Poemas neste tema

Protesto, Resistência e Revolução

Alex Brasil

Alex Brasil

Boiada

Por que ficamos calados
passivos
submissos,
cabisbaixos,
fingindo que amanhã vai melhorar?
Acreditando nas estatísticas furadas,
nos iludindo com discursos mentirosos
com propagandas inventadas? —
Eu, "porque não quero a violência",
assim digo, mentindo a mim mesmo,
porque meus motivos são outros,
que escondo a todo preço.
Você "porque o sangue não compensa",
assim, diz, sujando a consciência em segredo,
pois seu verdadeiro motivo é o medo...
Os nordestinos, porque culpam a chuva,
onde depositam todas suas esperanças,
dizem, enquanto escondem os rostos
em procissão, enterrando suas crianças.
Do Oiapoque ao Chuí,
cada brasileiro tem sua desculpa
para suportar a podridão
em que a pátria se afoga.
Fingimos que há uma bandeira,
uma causa,
que nos une na inanição,
no martírio,
na dor,
na humilhação
na vergonha,
no pavor...
E, como boiadas nordestinadas,
nos deixamos tanger,
chicoteados por tiranos
nos levando a lugar nenhum,
nos alimentando de enganos,
enquanto definhamos, morrendo um a um...

1 150
Mário Chamie

Mário Chamie

Espaço inaugural

O espaço que se mede
e que se perde
não é o tempo perdido
da memória.

Esquece.
O tempo que se perde
é o mesmo que fenece
a cada hora.

Na hora do homem
em casa.
Na hora do homem
na rua.
Na hora do espanto
desse homem
sem tempo
no espaço de cada canto.

Mas o cansaço do tempo
que se perde
não impede o espaço
que se inaugura.

O espaço do homem
na praça.
O espaço do homem
em luta
com a fúria de outro tempo
sua surda fúria muda.
937
Castro Alves

Castro Alves

Ao Dia Dous de Julho

Versos recitados em uma reunião de estudantes baianos

PARTE PRIMEIRA

O CATIVO

QUE CÉU tão negro... que tão negra a terra,
Rugindo rola-se o trovão no espaço...
Falanges negras de chumbadas nuvens
Raios vomitam num medonho abraço...

Na terra perdem-se ao tinir de ferros
Entre soluços mil sentidos cantos,
E ao som do cedro que os machados tombam
Chora o cativo amargurados prantos.

Do rosto másculo lhe goteja a lágrima
Que as ervas torra do queimado chão.
Procura a esposa que lhe mostre o filho...
O céu troveja e lhe responde — não.

Um suor frio lhe passou nos membros...
No corpo a vida para sempre cansa.
Caiu por terra, mas lembrando o filho
Com os lábios hirtos repetiu — vingança.

Nem pôde ao menos abraçar a esposa
Na hora triste do seu passamento.
São-lhe sudário da mangueira velha
As folhas secas que lhe atira o vento.

Só tem por prantos o gemer tristonho
Da ventania que rugindo passa.
— Triste epopéia do guerreiro forte
Que enfim, cativo fez a morte escassa...

E após... Um dia a soluçar nos ferros
Passa o filhinho pla senil mangueira...
E passa o triste sem saber ao menos
Do pátrio túmulo ter passado à beira...

PARTE SEGUNDA

A Vingança

Não ouvis que voz terrível
Que nos traz a ventania
Que há pouco só nos trazia
Tristes suspiros de dor?...
E do relâmpago sinistro...
Vede... As lousas estalaram...
E os espectros acordaram...
Medonhos no seu furor...

Ergueram-se mil fantasmas
Hirsutos e suarentos
A branca mortalha aos ventos
Flutua longa alvadia.
Tiradentes mostra o insulto
Que lhe pesa sobre a fronte,
Gonzaga aponta o horizonte
Coa mão descarnada e fria.

E Cláudio, e o forte Alvarenga
Recordam o seu passado,
Só de dores coroado...
— Triste croa do infeliz...
Pedem castigo pra aqueles
Que assinaram a — sentença —
— De — morte — a quem na defensa
Lutava de seu país.

A mãe clama pelo filho...
E pelo amante a donzela...
O índio pela mata bela
Onde a vida lhera mansa...
— Vingança — uníssona e forte
Uma voz terrível brada...
Três séculos surgem do nada
Para bradarem — vingança —
.....................................
.....................................

