Poemas neste tema

Angústia

Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Passa entre as sombras de arvoredo

Passa entre as sombras de arvoredo
Um vago vento que parece
Que não passou, que passa a medo,
Ou que há porque desaparece.

O ouvido escuta o não-ouvir,
A alma, no ouvido debruçada,
Sente uma angústia a não sentir
E quer melhor ou pior que nada.

É como quando a alma não tem
Quem ame, quem spere ou quem sinta,
Quando considera um bem
O próprio mal, desde que não minta.

E entre onde as sombras do arvoredo
Sequestram sons e brisas prendem,
Este não passar passa a medo
E certas folhas se desprendem.

Então porque há folhas que caem,
Volta a ilusão de haver o vento,
Mas elas, caindo hirtas, traem,
Que não há brisa no momento.

Oh, som sozinho dessa queda
Das folhas secas no ermo chão,
Oh, som de nunca usada seda
Apertada na inútil mão,

Com que terrível semelhança
A qualquer voz feita em bruxedo,
Lembrais a morte e a desesp'rança,
E o que não passa passa a medo.


18/10/1930
4 844 1
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Lembro-me ou não? Ou sonhei?

Lembro-me ou não? Ou sonhei?
Flui como um rio o que sinto.
Sou já quem nunca serei
Na certeza em que me minto.

O tédio de horas incertas
Pesa no meu coração.
Paro ante as portas abertas
Sem escolha nem decisão.


13/06/1932
4 289 1
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Rala cai chuva. O ar não é escuro. A hora

Rala cai chuva. O ar não é escuro. A hora
Inclina-se na haste; e depois volta.
Que bem a fantasia se me solta!
Com que vestígios me descobre agora!

Tédio dos interstícios, onde mora
A fazer de lagarto. – O muro escolta
A minha eterna angústia de revolta
E esse muro sou eu e o que em mim chora.

Não digas mais, pois te ignorei cativo...
Teus olhos lembram o que querem ser,
Murmúrio de águas sobre a praia, e o esquivo
Langor do poente que me faz esquecer.
Que real que és! Mas eu, que vejo e vivo,
Perco-te, e o som do mar faz-te perder.


1932
4 341 1
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Uma maior solidão

Uma maior solidão
Lentamente se aproxima
Do meu triste coração.

Enevoa-se-me o ser
Como um olhar a cegar.
A cegar, a escurecer.

Jazo-me sem nexo, ou fim...
Tanto nada quis de nada,
Que hoje nada o quer de mim.


23/10/1931
5 806 1
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Nada que sou me interessa.

Nada que sou me interessa.
Se existe em meu coração
Qualquer coisa que tem pressa
Terá pressa em vão.

Nada que sou me pertence.
Se existo em quem me conheço
Qualquer coisa que me vence
Depressa a esqueço.

Nada que sou eu serei.
Sonho, e só existe em meu ser,
Um sonho do que terei.
Só que o não hei-de ter.


24/08/1932
4 558 1
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Tenho esperança? Não tenho.

Tenho esperança? Não tenho.
Tenho vontade de a ter?
Não sei. Ignoro a que venho,
Quero dormir e esquecer.

Se houvesse um bálsamo da alma,
Que a fizesse sossegar,
Cair numa qualquer calma
Em que, sem sequer pensar,

Pudesse ser toda a vida,
Pensar todo o pensamento –
Então (...)


11/12/1933
4 703 1
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Porque sou tão triste ignoro

Porque sou tão triste ignoro
Nem porque sentir em mim
Lágrimas que eu choro assim;
Desde menino me choro
E ainda não me achei fim.


28/07/1932
5 403 1
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Basta pensar em sentir

Basta pensar em sentir
Para sentir em pensar.
Meu coração faz sorrir
Meu coração a chorar.
Depois de parar e andar,
Depois de ficar e ir,
Hei-de ser quem vai chegar
Para ser quem quer partir.

Viver é não conseguir.


14/06/1932
6 629 1
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Cidadezinha Qualquer

Casas entre bananeiras
mulheres entre laranjeiras
pomar amor cantar.

Um homem vai devagar.
Um cachorro vai devagar.
Um burro vai devagar.
Devagar... as janelas olham.

