Poemas neste tema

Angústia

Francisco Nóbrega

Francisco Nóbrega

Solidão Amena

Malfazeja flor entre os homens
e os campinas humanas desgarradas,
rosa garrida com pétalas desfolhadas,
sombra perdida em horizontes sem fim,
tristeza alada...

Carregada com cores da sarjeta,
resplandeces, contudo, os tons da madrugada,
refúgio pobre de poeta angustiado,
prenhe de inspiração e ansiedade,
dor amada...

Amiga és dos puros, dos padres e dos poetas,
dos que labutam em claustro próprio,
gerando idéias, amargando sonhos,
e que ao fim deste clausura haja,
alegria ansiada...

Qual recato que conduz a dor d’alma,
escapando das mundanas vãs querelas,
arrematas teu leito de esperanças
ao encontro da luz anunciada,
amiga aureolada...

Mitigas a dor aos seres criadores,
na jornada sombria em que sua vida passa,
abrigo afetuoso de peregrinos escritores,
bálsamo amado com mágoas camufladas,
promessa sonhada...

Hás de levar-me aos cimos montanhosos,
donde se alcança o compreender sublime,
descortinando o mistério em plenitude,
amorizando o sonho de uma vida,
paz alcançada.

742
Francisco Carvalho

Francisco Carvalho

O Tempo nos Desfolha

O tempo nos desfolha
com sua foice de murmúrios

somos o rebanho de cabras
pastando o caos

somos os tufos de relva
nas frestas da rocha
batida pelo mar

onde a nau de Ulisses
ainda ancora

somos a escória do mito
a rota em que navega
a nossa penúria.

1 103
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Um Final Plausível

deveria haver algum lugar para onde ir
quando você não consegue mais dormir
ou você cansou de ficar bêbado
e a erva não funciona mais,
e não me refiro a passar
para o haxixe ou cocaína,
eu me refiro a um lugar para ir além
da morte que está esperando
ou do amor que não funciona
mais.
deveria haver algum lugar para onde ir
quando você não consegue mais dormir
além de um aparelho de TV ou um filme
ou comprar um jornal
ou ler um romance.
é não ter esse lugar para onde ir
que cria as pessoas agora nos hospícios
e os suicídios
suponho que aquilo que a maioria das pessoas faz
quando não há mais lugar algum para onde ir
é ir a qualquer lugar ou fazer qualquer coisa
que dificilmente as satisfaça,
e esse ritual tende a aplainá-las
até que consigam prosseguir de algum modo
mesmo sem esperança.
essas caras que você vê todos os dias nas ruas
não foram criadas
inteiramente sem
esperança: seja generoso com elas:
assim como você
elas não
escaparam.
776
Frederico Barbosa

Frederico Barbosa

Rarefato

Outra trilogia do tédio

I

Nenhuma voz humana aqui se pronunciachove um fantasma anárquico, demolidor

amplo nada no vazio deste desertoanuncia-se como ausência, carne em unha

odor silencioso no vento escarpacorte de um espectro pousando na água

tudo que escoa em silêncio em tempo ecoa

II

Sentia o término correndo nas veias.Há pressa: via.Houve um momento grave.(O filme era ruim. O cinema, lotado.Na luz neblina, escondido, um cigarro.)Impossível escapar ao pânico,prever o vazio provável.De repente: o estalo.Terminal,a consciência do zero rondando.Estado, condição, estado.Abre:

III

Dominado pela pedra, insone,descolorido, o crime principianas altas horas de noite vaziaganha corpo no decorrer do dia.

Ganha corpo no decorrer do dia,dominado pela pedra insonedor de náusea delicada e infame,das altas horas da noite vazia.

Dor de náusea delicada, infame,nas altas horas na noite vaziaganha corpo no decorrer, no diadominada pela pedra, insone.

Ganha corpo no decorrer do dia,dor de naúsea delicada e infamedescolorido, o crime principiaalia-se ao tédio impune e some.

Poema em espanhol
1 466
Felipe d’Oliveira

Felipe d’Oliveira

O Epitáfio que Não Foi Gravado

Todos sentiram quando a morte entrou
com um frêmito apressado de retardatária.

A que tinha de morrer, — a que a esperava, —
fechou os olhos
fatigados de assistirem ao mal-entendido da vida.

Os que a choravam sabiam-na sem pecado,
consoladora dos aflitos,
boca de perdão e de indulgência,
corpo sem desejo,
voz sem amargor.

A que tinha de morrer fechou os olhos fatigados,
mas tranqüilos...
Porque os que a choravam nunca saberiam
o rancor sem perdão de sua boca,
o desejo saciado de seu corpo,
o amargor de sua voz,
a sua angústia de arrastar até o fim a alma postiça que lhe fizeram,
o seu cansaço imenso de abafar, secretos, na carne ansiosa,
a perfeição e o orgulho de pecar.

