Poemas neste tema
Angústia
Zazé
Dias
Há dias que chegam
Branco, claros,
Envoltos em luz de esperança
Por uma paz que não tenho.
Canto solitário do meu olhar
Que abarca o rio, a serra, o mar.
Ah, que força é esta que me move?
Donde vem?
Branco, claros,
Envoltos em luz de esperança
Por uma paz que não tenho.
Canto solitário do meu olhar
Que abarca o rio, a serra, o mar.
Ah, que força é esta que me move?
Donde vem?
768
Lívia Araújo
Senta e Espera
A angústia
em repouso
Do meu ardor o ensejo
É quando em ti o olhar pouso
Eu não mais fujo, eu só te vejo.
Alegre ou triste, tens nos olhos um segredo
Que engana a todos e me engana
Quando me negas um beijo.
É então que me alimentas a chama.
Com loucura de quem ama,
Corro, canso, caio, arquejo
Eu me equivoco, não me chamas
Mas é a ti que desejo.
em repouso
Do meu ardor o ensejo
É quando em ti o olhar pouso
Eu não mais fujo, eu só te vejo.
Alegre ou triste, tens nos olhos um segredo
Que engana a todos e me engana
Quando me negas um beijo.
É então que me alimentas a chama.
Com loucura de quem ama,
Corro, canso, caio, arquejo
Eu me equivoco, não me chamas
Mas é a ti que desejo.
819
António Ramos Rosa
Entre Dois Espaços Entre Duas Sombras
Entre dois espaços entre duas sombras
as pálpebras abriram-se no caminho
entre dois espaços entre duas sombras?
no vento oscila uma lâmpada vazia
as pálpebras abriram-se no caminho
entre dois espaços entre duas sombras?
no vento oscila uma lâmpada vazia
1 109
António Ramos Rosa
Sob a Palha do Sol As Sílabas
Sob a palha do sol as sílabas
soçobravam
intensidade próxima da cegueira
no cérebro da terra as fissuras abriam-se
e a boca sem caminho o seio sem o outro seio
nas lajes sem contacto à superfície nua
no obscuro deserto
de basalto
soçobravam
intensidade próxima da cegueira
no cérebro da terra as fissuras abriam-se
e a boca sem caminho o seio sem o outro seio
nas lajes sem contacto à superfície nua
no obscuro deserto
de basalto
1 036
Reinaldo Ferreira
Onde, aguardando, esperasse
Onde, aguardando, esperasse,
Onde, cantando, me ouvisse,
Onde, podendo, bastasse,
Onde, vivendo, existisse.
Onde o intuito trouxesse
O corpo de se cumprir
E eu todo sempre me desse,
Aí seria também
De exílio a minha atitude.
O que é longe é sempre o Bem,
Por mais que a alma se mude.
Onde, cantando, me ouvisse,
Onde, podendo, bastasse,
Onde, vivendo, existisse.
Onde o intuito trouxesse
O corpo de se cumprir
E eu todo sempre me desse,
Aí seria também
De exílio a minha atitude.
O que é longe é sempre o Bem,
Por mais que a alma se mude.
1 739
António Ramos Rosa
O Tronco: o Tronco do Tronco
O tronco: o tronco do tronco
na boca
sem saliva
na boca
sem saliva
1 159
António Ramos Rosa
Os Dedos E Os Dentes
Os dedos e os dentes
sem mãos
sem boca
sem mãos
sem boca
517
António Ramos Rosa
Quase
Quase
a garganta forte a respiração do tronco
obsessão branca
a casa do nome
com o vento das ervas
e o fogo sem o nome
a garganta forte a respiração do tronco
obsessão branca
a casa do nome
com o vento das ervas
e o fogo sem o nome
1 067
António Ramos Rosa
Precipício: Vento Na Face
Precipício : vento na face
um nome
a lâmina de um nome
um nome
a lâmina de um nome
535
António Ramos Rosa
Uma Figura Na Profundidade
Uma figura na profundidade
no centro móvel foge
e deixa um intervalo de luz
uma obscura arcada para os dedos
na intensidade da luz ou do escuro
Parte-se a serpente se
e são pedaços
vivos na noite que se agitam
no centro móvel foge
e deixa um intervalo de luz
uma obscura arcada para os dedos
na intensidade da luz ou do escuro
Parte-se a serpente se
e são pedaços
vivos na noite que se agitam
1 067
António Ramos Rosa
Dançam Mas Não Na Praia Dançam Apenas Não Se Sabe
Dançam mas não na praia Dançam apenas não se sabe
o quê numa orla nocturna móvel Deserto na praia A
terra perdeu todos os sinais As únicas referências
são as do jogo Um obscuro combate para quê?
