Poemas neste tema
Protesto, Resistência e Revolução
Alex Polari
Trilogia Macabra: III - A Parafernália da Tortura
Nos instrumentos da tortura ainda subsistem, é verdade,
alguns resquícios medievais
como cavaletes, palmatórias, chicotes
que o moderno design
não conseguiu ainda amenizar
assim como a prepotência, chacotas
cacoetes e sorrisos
que também não mudaram muito.
Mas o restante é funcional
polido metálico
quase austero
algo moderno
com linhas arrojadas
digno de figurar
em um museu do futuro.
Portanto,
para o pesar dos velhos carrascos nostálgicos,
não é necessário mais rodas, trações,
fogo lento, azeite fervendo
e outras coisas
mais nojentas e chocantes.
Hoje faz-se sofrer a velha dor de sempre
hoje faz-se morrer a velha morte de sempre
com muito maior urbanidade,
sem precisar corar as pessoas bem educadas,
sem proporcionar crises histéricas
nas damas da alta sociedade
sem arrefecer os instintos
desta baixa saciedade.
In: ALVERGA, Alex Polari de. Inventário de cicatrizes. Apres. Carlos Henrique de Escobar. 3.ed. São Paulo: Teatro Ruth Escobar; Rio de Janeiro: Comitê Brasileiro pela Anistia, s.d
alguns resquícios medievais
como cavaletes, palmatórias, chicotes
que o moderno design
não conseguiu ainda amenizar
assim como a prepotência, chacotas
cacoetes e sorrisos
que também não mudaram muito.
Mas o restante é funcional
polido metálico
quase austero
algo moderno
com linhas arrojadas
digno de figurar
em um museu do futuro.
Portanto,
para o pesar dos velhos carrascos nostálgicos,
não é necessário mais rodas, trações,
fogo lento, azeite fervendo
e outras coisas
mais nojentas e chocantes.
Hoje faz-se sofrer a velha dor de sempre
hoje faz-se morrer a velha morte de sempre
com muito maior urbanidade,
sem precisar corar as pessoas bem educadas,
sem proporcionar crises histéricas
nas damas da alta sociedade
sem arrefecer os instintos
desta baixa saciedade.
In: ALVERGA, Alex Polari de. Inventário de cicatrizes. Apres. Carlos Henrique de Escobar. 3.ed. São Paulo: Teatro Ruth Escobar; Rio de Janeiro: Comitê Brasileiro pela Anistia, s.d
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Alex Polari
Sobre Nossas Companheiras nos Amarem
Elas compõem um imenso partido
de elos partidos, correntes quebradas
partidas sustadas, idas sem volta.
Elas estão presas a uma liberdade forçada
e às vezes retornam a esses muros
quando as luzes da cidade
apenas se extinguem.
Cada uma delas traz em si uma marca:
o conhecimento que o espelho não reflete
o amor semiclandestino do corpo que não sua
o gemido da carícia que se esconde.
Cada uma delas traz em si um medo
de grade que fraciona os orgasmos
do cadeado que divide as sensações
do outro que floresce no próprio luto
daquele que espreita no antigo leito
do reverso da moeda da própria sorte.
Cada uma delas conhece uma dúvida:
da vida anterior que não se repete
do teor imprimido aos novos passos
da espera que continua sendo essencial.
Elas têm dúvidas sobre a liturgia
dos corpos sacramentados pelos anos
das penas excessivas com que os tribunais
condenam nossas ereções inúteis
das garantias necessárias por uma dedicação difícil.
Elas têm toda a razão em suprir a carência
de sexo e de projetos
mas sabem no fundo
que o maior sentimento possível
mora numa enxovia
sombria e úmida.
In: ALVERGA, Alex Polari de. Inventário de cicatrizes. Apres. Carlos Henrique de Escobar. 3.ed. São Paulo: Teatro Ruth Escobar; Rio de Janeiro: Comitê Brasileiro pela Anistia, s.d
de elos partidos, correntes quebradas
partidas sustadas, idas sem volta.
Elas estão presas a uma liberdade forçada
e às vezes retornam a esses muros
quando as luzes da cidade
apenas se extinguem.
Cada uma delas traz em si uma marca:
o conhecimento que o espelho não reflete
o amor semiclandestino do corpo que não sua
o gemido da carícia que se esconde.
Cada uma delas traz em si um medo
de grade que fraciona os orgasmos
do cadeado que divide as sensações
do outro que floresce no próprio luto
daquele que espreita no antigo leito
do reverso da moeda da própria sorte.
Cada uma delas conhece uma dúvida:
da vida anterior que não se repete
do teor imprimido aos novos passos
da espera que continua sendo essencial.
Elas têm dúvidas sobre a liturgia
dos corpos sacramentados pelos anos
das penas excessivas com que os tribunais
condenam nossas ereções inúteis
das garantias necessárias por uma dedicação difícil.
Elas têm toda a razão em suprir a carência
de sexo e de projetos
mas sabem no fundo
que o maior sentimento possível
mora numa enxovia
sombria e úmida.
In: ALVERGA, Alex Polari de. Inventário de cicatrizes. Apres. Carlos Henrique de Escobar. 3.ed. São Paulo: Teatro Ruth Escobar; Rio de Janeiro: Comitê Brasileiro pela Anistia, s.d
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Gregório de Matos
SENHORA DONA BAHIA
Ninguém vê, ninguém fala, nem impugna,
e é que, quem o dinheiro nos arranca,
nos arranca as mãos, a língua, os olhos.
Esta mãe universal,
esta célebre Bahia,
que a seus peitos toma, e cria,
os que enjeita Portugal
Cansado de vos pregar
cultíssimas profecias,
quero das culteranias
hoje o hábito enforcar:
de que serve arrebentar
por quem de mim não tem mágoa?
verdades direi como água
porque todos entendais,
os ladinos e os boçais,
a Musa praguejadora.
Entendeis-me agora?
e é que, quem o dinheiro nos arranca,
nos arranca as mãos, a língua, os olhos.
Esta mãe universal,
esta célebre Bahia,
que a seus peitos toma, e cria,
os que enjeita Portugal
Cansado de vos pregar
cultíssimas profecias,
quero das culteranias
hoje o hábito enforcar:
de que serve arrebentar
por quem de mim não tem mágoa?
verdades direi como água
porque todos entendais,
os ladinos e os boçais,
a Musa praguejadora.
Entendeis-me agora?
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Francesco Petrarca
ITALIA MIA
Itália minha, se o falar não vale
Dessas chagas mortais
Que o belo corpo assim te dilaceram-
Praz-me que meus suspiros sejam quais
Tibre, Arno e Pó esperam.
Que, grave e triste, aqui, eu me não cale.
Reitor celeste: ao mal
Vieste piedoso combater na terra:
Volta, Senhor, a teu país dilecto.
Perfeito que és, completo,
Vê por quão leves causas crua guerra.
E os peitos a quem cerra
Marte soberbo e fero,
Abre-os, ó Pai, desfeitos em doçura,
Ao som de quanto é vero
Em minha voz que só de Ti se apura.
E vós, a quem fortuna o freio há dado
De terras tão formosas,
De que a piedade em vós se vai delindo:
A que vem cá tanto estrangeiro armado?
Porque é que o verde prado
De sangue bárbaro se vai tingindo?
Derros vos iludindo,
Sois como cegos, pois que amor contais
Que existe, ou lealdade, em venais peitos.
Ao imigo sujeitos
Mais estareis quanto o comprardes mais.
Ó águas diluviais
Colhidas em deserto
Para inundar os nossos campos breves!
Quem poderá estar certo
Ao dar a mão a quem tem pés tão leves?
Bem próvida a natura quando alteou
Entre nós e os tudescos
Dos fortes Alpes o limite duro.
Mas a vontade estulta em gigantescos
Esforços se empenhou
E trouxe-os como sarna ao corpo puro
Ou dentro ao mesmo muro
Feras selvagens e a virtuosa grei
Que delas, por melhor, será dolente:
Sendo isto procedente
Dessas, ó dor maior, tribos sem lei,
Às quais, como direi, Mário rasgou o flanco
Qual a memória inda não stá exangue:
Quando, no último arranco,
Águas bebiam que já eram sangue.
César eu calo, que sangrento o verde
Pelas encostas fez
Das veias dels por nosso ferro abertas.
Ora não sei de que astro a rispidez
Perante o céu nos perde,
Se não são culpas vossas mais que certas,
Vontades tão despertas
Para gastar do mundo a parte bela.
De quem será juízo ou é pecado,
Se o povo desgraçado
É quem de aflito por vós paga aquela
Gente que nos flagela,
E detestável mais,
Que as almas vende a troco de áureo peso.
Eu falo pra que ouçais,
Não por ódio de alguém, ou por desprezo.
Que mais necessitais que alguém vos prove
Os bárbaros enganos
Que alçando os dedos com a morte brinquem?
Pior é a tortura do que o são os danos.
E o vosso sangue chove
Mais amplamente em ódios que vos trinquem.
No madrugar se afinquem
Os vossos pensamentos: vereis claro
Quem será caro a quem se tem por vil.
Nosso sangue gentil
É derramado por um esforço ignaro.
Fazeis ídolo raro
De um nome sem sentido:
Que o furor desta gente só repousa
No seu pensar perdido:
Pecado é nosso e não natural cousa.
Esta terra não é que andei primeiro?
Não é este o meu ninho
Em que criado fui tão docemente?
Pátria não é da fé e do carinho,
A madre em cujo seio
Dorme quem me gerou, foi meu parente?
Por Deus, que a vossa mente
Disto se mova, e pios contempleis
As lágrimas do povo doloroso
Que só de vós repouso
Ainda espera: e quanto vos mostreis
Que para el viveis, logo contra o furor
Das armas tomará em fúria absorto,
Pois que o antigo valor
No coração da Itália não está morto.
Mirai, senhors, como o tempo voa
E foge a doce vida
E a morte espreita já por sobre o ombro.
Estais ora aqui: pensai nessa partida,
Quando alma nua aproa,
E solitária, ao duvidoso assombro.
Cruzando neste combro
Deveis depor no val ódios malignos,
Os ars contrários à vida serena;
E se o tempo em dar pena
Aos outros vós gastais que a actos mais dignos
Ou das mãos ou dos signos, O vosso ser se entregue
E a mais honesto estudo se converta. Que a vida aqui sossegue
E que a celeste estrada seja aberta.
