Sabedoria
Bento Prado Júnior
Como se engana o século presente
cuja atenção se volta para fora,
nesse obstante afã que se demora
na só preocupação do mundo ambiente!
Não percebe que o objeto que enamora
não é a realidade que pressente,
mas ilusão falaz que aos olhos mente
e, como o tempo, assim se vai embora.
Mais feliz e mais sábio, com certeza,
quem, ao lume do espírito, investiga
os arcanos do ser, região secreta,
onde o que busca, encontra, na pureza
da alma que, presa ao tempo, se castiga,
mas, em Deus, se liberta e se completa!
Fernando Pessoa
GAZETILHA
Dos Lloyd Georges da Babilónia
Não reza a história nada.
Dos Briands da Assíria ou do Egipto,
Dos Trotskys de qualquer colónia
Grega ou romana já passada,
O nome é morto, inda que escrito.
Só o parvo dum poeta, ou um louco
Que fazia filosofia,
Ou um geómetra maduro,
Sobrevive a esse tanto pouco
Que está lá para trás no escuro
E nem a história já historia.
Ó grandes homens do Momento!
Ó grandes glórias a ferver
De quem a obscuridade foge!
Aproveitem sem pensamento!
Tratem da fama e do comer,
Que amanhã é dos loucos de hoje!
(publicado na Presença, nº 18, Janeiro de 1929)
Manuel António Pina
Algumas coisas
e sob a sua eternidade fica
só a memória do esquecimento de tudo;
também o silêncio de aquele que fala se calará.
Quem fala de estas
coisas e de falar de elas
foge para o puro esquecimento
fora da cabeça e de si.
O que existe falta
sob a eternidade;
saber é esquecer, e
esta é a sabedoria e o esquecimento.
Manuel António Pina | "Todas as palavras" | Poesia reunida; Ed. Assírio & Alvim, 2012
Fernando Pessoa
Mestre, meu mestre querido!
Coração do meu corpo intelectual e inteiro!
Vida da origem da minha inspiração!
Mestre, que é feito de ti nesta forma de vida?
Não cuidaste se morrerias, se viverias, nem de ti nem de nada.
Alma abstracta e visual até aos ossos,
Atenção maravilhosa ao mundo exterior sempre múltiplo,
Refúgio das saudades de todos os deuses antigos,
Espírito humano da terra materna,
Flor acima do dilúvio da inteligência subjectiva...
Mestre, meu mestre!
Na angústia sensacionista de todos os dias sentidos,
Na mágoa quotidiana das matemáticas de ser,
Eu, escravo de tudo como um pó de todos os ventos,
Ergo as mãos para ti, que estás longe, tão longe de mim!
Meu mestre e meu guia!
A quem nenhuma coisa feriu, nem doeu, nem perturbou,
Seguro como um sol fazendo o seu dia involuntariamente,
Natural como um dia mostrando tudo,
Meu mestre, meu coração não aprendeu a tua serenidade.
Meu coração não aprendeu nada.
Meu coração não é nada,
Meu coração está perdido.
Mestre, só seria como tu se tivesse sido tu.
Que triste a grande hora alegre em que primeiro te ouvi!
Depois tudo é cansaço neste mundo onde se querem coisas,
Tudo é mentira neste mundo onde se pensam coisas,
Tudo é outra coisa neste mundo onde tudo se sente.
Depois, tenho sido como um mendigo deixado ao relento
Pela indiferença de toda a vila.
Depois, tenho sido como as ervas arrancadas,
Deixadas aos molhos em alinhamentos sem sentido.
Depois, tenho sido eu, sim eu, por minha desgraça,
E eu, por minha desgraça, não sou eu nem outro nem ninguém
Depois, mas porque é que ensinaste a clareza da vista,
Se não me podias ensinar a ter a alma com que a ver clara?
Porque é que me chamaste para o alto dos montes
Se eu, criança das cidades do vale, não sabia respirar?
Porque é que me deste a tua alma se eu não sabia que fazer dela
Como quem está carregado de ouro num deserto,
Ou canta com voz divina entre ruínas?
Porque é que me acordaste para a sensação e a nova alma,
Se eu não saberei sentir, se a minha alma é de sempre a minha?
Prouvera ao Deus ignoto que eu ficasse sempre aquele
Poeta decadente, estupidamente pretensioso,
Que poderia ao menos vir a agradar,
E não surgisse em mim a pavorosa ciência de ver.
