Poemas neste tema
Recomeço e Renascimento
Angela Santos
Intacto
Ao largo estendem-se caminhos
e os sonhos que por lá andam
vêm, uma e outra vez, lembrar o tempo
preso nas fotografias, igual sempre
mas não o tempo que desfaz e ergue
esse mesmos sonhos
Adentro as memórias, intacto o coração
agita-se no lugar que digo passado
escuto o seu sopro, percorro o caminho do antes
e acordo, meus olhos são do tamanho do mundo
mas não o podem conter
Abro dentro de mim todas as janelas
a luz irrompe pelo avesso
e o coração desprende-se alheio a rumos
não posso senão buscar
o que não está aqui
o que não é ainda
o que germina no escuro
isso que brota do caos
intacto
como a primeira claridade
alguma vez.
e os sonhos que por lá andam
vêm, uma e outra vez, lembrar o tempo
preso nas fotografias, igual sempre
mas não o tempo que desfaz e ergue
esse mesmos sonhos
Adentro as memórias, intacto o coração
agita-se no lugar que digo passado
escuto o seu sopro, percorro o caminho do antes
e acordo, meus olhos são do tamanho do mundo
mas não o podem conter
Abro dentro de mim todas as janelas
a luz irrompe pelo avesso
e o coração desprende-se alheio a rumos
não posso senão buscar
o que não está aqui
o que não é ainda
o que germina no escuro
isso que brota do caos
intacto
como a primeira claridade
alguma vez.
976
Angela Santos
Alvorecer
Será
nos olhos desse ser amado
que renascerei,
certa como a alvorada
que regressa após a escuridão
Será no corpo do ser amado
que despertarei de um sono antigo
onde esquecida me achei
Será no toque desse ser que eu amo
que minha pele saberá
porque desfiei esperas
e entorpeci a tristeza
inscrita nessa longa ausência
de a não ter só que fosse
ao alcance do olhar
No incêndio dos nossos corpos
o meu ser despertará,
Fénix que de novo voa a caminho da alvorada
indicando esse lugar onde seremos inteiras
corpo.. alma … coração
sem tempo que nos separe ou espaço de permeio
ao alcance do olhar ainda mais perto da mão,
tão simplesmente ficar
deitadas no mesmo chão.
nos olhos desse ser amado
que renascerei,
certa como a alvorada
que regressa após a escuridão
Será no corpo do ser amado
que despertarei de um sono antigo
onde esquecida me achei
Será no toque desse ser que eu amo
que minha pele saberá
porque desfiei esperas
e entorpeci a tristeza
inscrita nessa longa ausência
de a não ter só que fosse
ao alcance do olhar
No incêndio dos nossos corpos
o meu ser despertará,
Fénix que de novo voa a caminho da alvorada
indicando esse lugar onde seremos inteiras
corpo.. alma … coração
sem tempo que nos separe ou espaço de permeio
ao alcance do olhar ainda mais perto da mão,
tão simplesmente ficar
deitadas no mesmo chão.
1 130
Nelly Sachs
CORO DOS SALVOS
Nós, salvos,
Em cuja ossada vazia a morte já entalhou suas flautas,
Em cujos tendões a morte já roçou seu arco –
Nossos corpos ainda se lamentam
Com sua música mutilada.
Nós, salvos,
Os laços urdidos para nossas gargantas pendem ainda
Diante de nós, no ar azul –
As clepsidras ainda se enchem com nosso sangue gotejante.
Nós, salvos,
Os vermes do medo ainda nos corroem.
Nossa estrela está soterrada no pó.
Nós, salvos,
Vos pedimos:
Mostrai-nos lentamente o vosso sol.
Conduzi-nos, de estrela em estrela, passo a passo.
Deixai que reaprendamos a vida suavemente.
Senão o canto de um pássaro,
O encher do balde no poço
Poderiam romper nossa dor mal-lacrada
E nos levar em espumas.
Nós vos pedimos:
Não nos mostreis ainda um cão mordente –
Poderia ser, poderia ser
Que nos desfizéssemos em pó –
Que ante vossos olhos nos desfizéssemos em pó.
O que nos mantém de pé, então?
Nós, que nos tornamos sem alento,
Nós, cuja alma fugiu para Ele, saindo da meia-noite,
Antes, bem antes que nosso corpo tivesse sido salvo
Na arca do instante.
