Poemas neste tema

Raiva e Indignação

Angela Santos

Angela Santos

Guerra


nada os fazia seguir ou ficar…
lá ao longe o eco de explosões e gritos
O asfalto da guerra
e a vida distante
envolta em lembranças de sonhos perdidos,

O sonho tingido de fumos e negro
inventava cores desenhava horizontes
cada passo em frente era um passo
a menos
cada vez mais perto
do sonho acabar

Corpos e memória desnudos, exaustos
Cavados por dentro
por uma raiva lume,
funda de raiz…
um grito apertado
expresso nos olhos,
e no crispar da arma
nas mãos de crianças
sem tempo de o ser…

E os senhores do tempo
sem alma e sem Deus
perdidos nos jogos de ódios
e razões,
lembram novos Neros
saboreando pérfidos
a visão do sangue
invadindo a arena.

746
Argemiro de Paula Garcia Filho

Argemiro de Paula Garcia Filho

Pedido de Desligamento

Senhor CAlex,
por favor não me incomode,
meu correio
anda cheio
de tanta aporrinhação.
Senhor CAlex,
a poesia não me acode
o que eu quero e ter dinheiro
tanto assim que, em fevereiro,
eu trabalho pro patrão.
Senhor CAlex,
que vantagem o senhor leva
em mandar tanta poesia,
a tanta gente, todo dia,
sem receber um tostão?
Senhor CAlex,
quero a vida sempre em treva,
não quero trova,
a poesia não escova
meu bolso sempre sem tostão.

Salvador, 19/12/96

1 001
Leónidas Lamborghini

Leónidas Lamborghini

Dados

Como aquele que no café
gira com fúria
os dados
no escuro do copo
para juntar coragem
contra o contra da sorte.
Como aquele que concentra
todo o esforço
ali no alto
fazendo rugir os dados
no escuro
para juntar coragem
contra o contra da sorte.
Como aquele que do alto
vai descarregar
os dados
e vocifera com fúria
para juntar coragem
contra o contra da sorte.
Como aquele que com todas
as forças
agita os dados no alto
e dali
descarrega com fúria
na mesa
o copo
como esse
como esse
para juntar coragem
contra o contra da sorte.
739
Pentti Saarikoski

Pentti Saarikoski

LII

eu convido
as feministas de Eurípides
as filhas de Bacchus
sirvo vinho de sorva
e as incito
a fazer em pedaços
os censores
que nos observam
dentro destas cercas de arbustos
e as incito a fazer em pedaços
os cônsules castrados
e César
e todos os manda-chuvas
eu as incito a fazer em pedaços
o judiciário o clérigo
todos
os portadores defasces
para que as matas
ao redor da pista de dança
cubram-se de cabeças mordidas feito amoras
(paráfrases de Ricardo Domeneck, a partir das traduções de Anselm Hollo para o inglês)
604
Louise Bourgeois

Louise Bourgeois

Cinquenta anos de idade mantida na escuridão

Cinquenta anos de idade mantida na escuridão -
resultam raiva resulta - frustração do saber
Dez anos de idade curiosidade insatisfeita -
raiva ultraje resulta raiva
marginalizada
Um ano de idade - abandonada - por que me
deixam aqui, onde eles estão
Três meses de idade - morta de fome e esquecida
Um mês de idade - medo da morte
inDestruição do Pai, Reconstrução do Pai - Escritos e Entrevistas (Cosac Naify: São Paulo, 2000)
776 1
Angela Santos

Angela Santos

Fio de Ariadne

Depois
da raiva que abriu sulcos
e rasgou fendas
epois da dor que antecedeu as lágrimas
depois da noite que encheu
as noites brancas
depois do cansaço de dias
sempre iguais…
talvez que um brilho de estrelas
vindo, sei lá, de Orion
se prenda ao meu olhar…

Talvez que livre de amarras,
e por dentro dos sentidos,
um navio se perfile
na senda de um sol - nascente…

Talvez que o simples cheiro
que a terra exala me chame
e eu fique presa a ela
por um fio de Ariadne.

