Poemas neste tema
Sabedoria
José Tolentino Mendonça
Da verdade do amor
Da verdade do amor se meditam
relatos de viagens confissões
e sempre excede a vida
esse segredo que tanto desdém
guarda de ser dito
pouco importa em quantas derrotas
te lançou
as dores os naufrágios escondidos
com eles aprendeste a navegação
dos oceanos gelados
não se deve explicar demasiado cedo
atrás das coisas
o seu brilho cresce sem rumor
relatos de viagens confissões
e sempre excede a vida
esse segredo que tanto desdém
guarda de ser dito
pouco importa em quantas derrotas
te lançou
as dores os naufrágios escondidos
com eles aprendeste a navegação
dos oceanos gelados
não se deve explicar demasiado cedo
atrás das coisas
o seu brilho cresce sem rumor
2 452
Pablo Neruda
A Viagem
Lavrei na face de um rápido estio a cruz transparente
de um floco de neve, foi uma viagem para a desmesura:
os atos humanos fizeram as coisas mais altas do orbe
e ali com o frio de meu território e o mar retilíneo
cheguei, sem saber, nem poder, nem cantar, porque pesa o racimo da multidão.
Se diz ou disseram ou disse eu que o bardo barbudo e arbóreo
de Brooklin ou Camden, o ferido da secessão divisória,
vivia talvez em mim mesmo estendendo raízes ou espadas ou trigo
ou ferruginosas palavras envolvidas em cal e formosura:
talvez, disse, eu, sem orgulho, porque se determina vivendo
que de uma maneira chuvosa ou metálica a sabedoria
dispôs seguir existindo ou morrendo entre as criaturas terrestres
e porque não és tu, não sou eu quem recebe o encargo escondido
e sem ver nem saber continua crescendo muito mais,
muito mais que tua vida ou minha vida.
de um floco de neve, foi uma viagem para a desmesura:
os atos humanos fizeram as coisas mais altas do orbe
e ali com o frio de meu território e o mar retilíneo
cheguei, sem saber, nem poder, nem cantar, porque pesa o racimo da multidão.
Se diz ou disseram ou disse eu que o bardo barbudo e arbóreo
de Brooklin ou Camden, o ferido da secessão divisória,
vivia talvez em mim mesmo estendendo raízes ou espadas ou trigo
ou ferruginosas palavras envolvidas em cal e formosura:
talvez, disse, eu, sem orgulho, porque se determina vivendo
que de uma maneira chuvosa ou metálica a sabedoria
dispôs seguir existindo ou morrendo entre as criaturas terrestres
e porque não és tu, não sou eu quem recebe o encargo escondido
e sem ver nem saber continua crescendo muito mais,
muito mais que tua vida ou minha vida.
757
Pablo Neruda
XLI
Quanto dura um rinoceronte
depois de ser enternecido?
Que contam de novo as folhas
da recente primavera?
As folhas vivem no inverno
em segredo, com as raízes?
Que aprendeu a árvore da terra
para conversar com o céu?
depois de ser enternecido?
Que contam de novo as folhas
da recente primavera?
As folhas vivem no inverno
em segredo, com as raízes?
Que aprendeu a árvore da terra
para conversar com o céu?
1 141
Gregório de Matos
Ao Braço do Mesmo Menino Jesus Quando Appareceo
O todo sem a parte não é todo,
A parte sem o todo não é parte,
Mas se a parte o faz todo, sendo parte,
Não se diga, que é parte, sendo todo.
Em todo o Sacramento está Deus todo,
E todo assiste inteiro em qualquer parte,
E feito em partes todo em toda a parte,
Em qualquer parte sempre fica o todo.
O braço de Jesus não seja parte,
Pois que feito Jesus em partes todo,
Assiste cada parte em sua parte.
Não se sabendo parte deste todo,
Um braço, que lhe acharam, sendo parte,
Nos disse as partes todas deste todo.
A parte sem o todo não é parte,
Mas se a parte o faz todo, sendo parte,
Não se diga, que é parte, sendo todo.