Nós, salvos,
Apertamos a vossa mão,
Reconhecemos o vosso olho –
Mas apenas a despedida nos une,
A despedida no pó
Nos une a vós.
Em cuja ossada vazia a morte já entalhou suas flautas,
Em cujos tendões a morte já roçou seu arco –
Nossos corpos ainda se lamentam
Com sua música mutilada.
Nós, salvos,
Os laços urdidos para nossas gargantas pendem ainda
Diante de nós, no ar azul –
As clepsidras ainda se enchem com nosso sangue gotejante.
Nós, salvos,
Os vermes do medo ainda nos corroem.
Nossa estrela está soterrada no pó.
Nós, salvos,
Vos pedimos:
Mostrai-nos lentamente o vosso sol.
Conduzi-nos, de estrela em estrela, passo a passo.
Deixai que reaprendamos a vida suavemente.
Senão o canto de um pássaro,
O encher do balde no poço
Poderiam romper nossa dor mal-lacrada
E nos levar em espumas.
Nós vos pedimos:
Não nos mostreis ainda um cão mordente –
Poderia ser, poderia ser
Que nos desfizéssemos em pó –
Que ante vossos olhos nos desfizéssemos em pó.
O que nos mantém de pé, então?
Nós, que nos tornamos sem alento,
Nós, cuja alma fugiu para Ele, saindo da meia-noite,
Antes, bem antes que nosso corpo tivesse sido salvo
Na arca do instante.
Nós, salvos,
Apertamos a vossa mão,
Reconhecemos o vosso olho –
Mas apenas a despedida nos une,
A despedida no pó
Nos une a vós.
602
Fernando Pessoa
A lâmpada nova
A lâmpada nova
No fim de apagar
Volta a dar a prova
De estar a brilhar.
Assim a alma sua
Deveras desperta
Quando a noite é nua
E se acha deserta.
Vestígio que ergueu
Sem ser no lugar
De onde se perdeu...
Nasce devagar!
03/08/1934
No fim de apagar
Volta a dar a prova
De estar a brilhar.
Assim a alma sua
Deveras desperta
Quando a noite é nua
E se acha deserta.
Vestígio que ergueu
Sem ser no lugar
De onde se perdeu...
Nasce devagar!
03/08/1934
4 429
Fernando Pessoa
Deixei atrás os erros do que fui,
Deixei atrás os erros do que fui,
Deixei atrás os erros do que quis
E que não pude haver porque a hora flui
E ninguém é exacto nem feliz.
Tudo isso como o lixo da viagem
Deixei nas circunstâncias do caminho,
No episódio que fui e na paragem,
No desvio que foi cada vizinho.
Deixei tudo isso, como quem se tapa
Por viajar com uma capa sua,
E a certa altura se desfaz da capa
E atira com a capa para a rua.
23/08/1934
Deixei atrás os erros do que quis
E que não pude haver porque a hora flui
E ninguém é exacto nem feliz.
Tudo isso como o lixo da viagem
Deixei nas circunstâncias do caminho,
No episódio que fui e na paragem,
No desvio que foi cada vizinho.
Deixei tudo isso, como quem se tapa
Por viajar com uma capa sua,
E a certa altura se desfaz da capa
E atira com a capa para a rua.
23/08/1934
4 306
Eucanaã Ferraz
PAISAGEM PARA ANNA AKHMÁTOVA
O corpo, ainda corpo,
sabe de cor
a dor. Dizer adeus,
carpir, esconder,
bater palavras contra o muro.
Ruas de São Petersburgo
sob a neblina - o corpo
sabe de cor
onde se morre.
Mas, por entre o estridor
de soldados e funcionários,
cava uma saída:
o próximo poema
(promessa de delicadeza e silêncio)
- ouve cantar uma cereja.
sabe de cor
a dor. Dizer adeus,
carpir, esconder,
bater palavras contra o muro.
Ruas de São Petersburgo
sob a neblina - o corpo
sabe de cor
onde se morre.
Mas, por entre o estridor
de soldados e funcionários,
cava uma saída:
o próximo poema
(promessa de delicadeza e silêncio)
- ouve cantar uma cereja.