Canção, tuas razões
Discretamente e com cautela digas,
Pois que te hás-de ir por entre altiva gente que é presa por demente
De usanças miseráveis, tão antigas, Do vero sempre imigas. Entrega teus apelos
Aos animosos poucos que o bem praz. E, se puders movê-los,
A eles grita, como eu grito: Paz!
(Tradução de Jorge de Sena)
Dessas chagas mortais
Que o belo corpo assim te dilaceram-
Praz-me que meus suspiros sejam quais
Tibre, Arno e Pó esperam.
Que, grave e triste, aqui, eu me não cale.
Reitor celeste: ao mal
Vieste piedoso combater na terra:
Volta, Senhor, a teu país dilecto.
Perfeito que és, completo,
Vê por quão leves causas crua guerra.
E os peitos a quem cerra
Marte soberbo e fero,
Abre-os, ó Pai, desfeitos em doçura,
Ao som de quanto é vero
Em minha voz que só de Ti se apura.
E vós, a quem fortuna o freio há dado
De terras tão formosas,
De que a piedade em vós se vai delindo:
A que vem cá tanto estrangeiro armado?
Porque é que o verde prado
De sangue bárbaro se vai tingindo?
Derros vos iludindo,
Sois como cegos, pois que amor contais
Que existe, ou lealdade, em venais peitos.
Ao imigo sujeitos
Mais estareis quanto o comprardes mais.
Ó águas diluviais
Colhidas em deserto
Para inundar os nossos campos breves!
Quem poderá estar certo
Ao dar a mão a quem tem pés tão leves?
Bem próvida a natura quando alteou
Entre nós e os tudescos
Dos fortes Alpes o limite duro.
Mas a vontade estulta em gigantescos
Esforços se empenhou
E trouxe-os como sarna ao corpo puro
Ou dentro ao mesmo muro
Feras selvagens e a virtuosa grei
Que delas, por melhor, será dolente:
Sendo isto procedente
Dessas, ó dor maior, tribos sem lei,
Às quais, como direi, Mário rasgou o flanco
Qual a memória inda não stá exangue:
Quando, no último arranco,
Águas bebiam que já eram sangue.
César eu calo, que sangrento o verde
Pelas encostas fez
Das veias dels por nosso ferro abertas.
Ora não sei de que astro a rispidez
Perante o céu nos perde,
Se não são culpas vossas mais que certas,
Vontades tão despertas
Para gastar do mundo a parte bela.
De quem será juízo ou é pecado,
Se o povo desgraçado
É quem de aflito por vós paga aquela
Gente que nos flagela,
E detestável mais,
Que as almas vende a troco de áureo peso.
Eu falo pra que ouçais,
Não por ódio de alguém, ou por desprezo.
Que mais necessitais que alguém vos prove
Os bárbaros enganos
Que alçando os dedos com a morte brinquem?
Pior é a tortura do que o são os danos.
E o vosso sangue chove
Mais amplamente em ódios que vos trinquem.
No madrugar se afinquem
Os vossos pensamentos: vereis claro
Quem será caro a quem se tem por vil.
Nosso sangue gentil
É derramado por um esforço ignaro.
Fazeis ídolo raro
De um nome sem sentido:
Que o furor desta gente só repousa
No seu pensar perdido:
Pecado é nosso e não natural cousa.
Esta terra não é que andei primeiro?
Não é este o meu ninho
Em que criado fui tão docemente?
Pátria não é da fé e do carinho,
A madre em cujo seio
Dorme quem me gerou, foi meu parente?
Por Deus, que a vossa mente
Disto se mova, e pios contempleis
As lágrimas do povo doloroso
Que só de vós repouso
Ainda espera: e quanto vos mostreis
Que para el viveis, logo contra o furor
Das armas tomará em fúria absorto,
Pois que o antigo valor
No coração da Itália não está morto.
Mirai, senhors, como o tempo voa
E foge a doce vida
E a morte espreita já por sobre o ombro.
Estais ora aqui: pensai nessa partida,
Quando alma nua aproa,
E solitária, ao duvidoso assombro.
Cruzando neste combro
Deveis depor no val ódios malignos,
Os ars contrários à vida serena;
E se o tempo em dar pena
Aos outros vós gastais que a actos mais dignos
Ou das mãos ou dos signos, O vosso ser se entregue
E a mais honesto estudo se converta. Que a vida aqui sossegue
E que a celeste estrada seja aberta.
Canção, tuas razões
Discretamente e com cautela digas,
Pois que te hás-de ir por entre altiva gente que é presa por demente
De usanças miseráveis, tão antigas, Do vero sempre imigas. Entrega teus apelos
Aos animosos poucos que o bem praz. E, se puders movê-los,
A eles grita, como eu grito: Paz!
(Tradução de Jorge de Sena)
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Manuel Alegre
Retrato do herói
Herói é quem no muro branco inscreve
O fogo da palavra que o liberta:
Sangue do homem novo que diz povo
E morre devagar de morte certa.
Homem é quem anónimo por leve
lhe ser o nome próprio traz aberta
a alma à fome fechado o corpo ao breve
instante em que a denúncia fica alerta.
Herói é quem morrendo perfilado
Não é santo nem mártir nem soldado
Mas apenas por último indefeso.
Homem é quem tombando apavorado
dá o sangue ao futuro e fica ileso
pois lutando apagado morre aceso.
O fogo da palavra que o liberta:
Sangue do homem novo que diz povo
E morre devagar de morte certa.
Homem é quem anónimo por leve
lhe ser o nome próprio traz aberta
a alma à fome fechado o corpo ao breve
instante em que a denúncia fica alerta.
Herói é quem morrendo perfilado
Não é santo nem mártir nem soldado
Mas apenas por último indefeso.
Homem é quem tombando apavorado
dá o sangue ao futuro e fica ileso
pois lutando apagado morre aceso.
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2
Raul Seixas
Treinando Compor
Não quero mais amor
Nem quero mais cantar minha terra
Me perco nesse mundo
Não quero mais o pau Brasil
As rosas que eu colho
Não são essas frementes na iluminação da manhã
São, se as colho, as dum jardim contrário
Nascido desses vossos
Na leiteira ou no bar a tarde se reparte
em iogurtes, coalhadas, copos
São quatro horas da tarde ou da manhã
Em algum mês que não me vem à cabeça
Tenho trinta e oito anos e uma angústia
Amo a vida que é cheia de crianças,
de flores e mulheres...
A vida. Esse direito de estar no mundo
Ter dois pés e duas mãos, uma cara
e a fome de tudo... a esperança
Esse direito de Kika e demais
que nenhum ato institucional
ou inconstitucional
Pode cassar ou legar.
Meus quantos amigos - gente presa
Quantos cárceres escuros
Onde a tarde fede a urina e terror
Existem muitas famílias sem rumo
Essa tarde nos subúrbios de ferro e gás
Brinca irremida a infância da falada
classe operária
Estou aqui!
O espelho não guardará a marca deste rosto
Se simplesmente saio do lugar
Ou se morro... se me matam...
Um dia eu parto
Que importa pois?
A luta comum me incendeia o sangue
E bato no peito
Como o coice de uma lembrança.
Nem quero mais cantar minha terra
Me perco nesse mundo
Não quero mais o pau Brasil
As rosas que eu colho
Não são essas frementes na iluminação da manhã
São, se as colho, as dum jardim contrário
Nascido desses vossos
Na leiteira ou no bar a tarde se reparte
em iogurtes, coalhadas, copos
São quatro horas da tarde ou da manhã
Em algum mês que não me vem à cabeça
Tenho trinta e oito anos e uma angústia
Amo a vida que é cheia de crianças,
de flores e mulheres...
A vida. Esse direito de estar no mundo
Ter dois pés e duas mãos, uma cara
e a fome de tudo... a esperança
Esse direito de Kika e demais
que nenhum ato institucional
ou inconstitucional
Pode cassar ou legar.
Meus quantos amigos - gente presa
Quantos cárceres escuros
Onde a tarde fede a urina e terror
Existem muitas famílias sem rumo
Essa tarde nos subúrbios de ferro e gás
Brinca irremida a infância da falada
classe operária
Estou aqui!
O espelho não guardará a marca deste rosto
Se simplesmente saio do lugar
Ou se morro... se me matam...
Um dia eu parto
Que importa pois?
A luta comum me incendeia o sangue
E bato no peito
Como o coice de uma lembrança.
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Carlos Drummond de Andrade
Congresso Internacional do Medo
Provisoriamente não cantaremos o amor,
que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos.
Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços,
não cantaremos o ódio porque esse não existe,
existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro,
o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos,
o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas,
cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas,
cantaremos o medo da morte e o medo de depois da morte,
depois morreremos de medo
e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas.
que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos.
Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços,
não cantaremos o ódio porque esse não existe,
existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro,
o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos,
o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas,
cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas,
cantaremos o medo da morte e o medo de depois da morte,
depois morreremos de medo
e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas.
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2
Charles Baudelaire
ORAÇÃO
Glória e louvor a ti, Satã, nas amplidões
Do céu, em que reinaste, e nas escuridões
Do inferno, em que, vencido, sonhas com prudência!
Deixa que eu, junto a ti sob a Árvore da Ciência,
Repouse, na hora em que, sobre a fronte, hás de ver
Seus ramos como um Templo novo se estender!
Do céu, em que reinaste, e nas escuridões
Do inferno, em que, vencido, sonhas com prudência!
Deixa que eu, junto a ti sob a Árvore da Ciência,
Repouse, na hora em que, sobre a fronte, hás de ver
Seus ramos como um Templo novo se estender!
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2
Agostinho Neto
Antigamente era
Antigamente era o eu-proscrito
Antigamente era a pele escura-noite do mundo
Antigamente era o canto rindo lamentos
Antigamente era o espírito simples e bom
Outrora tudo era tristeza
Antigamente era tudo sonho de criança
A pele o espírito o canto o choro
eram como a papaia refrescante
para aquele viajante
cujo nome vem nos livros para meninos
Mas dei um passo
ergui os olhos e soltei um grito
que foi ecoar nas mais distantes terras do mundo
Harlem
Pekim
Barcelona
Paris
Nas florestas escondidas do Novo Mundo
E a pele
o espírito
o canto
o choro
brilham como gumes prateados
Crescem
belos e irresistíveis
como o mais belo sol do mais belo dia da Vida.