PARTE TERCEIRA

SAUDAÇÃO

Quereis que vos conte a história brasílea
Que Deus copiara sorrindo talvez...
E as lutas terríveis do moço gigante
Com o velho que ao mundo ditara só leis...

Oh! Não... Que sois filhos do povo dos bravos...
Sois filhos hercúleos do hercúleo cruzeiro...
Sabeis esta história... Quem é que não sabe-a?
Quem é?... Se não sabe-a... não é Brasileiro.

E a este que a digam as águas de prata
Que um dia de sangue ficaram também...
Que a digam as águias, que viram as lutas
E foram contá-las às águias de além...

E o velho vigia dos louros da pátria
Da história brasílea servil sentinela
— O campo formoso ao grão Pirajá —
Que para cantá-la deitado lá vela.

E após essa luta... Nos ares um grito
Passou repetindo-se em vales e montes...
E a ouvi-lo os tiranos nos tronos tremeram
E viram tremerem-lhe as croas nas frontes...

E um povo de bravos ergueu-se dizendo:
"Já somos nós livres, já somos nação!..."
Coas águas imensas o imenso Amazonas
Pomposo repete: — "Sou livre em meu chão!..."

E ao grito de livres as fontes correram
E em lindas cascatas os rios saltaram...
Ergueram-se cantos festivos de hosanas,
As flores do seio da terra brotaram...

É hoje, senhores, o dia da pátria.
Que dalma — os Baianos — conservam no fundo,
Saudemos o dia que ergueu-nos do lodo...
Que marca um progresso na vida do mundo.

Senhores, a glória de um povo é ser livre...
O nome de livres é o nosso brasão.
Seja esta a divisa da nossa existência.
E este epitáfio se escreva no chão...

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Castro Alves

Castro Alves

Improviso

(À MOCIDADE ACADÊMICA)

Moços! A inépcia nos chamou de estúpidos!
Moços! O crime nos cobriu de sangue!
Vós os luzeiros do país, erguei-vos!
Perante a infâmia ninguém fica exangue

Protesto santo se levanta agora,
De mim, de vós, da multidão, do povo;
Somos da classe da justiça e brio,
Não há mais classe ante esse crime novo!

Sim! mesmo em face, da nação, da pátria,
Nós nos erguemos com soberba fé!
A lei sustenta o popular direito,
Nós sustentamos o direito em pé!

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Manuel Alegre

Manuel Alegre

Como ouvi Linda cantar por seu amigo José

Se sabeis novas do meu amigo
novas dizei-me que vou morrendo
por meu amigo que me levaram
num carro negro de madrugada.

Dizei-me novas do meu amigo
em sua torre tecendo os dias
dai-me palavras pra lhe mandar
com ruas brisas domingo sol.

Se sabeis novas de meu amigo
novas dizei-me que desespero
por meu amigo que longe espera
tecendo os dias tecendo a esperança.

Mando recados não sei se chegam
leva-me ó vento da noite triste
ou diz-me novas de meu amigo
que tece o tempo na torre negra.

Que tece o tempo que tece a esperança.
Já da ternura fiz uma corda
ó vento prende-a na torre negra
que o meu amigo por ela desça.

Por essa corda feita de lágrimas
que o meu amigo por ela desça
ou mande a esperança que vai tecendo
que eu desespero sem meu amigo.

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Pablo Neruda

Pablo Neruda

Canto XIII - Coral de Ano-Novo para a Pátria em trevas

I
Saudação (1949)

De arames oxidados pela água salobre?
É Pisagua também teu rosto agora?
Quem te fez mal, como atravessaram
com um punhal o teu mel despido?

Antes de ninguém, para eles minha saudação,
para os homens, para o plinto de dores,
para as mulheres, ramos de mañio,
para as crianças, escolas transparentes,
que sobre as areias de Pisagua
foram a pátria perseguida, foram
toda a honra da terra que amo.

Será a honra sagrada de amanhã
ter sido arrojado a tuas areias,
Pisagua: ter sido de repente
recolhido à noite do terror
por ordem de um traidor envilecido
e ter chegado a teu calcário inferno
para defender a dignidade do homem.




