Poemas neste tema
Angústia
Fernando Pessoa
Nunca, por mais que viaje, por mais que conheça
Nunca, por mais que viaje, por mais que conheça
O sair de um lugar, o chegar a um lugar, conhecido ou desconhecido,
Perco, ao partir, ao chegar, e na linha móbil que os une,
A sensação de arrepio, o medo do novo, a náusea –
Aquela náusea que é o sentimento que sabe que o corpo tem a alma,
Trinta dias de viagem, três dias de viagem, três horas de viagem –
Sempre a opressão se infiltra no fundo do meu coração.
31/12/1929
O sair de um lugar, o chegar a um lugar, conhecido ou desconhecido,
Perco, ao partir, ao chegar, e na linha móbil que os une,
A sensação de arrepio, o medo do novo, a náusea –
Aquela náusea que é o sentimento que sabe que o corpo tem a alma,
Trinta dias de viagem, três dias de viagem, três horas de viagem –
Sempre a opressão se infiltra no fundo do meu coração.
31/12/1929
2 333
Fernando Pessoa
Na casa defronte de mim e dos meus sonhos,
Na casa defronte de mim e dos meus sonhos,
Que felicidade há sempre!
Moram ali pessoas que desconheço, que já vi mas não vi.
São felizes, porque não são eu.
As crianças, que brincam às sacadas altas,
Vivem entre vasos de flores,
Sem dúvida, eternamente.
As vozes, que sobem do interior do doméstico,
Cantam sempre, sem dúvida.
Sim, devem cantar.
Quando há festa cá fora, há festa lá dentro.
Assim tem que ser onde tudo se ajusta –
O homem à Natureza, porque a cidade é Natureza.
Que grande felicidade não ser eu!
Mas os outros não sentirão assim também?
Quais outros? Não há outros.
O que os outros sentem é uma casa com a janela fechada,
Ou, quando se abre,
É para os crianças brincarem na varanda de grades,
Entre os vasos de flores que nunca vi quais eram.
Os outros nunca sentem.
Quem sente somos nós,
Sim, todos nós,
Até eu, que neste momento já não estou sentindo nada.
Nada? não sei...
Um nada que dói...
16/06/1934
Que felicidade há sempre!
Moram ali pessoas que desconheço, que já vi mas não vi.
São felizes, porque não são eu.
As crianças, que brincam às sacadas altas,
Vivem entre vasos de flores,
Sem dúvida, eternamente.
As vozes, que sobem do interior do doméstico,
Cantam sempre, sem dúvida.
Sim, devem cantar.
Quando há festa cá fora, há festa lá dentro.
Assim tem que ser onde tudo se ajusta –
O homem à Natureza, porque a cidade é Natureza.
Que grande felicidade não ser eu!
Mas os outros não sentirão assim também?
Quais outros? Não há outros.
O que os outros sentem é uma casa com a janela fechada,
Ou, quando se abre,
É para os crianças brincarem na varanda de grades,
Entre os vasos de flores que nunca vi quais eram.
Os outros nunca sentem.
Quem sente somos nós,
Sim, todos nós,
Até eu, que neste momento já não estou sentindo nada.
Nada? não sei...
Um nada que dói...
16/06/1934
2 268
Jorge Melícias
Há a boca pisada de pedras,
e o remorso
é uma parede mordida pelo eco.
A mulher fechou-se no quarto
com a noite entre as mãos.
Está funda na casa.
Mas partidas todas as lâmpadas
a cegueira é ainda uma forma de ver.
de Iniciação ao Remorso(1998)
é uma parede mordida pelo eco.
A mulher fechou-se no quarto
com a noite entre as mãos.
Está funda na casa.
Mas partidas todas as lâmpadas
a cegueira é ainda uma forma de ver.
de Iniciação ao Remorso(1998)
1 143
Philip Larkin
I work all day, and get half-drunk at night
I work all day, and get half-drunk at night.
Waking at four to soundless dark, I stare.
In time the curtain-edges will grow light.
Till then I see whats really always there:
Unresting death, a whole day nearer now,
Making all thought impossible but how
And where and when I shall myself die.
Arid interrogation: yet the dread
Of dying, and being dead,
Flashes afresh to hold and horrify.
The mind blanks at the glare. Not in remorse
-- The good not done, the love not givenn, time
Torn off unused -- nor wretchedly because
An only life can take so long to climb
Clear of its wrong beginnings, and may never;
But the total emptiness for ever,
The sure extinction that we travel to
And shall be lost in always. Not to be here,
Not to be anywhere,
And soon; nothing more terrible, nothing more true.
