Poemas neste tema

Recomeço e Renascimento

José Saramago

José Saramago

Nesta Rasa Pobrezas

Nesta rasa pobreza que ficou
De jardins floridos, de searas
Como espelhos do sol ao meio-dia,
Quem esperaria que nascessem nardos
E que as romãs abertas mostrariam
Corações lapidados e auroras?
Mas todo o tempo é tempo começado,
E a terra adivinhada, transparente,
Cobre a fonte serena e misteriosa
Que torna a sede ardente.
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José Saramago

José Saramago

Ainda Agora É Manhã

Ainda agora é manhã, e já os ventos
Adormecem no céu. Pouco a pouco,
A névoa antiga e baça se levanta.
Ruivamente, o sol abre uma estrada
Na prata nublada destas águas.
É manhã, meu amor, a noite foge,
E no mel dos teus olhos escurece
O amargo das sombras e das mágoas.
1 464
José Saramago

José Saramago

Venho de Longe, Longe

Venho de longe, longe, e canto surdamente
Esta velha, tão velha, canção de rimas tortas,
E dizes que a cantei a outra gente,
Que outras mãos me abriram outras portas:
Mas, amor, eu venho neste passo
E grito, da lonjura das estradas,
Da poeira mordida e do tremor
Das carnes maltratadas,
Esta nova canção com que renasço.
1 185
José Saramago

José Saramago

Paisagem Com Figuras

Não há muito que ver nesta paisagem:
Alagadas campinas, ramos nus
De salgueiros e choupos eriçados:
Raízes descobertas que trocaram
O natural do chão pelo céu vazio.
Aqui damos as mãos e caminhamos,
A romper nevoeiros.
Jardim do paraíso, obra nossa,
Somos nele os primeiros.
988
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Projecto Ii

Esta foi sua empresa: reencontrar o limpo
Do dia primordial. Reencontrar a inteireza
Reencontrar o acordo livre e justo
E recomeçar cada coisa a partir do princípio

Em sua empresa falharam e o relato
De sua errância erros e derrotas
De seus desencontros e desencontradas lutas
É moroso e confuso

Porém restam
Do quebrado projecto de sua empresa em ruína
Canto e pranto clamor palavras harpas
Que de geração em geração ecoam
Em contínua memória de um projecto
Que sem cessar de novo tentaremos
1 072
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Fazer parar o giro sobre si

Fazer parar o giro sobre si
Do vácuo pensamento, pôr a roda
Em movimento sobre a terra escura

Poção que por magia de bebê-la
A dormente vontade em mim disperte
De viver… (...)
1 065
Vinicius de Moraes

Vinicius de Moraes

Soneto No Sessentenário de Rafael Alberti

A luminosa lágrima que verte
Hoje de ti saudosa a tua Espanha
Quero bebê-la em forma de champanha
Na mesma taça em que bebeste, Alberti.

E brindaremos para que desperte
Num ímpeto feroz de touro em sanha
Sedenta de viver a tua Espanha
Que um mau toureiro derrotou inerte.

Beberemos, irmão, por que bem haja
Teu povo malferido, e que reaja
E do encontro final, rútilo e forte

Reste na arena o touro sobranceiro
E pela arena, o sangue do toureiro
Conte que a vida renasceu da morte.

Petrópolis, 10/12/1962
1 221
Vinicius de Moraes

Vinicius de Moraes

Na Esperança de Teus Olhos

Eu ouvi no meu silêncio o prenúncio de teus passos
Penetrando lentamente as solidões da minha espera
E tu eras, Coisa Linda, me chegando dos espaços
Como a vinda impressentida de uma nova primavera.
Vinhas cheia de alegria, coroada de guirlandas
Com sorrisos onde havia burburinhos de água clara
Cada gesto que fazias semeava uma esperança
E existiam mil estrelas nos olhares que me davas.
Ai de mim, eu pus-me a amar-te, pus-me a amar-te mais ainda
Porque a vida no meu peito se fizera num deserto
E tu apenas me sorrias, me sorrias, Coisa Linda
Como a fonte inacessível que de súbito está perto.
Pelas rútilas ameias do teu riso entreaberto
Fui subindo, fui subindo no desejo de teus olhos
E o que vi era tão lindo, tão alegre, tão desperto
Que do alburno do meu tronco despontaram folhas novas.
Eu te juro, Coisa Linda: vi nascer a madrugada
Entre os bordos delicados de tuas pálpebras meninas
E perdi-me em plena noite, luminosa e espiralada
Ao cair no negro vórtice letal de tuas retinas.
E é por isso que eu te peço: resta um pouco em minha vida
Que meus deuses estão mortos, minhas musas estão findas
E de ti eu só quisera fosses minha primavera
E só espero, Coisa Linda, dar-te muitas coisas lindas...
1 437
Herberto Helder

