Poemas neste tema

Angústia

Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Não é medo que faça estremecer

Não é medo que faça estremecer
Nem olhar trás de si, nem recear
Inda que vagamente incoerentemente...
Não tão humano horror: Este é o horror
Do mistério, do incompreendido.

Ah mas o estremecer do pensamento
É horroroso além de todo o horror.
1 323
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Ah, o horror de morrer!

Ah, o horror de morrer!
E encontrar o mistério frente a frente
Sem poder evitá-lo, sem poder...
1 454
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Às vezes passam

Às vezes passam
Em mim relâmpagos do pensamento
Intuitivo e aprofundador
Que angustiadamente me revelam
Momentos dum mistério que apavora;
Duvidosos, deslembrados, confrangem-me
De terror que entontece o pensamento
E vagamente passa, e o meu ser volve
À escuridão e ao menor horror.

No sangue frio que nas veias minhas
Gira, no ar que sorvo, luz que vejo,
Circula, entra, nada-me uma dor;
E eu talvez à ternura outrora afeito
(Se o pensamento me não dominasse)
Sinto — como não sei — a alma mirrada
E pálida no ser.

Não é apenas, (...), o pensamento
Que assim me traz; é o pensamento fundo,
A consciência funda e absoluta
De todos os problemas minuciosos
Do mundo, transsentidos no meu ser.
1 234
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Já estão em mim exaustas,

Já estão em mim exaustas,
Deixando-me transido de horror,
Todas as formas de pensar (...)
O enigma do universo. Já cheguei
A conceber como requinte extremo
Da exausta inteligência que esse Deus,
Que ensinam as igrejas com aqueles
Seus atributos       [...]
        [...]        — existir realmente
Realmente existir e que houvesse
Mas fosse sonho, e não sonho nosso...
Sim cheguei a aceitar como verdade
O que nos dão por ela, e a admitir
Uma realidade não real
Mas sim sonhada como esse Deus cristão.
Mas isto, cuja ideia formidável
Cheia de horríveis possibilidades
Negra e profunda me  (...)
A mente, abandonei, não sem tremer,
No caos do meu ser, onde jazem
Juntamente com ela espectros negros
De soluções passageiras, apavoradoras,
Momentâneas, momentâneos
Sistemas horrorosos, pavorosos,
Repletos de infinito. Formidáveis
Não só por isto mas também por serem
Falhados pensamentos e sistemas
Que por falharem só mais negro fazem
O poder horroroso que os transcende
A todos, infinitamente a todos.
Oh horror! Oh mistério! Oh existência!
Para que lado não me virarei
Onde abrirei os olhos — olhos d'alma —
Que o mistério não me atormente, e eu
Não avance tremendo para ele?
E... Para que falar? O que dizer?
Tudo é horror e o horror é tudo!
879
Zoraida Díaz

Zoraida Díaz

Desejos

Onde estás alma minha
que não te posso encontrar
nem no céu, nem no mar,
nem em minha constante agonia?

Quero ser rosa...botão;
ser nuvem, rosicler,
ser tudo... menos mulher
com memória e coração.

Ser onda morta na praia
ser rosa que se desmaia
depois de viver um dia.

Ser toda eu pensamento
e me dissolver no vento
em busca tua...alma minha!

430
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Os mistérios profundos e horrorosos;

Os mistérios profundos e horrorosos;
Haver isto que há, este ser
E haver um ser, maior horror ainda
De poucos, ou dum só, compreendido.

E haver eu ser eu.
895
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Caminhamos sobre abismos

Caminhamos sobre abismos
Ai de quem o sente. A noite, uma noite funda
Cerca-nos, ai de quem conhece
Como ela é funda, como é inescrutável.

Pulsam-me as veias
Alucinadamente e um terror novo
Obtém-me, o terror de mim mesmo.
1 411
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Quanto mais claro

Quanto mais claro
Vejo em mim, mais escuro é o que vejo.
Quanto mais compreendo mais,
Menos me sinto compreendido. Ó horror
Da vida paradoxal deste pensar...

1 275
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Heia o quê? Heia porquê? Heia p’ra onde?

Heia o quê? Heia porquê? Heia p’ra onde?
Heia até onde?
Heia p’ra onde, corcel suposto?
Heia p’ra onde, comboio imaginário?
Heia p’ra onde, seta, pressa, velocidade
Todas só eu a penar por elas
Todas só eu a não tê-las por todos os meus nervos fora.

Heia p’ra onde, se não há onde nem como?
Heia p’ra onde, se estou sempre onde estou e nunca adiante
Nunca adiante, nem sequer atrás,
Mas sempre fatalissimamente no lugar do meu corpo,
Humanissimamente no ponto-pensar da minha alma,
Sempre o mesmo átomo indivisível da personalidade divina?

