Poemas neste tema
Raiva e Indignação
Charles Bukowski
Batendo Pé No Savoy
agora ouça, Capitão, eu quero os andantes feridos em
seus postos, não podemos poupar um só homem, se esses
chucrutes soubessem que nossas fileiras estão escasseando eles
nos comeriam vivos e estuprariam nossas mulheres e crianças
e, deus nos ajude, nossos bichinhos
também!
sem água? faça com que bebam o próprio sangue!
o que você acha que isso é, um maldito
piquenique?
vou te dar um piquenique enfiado no teu
rabo! tá
entendendo?
agora ouça... nós atraímos eles, flanqueamos,
eles vão engolir a própria merda de
pânico!
usaremos seus ossos pra fazer estacadas!
vocês serão heróis para nossas damas, elas
lamberão suas bolas com gratidão Eternidade adentro!
entendeu?
desistentes não vencem, e além disso, qualquer
homem que eu ver recuando eu vou abrir nele um
buraco tão grande que você vai poder ver
o cu da sua vó colhendo margaridas em
Petaluma!
tá me ouvindo?
ah, merda! me acertaram! chama o doutor! chama todos
os doutores!
veado! quem podia imaginar? deu sorte!
esses chucrutes não acertam um sonho molhado a
3 passos!
Capitão! você está no comando! se você fizer
cagada eu torço suas pernas e meto
as duas no seu traseiro idiota! entendeu?
não quero esses chucrutes enfiando os dedos na Melba
na varanda!
Deus está do nosso lado! Ele me disse uma vez, “Ouça,
esses chucrutes precisam ter fim! eles não lavam
os sovacos e penteiam os cabelos com
geleia de pêssego!”
Capitão! acho que vou indo! chame uma enfermeira
aqui, preciso de um boquete! e depressa! essa
guerra não pode esperar o dia todo!
seus postos, não podemos poupar um só homem, se esses
chucrutes soubessem que nossas fileiras estão escasseando eles
nos comeriam vivos e estuprariam nossas mulheres e crianças
e, deus nos ajude, nossos bichinhos
também!
sem água? faça com que bebam o próprio sangue!
o que você acha que isso é, um maldito
piquenique?
vou te dar um piquenique enfiado no teu
rabo! tá
entendendo?
agora ouça... nós atraímos eles, flanqueamos,
eles vão engolir a própria merda de
pânico!
usaremos seus ossos pra fazer estacadas!
vocês serão heróis para nossas damas, elas
lamberão suas bolas com gratidão Eternidade adentro!
entendeu?
desistentes não vencem, e além disso, qualquer
homem que eu ver recuando eu vou abrir nele um
buraco tão grande que você vai poder ver
o cu da sua vó colhendo margaridas em
Petaluma!
tá me ouvindo?
ah, merda! me acertaram! chama o doutor! chama todos
os doutores!
veado! quem podia imaginar? deu sorte!
esses chucrutes não acertam um sonho molhado a
3 passos!
Capitão! você está no comando! se você fizer
cagada eu torço suas pernas e meto
as duas no seu traseiro idiota! entendeu?
não quero esses chucrutes enfiando os dedos na Melba
na varanda!
Deus está do nosso lado! Ele me disse uma vez, “Ouça,
esses chucrutes precisam ter fim! eles não lavam
os sovacos e penteiam os cabelos com
geleia de pêssego!”
Capitão! acho que vou indo! chame uma enfermeira
aqui, preciso de um boquete! e depressa! essa
guerra não pode esperar o dia todo!
977
Charles Bukowski
Minha América, 1936
você não tem pegada,
disse o meu pai,
você sabe quanto dinheiro
eu gastei pra te criar?
sabe o custo de comprar roupa?
o custo de comprar comida?
você só fica no seu maldito
quarto deprimindo essa
bunda morta!
16 anos de idade e você age
como um morto!
o que é que você vai fazer
quando sair no mundo?
olha o Benny Halsey, ele é
porteiro num
cinema!
Billy Evans vende jornais
na esquina da Crenshaw
com Olympic
e você fala que não consegue
arranjar emprego!
bem, a verdade é que você simplesmente
não quer um emprego!
eu tenho um emprego!
qualquer um que realmente quiser um
emprego consegue arranjar um emprego!
eu penso cada vez mais na porra de uma
bela ideia de te botar pra
rua,
tudo que você faz é ficar atirado se
deprimindo!
não acredito que você seja o meu
filho!
sua mãe tem vergonha
de você!
você está matando a sua mãe!
eu penso cada vez mais na porra de uma bela ideia de
te cagar na porrada, só pra
te acordar!
o quê?
não fala comigo desse jeito!
eu sou seu pai!
nunca mais fale
comigo desse jeito!
o quê?
tá bom, tá bom,
fora dessa casa!
você tá na rua!
rua!
rua!
mãe, eu tô botando
esse filho da puta
na rua!
mãe!
disse o meu pai,
você sabe quanto dinheiro
eu gastei pra te criar?
sabe o custo de comprar roupa?
o custo de comprar comida?
você só fica no seu maldito
quarto deprimindo essa
bunda morta!
16 anos de idade e você age
como um morto!
o que é que você vai fazer
quando sair no mundo?
olha o Benny Halsey, ele é
porteiro num
cinema!
Billy Evans vende jornais
na esquina da Crenshaw
com Olympic
e você fala que não consegue
arranjar emprego!
bem, a verdade é que você simplesmente
não quer um emprego!
eu tenho um emprego!
qualquer um que realmente quiser um
emprego consegue arranjar um emprego!
eu penso cada vez mais na porra de uma
bela ideia de te botar pra
rua,
tudo que você faz é ficar atirado se
deprimindo!
não acredito que você seja o meu
filho!
sua mãe tem vergonha
de você!
você está matando a sua mãe!
eu penso cada vez mais na porra de uma bela ideia de
te cagar na porrada, só pra
te acordar!
o quê?
não fala comigo desse jeito!
eu sou seu pai!
nunca mais fale
comigo desse jeito!
o quê?
tá bom, tá bom,
fora dessa casa!
você tá na rua!
rua!
rua!
mãe, eu tô botando
esse filho da puta
na rua!
mãe!