Êta vida besta, meu Deus.
3 107 1
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Implacável Como a Tarântula

não vão deixar você
ocupar uma mesa de frente
num café qualquer na Europa
sob o sol do meio da tarde.
se você fizer isso, alguém vai
passar de carro e
pulverizar as suas tripas com uma
submetralhadora.

não vão deixar você
se sentir bem
por muito tempo
em lugar algum.
as forças não vão
deixar você ficar à toa
coçando o saco e
relaxando.
você precisa agir
como eles mandam.

os infelizes, os amargos e os
vingativos
precisam manter o
vício – que é
ver você ou alguém
qualquer um
em sofrimento, ou
melhor ainda
morto, jogado em algum
buraco.

enquanto existirem
seres humanos por aí
nunca existirá
nenhuma paz
para nenhum indivíduo
nesta terra (ou
em qualquer outro lugar
para onde eventualmente
alguém possa escapar).

tudo que você pode fazer
é talvez obter
dez minutos de sorte
aqui
ou talvez uma hora
ali.

algo
está trabalhando contra você
neste exato momento, e
me refiro a você
e ninguém senão
você.
1 527
Renato Russo

Renato Russo

Os Anjos

Hoje não dá
Hoje não dá
Não sei mais o que dizer
E nem o que pensar

Hoje não dá
Hoje não dá
A maldade humana agora não tem nome
Hoje não dá

( Pegue duas medidas de estupidez
Junte trinta e quatro partes de mentira
Coloque tudo numa forma untada previamente
Com promessas não cumpridas
Adicione a seguir o ódio e a inveja
Às dez colheres cheias de burrice
Mexa tudo e misture bem
E não se esqueça: antes de levar ao forno
Temperar com essência de espírito de porco
Duas xícaras de indiferença
E um tabelete e meio de preguiça )

Hoje não dá
Hoje não dá
Está um dia tão bonito lá fora
E eu quero brincar
Mas hoje não dá
Hoje não dá
Vou consertar a minha asa quebrada
E descansar

Gostaria de não saber destes crimes atrozes
É todo dia agora e o que vamos fazer ?
Quero voar prá bem longe mas hoje não dá
Não sei o que pensar e nem o que dizer

Só nos sobrou do amor
A falta que ficou

1 669
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Onde é que os mortos dormem? Dorme alguém

Onde é que os mortos dormem? Dorme alguém
Neste universo atomicamente falso?
1 534
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Há cortejos, pompas, discursos,

Há cortejos, pompas, discursos,
Na inauguração quotidiana dos meus sentimentos inúteis...
São iluminadas à veneziana por luzes contentes
As minhas decepções, e os meus desesperos vão em carrossel
Por uma necessidade [fatídica?] do destino.
994
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Nas minhas veias, por onde corre, numa lava de asco,

Nas minhas veias, por onde corre, numa lava de asco
A fúria do horror da vida!
1 504
Herberto Helder

Herberto Helder

Ao Vento Deste Outono

d’après Issa

ao vento deste outono
avanço
para que inferno?
618
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Durmo, remoto; sonho, diferente,

Durmo, remoto; sonho, diferente,
Meu coração, ansioso e pressuroso,
Foi entalado num comboio entre
Os dois vagões do meu destino ocioso.
1 087
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

(after running away. (He never loves))

(after running away. (He never loves))

Não sei viver! nem fui para viver
Destinado; porquê então a vaga
Aspiração que tenho?
1 176
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Entre o sossego e o arvoredo,

Entre o sossego e o arvoredo,
Entre a clareira e a solidão,
Meu devaneio passa a medo
Levando-me a alma pela mão.
É tarde já, e ainda é cedo.