550
Pablo Neruda
Iii - As Espigas
O sem cessar terminou em flores,
em longo tempo que estende seu caminho
em fita, na novidade do ar,
e se por fim achamos sob o pó
o mecanismo do próximo futuro
simplesmente reconheçamos a alegria
tal como se apresenta! Como uma espiga mais,
de maneira assim que o esquecimento contribua
para a claridade verdadeira que sem dúvida não existe.
em longo tempo que estende seu caminho
em fita, na novidade do ar,
e se por fim achamos sob o pó
o mecanismo do próximo futuro
simplesmente reconheçamos a alegria
tal como se apresenta! Como uma espiga mais,
de maneira assim que o esquecimento contribua
para a claridade verdadeira que sem dúvida não existe.
1 128
Oddone Marsiaj
Haicai
Campos queimados
Voltarão o verde e
As borboletas?
Vento nas ilhas
Gaivotas sobre o mar
Imitam veleiros
Voltarão o verde e
As borboletas?
Vento nas ilhas
Gaivotas sobre o mar
Imitam veleiros
1 045
Paulo Henrique Góes Souza
Reminiscência
Um dia, o vento não soprará
E tu chegarás das cinzas,
Tal como Fênix
Saindo do álbum de retratos
Onde moras,
Que se foi há tempo
Nas chamas da ilusão...
Um dia, quando tu fizeres parte de mim,
E eu puder te tocar,
E fazer de ti minha mulher,
Serei eu o homem
Mais feliz de toda a corte,
Acho mesmo que de todo o mundo,
Pois voltarei ao tempo
Onde o passado será o presente,
E colherei o lírio que não te dei
E o beijo que não te roubei!...
Temo acordar de repente
E perceber em que século estou
E o olhar para as muralhas do tempo,
Aprisionando-me ao limite da memória
Onde a plena percepção chega apenas
Em forma de intuição
Nas brechas profundamente marcadas
Em minha alma...
Padeço
Pela mera possibilidade do fechamento desta fenda,
Agoira cavada por mim,
Neste instante de consciência,
Pois, se assim o for,
Perder-me-ei no amor reminiscente,
E o brilho dos teus olhos não se fará presente
Aos meus,
E tudo emudecerá,
Pois não mais ouvirei tua voz...
E tu chegarás das cinzas,
Tal como Fênix
Saindo do álbum de retratos
Onde moras,
Que se foi há tempo
Nas chamas da ilusão...
Um dia, quando tu fizeres parte de mim,
E eu puder te tocar,
E fazer de ti minha mulher,
Serei eu o homem
Mais feliz de toda a corte,
Acho mesmo que de todo o mundo,
Pois voltarei ao tempo
Onde o passado será o presente,
E colherei o lírio que não te dei
E o beijo que não te roubei!...
Temo acordar de repente
E perceber em que século estou
E o olhar para as muralhas do tempo,
Aprisionando-me ao limite da memória
Onde a plena percepção chega apenas
Em forma de intuição
Nas brechas profundamente marcadas
Em minha alma...
Padeço
Pela mera possibilidade do fechamento desta fenda,
Agoira cavada por mim,
Neste instante de consciência,
Pois, se assim o for,
Perder-me-ei no amor reminiscente,
E o brilho dos teus olhos não se fará presente
Aos meus,
E tudo emudecerá,
Pois não mais ouvirei tua voz...
898
Ona Gaia
Diferença
Nada que retorna é o mesmo
tampouco é cópia
do que sempre foi...
se você não é aquele
muito menos o será depois
pois aquele não é o mesmo
que um dia lhe pareceu que foi
tudo que retorna é o próprio
tão diferente
do que um dia foi
que aquele que um dia foi sapo
hoje é poeira
quiçá amanhã?
novamente estrela...
tampouco é cópia
do que sempre foi...
se você não é aquele
muito menos o será depois
pois aquele não é o mesmo
que um dia lhe pareceu que foi
tudo que retorna é o próprio
tão diferente
do que um dia foi
que aquele que um dia foi sapo
hoje é poeira
quiçá amanhã?
novamente estrela...
945
Renato Castelo Branco
Retorno
Um dia voltarei a ser terra
e de meu seio brotarão
flores agrestes.
Um dia voltarei a ser húmus
e nutrirei velhas árvores
de rubros frutos.
Um dia voltarei a ser pó
e água
e seiva.
E viverei em rochas,
raízes vegetais,
vagas do oceano.
Um dia eu serei
o que já fui.
e de meu seio brotarão
flores agrestes.
Um dia voltarei a ser húmus
e nutrirei velhas árvores
de rubros frutos.
