdido, pouco
Pesa, pois não é nada.
Ah! sob as sombras que sem qu'rer nos amam,
Com um púcaro de vinho
Ao lado, e atentos só à inútil faina
Do jogo do xadrez,
Mesmo que o jogo seja apenas sonho
E não haja parceiro,
Imitemos os persas desta história,
E, enquanto lá por fora,
Ou perto ou longe, a guerra e a pátria e a vida
Chamam por nós, deixemos
Que em vão nos chamem, cada um de nós
Sob as sombras amigas
Sonhando, ele os parceiros, e o xadrez
A sua indiferença.
01/06/1916
2 120
Fernando Pessoa
Quanta tristeza e amargura afoga
Quanta tristeza e amargura afoga
Em confusão a 'streita Vida! Quanto
Infortúnio mesquinho
Nos oprime supremo!
Feliz ou o bruto que nos verdes campos
Pasce, para si mesmo anónimo, e entra
Na morte como em casa;
Ou o sábio que, perdido
Na ciência, a fútil vida austera eleva
Além da nossa, como o fumo que ergue
Braços que se desfazem
A um céu inexistente.
13/06/1926 (Presença, nº 6, 18 de Julho de 1927)
Em confusão a 'streita Vida! Quanto
Infortúnio mesquinho
Nos oprime supremo!
Feliz ou o bruto que nos verdes campos
Pasce, para si mesmo anónimo, e entra
Na morte como em casa;
Ou o sábio que, perdido
Na ciência, a fútil vida austera eleva
Além da nossa, como o fumo que ergue
Braços que se desfazem
A um céu inexistente.
13/06/1926 (Presença, nº 6, 18 de Julho de 1927)
2 113
Fernando Pessoa
Frutos, dão-os as árvores que vivem,
Frutos, dão-nos as árvores que vivem,
Não a iludida mente, que só se orna
Das flores lívidas
Do íntimo abismo.
Quantos reinos nos seres e nas coisas
Te não talhaste imaginário! Quantos,
Com a charrua,
Sonhos, cidades!
Ah, não consegues contra o adverso muito
Criar mais que propósitos frustrados!
Abdica e sê
Rei de ti mesmo.
06/12/1926
Não a iludida mente, que só se orna
Das flores lívidas
Do íntimo abismo.
Quantos reinos nos seres e nas coisas
Te não talhaste imaginário! Quantos,
Com a charrua,
Sonhos, cidades!
Ah, não consegues contra o adverso muito
Criar mais que propósitos frustrados!
Abdica e sê
Rei de ti mesmo.
06/12/1926
3 176
Martha Medeiros
sou capaz dos gestos mais nobres
sou capaz dos gestos mais nobres
nem eu consigo me aceitar assim tão justa
chego a parecer loira, pálida e profunda
nada me detém, sou a dignidade em pessoa
ninguém diria que uma criatura como eu
pudesse ser tão boa, uma santa, uma alma
do outro mundo
mas se acordo atordoada, sou capaz de
armar um circo
solto fogo pelas ventas, não resmungo, grito mesmo
ninguém me aguenta, sou herege, estúpida,
ruim como o diabo
me escondo em qualquer beco, rabugenta
bem no fundo do buraco, a cara cheia de
olheiras
argh! que eu sou de lascar quando eu quero
haja paciência ou sabedoria
ou pouco caso ou em ego imenso
ou isso tudo
para enfrentar o céu e o inferno a cada
vinte minutos
nem eu consigo me aceitar assim tão justa
chego a parecer loira, pálida e profunda
nada me detém, sou a dignidade em pessoa
ninguém diria que uma criatura como eu
pudesse ser tão boa, uma santa, uma alma
do outro mundo
mas se acordo atordoada, sou capaz de
armar um circo
solto fogo pelas ventas, não resmungo, grito mesmo
ninguém me aguenta, sou herege, estúpida,
ruim como o diabo
me escondo em qualquer beco, rabugenta
bem no fundo do buraco, a cara cheia de
olheiras
argh! que eu sou de lascar quando eu quero
haja paciência ou sabedoria
ou pouco caso ou em ego imenso
ou isso tudo
para enfrentar o céu e o inferno a cada
vinte minutos
1 168
Fernando Pessoa
O que sentimos, não o que é sentido,
O que sentimos, não o que é sentido,
É o que temos. Claro, o Inverno triste
Como à sorte o acolhamos.