Para que me tornaste eu? Deixasses-me ser humano!
Feliz o homem marçano,
Que tem a sua tarefa quotidiana normal, tão leve ainda que pesada,
Que tem a sua vida usual,
Para quem o prazer é prazer e o recreio é recreio.
Que dorme sono,
Que come comida,
Que bebe bebida, e por isso tem alegria.
A calma que tinhas, deste-ma, e foi inquietação.
Libertaste-me, mas o destino humano é ser escravo.
Acordaste-me, mas o sentido de ser humano é dormir.
15/04/1928
Cláudio Aguiar
Sextina da Dúvida
Quero a resposta já para que a dúvida
nunca prospere; mas se o entendimento
turba-se e vejo seres sem razão,
que pensar do meu corpo e de minh’alma,
se dela um sai e logo outro diz: entra?
Se sobrevive a alma que bem entra
no descuidado corpo, leves anjos
verberam no que é, fazendo que a alma
exista, enquanto se levanta a dúvida
no mundo, deformando-se a razão,
perdendo-se também o entendimento.
Se não é absoluto o entendimento,
mesmo que aprenda dele o que só entra
na matéria, restaura-se a razão.
Quem a desconhecer não verá anjos,
nem precisa chamar a si a dúvida
para chegar a ter outra boa alma.
Como mortal não vi jamais um’alma.
Logo, não vou perder o entendimento.
Com ele não conviveria a dúvida,
que, num relance, em nossos corpos entra.
Se de repente dele expulso os anjos,
que fazer do saber e da razão?
Se algum dia eu ficar sem a razão,
não sei se perderei toda minh’alma
e viverei no limbo com os anjos,
tendo tudo mas sem entendimento,
e até a certeza que em mim já não entra,
muito fará crescer a minha dúvida.
Já que está sempre a porta aberta à dúvida,
entrando a fé ou fugindo a razão,
nada entrará em ti sem o aviso: "entra"!
Se ninguém poderá viver sem alma,
mesmo quando lhe falte o entendimento,
não olvides que em nós habitam anjos.
-- Se você viu anjos, não resta dúvida,
tem entendimento e também razão.
-- Ali vem um’alma e agora em mim entra!
Renato Rezende
Ao Menos
em que comia nos melhores restaurantes
de São Paulo, Paris e Nova York.
Houve um tempo
que retirava grande prazer da leitura
e tinha orgulho da minha biblioteca.
Hoje os pratos estão quebrados,
os livros ao vento.
-- O coração cada vez mais pleno.
Rio de Janeiro, fevereiro 1998
Cláudio Aguiar
Três Sonetos Metafísicos
I
Por que gostamos tanto do passado?
A interrogante leva-me a pensar
no segredo que fica em si guardado,
que não sei se algum dia vou achar.
Perdido na palavra ou termo dado,
sempre o presente vive a deslizar
em busca do impossível já pensado
ou do que não se pode desvendar:
os três instantes num sopro da vida,
que poderia até vê-la esquecida,
no que será ou já foi existente.
O melhor é não mais perder o tempo,
ainda que eu resuma num momento
o passado e o futuro no presente.
II
Quanto mistério tem a flor guardado,
pois, desde sempre, desafia a mente
dos que desejam descobrir o dado
oculto no desvão duma semente.
E como o pólen nela está cravado,
dele o áspide mau tira somente
o venenoso, enquanto o mel levado
por uma abelha logo se pressente.
Quem tudo sabe pouco talvez veja.
Quem nada sabe afronta sua verdade
ou seu direito de bem percebê-la.
Que o mistério segredo sempre seja
para que nunca o mal vença a bondade,
impondo a morte à vida sem querê-la.
III
Algo há nas flores que acalentam feras,
chamando abelhas vivas do sereno
para as tocarem, há perdidas eras,
nunca alterando forma nem aceno.
É preciso viver as primaveras
para sentir o gestual e ameno,
esforço feito, sol florindo esperas,
elaborando o bom mel e o veneno.
Há nelas algo que esconde o mistério,
fazendo com que a abelha encontre o mel
no mesmo pólen que o áspide tira
o veneno letal, momento sério,
grito de morte, do holocausto ao fel,
que cega os olhos, apagando a pira.