Um dia voltarei a ser pó
e água
e seiva.
E viverei em rochas,
raízes vegetais,
vagas do oceano.
Um dia eu serei
o que já fui.
1 670
Carla Bianca
Dia
O relógio parou, imoral, agredindo e violentando a necessidade de um novo dia.
Peço outro sol, qualquer luz que traga delírio, gente nova, para habitar um mundo enredado por teias de aranha.
Um raio dourado, queimando a pele, ardendo nos couros, deixando um vermelho seguido por manchas.
A claridade chegando, chamando para a vida, jogando na cara a renovação.
Traiçoeiro dia, irônico que brinca com a ansiedade lançando promessas com ar descrente, falando com jeito de desmentido.
Peço outro sol, qualquer luz que traga delírio, gente nova, para habitar um mundo enredado por teias de aranha.
Um raio dourado, queimando a pele, ardendo nos couros, deixando um vermelho seguido por manchas.
A claridade chegando, chamando para a vida, jogando na cara a renovação.
Traiçoeiro dia, irônico que brinca com a ansiedade lançando promessas com ar descrente, falando com jeito de desmentido.
991
Pablo Neruda
Noite - XCV
Os que se amaram como nós? Busquemos
as antigas cinzas do coração queimado
e ali que tombem um por um nossos beijos
até que ressuscite a flor desabitada.
Amemos o amor que consumiu seu fruto
e desceu à terra com rosto e poderio:
tu e eu somos a luz que continua,
sua inquebrantável espiga delicada.
Ao amor sepultado por tanto tempo frio,
por neve e primavera, por esquecimento e outono,
acerquemos a luz de uma nova maçã,
do frescor aberto por uma nova ferida,
como o amor antigo que caminha em silêncio
por uma eternidade de bocas enterradas.
as antigas cinzas do coração queimado
e ali que tombem um por um nossos beijos
até que ressuscite a flor desabitada.
Amemos o amor que consumiu seu fruto
e desceu à terra com rosto e poderio:
tu e eu somos a luz que continua,
sua inquebrantável espiga delicada.
Ao amor sepultado por tanto tempo frio,
por neve e primavera, por esquecimento e outono,
acerquemos a luz de uma nova maçã,
do frescor aberto por uma nova ferida,
como o amor antigo que caminha em silêncio
por uma eternidade de bocas enterradas.
1 205
Geraldo Carneiro
bilacmania
livre espaço a ave aurora
as asas cantando climas céus
nuvens agora o sol o vôo
a vida o olhar (re)volta
tempo alegria de novo
as asas cantando climas céus
nuvens agora o sol o vôo
a vida o olhar (re)volta
tempo alegria de novo
970
Carlos Nóbrega
A Esperança do Deserto
Se procurares
encontrarás no deserto
um botão
encontrarás no deserto
um botão
687
Pablo Neruda
Introdução a Meu Tema
Para a Ilha de Páscoa e as presenças
parto, saciado de portas e ruas,
buscando algo que ali não perdi.
O mês de janeiro, seco,
se parece com uma espiga:
colhe do Chile sua luz amarela
até que o mar a apague
e eu parto outra vez, para regressar.
Estátuas que a noite construiu
e debulhou em um círculo fechado
para que não as visse senão o mar.
(Viajei para recuperá-las e erigi-las
em meu domicilio desaparecido.)
E aqui rodeado de presenças cinzas,
de brancura espacial, de movimento
azul, água marinha, nuvens, pedra,
recomeço as vidas de minha vida.
parto, saciado de portas e ruas,
buscando algo que ali não perdi.
O mês de janeiro, seco,
se parece com uma espiga:
colhe do Chile sua luz amarela
até que o mar a apague
e eu parto outra vez, para regressar.
Estátuas que a noite construiu
e debulhou em um círculo fechado
para que não as visse senão o mar.
(Viajei para recuperá-las e erigi-las
em meu domicilio desaparecido.)
E aqui rodeado de presenças cinzas,
de brancura espacial, de movimento
azul, água marinha, nuvens, pedra,
recomeço as vidas de minha vida.
1 115
Pablo Neruda
XX - A ilha
De outro lugares (Ceilão, Orenoco, Valdívia)
saí com lianas, com esponjas, com fios
da fecundidade, com as trepadeiras
e as negras raízes da umidade terrestre
− de ti, rosa do mar, pedra absoluta,
saio limpo, vertendo a claridade do vento −
revivo azul, metálico, evidente.
saí com lianas, com esponjas, com fios
da fecundidade, com as trepadeiras
e as negras raízes da umidade terrestre
− de ti, rosa do mar, pedra absoluta,
saio limpo, vertendo a claridade do vento −
revivo azul, metálico, evidente.