[...]
2 146
Herberto Helder

Herberto Helder

Os Ritmos 14

Não se sabe bem então como é.
Como ciência rudimentar existe o terror, máquina apocalíptica do pressentimento.
Este saber desordenado instala-se no sonho, é aí que trepida um velho motor furioso.
É o coração, imagine-se — um órgão de profecia.
As altas coisas anunciadas vão à procura de personagens, e então aparecem o Pai e a Mãe: rostos demoníacos.
Conseguiram desprender-se da idade, da podridão, do crime de se haver amado a sua morte.
São figuras para todas as traições.
É terrível ser o filho, isto sabe-se — é a maligna sabedoria, enquanto pode não ser esquecida.
Com os labirintos dá-se isto: há que percorrê-los.
Então os pais agarram na infidelidade, cada um pelo seu lado, devorando-a.
Sabe-se, entretanto, que a infidelidade não pode ser de duas pessoas, porque tem de haver sempre traidor e traído.
É uma regra — foi banida a verdade dupla.
O papel monumental pertence à mulher — é sempre assim, sempre.
Possui a grandeza do destino, ela — é a terra, a sua cegueira superior, a clarividência.
E quando trai, com o corpo curvo e receptivo como a terra, é-lhe concedido o direito da mentira redonda — ela é a terra.
O pai parece ter morrido, sepultado nos terrenos da angústia — símbolo arcaico, metáfora pulverizada pela tremenda força compressora da terra — a dúplice, a ambígua, a feminina, a pactuante e protectora do filho atormentado pela embriaguez dos crimes.
E a mulher escreve no pergaminho: minha é a inocência.
E o filho recebe o legado — deita-se para dormir com ele, encosta-o ao coração, essa palavra de inocência que circula na circulação do sangue dele, o filho adormecido.
As justiças elegeram os pelotões de execução que esperam fora das câmaras, no pátio, em frente do muro onde se encostará o condenado, para receber no coração negro a bala libertadora.
Bastará talvez que o filho desenrole a palavra escrita pela mulher: inocência.
Nunca o fará, e chora pela última vez, enche o último instante com o valor duplo da inocência — palavra onde se juntaram mãe e filho, os amantes no crime.
A mãe é aquela face do enigma, no centro do labirinto, face da catástrofe, luz horrível que se recolhe como um ramo de flores venenosas.
Resta ao filho caminhar lentamente com a sua festa negra: o segredo que se não revela, o amor maldito, incesto, canto da sua glória tenebrosa.
E quando todos se meteram pelos anos dentro, caíram de podres, desapareceram, e os lugares foram esquecidos, e os tempos, e os antigos modos de trair e mentir e criar um enigma — então fica o filho, o órfão, com a verdadeira morte instalada no seu coração de homem, para com essa morte poder gritar:
Eu sou o crime, levanto-me com o meu crime, e então sou inocente, e atravesso o mundo para instaurar os novos lugares, o silêncio e as palavras sem culpa.
1 039
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

(Depois do amor — na treva)

Eis-me enfim só, oh desejado horror
Eis-me enfim ante ti, oh Universo!
Eis-me aqui, lama e (...) mistério,
Excluído de ti, o eterno expulso
Que não pedia a vida. Eis-me aqui.

Pudesse eu pôr no seu desmedimento
O ódio (...)       e afrontar-vos
Com a expressão desse ódio, oh silêncios,
Oh noites ao pensar! eu morreria
De haver interpretado em tanto horror
Um mor horror que interpretar não pode
O que há-de ser palavra ou pensamento.
Eis-me aqui, oh abismo explicado!
Eis-me aqui o maior dos seres todos,
Quebrando aos pés do pensamento forte
A cruz de Cristo e as fórmulas mortais
[...]
Eis-me aqui!
O que há para mim senão vacuidade
No mundo (...), o que me destinastes?
O vazio? O silêncio? A escuridão?
Desses-me o instinto deles, não a plena
Torturação da luz.
1 306
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

(Antes do monólogo da treva)

(...) e alucinadas pré-sensações
Impelem-me, desvairam-me, ocupam
Tumultuariamente e ardentemente
O doloroso vácuo do meu ser.
Incapaz de pensar, apenas sinto
Um atropelamento do sentir
E confusões confusas, explosão
De tendências, desejos, ânsias, sonhos
Desatenuadamente dolorosos.
867
Herberto Helder