This is a special way of being afraid
No trick dispels. Religion used to try,
That vast moth-eaten musical brocade
Created to pretend we never die,
And specious stuff that says No rational being
Can fear a thing it will not feel, not seeing
That this is what we fear -- no sight, no sound,
No touch or taste or smell, nothing to think with,
Nothing to love or link with,
The anaesthetic from which none come round.
And so it stays just on the edge of vision,
A small unfocused blur, a standing chill
That slows each impulse down to indecision.
Most things may never happen: this one will,
And realisation of its rages out
In furnace-fear when we are caught without
People or drink. Courage is no good:
It means not scaring others. Being brave
Lets no one off the grave.
Death is no different whined at than withstood.
Slowly light strengthens, and the room takes shape.
It stands plain as a wardrobe, what we know,
Have always known, know that we cant escape,
Yet cant accept. One side will have to go.
Meanwhile telephones crouch, getting ready to ring
In locked-up offices, and all the uncaring
Intricate rented world beings to rouse.
The sky is white as clay, with no sun.
Work has to be done.
Postmen like doctors go from house to house.
Waking at four to soundless dark, I stare.
In time the curtain-edges will grow light.
Till then I see whats really always there:
Unresting death, a whole day nearer now,
Making all thought impossible but how
And where and when I shall myself die.
Arid interrogation: yet the dread
Of dying, and being dead,
Flashes afresh to hold and horrify.
The mind blanks at the glare. Not in remorse
-- The good not done, the love not givenn, time
Torn off unused -- nor wretchedly because
An only life can take so long to climb
Clear of its wrong beginnings, and may never;
But the total emptiness for ever,
The sure extinction that we travel to
And shall be lost in always. Not to be here,
Not to be anywhere,
And soon; nothing more terrible, nothing more true.
This is a special way of being afraid
No trick dispels. Religion used to try,
That vast moth-eaten musical brocade
Created to pretend we never die,
And specious stuff that says No rational being
Can fear a thing it will not feel, not seeing
That this is what we fear -- no sight, no sound,
No touch or taste or smell, nothing to think with,
Nothing to love or link with,
The anaesthetic from which none come round.
And so it stays just on the edge of vision,
A small unfocused blur, a standing chill
That slows each impulse down to indecision.
Most things may never happen: this one will,
And realisation of its rages out
In furnace-fear when we are caught without
People or drink. Courage is no good:
It means not scaring others. Being brave
Lets no one off the grave.
Death is no different whined at than withstood.
Slowly light strengthens, and the room takes shape.
It stands plain as a wardrobe, what we know,
Have always known, know that we cant escape,
Yet cant accept. One side will have to go.
Meanwhile telephones crouch, getting ready to ring
In locked-up offices, and all the uncaring
Intricate rented world beings to rouse.
The sky is white as clay, with no sun.
Work has to be done.
Postmen like doctors go from house to house.
1 073
Fernando Pessoa
Pouco me importa.
Pouco me importa.
Pouco me importa o quê? Não sei: pouco me importa.
24/10/1917
Pouco me importa o quê? Não sei: pouco me importa.
24/10/1917
3 562
Henri Michaux
Labyrinthe
Labyrinthe
Labyrinthe, la vie, labyrinthe, la mort
Labyrinthe sans fin, dit le Maître de Ho.
Tout enfonce, rien ne libère.
Le suicidé renaît à une nouvelle souffrance.
La prison ouvre sur une prison
Le couloir ouvre un autre couloir:
Celui qui croit dérouler le rouleau de sa vie
Ne déroule rien de tout.
Rien ne débouche nulle part
Les siècles aussi vivent sous terre, dit le Maître de Ho.
Labyrinthe, la vie, labyrinthe, la mort
Labyrinthe sans fin, dit le Maître de Ho.
Tout enfonce, rien ne libère.
Le suicidé renaît à une nouvelle souffrance.
La prison ouvre sur une prison
Le couloir ouvre un autre couloir:
Celui qui croit dérouler le rouleau de sa vie
Ne déroule rien de tout.
Rien ne débouche nulle part
Les siècles aussi vivent sous terre, dit le Maître de Ho.
1 146
Paulo Teixeira
Heaven underneath the arches
O medo, o cansaço dos sismos quotidianos
leva-me à rua, aí onde só vive quem
não suporta ver o crepúsculo de casa.