Antigamente era a pele escura-noite do mundo
Antigamente era o canto rindo lamentos
Antigamente era o espírito simples e bom
Outrora tudo era tristeza
Antigamente era tudo sonho de criança
A pele o espírito o canto o choro
eram como a papaia refrescante
para aquele viajante
cujo nome vem nos livros para meninos
Mas dei um passo
ergui os olhos e soltei um grito
que foi ecoar nas mais distantes terras do mundo
Harlem
Pekim
Barcelona
Paris
Nas florestas escondidas do Novo Mundo
E a pele
o espírito
o canto
o choro
brilham como gumes prateados
Crescem
belos e irresistíveis
como o mais belo sol do mais belo dia da Vida.
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2
Gulamo Khan
Mocambicanto I
céleres as águas
zambezeiam pela memória
das almadias do silêncio
nem o zumbido da cigarra
me entontece
nem o troar do tambor
me ensurdece
as vozes que são
sulcos das nossas esperanças
Oh pátria
mocambiquero-te
neste alumbramento
e amar-te
devo-o à carne e ao nervo
deglutidos em revolta.
Da enxada e do martelo
é o verso escrito na palma
da tua mão punho fechado
que nas alavancas das horas
faz refulgir o aço
analfabetamente parido
Cavador maldito
pronto a decepar o tronco
deste imbondeiro tão pária
carcomido pelas talecuas
sugadoras do seu sangue
e o veneno da nhoca cuspideira
queimando as migalhas bélicas
postadas de cócoras no caminho
dos simples
assim altivo ergues o teu nome
num pais ainda
de nadas e famélicos
desbravando os crápulas bem como os satanhocos.
Sei da Pátria
o nome erguido
a estrela tatuada
no corpo do Indico
uma timbila
canção guerreira
zambezeiam pela memória
das almadias do silêncio
nem o zumbido da cigarra
me entontece
nem o troar do tambor
me ensurdece
as vozes que são
sulcos das nossas esperanças
Oh pátria
mocambiquero-te
neste alumbramento
e amar-te
devo-o à carne e ao nervo
deglutidos em revolta.
Da enxada e do martelo
é o verso escrito na palma
da tua mão punho fechado
que nas alavancas das horas
faz refulgir o aço
analfabetamente parido
Cavador maldito
pronto a decepar o tronco
deste imbondeiro tão pária
carcomido pelas talecuas
sugadoras do seu sangue
e o veneno da nhoca cuspideira
queimando as migalhas bélicas
postadas de cócoras no caminho
dos simples
assim altivo ergues o teu nome
num pais ainda
de nadas e famélicos
desbravando os crápulas bem como os satanhocos.
Sei da Pátria
o nome erguido
a estrela tatuada
no corpo do Indico
uma timbila
canção guerreira
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2
Carlos Cardoso
Cidade
De manhã quando acordo
em Maputo
o almoço é uma esperança.
Mãe tenho fome
marido tenho bicha
e mil malárias me disputando a vontade.
De manhã quando acordo
em Maputo
o jantar é uma incerteza
o serviço uma militância política
do outro lado do sono incompleto
e o chapa-cem um regulado impiedoso
no quatro barra oitenta sem contra-argumento.
De manhã quando acordo
em Maputo
o vizinho já candongou o que me roubou
a estomatologia não tem anestesia
a chuva abriu dialecticamente mais um buraco na estrada
e o conselho executivo continua desdentado de iniciativas.
De manhã quando acordo
em Maputo
Porra para a vizinha que estoirou a torneira do rés-do-chão
Porra para o guarda que não ligou a bomba quando veio a água
Porra para as cem gramas de carne apodrecidos
no silêncio desenergetico de Komatipoort
mais as ó eme sede de efes
e o soldado que ainda não ouviu dizer que os passeios
são lugares públicos e os fulanizados exploradores de outrora
que se preparam para cuspir na tua campa, ó Mataca,
as ordens de um Mouzinho boer.
De manhã quando me percorro
em Maputo
enfio ominosamente o cérebro numa competentissima paciência
desembainho felinamente mais uma mentira diplomática
e aguardo a lucidez companheira me leia
nas acácias em sangue
nos jacarandas estalando sob a sola epidérmica do povo
que este é ainda o eco estridente do Chai
até que Botha seja farmeiro e Mandela Presidente.
Então,
com a raiva intacta resgatada à dor
danço no coração um xigubo guerreiro
e clandestinamente soletro a utopia invicta.
À noite quando me deito
em Maputo
não preciso de rezar.
Já sou herói.
em Maputo
o almoço é uma esperança.
Mãe tenho fome
marido tenho bicha
e mil malárias me disputando a vontade.
De manhã quando acordo
em Maputo
o jantar é uma incerteza
o serviço uma militância política
do outro lado do sono incompleto
e o chapa-cem um regulado impiedoso
no quatro barra oitenta sem contra-argumento.
De manhã quando acordo
em Maputo
o vizinho já candongou o que me roubou
a estomatologia não tem anestesia
a chuva abriu dialecticamente mais um buraco na estrada
e o conselho executivo continua desdentado de iniciativas.
De manhã quando acordo
em Maputo
Porra para a vizinha que estoirou a torneira do rés-do-chão
Porra para o guarda que não ligou a bomba quando veio a água
Porra para as cem gramas de carne apodrecidos
no silêncio desenergetico de Komatipoort
mais as ó eme sede de efes
e o soldado que ainda não ouviu dizer que os passeios
são lugares públicos e os fulanizados exploradores de outrora
que se preparam para cuspir na tua campa, ó Mataca,
as ordens de um Mouzinho boer.
De manhã quando me percorro
em Maputo
enfio ominosamente o cérebro numa competentissima paciência
desembainho felinamente mais uma mentira diplomática
e aguardo a lucidez companheira me leia
nas acácias em sangue
nos jacarandas estalando sob a sola epidérmica do povo
que este é ainda o eco estridente do Chai
até que Botha seja farmeiro e Mandela Presidente.
Então,
com a raiva intacta resgatada à dor
danço no coração um xigubo guerreiro
e clandestinamente soletro a utopia invicta.
À noite quando me deito
em Maputo
não preciso de rezar.
Já sou herói.
1 949
2
Maria Manuela Margarido
Vós que ocupais a nossa terra
É preciso não perder
de vista as crianças que brincam:
a cobra preta passeia fardada
à porta das nossas casas.
Derrubam as árvores fruta-pão
para que passemos fome
e vigiam as estradas
receando a fuga do cacau.
A tragádia já a conhecemos:
a cubata incendiada,
o telhado de andala flamejando
e o cheiro do fumo misturando-se
ao cheiro do andu
e ao cheiro da morte.
Nós nos conhecemos e sabemos,
tomamos chá do gabão,
arrancamos a casca do cajueiro.
E vós, apenas desbotadas
máscaras do homem,
apenas esvaziados fantasmas do homem?
Vós que ocupais a nossa terra?
de vista as crianças que brincam:
a cobra preta passeia fardada
à porta das nossas casas.
Derrubam as árvores fruta-pão
para que passemos fome
e vigiam as estradas
receando a fuga do cacau.
A tragádia já a conhecemos:
a cubata incendiada,
o telhado de andala flamejando
e o cheiro do fumo misturando-se
ao cheiro do andu
e ao cheiro da morte.
Nós nos conhecemos e sabemos,
tomamos chá do gabão,
arrancamos a casca do cajueiro.
E vós, apenas desbotadas
máscaras do homem,
apenas esvaziados fantasmas do homem?
Vós que ocupais a nossa terra?
3 406
2
Arménio Vieira
Isto é que fazem de nós
E perguntam-nos:
- sois homens?
Respondemos:
- animais de capoeira.
Dizem-nos:
- bom dia.
Pensamos:
lá fora...
Isto é que fazem de nós
quando nos inquirem:
- estais vivos?
E em nós
as galinhas respondem:
- dormimos.
- sois homens?
Respondemos:
- animais de capoeira.
Dizem-nos:
- bom dia.
Pensamos:
lá fora...
Isto é que fazem de nós
quando nos inquirem:
- estais vivos?
E em nós
as galinhas respondem:
- dormimos.
2 243
2
Luís Veiga Leitão
Não
Não queremos o sangue das crianças
na boca das batalhas posto
— fauce podre de lamas desertas
Mas correndo vivo sob o rosto
numa alegria de flores abertas
Não queremos o sangue dos jovens
cobrindo o frio das Baionetas
— morto lume verde sobre a neve
Mas correndo a arder nas noites pretas
para que as manhãs cantem breve...
na boca das batalhas posto
— fauce podre de lamas desertas
Mas correndo vivo sob o rosto
numa alegria de flores abertas
Não queremos o sangue dos jovens
cobrindo o frio das Baionetas
— morto lume verde sobre a neve
Mas correndo a arder nas noites pretas
para que as manhãs cantem breve...
2 013
2
Luís Veiga Leitão
Resistência
Não. Digo à explosão de ameaça
e à rapada paisagem do desterro.
E não. Digo à minha carcaça
encalhada em bancos de ferro
e ao cordame dos nervos, fustigado,
a ranger no silêncio a sós:
Por cada nervo quebrado
que se inventem mais nós.
e à rapada paisagem do desterro.
E não. Digo à minha carcaça
encalhada em bancos de ferro
e ao cordame dos nervos, fustigado,
a ranger no silêncio a sós:
Por cada nervo quebrado
que se inventem mais nós.