Em todo o Sacramento está Deus todo,
E todo assiste inteiro em qualquer parte,
E feito em partes todo em toda a parte,
Em qualquer parte sempre fica o todo.
O braço de Jesus não seja parte,
Pois que feito Jesus em partes todo,
Assiste cada parte em sua parte.
Não se sabendo parte deste todo,
Um braço, que lhe acharam, sendo parte,
Nos disse as partes todas deste todo.
1 904
Otávio Ramos
O Gato
O gato é a peça mais instigante do jogo de xadrez.
Metafísico, despreocupadamente cônscio da altivez de seu
próprio corpo, se espreguiça no tabuleiro ou salta, felino,
pela tela do microcomputador.
O homem é o homem; o gato é um bicho.
À pertinaz burrice das torres.
Ao jogo político dos bispos. Está o gato.
O leve ronronar da fera que näo foi.
És catorze, gato. Quatorze.
Velho sábio chinês.
Piras com maconha, gato. Educada, tua áspera língua lambe
no pires o leite.
Malandro é o gato.
Mias, mias, mias.
Ritmo é o que te liga à vida.
(1990)
Metafísico, despreocupadamente cônscio da altivez de seu
próprio corpo, se espreguiça no tabuleiro ou salta, felino,
pela tela do microcomputador.
O homem é o homem; o gato é um bicho.
À pertinaz burrice das torres.
Ao jogo político dos bispos. Está o gato.
O leve ronronar da fera que näo foi.
És catorze, gato. Quatorze.
Velho sábio chinês.
Piras com maconha, gato. Educada, tua áspera língua lambe
no pires o leite.
Malandro é o gato.
Mias, mias, mias.
Ritmo é o que te liga à vida.
(1990)
1 179
Pêro de Andrade Caminha
Epístola XVIII
Queixo-me, douro Andrade, duns indoutos
Que o que às vezes lêem mal, pior entendem,
Querem julgar como se fossem doutos.
Tão facilmente a seu gosto repreendem
As vigílias alheias, que eu me espanto
Como eles de si mesmos não se ofendem.
O verso ou mau ou bom, o escrito, ou canto
Que o espírito custa estudo, e tempo, e lima
Julgam como que não custassem tanto.
A livre prosa ou obrigada rima
Por seu juízo e só entendimento
Assim a têm em desprezo, assim em estima.
Se lhes perguntas pelo fundamento,
Respondem só, que bem não lhes parece.
Querem que obrigue o seu contentamento.
Que me dizes, Francisco, a quem conhece
O mundo por tão raro, e em cujo espírito
Apolo claramente se enriquece?
Com quais julgas que deve ser escrito
Aquele de juízo tão ousado,
Que quer assim julgar o alheio escrito?
O sisudo, o prudente, o atentado,
O douto, antes que julgue tudo atenta,
Por não ser seu juízo mal julgado.
Ante os olhos primeiro representa
A obrigação do verso, e a natureza,
Vê se ofende a invenção, ou se contenta.
Com livre espírito nota, e com pureza
Os conceitos, as frases, as figuras,
E se na língua tem cópia ou pobreza.
Se as palavras são próprias, se são puras,
Se as busca claras para o que pretende,
Ou se ásperas, difíciles, e escuras.
O decoro se o guarda, ou se o entende,
E se matéria é bem ou mal seguida,
Se abranda, ou afeiçoa, ou move, e acende.
Se toma imitação bem escolhida,
Se o estilo é sempre grave, ou sempre brando,
Se a sentença a bom tempo, ou mau trazida.
Se se vai longamente dilatando,
Ou se diz o que quer tão brevemente
Que ou não se entende bem, ou vai cansando.
Quem tudo isto, Francisco, nota, e sente
Com claríssimo juízo, e peito puro,
E o mais que enjeita a musa, e o que consente;
Julgue, ria, repreenda, e este seguro
Que deve inteiramente de ser crido,
E eu, destes sós espíritos trato, e curo.