O que roçam os dedos ou o que eles segregam é um
muro de névoa ou uma muralha de astros
o quê numa orla nocturna móvel Deserto na praia A
terra perdeu todos os sinais As únicas referências
são as do jogo Um obscuro combate para quê?
O que roçam os dedos ou o que eles segregam é um
muro de névoa ou uma muralha de astros
1 023
António Ramos Rosa
Algo Se Duplica
Algo se duplica
e inclina-se
refracta-se
num novo espaço em que se recompõe
Vertigem densa angústia do não igual de um outro qual?
O acaso decisivo
e o gesto imprevisível
negam ao espaço a multidão de imagens
e inclina-se
refracta-se
num novo espaço em que se recompõe
Vertigem densa angústia do não igual de um outro qual?
O acaso decisivo
e o gesto imprevisível
negam ao espaço a multidão de imagens
980
António Ramos Rosa
Acende-Se Algo Na Garganta
Acende-se algo na garganta
A língua distensa ainda verde
dirá talvez o odor da tempestade
e o silvo terrífico nas chaminés
Mas o que está a arder tão baixo
é quase imperceptível
quase nulo
como este voo raso sobre o vazio
A língua distensa ainda verde
dirá talvez o odor da tempestade
e o silvo terrífico nas chaminés
Mas o que está a arder tão baixo
é quase imperceptível
quase nulo
como este voo raso sobre o vazio
985
António Ramos Rosa
Trazem As Marcas do Suor da Noite
Trazem as marcas do suor da noite
Trazem a noite
E são já a noite
na velocidade branca desta escrita
Nulos impenetráveis (habitáveis lâmpadas?)
perdidos nos seus nomes
perdidos vivos
Não são já eles e são eles que
Trazem a noite
E são já a noite
na velocidade branca desta escrita
Nulos impenetráveis (habitáveis lâmpadas?)
perdidos nos seus nomes
perdidos vivos
Não são já eles e são eles que
1 078
António Ramos Rosa
As Pernas São o Grito
As pernas são o grito
no rosto no ventre A língua
contra a língua
ou antes as duas línguas que a destroem
Vertigem dos limites
contra a vertigem
Explosão esta figura
ao atingir a superfície branca
no rosto no ventre A língua
contra a língua
ou antes as duas línguas que a destroem
Vertigem dos limites
contra a vertigem
Explosão esta figura
ao atingir a superfície branca
1 046
António Ramos Rosa
Secreta E Branca
Secreta e branca
agita-se
sem flancos
à beira do vazio
agita-se
sem flancos
à beira do vazio
1 187
António Ramos Rosa
Há Quem Procure…
Há quem procure sob abóbadas e abóbadas
um reflexo de sol
há quem procure com a respiração rouca
o silêncio de um nome
a denotação de uma pedra
Há quem procure na trama da distância
uma hélice para uma boca
há quem se erga entre destroços e sementes apodrecidas
para escrever no solo com as mandíbulas crispadas
um nome sem sombra
Há quem destine à modulação de algumas cores
a forma viva e voraz de uma mulher
e encontre só o branco ferozmente árido
há quem procure com antenas incandescentes
uma espádua de álcool na abstracção das areias
Há quem julgue que já não há tempo para reflectir
na noite sem veias
e caminhe de encontro a um muro negro
há quem tenha perdido a sensação do intacto
e procure ainda uma lâmpada mas as lâmpadas extinguiram-se
há quem se decida a não esperar a não ouvir a não chamar
um reflexo de sol
há quem procure com a respiração rouca
o silêncio de um nome
a denotação de uma pedra
Há quem procure na trama da distância
uma hélice para uma boca
há quem se erga entre destroços e sementes apodrecidas
para escrever no solo com as mandíbulas crispadas
um nome sem sombra
Há quem destine à modulação de algumas cores
a forma viva e voraz de uma mulher
e encontre só o branco ferozmente árido
há quem procure com antenas incandescentes
uma espádua de álcool na abstracção das areias
Há quem julgue que já não há tempo para reflectir
na noite sem veias
e caminhe de encontro a um muro negro
há quem tenha perdido a sensação do intacto
e procure ainda uma lâmpada mas as lâmpadas extinguiram-se
há quem se decida a não esperar a não ouvir a não chamar
1 037
Sierguéi Iessiênin
Pobre escrevinhador, é tua
Pobre escrevinhador, é tua
A sina de cantar a lua?