Haja Inverno na terra, não na mente.
E, amor a amor, ou livro a livro, amemos
Nossa caveira breve.
08/07/1930
É o que temos. Claro, o Inverno triste
Como à sorte o acolhamos.
Haja Inverno na terra, não na mente.
E, amor a amor, ou livro a livro, amemos
Nossa caveira breve.
08/07/1930
3 094
Fernando Pessoa
Atrás não torna, nem, como Orfeu, volve
Atrás não torna, nem, como Orfeu, volve
Sua face, Saturno.
Sua severa fronte reconhece
Só o lugar do futuro.
Não temos mais decerto que o instante
Em que o pensamos certo.
Não o pensemos, pois, mas o façamos
Certo sem pensamento.
31/05/1927
Sua face, Saturno.
Sua severa fronte reconhece
Só o lugar do futuro.
Não temos mais decerto que o instante
Em que o pensamos certo.
Não o pensemos, pois, mas o façamos
Certo sem pensamento.
31/05/1927
2 301
Martha Medeiros
companheiro tão distinto
companheiro tão distinto
meu querido e velho instinto
me conduz sempre sem pressa
nesse passo sempre certo que pressinto
meu querido e velho instinto
me conduz sempre sem pressa
nesse passo sempre certo que pressinto
1 076
Fernando Pessoa
Pesa o decreto atroz do fim certeiro.
Pesa o decreto atroz do fim certeiro.
Pesa a sentença igual do juiz ignoto
Em cada cerviz néscia. É entrudo e riem.
Felizes, porque neles pensa e sente
A vida, que não eles!
Se a ciência é vida, sábio é só o néscio.
Quão pouca diferença a mente interna
Do homem da dos brutos! Sus! Deixai
Brincar os moribundos!
De rosas, inda que de falsas teçam
Capelas veras. Breve e vão é o tempo
Que lhes é dado, e por misericórdia
Breve nem vão sentido.
20/02/1928
Pesa a sentença igual do juiz ignoto
Em cada cerviz néscia. É entrudo e riem.
Felizes, porque neles pensa e sente
A vida, que não eles!
Se a ciência é vida, sábio é só o néscio.
Quão pouca diferença a mente interna
Do homem da dos brutos! Sus! Deixai
Brincar os moribundos!
De rosas, inda que de falsas teçam
Capelas veras. Breve e vão é o tempo
Que lhes é dado, e por misericórdia
Breve nem vão sentido.
20/02/1928
2 035
Martha Medeiros
não tente chegar na hora marcada
não tente chegar na hora marcada
ele pode vir antes, ou chegar depois
o amor deixa sempre esperando
ele pode vir antes, ou chegar depois
o amor deixa sempre esperando
1 183
Martha Medeiros
mesmo tendo juízo
mesmo tendo juízo
não faço tudo certo
todo paraíso
precisa um pouco de inferno
não faço tudo certo
todo paraíso
precisa um pouco de inferno
603
Martha Medeiros
ah, mas é muito fácil escrever sobre o mar
ah, mas é muito fácil escrever sobre o mar
diria alguém que nunca viu o mar como eu vi
que já nem era azul de tão profundo
que nem deste mundo parecia ser
e que nenhum mergulho conseguiria descrever
ah, mas falar sobre os pássaros até eu
diria alguém que nunca voou nem em sonhos
e que enxerga os limites que inventa
pois não há limites no ar
e na terra quem ousa limitar não voa mais
ah, mas rimar amor e dor quantos fizeram
diria alguém que fez também sem reparar
e que no ato de amar não atentou
para os mistérios e os nocautes que só a vida
com sabedoria faz rimar
diria alguém que nunca viu o mar como eu vi
que já nem era azul de tão profundo
que nem deste mundo parecia ser
e que nenhum mergulho conseguiria descrever
ah, mas falar sobre os pássaros até eu
diria alguém que nunca voou nem em sonhos
e que enxerga os limites que inventa
pois não há limites no ar
e na terra quem ousa limitar não voa mais
ah, mas rimar amor e dor quantos fizeram
diria alguém que fez também sem reparar
e que no ato de amar não atentou
para os mistérios e os nocautes que só a vida
com sabedoria faz rimar
1 260
Carlos Drummond de Andrade
Esboço de Figura
Antonio Candido ou
Antônio lúcido, límpido,
que conhece e pratica a força imponderável da intuição?
