Angústia
Amália Bautista
Conheci um dia um homem tão estranho
Conheci um dia um homem tão estranho
que continuo a recordá-lo. Disse
que estava condenado para sempre
a suportar o peso de uma enorme
pedra sobre os seus ombros, e que nunca
a levaria até ao seu destino.
Contive a vontade de lhe dizer
“que achas que faço eu com estes fios?”
Fernando Pessoa
Como é estranho
Não o achas?... o mar, o céu, a terra,
ali! ali! ali!
Com realidade e exterioridade
E eu aqui, duvidando por os ver,
Estremunhado n'alma. Oh, horror, volte...
Não volte, não, não volte, a intuição
Do ser... Não volte que eu não gritaria.
Antegrito o senso do mistério.
Nem perante outro ser abria a voz
Para o mistério.
Fernando Pessoa
Reza por mim.
Só por mim mesmo sei enternecer-me
Sob a ilusão de amar e de sentir
Em que forçadamente me detive.
Reza por mim, por mim! Eis a que chega
A minha tentativa a querer amar.
Charles Bukowski
Comunhão
com ela a milhas de distância
rindo com um
louco
Bach e a bomba de hidrogênio
e ela a milhas de distância
rindo com um
louco
o sistema bancário
guinchos de carro
gôndolas em Veneza
e ela a milhas de distância
rindo com um
louco
você nunca viu de fato
uma escada antes
(cada degrau olhando
separadamente para você)
e do lado de fora
o vendedor de jornais parecendo
imortal
enquanto os carros passam
debaixo do sol
como um inimigo
e você se pergunta
por que é tão difícil
enlouquecer –
se é que você já não está
louco
até agora
você não tinha visto uma
escada que se parecesse com
uma escada
uma maçaneta que se parecesse com
uma maçaneta
e sons como esses sons
e quando a aranha aparece
e olha pra você
por fim
você já não a odeia
por fim
com ela a milhas de distância
rindo com um
louco.
Amália Bautista
Ela
Ela sou eu também. Mesmo sem querer,
mesmo não querendo uma nem outra,
somos uma só e a mesma. Mas ela trai-me
quando escreve por mim, quando não se conforma,
quando quer tudo.
Ela, a das lágrimas de raiva,
a que nunca te beija com meus lábios.
Fernando Pessoa
Um corpo humano!
Às vezes, eu olhando o próprio corpo
Estremecia de terror ao vê-lo
Assim na realidade, tão carnal.
Encarnação do mistério, tão próximo
Misteriosidade e transcendente
Apontar-se-(me) em mim do negro e fundo
Mistério do universo.
Fernando Pessoa
Não é o horror à morte porque raie
Nela o mistério em mim, nem venha nela
Ou o acabar-me, ou o continuar-me,
Que em qualquer cousa horrenda de diversa,
Para um pávido outro-eu me transmigrando,
Me anule para um Mais que me apavora.
Não. Não é na minha alma que os sineiros
Rebatem medos pelo que hei-de ser
É a minha carne que em minha alma grita
Horror à morte, carnalmente o grita,
Grita-o sem consciência e sem propósito,
Grita-o sem outro modo do que o medo,
Um pavor corporado, um pavor frio
Como uma névoa, um pavor de todo eu
Subindo à tona intelectual de mim.
Não temo a morte como qualquer cousa
Que eu veja ou ouça, mas como quem teme
Quando não sabe o que é que teme, e teme.
Fernando Pessoa
0 pensamento é enterrado vivo
No mundo e ali sufoca.
Sufoco em pensamento ao existir.
Oh, horror! Oh inferno verdadeiro
Passado no frio âmago desta alma
Que se encolhe e arrepia de pavor
Como querendo desaparecer
E é consciente sempre de ter vulto
Para o pavor tomar. Oh sumo horror
Que o universo (...)
Sufoco em alma! Suma-se-me a vida
E a consciência e eu deixe de pensar
De fitar o mistério e sem querer
Compreender-lhe o horror! Abra-me o sonho
Ou a loucura a tenebrosa porta
Que a treva é menos negra que esta luz.
O terror desvaria-me, o terror
De me sentir vivo e ter o mundo
Fechado a laços de compreensão
Na minha alma gelada de pavor.
Fernando Pessoa
Condenados sem fim ao erro eterno.
Porque não será isto a realidade?
Porque não há-de ser, fantasma eterno,
O abstracto e inúmero velado mundo,
Sempre velado e abstracto, a sua própria
Unidade uma imprecisão,
Um todo indefinido, e mais que um todo
Onde a verdade e o erro, pontos fixos,
Nada sejam senão um maior erro?
Fernando Pessoa
Num atordoamento e confusão
Arde-me a alma, sinto nos meus olhos
Um fogo estranho, de compreensão
E incompreensão urdido, enorme
Agonia e anseio de existência
Horror e dor, [agonia] sem fim!
Fernando Pessoa
Diálogo na Noite
E por vergonha de si própria cala
A si mesma o seu nexo! Ó vil e baixa
Porca animalidade do animal,
Que se diz metafísica por medo
A saber-se só baixa e a si dá nomes
De (...)
Ó horror metafísico de ti!
Sentido pelo instinto, não na mente,
Vil metafísica do horror da carne,
Medo do amor...