Há muito o meu olhar definho
No amor, nas cartas e no vinho.
Ah, a lua entra pelas grades,
A luz tão forte corta os olhos.
Eu joguei na dama de espadas
E só me veio o ás de ouros.
1 007
Lalla Romano
Até o ar está morto
Até o ar está morto
o céu é como uma pedra
Os pássaros não sabem mais voar
atiram-se como cegos
dos beirais dos tetos
:
Anche l'aria è morta
il cielo è come una pietra
Gli uccelli non sanno più volare
si buttano come ciechi
giù dall'orlo dei tetti
754
Adão Ventura
Natal
um natal lerdo
num lençol de embira
mesmo qu´uma fonte
de estimada ira.
um menino lama
num anzol que fira
algum porte e corpo
e alma de safira.
um menino cápsula
de tesoura e crime
— ritual de crisma
sem fé ou parafina.
um menino-corpo
de machado e chão
a arrastar cueiros
de chistes e trovão.
num lençol de embira
mesmo qu´uma fonte
de estimada ira.
um menino lama
num anzol que fira
algum porte e corpo
e alma de safira.
um menino cápsula
de tesoura e crime
— ritual de crisma
sem fé ou parafina.
um menino-corpo
de machado e chão
a arrastar cueiros
de chistes e trovão.
1 288
Luiza Neto Jorge
Difícil Poema de Amor
Separo-me de ti nos solstícios de verão, diante da mesa do juiz supremo
dos amantes. Para que os juízes me possam julgar, conhecerão primeiro o
amor desonesto infinito feito de marés ambulantes de espinhos nas pálpebras
onde as ruas são os pontos únicos do furor erótico e onde todos os pontos
únicos do amor são ruas estreitíssimas velocíssimas
que se percorrem como um fio de prumo sem oscilação.
Ontem antes de ontem antes de amanhã antes de hoje antes deste
número-tempo deste número-espaço uma boca feita de lábios alheios beijou.
Precipício aberto: ele nada revela que tu já não saibas.
Porque este contágio de precipícios foste tu que mo comunicaste
maléfico como um pássaro sem bico.
Num silêncio breve vestiu-se a cidade. Muito bom-dia querido
moribundo. Sozinho declaraste a terceira grande paz mundial quando abrindo
os olhos me deste de comer cronometricamente às mil e tantas horas da
manhã de hoje.
Deito-me cedo contigo o meu sono é leve para a liberdade acordas-
-me só de pensares nela. As casas e os bichos apoiam-se em ti. Não fujas não
te mexas: vou fixar-te para sempre nessa posição.
Que há? Abrem-se fendas no ar que respiro vejo-lhe o fundo. Tens os
olhos vasados. Qual de nós os dois "quero-Te" gritou?
Bebe-me espaçadamente encostada aos muros. Se és poeta que fazes tu?
Comes crianças jogas ases sentado és uma estátua de pé a cauda de um cometa.
Mães entretanto vão parindo. Os filhos morrerão ainda? Entregas-te a
cálculos. Amas-me demais.
Confesso: não sei se sou amada por ti.