1 631
2
Natália Correia
A Defesa do Poeta
Senhores jurados sou um
poeta um multipétalo uivo um defeito e ando com
uma camisa de vento ao contrário do esqueleto
Sou um vestíbulo do impossível um lápis de
armazenado espanto e por fim com a paciência dos versos
espero viver dentro de mim Sou em código o azul
de todos (curtido couro de cicatrizes) uma
avaria cantante na maquineta dos felizes
Senhores banqueiros sois a cidade o vosso enfarte
serei não há cidade sem o parque do sono que
vos roubei Senhores professores que puseste
a prémio minha rara edição de raptar-me em
crianças que salvo do incêndio da vossa lição
Senhores tiranos que do baralho de em pó volverdes
sois os reis sou um poeta jogo-me aos dados
ganho as paisagens que não vereis Senhores
heróis até aos dentes puro exercício de ninguém
minha cobardia é esperar-vos umas estrofes mais
além Senhores três quatro cinco e sete que
medo vos pôs na ordem ? que pavor fechou o leque
da vossa diferença enquanto homem ? Senhores
juízes que não molhais a pena na tinta da natureza
não apedrejeis meu pássaro sem que ele cante
minha defesa Sou uma impudência a mesa posta
de um verso onde o possa escrever ó
subalimentados do sonho ! a poesia é para comer.
de A Mosca Iluminada(1972)
poeta um multipétalo uivo um defeito e ando com
uma camisa de vento ao contrário do esqueleto
Sou um vestíbulo do impossível um lápis de
armazenado espanto e por fim com a paciência dos versos
espero viver dentro de mim Sou em código o azul
de todos (curtido couro de cicatrizes) uma
avaria cantante na maquineta dos felizes
Senhores banqueiros sois a cidade o vosso enfarte
serei não há cidade sem o parque do sono que
vos roubei Senhores professores que puseste
a prémio minha rara edição de raptar-me em
crianças que salvo do incêndio da vossa lição
Senhores tiranos que do baralho de em pó volverdes
sois os reis sou um poeta jogo-me aos dados
ganho as paisagens que não vereis Senhores
heróis até aos dentes puro exercício de ninguém
minha cobardia é esperar-vos umas estrofes mais
além Senhores três quatro cinco e sete que
medo vos pôs na ordem ? que pavor fechou o leque
da vossa diferença enquanto homem ? Senhores
juízes que não molhais a pena na tinta da natureza
não apedrejeis meu pássaro sem que ele cante
minha defesa Sou uma impudência a mesa posta
de um verso onde o possa escrever ó
subalimentados do sonho ! a poesia é para comer.
de A Mosca Iluminada(1972)
3 304
2
Ferreira Gullar
João Boa Morte
Cabra Marcado para Morrer
..................................................
Essa guerra do Nordeste
não mata quem é doutor.
Não mata dono de engenho,
só mata cabra da peste,
só mata o trabalhador.
O dono de engenho engorda,
vira logo senador.
Não faz um ano que os homens
que trabalham na fazenda
do Coronel Benedito
tiveram com ele atrito
devido ao preço da venda.
O preço do ano passado
já era baixo e no entanto
o coronel não quis dar
o novo preço ajustado.
João e seus companheiros
não gostaram da proeza:
se o novo preço não dava
para garantir a mesa,
aceitar preço mais baixo
já era muita fraqueza.
"Não vamos voltar atrás.
Precisamos de dinheiro.
Se o coronel não quer dar mais,
vendemos nosso produto
para outro fazendeiro."
Com o coronel foram ter.
Mas quando comunicaram
que a outro iam vender
o cereal que plantaram,
o coronel respondeu:
"Ainda está pra nascer
um cabra pra fazer isso.
Aquele que se atrever
pode rezar, vai morrer,
vai tomar chá de sumiço".
..................................................
Essa guerra do Nordeste
não mata quem é doutor.
Não mata dono de engenho,
só mata cabra da peste,
só mata o trabalhador.
O dono de engenho engorda,
vira logo senador.
Não faz um ano que os homens
que trabalham na fazenda
do Coronel Benedito
tiveram com ele atrito
devido ao preço da venda.
O preço do ano passado
já era baixo e no entanto
o coronel não quis dar
o novo preço ajustado.
João e seus companheiros
não gostaram da proeza:
se o novo preço não dava
para garantir a mesa,
aceitar preço mais baixo
já era muita fraqueza.
"Não vamos voltar atrás.
Precisamos de dinheiro.
Se o coronel não quer dar mais,
vendemos nosso produto
para outro fazendeiro."
Com o coronel foram ter.
Mas quando comunicaram
que a outro iam vender
o cereal que plantaram,
o coronel respondeu:
"Ainda está pra nascer
um cabra pra fazer isso.
Aquele que se atrever
pode rezar, vai morrer,
vai tomar chá de sumiço".
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2
Audre Lorde
Uma litania para a sobrevivência
Para aqueles entre nós que vivem no litoral
em pé frente às arestas constantes da decisão
cruciais e sós
para aqueles entre nós que não podem dar-se ao luxo
dos sonhos passageiros da decisão
que amam de passagem por soleiras
nas horas entre auroras
olhando para dentro e para fora
no instante antes e depois
buscando um agora que possa gerar
futuros
como pão na boca de nossos filhos
para que seus sonhos não reflitam
a nossa morte:
Para aqueles entre nós
que foram impressos com o medo
como uma linha tênue no centro de nossas testas
aprendendo a temer com o leite de nossas mães
pois por esta arma
esta ilusão de alguma segurança a ser achada
os de passos pesados esperavam silenciar-nos
Para todos nós
esse instante e esse triunfo
Nunca fomos destinados a sobreviver.
E quando o sol se ergue temos medo
que talvez não permaneça
quando o sol se põe temos medo
que talvez não se erga de manhã
quando nossos estômagos estão cheios temos medo
da indigestão
quando nossos estômagos estão vazios temos medo
que talvez nunca mais comamos
quando nós amamos temos medo
que o amor desaparecerá
quando estamos sós temos medo
que o amor jamais voltará
e quando falamos temos medo
que nossas palavras não sejam ouvidas
nem benvindas
mas quando estamos em silêncio
ainda assim temos medo
Então é melhor falar
lembrando-nos
de que nunca fomos destinados a sobreviver
(tradução de Ricardo Domeneck)
:
A litany for survival
Audre Lorde
For those of us who live at the shoreline
standing upon the constant edges of decision
crucial and alone
for those of us who cannot indulge
the passing dreams of choice
who love in doorways coming and going
in the hours between dawns
looking inward and outward
at once before and after
seeking a now that can breed
futures
like bread in our children's mouths
so their dreams will not reflect
the death of ours:
For those of us
who were imprinted with fear
like a faint line in the center of our foreheads
learning to be afraid with our mother's milk
for by this weapon
this illusion of some safety to be found
the heavy-footed hoped to silence us
For all of us
this instant and this triumph
We were never meant to survive.
And when the sun rises we are afraid
it might not remain
when the sun sets we are afraid
it might not rise in the morning
when our stomachs are full we are afraid
of indigestion
when our stomachs are empty we are afraid
we may never eat again
when we are loved we are afraid
love will vanish
when we are alone we are afraid
love will never return
and when we speak we are afraid
our words will not be heard
nor welcomed
but when we are silent
we are still afraid
So it is better to speak
remembering
we were never meant to survive
7 964
2
Castro Alves
A Criança
— Que veux-tu, fleur, beau fruit, ou l'oiseau merveilleux?
— Ami, dit l'enfant grec, dit l'enfant aux yeux bleus,
Je veux de la poudre et des balles.
VICTOR HUGO - Les Orientales.
Que tens criança? O areal da estrada
Luzente a cintilar
Parece a folha ardente de uma espada.
Tine o sol nas savanas. Morno é o vento.
À sombra do palmar
O lavrador se inclina sonolento.
É triste ver uma alvorada em sombras,
Uma ave sem cantar,
O veado estendido nas alfombras.
Mocidade, és a aurora da existência,
Quero ver-te brilhar.
Canta, criança, és a ave da inocência.
Tu choras porque um ramo de baunilha
Não pudeste colher,
Ou pela flor gentil da granadilha?
Dou-te, um ninho, uma flor, dou-te uma palma,
Para em teus lábios ver
O riso — a estrela no horizonte da alma.
Não. Perdeste tua mãe ao fero açoite
Dos seus algozes vis.
E vagas tonto a tatear a noite.
Choras antes de rir... pobre criança!...
Que queres, infeliz?...
— Amigo, eu quero o ferro da vingança.
Recife, 30 de junho de 1865.
Publicado no livro A cachoeira de Paulo Afonso: poema original brasileiro (1876).
In: ALVES, Castro. Obra completa. Org. e notas Eugênio Gomes. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 198
— Ami, dit l'enfant grec, dit l'enfant aux yeux bleus,
Je veux de la poudre et des balles.
VICTOR HUGO - Les Orientales.
Que tens criança? O areal da estrada
Luzente a cintilar
Parece a folha ardente de uma espada.
Tine o sol nas savanas. Morno é o vento.
À sombra do palmar
O lavrador se inclina sonolento.
É triste ver uma alvorada em sombras,
Uma ave sem cantar,
O veado estendido nas alfombras.
Mocidade, és a aurora da existência,
Quero ver-te brilhar.
Canta, criança, és a ave da inocência.
Tu choras porque um ramo de baunilha
Não pudeste colher,
Ou pela flor gentil da granadilha?
Dou-te, um ninho, uma flor, dou-te uma palma,
Para em teus lábios ver
O riso — a estrela no horizonte da alma.
Não. Perdeste tua mãe ao fero açoite
Dos seus algozes vis.
E vagas tonto a tatear a noite.
Choras antes de rir... pobre criança!...
Que queres, infeliz?...
— Amigo, eu quero o ferro da vingança.
Recife, 30 de junho de 1865.
Publicado no livro A cachoeira de Paulo Afonso: poema original brasileiro (1876).
In: ALVES, Castro. Obra completa. Org. e notas Eugênio Gomes. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 198
4 535
2
Salgado Maranhão
Sentença
faz muito tempo que eu venho
nos currais deste comício,
dando mingau de farinha
pra mesma dor que me alinha
ao lamaçal do hospício.
e quem me cansa as canelas
é que me rouba a cadeira,
eu sou quem pula a traseira
e ainda paga a passagem,
eu sou um número ímpar
só pra sobrar na contagem.
por outro lado, em meu corpo,
há uma parte que insiste,
feito um caju que apodrece
mas a castanha resiste,
eu tenho os olhos na espreita
e os bolsos cheios de pedras,
eu sou quem não se conforma
com a sentença ou desfeita,
eu sou quem bagunça a norma,
eu sou quem morre e não deita.
nos currais deste comício,
dando mingau de farinha
pra mesma dor que me alinha
ao lamaçal do hospício.
e quem me cansa as canelas
é que me rouba a cadeira,
eu sou quem pula a traseira
e ainda paga a passagem,
eu sou um número ímpar
só pra sobrar na contagem.
por outro lado, em meu corpo,
há uma parte que insiste,
feito um caju que apodrece
mas a castanha resiste,
eu tenho os olhos na espreita
e os bolsos cheios de pedras,
eu sou quem não se conforma
com a sentença ou desfeita,
eu sou quem bagunça a norma,
eu sou quem morre e não deita.