Fora espera por mim a luz do céu londrino
e a noite abortiva de sono. Esse rumor
escuro da beleza que de longe me acena
como um semáforo ou um sinal de perigo.
Sem lei passeio até Embankment a minha
angústia civilizada. Aí o laser trespassa
a noite com a sua flora esverdeada,
as suas fitas mortuárias. Com uma fúria
obstinada estendo e recolho os braços
em dádiva e aceitação do que vem,
corpo dedilhado à toa nas cocheiras
até se gravar como uma paisagem sumariamente
perdida para sempre no negativo da visão.
Entre as farpas da música, nesse desespero verde
e polido que sulca a noite, perco-me o nome
e o rasto. Fora, a lua podia ser o meu caixão.
leva-me à rua, aí onde só vive quem
não suporta ver o crepúsculo de casa.
Fora espera por mim a luz do céu londrino
e a noite abortiva de sono. Esse rumor
escuro da beleza que de longe me acena
como um semáforo ou um sinal de perigo.
Sem lei passeio até Embankment a minha
angústia civilizada. Aí o laser trespassa
a noite com a sua flora esverdeada,
as suas fitas mortuárias. Com uma fúria
obstinada estendo e recolho os braços
em dádiva e aceitação do que vem,
corpo dedilhado à toa nas cocheiras
até se gravar como uma paisagem sumariamente
perdida para sempre no negativo da visão.
Entre as farpas da música, nesse desespero verde
e polido que sulca a noite, perco-me o nome
e o rasto. Fora, a lua podia ser o meu caixão.
609
Jorge Melícias
O poema são fogueiras levantadas na
gargantaou um sono inclinado sobre as facas.Alguém
diz,a prumotodos os nomes queimam,e há uma
deflagração assombrosa,a palavra acende-se com
uma àrvore de sangue ao centro.
de A Luz nos Pulmões(2000)
diz,a prumotodos os nomes queimam,e há uma
deflagração assombrosa,a palavra acende-se com
uma àrvore de sangue ao centro.
de A Luz nos Pulmões(2000)
756
Renato Rezende
O Alto
Subo o Pão de Açúcar.
Subo o Corcovado.
E quero lançar-me lá de cima
acabar com tudo
num vôo de liberdade.
Mas me sento nas escadas
que brilham
e queimam a carne.
É alto o desespero
nesta cidade.
Apesar da claridade
visto de cima
tudo
é tranqüila fatalidade.
A cidade é frágil.
A cidade é um brinco.
Fácil, o mar se une ao lago.
Vamos todos morrer afogados.
Finjo
que não sei de nada
e não reajo.
Rio de Janeiro, 4 de abril 1997
Subo o Corcovado.
E quero lançar-me lá de cima
acabar com tudo
num vôo de liberdade.
Mas me sento nas escadas
que brilham
e queimam a carne.
É alto o desespero
nesta cidade.
Apesar da claridade
visto de cima
tudo
é tranqüila fatalidade.
A cidade é frágil.
A cidade é um brinco.
Fácil, o mar se une ao lago.
Vamos todos morrer afogados.
Finjo
que não sei de nada
e não reajo.
Rio de Janeiro, 4 de abril 1997
699
Daniel Jonas
UMA SAISON NOS INFERNOS
Tudo é breve: um deus,
o plâncton, o ferro.
O meu poema é uma miséria
comparado com o teu nome
no edital.
A voragem dos grandes estúdios,
a saída dos operários da fábrica,
a grande depressão
dos trinta anos:
Eu bebo
porque se não beber
não conduzo
este corpo a casa.
o plâncton, o ferro.
O meu poema é uma miséria
comparado com o teu nome
no edital.
A voragem dos grandes estúdios,
a saída dos operários da fábrica,
a grande depressão
dos trinta anos:
Eu bebo
porque se não beber
não conduzo
este corpo a casa.
731
1
Renato Rezende
O Bicho
Me misturo ao mundo absurdo,
como do mundo, e me pergunto
onde mais encontrar comida
que sustente espírito e músculos.
Que sustente espírito e tudo
que de mim quer fugir do mundo.
No turbilhão da vida
penso na morte.
Será que na hora da morte
vou querer a vida?
Sou uma alma em sua jaula.
Rio de Janeiro, 8 de outubro 1997
como do mundo, e me pergunto
onde mais encontrar comida
que sustente espírito e músculos.