871
Charles Bukowski
Mercedes Vermelha
naturalmente, nós todos caímos em
baixo-astral, é uma questão de
desequilíbrio químico
e uma existência
que, por vezes,
parece impossibilitar
qualquer chance real de
felicidade.
eu estava num baixo-astral
quando um ricaço escroto
acompanhado de sua inexpressiva
namoradinha
numa Mercedes vermelha
cortou
a minha frente
no estacionamento do hipódromo.
o estalo lampejou
no meu íntimo:
vou arrancar o filho da puta
de seu carro e
arrebentar a
cara dele!
segui o sujeito
até os manobristas
estacionei atrás
e saltei do meu
carro
corri até a
porta dele
e puxei.
estava
trancada.
as
janelas estavam
levantadas.
eu bati na janela
do lado
dele:
“abre! eu vou
arrebentar a sua
cara!”
ele ficou sentado
olhando reto
em frente.
a mulher dele fazia
o mesmo.
eles não me
olhavam.
ele era 30 anos
mais novo,
mas eu sabia que podia
encarar,
ele era molenga
e mimado.
eu bati na janela
com meu
punho:
“sai daí, seu merda,
ou eu começo a
quebrar
o vidro!”
ele acenou de leve a cabeça
para sua
mulher.
eu a vi estender
o braço
abrir o
porta-luvas
e passar para ele o
.32
eu o vi segurar a arma
junto ao assento
e soltar a
trava de segurança.
fui andando
em direção ao
clube, o programa
parecia uma
beleza
naquele
dia.
tudo que eu precisava fazer
era
estar lá.
baixo-astral, é uma questão de
desequilíbrio químico
e uma existência
que, por vezes,
parece impossibilitar
qualquer chance real de
felicidade.
eu estava num baixo-astral
quando um ricaço escroto
acompanhado de sua inexpressiva
namoradinha
numa Mercedes vermelha
cortou
a minha frente
no estacionamento do hipódromo.
o estalo lampejou
no meu íntimo:
vou arrancar o filho da puta
de seu carro e
arrebentar a
cara dele!
segui o sujeito
até os manobristas
estacionei atrás
e saltei do meu
carro
corri até a
porta dele
e puxei.
estava
trancada.
as
janelas estavam
levantadas.
eu bati na janela
do lado
dele:
“abre! eu vou
arrebentar a sua
cara!”
ele ficou sentado
olhando reto
em frente.
a mulher dele fazia
o mesmo.
eles não me
olhavam.
ele era 30 anos
mais novo,
mas eu sabia que podia
encarar,
ele era molenga
e mimado.
eu bati na janela
com meu
punho:
“sai daí, seu merda,
ou eu começo a
quebrar
o vidro!”
ele acenou de leve a cabeça
para sua
mulher.
eu a vi estender
o braço
abrir o
porta-luvas
e passar para ele o
.32
eu o vi segurar a arma
junto ao assento
e soltar a
trava de segurança.
fui andando
em direção ao
clube, o programa
parecia uma
beleza
naquele
dia.
tudo que eu precisava fazer
era
estar lá.
1 350
Charles Bukowski
Exame de Direção
motoristas
em reação de defesa e raiva
com frequência mostram o
dedo
àqueles
que se envolvem em seus
problemas de direção.
tenho noção daquilo que o
sinal do dedo
sugere
mas quando ele é dirigido
a mim
às vezes
não consigo deixar de rir dos
rubicundos
semblantes
retorcidos
e do
gesto.
mas hoje
eu me vi
mostrando o dedo
para um cara que
se atravessou
na minha pista
sem esperar
na saída de um
supermercado.
mostrei o dedo para
ele.
ele viu
e eu fui dirigindo colado em seu
para-choque
traseiro.
foi a minha primeira
vez.
eu era um membro do
clube
e me senti um
puta
idiota.
em reação de defesa e raiva
com frequência mostram o
dedo
àqueles
que se envolvem em seus
problemas de direção.
tenho noção daquilo que o
sinal do dedo
sugere
mas quando ele é dirigido
a mim
às vezes
não consigo deixar de rir dos
rubicundos
semblantes
retorcidos
e do
gesto.
mas hoje
eu me vi
mostrando o dedo
para um cara que
se atravessou
na minha pista
sem esperar
na saída de um
supermercado.
mostrei o dedo para
ele.
ele viu
e eu fui dirigindo colado em seu
para-choque
traseiro.
foi a minha primeira
vez.
eu era um membro do
clube
e me senti um
puta
idiota.
1 277
Sophia de Mello Breyner Andresen
Electra
Os muros da casa dos Manon escorrem sangue
E as árvores do jardim escorrem lágrimas.
O lago busca em vão o reflexo antigo duma infância
Que se tornou homens, mulheres, ódios e armas.
Numa janela aparecem duas mãos torcidas
E nos corredores ressoam as palavras
Da traição, da náusea, da mentira
E o tempo vestido de verde senta-se nas salas.
O rosto de Electra é absurdo.
Ninguém o pediu e não pertence ao jogo.
As suas mãos vingadoras destoam na conversa
Assustam a penumbra e ofendem o pecado.
E as árvores do jardim escorrem lágrimas.
O lago busca em vão o reflexo antigo duma infância
Que se tornou homens, mulheres, ódios e armas.
Numa janela aparecem duas mãos torcidas
E nos corredores ressoam as palavras
Da traição, da náusea, da mentira
E o tempo vestido de verde senta-se nas salas.
O rosto de Electra é absurdo.
Ninguém o pediu e não pertence ao jogo.
As suas mãos vingadoras destoam na conversa
Assustam a penumbra e ofendem o pecado.
1 378
Jorge de Sousa Braga
Escalada
Chamar-te colibri sussurrar-te
ao ouvido coisas acidas e ternas
Morder-te no pescoço, nos ombros, nas nadegas
Sentir a humidade entre as tuas pernas
Selar-te as palpebras com saliva
enquanto gritas que me odeias e me amas
as minhas mãos numa roda viva
entre as tuas nádegas e as tuas mamas
A minha língua, a tua língua o meu
pénis, o teu clitóris, a minha língua
o teu clitóris, o meu pénis, a tua língua
De joelhos como se implorasse
Enterra-lo bem fundo entre as tuas pernas
Deixar que um raio nos trespasse.
ao ouvido coisas acidas e ternas
Morder-te no pescoço, nos ombros, nas nadegas
Sentir a humidade entre as tuas pernas
Selar-te as palpebras com saliva
enquanto gritas que me odeias e me amas
as minhas mãos numa roda viva
entre as tuas nádegas e as tuas mamas
A minha língua, a tua língua o meu
pénis, o teu clitóris, a minha língua
o teu clitóris, o meu pénis, a tua língua
De joelhos como se implorasse
Enterra-lo bem fundo entre as tuas pernas
Deixar que um raio nos trespasse.