Destes quero ser antes repreendido,
Destes como tu és, ó raro Andrade,
Que dos outros louvado e recebido.
Aprende-se com estes a verdade
Do que Apolo promete, e a musa ensina,
A quem dá a repreensão autoridade.
O espírito que não voa, nem atina
O bem, ou mal do que se canta, e escreve,
Quando bem, ou mal julga desatina.
Se dá razão, mais fria a dá que neve,
Sem fundamento louva, e assim reprova,
Quem em juízo apressado à razão leve.
A repreensão no mundo não é nova,
Mas quem melhor entende, mais de espaço
O mau repreende, ou o melhor aprova.
Têm as línguas agudas mais que daço
Estes que querem ser graves censores,
Se lhes armas, caem logo em qualquer laço.
Juízos vãos, indoutos repreensores,
Não sofrem musas ser assim tratadas,
Nem recebem de vós inda louvores.
Tende-os guardados, tende bem guardadas
As leves repreensões que usais em tudo,
Para as coisas das musas não tocadas.
Sem elas todo peito há de mudo,
E raríssimo aquele, antes só, peito
Que não se deva ant elas chamar rudo.
Seja meu verso, sem nenhum respeito
Daqueles, a que Febo maior parte
Tem de si dado, ou repreendido, ou aceito.
Seja de ti, Francisco, que guardar-te
Quis par honra da musa portuguesa,
E para entre os mais raros mais mostrar-te.
Tu segue confiado aquela empresa
Que tão felicemente começaste,
Segue-a com pronto espírito, e alma acesa,
A vitória Caríssima que achaste,
Digna do raro engenho que em tudo usas,
E usaste sempre em tudo o que cantaste;
Confiado em teu conselho, e no das musas
A segue, e em tua lima, e espírito claro,
E assim mais haverá espantos que escusas
Em teu verso, e em teu canto douto e raro.
Que o que às vezes lêem mal, pior entendem,
Querem julgar como se fossem doutos.
Tão facilmente a seu gosto repreendem
As vigílias alheias, que eu me espanto
Como eles de si mesmos não se ofendem.
O verso ou mau ou bom, o escrito, ou canto
Que o espírito custa estudo, e tempo, e lima
Julgam como que não custassem tanto.
A livre prosa ou obrigada rima
Por seu juízo e só entendimento
Assim a têm em desprezo, assim em estima.
Se lhes perguntas pelo fundamento,
Respondem só, que bem não lhes parece.
Querem que obrigue o seu contentamento.
Que me dizes, Francisco, a quem conhece
O mundo por tão raro, e em cujo espírito
Apolo claramente se enriquece?
Com quais julgas que deve ser escrito
Aquele de juízo tão ousado,
Que quer assim julgar o alheio escrito?
O sisudo, o prudente, o atentado,
O douto, antes que julgue tudo atenta,
Por não ser seu juízo mal julgado.
Ante os olhos primeiro representa
A obrigação do verso, e a natureza,
Vê se ofende a invenção, ou se contenta.
Com livre espírito nota, e com pureza
Os conceitos, as frases, as figuras,
E se na língua tem cópia ou pobreza.
Se as palavras são próprias, se são puras,
Se as busca claras para o que pretende,
Ou se ásperas, difíciles, e escuras.
O decoro se o guarda, ou se o entende,
E se matéria é bem ou mal seguida,
Se abranda, ou afeiçoa, ou move, e acende.
Se toma imitação bem escolhida,
Se o estilo é sempre grave, ou sempre brando,
Se a sentença a bom tempo, ou mau trazida.
Se se vai longamente dilatando,
Ou se diz o que quer tão brevemente
Que ou não se entende bem, ou vai cansando.
Quem tudo isto, Francisco, nota, e sente
Com claríssimo juízo, e peito puro,
E o mais que enjeita a musa, e o que consente;
Julgue, ria, repreenda, e este seguro
Que deve inteiramente de ser crido,
E eu, destes sós espíritos trato, e curo.
Destes quero ser antes repreendido,
Destes como tu és, ó raro Andrade,
Que dos outros louvado e recebido.