Que sustente espírito e tudo
que de mim quer fugir do mundo.
No turbilhão da vida
penso na morte.
Será que na hora da morte
vou querer a vida?
Sou uma alma em sua jaula.
Rio de Janeiro, 8 de outubro 1997
666
Alexei Bueno
Pergunta
Será realmente a face do universo
a face da Medusa,
esta geral destruição confusa,
este criar perverso,
ou será a máscara,álgida e estrelada,
onde os cometas passam,
turva de treva,rútila de nada,
e onde olhos se espedaçam?
a face da Medusa,
esta geral destruição confusa,
este criar perverso,
ou será a máscara,álgida e estrelada,
onde os cometas passam,
turva de treva,rútila de nada,
e onde olhos se espedaçam?
1 306
António Carlos Cortez
Argila do sono
A mesma «argila do sono»
o deserto silencioso da noite
e tantas vezes um corpo
não encontrou posição
para a entrega à paz dos mortos
Uma névoa solar o rasgava
Um tampo de mesa era claro
Havia que escrever mas tardava
da névoa o sol e seu gelo
Só na argila do sono a escrita
era corte de carne mais óbvio
(por flashes construía a palavra)
o deserto silencioso da noite
e tantas vezes um corpo
não encontrou posição
para a entrega à paz dos mortos
Uma névoa solar o rasgava
Um tampo de mesa era claro
Havia que escrever mas tardava
da névoa o sol e seu gelo
Só na argila do sono a escrita
era corte de carne mais óbvio
(por flashes construía a palavra)
651
José Miguel Silva
5
Há quem olhe para as coisas e veja formas,
cores, colmeias de melífluo sentido.
Eu nunca vi senão prefácios à destruição.
Nas linhas dum rosto via medo farpado,
na curva dum ombro, o peso que suporta.
Encarava com descrença o sorriso das praças,
na cabeça dum menino lia o mapa do inferno
e no amor o combustível da ganância.
Não sei como foi, eu nunca soube fechar
os olhos e dormir como os demais.
E se olhava para dentro de mim, era ainda
pior: uma paisagem abjecta entre colunas
de mercúrio, de enxofre, de metais pesados
como a consciência. Fui, em suma, um triste,
um homem estacado na fronteira entre
verdade e pânico, e desconfiado, sempre,
de qualquer ideia de consolação. Retirado,
no final, para um respiro de montanha,
esforcei-me por manter a ilusão de ser
o último elo na cadeia antropológica,
o nec plus ultra da insanidade.
cores, colmeias de melífluo sentido.
Eu nunca vi senão prefácios à destruição.
Nas linhas dum rosto via medo farpado,
na curva dum ombro, o peso que suporta.
Encarava com descrença o sorriso das praças,
na cabeça dum menino lia o mapa do inferno
e no amor o combustível da ganância.
Não sei como foi, eu nunca soube fechar
os olhos e dormir como os demais.
E se olhava para dentro de mim, era ainda
pior: uma paisagem abjecta entre colunas
de mercúrio, de enxofre, de metais pesados
como a consciência. Fui, em suma, um triste,
um homem estacado na fronteira entre
verdade e pânico, e desconfiado, sempre,
de qualquer ideia de consolação. Retirado,
no final, para um respiro de montanha,
esforcei-me por manter a ilusão de ser
o último elo na cadeia antropológica,
o nec plus ultra da insanidade.
970
Ana Cristina Cesar
Psicografia
Psicografia
Tambem eu saio à revelia
e procuro uma síntese nas demoras
cato obsessões com fria têmpera e digo
do coração: não soube e digo
da palavra: não digo (não posso ainda acreditar
na vida) e demito o verso como quem acena
e vivo como quem despede a raiva de ter visto
Tambem eu saio à revelia
e procuro uma síntese nas demoras
cato obsessões com fria têmpera e digo
do coração: não soube e digo
da palavra: não digo (não posso ainda acreditar
na vida) e demito o verso como quem acena
e vivo como quem despede a raiva de ter visto
1 556
Affonso Romano de Sant'Anna
Viii Reunião de Intelectuais
(Lembrando Octávio Paz e José Guilherme Merquior, presentes)
Estamos atrás desta mesa
e somos donos de uma certa sabedoria
que se compraz
num jeito narcísico de se expor.
Teorizamos. Com a linguagem
tentamos
ladrilhar a angústia e a história.
Lá fora, a rua,
a cidade onde os homens se amam e se devoram.