Jorge Melícias
Trespassa a hegemonia da sombra
e descobrirás o ocluso
coração da luz.
O negro é apenas a cor
onde todas as cores repousam.
Não interrogues o dia
sobre a miríade de tons em que ele se imprime.
Procura a penumbra
e ela responder-te-á
com todo o contraste que lhe está negado.
de O Tempo de Foaron(1996)
Fernando Pessoa
Criança desconhecida e suja brincando à minha porta,
Não te pergunto se me trazes um recado dos símbolos.
Acho-te graça por nunca te ter visto antes,
E naturalmente se pudesses estar limpa eras outra criança,
Nem aqui vinhas.
Brinca na poeira, brinca!
Aprecio a tua presença só com os olhos.
Vale mais a pena ver uma coisa sempre pela primeira vez que conhecê-la,
Porque conhecer é como nunca ter visto pela primeira vez,
E nunca ter visto pela primeira vez é só ter ouvido contar.
O modo como esta criança está suja é diferente do modo como as outras estão sujas.
Brinca! Pegando numa pedra que te cabe na mão,
Sabes que te cabe na mão.
Qual é a filosofia que chega a uma certeza maior?
Nenhuma, e nenhuma pode vir brincar nunca à minha porta.
12/04/1919 (Athena, nº 5, Fevereiro de 1925)
Fernando Pessoa
Um dia de chuva é tão belo como um dia de sol.
Ambos existem; cada um como é.
08/11/1915
Fernando Pessoa
XXXIII - He that goes back does, since he goes, advance,
Though he doth not advance who goeth back,
And he that seeks, though he on nothing chance.
May still by words be said to find a lack.
This paradox of having, that is nought
In the world's meaning of the things it screens,
Is yet true of the substance of pure thought
And there means something by the nought it means.
For thinking nought does on nought being confer,
As giving not is acting not to give,
And, to the same unbribed true thought, to err
Is to find truth, though by its negative.
So why call this world false, if false to be
Be to be aught, and being aught Being to be?
Affonso Romano de Sant'Anna
Viii Reunião de Intelectuais
Estamos atrás desta mesa
e somos donos de uma certa sabedoria
que se compraz
num jeito narcísico de se expor.
Teorizamos. Com a linguagem
tentamos
ladrilhar a angústia e a história.
Lá fora, a rua,
a cidade onde os homens se amam e se devoram.
Ah! se os governantes nos ouvissem.
Que duro
– além da culpa histórica –
carregar a impotência,
a impotência
para realizar as utopias
de mais uma
perdida geração.
José Miguel Silva
No Way Back
Diógenes diria "à catanada, vivamente",
Lichtenberg "à gargalhada", se o conheço.
Thomas Bernhard proporia "num rectângulo
de tábuas" e Machado que o caminho de saída
se descobre ao caminhar. Beckett é provável
que dissesse "rastejando".
Diderot aventaria
"pela rua do liceu", Tcheckov "pela viela
mais escura, à tua esquerda". Séneca diria,
muito sonso, "pelo passeio das Virtudes",
Vaneigem "pelo jardim das Belas-Artes".
Bashô responderia (e eu com ele) "é muito cedo,
fica mais um pouco, ainda há vinho na garrafa".
Angela Santos
Asas
cimo de uma falésia
olhou com olhos despidos de mágoa
dentro do sonho suspenso no tempo
e fez dos gestos um grito
de encontro ao silencio
dos que o olhavam.
Olhos abertos ao devir
e ao sonho,
esfinge resistindo ao tempo
afrontando o vago de almas
e o olhar sem deslumbre,
ao chão da evidência preso.
Martha Medeiros
A nova minoria
É um grupo formado por poucos integrantes. Acredito que hoje estejam até em menor número do que a comunidade indígena, que se tornou minoria por força da dizimação de suas tribos. A minoria a que me refiro também está sendo exterminada do planeta, e pouca gente tem se dado conta. Me refiro aos sensatos.
A comunidade dos sensatos nunca se organizou formalmente. Seus antepassados acasalaram-se com insensatos, e geraram filhos e netos e bisnetos mistos, o que poderia ser considerada uma bem-vinda diversidade cultural, mas não resultou em grande coisa. Os seres mistos seguiram procriando com outros insensatos, até que a insensatez passou a ser o gene dominante da raça. Restaram poucos sensatos puros.