Aprende-se com estes a verdade
Do que Apolo promete, e a musa ensina,
A quem dá a repreensão autoridade.
O espírito que não voa, nem atina
O bem, ou mal do que se canta, e escreve,
Quando bem, ou mal julga desatina.
Se dá razão, mais fria a dá que neve,
Sem fundamento louva, e assim reprova,
Quem em juízo apressado à razão leve.
A repreensão no mundo não é nova,
Mas quem melhor entende, mais de espaço
O mau repreende, ou o melhor aprova.
Têm as línguas agudas mais que daço
Estes que querem ser graves censores,
Se lhes armas, caem logo em qualquer laço.
Juízos vãos, indoutos repreensores,
Não sofrem musas ser assim tratadas,
Nem recebem de vós inda louvores.
Tende-os guardados, tende bem guardadas
As leves repreensões que usais em tudo,
Para as coisas das musas não tocadas.
Sem elas todo peito há de mudo,
E raríssimo aquele, antes só, peito
Que não se deva ant elas chamar rudo.
Seja meu verso, sem nenhum respeito
Daqueles, a que Febo maior parte
Tem de si dado, ou repreendido, ou aceito.
Seja de ti, Francisco, que guardar-te
Quis par honra da musa portuguesa,
E para entre os mais raros mais mostrar-te.
Tu segue confiado aquela empresa
Que tão felicemente começaste,
Segue-a com pronto espírito, e alma acesa,
A vitória Caríssima que achaste,
Digna do raro engenho que em tudo usas,
E usaste sempre em tudo o que cantaste;
Confiado em teu conselho, e no das musas
A segue, e em tua lima, e espírito claro,
E assim mais haverá espantos que escusas
Em teu verso, e em teu canto douto e raro.
657
Orides Fontela
Hamlet
...mais filosofias
que coisas !
que coisas !
1 370
Pablo Neruda
XXIX
Que distância em metros redondos
há entre o sol e as laranjas?
Quem desperta o sol quando dorme
sobre sua cama abrasadora?
Canta a terra como um grilo
entre a música celeste?
É mesmo ampla a tristeza
e tênue a melancolia?
há entre o sol e as laranjas?
Quem desperta o sol quando dorme
sobre sua cama abrasadora?
Canta a terra como um grilo
entre a música celeste?
É mesmo ampla a tristeza
e tênue a melancolia?
1 051
Pablo Neruda
LXXII
Se todos os rios são doces
de onde tira sal o mar?
Como sabem as estações
que devem mudar de camisa?
Por que tão lentas no inverno
e tão palpitantes depois?
E como sabem as raízes
que devem subir para a luz?
Sempre é a mesma primavera
a que repete seu papel?
E logo saudar o ar
com tantas flores e cores?
de onde tira sal o mar?
Como sabem as estações
que devem mudar de camisa?
Por que tão lentas no inverno
e tão palpitantes depois?
E como sabem as raízes
que devem subir para a luz?
Sempre é a mesma primavera
a que repete seu papel?
E logo saudar o ar
com tantas flores e cores?
1 040
Pablo Neruda
LXIV
Por que minha roupa desbotada
se agita como uma bandeira?
Sou um malvado alguma vez
ou todas as vezes sou bom?
É a bondade que se aprende
ou a máscara da bondade?
Não é branca a roseira do malvado
e negras as flores do bem?
Quem dá os nomes e os números
ao inocente inumerável?
se agita como uma bandeira?
Sou um malvado alguma vez
ou todas as vezes sou bom?
É a bondade que se aprende
ou a máscara da bondade?
Não é branca a roseira do malvado
e negras as flores do bem?
Quem dá os nomes e os números
ao inocente inumerável?
1 108
Pablo Neruda
VIII
O que é que irrita os vulcões
que cospem fogo, frio e fúria?
Por que Cristóvão Colombo
não pôde descobrir a Espanha?
Quantas perguntas tem um gato?
As lágrimas que não se choram
esperam em pequenos lagos?