2 220
Charles Bukowski
Minha Própria Triste História
este é um modo terrível de viver:
cercado pelos
sempre-
irados,
desalmados e
alucinados.
mas minhas experiências de juventude foram
muito parecidas.
eu deveria ter-me ajustado a isso
nessa altura.
desde meu raivoso e furioso
e mesquinho pai
até
o montão de mulheres
que veio depois
todas elas consumidas pela
depressão,
raiva inútil,
gritaria e
piedade de si
sem
sentido.
felicidade e simples alegria
pareciam a todas elas serem
apenas doenças a
erradicar.
minha própria
história:
este modo terrível de
viver.
mas sinto que agora agarrei
a vitória
sobre toda essa inútil
negra e furiosa
histeria.
sobrevivi a tudo
isso e
podem me dar porradas com suas
vidas raivosas e
me queimar em meu
leito de morte.
mas de algum modo
encontrei uma paz
perpétua
que nunca conseguirão
tirar
de mim.
cercado pelos
sempre-
irados,
desalmados e
alucinados.
mas minhas experiências de juventude foram
muito parecidas.
eu deveria ter-me ajustado a isso
nessa altura.
desde meu raivoso e furioso
e mesquinho pai
até
o montão de mulheres
que veio depois
todas elas consumidas pela
depressão,
raiva inútil,
gritaria e
piedade de si
sem
sentido.
felicidade e simples alegria
pareciam a todas elas serem
apenas doenças a
erradicar.
minha própria
história:
este modo terrível de
viver.
mas sinto que agora agarrei
a vitória
sobre toda essa inútil
negra e furiosa
histeria.
sobrevivi a tudo
isso e
podem me dar porradas com suas
vidas raivosas e
me queimar em meu
leito de morte.
mas de algum modo
encontrei uma paz
perpétua
que nunca conseguirão
tirar
de mim.
681
António Ramos Rosa
A Face Ergueu-Se Contra a Face
A face ergueu-se contra a face
quase
a palavra
dos dentes
quase
a palavra
dos dentes
1 088
Angela Santos
Secreta Morada
Vem,
e assume a força de um grito amordaçado,
irrompe nas minhas veias, lateja na minha cabeça
e no meu peito é incandescência .
Vem, e assoma à boca em palavras sussurradas
ditas não a medo, mas em sons transfigurados
perceptíveis no silencio só,
inaudíveis palavras
que o ar atravessam e buscam chegar às margens
de outro ser que em mim é.
Vem, debruado com orlas de saudade
isso que em mim
tem um nome que não sei dizer
que é meu mar de calmaria
minha raiva, minha crença, meu ir além
fome e saciar do meu ser.
Veio....como haveria de vir
de manso, sem pré-aviso
como quem chega a um lugar que soube sempre foi seu
veio para me deixar assim,
para sempre acompanhada pela certeza
de que em mim ergueu
sua secreta morada
abrigo do que não tem nome
e nem precisa de ter,
feito de um sentir mais fundo
que é sentir e saber.
Veio e em mim ficou
porque tinha que ser!
e assume a força de um grito amordaçado,
irrompe nas minhas veias, lateja na minha cabeça
e no meu peito é incandescência .
Vem, e assoma à boca em palavras sussurradas
ditas não a medo, mas em sons transfigurados
perceptíveis no silencio só,
inaudíveis palavras
que o ar atravessam e buscam chegar às margens
de outro ser que em mim é.
Vem, debruado com orlas de saudade
isso que em mim
tem um nome que não sei dizer
que é meu mar de calmaria
minha raiva, minha crença, meu ir além
fome e saciar do meu ser.
Veio....como haveria de vir
de manso, sem pré-aviso
como quem chega a um lugar que soube sempre foi seu
veio para me deixar assim,
para sempre acompanhada pela certeza
de que em mim ergueu
sua secreta morada
abrigo do que não tem nome
e nem precisa de ter,
feito de um sentir mais fundo
que é sentir e saber.
Veio e em mim ficou
porque tinha que ser!
1 092
Angela Santos
O Apocalipse, é agora!
De Thanatos é a voz que ressoa
e irrompe no muro dos lamentos...
cada grito, cada estilhaço vivo
Abel e Caim, outra vez e outra
na voragem das entranhas
De ódio as pedras
de ódio os tanques
de ódio as mitras,
de ódio os homens
de morte cada
esquina que os abriga
O Amor que se fez lei
quem de entre vós
lembra ainda?
e irrompe no muro dos lamentos...
cada grito, cada estilhaço vivo
Abel e Caim, outra vez e outra
na voragem das entranhas
De ódio as pedras
de ódio os tanques
de ódio as mitras,
de ódio os homens
de morte cada
esquina que os abriga
O Amor que se fez lei
quem de entre vós
lembra ainda?
1 042
Alfred Edward Housman
THEY SAY MY VERSE
Dizem: meu verso é triste: não admira.
Abarca a estreita medida
Tristes lágrimas de ira:
Não minhas: da vida.
Isto se escreve para os não-nascidos.
Gerados em vão,
Lerem quando se virem consumidos,
E eu não.
Abarca a estreita medida
Tristes lágrimas de ira:
Não minhas: da vida.
Isto se escreve para os não-nascidos.
Gerados em vão,
Lerem quando se virem consumidos,
E eu não.
1 049
Washington Queiroz
Toque de Cristal
Granítica
é a palavra amor
Diamantina
é a palavra ódio.
é a palavra amor
Diamantina
é a palavra ódio.
766
Tomáz Kim
Tempo Habitual
De nojo o tempo, o nosso,
A perfídia estrumando
No presumir da carícia branda e sorriso
De todos.
De raiva o tempo, o nosso,
Céu, mar e terra abrasando
Em clamor de labareda e navalha afiada
E sangue.
De pavor o tempo, o nosso,
A primavera assombrando.
Exílio de ventres a fecundar e tudo o mais
Que a faz.
De amor o tempo, o nosso,
Onde uma voz espalhando
A boa nova no pântano fétido da noite
Imposta?
De nojo, de raiva, de pavor,
O tempo transido
Do nosso viver dia-a-dia!
Mas não de amor...