Reconhecê-los não é difícil. Eles costumam ser objetivos em suas conversas, dizendo claramente o que pensam e baseando seus argumentos no raro e desprestigiado bom senso. Analisam as situações por mais de um ângulo antes de se posicionarem. Tomam decisões justas, mesmo que para isso tenham que ferir suscetibilidades. Não se comovem com os exageros e delírios de seus pares, preferindo manter-se do lado da razão. Serão pessoas frias? É o que dizem deles, mas ninguém imagina como sofrem intimamente por não serem compreendidos.
O sensato age de forma óbvia. Ele conhece o caminho mais curto para fazer as coisas acontecerem, mas as coisas só acontecem quando há um empenho conjunto. Sozinho ele não pode fazer nada contra a avassaladora reação dos que, diferentemente dele, dedicam suas vidas a complicar tudo. Para a maioria, a simplicidade é sempre suspeita, vá entender.
O sensato obedece a regras ancestrais, como, por exemplo, dar valor ao que é emocional e desprezar o que é mesquinho. Ele não ocupa o tempo dos outros com fofocas maldosas e de origem incerta. Ele não concorda com muita coisa que lê e ouve por aí, mas nem por isso exercita o espírito de porco agredindo pessoas que não conhece. Se é impelido a se manifestar, defende sua posição com ideias, sem precisar usar o recurso da violência.
O sensato não considera careta cumprir as leis, é a parte facilitadora do cotidiano. A loucura dele é mais sofisticada, envolve rompimento com algumas convenções, sim, mas convenções particulares, que não afetam a vida pública. O sensato está longe de ser um certinho. Ele tem personalidade, e se as coisas funcionam pra ele, é porque ele tem foco e não se desperdiça, utiliza seu potencial em busca de eficácia, em vez de gastar sua energia com teatralizações que dão em nada.
O sensato privilegia tudo o que possui conteúdo, pois está de acordo com a máxima que diz que mais grave do que ter uma vida curta é ter uma vida pequena. Sendo assim, ele faz valer o seu tempo. Reconhece que o Big Brother é um passatempo curioso, por exemplo, mas não tem estômago para aquela sequência de conversas inaproveitáveis. É o vazio da banalidade passando de geração para geração.
Ouvi de um sensato, dia desses: “Perdi minha turma. Eu convivia com pessoas criativas, que falavam a minha língua, que prezavam a liberdade, pessoas antenadas que não perdiam tempo com mediocridades. A gente se dispersou”. Ele parecia um índio.
Mesmo com poucas chances de sobrevivência, que se morra em combate. Sensatos, resistam.
Martha Medeiros
A nova minoria
É um grupo formado por poucos integrantes. Acredito que hoje estejam até em menor número do que a comunidade indígena, que se tornou minoria por força da dizimação de suas tribos. A minoria a que me refiro também está sendo exterminada do planeta, e pouca gente tem se dado conta. Me refiro aos sensatos.
A comunidade dos sensatos nunca se organizou formalmente. Seus antepassados acasalaram-se com insensatos, e geraram filhos e netos e bisnetos mistos, o que poderia ser considerada uma bem-vinda diversidade cultural, mas não resultou em grande coisa. Os seres mistos seguiram procriando com outros insensatos, até que a insensatez passou a ser o gene dominante da raça. Restaram poucos sensatos puros.
Reconhecê-los não é difícil. Eles costumam ser objetivos em suas conversas, dizendo claramente o que pensam e baseando seus argumentos no raro e desprestigiado bom senso. Analisam as situações por mais de um ângulo antes de se posicionarem. Tomam decisões justas, mesmo que para isso tenham que ferir suscetibilidades. Não se comovem com os exageros e delírios de seus pares, preferindo manter-se do lado da razão. Serão pessoas frias? É o que dizem deles, mas ninguém imagina como sofrem intimamente por não serem compreendidos.
O sensato age de forma óbvia. Ele conhece o caminho mais curto para fazer as coisas acontecerem, mas as coisas só acontecem quando há um empenho conjunto. Sozinho ele não pode fazer nada contra a avassaladora reação dos que, diferentemente dele, dedicam suas vidas a complicar tudo. Para a maioria, a simplicidade é sempre suspeita, vá entender.
