Poemas neste tema

Angústia

Mauricio Segall

Mauricio Segall

Descalço e nu

Descalço
e nu
na escuridão de cada madrugada,
quando meus olhos em água
nem conseguem enxergar a caminhada,

Do quarto à sala
da sala ao quarto

Tropeço minha maratona,
treinando não sei por que
nem para que medalha
só pensando chegar à alvorada.
960
Mauricio Segall

Mauricio Segall

Gostaria de Chegar

Gostaria
de chegar ao século vinte e um
cavalgando um rojão de velas
acompanhado da minha fada
aureolada por uma chuva de estrelas.

Por isto é que é tão, tão triste,
meu braço desnudo, já com a lua desligada,
explorar todo universo
e encontrar somente o frio da alvorada.

Com quem despertar na manhã seguinte?
eis a angústia que me testa
pois não sei se paga a pena
afrontar, gelado, o resto de vida que ainda resta.

770
Nauro Machado

Nauro Machado

Caxangá

Há um desespero
real na palavra
um desespero contra o desespero
enlouquecido em tudo que é palavra
incapaz de dizer o real nela,
e um desespero dentro, um desespero
da palavra assentada na palavra,
da palavra assentada nela mesma,
canal e boca de uma angustia virgem,
de um dia novo contra a noite fora
envolvendo de luto os nomes todos:
antônio, ténis, sonho, árvore, morte.
sombra dentro de sombra, mas girando
em rodopio eterno, o pião da sombra,
o que fazer da voz, senão clamar
em uivos de absurda sombra , á noite
geradora de braços e destroços
vogando intérminos no extinto brado?

1 497
Angela Santos

Angela Santos

Inércia

Como
onda que se tivesse desfeito
sem mais regressar à maré
olho-me…
estendida na praia em que me desfiz

Nem um desejo macula a limpidez
do vazio
sinto-me movimento mecânico
que algo anima,
mas será que vibra ?

Não sei porque se desfaz a gente
e se cansa em nós a vida
quando o sol está a pino
e é pleno Verão ainda.

1 403
Angela Santos

Angela Santos

O Rosto da Verdade

Rasgam-se
os olhos
diante das feridas descobertas
esmaga-se a indiferença
frente ao rosto da verdade

Granítico e implacável
o rosto da verdade
como espectro sobrevoa
entra pelo coração
pelos sentidos, pelos poros.

Já tem nome o que sinto:
dor de viver,
não a sente o vivo-morto

928
Angela Santos

Angela Santos

Dúvida


não sei se vivo
se minha alma se agita
e leva o que de mim resta
a passear por aí…

Não sei se a alma vive
e vivendo anima o corpo,
ou quem sabe…
se o corpo em seu simples movimento
é que chama a alma
à Vida.

569
Angela Santos

Angela Santos

Mordaça

Quanto
grito amordaçado
à garganta preso trago …
quanto desejo amortalhado
sem razão
quanto de mim renegado
à força de um qualquer não.

Força em tumulto
que me traz inquieta
e a ânsia em sinais que não decifro,
grades douradas que não quis
e contudo vivo.

1 186
Angela Santos

Angela Santos

Ausência

Falta-me
O norte
Uma estrela
O caminho
Faltam-me os olhos
Com que me olhe
Falta-me a razão
De saber razões
Falta-me o instante
A mão que rasgue
semeie
Falta-me o quê?

1 090
Angela Santos

Angela Santos

Desnorte

Irrompe
à força
este sentir que não sei,
não domino,
e em canto brota em mim
o grito

meus passos agitam-se
nas sombras do caminho,
meus braços animam-se
ensaiando gestos,
amputados na busca
contorcidos na forma de abraçar

meus olhos,
silenciados mares
drenaram torrentes,
esgotaram seu sal.

e a besta acoitada em mim
rasga o que esperei
e em pedaços me devolve
a vida.

1 131
Angela Santos

Angela Santos

Pedaços

São
vários os pedaços espalhados
por dentro e por fora de mim

São vários os pedaços dispersos
sem pontes ou laços

E a ténue visão de me desdobrar
na multiplicidade tangente e vaga

Tantos os pedaços tanta a dispersão
que eu já não sei
qual deles sou mais
qual deles mais sinto

1 141
Angela Santos

Angela Santos

Por Dentro

Dentro
do meu peito
há um grito que não solto
um espinho que não cravei
uma espada
que não quis
voltada contra o que sou

Dentro do meu peito
há uma ave que não voa
da janela sem horizonte
onde pousada ficou

Dentro do meu peito
há um sol em declínio
uma gaveta fechada
onde guardei os sentidos
e a chave que a abriria
perdeu-se ou enferrujou.
Dentro do meu peito
emparedado há um rio
galgando as margens
que o prendem
na senda da sua foz…

e indómito busca caminho
sem saber se vai chegar
à boca desse mar imenso
que se liga a outro mar.

1 167
Angela Santos

Angela Santos

Mundo

Tudo
me lembra o imundo
e de beleza é a sede
dos meus olhos
de cada fibra do meu corpo
de cada nervo que me percorre

Tudo me lembra o imundo
e cada gesto, cada rosto
cada palavra
renova a lembrança da náusea

Sacode o meu corpo um leve estertor
e numa sonata de luz
lavo os resquícios
da sujidade humana que trago em mim.

1 077
Fiama Hasse Pais Brandão

Fiama Hasse Pais Brandão

Nada tão silencioso como o tempo

Nada tão silencioso como o tempo
no interior do corpo. Porque ele passa
com um rumor nas pedras que nos cobrem,
e pelo sonoro desalinho de algumas árvores
que são os nossos cabelos imaginários.
Até nas íris dos olhos o tempo
faz estalar faíscas de luz breve.