791
1
Pablo Neruda
Canto X - O Fugitivo
I
O fugitivo (1948)
Pela alta noite, pela vida inteira,
de lágrima a papel, de roupa em roupa,
andei nestes dias angustiados.
Fui o fugitivo da polícia:
na hora de cristal, na mata
de estrelas solitárias,
cruzei cidades, bosques,
chácaras, portos,
da porta de um ser humano a outro,
da mão de um ser a outro ser, a outro ser.
Grave é a noite, mas o homem
dispôs seus signos fraternais,
e às cegas por caminhos e por sombras
cheguei à porta iluminada, ao pequeno
ponto de estrela que era o meu,
ao fragmento de pão que no bosque os lobos
não haviam devorado.
Uma vez a uma casa, na campina,
cheguei à noite, a ninguém
antes daquela noite havia visto,
nem adivinhado aquelas existências.
O que faziam, as suas horas
eram novas a meu conhecimento.
Entrei, eram cinco da família:
todos como na noite dum incêndio
se haviam levantado.
Apertei uma
e outra mão, vi um rosto e outro rosto,
que nada me diziam: eram portas
que antes não vi na rua,
olhos que não conheciam meu rosto,
e na alta noite, apenas
recebido, me entreguei ao cansaço,
para adormecer a angústia de minha pátria.
Enquanto vinha o sonho,
o eco inumerável da terra
com seus roucos ladridos e suas fibras
de solidão, continuava a noite,
e eu pensava: “Onde estou? Quem
são? Por que me abrigam hoje?
Por que eles, que até hoje não me viram,
abrem suas portas e defendem meu canto?”
E ninguém respondia
a não ser um rumor de noite desfolhada,
um tecido de grilos se construindo:
a noite inteira mal
parecia tremer na folhagem.
Terra noturna, a minha janela
chegavas com os teus lábios,
para que eu dormisse docemente,
como a cair sobre milhares de folhas,
de estação em estação, de ninho em ninho,
de ramo em ramo, até ficar de súbito
adormecido como um morto em tuas raízes.
II
Era o outono das uvas.
Tremia o parreiral numeroso.
Os cachos brancos, velados,
escarchavam seus doces dedos,
e as negras uvas enchiam
seus pequenos ubres repletos
de um secreto rio redondo.
O dono da casa, artesão
de magro rosto, me lia
o pálido livro terrestre
dos dias crepusculares.
Sua bondade conhecia o fruto,
o ramo principal e o trabalho
da poda que deixa à árvore
sua despida forma de taça.
Com os cavalos conversava
como com imensas crianças: seguiam
atrás dele os cinco gatos
e os cachorros daquela casa,
alguns arqueados e lentos,
outros a correr loucamente
sob os frios pessegueiros.
Conhecia ele cada ramo,
cada cicatriz das árvores,
e sua antiga voz me ensinava
acariciando os cavalos.
III
Outra vez aí à noite recorri.
Ao cruzar a cidade a noite andina,
a noite derramada abriu a sua rosa
sobre minha roupa.
Era inverno no sul.
A neve havia
subido a seu alto pedestal, o frio
queimava com mil pontas congeladas.
O rio Mapocho era de neve negra.
E eu, entre rua e rua de silêncio
pela cidade manchada do tirano.
Ai! era eu como o próprio silêncio
olhando quanto amor e amor caía
através dos meus olhos em meu peito.
Porque essa rua e a outra e o umbral
da noite nevada, e a noturna
solidão dos seres, e meu povoado
enterrado, obscuro, em seu arrabalde de mortos,
tudo, a última janela
com seu pequeno ramo de luz falsa,
o apertado coral negro
de casa em casa, o vento
jamais gasto de minha terra,
tudo era meu, tudo
para mim no silêncio levantava
uma boca de amor cheia de beijos.
IV
Um jovem casal abriu uma porta
que antes tampouco conheci.
Era ela
dourada como o mês de junho,
e ele era um engenheiro de altos olhos.
Desde então com eles pão e vinho
compartilhei,
pouco a pouco
cheguei a sua intimidade desconhecida.
Me disseram: “Estávamos
separados,
nossa dissensão já era eterna:
hoje nos unimos para receber-te,
hoje te esperamos juntos”.
Lá, na pequena
casa reunidos,
fizemos uma silenciosa fortaleza.
Guardei o silêncio até no sonho.
Estava no pleno
centro da cidade, quase escutava
os passos do Traidor, junto aos muros
que me apartavam, ouvia
as vozes sujas dos carcereiros,
suas gargalhadas de ladrão, suas sílabas
de bêbados metidos entre balas
na cintura da minha pátria.
Quase roçavam por minha pele silenciosa
as eructações de Holgers e Pobletes,
seus passos, arrastando-se, tocavam
quase o meu coração e suas fogueiras:
eles mandando os meus para o tormento,
eu reservando a minha saúde de espada.
E outra vez, na noite, adeus, Irene,
adeus, Andrés, adeus, amigo novo,
adeus aos andaimes, à estrela,
adeus talvez à casa inconclusa
que diante de minha janela parecia
povoar-se de fantasmas lineares.
Adeus ao ponto ínfimo de monte
que recolhia em meus olhos cada tarde,
adeus à luz verde néon que abria
com seu relâmpago cada nova noite.
V
Outra vez, outra noite, fui mais longe.
Toda a cordilheira da costa,
a vasta margem do mar Pacífico,
e logo entre as ruas retorcidas,
rua e ruela, Valparaíso.
Entrei numa casa de marinheiros.
A mãe me esperava.
“Só soube ontem”, me disse; “meu filho
me chamou, e o nome de Neruda
me percorreu como um calafrio.
Falei com ele: que conforto,
meus filhos, podemos dar a ele?” “Ele pertence
a nós, os pobres”, me respondeu,
“ele não zomba nem despreza
a nossa pobre vida, ele a exalta
e defende.
” “Eu falei: está bem,
e esta é a sua casa a partir de hoje.
”
Ninguém me conhecia nessa casa.
Olhei a límpida toalha, a jarra d'água
pura como essas vidas que do fundo
da noite como asas
de cristal a mim chegavam.
Fui à janela: Valparaíso abria suas mil pálpebras
que tremiam, a aragem
do mar noturno entrou em minha boca,
as luzes dos morros, o tremor
da lua marítima na água,
a escuridão como uma monarquia
enfeitada de diamantes verdes,
todo o novo repouso que a vida
me entregava.
Olhei: a mesa estava posta,
o pão, o guardanapo, o vinho, a água,
e uma fragrância de terra e ternura
umedeceu os meus olhos de soldado.
Junto a essa janela de Valparaíso
passei dias e noites.
Os navegantes de minha nova casa
cada dia procuravam
um barco em que partir.
Eram
enganados uma vez e mais outra vez.
O Atomena
não podia levá-los, o Sultana
também não.
Me explicaram:
eles pagavam a gorjeta ou o suborno
a esse ou àquele chefe.
Outros
davam mais.
Tudo estava podre
como no palácio de Santiago.
Aqui se abriam os bolsos
do capitão, do secretário,
não eram tão grandes como os bolsos
do presidente, porém roíam
o esqueleto dos pobres.
Triste república chicoteada
como uma cadela por ladrões,
uivando sozinha nos caminhos,
espancada pela polícia.
Triste nação gonzalizada,
arrojada pelos trapaceiros
ao vômito do delator,
vendida nas esquinas rotas,
desmantelada num arremate de leilão.
Triste república na mão
do que vendeu sua própria filha
e sua própria pátria entregou
ferida, muda e manietada.
Voltavam os dois marinheiros
e partiam carregando nos ombros
sacos, bananas, comestíveis,
com saudade do sal das ondas,
do pão marinho, do alto céu.
No meu dia solitário o mar
se afastava: olhava então
a chama vital dos morros,
cada casa pendurando, o
pulsar de Valparaíso:
os altos morros a transbordar
de vidas, as portas pintadas
de turquesa, escarlate e rosa,
as escadas desdentadas,
os cachos de portas pobres,
as vivendas frouxas,
a névoa, a fumaça estendendo suas
redes de sal sobre as coisas,
as árvores desesperadas
agarrando-se às quebradas,
a roupa pendurada nos braços
das mansões desumanas,
o rouco silvo de repente
filho das embarcações,
o som da salmoura,
da névoa, a voz marinha,
feita de golpes e sussurros,
tudo isso envolvia meu corpo
como um novo traje terrestre,
e habitei a bruma de cima,
a alta aldeia dos pobres.
VI
Janela dos morros! Valparaíso, estanho frio,
partido em um e outro grito de pedras populares!
Olha comigo do meu esconderijo
o porto cinzento tachonado de barcas,
água lunar apenas movediça,
imóveis depósitos de ferro.
Em outra hora longínqua,
povoado esteve teu mar, Valparaíso,
pelos delgados navios do orgulho,
os Cinco Mastros com sussurro de trigo,
os disseminadores do salitre,
os que dos oceanos nupciais
a ti vieram, transbordando tuas adegas.
Altos veleiros do dia marinho,
comerciais cruzados, estandartes
inflados pela noite marinheira,
convosco o ébano e a pura
claridade do marfim, os aromas
do café e da noite em outra lua,
Valparaíso, a tua paz perigosa
vieram envolvendo-te em perfume.
Tremia o Potosí com os seus nitratos
avançando no mar, pescado e flecha,
turgência azul, baleia delicada,
para outros negros portos da terra.
Quanta noite do sul sobre as velas
enroladas, sobre os empinados
peitos da máscara do barco,
quando sobre a Dama do navio,
rosto daquelas proas balançadas,
toda a noite de Valparaíso,
a noite austral do mundo, baixava.
VII
Era o amanhecer do salitre nos pampas.
Palpitava o planeta do adubo
até encher o Chile como um navio
de nevadas adegas.
Hoje olho quanto ficou de todos
os que passaram sem deixar sinal
nas areias do Pacífico.
Olhai o que eu olho,
o hostil detrito
que deixou na garganta de minha pátria
como um colar de pus, a chuva de ouro.
Que te acompanhe, caminheiro,
este olhar imóvel que perfura,
atado ao céu de Valparaíso.