II Os homens de Pisagua
Não esquecerei as tuas costas mortas onde
do mar hostil a suja dentada
ataca as paredes do tormento
e a pique se levantam os baluartes
dos pelados cerros infernais:
não esquecerei como olhais as águas,
para o mundo que esquece os vossos rostos,
não esquecerei quando de olhos cheios
de interrogante luz, voltais
o rosto às terras pálidas do Chile
dominadas por lobos e ladrões.


Sei como vos lançaram a comida,
como a cães sarnentos, no chão,
até que fizestes de pequenas latas
vazias os vossos pratos:
sei como vos lançaram para dormir
e como em fila recebestes,
carrancudos e valentes,
os imundos feijões
que tantas vezes às areias lançastes.

Sei como, quando recebíeis
roupa, alimentos que de toda
a extensão da pátria se juntaram,
sentistes com orgulho
que talvez, que talvez não estáveis sós.

Valentes, temperados compatriotas
que dais um novo sentido à terra:
fostes os escolhidos na caçada,
para que por vós todo o povo
sofresse em desterrados areais.

E escolheram inferno examinando
o mapa, até que acharam
este salobre cárcere, estes muros
de solidão, de surpreendedora
angústia, para que golpeareis a cabeça
sob os pés do ínfimo tirano.


Mas não acharam sua própria matéria:
não sois feitos de esterco como o pútrido,
vermiforme traidor: mentiram
seus informes, acharam
a firmeza metálica do povo,
o coração do cobre e seu silêncio.


É o metal que fundará a pátria
quando o vento do povo areento
expulsar o capitão da imundície.

Firmes, firmes irmãos,
firmes quando em caminhões, agredidos
à noite nas cabanas, empurrados,
amarrados os braços com arame,
sem despertar, apenas surpreendidos
e atropelados, fostes para Pisagua,
levados por armados carcereiros.


Depois voltaram eles
e encheram caminhões com famílias
desamparadas, batendo nas crianças.

E um pranto de filhos doces aparece
ainda na noite do deserto, um pranto
de milhares de bocas infantis,
como um coro que busca o duro vento
para que escutemos, para que não nos esqueçamos.




III
Os heróis

Félix Morales, Ángel Vcas,
assassinados em Pisagua,
feliz ano-novo, irmãos,
sob a dura terra que amastes,
que defendestes.
Hoje estais
sob as salinas que rangem
dizendo os vossos nomes puros,
sob as rosas estendidas
do salitre, sob a areia
cruel do deserto ilimitado.


Feliz ano-novo, irmãos
meus, quanto amor
me ensinastes, quanto
domínio sobre a ternura
abarcastes na morte!

Sois como as ilhas que nascem
de repente no meio do oceano,
sustentadas pelo espaço
e pela firmeza marinha.


Aprendi o mundo de vós:
a pureza, o pão infinito.

Me mostrastes a vida, a área
do sal, a cruz dos pobres.

Cruzei as vidas do deserto
como um barco num mar escuro
e me mostráveis a meu lado
os trabalhos do homem, o solo,
a casa andrajosa, o silvo
da miséria nas planuras.


Félix Morales, te recordo
pintando um retrato alto, fino
esbelto e jovem como uma nova
algarobeira, nas extensões
sedentas do pampa.


Tuas melenas bravias batiam
em teu rosto pálido, pintavas
o retrato de um demagogo
para as próximas eleições.


Te recordo dando a vida
em tua pintura, encarapitado
na escada, resumindo
toda a sua doce juventude.


Ias fazendo o sorriso
de teu verdugo na tela,
agregando branco, medindo,
acrescentando luz na boca
que ordenou depois tua agonia.


Ángel, Ángel, Ángel Veas,
operário do pampa, puro
como o metal desenterrado,
já te assassinaram, já estás
onde quiseram que estivesses
os amos do chão do Chile:
debaixo das pedras devoradoras
que com as tuas mãos tantas vezes
levantaste para a grandeza.


Nada mais puro que a tua vida.


Só as pálpebras dos ares.


Só as águas mananciais.


Só o metal inacessível.


Levarei pela vida inteira
a honra de ter estreitado
tua nobre mão combatente.


Eras tranqüilo, eras madeira
educada no sofrimento
até ser ferramenta pura.