Herberto Helder

Olhos Ávidos

olhos ávidos,
áridos olhos quando tudo tem de ser novo para de novo ser soberbo,
e é esse o êrro de que ressuscito:
e depois morro
1 038
Augusto Massi

Augusto Massi

Nudez

Despido de tudo
pronto a aceitar
a própria nudez
no quarto escuro

O espelho em branco
— mar amniótico —
projeta nos flancos
uma luz uterina

Homem em estado bruto
na metade da vida
homem sem atributos
— nudez como medida


In: MASSI, Augusto. Negativo, 1982/1990. Il. Alberto Alexandre Martins. São Paulo: Companhia das Letras, 1991
1 262
Viviane Gehlen

Viviane Gehlen

Mar

Mar

O céu, cinza
Cinza também o mar....

A praia, vazia
vazio também meu olhar....

A areia se desfaz sob meus pés.
Lágrimas rolam dos meus olhos,
descem pelo meu corpo e
se fundem com o mar...

sou onda,
sou espuma,
sou nada.

Imersa no mar, descubro a Vida.
Submersa na dor, descubro a Vida.
Escondido nas nuvens, descubro o Sol.
Refletido no mar, descubro o Sol.

meu coração renasce
meus olhos sorriem

Um veleiro cruza o horizonte....

09-01-97

971
Felipe Larson

Felipe Larson

SEM CONSEQÜÊNCIAS

Depois de tanto tempo, fui lembrar de você.
Que saudades do teu beijo, eu preciso te ver!
Eu te liguei esta noite, pra saber como você está?
Está tão diferente talvez já me esqueceu

Durante a chuva, me traz saudades.
E de cada pingo de chuva revelará um segredo
Nós aprendemos um com o outro o que é amar
E também descobrimos o que ninguém descobriu

Seja o que for
Vamos começar de novo
Seja o que for
Fomos feitos um pro outro

Houve um tempo que tudo era bom
E nada, mas nada nos machucava.
Mas ela veio assim, tão de repente.
E logo virou, e só deixou um adeus.

Seja o que for
Vamos começar de novo
Seja o que for
Fomos feitos um pro outro

777
Francisco Matos Paoli

Francisco Matos Paoli

Verdor que salta

Iminência, celeste iminência
de dias que são pássaros,
de pássaros que são veias.
Frescas corolas que se imantam
além de meu abismo.
Um ritmo aparte que suaviza
a ausência em que me encontro.
Algo como uma dor que corta a distância
do céu.

Terei um novo ser.
Um ritmo apogístico que me faz livre
de todos os augúrios da terra.

Verdor incontido.
Verdor que salta
até alcançar o triunfo
do que tem sido em mim
a noite plena.

952
Maria de Lourdes Hortas

Maria de Lourdes Hortas

Estações

Poderia afogar-me
na silente cisterna de lágrimas
léguas de um longo tempo extraviado
quando o mar recua
para ermo horizonte
de incompletude e inesperança.
Todavia há marés que me resgatam
réstia de luz por instantes ferindo
a silente espessura da lembrança.

992
Simone Brantes

Simone Brantes

Às vezes o corpo

Às vezes o corpo é batido
como roupa na máquina de lavar
você fez tantas coisas hoje em casa
que mereciam enriquecer
seu lattes
Mas essa é só a única maneira
que a alma tem às vezes
de sair lavada
692
Renato Rezende

Renato Rezende

Piazza San Marco

Gerações de homens
de pombas
de gôndolas

no entanto o ar está fresco
e como se pela primeira vez
o sol nasce
Veneza, julho 1984 --


São Paulo, abril 1996
1 078
Renato Rezende

Renato Rezende

Dentro do Mar

Dentro do mar
nós quatro
em silêncio

Onda vem e vai
dentro do mar
em silêncio

Um vem e vai
dentro do mar
em silêncio

Nós quatro
cada um quatro
cada quatro mil

em silêncio
lavando nossos passados
dentro do mar

infinito --
e o céu infinito


Cidade dos Arrecifes (Recife), 16 de novembro 1994
1 010
Cláudio Feldman

Cláudio Feldman

Joana D’Arc

incensoque perfumadepois de queimado

1 138
Nuno Júdice

Nuno Júdice

O brilho das cinzas

A língua pode renascer em qualquer altura.