Vive o chileno
entre lixeira e vendaval, escuro
filho da dura Pátria.
Vidraças despedaçadas, tetos partidos,
paredes aniquiladas, cal leprosa,
porta enterrada, piso de barro,
sujeitando-se apenas ao vestígio
do solo.
Valparaíso, rosa imunda,
pestilencial sarcófago marinho!
Não me firas com tuas ruas de espinhos,
com tua coroa de azedas ruelas,
não me deixes olhar o menino ferido
por tua miséria de mortal pântano!
Me dói em ti meu povo,
toda a minha pátria americana,
tudo o que roeram de teus ossos
deixando-te cingida pela espuma
como miserável deusa despedaçada,
em cujo doce peito partido
urinam os cachorros famintos.
VIII
Amo, Valparaíso, tudo o que encerras,
tudo o que irradias, noiva do oceano,
até mais além de teu nimbo surdo.
Amo a luz violenta com que socorres
o marinheiro na noite do mar,
e aí és - rosa de laranjeiras -
luminosa e nua, fogo e névoa.
Que não venha ninguém com um martelo turvo
para golpear o que amo, para defender-te:
ninguém senão meu ser pelos teus segredos:
ninguém senão minha voz pelas tuas abertas
fileiras de rocio, pelas tuas escadarias
onde a maternidade salobre
do mar te beija, ninguém senão meus lábios
em tua coroa fria de sereia,
elevada na aragem das alturas,
oceânico amor, Valparaíso.
Rainha de todas as costas do mundo,
verdadeira central de ondas e navios,
és em mim como a lua ou como
a direção da brisa no arvoredo.
Amo as tuas ruelas criminosas,
a tua lua de punhal sobre os morros,
e entre as tuas praças a marinhagem
a revestir de azul a primavera.
Que se entenda, te peço, porto meu,
que tenho eu o direito
de escrever-te o bom e o perverso
e sou como lâmpadas amargas
quando iluminam garrafas quebradas.
IX
Eu percorri os afamados mares,
o estame nupcial de cada ilha,
sou o mais marinheiro do papel
e andei, andei, andei,
até a última espuma,
mas teu penetrante amor marinho
foi marcado em mim como nenhum outro.
És a montanhosa
cabeça capital
do grande oceano,
e na tua celeste garupa de centaura
teus arrabaldes reluzem a pintura
vermelha e azul dos brinquedinhos.
Caberias num frasco marinheiro
com tuas pequenas casas e o “Latorre”
como uma prancha cinzenta num lençol
se não fora a grande tormenta
do mais imenso mar,
o golpe verde
das rajadas glaciais, o martírio
de teus terrenos sacudidos, o horror
subterrâneo, a marulhada
de todo o mar contra a tua tocha,
te fizeram magnitude de pedra sombria,
ciclônica igreja da espuma.
Te declaro meu amor, Valparaíso,
e tornarei a viver a tua encruzilhada,
quando tu e eu formos livres
de novo, tu em teu trono
de mar e vento, eu em minhas úmidas
terras filosofais, veremos como surge
a liberdade entre o mar e a neve.
Valparaíso, Rainha só,
só na soledade do solitário
sul do oceano,
olhei cada penhasco
amarelo de tua altura,
toquei teu pulso torrencial, tuas mãos
de portuária me deram o abraço
que minha alma te pediu na hora noturna
e te relembro reinando no brilho
do fogo azul que teu reino respinga.
Não há outra como tu sobre a areia,
Albacora do sul, Rainha da água.
X
Assim, pois, de noite em noite,
aquela longa hora, a treva
mergulhada em todo o litoral chileno,
fugitivo passei de porta em porta.
Outras casas humildes, outras mãos
em cada ruga da Pátria estavam
esperando os meus passos.
Tu passaste
mil vezes por essa porta que nada te disse,
por essa parede sem pintura, por essas
janelas com flores murchas.
Para mim era o segredo:
estava para mim palpitando,
era nas zonas do carvão,
empapadas pelo martírio,
era nos portos da costa
junto ao antártico arquipélago,
era, escuta, talvez nessa
rua sonora, entre a música
do meio-dia das ruas,
ou junto ao parque essa janela
que ninguém distinguiu entre as outras
janelas, e que me esperava
com um prato de sopa clara
e o coração sobre a mesa.
Todas as portas eram minhas,
todos disseram: “É meu irmão,
queiram traze-lo a esta casa pobre”,
enquanto minha pátria se tingia
com tantos castigos
como um lagar de vinho amargo.
Veio o pequeno latoeiro,
a mãe daquelas raparigas,
o camponês desajeitado,
o homem que fazia sabões,
a doce romancista, o jovem
cravado como um inseto
ao escritório desolado,
vieram e em sua porta havia
um signo secreto, uma chave
defendida como uma torre
para que eu entrasse de imediato,
à noite, de tarde ou de dia,
e sem conhecer ninguém
dissesse: “Irmão, já sabes quem eu sou,
parece que me esperavas”.
XI
Que podes tu, maldito, contra o ar?
Que podes tu, maldito, contra tudo
o que floresce e surge c cala e olha,
c me espera e te julga?
Maldito, com as tuas traições
está o que compraste, o que deves
regar a cada instante com moedas.
Maldito, podes
expatriar, apresar e dar tormentos,
e apressadamente pagar prontamente,
antes de que o vendido se arrependa,
poderás dormir apenas
rodeado de compradas carabinas,
enquanto no regaço de minha pátria
vivo eu, o fugitivo da noite!
Como é triste tua pequena e passageira
vitória! Enquanto Aragon, Ehrenburg,
Éluard, os poetas
de Paris, os valentes
escritores
da Venezuela e outros c outros e outros
estão comigo,
tu, Maldito,
entre Escanilla e Cuevas,
Peluchoneaux e Poblete!
Eu por escadas que o meu povo assume,
em socavões que o meu povo esconde,
sobre a minha pátria e sua asa de pomba
durmo, sonho e derrubo as tuas fronteiras.
XII
A todos, a vós,
os silenciosos seres da noite
que tomaram a minha mão nas trevas, a vós,
lâmpadas
de luz imortal, linhas de estrela,
pão das vidas, irmãos secretos,
a todos, a vós,
digo: não há obrigado,
nada poderá encher as taças
da pureza,
nada pode
conter todo o sol nas bandeiras
da primavera invencível
como vossas caladas dignidades.
Somente
penso
que fui talvez digno de tanta
singelez, de flor tão pura,
por eu ser vós talvez, isso mesmo,
essa migalha de terra, farinha e canto,
essa massa natural que sabe
de onde sai e onde fica.
Não sou um sino de tão longe,
nem um cristal enterrado tão profundo
que não possas decifrar, sou apenas
povo, porta escondida, pão escuro,
e quando me recebes, recebes
a ti mesmo, a esse hóspede
tantas vezes batido
e tantas vezes
renascido.
A tudo, a todos,
a quantos não conheço, a quantos nunca
ouviram este nome, aos que vivem
ao largo de nossos grandes rios,
ao pé dos vulcões, à sombra
sulfúrica do cobre, a pescadores e labregos,
a índios azuis na margem
de lagos cintilantes como vidros,
ao sapateiro que a esta hora interroga
pregando o couro com antigas mãos,
a ti, ao que sem saber me esperou,
eu pertenço e reconheço e canto.
XIII
Areia americana, solene
plantação, cordilheira,
filhos, irmãos debulhados
por velhas tormentas,
juntemos todos o grão vivo
antes que torne à terra,
e que o novo milho que nasce
haja escutado as tuas palavras
e as repita e se repitam.
E se cantem de dia e de noite,
e se mordam e se devorem,
e se propaguem pela terra,
se façam, de súbito, silêncio,
se afundem debaixo das pedras,
encontrem as portas noturnas,
e outra vez voltem a nascer,
a repartir-se, a conduzir-se
como o pão, como a esperança,
como a brisa dos navios.
O milho leva o meu canto,
saído das raízes
de meu povo, para nascer,
para construir, para cantar,
e para ser outra vez semente
mais numerosa na tormenta.
Aqui estão minhas mãos perdidas.
São invisíveis, mas tu
as vês através da noite,
através do vento invisível.
Dá-me tuas mãos, eu as vejo
sobre as ásperas areias
de nossa noite americana,
e escolho a tua e a tua,
essa mão e aquela outra,
a que se levanta para lutar
e a que volta a ser semeada.
Não me sinto só na noite,
na escuridão da terra.
Sou povo, povo inumerável.
Tenho em minha voz a força pura
para atravessar o silêncio
e germinar nas trevas.
Morte, martírio, sombra, gelo,
cobrem de repente a semente.
E o povo parece enterrado.
Mas o milho volta à terra.
Atravessaram o silêncio
suas implacáveis mãos vermelhas.
Da marte renascemos.
O fugitivo (1948)
Pela alta noite, pela vida inteira,
de lágrima a papel, de roupa em roupa,
andei nestes dias angustiados.
Fui o fugitivo da polícia:
na hora de cristal, na mata
de estrelas solitárias,
cruzei cidades, bosques,
chácaras, portos,
da porta de um ser humano a outro,
da mão de um ser a outro ser, a outro ser.
Grave é a noite, mas o homem
dispôs seus signos fraternais,
e às cegas por caminhos e por sombras
cheguei à porta iluminada, ao pequeno
ponto de estrela que era o meu,
ao fragmento de pão que no bosque os lobos
não haviam devorado.
Uma vez a uma casa, na campina,
cheguei à noite, a ninguém
antes daquela noite havia visto,
nem adivinhado aquelas existências.
O que faziam, as suas horas
eram novas a meu conhecimento.
Entrei, eram cinco da família:
todos como na noite dum incêndio
se haviam levantado.
Apertei uma
e outra mão, vi um rosto e outro rosto,
que nada me diziam: eram portas
que antes não vi na rua,
olhos que não conheciam meu rosto,
e na alta noite, apenas
recebido, me entreguei ao cansaço,
para adormecer a angústia de minha pátria.
Enquanto vinha o sonho,
o eco inumerável da terra
com seus roucos ladridos e suas fibras
de solidão, continuava a noite,
e eu pensava: “Onde estou? Quem
são? Por que me abrigam hoje?
Por que eles, que até hoje não me viram,
abrem suas portas e defendem meu canto?”