Ah! se os governantes nos ouvissem.
Que duro
– além da culpa histórica –
carregar a impotência,
a impotência
para realizar as utopias
de mais uma
perdida geração.
Estamos atrás desta mesa
e somos donos de uma certa sabedoria
que se compraz
num jeito narcísico de se expor.
Teorizamos. Com a linguagem
tentamos
ladrilhar a angústia e a história.
Lá fora, a rua,
a cidade onde os homens se amam e se devoram.
Ah! se os governantes nos ouvissem.
Que duro
– além da culpa histórica –
carregar a impotência,
a impotência
para realizar as utopias
de mais uma
perdida geração.
942
Daniel Faria
Calculo uma doença difícil e definitiva
Calculo uma doença difícil e definitiva
Um sono que não se apaga no sono,ou melhor
Um verso parado no meio de um poema.
Imagino o poeta sem dormir e parado como um verso
No meio do poema.Imagino o poema sem dormir.
Tenta explicá-lo,compará-lo a Noé na arca
Saudoso de colocar de novo os pés descalços sobre a terra.
Penso que os animais saem de dentro das palavras
E vêm ter comigo
Que querem ter um nome como no princípio
Que querem beber.
Tu não sabes como te chamas,não sabes o nome das plantas
Esqueceste o nome dos teus irmãos
E nem mesmo a tua mãe te traz uma palavra á boca.
faço a inclinação de quem encosta o rosto ao focinho dos bichos
Com saudades do calor de uma voz que chama.
Nem mesmo eu sei dizer que terra firma lhes peço
Que alicerces fundos cavam quando pousam
As patas muito mansas sobre mim.
de Dos Líquidos (2000)
Um sono que não se apaga no sono,ou melhor
Um verso parado no meio de um poema.
Imagino o poeta sem dormir e parado como um verso
No meio do poema.Imagino o poema sem dormir.
Tenta explicá-lo,compará-lo a Noé na arca
Saudoso de colocar de novo os pés descalços sobre a terra.
Penso que os animais saem de dentro das palavras
E vêm ter comigo
Que querem ter um nome como no princípio
Que querem beber.
Tu não sabes como te chamas,não sabes o nome das plantas
Esqueceste o nome dos teus irmãos
E nem mesmo a tua mãe te traz uma palavra á boca.
faço a inclinação de quem encosta o rosto ao focinho dos bichos
Com saudades do calor de uma voz que chama.
Nem mesmo eu sei dizer que terra firma lhes peço
Que alicerces fundos cavam quando pousam
As patas muito mansas sobre mim.
de Dos Líquidos (2000)
1 591
Renato Rezende
Ruínas
Algo me prende ainda
à vida
e espero que passe.
Algo me prende à vida—é o amor
e a arte;
e espero que logo passem.
à vida
e espero que passe.
Algo me prende à vida—é o amor
e a arte;
e espero que logo passem.
1 123
Fernando Pessoa
13 - SUSPENSE
SUSPENSE
I dream, and strange dim powers
My shining sleep assist;
A sound as of coming showers
Creeps towards me, loudly hist;
And lo! all my forgotten hours
Lie round me like a mist.
The ghosts of my dead selves
Weave round me a false mesh;
My undreamed dreams, pale elves,
Are now part of my flesh;
And all I am my unselfing shelves
On dreams, out of my reach.
I touch impalpable things;
I am sunny with past days;
Remote sounds, like near wings,
Flank my blind spirit's ways;
And from the other side of the big hill rings
A bell that summons to praise.
But I am sick of dreaming,
Weary of being the same
Over desert spaces of seeming,
Unwilling player of a game
With life, far star but gleaming
On dead earths without name.
Fierce dreams of something else!
Frenzy to go away
(O wave in me that swells!)
From life where life must stay –
Life ever at today!
Some other place and thing!
Not a life! not mine so!
O to be a wind, a wing,
A bark me there to bring!
Whither? If I could know,
I would not wish to go.
I dream, and strange dim powers
My shining sleep assist;
A sound as of coming showers
Creeps towards me, loudly hist;
And lo! all my forgotten hours
Lie round me like a mist.
The ghosts of my dead selves
Weave round me a false mesh;
My undreamed dreams, pale elves,
Are now part of my flesh;
And all I am my unselfing shelves
On dreams, out of my reach.
I touch impalpable things;
I am sunny with past days;
Remote sounds, like near wings,
Flank my blind spirit's ways;
And from the other side of the big hill rings
A bell that summons to praise.