A que tinha de morrer fechou os olhos para sempre
e os que a choravam
nunca souberam de alguém que foi de todos junto ao leito à hora do exausto coração parar
o mais distante,
o mais imóvel,
o que não soluçou
o que não pôde erguer as pálpebras pesadas,
o que sentiu clamar no sangue o desespero de sobreviver,
o que estrangulou na garganta o grito dilacerado do solitário,
o que depôs, sobre a serenidade da morte purificadora,
a redenção do silêncio,
como uma pedra votiva de sepulcro.

1 487
Francisco Carvalho

Francisco Carvalho

Lição de Espaço

O homem no espaço
é a sombra de Sísifo.

O espectro da esfinge
O vertigem do tísico.

O homem no espaço
é a pedra no vértice.

A folha que tomba
1no vórtice.

1 077
Frei Agostinho da Cruz

Frei Agostinho da Cruz

§ Perdi-me dentro em mim

Perdi-me dentro em mim, como em deserto,
Minha alma está metida em labirinto,
Contino contradigo o que consinto,
Cem mil discursos faço, em nada acerto.

Vejo seguro o dano, o bem incerto;
Comigo porfiando me desminto,
O que mais atormenta, menos sinto,
O que me foge, quando está mais certo.

E se as asas levanta o pensamento
Àquela parte, onde está escondida
A causa deste vario movimento,

Transforma-se por não ser conhecida,
Porque quer a pesar do sofrimento
Pôr as armas da morte em mão da vida.
667
Frei Agostinho da Cruz

Frei Agostinho da Cruz

LXIV Ao pecado original

Se sendo, meu Senhor, por vós formado
Adão, antes de ser o mal nascido,
Pecou, que fará quem foi concebido
Nas entranhas, que já tinham pecado?

Comer de um fruito só lhe foi vedado,
Tudo o mais a seu gosto concedido,
E por uma só vez haver caido,
Por muitas ser não posso levantado.

Tão fraca ficou minha natureza,
Que levantar não deixa o pensamento
Da terra, a que está atada e presa,

Tão imiga do meu merecimento,
Que se morder não pode na pureza,
Não deixa de ladrar um só momento.
718
Gabriel Archanjo de Mendonça

Gabriel Archanjo de Mendonça

Sêmen

Não quero poluir
os lírios do campo
com minhas entranhas.
A concha encravada
no estrado dos mares
contenha as sombras estéreis
da minha matéria.

O fruto impossível
do amor impassível
aguarde por sempre
seu tempo de vida.

A inerte semente
que habita o meu sangue
desfaça-se em gotas
para acrescer o mistério
do abismo das águas.

933
José Paulo Paes

José Paulo Paes

O POETA, AO ESPELHO, BARBEANDO-SE

o rito
do dia
o ríctus
do dia
o risco
do dia
EU?
UE?
586
Flávio Villa-Lobos

Flávio Villa-Lobos

Norte

Minha fome é outra.
Não aquela que abre um buraco negro
no estômago
- vazio invisível,
que da boca algum alimento
lácteo - via esôfago -
cessa prontamente
até a próxima angústia.

Minha fome é outra.
Não um simples estar-no-mundo,
como disse Drummond
- o universo para mim
é pouco.
Minha fome salta como louca,
labareda intrépida
num incêndio grandioso.

Ela me devorará
ainda que eu entregue os pontos;
a eternidade é uma tosca
linha de partida
no horizonte, a cegar-me o olho.

Sim, minha fome é outra
- indigesta, não toca
as iguarias da estalagem.
Não tem nome,
nem forma, nem nada.
Apenas remove
montanhas, ajudando-me a vencer
o caminho penoso
sem jamais perder de vista
a paisagem.

868
Gabriela Cunha Melo Cavalcanti

Gabriela Cunha Melo Cavalcanti

Realidade

Realidade, por que és tão difícil de ser encarada?
Por que fazes questão de mostrar tua face mais amarga, a mais oculta, a mais sacrificada pelo tempo?
O que tens de tão incômodo contra o nosso amigo sonho , que faz-te parecer assim, desagradável?
Será uma necessidade subjetiva tornar-te tão maçante?
Ou faz parte do espetáculo da vida enxergar-te de forma angustiante?

Entre tantas das tuas facetas, carregas sempre contigo a saudade e a melancolia? Carregas sempre contigo a vontade de respeitar uma nova realidade?
Tens, por acaso, espaço para criar? Ou ainda sobrevives naquele medo tão antigo do desejo de mudar?