1 090
Pablo Neruda
Tarde - LVII
Mentem os que disseram que eu perdi a lua,
os que profetizaram meu porvir de areia,
asseveraram tantas coisas com línguas frias:
quiseram proibir a flor do universo.
“Já não cantará mais o âmbar insurgente
da sereia, não tem senão povo.”
E mastigavam seus incessantes papéis
patrocinando para minha guitarra o esquecimento.
Eu lhes lancei aos olhos as lanças deslumbrantes
de nosso amor cravando teu coração e o meu,
eu reclamei o jasmim que deixavam tuas pegadas,
eu me perdi de noite sem luz sob tuas pálpebras
e quando me envolveu a claridade
nasci de novo, dono de minha própria treva.
os que profetizaram meu porvir de areia,
asseveraram tantas coisas com línguas frias:
quiseram proibir a flor do universo.
“Já não cantará mais o âmbar insurgente
da sereia, não tem senão povo.”
E mastigavam seus incessantes papéis
patrocinando para minha guitarra o esquecimento.
Eu lhes lancei aos olhos as lanças deslumbrantes
de nosso amor cravando teu coração e o meu,
eu reclamei o jasmim que deixavam tuas pegadas,
eu me perdi de noite sem luz sob tuas pálpebras
e quando me envolveu a claridade
nasci de novo, dono de minha própria treva.
1 183
Mafalda Veiga
Restolho
geme o restolho triste e solitário
a embalar a noite escura e fria
e a perder-se no olhar da ventania
que canta ao tom do velho campanário
geme o restolho preso de saudade
esquecido, enlouquecido, dominado
escondido entre as sombras do montado
sem forças e sem côr e sem vontade
geme o restolho a transpirar de chuva
nos campos que a ceifeira mutilou
dormindo em velhos sonhos que sonhou
na alma a mágoa enorme, intensa, aguda
mas é preciso morrer e nascer de novo
semear no pó e voltar a colher
há que ser trigo, depois ser restolho
há que penar pra aprender a viver
e a vida não é existir sem mais nada
a vida não é dia sim dia não
é feita em cada entrega alucinada
pra receber daquilo que aumenta o coração
geme o restolho a transpirar de chuva
nos campos que a ceifeira mutilou
dormindo em velhos sonhos que sonhou
na alma a mágoa é enorme, intensa, aguda
mas é preciso morrer e nascer de novo
semear no pó e voltar a colher
há que ser trigo, depois ser restolho
há que penar pra aprender a viver
e a vida não é existir sem mais nada
a vida não é dia sim dia não
é feita em cada entrega alucinada
pra receber daquilo que aumenta o coração
a embalar a noite escura e fria
e a perder-se no olhar da ventania
que canta ao tom do velho campanário
geme o restolho preso de saudade
esquecido, enlouquecido, dominado
escondido entre as sombras do montado
sem forças e sem côr e sem vontade
geme o restolho a transpirar de chuva
nos campos que a ceifeira mutilou
dormindo em velhos sonhos que sonhou
na alma a mágoa enorme, intensa, aguda
mas é preciso morrer e nascer de novo
semear no pó e voltar a colher
há que ser trigo, depois ser restolho
há que penar pra aprender a viver
e a vida não é existir sem mais nada
a vida não é dia sim dia não
é feita em cada entrega alucinada
pra receber daquilo que aumenta o coração
geme o restolho a transpirar de chuva
nos campos que a ceifeira mutilou
dormindo em velhos sonhos que sonhou
na alma a mágoa é enorme, intensa, aguda
mas é preciso morrer e nascer de novo
semear no pó e voltar a colher
há que ser trigo, depois ser restolho
há que penar pra aprender a viver
e a vida não é existir sem mais nada
a vida não é dia sim dia não
é feita em cada entrega alucinada
pra receber daquilo que aumenta o coração
2 323
Mafalda Veiga
Ficar mais perto
Depois talvez construir
Ou navegar os dias
Pressentir
Percorrer os caminhos que houver
Há sempre uma maneira
De recomeçar
O que se quiser
Deixa-me assim refazer
Ou desfazer os rumos
Descobrir