Ou serão rios invisíveis
que escorrem até a tristeza?
que cospem fogo, frio e fúria?
Por que Cristóvão Colombo
não pôde descobrir a Espanha?
Quantas perguntas tem um gato?
As lágrimas que não se choram
esperam em pequenos lagos?
Ou serão rios invisíveis
que escorrem até a tristeza?
586
1
Carlos Nóbrega
Discurso do Tempo
se a pressa iguala
o santo à fera
espera.
Não peça à pressa insana
faça-se, Quimera.
Nem pense que o porvir
será de pura primavera
pois que ao nascer a flor em si se desinteira.
Por isso o tempo passava
antes dos relógios
e era maior
quanto selvagem era.
o santo à fera
espera.
Não peça à pressa insana
faça-se, Quimera.
Nem pense que o porvir
será de pura primavera
pois que ao nascer a flor em si se desinteira.
Por isso o tempo passava
antes dos relógios
e era maior
quanto selvagem era.
845
Carlos Nóbrega
O Século Seguinte
eis o tempo
da profunda busca
Em que se busca
o que já está nas mãos
da profunda busca
Em que se busca
o que já está nas mãos
881
Olympia Mahu
Mamãe
Viver é uma luta constatnte
Um desafio, a cada instante
Desafios de vida e de sobrvivência
Em embates de angústias, de felicidades...
E tu, mamãe
Oitenta anos de lutas
De bravas lutas...
Tua vida foi sempre uma constante batalha
Um exemplo gratificante de tenacidade,
De aplicação, determinação e paciência,
Muita paciência...
Lembro-me muito bem de tuas lutas
Como mãe, trabalhadora, cidadã.
Deixando em cada uma delas a tua marca,
De garra e resignação.
Como fiel da balança
Trazias sempre o equilíbrio
Com o teu sábio silêncio...
Cada dia mais eu te admiro
Ao te lembrar em exemplos singelos
Tão ricos de sabedoria.
Sei que muitas vezes erraste,
Assim, aprimoravas a vida...
Mas, tenho cereteza,
Erraste pouco
Para os muitos desafios que enfrentaste...
Olimpya Mahu, 10/09/94
Um desafio, a cada instante
Desafios de vida e de sobrvivência
Em embates de angústias, de felicidades...
E tu, mamãe
Oitenta anos de lutas
De bravas lutas...
Tua vida foi sempre uma constante batalha
Um exemplo gratificante de tenacidade,
De aplicação, determinação e paciência,
Muita paciência...
Lembro-me muito bem de tuas lutas
Como mãe, trabalhadora, cidadã.
Deixando em cada uma delas a tua marca,
De garra e resignação.
Como fiel da balança
Trazias sempre o equilíbrio
Com o teu sábio silêncio...
Cada dia mais eu te admiro
Ao te lembrar em exemplos singelos
Tão ricos de sabedoria.
Sei que muitas vezes erraste,
Assim, aprimoravas a vida...
Mas, tenho cereteza,
Erraste pouco
Para os muitos desafios que enfrentaste...
Olimpya Mahu, 10/09/94
862
Paulo Leminski
Aço e Flor
Quem nunca viu
que a flor, a faca e a fera
tanto fez como tanto faz,
e a forte flor que a faca faz
na fraca carne,
um pouco menos, um pouco mais,
quem nunca viu
a ternura que vai
no fio da lâmina samurai,
esse, nunca vai ser capaz.
que a flor, a faca e a fera
tanto fez como tanto faz,
e a forte flor que a faca faz
na fraca carne,
um pouco menos, um pouco mais,
quem nunca viu
a ternura que vai
no fio da lâmina samurai,
esse, nunca vai ser capaz.
4 233
Edimilson de Almeida Pereira
Míticos
O tempo é nossa matéria.
Os livros, em sua quietude,
nos preservam.
Trazemos risos sem autores
e sabedorias ocultas.
Continuamos, olhos ardentes,
quando até o tempo descuidou-se.