O vento agita os ramos altos do cipreste;

no escuro mármore lê-se ainda o meu nome.

Morto, mas subitamente mais vivo,

ouço os vastos barulhos terrestres e o

anúncio subterrâneo da próxima catástrofe.

Rindo-me para os bichos de quem sou a fria

morada, abro e fecho os ossos do rosto

num esgar de gozo. "Em breve o meu corpo

regressará à superfície. Encontrar-me-eis,

ó gente humana, nas idênticas circunstâncias do Juízo." Nessa noite, os coveiros notaram

uma insólita agitação no fundo da terra.


Nuno Júdice | "Obra poética:1972-1985", pág. 157 | Quetzal Editores, 1999

1 217
Birão Santana

Birão Santana

Em minhas Cinzas

A fênix
renasceu
das própias cinzas.
Tu
em mim
renasceste das cinzas.
Eu,
diante do sentimento por ti,
renasci
das cinzas.
Me vislumbrando
crescendo
te vislumbrei
como fênix
renascendo
em minhas cinzas.

1 082
Birão Santana

Birão Santana

INSISTO: tenho alma

Urge
consolar
minha alma
ferida nos temporais da vida,
insuflada de lágrimas e dores
perambulando em busca
de dias primaveris.

Urge acalentar
minha alma,
ela é flor tenra
medrando no mundo das ilusões
ansiosa por terra fértil.

Urge
alentar
minha alma,
ela é criança risonha,
inocente criança
oferecendo-se em riso,
graça e ternura
a desconcertados tiranos.

Urge
reinventar o homem
antes que morram
todos os homens
que insistem em ter alma.

819
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Desabar

Desabava
Fugir não adianta     desabava
por toda parte     minas     torres
edif
ícios
princípios
l
e
i
s
muletas
desabando     nem gritar
dava tempo soterrados
novos desabamentos insistiam
sobre peitos em pó
desabadesabadesabadavam
As ruínas formaram
outra cidade em ordem definitiva.
1 672
Martha Medeiros

Martha Medeiros

Mudança

Minha mãe recentemente se mudou do apartamento em que morou a vida toda para um bem menorzinho. Teve que vender e doar mais da metade dos móveis e tranqueiras que havia guardado e, mesmo tendo feito isso com certa dor, ao conquistar uma vida mais compacta e simplificada, rejuvenesceu.

Uma amiga casada há 38 anos cansou das galinhagens do marido e o mandou passear, sem temer ficar sozinha aos 65 anos de idade. Rejuvenesceu.

Uma outra cansou da pauleira urbana e trocou um ótimo emprego em Porto Alegre por um não tão bom, só que em Florianópolis, onde ela caminha na beira da praia todas as manhãs. Rejuvenesceu.

Toda mudança cobra um alto preço emocional. Antes de tomar uma decisão difícil, e durante a tomada, chora-se muito, os questionamentos são inúmeros, a vida se desestabiliza. Mas então chega o depois, a coisa feita, e aí a recompensa fica escancarada na face.

Mudanças fazem milagres por nossos olhos, e é no olhar que se percebe a tal juventude eterna.

Um olhar opaco pode ser puxado e repuxado por um cirurgião a ponto de as rugas sumirem, só que continuará opaco, porque não existe plástica que resgate seu brilho.

Quem dá brilho ao nosso olhar é a vida que a gente optou por levar.

Um olhar iluminado, vivo e sagaz impede que a pessoa envelheça.

Olhe-se no espelho. Você tem um olhar de quem estaria disposta a cometer loucuras? Tem que ter.

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Angela Santos

Angela Santos

Fio de Ariadne

Depois
da raiva que abriu sulcos
e rasgou fendas
epois da dor que antecedeu as lágrimas
depois da noite que encheu
as noites brancas
depois do cansaço de dias
sempre iguais…
talvez que um brilho de estrelas
vindo, sei lá, de Orion
se prenda ao meu olhar…

Talvez que livre de amarras,
e por dentro dos sentidos,
um navio se perfile
na senda de um sol - nascente…

Talvez que o simples cheiro
que a terra exala me chame
e eu fique presa a ela
por um fio de Ariadne.

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