966
Miriam Paglia Costa

Miriam Paglia Costa

O Anjo Vingador

- gosto
de matar pelas costas
é tão bonito!

o menino fala assim ao psicólogo
que conta ao repórter
que conta ao leitor
que todos se horrorizem

o tiro joga o corpo á frente
abertos braços
o quase morto, o morto
cai
súbito vôo em curto abismo

a morte é bela ?
a fala espanta o estudioso
belo é o poder?
a morte assombra
fútil, nas mãos do fútil assassino

mas
entre mitos mais que antigos existe outra moral:
num livro grosso , o livro dos destinos
estaria inscrito eternamente
o encontro do morto e seu carrasco

segundo o rito do fado e da tragédia
a mão que ceifa está sagrada
é outra a ira que executa, grave e dura
relâmpago divino

aqui, no palco das vilezas
horror é fala de meninos.

857
Dambudzo Marechera

Dambudzo Marechera

Há um dissidente na sopa eleitoral!

Não tenho ouvidos para slogans
É melhor que você cale a matraca
Eu corro quando é hora do EU TE AMO
Não venha com essa Eu vou ficar dessa vez
Eu corro quando é hora de THE FIGHT
Eu corro quando é hora do AVANTE
Não venha com essa Vamos trepar toda a noite
A lua não vai baixar
Primeiro desajeitada, lancinante de constrangedora
Mas com Vênus ascendendo, grito e pulo de alegria

Quando os lençóis estão finalmente em silêncio
Não pergunte "O que você está pensando?"
Não pergunte "Foi gostoso?"
Não se sinta mal porque estou fumando
Os inseguros é que perguntam e se sentem mal
Que dizem depois do ato "Me conte uma história"
E você já deve saber bem
Não fale em "CASAMENTO" se quiser que essa reconciliação
Venha a durar

:

There ´s a dissident in the election soup!

I have no ear for slogans
You may as well shut up your arse
I run when it"s I LOVE YOU time
Don"t say it I"ll stick around
I run when it"s A LUTA time
I run when it"s FORWARD time
Don"t say it we"ll fuck the whole night
The moon won"t come down
At first awkwardly, excruciatingly embarrassing
But with Venus ascending, a shout and leap of joy

When the sheets are at last silent
Don"t ask "What are you thinking?"
Don"t ask "Was it good?"
Don"t feel bad because I"m smoking
They ask and feel bad who are insecure
Who say after the act "Tell me a story"
And you may as well know
Don"t talk of "MARRIAGE" if this reconciliation
is to last.


Quem usou minha mochila nova!?

Tive esse pesadelo
Pegava meu irmão estourava seu cérebro
Ao acordar encontrava atrasado o aluguel

Tive esse sonho
Pegava minha irmã pruma foda
Ao acordar lá estavam os B.O.´s

Tentei dar um jeito na noite de sol
Ladrão cafetão tudo só na lábia
Ao voltar a PM já metia o pé na porta do barraco

E eu que achei que até um filho-da-puta
Diziam que tinha FAMÍLIA
Suas desculpas esfarrapadas me devolveram
Aos chutes noite adentro.

Agora não há o que fazer só não pensar
Sim não pensar é o único tabu
Mochila de Pandora dentro do anarquista
E sua mentícula

:

Who´s used my new rucksack!?

Had this nightmare
Bashed out my brother"s brains
Woke to find I owed rent

Had this dream
Fucking my sister
Woke to find final demands

Tried to sort out the sunlit night
Thieving pimping talk it outright
Got back bailiffs were breaking down the door

And I thought even a son-of-a-bitch"s
Supposed to have FAMILY
Their scraps of excuses kicked me back
Into the night

Now there"s nothing but not to think
Yes not-to-think is the only taboo
The Pandora"s rucksack inside the anarchist"s
Tiny mind
930
Henriqueta Lisboa

Henriqueta Lisboa

Denúncia

Os tresloucados do volante
— ó vendaval —
voam velozes e ferozes
à caça de carne humana.
Olhos de abutre
fisgam de rua em rua
alguma oferta de acaso.
Rindo brancura de dentes
mil poderes aceleram
rumo à vítima entrevista.
O mundo que lhes pertence
tomam ao revés — de assalto.
Sangram
despedaçam
matam
E ombros erguidos prosseguem
vitoriosos pressurosos
para os aplausos da seita.