Terás tu ansiedade de novos conhecimentos?
Ou estás acomodada nas tuas já conhecidas emoções?
Falta-te coragem, caríssima realidade ? E logo tu, que afrontas a todos de maneira ímpia, com tanta volúpia !
Faz a ti mesma esta imensa caridade, procura os "porquês" de tão intensa realidade !!!
1 067
Flávio Villa-Lobos

Flávio Villa-Lobos

Separação

Que estranho sentimento é este
que nos arrebata ferozmente
- sangria aberta
em postas de sangue virtual -
vergalhando a alma alquebrada,
chibata onipresente
do invisível feitor?

A dor que nos une
é a mesma do amor
quando se presume
o golpe final.

771
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

74. Porque Não o Encontro E Não o Encontro

74
Porque não o encontro e não o encontro
aquém da força de que vive o pulso
aquém da face e da figura o esplendor.

Porquê a árvore oculta sob a árvore
a pedra não soando e sem a cor e sem
a força do sinal de pedra e o fogo

sem a mão do afago e tudo em vão
no vão de tudo ser o encontro aquém do encontro
a presença perdida na presença.
942
Gabriel Archanjo de Mendonça

Gabriel Archanjo de Mendonça

Fastio

Mais noites hão de vir
que as que se foram?
Os braços rejeitados
aguardam
o desmoronamento protelado.

A angústia do nada
não logra vencer a ampulheta.
As portas não são ainda
o assomo do consumado.

826
Reinaldo Ferreira

Reinaldo Ferreira

Que estranha, a nossa verdade

Que estranha, a nossa verdade!
Às vezes, partida a meio,
Minha ilusória unidade,
Pensando, sinto, pensei-o.

Mas quando penso o que penso
Estou-o pensando também.
Na vertigem, não me venço
E recuo e vou além

Daquilo pra que há defesa.
Feliz quem pode parar
Onde a certeza é certeza
E pensar é só pensar!

1 970
Reinaldo Ferreira

Reinaldo Ferreira

No amplo e ermo degredo

No amplo e ermo degredo
Da Noite enorme incriada,
Acesso ao átrio do medo,
Reverso a negro do Nada.

Erra uma asa, partida,
Dum qualquer pássaro morto,
Que só porque erra tem vida
No mar do nada sem porto.

É quando passa e projecta
Na Sombra sombra erradia
Que nasce a mãe dum poeta
E se concebe a poesia.

1 921
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

85. Vagos Sinais Dentes Na Pedra

85
Vagos sinais     dentes na pedra
sem solução de árvore
marcação de um traço único

este, não o rosto, este
limite que não transponho que
não tem além o além o fogo azul

e

que nenhuma sombra atravessou
porque subsiste ou não algum ardor
porque os dentes enterram-se na pedra.
515
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

86. Desobstruindo o Espaço Só Esta Mancha

86
Desobstruindo o espaço só esta mancha
e esta casa sem fogo é apenas uma marca
e esta pedra o sinal da busca
e esta pedra e esta pedra.

Uma pergunta: que espaço
ou casa
para a alegria para a livre força?

Dando lugar ao espaço    à luz
e estas pedras sem cinza
esta mas não esta marca
quase feroz tão inútil ou tão certa?
857
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

84. a Incerteza E a Certeza Dessa Escrita

84
A incerteza e a certeza dessa escrita
não filha de um futuro
na folha     chamamento
dilacerante e no entanto mudo.

E que incerta insistência, fogo vago
sobre casas desertas, sobre quartos
de insectos
quanta inércia quantas pálpebras

caídas     e a sombra
de um só corpo se existisse
a dúvida criando este suporte.
1 001
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

87. o Sol Sobre a Pedra a Marca Verde

87
O sol sobre a pedra a marca verde
a resolução do ar     a erva
só com a cabeça deserta

porquê? porquê e não porquê
com o sol nos cabelos com o sol
entre as árvores e sem a alegria
dos animais e a água.

Entrando na espessura sob as manchas
do silêncio sem amor mas no silêncio
das folhas eu vivo pelas pedras.
928
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Dói-Me Uma Noite de Terra Sobre a Fronte

Dói-me uma noite de terra sobre a fronte

mínimo coral nocturno     suspensão presente

— promontório

sem a memória das imagens

no círculo

dos derradeiros insectos
990
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

O Que Permanece Ainda Enterrado Pobre

O que permanece ainda enterrado     pobre

no vazio nocturno

minha terra latente

no tempo sem sinais em que os sinais prolongam

os sulcos de uma sombra maquinal e branca

e o meu desejo é uma imagem

minúscula

uma pobre frase com duas árvores nuas
972
Reinaldo Ferreira

Reinaldo Ferreira

Porque a não tenho? Tão doce

Porque a não tenho? Tão doce
E tão ao pé de acabar!
Largando, como se fosse
Um barco novo a chegar!

Quisera-a, para brinquedo
Da minha vã meninice.
Nem brincaria, com medo
Que ela, de frágil, partisse.

Bastava só que ficasse
Mito a roçar-se no Fim
E o seu sorriso acalmasse
A angústia dentro de mim.

2 001