O sensato obedece a regras ancestrais, como, por exemplo, dar valor ao que é emocional e desprezar o que é mesquinho. Ele não ocupa o tempo dos outros com fofocas maldosas e de origem incerta. Ele não concorda com muita coisa que lê e ouve por aí, mas nem por isso exercita o espírito de porco agredindo pessoas que não conhece. Se é impelido a se manifestar, defende sua posição com ideias, sem precisar usar o recurso da violência.
O sensato não considera careta cumprir as leis, é a parte facilitadora do cotidiano. A loucura dele é mais sofisticada, envolve rompimento com algumas convenções, sim, mas convenções particulares, que não afetam a vida pública. O sensato está longe de ser um certinho. Ele tem personalidade, e se as coisas funcionam pra ele, é porque ele tem foco e não se desperdiça, utiliza seu potencial em busca de eficácia, em vez de gastar sua energia com teatralizações que dão em nada.
O sensato privilegia tudo o que possui conteúdo, pois está de acordo com a máxima que diz que mais grave do que ter uma vida curta é ter uma vida pequena. Sendo assim, ele faz valer o seu tempo. Reconhece que o Big Brother é um passatempo curioso, por exemplo, mas não tem estômago para aquela sequência de conversas inaproveitáveis. É o vazio da banalidade passando de geração para geração.
Ouvi de um sensato, dia desses: “Perdi minha turma. Eu convivia com pessoas criativas, que falavam a minha língua, que prezavam a liberdade, pessoas antenadas que não perdiam tempo com mediocridades. A gente se dispersou”. Ele parecia um índio.
Mesmo com poucas chances de sobrevivência, que se morra em combate. Sensatos, resistam.
Carlos Frydman
Sintonia
devem se encontrar."
(Albert Einstein)
Equilibrado no universo condescendente,
o desequilíbrio humano sobrevive
em seu próprio ofuscar envenenado.
E, eu tento sintonizar-me no mundo
nestas probabilidades, pouco prováveis,
intuindo como pássaro desnorteado
que conhece, no âmago,
o segredo do equilíbrio
em vôo árduo, nas tempestades.
Nesta relatividade artificializada,
entre o fim tangente
e as metáforas afloradas
tornadas em nada,
tento encontrar-me
no afoito intento
e pousar num recanto sereno.
E, na vez buscada
tantas vezes roubada, fazem-me alçar vôo
como pássaro perseguido.
Os que não se perderam nas correntezas adversas,
vasculham nos cantos sombrios,
onde a vida floresce e semeia segredos segregados, ativos
em razões bem tecidas.
Porque os fugitivos das circunstâncias intrigantes,
libertam-se em suas visões profundas
e guardam sementes das explosões tardias,
em suas mentes e almas imperecíveis.
Nesta contingência enfeitada, nojenta, opaca,
onde a clareza foi obstruída,
temer nova caminhada,
é como fechar a única janela
onde mal se respira.
Nesta jornada milenar de sabedoria desvirtuada,
os pobres homens fecham
um ciclo de riqueza empobrecida.
Uma mesma nuvem densa,
forjada,
inclemente
e abrangente,
de ganância cientificada,
soterra a todos
no estratificado nada.
Existem vidas buscando uma pausa
para restaurar no fôlego que resta
a esperança enjaulada.
Nesta derradeira contingência do salto,
nem todas sementes foram desperdiçadas:
alguém puxará a cortina na manhã seguinte,
se faltarem nossos olhos esmaecidos.
Há uma vigília corajosa e temida,
nesta insônia que nos consola
e a esperança, embora cansada,
terá nova jornada
nos que despertam.
A Vida,
a paisagem,
ressurgirão em sua teimosia.
O pouco do restante,
será fartura,
porque o amor e as mãos são magos,
que refazem magias roubadas.
Imagem - 01330001
In: FRYDMAN, Carlos. Sintonia: poesia. Pref. Fábio Lucas. Apres. Henrique L. Alves. Campinas: Pontes, 1990
Marcus Accioly
Prosação
Uma conversa ligeira
Que tive, faz muito tempo,
Num dia de quarta-feira
Do mês de outubro de um ano,
Do qual não me lembro a data,
Na mais agreste caatinga,
Depois da zona da Mata.
Havia fome na terra
E o povo se retirava
Levando os últimos bichos
Que a seca aos poucos matava.