de Pousada do ser (1982)

1 030
Christine Lavant

Christine Lavant

Eu quero partir com os loucos o pão,

Eu quero partir com os loucos o pão,
migalhas diárias do desespero grande,
também o sino em meio ao peito,
ali onde o pombo aninha-se
e tem seu refúgio minúsculo
no ermo sobre as águas.
Residi por anos como pedra
no chão das coisas.
Eu ouvi, porém, o sino
sussurrar teu segredo
nos peixes com asas.
Hei-de aprender a voar e nadar,
deixar o pedregoso sob as pedras,
aconchegar em madrepérola
a melancolia, elevar aflição, ira.
Minhas asas são mais velhas
que tua paciência, minhas asas
vão à frente da coragem
que tomou sobre os ombros o louco.
Eu quero partir com os loucos o pão,
ali no ermo assustador do pombo,
onde o sino triparte o maior desespero
ao som tríplice do teu nome.
690
Bessie Head

Bessie Head

Coisas de que não gosto

Eu sou negra.
Tá bem?
Sol forte e disposição geográfica
Fizeram-me negra;
E através de minha pele
Muita coisa acontece comigo
DE QUE NÃO GOSTO
E acordo toda manhã
Com sangue homicida nos olhos
Porque um malandro me roubou de novo,
Levando o pouco que tinha nas mãos
Com todo o mundo assistindo
E fazendo nada
Tá bem?
Ah, não.
Hoje é meu dia.
Vou recuperar tintim por tintim,
Tudo o que me roubaste.
Vou à briga até que tu e eu
Estejamos no chão esvaindo-nos em sangue,
E não me importa quem morra, tu ou eu,
Mas vou para a briga -
Tá bem?
:
Things I Don't Like
I am Black.
Okay?
Hot sun and the geographical set-up
Made me Black;
And through my skin
A lot of things happen to me
THAT I DON'T LIKE
And I wake each morning
Red murder in my eyes
'Cause some crook's robbed me again,
Taken what little I had right out of my hands
With the whole world standing by
And doing nothing
Okay?
Oh no.
Today is my day.
Going to get back tit-for-tat,
All you stole.
Going to fight you till you or I
Lie smashed and bleeding dead
And don't care who dies, You or I,
But going to fight -
Okay?
713
Leonel Neves

Leonel Neves

LEMBRANÇA DA SEGUNDA GRANDE GUERRA

Uma manhã chegou a guerra. Do Japão.
Veio e aqui ficou talvez dois ou três anos.
De japoneses havia uma divisão;
julgo que só trezentos, dos australianos.

Como eram poucos, eram bons. Os outros, não:
mataram-me vizinhos, o meu pai, dois manos.
O meu homem fugiu e ajudou no Subão
dois loiros a afogar cem dos mais desumanos.

Naquela noite, entrou-me em casa uma baioneta.
Um soldado amarelo e súbito agarrou-me
- eu estava sozinha - e deitou-me depressa.

Deixei-o possuir-me, silenciosa e quieta;
e, quando adormeceu, sem perguntar-me o nome,
peguei numa catana e cortei-lhe a cabeça.

427
Antônio Brasileiro

Antônio Brasileiro

Canto de Flor e de Ódio

Em vossos campos de flores
muitos mortos brotarão:
chegado é o tempo do ódio.

(vasto ódio líquido inundando,
escorrendo pelas frestas,
povoando os tetos, os telhados;

tempo do ódio recolhido
nas corolas, como orvalho;

tempo do ódio conciso)

Façam-se horas de bronze
façam-se vozes em vossos
campos de flores, caladas.

Marcharemos contra o sol!

Restarão convosco as praças
sobre as calçadas — partidas.

968
Cassiano Ricardo

Cassiano Ricardo

Retorno à Rua

I
Turba-multa multicor. Em tumulto.

O ideal e a fome reunidos
em algum lugar da terra na rua.