But I am sick of dreaming,
Weary of being the same
Over desert spaces of seeming,
Unwilling player of a game
With life, far star but gleaming
On dead earths without name.
Fierce dreams of something else!
Frenzy to go away
(O wave in me that swells!)
From life where life must stay –
Life ever at today!
Some other place and thing!
Not a life! not mine so!
O to be a wind, a wing,
A bark me there to bring!
Whither? If I could know,
I would not wish to go.
4 480
José Miguel Silva
Morangos Silvestres - Ingmar Bergman (1957)
Um ser humano é um combinado de egoísmo,
sofrimento e necedade. Não comove ninguém.
Uma pedra não comove ninguém. A beleza
é um acidente banal e pressupõe a morte;
muitas vezes se rodeia de sandice, e se nos fala,
chega a ser assustador. A inteligência, refrescante
como um duche, sabe bem, no Estio; mas agora,
que é Inverno toda a vida, que lugar atribuir
à inteligência? O de criada de servir nos aposentos
da ganância. Não comove, é evidente, ninguém.
A bondade, sim, comove. Mas é tão débil
e tão rara que ninguém a ouve. Não é fácil,
assim, encontrar algo que possamos amar. Eu
tenho procurado, eu juro que não sei o que fazer:
tudo me parece, até a música, produto de uma falha.
Vou por essas ruas ao acaso e não acerto a conhecer
quem me convença que bem outra poderia ser
a vida. Tudo se mostra sob espelhos deformantes,
tudo arde numa estranha aceitação. Francamente,
que alguém me demonstrasse que não tenho razão.
sofrimento e necedade. Não comove ninguém.
Uma pedra não comove ninguém. A beleza
é um acidente banal e pressupõe a morte;
muitas vezes se rodeia de sandice, e se nos fala,
chega a ser assustador. A inteligência, refrescante
como um duche, sabe bem, no Estio; mas agora,
que é Inverno toda a vida, que lugar atribuir
à inteligência? O de criada de servir nos aposentos
da ganância. Não comove, é evidente, ninguém.
A bondade, sim, comove. Mas é tão débil
e tão rara que ninguém a ouve. Não é fácil,
assim, encontrar algo que possamos amar. Eu
tenho procurado, eu juro que não sei o que fazer:
tudo me parece, até a música, produto de uma falha.
Vou por essas ruas ao acaso e não acerto a conhecer
quem me convença que bem outra poderia ser
a vida. Tudo se mostra sob espelhos deformantes,
tudo arde numa estranha aceitação. Francamente,
que alguém me demonstrasse que não tenho razão.
1 745
Renato Rezende
Fim da Trilha
Não faça nada:
sente
nesta praça às margens
do mundo
e deixe
a dor cortar fundo.
Faca
in-su-por-tá-vel.
Eu tenho seguido suas pegadas
pelos caminhos mais gelados, amor.
– ABRE!
sente
nesta praça às margens
do mundo
e deixe
a dor cortar fundo.
Faca
in-su-por-tá-vel.
Eu tenho seguido suas pegadas
pelos caminhos mais gelados, amor.
– ABRE!
970
Renato Rezende
Olho
De repente,
no meio do shopping
o impulso natural,
o súbito desejo
de ficar cego.
no meio do shopping
o impulso natural,
o súbito desejo
de ficar cego.
972
Renato Rezende
Desprendimentos
...
desolações extraordinárias.
tempestades
de carne; terremotos
nos ossos; tufões
no olho d’alma.
...
fome; erupções
vulcânicas; quedas das alturas
mais altas;
pragas.
...
a queda de cada máscara
com a cara + serena e calma
desolações extraordinárias.
tempestades
de carne; terremotos
nos ossos; tufões
no olho d’alma.
...
fome; erupções
vulcânicas; quedas das alturas
mais altas;
pragas.
...
a queda de cada máscara
com a cara + serena e calma
722
Renato Rezende
Mudo
A linguagem é tudo
para o homem, não há mundo
fora dela, a linguagem
me recobre, e quando forço
a passagem, quando forço
o que em mim diz “não posso
mais”/ caio
fundo
poço
de silêncio murro:
MUDO
para o homem, não há mundo
fora dela, a linguagem
me recobre, e quando forço
a passagem, quando forço
o que em mim diz “não posso
mais”/ caio
fundo
poço
de silêncio murro:
MUDO
1 095