Te recordo quando se honrava
a intendência de Iquique contigo,
trabalhador, asceta, irmão.


Faltava pão, farinha.
Então
levantavas antes da aurora
e com as tuas mãos repartias
o pão para todos.
Nunca
te vi tão grande, eras o pão,
eras o pão do povo, aberto
com o teu coração na terra.


E quando tarde na jornada
voltavas carregando o volume
do dia de luta terrível,
sorrias como a farinha,
entravas em tua paz de pão,
e te repartias de novo,
até que o sonho reunia
teu debulhado coração.




IV
González Videla

Quem foi? Quem é? onde estou, me perguntam,
em outras terras onde vou errante.

No Chile não perguntam, os punhos contra o vento,
os olbos nas minas se dirigcm a um ponto,
a um vicíoso traidor que com eles chorava
quando pediu seus votos para trepar ao trono.

Viram-no estes homens de Pisagua, os bravos
titãs do carvão: derramava as lágrimas,
arrancava os dentes prometendo,
abraçava e beijava as crianças que agora
limpam com areia a marca de sua pústula.

Fm minha cidade, em minha terra o conhecemos.
Dorme
o lavrador pensando quando suas duras mãos
poderão cercar seu pescoço de cão mentiroso,
e o mineiro na sombra de sua cova intranqüila
estira o pé sonhando que esmagou com a sola
este piolho maligno, degradado insaciável.


Sabe quem é o que fala atrás duma cortina
de baionetas, ou atrás de animais de feira,
ou atrás dos novos mercadores,
mas nunca atrás do povo que o procura
para falar uma hora com ele, sua última hora.


A meu povo arrancou a esperança, sorrindo,
vendeu-a nas trevas a seu melhor licitador,
e em vez de casas frescas e liberdades, feriram-no,
espancaram-no na garganta da mina,
lhe decretaram o salário atrás duma coronha,
enquanto uma tertúlia governava dançando
com dentes afiados de jacarés noturnos.




V
Eu não sofri

Mas não sofreste tu? Eu não sofri.
Eu sofro
só os sofrimentos do meu povo.
Eu vivo
por dentro, por dentro de minha pátria, célula
de seu infinito e abrasado sangue.

Não tenho tempo para as minhas dores.

Nada me faz sofrer além destas vidas
que a mim deram sua confiança pura,
e que um traidor fez rolar para o fundo
do buraco morto, de onde
é preciso de novo erguer-se a rosa.


Quando o verdugo pressionou os juízes
para que condenassem
o meu coração, meu enxame decidido,
o povo abriu seu labirinto imenso,
o porão em que dormem os seus amores,
e lá me sustentaram, vigiando
até a entrada da luz e do ar.

Me disseram: “Somos teus credores,
és o que há de pôr a marca fria
sobre os sujos nomes do perverso”.

E só sofri de não ter sofrido.

Só de não ter percorrido os escuros
cárceres de meu irmão e de meu irmão,
com toda a minha paixão como uma ferida,
e cada passo falso a mim rolava.

cada golpe nas tuas costas me machucava,
cada gota de sangue do martírio
resvalou até meu canto que sangrava.




VI
Neste tempo

Feliz ano.
.
.
Hoje que tens
minha terra a teus dois lados, és feliz, irmão.

Eu sou errante filho do que amo.

Responde-me, pensa que estou contigo
a perguntar-te, pensa que sou o vento de janeiro,
vento puelche, vento velho das montanhas
que quando abres a porta te visita
sem entrar, ventilando suas rápidas perguntas.

Dize-me, entraste por um campo de trigo ou de cevada,
estão dourados? Fala-me de um dia de cerejas.

Longe do Chile penso num dia redondo,
cor de amora, transparente, de açúcar em cachos,
e de grãos espessos e azuis que gotejam
em minha boca as suas taças carregadas de delícia.

Dize-me, mordeste hoje a anca pura
de um pêssego, e enchendo-te de imortal ambrosia,
até que também foste fonte da terra,
fruto c fruto entregues ao esplendor do mundo?



VII
Antes me falaram

Por estas mesmas terras forasteiras andei
eu outro tempo: o nome de minha pátria brilhava
como os constelados segredos de seu céu.