Para esquecer essas coisas
Fui palestrar com Quintão,
Um cego que tinha fama
De sábio, em todo Sertão.
— "Já desde que tempo é tempo
E o mundo é mundo, que eu ouço
Muitas histórias contadas
Por retirantes, seu moço.
Histórias que falam sempre
Das secas com seus rigores,
Dos homens virando lendas
Na boca dos cantadores.
Histórias que a gente encontra
Escritas, de outra maneira,
Em verso e não mais em prosa,
Nesses folhetos de feira.
Histórias que são as mesmas
Que a gente sabe de cor,
Mas finge que nunca sabe
Para escutá-las melhor.
— Dessas estórias, lhe digo,
Me causa admiração
A vida do Padre Cícero
E a lenda de Lampião
Que tinha o corpo fechado
E um olho cego que via,
Por isso fechava o outro
Para fazer pontaria.
Pois que bastava somente
Para enxergar o perfil
Da tropa que o perseguia,
O olho do seu fuzil.
E que bastava o soldado
Sentir seu faro real,
Para vestir-se de terra
Após vestir seu punhal.
— Não sei se é lenda ou verdade,
Seu moço, falo por mim,
A lenda sempre começa
Quando uma história tem fim.
Pois se a história nos conta
Que Virgulino nasceu,
A lenda logo acrescenta
Que Lampião não morreu.
Além da história e da lenda
Existe o sonho do povo,
Que entre o que houve e não houve
Inventa tudo de novo.
Por isso a lenda é mais certa
Do que o sonho e a história,
Pois Lampião anda vivo
Dentro de cada memória.
(...)
Imagem - 01360004
Poema integrante da série Sertão-Sertões - Canto II.
In: ACCIOLY, Marcus. Nordestinados. 2.ed. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro; Brasília: INL, 1978. p.118-119. (Tempoesia, 18)
NOTA: Poema composto de 13 estrofes de 16 verso
Henriqueta Lisboa
Saudação a Drummond
pelo que tens sido e serás
dentro do tempo espaço afora
e além da vida: luminar
homem simples da terra
aprisionado no íntimo
para libertador de pássaros
e agenciador de símbolos.
Pela pedra no caminho
que foi ato de bravura
e foi cabo de tormentas.
Pelo brejo das almas
em verde com margaridas.
Pelo sentimento do mundo
com que orvalhas o linho
da comunhão geral.
Pelas fazendas do ar
em que brindas cultivos
de transcedentes dimensões.
Pelos claros enigmas
que decifras e que armas
em desdobrados ciclos.
Pela vida passada a limpo
em lâminas de cristal.
Pela rosa do povo
com que humanizas o asfalto.
Pela lição de coisas
que nos ensinas a aprender.
Pelo boitempo este sabor
de renascimento da infância.
Em nome de Mário de Andrade
— até as amendoeiras falam —
em nome de Manuel Bandeira
em nome de Emílio Moura
presentes embora silentes
no alto da Casa em outros
mais cômodos aposentos
de onde nos contemplam líricos
a nós abaixo no vestíbulo.
Saúdo-te mineiro Carlos
de olhos azuis como os da criança
guardada sempre mais a fundo
em candidez e malícia
ao largo de lavouras híspidas
ao longo de setenta outubros
vincados de diamante e ferro
sem nostalgia de crepúsculo.
Saúdo-te com sete rosas
em botão as mais puras
colhidas de madrugada
antes do sol em suas pétalas
por teu sétimo aniversário
outrora
de menino poeta.
Publicado no livro Miradouro e Outros Poemas (1976). Poema integrante da série Miradouro, 1968/1974.
In: LISBOA, Henriqueta. Obras completas I: poesia geral, 1929/1983. Pref. Fábio Lucas. São Paulo: Duas Cidades, 198
Ana Hatherly
O círculo
É ovo, é zero.
É ciclo, é ciência.
Nele se inclui todo o mistério
E toda a sapiência.
É o que está feito,
Perfeito e determinado,
É o que principia
No que está acabado.
A viagem que o meu ser empreende
Começa em mim,
E fora de mim,
Ainda a mim se prende.
A senda mais perigosa.
Em nós se consumando,
Passando a existência
Mil círculos concêntricos
Desenhando.