E ninguém respondia
a não ser um rumor de noite desfolhada,
um tecido de grilos se construindo:
a noite inteira mal
parecia tremer na folhagem.
Terra noturna, a minha janela
chegavas com os teus lábios,
para que eu dormisse docemente,
como a cair sobre milhares de folhas,
de estação em estação, de ninho em ninho,
de ramo em ramo, até ficar de súbito
adormecido como um morto em tuas raízes.
II
Era o outono das uvas.
Tremia o parreiral numeroso.
Os cachos brancos, velados,
escarchavam seus doces dedos,
e as negras uvas enchiam
seus pequenos ubres repletos
de um secreto rio redondo.
O dono da casa, artesão
de magro rosto, me lia
o pálido livro terrestre
dos dias crepusculares.
Sua bondade conhecia o fruto,
o ramo principal e o trabalho
da poda que deixa à árvore
sua despida forma de taça.
Com os cavalos conversava
como com imensas crianças: seguiam
atrás dele os cinco gatos
e os cachorros daquela casa,
alguns arqueados e lentos,
outros a correr loucamente
sob os frios pessegueiros.
Conhecia ele cada ramo,
cada cicatriz das árvores,
e sua antiga voz me ensinava
acariciando os cavalos.
III
Outra vez aí à noite recorri.
Ao cruzar a cidade a noite andina,
a noite derramada abriu a sua rosa
sobre minha roupa.
Era inverno no sul.
A neve havia
subido a seu alto pedestal, o frio
queimava com mil pontas congeladas.
O rio Mapocho era de neve negra.
E eu, entre rua e rua de silêncio
pela cidade manchada do tirano.
Ai! era eu como o próprio silêncio
olhando quanto amor e amor caía
através dos meus olhos em meu peito.
Porque essa rua e a outra e o umbral
da noite nevada, e a noturna
solidão dos seres, e meu povoado
enterrado, obscuro, em seu arrabalde de mortos,
tudo, a última janela
com seu pequeno ramo de luz falsa,
o apertado coral negro
de casa em casa, o vento
jamais gasto de minha terra,
tudo era meu, tudo
para mim no silêncio levantava
uma boca de amor cheia de beijos.
IV
Um jovem casal abriu uma porta
que antes tampouco conheci.
Era ela
dourada como o mês de junho,
e ele era um engenheiro de altos olhos.
Desde então com eles pão e vinho
compartilhei,
pouco a pouco
cheguei a sua intimidade desconhecida.
Me disseram: “Estávamos
separados,
nossa dissensão já era eterna:
hoje nos unimos para receber-te,
hoje te esperamos juntos”.
Lá, na pequena
casa reunidos,
fizemos uma silenciosa fortaleza.
Guardei o silêncio até no sonho.
Estava no pleno
centro da cidade, quase escutava
os passos do Traidor, junto aos muros
que me apartavam, ouvia
as vozes sujas dos carcereiros,
suas gargalhadas de ladrão, suas sílabas
de bêbados metidos entre balas
na cintura da minha pátria.
Quase roçavam por minha pele silenciosa
as eructações de Holgers e Pobletes,
seus passos, arrastando-se, tocavam
quase o meu coração e suas fogueiras:
eles mandando os meus para o tormento,
eu reservando a minha saúde de espada.
E outra vez, na noite, adeus, Irene,
adeus, Andrés, adeus, amigo novo,
adeus aos andaimes, à estrela,
adeus talvez à casa inconclusa
que diante de minha janela parecia
povoar-se de fantasmas lineares.
Adeus ao ponto ínfimo de monte
que recolhia em meus olhos cada tarde,
adeus à luz verde néon que abria
com seu relâmpago cada nova noite.
V
Outra vez, outra noite, fui mais longe.
Toda a cordilheira da costa,
a vasta margem do mar Pacífico,
e logo entre as ruas retorcidas,
rua e ruela, Valparaíso.
Entrei numa casa de marinheiros.
A mãe me esperava.
“Só soube ontem”, me disse; “meu filho
me chamou, e o nome de Neruda
me percorreu como um calafrio.
Falei com ele: que conforto,
meus filhos, podemos dar a ele?” “Ele pertence
a nós, os pobres”, me respondeu,
“ele não zomba nem despreza
a nossa pobre vida, ele a exalta
e defende.
” “Eu falei: está bem,
e esta é a sua casa a partir de hoje.
”
Ninguém me conhecia nessa casa.
Olhei a límpida toalha, a jarra d'água
pura como essas vidas que do fundo
da noite como asas
de cristal a mim chegavam.
Fui à janela: Valparaíso abria suas mil pálpebras
que tremiam, a aragem
do mar noturno entrou em minha boca,
as luzes dos morros, o tremor
da lua marítima na água,
a escuridão como uma monarquia
enfeitada de diamantes verdes,
todo o novo repouso que a vida
me entregava.
Olhei: a mesa estava posta,
o pão, o guardanapo, o vinho, a água,
e uma fragrância de terra e ternura
umedeceu os meus olhos de soldado.
Junto a essa janela de Valparaíso
passei dias e noites.
Os navegantes de minha nova casa
cada dia procuravam
um barco em que partir.
Eram
enganados uma vez e mais outra vez.
O Atomena
não podia levá-los, o Sultana
também não.
Me explicaram:
eles pagavam a gorjeta ou o suborno
a esse ou àquele chefe.
Outros
davam mais.
Tudo estava podre
como no palácio de Santiago.
Aqui se abriam os bolsos
do capitão, do secretário,
não eram tão grandes como os bolsos
do presidente, porém roíam
o esqueleto dos pobres.
Triste república chicoteada
como uma cadela por ladrões,
uivando sozinha nos caminhos,
espancada pela polícia.
Triste nação gonzalizada,
arrojada pelos trapaceiros
ao vômito do delator,
vendida nas esquinas rotas,
desmantelada num arremate de leilão.
Triste república na mão
do que vendeu sua própria filha
e sua própria pátria entregou
ferida, muda e manietada.
Voltavam os dois marinheiros
e partiam carregando nos ombros
sacos, bananas, comestíveis,
com saudade do sal das ondas,
do pão marinho, do alto céu.
No meu dia solitário o mar
se afastava: olhava então
a chama vital dos morros,
cada casa pendurando, o
pulsar de Valparaíso:
os altos morros a transbordar
de vidas, as portas pintadas
de turquesa, escarlate e rosa,
as escadas desdentadas,
os cachos de portas pobres,
as vivendas frouxas,
a névoa, a fumaça estendendo suas
redes de sal sobre as coisas,
as árvores desesperadas
agarrando-se às quebradas,
a roupa pendurada nos braços
das mansões desumanas,
o rouco silvo de repente
filho das embarcações,
o som da salmoura,
da névoa, a voz marinha,
feita de golpes e sussurros,
tudo isso envolvia meu corpo
como um novo traje terrestre,
e habitei a bruma de cima,
a alta aldeia dos pobres.
VI
Janela dos morros! Valparaíso, estanho frio,
partido em um e outro grito de pedras populares!
Olha comigo do meu esconderijo
o porto cinzento tachonado de barcas,
água lunar apenas movediça,
imóveis depósitos de ferro.
Em outra hora longínqua,
povoado esteve teu mar, Valparaíso,
pelos delgados navios do orgulho,
os Cinco Mastros com sussurro de trigo,
os disseminadores do salitre,
os que dos oceanos nupciais
a ti vieram, transbordando tuas adegas.
Altos veleiros do dia marinho,
comerciais cruzados, estandartes
inflados pela noite marinheira,
convosco o ébano e a pura
claridade do marfim, os aromas
do café e da noite em outra lua,
Valparaíso, a tua paz perigosa
vieram envolvendo-te em perfume.
Tremia o Potosí com os seus nitratos
avançando no mar, pescado e flecha,
turgência azul, baleia delicada,
para outros negros portos da terra.
Quanta noite do sul sobre as velas
enroladas, sobre os empinados
peitos da máscara do barco,
quando sobre a Dama do navio,
rosto daquelas proas balançadas,
toda a noite de Valparaíso,
a noite austral do mundo, baixava.
VII
Era o amanhecer do salitre nos pampas.
Palpitava o planeta do adubo
até encher o Chile como um navio
de nevadas adegas.
Hoje olho quanto ficou de todos
os que passaram sem deixar sinal
nas areias do Pacífico.
Olhai o que eu olho,
o hostil detrito
que deixou na garganta de minha pátria
como um colar de pus, a chuva de ouro.
Que te acompanhe, caminheiro,
este olhar imóvel que perfura,
atado ao céu de Valparaíso.
Vive o chileno
entre lixeira e vendaval, escuro
filho da dura Pátria.
Vidraças despedaçadas, tetos partidos,
paredes aniquiladas, cal leprosa,
porta enterrada, piso de barro,
sujeitando-se apenas ao vestígio
do solo.
Valparaíso, rosa imunda,
pestilencial sarcófago marinho!
Não me firas com tuas ruas de espinhos,
com tua coroa de azedas ruelas,
não me deixes olhar o menino ferido
por tua miséria de mortal pântano!
Me dói em ti meu povo,
toda a minha pátria americana,
tudo o que roeram de teus ossos
deixando-te cingida pela espuma
como miserável deusa despedaçada,
em cujo doce peito partido
urinam os cachorros famintos.
VIII
Amo, Valparaíso, tudo o que encerras,
tudo o que irradias, noiva do oceano,
até mais além de teu nimbo surdo.
Amo a luz violenta com que socorres
o marinheiro na noite do mar,
e aí és - rosa de laranjeiras -
luminosa e nua, fogo e névoa.
Que não venha ninguém com um martelo turvo
para golpear o que amo, para defender-te:
ninguém senão meu ser pelos teus segredos:
ninguém senão minha voz pelas tuas abertas
fileiras de rocio, pelas tuas escadarias
onde a maternidade salobre
do mar te beija, ninguém senão meus lábios
em tua coroa fria de sereia,
elevada na aragem das alturas,
oceânico amor, Valparaíso.
Rainha de todas as costas do mundo,
verdadeira central de ondas e navios,
és em mim como a lua ou como
a direção da brisa no arvoredo.
Amo as tuas ruelas criminosas,
a tua lua de punhal sobre os morros,
e entre as tuas praças a marinhagem
a revestir de azul a primavera.