Só no interior sem nome do nosso corpo
ou esfera húmida de algum astro
ignoto, numa órbita apartada,
o tempo caladamente persegue
o sangue que se esvai sem som.
Entre o princípio e o fim vem corroer
as vísceras, que ocultamos como a Terra.

Trilam os lábios nossos, à semelhança
das musicais manhãs dos pássaros.
Mesmo os ouvidos cantam até à noite
ouvindo o amor de cada dia.
A pele escorre pelo corpo, com o seu correr
de água, e as lágrimas da angústia
são estridentes quando buscam o eco.

Mas não sentimos dentro do coração que somos
filhos dilectos do tempo e que, se hoje amamos,
foi depois de termos amado ontem.
O tempo é silencioso e enigmático
imerso no denso calor do ventre.
Guardado no silêncio mais espesso,
o tempo faz e desfaz a vida.
2 202
Angela Santos

Angela Santos

Desta Vez

Cansei
-me de olhar o horizonte
com olhos perdidos
vazios de amanhã

Cansei-me de sentir a vida
como coisa esquecida
tão longe do alcance da mão
Cansei-me de ficar no lugar
onde não estou
perdida dentro do que sou

Cansei de me negar
nas vestes do simulacro
do que em mim é
do que em mim quer

Cansei, cansei…
Vou sair daqui.

1 046
Ymah Théres

Ymah Théres

Sonata

Ao Poeta Francisco Carvalho

O corpo - presilha verde
na rede da vida imersa
pouco a pouco se dissipa
dos loucos búzios, dos mares.

Vira um lago, uma enseada
em que os espelhos transmigram
o corpo - corpo bebido
de veneno, morte lenta.

O corpo - metade breve
de arlequinadas memórias
nos mastros ocres da angústia
na devassa de ilusão.

Irmão vencido na guerra
das horas por sobre as horas
dos anos idos, dos vindos
o corpo - flor decepada.

Da haste, um relógio-pênsil
que se alteia e se debruça
nos movediços da argila
o corpo - ferida aberta.

Bola de neve que o tempo
brinca brinca de escurar
jasmim que perde seu viço
o corpo - luz que se apaga.

Dos imos do coração
uma canção que trescala
o corpo, breve que passa
no arranho da solidão.

904
Angela Santos

Angela Santos

O Grito

O
que me assusta
é esta imensidão
dentro de mim a espraiar-se
este saber-me só
sem outra alma ao alcance
do grito

1 101
Ruy Belo

Ruy Belo

Regresso

Não não mereço esta hora
eu que todo o dia fui habitado por tantas vozes
que exerci o comércio num mercado de palavras
Não mereço este frio este cheiro tudo isto
tão antigo como os meus olhos
talvez mais antigo que os meus olhos



Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 36 | Editorial Presença Lda., 1984
1 167
Ruy Belo

Ruy Belo

Terrível horizonte

Olhai agora ao cair quotidiano da tarde
a linha humana dessa fronte
Aí qualquer coisa começa
Não há na natureza à volta tão terrível horizonte
nem nada que se pareça.



Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 21 | Editorial Presença Lda., 1984
1 197
Ruy Belo

Ruy Belo

Certa conditio moriendi

Os poetas todos fitaram a morte
e reuniram-se depois numa assembleia de riso
para esquecer quem eram
Mas era a morte a única saída


Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 41 | Editorial Presença Lda., 1984
1 171
Armando Freitas Filho

Armando Freitas Filho

Micro

Boca de rato. Morte.
Não há saída viva da vida.
Murmúrio de rádio através dos muros.
Vozes miúdas
roendo por dentro
no dia-a-dia
de mordidas mínimas e minuciosas.

16 nov. 89


In: FREITAS FILHO, Armando. Cabeça de homem, 1987/1990. Pref. Luiz Costa Lima. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1991. (Poesia brasileira)
1 322
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Puseram-me uma tampa —

Puseram-me uma tampa —
Todo o céu.
Puseram-me uma tampa.

Que grandes aspirações!.
Que magnas plenitudes!
E algumas verdadeiras...
Mas sobre todas elas
Puseram-me um tampa.
Como a um daqueles penicos antigos —
Lá nos longes tradicionais da província —
Uma tampa.
1 586
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Estou vazio como um poço seco

Estou vazio como um poço seco
Não tenho verdadeiramente realidade nenhuma
Tampa no esforço imaginativo!
1 690
Almandrade

Almandrade

II

O tema ronda
a lógica
invade
a língua
disparidades
não faz
insiste
inquebrável
ao menos
não diz
a razão
é um pensamento
sem saída.

1 019
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Uma Noite Caída

você saiu, ela disse,
e então deu um chute no carro deste cara
e então você se jogou em cima de um arbusto
esmagou todo o
arbusto,
não sei nada do porquê de sua
agonia
mas não acha que já era hora de ir a um analista?
tenho um analista que é o bicho, você ia
gostar dele.
me responda, ela disse,
eu me preocupo com a polícia quando você
age assim, sou muito paranoica com essa coisa de
polícia.
me responda, ela disse, por que você
age dessa maneira?
escute, ela disse, você quer que eu vá
embora?
depois que ela se foi, peguei uma cadeira e
joguei na janela. havia vidro por
toda a parte e as esquadrias também se
partiram.
quantas feras mortas flutuam e caminham de Gales a
Los Angeles?
1 034