Que funda o juízo crítico no gosto,
— o gosto que em vão se tenta anular, e permanece,
mesmo negado e ignorado, sal da percepção?
Antonio que não cinge a malha de gelo do formalismo
e, com movimentos livres e lépidos,
sente a pulsação culta da obra,
num enlace de simpatia literária?
Antonio a vislumbrar no poema
para além das palavras uma conquista do inexprimível
que elas não contêm
e diante da qual devem capitular?
Antonio atento às áreas de silêncio entre as palavras,
nelas distinguindo a misteriosa ressonância
do inexprimível afinal expressado,
fora do poema, pelo seu rastro?
Antonio a perceber no leitor consciente
um vaso novo, em que os cantos do poeta irão combinar-se
de um modo especial e quase único?
Arguto, sutil Antonio
a captar nos livros
a inteligência e o sentimento das aventuras do espírito,
ao mesmo tempo em que, no dia brasileiro,
desdenha provar os frutos da árvore da opressão
e, fugindo ao séquito dos poderosos do mundo,
acusa a transfiguração do homem em servil objeto do homem.
Assim é Antonio Candido, na altiva, discreta pureza
dos sessent’anos.
Antônio lúcido, límpido,
que conhece e pratica a força imponderável da intuição?
Que funda o juízo crítico no gosto,
— o gosto que em vão se tenta anular, e permanece,
mesmo negado e ignorado, sal da percepção?
Antonio que não cinge a malha de gelo do formalismo
e, com movimentos livres e lépidos,
sente a pulsação culta da obra,
num enlace de simpatia literária?
Antonio a vislumbrar no poema
para além das palavras uma conquista do inexprimível
que elas não contêm
e diante da qual devem capitular?
Antonio atento às áreas de silêncio entre as palavras,
nelas distinguindo a misteriosa ressonância
do inexprimível afinal expressado,
fora do poema, pelo seu rastro?
Antonio a perceber no leitor consciente
um vaso novo, em que os cantos do poeta irão combinar-se
de um modo especial e quase único?
Arguto, sutil Antonio
a captar nos livros
a inteligência e o sentimento das aventuras do espírito,
ao mesmo tempo em que, no dia brasileiro,
desdenha provar os frutos da árvore da opressão
e, fugindo ao séquito dos poderosos do mundo,
acusa a transfiguração do homem em servil objeto do homem.
Assim é Antonio Candido, na altiva, discreta pureza
dos sessent’anos.
1 248
Tomás Antônio Gonzaga
Lira V
Eu não sou, minha Nise, pegureiro,
que viva de guardar alheio gado;
nem sou pastor grosseiro,
dos frios gelos e do Sol queimado,
que veste as pardas lãs do seu cordeiro.
Graças, ó Nise bela,
graças à minha Estrela!
A Cresso não igualo no tesouro;
mas deu-me a sorte com que honrado viva.
Não cinjo coroa d'ouro;
mas Povos mando, e na testa altiva
verdeja a Coroa do Sagrado Louro.
Graças, ó Nise bela,
graças à minha Estrela!
Maldito seja aquele, que só trata
de contar, escondido, a vil riqueza,
que, cego, se arrebata
em buscar nos Avós a vã nobreza,
com que aos mais homens, seus iguais, abata.
Graças, ó Nise bela,
graças à minha Estrela!
As fortunas, que em torno de mim vejo,
por falsos bens, que enganam, não reputo;
mas antes mais desejo:
não para me voltar soberbo em bruto,
por ver-me grande, quando a mão te beijo.
Graças, ó Nise bela,
graças à minha Estrela!
Pela Ninfa, que jaz vertida em Louro,
o grande Deus Apolo não delira?
Jove, mudado em Touro
e já mudado em velha não suspira?
Seguir aos Deuses nunca foi desdouro.
Graças, ó Nise bela,
graças à minha Estrela!
Pretendam Anibais honrar a História,
e cinjam com a mão, de sangue cheia,
os louros da vitória;
eu revolvo os teus dons na minha idéia:
só dons que vêm do céu são minha glória
Graças, ó Nise bela,
graças à minha Estrela!