A perfídia estrumando
No presumir da carícia branda e sorriso
De todos.
De raiva o tempo, o nosso,
Céu, mar e terra abrasando
Em clamor de labareda e navalha afiada
E sangue.
De pavor o tempo, o nosso,
A primavera assombrando.
Exílio de ventres a fecundar e tudo o mais
Que a faz.
De amor o tempo, o nosso,
Onde uma voz espalhando
A boa nova no pântano fétido da noite
Imposta?
De nojo, de raiva, de pavor,
O tempo transido
Do nosso viver dia-a-dia!
Mas não de amor...
1 253
Luís Inácio Araújo
A Palo Seco
Meu poema armado
com lacônicas palavras
(contundente arpejo)
canta-se assim torto
como não convém
e maneja facas
lâminas secas
pra te dizer certas coisas
que te fariam sangrar:
profundamente.
com lacônicas palavras
(contundente arpejo)
canta-se assim torto
como não convém
e maneja facas
lâminas secas
pra te dizer certas coisas
que te fariam sangrar:
profundamente.
714
João Linneu
Nó
A ânsia de desfazer o nó górdio
desloca a pedra angular,
- sustento do amor e ódio -
e nos faz pletórica a jugular.
desloca a pedra angular,
- sustento do amor e ódio -
e nos faz pletórica a jugular.
878
Leonardo de Leo Gama
Saudação a Afrodite
Teu amor de proveta quer te mascararsábio patético palhaçoquem diz não vai aprender a voarsou loucotolomas quem diz nunca soube amaro sanguemajestosamente coaguladoheroínabom vinhoembriaga deuses fúteisque só se ocupam em cagarse considera viver um desafiodrogue-se com a monotonia de dias bizarrosamematequeimemas não te esqueças de pingar teu colíriopequepecar é divinofurte para sentirdoce cheiro proibidoamecomatrepesiga teu ponto para o infinitonão falesintacuspateu sangue com toda melo-burocracianão há sons para amornem palavras para vidaseja ateuolha teus minutos docemente escuros através do vidrotodo cúpido nasce mortosete badaladas do sinoa jaulaescancaradaabstrato em evidênciaamorrancoródioinvejaLobos-cordeiros sabem olhar com indiferença
1 803
João Linneu
Lava
O Vulcão Arfa E Fede.
Da Lava
Ainda Nada.
Da Lava
Ainda Nada.
1 057
Golgona Anghel
Em vez de continuarem a cuspir
Em vez de continuarem a cuspir,
enxuguem a baba,
metam os sapatinhos de vela
o colarinho branco,
e olhem fixamente para a câmara:
podem dizer mal de mim,
mas sorriam.
Não desperdicem
as últimas três gotas de Chanel n.º 5
que o ódio vos borrifou nos pulsos.
Usem sempre as melhores cartas,
citem-me,
sejam lordes quando espetam a navalha.
Eu sei quem são,
conheço o vosso heiro.
Eu também ganho as minhas medalhas
em lares, creches e hospitais.
Podem, se quiserem,
ir ao céu,
mas isso não implica que encontrem Deus.
Agora não façam de mim
este bicho exótico
apanhado de surpresa,
enquanto preparava um cocktail
molotov no penico
do seu habitat natural.
Não me cortem as garras,
nem me domestiquem a cama.
Se não conseguem encontrar a saída,
se acertaram em cheio,
neste buraco vazio,
fiquem e lavem-se!
Daqui ninguém sai com fome.
enxuguem a baba,
metam os sapatinhos de vela
o colarinho branco,
e olhem fixamente para a câmara:
podem dizer mal de mim,
mas sorriam.
Não desperdicem
as últimas três gotas de Chanel n.º 5
que o ódio vos borrifou nos pulsos.
Usem sempre as melhores cartas,
citem-me,
sejam lordes quando espetam a navalha.
Eu sei quem são,
conheço o vosso heiro.
Eu também ganho as minhas medalhas
em lares, creches e hospitais.
Podem, se quiserem,
ir ao céu,
mas isso não implica que encontrem Deus.
Agora não façam de mim
este bicho exótico
apanhado de surpresa,
enquanto preparava um cocktail
molotov no penico
do seu habitat natural.
Não me cortem as garras,
nem me domestiquem a cama.
Se não conseguem encontrar a saída,
se acertaram em cheio,
neste buraco vazio,
fiquem e lavem-se!
Daqui ninguém sai com fome.
1 057
Nelly Sachs
MÃOS
Dos jardineiros da morte,
Que da camomila do berço,
Que nas duras pastagens viceja
Ou na encosta,
Criastes a morte, o monstro de estufa do vosso ofício,
Mãos,
Arrombando o tabernáculo do corpo,
Agarrando como dentes de tigre os sinais dos mistérios –
Mãos,
Que fazíeis vós
Quando éreis as mãos de crianças pequenas?
Seguráveis uma gaita, a crina
De um cavalinho de balanço, agarráveis a saia da mãe no escuro,
Apontáveis para uma palavra no livro de leitura? –
Era Deus talvez, ou homem?
Vós, mãos que estrangulais,
Estaria morta Vossa mãe,
Vossa esposa, vosso filho?
Para que nas mãos tão somente a morte tivésseis,
Nas mãos estranguladoras?
Que da camomila do berço,
Que nas duras pastagens viceja
Ou na encosta,
Criastes a morte, o monstro de estufa do vosso ofício,
Mãos,
Arrombando o tabernáculo do corpo,
Agarrando como dentes de tigre os sinais dos mistérios –
Mãos,
Que fazíeis vós
Quando éreis as mãos de crianças pequenas?
Seguráveis uma gaita, a crina
De um cavalinho de balanço, agarráveis a saia da mãe no escuro,
Apontáveis para uma palavra no livro de leitura? –
Era Deus talvez, ou homem?
Vós, mãos que estrangulais,
Estaria morta Vossa mãe,
Vossa esposa, vosso filho?
Para que nas mãos tão somente a morte tivésseis,
Nas mãos estranguladoras?
833
Alex Brasil
Boiada
Por que ficamos calados
passivos
submissos,
cabisbaixos,
fingindo que amanhã vai melhorar?
Acreditando nas estatísticas furadas,
nos iludindo com discursos mentirosos
com propagandas inventadas? —
Eu, "porque não quero a violência",
assim digo, mentindo a mim mesmo,
porque meus motivos são outros,
que escondo a todo preço.