Contra a exploração do osso humano
pelo cachorro humano.

Subvivos, no anseio de sobreviver.
O povo
na rua.

E já os policiais, geometricamente
chovidos de botões de ouro, na mão
a metralhadora portátil,
leve e breve;
na rua.

Vultos baralhados cuspindo furiosas
sílabas de sangue, uns na
face dos outros
de um a outro lado
da rua.

Bairro contra bairro, relâmpagos
de fuzis e o saldo:
(rubras rosas
monstruosas) que desabrocharam
na rua.

Bocas sem lábios que ficaram rindo
na rua

Dedos brotando avulsos pelos
vãos dos sapatos
na rua.

Olhos parados no rosto das calçadas
máquinas azuis-fixas fotografando
o juízo final
na rua.

Braços com mãos despetaladas, sem
uma cabeça que lhes sirva de
lanterna
e os recomponha,
na rua.

O interrogatório. Os sobreviventes.
Pedregulhos nos olhos.
Salvos
à fúria bélico-purpúrea da lei
na rua.

II

Outro saldo: o dos sobreviventes
indignos. Os que não saíram
de casa.

Os que faltaram a seus compr'
omissos
com a rua.

Os omissos.


In: RICARDO, Cassiano. Os sobreviventes: acompanhados de um poema circunstancial e de uma tradução. Pref. Eduardo Portella. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1971. p.184-185. Poema integrante da série O Bloco dos Suicidas
2 183
Henriqueta Lisboa

Henriqueta Lisboa

Denúncia

Os tresloucados do volante
— ó vendaval —
voam velozes e ferozes
à caça de carne humana.
Olhos de abutre
fisgam de rua em rua
alguma oferta de acaso.
Rindo brancura de dentes
mil poderes aceleram
rumo à vítima entrevista.
O mundo que lhes pertence
tomam ao revés — de assalto.
Sangram
despedaçam
matam
E ombros erguidos prosseguem
vitoriosos pressurosos
para os aplausos da seita.


Publicado no livro Pousada do Ser (1982).

In: LISBOA, Henriqueta. Obras completas I: poesia geral, 1929/1983. Pref. Fábio Lucas. São Paulo: Duas Cidades, 198
1 477
Raniere Rodrigues dos Santos

Raniere Rodrigues dos Santos

O Indesejável

Não fui ao martírio,
Mas sei o horror
Que é a guerra.

Gente chora,
Gente grita,
Gente enlouquece,
Gente se vê no inferno.

A guerra,
Não traz alegria.
Só traumas.

Gente paralítica,
Gente cega,
Gente muda,
Gente sem vida.

Lutar por petróleo
Que todos
Um pouco desfrutam.

Gente egoísta,
Gente horrorosa,
Gente burra,
Gente diabólica.

Lutar pela paz
Que todos Precisam.

Gente boa,
Gente amorosa,
Gente simples, Gente de Deus.

855
Sylvia Plath

Sylvia Plath

Lesbos

Safadeza na cozinha!
As batatas sibilam.
Isso é Hollywood, sem janelas,
A luz fluorescente oscila como uma enxaqueca terrível.
Nas portas, tiras de papel -
Cortinas de teatro, o cabelo crespo da viúva.
E eu, Amor, sou uma mentirosa patológica,
E minha filha - olhe só pra ela, de cara no assoalho,
Fantoche sem cordas, tremendo até sumir -
Como é esquizofrênica,
Sua cara corada e pálida, em pânico:
Você botou os gatos dela pra fora da janela
Numa caixa com areia
Onde podem vomitar e cagar e miar sem que ela possa ouvir.
Você diz que não suporta mais,
A putinha.
Você queimou suas válvulas como um rádio velho
Limpo de vozes e história, o ruído novo
Da estática.
Você diz que eu afogaria os gatinhos. Que fedor!
Você diz que eu afogaria minha filha.
Ela vai cortar a garganta aos dez se não pirar aos dois.
O sorriso do bebê, lesma obesa,
Nos losangos lustrados de linóleo laranja.
Você podia comê-lo. É um menino.
Você diz que seu marido não é bom pra você.
Sua mãe judia vigia seu sexo como jóia.
Você tem um bebê, eu tenho dois.
Eu bem podia me sentar numa rocha e me pentear.
Podia usar colã de tigresa e ter um affair.
A gente bem que podia se ver na outra vida, se ver no ar,
Só eu e você.

