Poemas neste tema

Angústia

Susana Thénon

Susana Thénon

Amor

Agora conhece o que assovia o sangue
à noite
como a escura serpente extraviada.
907
Susana Thénon

Susana Thénon

Um

Te dizer
que eu sou mais 1
dentro do NÃO mundo.
Te dizer
idiomas com espinhos sob as unhas.
Te dizer
nada
para você algo quase nada.
942
Alfredo José Assunção

Alfredo José Assunção

Mais uma Abstração

Não quero música.Não quero amor.Não quero tempo, espaço ...

Quero ficar aquiouvindo os carros,vendo o mar parado.

Sentindo os pingos frioscaindo-me nos pés,fechando-me as mãos.

Não quero intervir em nada.Quero apenas ser mais uma abstração.

689
Susana Thénon

Susana Thénon

Nomes

Na desolação do meu sangue,
sob a angústia que me cega
eu busco nomes para meu amor:
meu amo quase ódio,
apenas sol.
787
Susana Thénon

Susana Thénon

A Sós

É certo:
A seriedade de seu sorriso.
Imagina-se a sós
com tanto grito à sua volta?
O tempo caminha entre os perfumes,
destampa um frasco, perde minutos a deixar morrer
entre os trajes para meio vivos,
como recém afogados.
Compreendo:
os gritos silenciados,
os peixes, nascimento perpétuo.
Antes, uma vez...
Ninguém nunca saberá.
Imagina-se a sós
com tanto abismo à sua volta?
583
Susana Thénon

Susana Thénon

O Morto

Seu rosto murmura
minhas fases não são doces,
como um esporte a pele mergulha
e a boca explode em redemoinhos do tempo.
A terra canta
Sobre meu nariz golpeado.
Como uma festa saltam os olhos
embora a morte deva ser quietude.
Como verdes loucos fugitivos da noite
minhas mãos são inflamáveis.
803
Alfredo José Assunção

Alfredo José Assunção

Querer

Quero me ser , não me deixam.Quero te ter , não me deixo.Às vezes até querer quero ,sem saber poder querer.

Querer te ser pra me conquistar.Querer te ser pra me aconselhara então aprender a me serpara saber me deixar te ter.

891
Susana Thénon

Susana Thénon

Ela

Pela madrugada
(ela se deu conta das mãos).
Pela madrugada, apenas.
Ela lembra que nada importa
embora sua sombra siga correndo
em volta da noite.
Algo se deteve em algum momento
algo marchava debilmente
e se deteve em algum momento.
Ela tremeu como um som
congelado entre os lábios de um morto.
Ela se desvaneceu como uma lembrança
evocada até a saciedade.
Ela se dobrou sobre sua respiração
e compreendeu que ainda vivia.
Deu-se conta da liberdade
e a deixou escorrer como uma pequena noite.
Amarrou a angústia ao redor do pescoço
e lembrou sua cor desaparecida.
Ela mordeu às cegas na escuridão
e escutou gritar o silêncio.
E aprendeu a rir
do cheiro antigo que dava adeus a seu sangue.
Pela noite
(ela cortou as mãos).
Pela noite, apenas.
Ela recolhe seu pequeno ocaso.
Ela sonha na ereção da rosa.
810
Susana Thénon

Susana Thénon

Resto

Ficam os movimentos elementares
do sangue
e o rosto, espelho cego
onde se precipita o meio-dia.
Ficam as mãos, apenas,
suavemente desenhadas
nas costas negras do ar.
Ficam as palavras, não a música,
não o rumor equidistante do sol
quando faz noite, dor e medo.
Ficam os animaizinhos cansados
de golpear, cara e estio,
em sua jaula de ossos.
715
Nuno Júdice

Nuno Júdice

Soneto 3

Duvido dos espelhos, não sei ler os reflexos.
Ponho-me de joelhos à procura dos nexos
e é tudo disperso. Há sentidos que estão gastos
no percurso do verso; ecos ocos e vastos.