Virás
quando houver uma fala indestrutível devolvida à boca dos mais vivos. Então
virás
vivo também. Sempre esperei ver-te ressuscitado. Desiludiste-me.
E iremos com o plural de nós nos leitos menores onde o riso, onde o
leito do rio é um filho entre os dois. Que farei de teus braços de meus cabelos
benignos que faremos?
Nasci-te da minha pele com algumas fêmeas te deitei por vezes.
Conheces-me. Não me tens amor
Grave esta corda cortada agudo seixo me ataste aos olhos para me
afundar.
Só por grande angústia me condenas à morte se de mim te veio a cidade
e os minúsculos objectos que já amaste ou que irás amar um dia espero.
Ah a cratera o abismo eléctrico!
Por isso o teu novo amor será comigo mais perigoso que este imaculado
com mais visco de amor cópula mortal.
Calo-me.
Reparei de repente que não estavas aqui. Pus-me a falar a falar. Coisas
de mulher desabitada. Sei que um dia desviarei sem ti os passeios rectos
esvaziarei os gordos manequins falantes. A razão é uma chapa de ferro
ao rubro: se acredito na tua morte começo o suicídio.
Enquanto penetrantemente te espero a luz coalhou. Os pássaros
coalharam enquanto te espero. O leite enquanto te espero coalhou. Haverá
outro verbo?
Submersa, muito distante de qualquer inferno de um paraíso qualquer existo
eu. Existirão tais palavras?
É a altura de escrever sobre a espera. A espera tem unhas de fome, bico
calado, pernas para que as quer. Senta-se de frente e de lado em qualquer
assento. Descai com o sono a cabeça de animal exótico enquanto os olhos se
fixam sobre a ponta do meu pé e principiam um movimento de rotação em
volta de mim em volta de mim de ti.
Nunca te conheci - assim explico o teu desaparecimento. Ou antes:
separei-me de ti no solstício de um verão ultrapassado. As mulheres viajavam
pela cidade completamente nuas de corpo e espírito. Os homens mordiam-
-se com cio. Imperturbável pertenceste-me. Assim nos separámos.
Não calhasse morrer um de nós primeiro que o outro porque ambos ao
mesmo tempo será impossível enquanto não houver relógios que meçam
este tempo e as horas fielmente se adiantarem e atrasarem.
Alguma vez pretendi dizer-te o que quer que fosse? Falava por paixão
por tibieza por desgosto por claridade por frio por cansaço
nunca por pretender dizer o que quer que fosse.
Não me desculpo. Se já me cai o cabelo se já não sinto os ombros é
porque o amor é difícil ou a minha cabeça uma pedra escura que carrego
sobre o corpo a horas e desoras ostentando-a como objecto público sagrado
purulento. O odor que as pedras têm quando corpos. O apocalipse de tudo
quando amamos. O nosso sangue em pó tornado entornado.
O teu amor espreita o meu corpo de longe. De longe por gestos
lhe respondo. Tenho raízes nos vulcões ternuras íntimas medos reclu-
-sos beijos nos dentes.
A pobreza surge dentro de nós embora cautelosos deitados de manhã e
de tarde ou simplesmente de noite despertos. Ambos meu amigo estamos
sentados neste momento perfeitamente incautos já. Contemplamos um país
e sentamo-nos e vestimo-nos e comemos e admiramos os monumentos e
morremos.
Inventei a nossa morte em toda a impossível extensão das palavras.
Aterrorizei-me segundos a fio enquanto em corpo nu ouvindo-me ador-
-mecias devagar.
Com a precaução de quem tem flores fechadas no peito passeei de noite
pela casa. Um fantasma forçou uma porta atrás de mim. Gemendo como um
animal estrangulado acordei-te.
Enterro o meu terror como um alfange na terra. Porque é preciso ter
medo bastante para correr bastante toda a casa celebrar bastantes missas negras
atravessar bastante todas as ruas com demónios privados nas esquinas.
Só o amor tem uma voz e um gesto mesmo no rosto da ideia que me
impus da morte.
És tu tão único como a noite é um astro.