Porém há um cheiro de banha e cocô de bebê.
Estou dopada e enjoada depois do último sonífero.
Fumaça de cozinha, fumaça infernal
Nos sobrevoa, rivais venenosas,
Nossos ossos, nossos pêlos.
Te xingo de Órfã, órfã. Você esta doente.

O sol te dá úlcera, o vento, tuberculose.
Um dia você foi bonita.
Em Nova York, em Hollywood, os homens te diziam: "Acabou?
Gata, você é demais!".
Você servia, servia, servia pro papel.
E o marido brocha sai pra tomar um café.
Tento segurá-lo, não saio,
Relâmpago para um velho pára-raio,
Os banhos ácidos, um céu inteiro cheio de você.
Ele despenca da colina de plástico.
Trem desgovernado. Faíscas azuis se espalham,
Trincando como quartzo em milhões de pedacinhos.

O jóia! Ó valiosa!
Naquela noite a lua
Arrastou seu saco de sangue, animal
Doente
Por sobre as luzes do cais.
Então voltava ao crescente,
Dura, branca e ausente.
Na areia o brilho das escamas me matava de medo.
A gente as apanhava aos montes, curtindo,
Modelando-as como massa, um corpo mulato,
Grãos de seda.
Um cachorro pegou seu marido cachorro. E se mandou.

Agora estou quieta, ódio
Até o pescoço,
Grosso, grosso
Não falo nisso.
Empacoto batatas como roupas finas,
Empacoto os bebês,
Empacoto os gatos doentes.
Oh, ampola de ácido,
É de amor que você esta cheia. Você sabe quem você odeia.
Ele ruge e arrasta as correntes pelo portão
Que se abre pro mar
Onde ele invade, preto e branco,
E o vomita de volta.
Você o enche com seus papos profundos, como um jarro.
Você está um trapo.

Sua voz, meu brinco,
Voa e suga, morcego que ama sangue.
Isso é isso. Aquilo é aquilo.
Você escuta atrás da porta,
Bruxa triste. "Toda mulher é uma puta.
Não consigo dialogar."

Vejo seu fino décor
Te fechando como o punho de um bebê
Ou uma anêmona, esse mar.
Meu bem, cleptomaníaco.
Ainda estou crua.
Quem sabe um dia eu vou voltar.
Você sabe pra que servem as mentiras

Nem no seu paraíso Zen a gente vai se cruzar.



1 763
Albano Dias Martins

Albano Dias Martins

Como um Archote

Vem tudo à superfície.
Como se
dentro da casa
um maremoto levantasse
as pedras todas, uma a uma; como se
no centro, iluminadas,
as esferas rodassem
no seu eixo — tudo
de repente se inclina, tudo arde
nesta fogueira acesa
como um archote de sangue, uma lua
de enxofre.

1 140
Susana Thénon

Susana Thénon

Aqui

Crava-te, desejo
em meu lado raivoso
e molha suas pupilas
por minha última morte.
Aqui o sangue,
aqui o beijo dissoluto,
aqui a torpe fúria de deus
florescendo em meus ossos.
962
Juscelino Vieira Mendes

Juscelino Vieira Mendes

Morreu Sem Constrangimento

(Tragédia em três atos)

"Eu pensei que ciúme era uma idéia. Não é. É uma dor.
Mas eu não me senti, como eles se sentem, num melodrama
da Broadway. Eu não queria matar ninguém. Eu só queria morrer."
Floyd Dell

Houve quem dissesse
que matou e morreu
por amor, como se se pudesse
matar e morrer, aniquilando o eu

Ódio o tornou cego
Impulso do Id é o que restou
Não aceitou o controle do ego
Matou - Não amou!...