Publicado no livro Corpo imprevisto & Margem dos nomes (1989). Poema integrante da série Margem dos Nomes.
In: PEREIRA, Edimilson de Almeida. Corpo vivido: reunião poética. Juiz de Fora: Ed. D'Lira; Belo Horizonte: Mazza Ed., 1992. p.88
NOTA: Referência aos versos [O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,/ a vida presente.], do poema "Mãos Dadas", do livro SENTIMENTO DO MUNDO (1940), e ao poema "Procura da Poesia", do livro A ROSA DO POVO, de Carlos Drummond de Andrad
Os livros, em sua quietude,
nos preservam.
Trazemos risos sem autores
e sabedorias ocultas.
Continuamos, olhos ardentes,
quando até o tempo descuidou-se.
Publicado no livro Corpo imprevisto & Margem dos nomes (1989). Poema integrante da série Margem dos Nomes.
In: PEREIRA, Edimilson de Almeida. Corpo vivido: reunião poética. Juiz de Fora: Ed. D'Lira; Belo Horizonte: Mazza Ed., 1992. p.88
NOTA: Referência aos versos [O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,/ a vida presente.], do poema "Mãos Dadas", do livro SENTIMENTO DO MUNDO (1940), e ao poema "Procura da Poesia", do livro A ROSA DO POVO, de Carlos Drummond de Andrad
1 160
Sophia de Mello Breyner Andresen
Perfeito É Não Quebrar
Perfeito é não quebrar
A imaginária linha
Exacta é a recusa
E puro é o nojo.
A imaginária linha
Exacta é a recusa
E puro é o nojo.
2 282
Pedro Marato
Voto
Corrompe-te um vício de humanidade.
Se teu verso repousar na pedra,
Na cúpula do tempo ressoar,
Gradua-lhe o tom de eternidade,
Em poeira de renúncia.
Se de humano o vício suplantares,
Implanta essa avareza
no gesto sem afago e cruel,
pois é necessário roubar ao convívio,
todo o traço de intimidade.
Hostil já não reputes
o veio corrosivo da cal,
no ardor de seu repouso sobre a pele.
A indolência da bondade
faz tombar as lágrimas,
úteis à higiene de teu rosto.
Se teu verso repousar na pedra,
Na cúpula do tempo ressoar,
Gradua-lhe o tom de eternidade,
Em poeira de renúncia.
Se de humano o vício suplantares,
Implanta essa avareza
no gesto sem afago e cruel,
pois é necessário roubar ao convívio,
todo o traço de intimidade.
Hostil já não reputes
o veio corrosivo da cal,
no ardor de seu repouso sobre a pele.
A indolência da bondade
faz tombar as lágrimas,
úteis à higiene de teu rosto.
744
Israel Correia
Sabedoria, Idade e Vida
Precoce cansaço do assédio dos fracos
E dos agudos latidos em torno da caravana
Cometo crime sensato buscando o nirvana
Abandonando de vez a loucura dos palcos
Nada a ser provado. Pois na solidão existo.
Sabedoria chega quando o calvário ferra
Necessária é a dor da coroa de espinhos
Ao judeu despercebido do que ela revela
Assim, idade perfeita estes trinta e três
Tenho anos nesta vida pela última vez
Nunca fui o fruto duma só semente
Nunca a mesma terra, nunca a mesma gente
Povo que doravante não vê, não ouve, não fala
Massa inanimada, só consente e cala!
E dos agudos latidos em torno da caravana
Cometo crime sensato buscando o nirvana
Abandonando de vez a loucura dos palcos
Nada a ser provado. Pois na solidão existo.
Sabedoria chega quando o calvário ferra
Necessária é a dor da coroa de espinhos
Ao judeu despercebido do que ela revela
Assim, idade perfeita estes trinta e três
Tenho anos nesta vida pela última vez
Nunca fui o fruto duma só semente
Nunca a mesma terra, nunca a mesma gente
Povo que doravante não vê, não ouve, não fala
Massa inanimada, só consente e cala!