Você "porque o sangue não compensa",
assim, diz, sujando a consciência em segredo,
pois seu verdadeiro motivo é o medo...
Os nordestinos, porque culpam a chuva,
onde depositam todas suas esperanças,
dizem, enquanto escondem os rostos
em procissão, enterrando suas crianças.
Do Oiapoque ao Chuí,
cada brasileiro tem sua desculpa
para suportar a podridão
em que a pátria se afoga.
Fingimos que há uma bandeira,
uma causa,
que nos une na inanição,
no martírio,
na dor,
na humilhação
na vergonha,
no pavor...
E, como boiadas nordestinadas,
nos deixamos tanger,
chicoteados por tiranos
nos levando a lugar nenhum,
nos alimentando de enganos,
enquanto definhamos, morrendo um a um...
passivos
submissos,
cabisbaixos,
fingindo que amanhã vai melhorar?
Acreditando nas estatísticas furadas,
nos iludindo com discursos mentirosos
com propagandas inventadas? —
Eu, "porque não quero a violência",
assim digo, mentindo a mim mesmo,
porque meus motivos são outros,
que escondo a todo preço.
Você "porque o sangue não compensa",
assim, diz, sujando a consciência em segredo,
pois seu verdadeiro motivo é o medo...
Os nordestinos, porque culpam a chuva,
onde depositam todas suas esperanças,
dizem, enquanto escondem os rostos
em procissão, enterrando suas crianças.
Do Oiapoque ao Chuí,
cada brasileiro tem sua desculpa
para suportar a podridão
em que a pátria se afoga.
Fingimos que há uma bandeira,
uma causa,
que nos une na inanição,
no martírio,
na dor,
na humilhação
na vergonha,
no pavor...
E, como boiadas nordestinadas,
nos deixamos tanger,
chicoteados por tiranos
nos levando a lugar nenhum,
nos alimentando de enganos,
enquanto definhamos, morrendo um a um...
1 149
Noel Ferreira
Cio
Frenético
ofegante
me contorço
na ânsia duma explosão
orgásmica.
Dói-me tudo
e o calor abrasa.
Lambo o suor
que me banha
e escorre
de cada poro aberto.
Puxo os cabelos
enraivecido.
Reteso a musculatura
em erecção.
Rebolo pelo chão
dentes cerrados.
Arrasto-me no lodo
mas não desisto.
Conseguirei.
Conseguirei
ainda que me rasgue todo!
ofegante
me contorço
na ânsia duma explosão
orgásmica.
Dói-me tudo
e o calor abrasa.
Lambo o suor
que me banha
e escorre
de cada poro aberto.
Puxo os cabelos
enraivecido.
Reteso a musculatura
em erecção.
Rebolo pelo chão
dentes cerrados.
Arrasto-me no lodo
mas não desisto.
Conseguirei.
Conseguirei
ainda que me rasgue todo!
1 108
Castro Alves
Diálogo dos Ecos
E chegou-se pra a vivenda
Risonho, calmo, feliz...
Escutou... mas só ao longe
Cantavam as juritis...
Murmurou: "Vou surpr’endê-la!"
E a porta ao toque cedeu...
"Talvez agora sonhando
Diz meu nome o lábio seu,
Que a dormir nada prevê..."
E o eco responde: — Vê! ...
"Como a casa está tão triste!
Que aperto no coração! ...
Maria!... Ninguém responde!
Maria, não ouves, não?...
Aqui vejo uma saudade
Nos braços de sua cruz...
Que querem dizer tais prantos,
Que rolam tantos, tantos,
Sobre as faces da saudade
Sobre os braços de Jesus?...
Oh! quem me empresta uma luz?...
Quem me arranca a ansiedade,
Que no meu peito nasceu?
Quem deste negro mistério
Me rasga o sombrio véu?...
E o eco responde: — Eu! ...
E chegou-se para o leito
Da casta flor do sertão...
Apertou coa mão convulsa
O punhal e o coração! ...
Stava inda tépido o ninho
Cheio de aromas suaves...
E — como a pena, que as aves
Deixam no musgo ao voar, —
Um anel de seus cabelos
Jazia cortado a esmo
Como relíquia no altar! ...
Talvez prendendo nos elos
Mil suspiros, mil anelos,
Mil soluços, mil desvelos,
Que ela deu-lhes pra guardar!...
E o pranto em baga a rolar ...
"Onde a pomba foi perder-se?
Que céu minha estrela encerra?
Maria, pobre criança,
Que fazes tu sobre a terra?"
E o eco responde: — Erra!
"Partiste! Nem te lembraste
Deste martírio sem fim!...
Não! perdoa... tu choraste
E os prantos, que derramaste
Foram vertidos por mim...
Houve pois um braço estranho
Robusto, feroz, tamanho,
Que pôde esmagar-te assim?...
E o eco responde: — Sim!
E rugiu: "Vingança! guerra!
Pela flor, que me deixaste,
Pela cruz em que rezaste,
E que teus prantos encerra!
Eu juro guerra de morte
A quem feriu desta sorte
O anjo puro da terra...
Vê como este braço é forte!
Vê como é rijo este ferro !
Meu golpe é certo... não erro.
Onde há sangue, sangue escorre!...
Vilão! Deste ferro e braço,
Nem a terra, nem o espaço,
Nem mesmo Deus te socorre !!..."
E o eco responde: — Corre !
Como o cão ele em tomo o ar aspira,
Depois se orientou.
Fareja as ervas... descobriu a pista
E rápido marchou.
....................................
No entanto sobre as águas, que cintilam,
Como o dorso de enorme crocodilo,
Já manso e manso escoa-se a canoa;
Parecia assim vista — ao sol poente —
Esses ninhos, que o vento lança às águas,
E que na enchente vão boiando à toa! ...
Risonho, calmo, feliz...
Escutou... mas só ao longe
Cantavam as juritis...
Murmurou: "Vou surpr’endê-la!"
E a porta ao toque cedeu...
"Talvez agora sonhando
Diz meu nome o lábio seu,
Que a dormir nada prevê..."
E o eco responde: — Vê! ...
"Como a casa está tão triste!
Que aperto no coração! ...
Maria!... Ninguém responde!
Maria, não ouves, não?...
Aqui vejo uma saudade
Nos braços de sua cruz...
Que querem dizer tais prantos,
Que rolam tantos, tantos,
Sobre as faces da saudade
Sobre os braços de Jesus?...