Entender o destino que vier
Porque há sempre uma maneira
De mudar
O que se não quer
Depois talvez na incerteza
Descobrir o que está certo
E no amor
No desamor
Virar a vida do avesso
Ficar mais fundo e mais perto
Do calor
Deixa-me só seguir o rumo
De outro sentimento
Que acontecer
Nem tudo o que nos ata
Nos pode prender
Porque há sempre uma maneira
De recomeçar
O que se quiser
Há sempre uma maneira
De recomeçar
O que se quiser
Há sempre uma maneira
de recomeçar
Depois talvez na incerteza
Descobrir o que está certo
E no amor
No desamor
Virar a vida do avesso
Ficar mais fundo e mais perto
Do calor
Deixa-me só seguir o rumo
De outro sentimento
Que acontecer
Nem tudo o que nos ata
Nos pode prender
Porque há sempre uma maneira
De recomeçar
O que se quiser
Há sempre uma maneira
De mudar o que não se quer
Há sempre uma maneira
De recomeçar
Ou navegar os dias
Pressentir
Percorrer os caminhos que houver
Há sempre uma maneira
De recomeçar
O que se quiser
Deixa-me assim refazer
Ou desfazer os rumos
Descobrir
Entender o destino que vier
Porque há sempre uma maneira
De mudar
O que se não quer
Depois talvez na incerteza
Descobrir o que está certo
E no amor
No desamor
Virar a vida do avesso
Ficar mais fundo e mais perto
Do calor
Deixa-me só seguir o rumo
De outro sentimento
Que acontecer
Nem tudo o que nos ata
Nos pode prender
Porque há sempre uma maneira
De recomeçar
O que se quiser
Há sempre uma maneira
De recomeçar
O que se quiser
Há sempre uma maneira
de recomeçar
Depois talvez na incerteza
Descobrir o que está certo
E no amor
No desamor
Virar a vida do avesso
Ficar mais fundo e mais perto
Do calor
Deixa-me só seguir o rumo
De outro sentimento
Que acontecer
Nem tudo o que nos ata
Nos pode prender
Porque há sempre uma maneira
De recomeçar
O que se quiser
Há sempre uma maneira
De mudar o que não se quer
Há sempre uma maneira
De recomeçar
1 327
Mafalda Veiga
Escuro e Luar
Feitos de chão, de chuva e sonho
Fora do tempo
Despedaçado o que fica de nós
Nas batalhas sentidas cá dentro
Por isso é que eu sigo esse brilho de noite
Que é estrela ou chama
Olhar ou mar
E vou procurar essa luz
Mas só quero lá chegar contigo
Feitos de tempo em mil pedaços
De escuro e luar
Há uma noite que é escolhida pra ser
Essa noite que se há-de guardar
Por isso é que eu sigo esse brilho ou calor
Que é estrela ou chama
Ou tu em mim
E vou pra poder descobrir
Quem é que ainda sou contigo
Dispo o cansaço e recomeço
Mais uma vez
Há um sorriso que nos salva do frio
E recolhe o que a vida desfez
Se me desarmo noutro feitiço
Num outro olhar
Há um abrigo que não deixa morrer
Quem nós somos e o que temos pra dar
Por isso é que eu sigo esse brilho da noite
Que és tu em mim
Ou quem fui
E vou pra poder descobrir
Quem é que ainda sou contigo
Fora do tempo
Despedaçado o que fica de nós
Nas batalhas sentidas cá dentro
Por isso é que eu sigo esse brilho de noite
Que é estrela ou chama
Olhar ou mar
E vou procurar essa luz
Mas só quero lá chegar contigo
Feitos de tempo em mil pedaços
De escuro e luar
Há uma noite que é escolhida pra ser
Essa noite que se há-de guardar
Por isso é que eu sigo esse brilho ou calor
Que é estrela ou chama
Ou tu em mim
E vou pra poder descobrir
Quem é que ainda sou contigo
Dispo o cansaço e recomeço
Mais uma vez
Há um sorriso que nos salva do frio
E recolhe o que a vida desfez
Se me desarmo noutro feitiço
Num outro olhar
Há um abrigo que não deixa morrer
Quem nós somos e o que temos pra dar
Por isso é que eu sigo esse brilho da noite
Que és tu em mim
Ou quem fui
E vou pra poder descobrir
Quem é que ainda sou contigo
1 155
Mafalda Veiga
Una Casa
Hoy yo te encontré en una casa vieja
Tu ya te marchabas a otro lugar
No llevabas nada más que el mundo entero