Entre o teu corpo e o meu desejo dele
Stá o abismo de seres consciente;
Pudesse-te eu amar sem que existisses
E possuir-te sem que ali estivesses!
Ah, que hábito recluso de pensar
Tão desterra o animal, que ousar não ouso
Amália Bautista
Dragões
Chegou a hora de matar o dragão,
de acabar para sempre com este monstro
de fauces terríveis e olhos de fogo.
Há que matar este dragão e todos
que à sua volta se reproduzem.
O dragão da culpa e o do espanto,
o do remorso estéril, o do ódio,
o que sempre devora a esperança,
o do medo, do frio, da angústia.
Há que matar também o que nos esmaga
de bruços contra o chão,
imóveis, cobardes, quebrados, sem raízes.
Que o sangue de todos inunde
cada parte da casa
até nos chegar à cinta.
E quando essa pilha de monstros
for só um monte de vísceras
e olhos abertos para o vazio,
enfim poderemos trepar, montar-nos sobre eles,
chegar às janelas, abri-las ou quebrá-las,
deixar entrar a luz, a chuva, o vento
e tudo o que estava retido
atrás dos vidros.
Amália Bautista
Agora
Agora que o caminho que devo percorrer
é uma passagem elevada sobre uma estrada
que dá medo olhar, porque
me chama o abismo implacável.
Agora que a esperança está morta
como um pássaro atirado do ninho
por irmãos mais fortes.
Agora que é noite todo o dia,
inverno todo o ano
e as semanas só têm segundas,
onde olhar, onde pôr os olhos,
que não encontre os olhos da morte?
Fernando Pessoa
O que é haver haver? Porque é que o que é
É isto que é? Como é que o mundo é mundo?
Ah, o horror de pensar, como que súbito
Desconhecer onde estou.
Fernando Pessoa
Não fales alto que isto aqui é vida —
Vida e consciência dela,
Porque a noite avança, estou cansado, não durmo,
E, se chego à janela
Vejo, de sob as pálpebras da besta, os muitos lugares das estrelas...
Cansei o dia com esperanças de dormir de noite,
É noite quase outro dia. Tenho sono. Não durmo.
Sinto-me toda a humanidade através do cansaço —
Um cansaço que quase me faz carne os ossos...
Somos todos aquilo...
Bamboleamos, moscas, com asas presas,
No mundo, teia de aranha sobre o abismo.
Amália Bautista
Desconheço ainda que crime fiz
Desconheço ainda que crime fiz,
o que estou a pagar com este exílio.
Lembro-me apenas de tecer a teia
entre os ramos de uma frondosa árvore
que crescia no centro do jardim.
Estava cheia de frutos dourados
e pelo seu tronco andava uma serpente.
Fernando Pessoa
Sucata de alma vendida pelo peso do corpo,
Se algum guindaste te eleva é para te despejar...
Nenhum guindaste te eleva senão para te baixar.
Olho analiticamente sem querer, o que romantizo sem querer...
Fernando Pessoa
THE CURTAIN
That in the world is known to be,
Mute-horrid as impending thunder,
From eyes unsensual that would see
Behind it things for more than wonder -
A curtain past whose living folds
His court of shadows Horror holds.
And he that curtain who shall part
But in his mind, will feel the heart
Grow weak before the irony
That Nothingness pains more the heart
Than things that are or seem to be,
That Nothingness can give a fear,
A sorrow nothing can give here.
Amália Bautista
Xerazade
Levo já quase mil noites com fábulas
e a cabeça dói-me e tenho seca
a língua e esgotados os recursos,
a imaginação. E nem sequer
sei se me salvarei com as mentiras.
Fernando Pessoa
Uma voz como um suspiro:
Não é mais profundo
Do que o pensamento
O enigma do mundo!
Quem sabe, quem sabe!
Horror, ai horror!
Se também ser basta,
Voraz pensador!
Mais frio, mais doido
O mistério será
Do que tu achaste!
Se ainda haverá,
Além do Além,
Horror mais horror!
Também deliraste,
Oh monstro de Dor!
Depressa, depressa,
Lembremos enfim:
Pensar é viver,
Mistérios e dor,
Sonhar e descrer
Horror, tudo horror!
Numa noite sem fim.
Fernando Pessoa
...e desse referver me veio
Mudo aniquilamento da vontade
Paralisada pelo (...) excesso
Do poder do desejo, mesmo sobre
A imaginada força do poder.
Fernando Pessoa
Há entre mim e o real um véu
À própria concepção impenetrável.
Não me concebo amando, combatendo,
Vivendo como os outros. Há em mim,
Uma impossibilidade de existir
De que [abdiquei], vivendo.
Mário-Henrique Leiria
POEMA
que há um lugar por descobrir
um lugar tenebroso e cantante
como a ponte dos velhos manequins
aí
o teu corpo
dois seios despedaçados
e o vento só o vento
soprado através
dos teus cabelos
Rui Costa
breve ensaio sobre a potência 9
não há literatura. ainda não se
fala do que vai acontecer. há um
vento agora que lhe seca a pele
mas ele não concebe. este homem
é um fantasma calmo descansando
na margem. ainda não é o sonho,
é uma luz romba e baça fustigada.