O perseguido de todas as latitudes, cego,
oprimido pela ameaça e pela ignomínia,
me tocava as mãos, me dizia “chileno”
com uma voz manchada pela esperança.
Então
a tua voz tinha o eco de um hino, eram pequenas
as tuas mãos arenosas, pátria, mas cobriram
mais de uma ferida, resgataram
mais de uma primavera desolada.

Levas guardada toda essa esperança,
reprimida em tua paz, sob a terra,
vasta semente para todo homem,
ressurreição segura da estrela.




VIII
As vozes do Chile

Antes a voz do Chile foi metálica
voz da liberdade, de vento e prata,
antes ressoou nas alturas
do planeta recém-cicatrizado,
de nossa América agredida
por matagais e centauros.

Até à neve intacta subiu, no desvelo,
subiu o teu coro de folhas honoráveis,
o canto de águas livres de teus rios,
a majestade azul de teu decoro.

Era Isidoro Errázuriz vertendo
sua combatente estrela cristalina,
sobre cidades obscuras e amarradas,
era Bilbao com sua cara
de pequeno planeta tumultuoso,
foi Vicuña Mackenna transportando
sua inumerável e germinal folhagem
prenhe de indícios e sementes
por outras cidades em que a janela
foi fechada á luz.
Eles entraram
e acenderam a lâmpada na noite,
e no amargo do dia de outras cidades
foram a luz mais alta da neve.




IX
Os mentirosos

Hoje se chamam Gajardo, Manuel Trucco,
Hernán Santa Cruz, Enrique Berstein,
Germán Vergara, os que - pagamento adiantado -
dizem falar, ó Pátria, em teu sagrado
nome e pretendem defender-te afundando
a tua herança de leão na imundície.

Anões amassados como pílulas
na botica do traidor, ratazanas
do pressuposto, mínimos
mentirosos, esporeadores
de nossa força, pobres
mercenários de mãos estendidas
e línguas de coelhos caluniadores.

Não são minha pátria, eu o declaro
a quem me queira ouvir por estas terras,
não são o homem grande do salitre,
não são o sal do povo transparente,
não são as lentas mãos que constroem
o monumento da agricultura,
não são, não existem, mentem e arrazoam
para continuar, sem existir, cobrando.




X
Serão nomeados

Enquanto escrevo minha mão esquerda me reprova.

Me diz: por que os nomeias, que são, que valem?
Por que não os deixaste em seu anônimo lodo
de inverno, nesse lodo em que urinam os cavalos?
E minha mão direita lhe responde: “Nasci
para bater nas portas, para brandir os golpes,
para acender as últimas retiradas sombras
nas quais se alimenta a aranha venenosa”.

Serão nomeados.
Não me entregaste, pátria,
o doce privilégio de nomear-te
apenas em teus alhelies e tua espuma,
não me deste palavras, pátria, para chamar-te
apenas com nomes de ouro, de pólen, de fragrância,
para esparzir semeando as gotas de orvalho
que caem de tua negra cabeleira imperiosa:
me deste com o leite e a carne as sílabas
que nomearão também os pálidos vermes
que viajam no teu ventre,
os que acossam o teu sangue, saqueando-te a vida.




XI
Os vermes do bosque

Algo do bosque antigo caiu, foi a tormenta
talvez, purificando crescimentos e camadas,
e nos troncos caídos fermentaram os fungos,
as lesmas cruzaram seus fios nauseabundos,
e a madeira morta que caiu das alturas
encheu-se de buracos e de larvas espantosas.

Assim está o teu costado, pátria, a desditada
governação de insetos que povoam tuas feridas,
os grossos traficantes que mastigam arame,
os que desde palácio negociam com o ouro,
os vermes que juntam micros e pescarias,
os que te roem algo cobertos pelo manto
do traidor que dança sua zamba excitada,
o jornalista que encarcera seus companheiros,
o sujo delator que faz governo,
o pedante que se apodera duma revista pedante
com o ouro roubado dos yaganes,
o almirante tonto como um tomate, o gringo
que cospe a seus vassalos uma bolsa com dólares



XII
Pátria, querem te repartir

“Chamavam-no de chileno”, dizem de mim estas larvas.