Falam-me da música, mas não a procuro.
O que escrevo tem um tom grave e escuro.
Dir-me-ão que devo satisfazer o desejo,
pôr-me de rstos, esquecer o pejo;

passar a estrofe como quem derruba um muro.
Poderei acaso esquecer o que vejo?
A poesia é um continente submerso,

falta-me o ar para continuar a nadar.
Entra-me água nos pulmões por um furo
e as rimas asfixiam-me no fundo do mar


Nuno Júdice | "A partilha dos mitos", pág. 52 | Na regra do jogo, 1982
595
Nuno Júdice

Nuno Júdice

Última ceia

Com que monotonia penso em mim;
sentimento distante, que me põem à frente,
na mesa, já frio e sem gosto. Mas vou
comendo, sem pressa, este prato
indigesto; e, a cada garfada, antecipo
a dor de estômago que me irá encher
de pesadelos a noite. Eu: pesada
refeição que não desejo,
mas me puseram à frente.


(E se disser que não como?)


Nuno Júdice | "Meditação sobre Ruínas", 1994
1 447
Bocage

Bocage

Sobre estas duras, cavernosas fragas

Sobre estas duras, cavernosas fragas,
Que o marinho furor vai carcomendo,
Me estão negras paixões n'alma fervendo
Como fervem no pego as crespas vagas;

Razão feroz, o coração me indagas.
De meus erros a sombra esclarecendo,
E vás nele (ai de mim!) palpando, e vendo
De agudas ânsias venenosas chagas.

Cego a meus males, surdo a teu reclamo,
Mil objectos de horror co'a ideia eu corro,
Solto gemidos, lágrimas derramo.

Razão, de que me serve o teu socorro?
Mandas-me não amar, eu ardo, eu amo;
Dizes-me que sossegue, eu peno, eu morro.

5 436
Leonardo Aires Araujo

Leonardo Aires Araujo

Rostos,restos de roda vão mochilando

Rostos,restos de roda vão mochilando

Rostos,restos de roda vão mochilando
Vagas rasas de uma paixão catedrática
Contidas,minhas vozes estão cadeirando.
Temo papéis de uma relva drástica.
Não há sentido nas rosas que um dia nunca flutuou

862
Leonardo Aires Araujo

Leonardo Aires Araujo

Domingo

Domingo

Casas vazias
Ruas vazias

Lugares cheios
Cheios de pessoas vazias
Com ocupações vazias

Ruas cheias
Casas cheias
A atmosfera está cheia de uma alegria triste

Ô dia vazio!

1 080
Florbela Espanca

Florbela Espanca

Para quê?

Ao velho amigo João

Para que ser o musgo do rochedo
Ou urze atormentada da montanha?
Se a arranca a ansiedade e o medo
E este enleio e esta angústia estranha

E todo este feitiço e este enredo
Do nosso próprio peito? E é tamanha
E tão profunda a gente que o segredo
Da vida como um grande mar nos banha?

Pra que ser asa quando a gente voa
De que serve ser cântico se entoa
Toda a canção de amor do Universo?

Para que ser altura e ansiedade,
Se se pode gritar uma Verdade
Ao mundo vão nas sílabas dum verso?
1 930
Nuno Júdice

Nuno Júdice

A incerteza

A incerteza cai com a tarde
no limite da praia. Um pássaro
apanhou-a, como se fosse
um peixe, e sobrevoa as dunas
levando-a no bico. O
seu desenho é nítido, sem
as sombras da dúvida ou
as manchas indecisas da
angústia. Termina com a
interrogação, os traços do fim,
o recorte branco das ondas
na maré baixa. Subo a estrofe
até apanhar esse pássaro
com o verso, prendo-o à frase,
para que as suas asas deixem
de bater e o bico se abra. Então,
a incerteza cai-me na página, e
arrasta-se pelo poema, até
me escorrer pelos dedos para
dentro da própria alma.
1 781
Cândido da Velha

Cândido da Velha

As idades da pedra - I

É do mar que vêm estas vozes
silabando a linguagem das marés,
gravando na areia estranhas grafias
onde, quem sabe ver, desvenda o rumo
no sobressalto das ondas.