Publicado no livro Marília de Dirceu: Terceira Parte (1812).
In: GONZAGA, Tomás Antônio. Obras completas. Ed. crít. M. Rodrigues Lapa. São Paulo: Ed. Nacional, 1942. (Livros do Brasil, 5
que viva de guardar alheio gado;
nem sou pastor grosseiro,
dos frios gelos e do Sol queimado,
que veste as pardas lãs do seu cordeiro.
Graças, ó Nise bela,
graças à minha Estrela!
A Cresso não igualo no tesouro;
mas deu-me a sorte com que honrado viva.
Não cinjo coroa d'ouro;
mas Povos mando, e na testa altiva
verdeja a Coroa do Sagrado Louro.
Graças, ó Nise bela,
graças à minha Estrela!
Maldito seja aquele, que só trata
de contar, escondido, a vil riqueza,
que, cego, se arrebata
em buscar nos Avós a vã nobreza,
com que aos mais homens, seus iguais, abata.
Graças, ó Nise bela,
graças à minha Estrela!
As fortunas, que em torno de mim vejo,
por falsos bens, que enganam, não reputo;
mas antes mais desejo:
não para me voltar soberbo em bruto,
por ver-me grande, quando a mão te beijo.
Graças, ó Nise bela,
graças à minha Estrela!
Pela Ninfa, que jaz vertida em Louro,
o grande Deus Apolo não delira?
Jove, mudado em Touro
e já mudado em velha não suspira?
Seguir aos Deuses nunca foi desdouro.
Graças, ó Nise bela,
graças à minha Estrela!
Pretendam Anibais honrar a História,
e cinjam com a mão, de sangue cheia,
os louros da vitória;
eu revolvo os teus dons na minha idéia:
só dons que vêm do céu são minha glória
Graças, ó Nise bela,
graças à minha Estrela!
Publicado no livro Marília de Dirceu: Terceira Parte (1812).
In: GONZAGA, Tomás Antônio. Obras completas. Ed. crít. M. Rodrigues Lapa. São Paulo: Ed. Nacional, 1942. (Livros do Brasil, 5
3 798
Fernando Pessoa
Tornar-te-ás só quem tu sempre foste.
Tornar-te-ás só quem tu sempre foste.
O que te os deuses dão, dão no começo.
De uma só vez o Fado
Te dá o fado, que é um.
A pouco chega pois o esforço posto
Na medida da tua força nata –
A pouco, se não foste
Para mais concebido.
Contenta-te com seres quem não podes
Deixar de ser. Ainda te fica o vasto
Céu p'ra cobrir-te, e a terra,
Verde ou seca a seu tempo.
O fausto repudio, porque o compram.
O amor porque acontece.
Comigo fico, talvez não contente.
Porém nato e sem erro.
Eu não procuro o bem que me negaram.
As flores dos jardins herdadas de outros.
Como hão-de mais que perfumar de longe
Meu desejo de tê-las?
Não quero a fama, que comigo a têm
Eróstrato e o pretor
Ser olhado de todos – que se eu fosse
Só belo, me olhariam.
12/05/1921
O que te os deuses dão, dão no começo.
De uma só vez o Fado
Te dá o fado, que é um.
A pouco chega pois o esforço posto
Na medida da tua força nata –
A pouco, se não foste
Para mais concebido.
Contenta-te com seres quem não podes
Deixar de ser. Ainda te fica o vasto
Céu p'ra cobrir-te, e a terra,
Verde ou seca a seu tempo.
O fausto repudio, porque o compram.
O amor porque acontece.
Comigo fico, talvez não contente.
Porém nato e sem erro.
Eu não procuro o bem que me negaram.
As flores dos jardins herdadas de outros.
Como hão-de mais que perfumar de longe
Meu desejo de tê-las?
Não quero a fama, que comigo a têm
Eróstrato e o pretor
Ser olhado de todos – que se eu fosse
Só belo, me olhariam.
12/05/1921
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Carlos Drummond de Andrade
Alceu, Radiante Espelho
Lá se vai Alceu, voltado para o futuro,
para um sol de infinita duração.