Que se entenda, te peço, porto meu,
que tenho eu o direito
de escrever-te o bom e o perverso
e sou como lâmpadas amargas
quando iluminam garrafas quebradas.
IX
Eu percorri os afamados mares,
o estame nupcial de cada ilha,
sou o mais marinheiro do papel
e andei, andei, andei,
até a última espuma,
mas teu penetrante amor marinho
foi marcado em mim como nenhum outro.
És a montanhosa
cabeça capital
do grande oceano,
e na tua celeste garupa de centaura
teus arrabaldes reluzem a pintura
vermelha e azul dos brinquedinhos.
Caberias num frasco marinheiro
com tuas pequenas casas e o “Latorre”
como uma prancha cinzenta num lençol
se não fora a grande tormenta
do mais imenso mar,
o golpe verde
das rajadas glaciais, o martírio
de teus terrenos sacudidos, o horror
subterrâneo, a marulhada
de todo o mar contra a tua tocha,
te fizeram magnitude de pedra sombria,
ciclônica igreja da espuma.
Te declaro meu amor, Valparaíso,
e tornarei a viver a tua encruzilhada,
quando tu e eu formos livres
de novo, tu em teu trono
de mar e vento, eu em minhas úmidas
terras filosofais, veremos como surge
a liberdade entre o mar e a neve.
Valparaíso, Rainha só,
só na soledade do solitário
sul do oceano,
olhei cada penhasco
amarelo de tua altura,
toquei teu pulso torrencial, tuas mãos
de portuária me deram o abraço
que minha alma te pediu na hora noturna
e te relembro reinando no brilho
do fogo azul que teu reino respinga.
Não há outra como tu sobre a areia,
Albacora do sul, Rainha da água.
X
Assim, pois, de noite em noite,
aquela longa hora, a treva
mergulhada em todo o litoral chileno,
fugitivo passei de porta em porta.
Outras casas humildes, outras mãos
em cada ruga da Pátria estavam
esperando os meus passos.
Tu passaste
mil vezes por essa porta que nada te disse,
por essa parede sem pintura, por essas
janelas com flores murchas.
Para mim era o segredo:
estava para mim palpitando,
era nas zonas do carvão,
empapadas pelo martírio,
era nos portos da costa
junto ao antártico arquipélago,
era, escuta, talvez nessa
rua sonora, entre a música
do meio-dia das ruas,
ou junto ao parque essa janela
que ninguém distinguiu entre as outras
janelas, e que me esperava
com um prato de sopa clara
e o coração sobre a mesa.
Todas as portas eram minhas,
todos disseram: “É meu irmão,
queiram traze-lo a esta casa pobre”,
enquanto minha pátria se tingia
com tantos castigos
como um lagar de vinho amargo.
Veio o pequeno latoeiro,
a mãe daquelas raparigas,
o camponês desajeitado,
o homem que fazia sabões,
a doce romancista, o jovem
cravado como um inseto
ao escritório desolado,
vieram e em sua porta havia
um signo secreto, uma chave
defendida como uma torre
para que eu entrasse de imediato,
à noite, de tarde ou de dia,
e sem conhecer ninguém
dissesse: “Irmão, já sabes quem eu sou,
parece que me esperavas”.
XI
Que podes tu, maldito, contra o ar?
Que podes tu, maldito, contra tudo
o que floresce e surge c cala e olha,
c me espera e te julga?
Maldito, com as tuas traições
está o que compraste, o que deves
regar a cada instante com moedas.
Maldito, podes
expatriar, apresar e dar tormentos,
e apressadamente pagar prontamente,
antes de que o vendido se arrependa,
poderás dormir apenas
rodeado de compradas carabinas,
enquanto no regaço de minha pátria
vivo eu, o fugitivo da noite!
Como é triste tua pequena e passageira
vitória! Enquanto Aragon, Ehrenburg,
Éluard, os poetas
de Paris, os valentes
escritores
da Venezuela e outros c outros e outros
estão comigo,
tu, Maldito,
entre Escanilla e Cuevas,
Peluchoneaux e Poblete!
Eu por escadas que o meu povo assume,
em socavões que o meu povo esconde,
sobre a minha pátria e sua asa de pomba
durmo, sonho e derrubo as tuas fronteiras.
XII
A todos, a vós,
os silenciosos seres da noite
que tomaram a minha mão nas trevas, a vós,
lâmpadas
de luz imortal, linhas de estrela,
pão das vidas, irmãos secretos,
a todos, a vós,
digo: não há obrigado,
nada poderá encher as taças
da pureza,
nada pode
conter todo o sol nas bandeiras
da primavera invencível
como vossas caladas dignidades.
Somente
penso
que fui talvez digno de tanta
singelez, de flor tão pura,
por eu ser vós talvez, isso mesmo,
essa migalha de terra, farinha e canto,
essa massa natural que sabe
de onde sai e onde fica.
Não sou um sino de tão longe,
nem um cristal enterrado tão profundo
que não possas decifrar, sou apenas
povo, porta escondida, pão escuro,
e quando me recebes, recebes
a ti mesmo, a esse hóspede
tantas vezes batido
e tantas vezes
renascido.
A tudo, a todos,
a quantos não conheço, a quantos nunca
ouviram este nome, aos que vivem
ao largo de nossos grandes rios,
ao pé dos vulcões, à sombra
sulfúrica do cobre, a pescadores e labregos,
a índios azuis na margem
de lagos cintilantes como vidros,
ao sapateiro que a esta hora interroga
pregando o couro com antigas mãos,
a ti, ao que sem saber me esperou,
eu pertenço e reconheço e canto.
XIII
Areia americana, solene
plantação, cordilheira,
filhos, irmãos debulhados
por velhas tormentas,
juntemos todos o grão vivo
antes que torne à terra,
e que o novo milho que nasce
haja escutado as tuas palavras
e as repita e se repitam.
E se cantem de dia e de noite,
e se mordam e se devorem,
e se propaguem pela terra,
se façam, de súbito, silêncio,
se afundem debaixo das pedras,
encontrem as portas noturnas,
e outra vez voltem a nascer,
a repartir-se, a conduzir-se
como o pão, como a esperança,
como a brisa dos navios.
O milho leva o meu canto,
saído das raízes
de meu povo, para nascer,
para construir, para cantar,
e para ser outra vez semente
mais numerosa na tormenta.
Aqui estão minhas mãos perdidas.
São invisíveis, mas tu
as vês através da noite,
através do vento invisível.
Dá-me tuas mãos, eu as vejo
sobre as ásperas areias
de nossa noite americana,
e escolho a tua e a tua,
essa mão e aquela outra,
a que se levanta para lutar
e a que volta a ser semeada.
Não me sinto só na noite,
na escuridão da terra.
Sou povo, povo inumerável.
Tenho em minha voz a força pura
para atravessar o silêncio
e germinar nas trevas.
Morte, martírio, sombra, gelo,
cobrem de repente a semente.
E o povo parece enterrado.
Mas o milho volta à terra.
Atravessaram o silêncio
suas implacáveis mãos vermelhas.
Da marte renascemos.
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Olegário Mariano
A Velha Mangueira
No pátio da senzala que a corrida
Do tempo mau de assombrações povoa,
Uma velha mangueira, comovida,
Deita no chão maldito a sombra boa.
Tinir de ferros, música dorida,
Vago maracatu no espaço ecoa...
Ela, presa às raízes, toda a vida,
Seu cativeiro, em flores, abençoa...
Rondam na noite espectros infelizes
Que lhe atiram, dos galhos às raízes,
Em blasfêmias de dor, golpes violentos.
E, quando os ventos rugem nos espaços,
Os seus galhos se torcem como braços
De escravos vergastados pelos ventos.
Publicado no livro Canto da Minha Terra (1930).
In: MARIANO, Olegário. Toda uma vida de poesia: poesias completas, 1911/1955. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1957. v.
Do tempo mau de assombrações povoa,
Uma velha mangueira, comovida,
Deita no chão maldito a sombra boa.
Tinir de ferros, música dorida,
Vago maracatu no espaço ecoa...
Ela, presa às raízes, toda a vida,
Seu cativeiro, em flores, abençoa...
Rondam na noite espectros infelizes
Que lhe atiram, dos galhos às raízes,
Em blasfêmias de dor, golpes violentos.
E, quando os ventos rugem nos espaços,
Os seus galhos se torcem como braços
De escravos vergastados pelos ventos.
Publicado no livro Canto da Minha Terra (1930).
In: MARIANO, Olegário. Toda uma vida de poesia: poesias completas, 1911/1955. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1957. v.
1 300
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Ednólia Fontenele
Espaço Livre
Na poesia
não há espaço
para coisas
pequenas, fugazes.
Falemos pois
da fome do povo,
da miséria do trabalhador,
das injustiças,
das dificuldades dos menos
favorecidos.
Falemos da lama verde
que enche os olhos e bolsos
daquela gente de lá.
Na poesia
não há espaço
para coisas pequenas,
amores mesquinhos.
Falemos pois
dos homens que
cultivam espinhos,
escondem loucuras,
roubam sonhos,
colhem sangue
de toda gente!
não há espaço
para coisas
pequenas, fugazes.
Falemos pois
da fome do povo,
da miséria do trabalhador,
das injustiças,
das dificuldades dos menos
favorecidos.
Falemos da lama verde
que enche os olhos e bolsos
daquela gente de lá.
Na poesia
não há espaço
para coisas pequenas,
amores mesquinhos.
Falemos pois
dos homens que
cultivam espinhos,
escondem loucuras,
roubam sonhos,
colhem sangue
de toda gente!
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Adélia Prado
Previsão do Tempo
O espírito de rebelião
também chamado de tristeza e desânimo
começou de novo sua ronda sinistra.
Sua treva e seu frio são de inferno.
Por causa de maio, esperava dias felizes;
e ensolarado até agora só o recado de Albertina,
escolhida pra cantar Jesus é o pão do céu.
Pão sem manteiga, Albertina,
é bom que o saiba.
É com ervas amargas que o comemos.
também chamado de tristeza e desânimo
começou de novo sua ronda sinistra.
Sua treva e seu frio são de inferno.
Por causa de maio, esperava dias felizes;
e ensolarado até agora só o recado de Albertina,
escolhida pra cantar Jesus é o pão do céu.
Pão sem manteiga, Albertina,
é bom que o saiba.
É com ervas amargas que o comemos.
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