Sobre a poeira que te cobre o peito deixo o meu cartão de visita o meu
nome profissão morada telefone.
Disse-te: Eis-me.
E decepei-te a cabeça de um só golpe.
Não queria matar-te. Choro. Eis-me! Eis-me!
2 879
Luís Filipe Castro Mendes
Bichos da terra tão pequenos
Bichos da terra tão pequenos,
esgravatando à roda do mundo,
atarantados, sem rumo: só e apenas isso,
agora e em todos os tempos.
esgravatando à roda do mundo,
atarantados, sem rumo: só e apenas isso,
agora e em todos os tempos.
1 035
Donizete Galvão
Fachada
Logo vai terminar o prazo
para o homem construir sua fachada.
Ele continua em andaimes.
Provisório.
Exibe máscaras cambiantes.
Sua face inconclusa,
sustentada por ferragens,
parece esconder que,
em todos esses anos de obra,
ergueram-se inúteis plataformas
para edificar um escombro.
1 537
Charles Baudelaire
A BEATRIZ
Num solo hostil, crestado e cheio de aspereza,
Enquanto eu me queixava um dia à natureza,
E de meu pensamento ao acaso vagando
Fosse o punhal no coração sem pressa afiando,
Em pleno dia eu vi, sobre a minha cabeça,
Prenúncio de borrasca, uma nuvem espessa,
Trazendo um bando de demônios maliciosos,
Semelhantes a anões perversos e curiosos.
Entreolham-se a mirar-me, aguda e friamente,
E, como o povo que na rua olha um demente,
Eu ps via rir, entre si cochichando,
Piscando os olhos e também sinais trocando:
Contemplemos em paz essa caricatura
Que do fantasma de Hamlet imita a postura,
Os cabelos ao vento e o ar sempre hesitante.
Não causa pena ver agora esse farsante,
Esse idiota, esse histrião ocioso, esse indigente,
Que seu papel de artista ensaia à nossa frente,
Querer interessar, cantando as suas dores,
Os grilos, os falcões, os córregos e as flores,
E mesmo a nós, que concebemos esses prólogos,
Aos berros recitar na praça os seus monólogos?
Com meu orgulho sem limite, eu poderia
Domar a nuvem dos anões em gritaria,
Deles desviando a fronte esplêndida e serena,
Caso não visse erguer-se, em meio à corja obscura
- Crime que até a própria luz do sol abala! -
A deusa a cujo olhar outro nenhum se iguala,
Que com eles de minha angústia escarnecia,
E às vezes um afago imundo lhes fazia.
(Tradução
de Ivan Junqueira)
Enquanto eu me queixava um dia à natureza,
E de meu pensamento ao acaso vagando
Fosse o punhal no coração sem pressa afiando,
Em pleno dia eu vi, sobre a minha cabeça,
Prenúncio de borrasca, uma nuvem espessa,
Trazendo um bando de demônios maliciosos,
Semelhantes a anões perversos e curiosos.
Entreolham-se a mirar-me, aguda e friamente,
E, como o povo que na rua olha um demente,
Eu ps via rir, entre si cochichando,
Piscando os olhos e também sinais trocando:
Contemplemos em paz essa caricatura
Que do fantasma de Hamlet imita a postura,
Os cabelos ao vento e o ar sempre hesitante.
Não causa pena ver agora esse farsante,
Esse idiota, esse histrião ocioso, esse indigente,
Que seu papel de artista ensaia à nossa frente,
Querer interessar, cantando as suas dores,
Os grilos, os falcões, os córregos e as flores,
E mesmo a nós, que concebemos esses prólogos,
Aos berros recitar na praça os seus monólogos?
Com meu orgulho sem limite, eu poderia
Domar a nuvem dos anões em gritaria,
Deles desviando a fronte esplêndida e serena,
Caso não visse erguer-se, em meio à corja obscura
- Crime que até a própria luz do sol abala! -
A deusa a cujo olhar outro nenhum se iguala,
Que com eles de minha angústia escarnecia,
E às vezes um afago imundo lhes fazia.
(Tradução
de Ivan Junqueira)
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