483
Paulo F. Cunha
Ora Danem-se
Que importa que me digam
liso , pobre , feio ou chato
se sei que sou , talvez
o contrário de tudo
e dono de mim mesmo ?
Que me importa que se vão
pessoas , coisas e cargos
se eu ( e meus olhos ) ficamos ?
Os outros , ora os outros
são apenas cegos falantes
e eu não sou guia de cegos
pois com eles - meu defeito ? -
não tenho a menor paciência ,
nem necessito dos seus olhos ,
pois só vejo com os meus
e com os de quem vale a pena.
O mundo é maior que isso
e ( principalmente ) o futuro também.
as coisas pequenas passam .
As em verdade grandes
que os cegos e parados não vêm ,
ficam , ou melhor , frutificam.
Quero comer agora estes frutos
para não sentirsaudades mais tarde
liso , pobre , feio ou chato
se sei que sou , talvez
o contrário de tudo
e dono de mim mesmo ?
Que me importa que se vão
pessoas , coisas e cargos
se eu ( e meus olhos ) ficamos ?
Os outros , ora os outros
são apenas cegos falantes
e eu não sou guia de cegos
pois com eles - meu defeito ? -
não tenho a menor paciência ,
nem necessito dos seus olhos ,
pois só vejo com os meus
e com os de quem vale a pena.
O mundo é maior que isso
e ( principalmente ) o futuro também.
as coisas pequenas passam .
As em verdade grandes
que os cegos e parados não vêm ,
ficam , ou melhor , frutificam.
Quero comer agora estes frutos
para não sentirsaudades mais tarde
859
Paulo F. Cunha
Insônia
Tanta insônia, tanta ,
o relógio passando eu ficando
que eu nem sabia para que
servia minha insônia.
Mas agora sei! Para que
encontre a multidão
que vive dentro de mim.
Noites silentes, tardias, cansadas,
que batiam à porta
do meu corpo.
E eu, ignaro a detestá-las
tanto quanto, agora, passo a amá-las
Não mais o “nhec-nhec”
das opiniões pre-fabricadas
pobres, secas, estioladas,
de quem não entende nada
da vida, das coisas, da gente.
Pensar que sabe :
eis a primeira e a ultima
ilusão do beócio que
repete o que lhe disseram,
sofre o que lhe fizeram,
e nunca chega a entender
que a pensar não pode pretender,
pois pensar é coisa de gente
gente que vê, lá na frente .
Pois mente demais o que pensa
que o que pensa é verdadeiro.
Mas só agora eu soube
que a insônia é meu dom
Não fosse ela eu jamais saberia
e que aquilo que tanto combatia,
era, na verdade , o que eu queria.
o relógio passando eu ficando
que eu nem sabia para que
servia minha insônia.
Mas agora sei! Para que
encontre a multidão
que vive dentro de mim.
Noites silentes, tardias, cansadas,
que batiam à porta
do meu corpo.
E eu, ignaro a detestá-las
tanto quanto, agora, passo a amá-las
Não mais o “nhec-nhec”
das opiniões pre-fabricadas
pobres, secas, estioladas,
de quem não entende nada
da vida, das coisas, da gente.
Pensar que sabe :
eis a primeira e a ultima
ilusão do beócio que
repete o que lhe disseram,
sofre o que lhe fizeram,
e nunca chega a entender
que a pensar não pode pretender,
pois pensar é coisa de gente
gente que vê, lá na frente .
Pois mente demais o que pensa
que o que pensa é verdadeiro.
Mas só agora eu soube
que a insônia é meu dom
Não fosse ela eu jamais saberia
e que aquilo que tanto combatia,
era, na verdade , o que eu queria.
724
Ivan Junqueira
Palimpsesto
A Antônio Carlos Secchin
Eu vi um sábio numa esfera,
os olhos postos sobre os dédalos
de um hermético palimpsesto,
tatear as letras e as hipérboles
de um antiqüíssimo alfabeto.