Oh! quem me empresta uma luz?...
Quem me arranca a ansiedade,
Que no meu peito nasceu?
Quem deste negro mistério
Me rasga o sombrio véu?...
E o eco responde: — Eu! ...
E chegou-se para o leito
Da casta flor do sertão...
Apertou coa mão convulsa
O punhal e o coração! ...
Stava inda tépido o ninho
Cheio de aromas suaves...
E — como a pena, que as aves
Deixam no musgo ao voar, —
Um anel de seus cabelos
Jazia cortado a esmo
Como relíquia no altar! ...
Talvez prendendo nos elos
Mil suspiros, mil anelos,
Mil soluços, mil desvelos,
Que ela deu-lhes pra guardar!...
E o pranto em baga a rolar ...
"Onde a pomba foi perder-se?
Que céu minha estrela encerra?
Maria, pobre criança,
Que fazes tu sobre a terra?"
E o eco responde: — Erra!
"Partiste! Nem te lembraste
Deste martírio sem fim!...
Não! perdoa... tu choraste
E os prantos, que derramaste
Foram vertidos por mim...
Houve pois um braço estranho
Robusto, feroz, tamanho,
Que pôde esmagar-te assim?...
E o eco responde: — Sim!
E rugiu: "Vingança! guerra!
Pela flor, que me deixaste,
Pela cruz em que rezaste,
E que teus prantos encerra!
Eu juro guerra de morte
A quem feriu desta sorte
O anjo puro da terra...
Vê como este braço é forte!
Vê como é rijo este ferro !
Meu golpe é certo... não erro.
Onde há sangue, sangue escorre!...
Vilão! Deste ferro e braço,
Nem a terra, nem o espaço,
Nem mesmo Deus te socorre !!..."
E o eco responde: — Corre !
Como o cão ele em tomo o ar aspira,
Depois se orientou.
Fareja as ervas... descobriu a pista
E rápido marchou.
....................................
No entanto sobre as águas, que cintilam,
Como o dorso de enorme crocodilo,
Já manso e manso escoa-se a canoa;
Parecia assim vista — ao sol poente —
Esses ninhos, que o vento lança às águas,
E que na enchente vão boiando à toa! ...
2 254
Castro Alves
Pesadelo
(POEMETO)
I
O RENDEZ-VOUS
ERA UMA NOITE perfumada e lânguida.
Contava a brisa amores à folhagem.
Da lua num olhar voluptuoso
Envolvia-se cândida paisagem.
Quais lágrimas do céu, brancos orvalhos
Trementes penduravam-se dos galhos.
E as flores suspiravam molemente
Da brisa ao receber os doces beijos.
E o mar batia túmido nas praias
Qual seio de donzela a arfar desejos.
E nuvens lá no céu brancas passavam,
Como garças formosas que adejavam.
Quebrando a solidão longínquo canto
Trouxe a brisa de terno bandolim,
Voluptuoso, ardente e delicado,
Como dharpa de etéreo serafim.
E o canto — todo amores — todo gozo —
Ia ecoando belo e languoroso.
Era Joseph — o trovador ardente,
Que o silêncio da noite perturbava.
Era o bardo formoso, apaixonado
Que a Andaluza fogosa fascinava.
Pálido o rosto, negro o seu cabelo,
Olhar cheio de luz... Ele era belo.
Depois calou-se a voz... Como essas fadas
Que à noite, quando voa a fantasia,
Vemos, sentimos belas, vaporosas,
— Anjos que o ideal somente cria; —
Tal ou mais linda, abrindo uma janela,
Surge uma virgem fascinante e bela.
Era um rosto formoso de madona,
Voava-lhe a madeixa destrançada.
E o seio que tremia, — pelas rendas
A lua olhava louca, apaixonada.
Tinha um pé que invejara uma criança.
Bem feliz quem ao peito lhe descansa!...
Depois uns lábios férvidos se uniram
Entre beijos dois nomes se escutaram...
Dois nomes e mil beijos amorosos
Nos lábios as palavras encerraram...
Dois nomes em que a vida toda sia...
Dois poemas de santa poesia...
E a porta após rodou por sobre os quícios,
E a murmurar deixou passar o amante...
Somente um temo e lânguido suspiro
Ouvi trazer a brisa sussurrante...
E a lua então num lânguido desmaio
Ciumenta lançou o último raio...
II
O ASSASSINO
Uma noite era negro firmamento,
Monótona caía fria chuva,
E a terra envolta em véu de densas trevas
Parecia chorosa uma viúva;
Só as aves da noite regeladas
Gritando se escondiam nas moradas.
Trazia o vento o silvo da rajada
Que lúgubre zunia nos pinheiros,
Trazia gritos pávidos, medrosos,
Talvez dalguns perdidos caminheiros,
E no embate co’a branca penedia,
O mar sinistro e tétrico rugia.
De um lampião à luz incerta e vaga
Um vulto negro e triste senxergava;
Coberto do capote e do sombrero,
O rosto macilento só mostrava...
Mas dalgum raio ao brilho repentino
Conhecereis — Jorge — o libertino —
Que fazes, Jorge, a estas horas mortas?
A noite está tristonha e friorenta;
Vai aquecer da prostituta ao colo
De libertino a fronte macilenta.
Vai escaldar esta alma morta e fria
Aos beijos do cognac quincendia.
Vai... Quando a alma senjoa deste mundo
Sempre descrente, acerbo dironia,
O cognac nos dá formosos mundos,
Castelos encantados de poesia.
E entre um gol de cognac e uma fumaça
Em ditoso delírio a vida passa.
Mas Jorge está mais lúgubre e sombrio
Que o mármore dum túmlo mais calado,
Parece o seu olhar mais turvo e frio,
O sulco do sobrolho mais cavado...
Ai! Jorge... Vais unir ao libertino
A covardia infame do assassino...
E ele pouco esperou. Saudoso canto,
Que suspirava ao longe, aproximou-se,
E o canto era mais terno e mais sentido
Quo último som do cisne que finou-se;
Era um canto em que atroz pressentimento
Segredava ao mancebo o passamento.
Um momento depois um grito agudo
Triste uniu-se da noite à voz sombria...
Foi um grito somente e após ouviu-se
O convulso estertor de umagonia...
A noite se estendeu como um sudário
Do cantor sobre o leito funerário.
Somente após à fulva luz de um raio
Veríeis uma virgem linda e nua...
Tremia de terror, ouvira o grito...