Estreitamento da consciência
sobrou apenas sentimento
Agiu sem Providência
e viveu tão pouco tempo

Martirizou-se; tornou-se pura violência
em tórrida manhã de dezembro:
Matou, Morreu, Morremos - Sem Constrangimento...

11 de dezembro de 1995

NOTA:
Morte prematura
No dia 11 de dezembro, Christian Hartmann, 21, matou com seis tiros a ex-namorada Renata Cristina Francisco Alves, 20, e feriu gravemente Winston Goldoni, 23, com quem Renata estava namorando. Depois, se matou com um tiro na boca. Tudo numa sala de computadores da Escola Politécnica da USP. Eles cursavam engenharia macatrônica. Christian e Renata tiveram um relacionamento em 94, e ele já a havia ameaçado de morte.
Folha de São Paulo, página 18, 11/12/95.

3 236
José de Paula Ramos Jr.

José de Paula Ramos Jr.

Aquiles

A minha morte escolho nesta hora,
ao pé do corpo frio que jaz inerte.
No campo de batalha, junto a Tróia,
não mais verei, entrando nessa tenda,
sentado no divã, tocando a lira,
o amigo que foi morto em meu lugar.
Tristes despojos, Pátroclo divino,
regressas sem a vida e sem o escudo,
teu cadáver saqueado à tenda torna,
pilhado da armadura que envergaste.
Heitor, que te deu fim, e agora empunha
as armas que brandiste bravamente,
ufano está do feito vitorioso.
Pois regozije enquanto a Moira escura
no gume de meu gládio não provar.
Bem sei que morrerei dessa vingança,
assim me foi predito pelos deuses;
mas nada vale a vida sem a cólera,
que me dará na morte eterna glória.

1 694
Leonardo Aires Araujo

Leonardo Aires Araujo

Se chorar é realmente olhar para o céu

Se chorar é realmente olhar para o céu

Se chorar é realmente olhar para o céu em direção de alívio
Ergue-se aos dividendos daqueles que proclamam
que viver é ignorar a arte dos atos de um caminho sem volta.
Diga uma só lembrança das voltas por entre buracos de cérebros carnais!
E valei-me de sua ignorância futilmente saborosa.
Porque aquele que disser que as metas estão levando nossas almas para certas
dádivas descompactas,
Achará que meus olhos são frutos de uma imaginação retórica,
Feitos de um sentimento mesquinho e inevitavelmente verdadeiro.
Sei, aqueles que estão, não são complexos e desejados àqueles que eu gostaria
ao estar dentro deles
Despojarei meus receios numa limiar de dor e raiva.
Serei uma resposta aos mistérios daquilo que inutimente lutei para não ser
E que as chaves perderam-se no infinito
Do local que se chama coração.

709
Luís António Cajazeira Ramos

Luís António Cajazeira Ramos

Angústia Precipícia

Como posso estar só, se estou sempre comigo?
Minha ausência é a presença que tanto persigo.
Quero estar só, sem mim, pra não ter um motivo
pra tentar escapar do desgosto em que vivo.

Tenho lágrimas metafísicas — eu sei
que há muito que não choro, desde que gostei,
há pouco, quando alguém me disse que não vem
mais agora, e agora eu não quero mais ninguém.

Queria a solidão mais rústica e absorta,
como um coral num mar sem onda que o revolva
— e eu, sem jeito, sem fim, consumindo a revolta...

Revolta que é de mim, de estar preso a mim mesmo,
como um coral num mar sem fim — e eu, sem desejo,
sem revolta, sem nada que me traga apego.

925
Raimundo Bento Sotero

Raimundo Bento Sotero

Além do mal

Não levo em conta o mal que me fizeste,
Que o ódio é um sentimento tão mesquinho;
Como a vingança, um vegetal daninho
Que viça na aridez de um peito agreste.

Por isso, cada mágoa que me deste,
Uma a uma, fui largando no caminho,
Como a flor que se livra do espinho
Que rebenta do tronco mais silvestre.

A despeito do mal que me causaste,
Já não guardo rancor de minha parte
E em troca dos espinhos te dou flores

E te perdôo os males cometidos,
Que o perdão reconforta os oprimidos
E mata de remorso os opressores.

1 062