Sob a grafia seca e austera
algo aflorava, mais secreto,
por entre grifos e quimeras,
como se um código babélico
em suas runas contivesse
tudo o que ali, durante séculos,
houvesse escrito a mão terrestre.
Sabia o sábio que o mistério
jamais emerge à flor da pele;
por isso, aos poucos, a epiderme
daquele códice amarelo
ia arrancando como pétalas
e, por debaixo, outros arquétipos
se articulavam, claras vértebras
de um esqueleto mais completo.
Sabia mais: que o que se escreve,
com a sinistra ou com a destra,
uma outra mão o faz na véspera,
e que o artista, em sua inépcia,
somente o crê quando o reescreve.
Depois tangeu, em tom profético:
"Nunca busqueis nessa odisséia
senão o anzol daquele nexo
que fisga o presente e o pretérito
entre os corais do palimpsesto."
E para espanto de um intérprete
que lhe bebia o mel do verbo,
pôs-se a brincar, dentro da esfera,
com duendes, górgonas e insetos.
Eu vi um sábio numa esfera,
os olhos postos sobre os dédalos
de um hermético palimpsesto,
tatear as letras e as hipérboles
de um antiqüíssimo alfabeto.
Sob a grafia seca e austera
algo aflorava, mais secreto,
por entre grifos e quimeras,
como se um código babélico
em suas runas contivesse
tudo o que ali, durante séculos,
houvesse escrito a mão terrestre.
Sabia o sábio que o mistério
jamais emerge à flor da pele;
por isso, aos poucos, a epiderme
daquele códice amarelo
ia arrancando como pétalas
e, por debaixo, outros arquétipos
se articulavam, claras vértebras
de um esqueleto mais completo.
Sabia mais: que o que se escreve,
com a sinistra ou com a destra,
uma outra mão o faz na véspera,
e que o artista, em sua inépcia,
somente o crê quando o reescreve.
Depois tangeu, em tom profético:
"Nunca busqueis nessa odisséia
senão o anzol daquele nexo
que fisga o presente e o pretérito
entre os corais do palimpsesto."
E para espanto de um intérprete
que lhe bebia o mel do verbo,
pôs-se a brincar, dentro da esfera,
com duendes, górgonas e insetos.
1 522
João Álvares Soares
Soneto
Com troféu sempre augusto, e relevante
Se vence a si quem nunca foi vencido;
Que a vencer a Alexandre é bem sabido
Só Alexandre pode ser bastante
De todos vencedor sempre triunfante,
Para alcançar renome mais subido,
Deixa-se a si de si mesmo rendido
Vencendo a quem venceu sempre arrogante.
Modesto, continente, e recatado
Se absteve de Cupido ao tenro pranto
E sem ver deixa ao Cego desarmado:
Assim vence com digno e novo espanto,
A Marte, quando encara o rosto irado,
A Vênus, quando evita o doce encanto.
Se vence a si quem nunca foi vencido;
Que a vencer a Alexandre é bem sabido
Só Alexandre pode ser bastante
De todos vencedor sempre triunfante,
Para alcançar renome mais subido,
Deixa-se a si de si mesmo rendido
Vencendo a quem venceu sempre arrogante.
Modesto, continente, e recatado
Se absteve de Cupido ao tenro pranto
E sem ver deixa ao Cego desarmado:
Assim vence com digno e novo espanto,
A Marte, quando encara o rosto irado,
A Vênus, quando evita o doce encanto.
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José Eduardo Mendes Camargo
Aprendendo
Aprender, às vezes, é muito fácil,
basta ouvir uma canção.
Outras vezes, é muito difícil,
só levando um safanão.
Aprender, por vezes, na badalação,
em outras vezes, na solidão.
Aprender, por vezes, na conversação,
em outras vezes, na meditação.
E eu quero morrer aprendendo.
basta ouvir uma canção.
Outras vezes, é muito difícil,
só levando um safanão.
Aprender, por vezes, na badalação,
em outras vezes, na solidão.
Aprender, por vezes, na conversação,
em outras vezes, na meditação.
E eu quero morrer aprendendo.
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