Querem tirar-me a pátria sob os pés, desejam
corrar-te para eles como um baralho sujo
e repartir-te entre eles como uma carne gordurosa.

Não os amo.
Crêem eles que já te têm morta,
esquartejada, e na orgia de seus desígnios sujos
te gastam como donos.
Não os amo.
A mim deixa-me
amar-te em terra e povo, deixa-me perseguir
o meu sonho em tuas fronteiras marinhas e nevadas,
deixa-me recolher todo o perfume amargo
teu que numa taça levo pelos caminhos,
mas não posso estar com eles, não me peças
quando sacudires os ombros e tombem no chão
com suas germinações de animais apodrecidos,
não me peças que acredite que sejam teus filhos.
É outra
a madeira sagrada de meu povo.


Amanhã
serás na estreitem da tua embarcação cingida,
entre as duas marés de oceano e de neve,
a mais amada, o pão, a terra, o filho.

De dia o nobre rito do tempo libertado,
de noite a entidade estrelada do céu.




XIII
Recebem ordens contra o Chile

Mas atrás de todos eles há que buscar, há algo
atrás dos traidores e dos ratos que roem,
há um império que põe a mesa,
que serve a comida e as balas.

Querem fazer de ti o que logram na Grécia.

Os señoritos gregos no banquete, c balas
ao povo nas montanhas: há que extirpar o vôo
da nova Vitória de Samotrácia, há que enforcar,
matar, perder, mergulhar o punhal assassino
empunhado em Nova York, há que romper com fogo
o orgulho do homem que assomava
por todas as partes como se nascesse
da terra regada pelo sangue.

Há que armar Chianga e o ínfimo Videla,
há que dar-lhes dinheiro para cárceres, asas
para que bombardeiem compatriotas, há que dar-lhes
um pão velho, alguns dólares, fazem eles o resto,
eles mentem, corrompem, dançam sobre os mortos
e suas esposas reluzem os visões mais caros.

Não importa a agonia do povo, deste martírio
necessitam os amos donos do cobre: há fatos:
os generais deixam o exército e servem
de assistentes no staff de Chuquicamata,
e no salitre o general “chileno”
ordena com sua espada quanto devem pedir
como aumento de salário os filhos do pampa.

Assim ordenam de cima, da bolsa com dólares,
assim recebe a ordem o anão traidor,
assim os generais se fazem de polícias,
assim apodrece o tronco da árvore da pátria.




XIV
Recordo o mar

Chileno, tens ido ao mar neste tempo?
Vai em meu nome, molha tuas mãos e levanta-as
e eu de outras terras adorarei essas gotas
que caem da água infinita em teu rosto.

Eu conheço, vivi toda a minha costa,
o grosso mar do norte, dos páramos, até
o peso tempestuoso da espuma nas ilhas.

Recordo o mar, as costas gretadas e férreas
de Coquimbo, as águas altaneiras de Tralca,
as solitárias ondas do sul, que me criaram.

Recordo em Puerto Montt e nas ilhas, à noite,
ao voltar pela praia, a embarcação que espera,
e nossos pés deixavam em suas marcas o fogo,
as chamas misteriosas de um deus fosforescente.


Cada pisada era um regueiro de fósforo.

Íamos escrevendo com estrelas a terra.

E no mar resvalando a barca sacudia
uma ramagem de fogo marinho, de vaga-lumes,
uma onda inumerável de olhos que despertavam
uma vez c tornavam a dormir em seu abismo.




XV
Não há perdão

Eu quero terra, fogo, pão, açúcar, farinha,
mar, livros, pátria para todos, por isso
ando errante: os juízes do traidor me perseguem
e seus turiferários tratam, como os micos
amestrados, de encharcar minha lembrança.

Fui eu com ele, com esse que preside, à boca
da mina, ao deserto da aurora esquecida,
eu fui com ele e disse a meus pobres irmãos:
“Não guardareis os fios da roupa esfarrapada,
não tereis este dia sem pão, sereis tratados
como se fôsseis filhos da pátria”.
“Agora
vamos repartir a beleza, e os olhos
das mulheres não chorarão por seus filhos.

E quando em vez de amor repartido, na noite
à fome e ao martírio lançaram a esse mesmo,
a esse que o escutou, a esse que sua força
e sua ternura de árvore poderosa entregara,
então eu não estive com o pequeno sátrapa,
mas com aquele homem sem nome, com meu povo.