André de Figueiredo Mascarenhas
Soneto
Nas distâncias igual do ocaso à Aurora,
Diógenes, que o raio não ignora,
Com uma Luz pelas ruas discorria.
Que pretende essa estranha fantasia,
Ou que queres Diógenes agora,
Que essa Luz te descubra, que em tal hora
Não to mostre melhor a Luz do dia?
Mas se buscas um homem porventura,
Em quem nada condenes, nada acuses,
Bem que o vejas à Luz, que tudo apura.
Esse deixa farol, da Luz não uses,
Que como o homem capaz tem sorte escura,
Não se costuma achar nunca com Luzes.
Alexandre Marino
Avoagem
porque era grande nosso medo de tudo
e revolvia com as mãos a terra brava
plantando um sabor de coisa nova
sobre as coisas velhas que ele velho guerreava
ele se perdia sobre o chão cheirando a chuva
e nos arrastava pelas mãos pelos quintais
apontando com os dedos amarelos de cigarro
cada pedaço de mundo que por ali passava
e que nós despercebíamos no vento ou no barro
ele coçava a cabeça branca apoiado na bengala
e tamborilava as unhas grossas na madeira
e distribuía a cada um ao se sentar à mesa
os pedaços de história que catava na memória
e soltava pelos poros em forte correnteza
e quando começava a lhe fugir a lucidez
o velho guerreiro cavalgava de verdade
a égua fiel que antes de morrer no pasto
conduzia pelas ruas da cidade
esse seu olhar profundo do álbum de retratos.
Nuno Júdice
Enigma ornitológico
Uma nuvem entrou num pássaro.
"Qual a verdade?", perguntou
o homem. "Está no pássaro? Ou
está numa nuvem?" E enquanto
o homem procurava a resposta,
o pássaro saiu da nuvem, fazendo
com que a verdade saísse do homem.
Nuno Júdice | "A Matéria do Poema" | Publicações Dom Quixote, 2008
Juscelino Vieira Mendes
Sestina do Shema
São palavras ordenadas por Deus
para alcançar de Suas criaturas o coração
que está longe pós-queda sem poder,
com arrogância e tristeza nalma.
Portanto do único Senhor ouve
a fim de que possa ser
II
É suprema a graça daquele ser
que busca, na sapiência, e ouve;
que ama, com exaltação, ao único Deus;
que O adora de todo coração
e com profundidade e beleza de toda a sua alma
recebe Suas palavras de poder
III
e, intimando à prole desse poder,
assentado em casa e com o fervor do coração;
andando pelo caminho aberto por esse grande Deus;
deitando, para o descanso e ronovação do seu ser;
levantando de manhã, ouve!
E atando as palavras ordenadas por sinal na sua mão,
com alegria nalma
IV
entre os seus olhos, que são as portas dessa alma,
e por testeiras que identificam O Deus,
escritas serão nos umbrais de seu coração.
Da casa, cuja entrada, dignificará o seu ser;
nas portas, para que tenha poder.
Portanto, ouve!
V
Por que, Israel, não ouve,
para o bem de sua alma?
Se na boa terra o introduziu Deus,
que havia jurado a seus pais, poder!
Emanado de Seu Ser,
de Seu Coração!
VI
Quem amou dAbraão o coração?
Quem tornou a Isaque um ser?
Quem do Senhor recebeu poder?
Quem edificou a sua alma?
Portanto, Israel, Ouve!
Porque a tudo ordenou Deus...
VII
que o tornará um ser de poder
e de alma edificada para o bem do coração
se ouve, Israel, quem o tirou da casa da servidão: Deus.
2 de janeiro de 1997.
Poema baseado no texto bíblico de Deuteronômio 6:4-9 - "Por algum tempo durante o período do Segundo Templo, esta passagem bíblica foi escolhida para ser recitada duas vezes ao dia, pela manhã e à noite, por todos os judeus. Conhecida pela sua palavra inicial, Shemá, começa assim: "Escuta, ó Israel, o Senhor é nosso Deus, o Senhor é Um". Este versículo tornou-se o lema do judaísmo. É a primeira frase a ser ensinada a uma criança judia, e a última a ser pronunciada antes de morrer." Os Judeus e o Judaísmo, pág. 268, de David J. Goldberg e John D. Rayner - Trad. Paulo Geiger e Carlos André Oighenstein - Rio de Janeiro: Xenon Ed., 1989.