Y todos los otros que vas a encontrar
Es como una história que viaja en ti
Es como un camino que se pierde
A veces despertar en una casa
Sin conocer
Ni sombras ni paredes
Y empezar de nuevo otro camino
Con eso que nadie nos puede robar
Eso que renace en el destino
Y que casi nunca sabemos nombrar
Es como una historia que viaja en ti
Los sueños que llenan cada hueco
Querer despertar en una casa
Donde se conocen todos los secretos
Hoy yo te encontré al final del dia
Respirando cielo y horizonte
Esperabas ver la primera estrella
Para decidir cual es su nombre
Y seguir la historia que viaja en ti
Los sueños que te guían cada paso
A veces despertar en una casa
Es como despertar en un abrazo
Tu ya te marchabas a otro lugar
No llevabas nada más que el mundo entero
Y todos los otros que vas a encontrar
Es como una história que viaja en ti
Es como un camino que se pierde
A veces despertar en una casa
Sin conocer
Ni sombras ni paredes
Y empezar de nuevo otro camino
Con eso que nadie nos puede robar
Eso que renace en el destino
Y que casi nunca sabemos nombrar
Es como una historia que viaja en ti
Los sueños que llenan cada hueco
Querer despertar en una casa
Donde se conocen todos los secretos
Hoy yo te encontré al final del dia
Respirando cielo y horizonte
Esperabas ver la primera estrella
Para decidir cual es su nombre
Y seguir la historia que viaja en ti
Los sueños que te guían cada paso
A veces despertar en una casa
Es como despertar en un abrazo
1 148
Emílio de Menezes
Germinal
Passou. A vida é assim: é o temporal que chega,
Ruge, esbraveja e passa, ecoando, serra a serra,
No furioso raivar da indômita refrega
Que as montanhas abala e os troncos desenterra.
Mas o pranto, afinal, que essa cólera encerra
Tomba: é a chuva que cai e que a planície rega;
E a cada gota, ali, cada gérmen se apega
Fecundando, a minar, toda a alagada terra.
Também o coração do convulsivo aperto
Da dor e das paixões, das angústias supremas,
Sente-se livre, após, a um grande choro aberto.
Alma! já que não é mister que ansiosa gemas,
Alma! fecunda enfim nas lágrimas que verto,
Possas tu germinar e florescer em Poemas!
Publicado no livro Poemas da morte (1901).
In: MENEZES, Emílio de. Obra reunida: Poemas da Morte, Poesias, Últimas Rimas, Mortalhas, Esparsos e Inéditos. Org. Cassiana Lacerda Carollo. Rio de Janeiro: J. Olympio; Curitiba: Secretaria da Cultura e do Esporte do Estado, 198
Ruge, esbraveja e passa, ecoando, serra a serra,
No furioso raivar da indômita refrega
Que as montanhas abala e os troncos desenterra.
Mas o pranto, afinal, que essa cólera encerra
Tomba: é a chuva que cai e que a planície rega;
E a cada gota, ali, cada gérmen se apega
Fecundando, a minar, toda a alagada terra.
Também o coração do convulsivo aperto
Da dor e das paixões, das angústias supremas,
Sente-se livre, após, a um grande choro aberto.
Alma! já que não é mister que ansiosa gemas,
Alma! fecunda enfim nas lágrimas que verto,
Possas tu germinar e florescer em Poemas!
Publicado no livro Poemas da morte (1901).
In: MENEZES, Emílio de. Obra reunida: Poemas da Morte, Poesias, Últimas Rimas, Mortalhas, Esparsos e Inéditos. Org. Cassiana Lacerda Carollo. Rio de Janeiro: J. Olympio; Curitiba: Secretaria da Cultura e do Esporte do Estado, 198
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Paulo Lopes da Silva
Haicai
Metamorfose
A lagarta preta
Batendo as asas, se erguendo
Vira borboleta.
Apelo à natureza
Que o clima sagrado
Cresça o fruto e o amadureça
Bem adocicado!
A lagarta preta
Batendo as asas, se erguendo
Vira borboleta.
Apelo à natureza
Que o clima sagrado
Cresça o fruto e o amadureça
Bem adocicado!
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