Stava pálida e branca como a lua,
E quando viu o amante — de amargura
Tornou-se a estátua pasma da loucura.
III
A LOUCA
Laura, onde vais? Sozinha a tais desoras
O vento há de gelar-te a branca pele.
Como tremes convulsa, e que sorriso!
Que chamas teu olhar ardente expele!
Laura, onde vais! Os pés nus, delicados,
Não maltrates nos seixos orvalhados.
Mulher, a quem procuras a estas horas?
Donzela, porque sais tão alta noite?
Não vês como aparecem mil fantasmas?
Não sentes da geada o frio açoite?
E das aves da noite o triste pio
Não faz por ti correr um calafrio? ...
E ela seguia muda e taciturna,
Nas rochas machucando o pé divino.
Parecia sonâmbula perdida,
Autômato a seguir o seu destino.
Arfava o peito em ânsias ofegante,
Seu olhar era fixo e fascinante.
E seguia... e seguia... e nem ao menos
Parava um só momento no caminho;
Não sentia rasgarem-se-lhe as vestes
De incultos ervaçais no duro espinho.
O gênio da vingança é que a impelia...
Como o Judeu errante ela seguia...
............................................
IV
A ENTREVISTA NO TÚMULO
Era um triste lugar. Entre ciprestes,
Que a custo balançavam a ramagem,
Onde só pra gemer tristes endechas
Passava regelada e fria a aragem,
Num esquife entreaberto está deitado
Um cadáver de moço abandonado.
E entregue às intempéries... sem amigos
Sem ter quem vá ali chorar um pranto.
Tu, que cantaste os sentimentos puros,
Quencontraste no mundo um doce encanto,
Tu dormes, sonhador, já macilento,
Entregue aos vermes vis, posto ao relento.
E esta fronte onde o gênio se inflamava,
Donde brotava ardente a poesia,
E os lábios que disseram sons cadentes,
Que ensinava-te alegre a fantasia,
São hoje como a lâmpada sem lume, —
Harpa sem cordas, — flores sem perfume.
Ninguém vem te chorar. Não, dentre as sombras
Uma sombra passou branca e ligeira,
Os ramos do arvoredo estremeceram,
Espantada voou a ave agoureira...
Quem perturba esta lúgubre morada?
Uma mulher... É Laura, a apaixonada.
E ela chegou-se rindo e soluçando
Cum rir entre medonho e entre formoso,
Seus lábios tressuavam de ironia
Ao mesmo tempo de inocente gozo.
Junto ao verde cadáver ajoelhou
E com os lábios ardentes o beijou.
Depois sentou-se triste junto ao esquife
E as passadas cantigas recordando,
Nos dedos frios, trêmulos, nervosos,
Cos cabelos do amante ia brincando;
Coa outra mão sobre o morto regelado
Pôs um longo punhal ensangüentado.
"Durmamos, disse ela, é meu amante!
Não vês? Eu tenho as mãos ensangüentadas.
Este sangue é de Jorge, é do assassino,
Durmamos: tuas cinzas stão vingadas".
... Então beijou-o louca em devaneio
E recostou-lhe a fronte no seu seio...
............................................
V
OS DOIS CADÁVERES
E depois quando a aurora ergueu-se linda,
Viu a louca a embalar no seio o amante,
Cantando mil cantigas e o beijando
Sempre amorosa, triste e delirante...
Mas a lua coos raios desmaiados
Viu dois mortos unidos, abraçados ...
I
O RENDEZ-VOUS
ERA UMA NOITE perfumada e lânguida.
Contava a brisa amores à folhagem.
Da lua num olhar voluptuoso
Envolvia-se cândida paisagem.
Quais lágrimas do céu, brancos orvalhos
Trementes penduravam-se dos galhos.
E as flores suspiravam molemente
Da brisa ao receber os doces beijos.
E o mar batia túmido nas praias
Qual seio de donzela a arfar desejos.
E nuvens lá no céu brancas passavam,
Como garças formosas que adejavam.
Quebrando a solidão longínquo canto
Trouxe a brisa de terno bandolim,
Voluptuoso, ardente e delicado,
Como dharpa de etéreo serafim.
E o canto — todo amores — todo gozo —
Ia ecoando belo e languoroso.
Era Joseph — o trovador ardente,
Que o silêncio da noite perturbava.
Era o bardo formoso, apaixonado
Que a Andaluza fogosa fascinava.
Pálido o rosto, negro o seu cabelo,
Olhar cheio de luz... Ele era belo.
Depois calou-se a voz... Como essas fadas
Que à noite, quando voa a fantasia,
Vemos, sentimos belas, vaporosas,
— Anjos que o ideal somente cria; —
Tal ou mais linda, abrindo uma janela,
Surge uma virgem fascinante e bela.
Era um rosto formoso de madona,
Voava-lhe a madeixa destrançada.
E o seio que tremia, — pelas rendas
A lua olhava louca, apaixonada.
Tinha um pé que invejara uma criança.
Bem feliz quem ao peito lhe descansa!...
Depois uns lábios férvidos se uniram
Entre beijos dois nomes se escutaram...
Dois nomes e mil beijos amorosos
Nos lábios as palavras encerraram...
Dois nomes em que a vida toda sia...
Dois poemas de santa poesia...
E a porta após rodou por sobre os quícios,
E a murmurar deixou passar o amante...
Somente um temo e lânguido suspiro
Ouvi trazer a brisa sussurrante...
E a lua então num lânguido desmaio
Ciumenta lançou o último raio...
II
O ASSASSINO
Uma noite era negro firmamento,
Monótona caía fria chuva,
E a terra envolta em véu de densas trevas
Parecia chorosa uma viúva;
Só as aves da noite regeladas
Gritando se escondiam nas moradas.
Trazia o vento o silvo da rajada
Que lúgubre zunia nos pinheiros,
Trazia gritos pávidos, medrosos,
Talvez dalguns perdidos caminheiros,
E no embate co’a branca penedia,
O mar sinistro e tétrico rugia.
De um lampião à luz incerta e vaga
Um vulto negro e triste senxergava;
Coberto do capote e do sombrero,
O rosto macilento só mostrava...
Mas dalgum raio ao brilho repentino
Conhecereis — Jorge — o libertino —
Que fazes, Jorge, a estas horas mortas?
A noite está tristonha e friorenta;
Vai aquecer da prostituta ao colo
De libertino a fronte macilenta.