Lá se vai Alceu, sem as melancolias do passado,
que para ele tinha a forma de um casarão azul,
e sem as ilusões adolescentes do progresso.
Julga-se ouvir no seu trânsito
os acordes da Sonata para piano e violino de César Frank,
que ele tanto amava.
Seu claro riso e humana compreensão e universal doçura
revelam que pensar não é triste.
Pensar é exercício de alegria
entre veredas de erro, cordilheiras de dúvida,
oceanos de perplexidade.
Pensar, ele o provou, abrange todos os contrastes,
como blocos de vida que é preciso polir e facetar
para a criação de pura imagem:
o ser restituído a si mesmo.
Contingência em busca de transcendência.
Lá se vai Alceu: as letras não o limitam
no paraíso de sensualidade das palavras
que substituem coisas e sentimentos,
diluindo o sangue de existir.
Para além das letras restam indícios mais luminosos
de uma insondável, solene realidade
de que muitos tentam aproximar-se
com a cegueira de seus pontos de vista
e a avidez da insatisfação.
Alceu chega bem perto do fogo incandescente
e não tem medo.
Sorri. Venceu o conformismo
com a classe, a carreira, a biografia.
Alceu, radiante espelho
de humildade e fortaleza entrelaçadas.
Não chora as ruínas da esperança.
Com elas faz uma esperança nova
de que a justiça não continue uma dor e um escândalo
de incrível raridade,
e sim atmosfera do ato de viver
em liberdade e comunhão.
Lá se vai Alceu, gentil presença,
convívio militante entre solidões de ideias
cada vez mais fechadas — e ele aberto
aos ventos do mundo, à decifração do lancinante
anseio de instituir a paz interior
no regaço da paz exterior:
anseio de homens
desencontrados, tontos, malferidos
no horror da vida escrava do azinhavre
de moedas viciadas no poder da Terra.
Alceu tão frágil no seu grande corpo
que não comanda os rumos da aventura,
mas adverte, ensina, faz o gesto
que anima a prosseguir e a procurar
a mais exata explicação do homem.
E lá se vai Alceu, servo de Deus,
servo do amor, que é cúmplice de Deus.
para um sol de infinita duração.
Lá se vai Alceu, sem as melancolias do passado,
que para ele tinha a forma de um casarão azul,
e sem as ilusões adolescentes do progresso.
Julga-se ouvir no seu trânsito
os acordes da Sonata para piano e violino de César Frank,
que ele tanto amava.
Seu claro riso e humana compreensão e universal doçura
revelam que pensar não é triste.
Pensar é exercício de alegria
entre veredas de erro, cordilheiras de dúvida,
oceanos de perplexidade.
Pensar, ele o provou, abrange todos os contrastes,
como blocos de vida que é preciso polir e facetar
para a criação de pura imagem:
o ser restituído a si mesmo.
Contingência em busca de transcendência.
Lá se vai Alceu: as letras não o limitam
no paraíso de sensualidade das palavras
que substituem coisas e sentimentos,
diluindo o sangue de existir.
Para além das letras restam indícios mais luminosos
de uma insondável, solene realidade
de que muitos tentam aproximar-se
com a cegueira de seus pontos de vista
e a avidez da insatisfação.
Alceu chega bem perto do fogo incandescente
e não tem medo.
Sorri. Venceu o conformismo
com a classe, a carreira, a biografia.
Alceu, radiante espelho
de humildade e fortaleza entrelaçadas.
Não chora as ruínas da esperança.
Com elas faz uma esperança nova
de que a justiça não continue uma dor e um escândalo
de incrível raridade,
e sim atmosfera do ato de viver
em liberdade e comunhão.
Lá se vai Alceu, gentil presença,
convívio militante entre solidões de ideias
cada vez mais fechadas — e ele aberto
aos ventos do mundo, à decifração do lancinante
anseio de instituir a paz interior
no regaço da paz exterior:
anseio de homens
desencontrados, tontos, malferidos
no horror da vida escrava do azinhavre
de moedas viciadas no poder da Terra.
Alceu tão frágil no seu grande corpo
que não comanda os rumos da aventura,
mas adverte, ensina, faz o gesto
que anima a prosseguir e a procurar
a mais exata explicação do homem.
E lá se vai Alceu, servo de Deus,
servo do amor, que é cúmplice de Deus.
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