Este permanente arfar marinho
desperta a ressonância de oculto escuro
de obscuros templos submersos onde o coração,
descompassadamente, se perturba
na iminência do segredo revelado.

Cheiros de primeira pâtria,
nesta urgência de sal em nossos membros,
atrai as pegadas para a líquida planura
pela saudade de verde glauco
que estira o corpo na fronteira do mar.

Reminiscência da primeira voz,
neste marulhar à concha dos ouvidos,
desperta nossa cólera e angústia
de malograda fuga e de nos vermos,
na babugem das águas, de olhos vítreos,
adormecidos peixes sobre a areia.
1 140
Luís Amaro

Luís Amaro

Intermédio

Alguém que se ignora
Passeia a sua mágua
Lá pela noite fora.

Já sem saber se existe,
Entre silêncio e treva,
Nem alegre nem triste,

Alguém que a própria sorte
Enjeita, vai absorto
Num sonho que é a morte
E é vida — sendo morto.

(In Antologia de Poetas Alentejanos,
de Orlando Neves)

976
David Mestre

David Mestre

África

É neste silêncio neste assalto do vento a
navegar a floresta neste sol neste amor
neste vegetal cobrir-me de verde e ser
catana cerce a executar o ânimo
afagar as mulheres no regresso da lavra
fazer das mãos a festa sonora do sexo
na cultivação do milho

É neste grito rente ao corpo frágil das
folhas que mais em ti me venço e
moro nas grandes batalhas da vida
no extenso vale das nossas angústias
no duelo cíclico das nossas intenções
1 248
J. Ribamar Matos

J. Ribamar Matos

Silêncio

Pouco te importa o meu sofrer insano
e que eu viva, afinal, como hoje vivo,
nessa angústia de pássaro cativo,
a andar de desengano em desengano!

Já não tenho ilusões nem mais me engano
com a minha existência sem motivo,
pois não creio em, depois, ver redivivo
o vigor de outros tempos, espartano.

Ver-me-ás, entretanto, silencioso e mudo,
nem um lamento de meu lábio triste
ouvirás nunca mais, depois de tudo!

Calado e triste há de me ver agora,
sem o vigor de quando tu surgiste,
tecendo versos pela vida a fora...

1 018
João Rui de Sousa

João Rui de Sousa

Poema Contíguo ao Ódio

Que gelado sopro nos agita
do lado de dentro das ruas?

Que rápida vertigem nos domina
nesta agudíssima manhã?

Este vento que nos queimaestas veias mais quentes
Estes longos minutos que sacodem o rosto
Estes ponteiros gigantes que nos marcam os séculos
Estes rios de sal que abrem sulcos nos ossos

Esta raiva que nos corta estas lâminas nos lábios
Estes vidros de silêncio que nos enchem a boca
Estes deuses que sorriem estas lágrimas mais puras
Estes grandes traços negros de trânsito impedido

1 198
Monteiro Santos

Monteiro Santos

Tudo treme

tudo treme
neste poiso de espanto breve.

apresso a palavra e digo país:

e o teu corpo se despenha vertical
aqui entre as cordas desta febre.

digo espaço e as águas demoram.

de que me servem dedos
no contorno estéril da mão?
936
Laura Amélia Damous

Laura Amélia Damous

Circo

Avanço e recuo
ao estalido da dor
Me curvo
para os aplausos da platéia
Alguém pede bis
Sangro até morrer

849
António Gancho

António Gancho

Tu és mortal meu Deus

Noite, vem noite
sobre mim sobre nós
dá o repouso absoluto de tudo
traz peixes e abismos para nos abismar
mostra o sono traz a morte
e vem noite por detrás de nós e sobre nós
e escreve com o teu negro
a morte que há em nós.
Livra-nos e perdoa-nos tudo
redime-nos os pecados
e enforca os nossos rostos em teu nome
1 530