Herberto Helder

Os Ritmos 13

Atravessei depressa a juventude.
Tinha duas coisas — a alegria e o terror.
Percorri-os sem tomar fôlego.
Quando cheguei ao outro lado, encontrava-me em frente da maturidade — estupefacto.
Não conhecia os nomes nem as subtilezas.
Falando com certas pessoas, eu dizia: conheci a alegria e o terror.
Elas sorriam.
Parece que eram sábias.
Ou estúpidas.
Nada sei disso.
Encontrei um homem louco que tinha uma frota de quebra-gelos no sul da Itália.
Contou-me também que descobrira um processo novo de prever os terramotos.
Construíra uma casa no meio da planície — dizia ele — e criara veados a toda a volta.
Quando se aproximava um tremor de terra, os veados vinham para junto da casa, de cornos trémulos.
Era uma planície de cornos trémulos.
Encontro pessoas assim: loucas, sérias — gente total.
Falam-me destas coisas, ou de dinheiro, progresso, política e felicidade.
Vê-se como me encontro desorientado, com a minha idade e as coisas que são dela ou não são.
Fui aos psicanalistas e mandaram-me deitar num divã.
Tenho a alegria ou o terror — por onde devo começar?
Fale do que quiser — diziam.
Eu estava de olhos abertos, deitado, na obscuridade do gabinete.
Ainda assim, distinguia bem uma reprodução medíocre das Musas Inquietantes, de Chirico, na parede em frente.
Representa a Piazza Vecchia, em Florença, com o Palácio Palatino ao fundo, bastante vermelho.
O céu tem a cor das garrafas verdes.
Representa chaminés de fábricas.
A atmosfera é de ameaçadora suspensão.
No espaço essencial, representa as terríveis figuras inspiradoras.
São estátuas que o não imitam, possuem mantos pregueados.
Espalham-se em volta os frios objectos do seu jogo.
Um bastão cilíndrico, paralelepípedos de cor, um cubo azul onde se senta a mulher de pedra branca, com seu escudo rubro ao lado.
A cabeça de uma das estátuas tem a forma de grande pêra ou bola de rugby.
Outra não tem cabeça.
No pescoço decepado, que não sangra, floresce um rebento negro.
Poderia segurar nas mãos a sua própria cabeça de cautchou.
Disse que o céu é tremendamente verde.
Sim, há uma figura disfarçada na sombra.
Esta ameaça total ou suspeita, ou longamente elaborada pergunta, suspende-se sobre abismos trementes.
Julgo que se poderia enlouquecer, olhando essas linhas vivas e áridas durante vinte e quatro horas.
Eu disse: tive um sonho.
Dei-lhe um nome, dou um nome a todos os meus sonhos.
Este chama-se — Os Animais Domésticos.
Era uma sala de teatro.
Ao fundo, em vez das portas de entrada e saída, havia uma esplanada no passeio de uma rua larga, com árvores, movimento e um céu vibrante por cima.
A plateia estava cheia de pessoas que conversavam umas com as outras, levantavam-se, sentavam-se — trocavam de lugares.
Eu encontrava-me no palco, deitado, com a cabeça no colo de uma velha sentada no chão.
Uma telefonia monstruosa, ocupando quase todo o palco, emitia uma louca canção — violenta, insuportável.
Um jovem mexia nos botões da telefonia.
A mesma canção violenta — sempre, sempre.
Depois levantei-me e desci para a plateia, misturando-me às pessoas, falando com elas, indo de aqui para ali.
De repente, encontrei-me na esplanada, despedindo-me de uma mulher que ia para a Suíça.
Vou para a Suíça, adeus.
Levantei-me para dar-lhe um beijo de despedida, e disse-lhe: adeus, viaja, viaja, faz bem viajar — a Suíça.
Sim, sim, sim, disse ela, sim.
Eu estava de pé, com a mão dela entre as minhas, e dizia-lhe: viaja, viaja, é muito instrutivo.
Sim, sim, dizia ela, e afastava-se, sim, dizia afastando-se, sim, sim.
Sentei-me e ouvi ao longe o grito da mulher: sim, de avião, sim, sim.
Respondi: a Suíça.
Reparei de súbito que conservava nas minhas a mão da mulher.
Fiquei preocupado.
Como se arranjará ela na Suíça, sem a mão direita?
Então atirei a mão para o ar.
A mão voou rapidamente em direcção à Suíça.
Resolvi passear pela cidade.
Mas, antes, fui espreitar para dentro da sala.
Na voz grave de um homem, a rádio transmitia agora o boletim meteorológico.
Previsão para amanhã: tempestade de areia no deserto, tempestade de neve no pólo, maremoto no mar, terramoto na terra, muita luz, muita treva.
Eu andava à procura pelas ruas.
Era uma cidade confusa, de casas muito baixas, sem portas, com grandes janelas.
Junto de cada janela, no interior, uma cama desfeita.
Eu espreitava para dentro destas casas de um só piso.
Todas as camas estavam vazias, menos uma, onde se encontrava uma criança de colo, nua, uma menina.
Uma menina.
Uma menina alarmante.
Tinha um sexo de mulher, cheio de pêlos eriçados.
Tirei então a criança da cama, pela janela, e levando-a ao colo voltei para o teatro, através das ruas vazias.
Pensava: é horrível, horrível.
É uma espécie de glória negra.
É bela e horrível.
É bela, bela, bela.
É horrivelmente bela.
É uma espécie de negro, negro triunfo.
No teatro, a criança transformou-se num enorme ramo de cravos negros que estremeciam nos meus braços, tremiam, pareciam respirar, viver tremulamente, cheios de seiva negra.
Comecei a colocar um cravo na cabeça de cada pessoa da plateia, como se cada cabeça fosse a boca de uma jarra.
Estavam agora no palco duas pessoas vestidas de espelho, em frente uma da outra, de perfil para a plateia, fazendo uma com o lado esquerdo do corpo aquilo que a outra fazia com o direito, numa simultaneidade rigorosa.
A cabeça de uma das figuras era branca e a da outra era negra.
A telefonia transmitia uma canção vertiginosa, e os cravos negros que eu ainda tinha nas mãos transformaram-se em fumo.
As minhas mãos estavam cobertas de sangue.
Então a música parou abruptamente, e a mesma voz que lera o boletim meteorológico disse no meio de um silêncio total:
Nascido para o inferno.
1 049
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