Heia p’ra onde ó tristeza de não realizar o que quero?
Heia p’ra onde, para quê, o quê, sem o quê?
Heia, heia, heia, mas ó minha incerteza, p’ra onde?
Não escrever versos, versos, versos a respeito do ferro,
Mas ver, ter, ser o ferro e ser isso os meus versos,
Versos — ferro — versos, círculo material-psíquico-eu

(quando parte o último comboio?)
1 346
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

E deito um cigarro meio fumado fora

E deito um cigarro meio fumado fora
Para irremediavelmente acender um novo cigarro

Impaciente até à angústia,
Como quem espera numa estação dos arredores
O comboio que há-de trazer ah tão talvez, quem talvez venha
1 775
Myriam Fraga

Myriam Fraga

Perspectiva

Este é um mundo-limite
(A que me oponho)
De ciciadas palavras,
De mesuras,
De faces decalcadas
De outras faces
E de sentenças duras.

Este é um mundo-mentira
(Não me enganam)
Da espiral de cinza.
Do frangalho do sonho.
Onde a espera faz-se inútil
E o tempo é nada.

Mundo-agora.
O demônio com seus filtros
O desvairado cachorro.
Sua matilha.
Semeando este chumbo,
Esta ameaça.

Duro é o espreitar do olho
Em cada face.
Na boca devastada
A fome pasce
E a mão ensaia o gesto
E se disfarça.

1 393
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Horror! Conhecer intimamente

Horror! Conhecer intimamente
O transcendente horror dum corpo humano!
Sentir o mistério doutra vida
Tão intimamente perto... quase nosso
E como que carnalizar em hórrida
Intranscendência o mistério em si.
1 787
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Oceano

Olho a praia. A treva é densa.
Ulula o mar, que não vejo,
Naquela voz sem consolo,
Naquela tristeza imensa
Que há na voz do meu desejo.

E nesse tom sem consolo
Ouço a voz do meu destino:
Má sina que desconheço,
Vem vindo desde eu menino,
Cresce quanto em anos cresço.

— Voz de oceano que não vejo
Da praia do meu desejo...
1 000
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

A morte — esse pior que tem por força que acontecer;

A morte — esse pior que tem por força que acontecer;
Esse cair para o fundo do poço sem fundo;
Esse escurecer universal para dentro;
Esse apocalipse da consciência , com a queda de todas as estrelas —
Isso que será meu um dia,
Um dia pertíssimo, pertíssimo,
Pinta de negro todas as minhas sensações,
E é areia sem corpo escorrendo-me por entre os dedos
O pensamento e a vida.

A gare no deserto, deserta;
O intérprete mudo;
O boneco humano sem olhos nem boca
Embandeirado a fogo-fátuo
Num mar que é só puro espaço
Sob um céu sacudido por relâmpagos pretos...
Sinistra singre, roída de vermes audíveis a quilha sentiente
E sejam os mastros dedos de âmbar, longuíssimos,
Apontando o vácuo das coisas (que é o abismo em tudo)...
As velas de um reposteiro vermelho lindo e baço
Se abram ao vento soprando de um buraco enorme sem fim,
E comecem, fora do tempo, uma viagem ao fim de tudo.
Estica um horror consciente no gemer dos cabos...
O ruído do ranger da madeira é dentro da alma...
O avanço velocíssimo é uma coisa que falta...
E se a vida é horizontal, isto dá-se verticalmente...
616
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Ah as horas indecisas

Ah as horas indecisas em que a minha vida parece de um outro...
As horas do crepúsculo no terraço dos cafés cosmopolitas!
Na hora de olhos húmidos em que se acendem as luzes
E o cansaço sabe vagamente a uma febre passada.
1 372
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Ah, o horror metafísico da Acção!

Ah, o horror metafísico da Acção!
Os meus gestos separam-se de mim
E eu vejo-os no ar, como as velas dum moinho,
Totalmente não meus, e sinto dentro
Deles a minha vida circular!
Sou sempre o mesmo, sempre o mesmo, sempre!
Sempre o que tudo vê e tudo sente
No seu sentido misterioso e enorme...
Sempre... Nada me cura nem me apraz!
                                Ah qualquer coisa
Que anulasse meu ser e mo deixasse!...
1 211
Rui Knopfli

Rui Knopfli

Justerini & Brooks

Este punhal de veludo,
esta fria estalactite,
esta cicuta tão lenta
e que tão profundamente
fere. Esta lâmina

líquida, doirada,
este filtro parecido ao sol,
este rarefeito odor simultâneo
ao fumo, à água, à pedra.
Este adormecer antes do sono,

só preâmbulo da vigília,
que é o gélido acordar
da imaginação para
as fronteiras dormentes
do horizonte protelado.

Este trajecto subterrâneo e húmido
pelos túneis do infortúnio,
que é o adiar moroso
da morte, no prolongar
silencioso da vida,

lágrimas da noite tornadas
pranto da madrigada,
rumor débil e distante
brandindo já no sangue
o endurecer das artérias.