Vai escaldar esta alma morta e fria
Aos beijos do cognac quincendia.
Vai... Quando a alma senjoa deste mundo
Sempre descrente, acerbo dironia,
O cognac nos dá formosos mundos,
Castelos encantados de poesia.
E entre um gol de cognac e uma fumaça
Em ditoso delírio a vida passa.
Mas Jorge está mais lúgubre e sombrio
Que o mármore dum túmlo mais calado,
Parece o seu olhar mais turvo e frio,
O sulco do sobrolho mais cavado...
Ai! Jorge... Vais unir ao libertino
A covardia infame do assassino...
E ele pouco esperou. Saudoso canto,
Que suspirava ao longe, aproximou-se,
E o canto era mais terno e mais sentido
Quo último som do cisne que finou-se;
Era um canto em que atroz pressentimento
Segredava ao mancebo o passamento.
Um momento depois um grito agudo
Triste uniu-se da noite à voz sombria...
Foi um grito somente e após ouviu-se
O convulso estertor de umagonia...
A noite se estendeu como um sudário
Do cantor sobre o leito funerário.
Somente após à fulva luz de um raio
Veríeis uma virgem linda e nua...
Tremia de terror, ouvira o grito...
Stava pálida e branca como a lua,
E quando viu o amante — de amargura
Tornou-se a estátua pasma da loucura.
III
A LOUCA
Laura, onde vais? Sozinha a tais desoras
O vento há de gelar-te a branca pele.
Como tremes convulsa, e que sorriso!
Que chamas teu olhar ardente expele!
Laura, onde vais! Os pés nus, delicados,
Não maltrates nos seixos orvalhados.
Mulher, a quem procuras a estas horas?
Donzela, porque sais tão alta noite?
Não vês como aparecem mil fantasmas?
Não sentes da geada o frio açoite?
E das aves da noite o triste pio
Não faz por ti correr um calafrio? ...
E ela seguia muda e taciturna,
Nas rochas machucando o pé divino.
Parecia sonâmbula perdida,
Autômato a seguir o seu destino.
Arfava o peito em ânsias ofegante,
Seu olhar era fixo e fascinante.
E seguia... e seguia... e nem ao menos
Parava um só momento no caminho;
Não sentia rasgarem-se-lhe as vestes
De incultos ervaçais no duro espinho.
O gênio da vingança é que a impelia...
Como o Judeu errante ela seguia...
............................................
IV
A ENTREVISTA NO TÚMULO
Era um triste lugar. Entre ciprestes,
Que a custo balançavam a ramagem,
Onde só pra gemer tristes endechas
Passava regelada e fria a aragem,
Num esquife entreaberto está deitado
Um cadáver de moço abandonado.
E entregue às intempéries... sem amigos
Sem ter quem vá ali chorar um pranto.
Tu, que cantaste os sentimentos puros,
Quencontraste no mundo um doce encanto,
Tu dormes, sonhador, já macilento,
Entregue aos vermes vis, posto ao relento.
E esta fronte onde o gênio se inflamava,
Donde brotava ardente a poesia,
E os lábios que disseram sons cadentes,
Que ensinava-te alegre a fantasia,
São hoje como a lâmpada sem lume, —
Harpa sem cordas, — flores sem perfume.
Ninguém vem te chorar. Não, dentre as sombras
Uma sombra passou branca e ligeira,
Os ramos do arvoredo estremeceram,
Espantada voou a ave agoureira...
Quem perturba esta lúgubre morada?
Uma mulher... É Laura, a apaixonada.
E ela chegou-se rindo e soluçando
Cum rir entre medonho e entre formoso,
Seus lábios tressuavam de ironia
Ao mesmo tempo de inocente gozo.
Junto ao verde cadáver ajoelhou
E com os lábios ardentes o beijou.
Depois sentou-se triste junto ao esquife
E as passadas cantigas recordando,
Nos dedos frios, trêmulos, nervosos,
Cos cabelos do amante ia brincando;
Coa outra mão sobre o morto regelado
Pôs um longo punhal ensangüentado.
"Durmamos, disse ela, é meu amante!
Não vês? Eu tenho as mãos ensangüentadas.
Este sangue é de Jorge, é do assassino,
Durmamos: tuas cinzas stão vingadas".
... Então beijou-o louca em devaneio
E recostou-lhe a fronte no seu seio...
............................................
V
OS DOIS CADÁVERES
E depois quando a aurora ergueu-se linda,
Viu a louca a embalar no seio o amante,
Cantando mil cantigas e o beijando
Sempre amorosa, triste e delirante...
Mas a lua coos raios desmaiados
Viu dois mortos unidos, abraçados ...
3 233
Castro Alves
Amante
"BASTA, criança! Não soluces tanto...
Enxuga os olhos, meu amor, enxuga!
Que culpa tem a clícia descaída
Se abelha envenenada o mel lhe suga?
"Basta! Esta faca já contou mil gotas
De lágrimas de dor nos teus olhares.
Sorri, Maria! Ela jurou pagar-tas
No sangue dele em gotas aos milhares.
"Por que volves os olhos desvairados?
Por que tremes assim, frágil criança?
Estalma é como o braço, o braço é ferro,
E o ferro sabe o trilho da vingança.
"Se a justiça da terra te abandona,
Se a justiça do céu de ti se esquece,
A justiça do escravo está na força...
E quem tem um punhal nada carece! ...
"Vamos! Acaba a história ... Lança a presa...
Não vês meu coração, que sente fome?
Amanhã chorarás; mas de alegria!
Hoje é preciso me dizer — seu nome!"
Enxuga os olhos, meu amor, enxuga!
Que culpa tem a clícia descaída
Se abelha envenenada o mel lhe suga?
"Basta! Esta faca já contou mil gotas
De lágrimas de dor nos teus olhares.
Sorri, Maria! Ela jurou pagar-tas
No sangue dele em gotas aos milhares.
"Por que volves os olhos desvairados?
Por que tremes assim, frágil criança?
Estalma é como o braço, o braço é ferro,
E o ferro sabe o trilho da vingança.
"Se a justiça da terra te abandona,
Se a justiça do céu de ti se esquece,
A justiça do escravo está na força...
E quem tem um punhal nada carece! ...
"Vamos! Acaba a história ... Lança a presa...
Não vês meu coração, que sente fome?
Amanhã chorarás; mas de alegria!
Hoje é preciso me dizer — seu nome!"
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