A Música da Terra

A dor habita em nós, o cravo a ignora.
A vida, uma gavota? Pura dança
o amor? No minueto de Lully
cabe a dificuldade de existir?

Quinta-essência do angélico, no caos,
paira a graça de Mozart sobre o abismo,
sem devassá-lo — pássaro de nuvem.
O tempo é outro metal, a comburir-nos.

Urge romper o gosto, a norma límpida,
e sangrentas estilhas do momento
passar à forma nobre da sonata.
Urge extrair do piano o som dramático.

E suscitar o diálogo patético
entre piano e violino, qual se escuta,
na penumbra da alma, a duas vozes,
um rumor de paixão se entretecendo.

Eis que a música deixa de ser pura.
Os serafins e os elfos se despedem.
A terra é lar dos homens, não dos mitos.
Há que desmascarar nosso destino.

Em tatear incessante, no conflito
corpo a corpo entre o ser e a contingência,
nova música, ungida de tristeza
mas radiante de força, vem ao mundo.

Luta o homem na área desolada
de sua solidão; luta no palco
fremente de contrastes, percebendo
que pouco a pouco cerram-se os espaços

da percepção, e tudo se limita
à captação interna, de sinais
silentes, impalpáveis, invisíveis,
nunca porém tão vivos se captados.

À proporção que a dor aumenta, e em volta
nega-lhes o amor seus bálsamos terrestres,
ganha requinte a fábrica sonora
de eternizar a vida breve em arte.

Es muss sein! É preciso! Na amargura,
na derrota do corpo, sublimada,
a canção do heroísmo e a da alegria
resgatam nossa mísera passagem.

E entreabre a sinfonia suas palmas
imensas, a conter todo o rebanho
de perplexos irmãos, de angustiados
prospectores de rumo e de sentido

para a sorte geral. O homem revela-se
na torrente melódica, suplanta
seu escuro nascer, sua insegura
visão do além, turva de morte e medo.

Ó Beethoven, tu nos mostraste o alvorecer.
1 163
Mário-Henrique Leiria

Mário-Henrique Leiria

POEMA

eu sei
que há um lugar por descobrir
um lugar tenebroso e cantante
como a ponte dos velhos manequins


o teu corpo
dois seios despedaçados
e o vento só o vento
soprado através
dos teus cabelos

1 033