1 174
Marina Colasanti

Marina Colasanti

CERIMÔNIA ACADÊMICA

Tédio e lustres de cristal
falsos dourados.
Palavras em caravana cruzam
o zumbir do ar refrigerado
lentamente
as vidraças refletem
as tantas roupas pretas penduradas
no cabide dos corpos.
Da rua nada nos chega
e nós
pomposos
não estamos nela.
1 037
Marly Vasconcelos

Marly Vasconcelos

Verbum

Uma época escrevi estórias com tanta ansiedade
que não podia comer uma maçã.
Não havia tempo para o detalhe.
Palavra, eu fui palavra.
Poderás avaliar o que é ser palavra?
Fecha os olhos e compõe com tuas lembranças
um território exaurido e descarnado,
pasto de animais melancólicos,
lagoas, cacimbas secas.
Na terra, debaixo da oiticica, um monte de ossos.
Preço que paguei sendo palavras.

1 052
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

DOBRE

Peguei no meu coração
E pu‑lo na minha mão,

Olhei‑o como quem olha
Grãos de areia ou uma folha.

Olhei‑o pávido e absorto
Como quem sabe estar morto;

Com a alma só comovida
Do sonho e pouco da vida.
2 140
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Com o coração estranho

Com o coração estranho
Escutei essa canção
Esse mundo donde venho
E este nosso onde me tenho
Qual é a ilusão?
1 407
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Mais que a existência

Mais que a existência
É um mistério o existir, o ser, o haver
Um ser, uma existência, um existir —
Um qualquer, que não este, por ser este —
Este é o problema que perturba mais.
O que é existir — não nós ou o mundo —
Mas existir em si?
2 688
Augusto dos Anjos

Augusto dos Anjos

Dolências

Oh! lua morta de minha vida,
Os sonhos meus
Em vão te buscam, andas perdida
E eu ando em busca dos rastos teus...

Vago sem crenças, vagas sem norte
Cheia de brumas e enegrecida,
Ah! se morrestes p'ra minha vida!
Vive, consolo de minha morte!

Baixa, portanto, coração ermo
De lua fria
À plaga triste, plaga sombria
Dessa dor lenta que não tem termo.

Tu que tombaste no caos extremo
Da Noite imensa do meu Passado
Sabes, da angústia do torturado...
Ah! tu bem sabes porque é que eu gemo!

Instilo mágoas saudoso, e enquanto
Planto saudades n'um campo morto,
Ninguém ao menos dá-me um conforto,
Um só ao menos! E no entretanto

Ninguém me chora, ah! se eu tombar
Cedo na lida...
Oh! lua fria vem me chorar
Oh! lua morta de minha vida!

Paraíba, 1902

O Comércio, 21-III-1902


Publicado no livro Eu: poesias completas (1963). Poema integrante da série Poemas Esquecidos.

In: REIS, Zenir Campos. Augusto dos Anjos: poesia e prosa. São Paulo: Ática, 1977. p.212-213. (Ensaios, 32
2 885
Juan L. Ortiz

Juan L. Ortiz

Fui ao rio...

Fui ao rio e o sentia
próximo de mim, diante de mim.
Os ramos tinham vozes
que não chegavam a mim.
A corrente dizia
coisas que eu não entendia.
Quase me angustiava.
Queria compreendê-lo,
sentir o que nele o céu pálido e vago dizia
com suas primeiras sílabas alargadas,
mas não conseguia.
Retornava.
– Era eu o que retornava? –
na angústia vaga
de sentir-me só entre as coisas, últimas e secretas.
De repente senti o rio em mim,
corria em mim
com suas margens trêmulas de sinais,
com seus fundos reflexos apenas estrelados.
Corria em mim o rio com suas ramagens.
Eu era um rio ao anoitecer
e suspiravam em mim as árvores
e se apagavam em mim as veredas e o capim.
Me atravessava um rio, me atravessava um rio!
(tradução de Ricardo Domeneck)
:
Fui al río...
Juan L. Ortiz
Fui al río, y lo sentía
cerca de mí, enfrente de mí.
Las ramas tenían voces
que no llegaban hasta mí.
La corriente decía
cosas que no entendía.
Me angustiaba casi.
Quería comprenderlo,
sentir qué decía el cielo vago y pálido en él
con sus primeras sílabas alargadas,
pero no podía.
Regresaba
—¿Era yo el que regresaba?—
en la angustia vaga
de sentirme solo entre las cosas últimas y secretas.
De pronto sentí el río en mí,
corría en mí
con sus orillas trémulas de señas,
con sus hondos reflejos apenas estrellados.
Corría el río en mí con sus ramajes.
Era yo un río en el anochecer,
y suspiraban en mí los árboles,
y el sendero y las hierbas se apagaban en mí.
Me atravesaba un río, me atravesaba un río!
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