Eu quem a minha pátria para os meus, quero
a luz igual sobre a cabeleira
de minha pátria acesa,
quero o amor do dia e do arado,
quero apagar a linha que com ódio
fazem para apartar o pão do povo,
e ao que desviou a linha da pátria
até entregá-la como carcereiro,
atada, aos que pagam para feri-la,
eu não vou cantá-lo nem calá-lo,
vou deixar seu número e seu nome
cravado na parede da desonra.




XVI
Tu lutarás

Este ano-novo, compatriota, é teu.

Nasceu mais de ti do que do tempo, escolhe
o melhor de tua vida e o entrega ao combate.

Este ano que caiu como morto em seu túmulo
não pode repousar com amor e com medo.

Este ano morto é ano de dores que acusam.

E quando suas raízes amargas, na hora
da festa, à noite, se desprenderem e caírem
e subir outro cristal ignorado até o vazio
de um ano que a tua vida encherá pouco a pouco,
dá-lhe a dignidade que requer a minha pátria,
a tua, esta estreiteza de vulcões e vinhos.

Eu não sou cidadão de meu país: me escrevem
que o clown indecoroso que governa apagou
com outros milhares de nomes o meu
das listas que eram as leis da República.

Meu nome está apagado para que eu não exista,
para que o torvo abutre da masmorra vote
e votem os bestiais encarregados que dão
pancadas e o tormento nos porões
do governo, para que votem bem garantidos
os mordomos, caporais, sócios
do negociante que entregou a Pátria.

Eu estou errante, vivo a angústia de estar longe
do preso e da flor, do homem e da terra,
porém tu lutarás para apagar a mancha
de esterco sobre o mapa, tu lutarás sem dúvida
para que a vergonha deste tempo termine
e se abram as prisões do povo e se levantem
as asas da vitória traída.




XVII
Feliz ano-novo para minha pátria em trevas

Feliz ano este ano, para ti, para todos
os homens, e as terras, Araucania amada.

Entre ti e minha existência há esta noite nova
que nos separa, e bosques e rios e caminhos.

Porém até a ti, pequena pátria minha,
como um cavalo escuro meu coração galopa:
entro por seus desertos de pura geografia,
passo pelos vales verdes onde a uva acumula
seus verdes álcoois, o mar de seus cachos.

Entro em tuas aldeias de jardim fechado,
brancas como camélias, no acre
odor de tuas adegas, e penetro
como um madeiro a água dos rios que tremem
trepidando e cantando com lábios transbordados.


Recordo, nos caminhos, talvez neste tempo,
ou melhor no outono, sobre as casas deixam
as espigas douradas do milho secando,
e quantas vezes fui como um menino extasiado
a ver o ouro nos retos dos pobres.


Te abraço, devo agora
retornar a meu lugar escondido.
Te abraço
sem conhecer-te: dize-me quem és, reconheces
a minha voz no coro do que está nascendo?
Entre todas as coisas que te rodeiam, ouves
minha voz, não sentes como te cerca meu acento
emanado como água natural da terra?

Sou eu que abraço toda a superfície doce,
a cintura florida de minha pátria e te chamo
para que falemos quando se apague a alegria
e entregar-te esta hora como uma flor fechada.

Feliz ano-novo para minha pátria em trevas.

Vamos juntos, está o mundo coroado de trigo,
o alto céu corre deslizando e rompendo
suas altas pedras puras contra a noite: apenas
se encheu a nova taça com um minuto
que há de juntar-se ao rio do tempo que nos leva.

Este tempo, esta taça, esta terra são teus:
conquista-os e escuta como nasce a aurora.

588
Ernesto de Melo e Castro

Ernesto de Melo e Castro

Cometa

cometa
meta no cu
a treta
da baioneta
na teta
ponha o peru
na
porra preta
punheta
meta no cu
o cometa

1 361
Pablo Neruda

Pablo Neruda

Ii - Belojannis o Herói

Assim, entre as colunas,
Belojannis:
dórica é a auréola
da luz em suas faces.
Não são os automóveis
iluminando o crime.
É um planeta,
é uma estrela vermelha,
é o ígneo desterro
da antiga e a nova
claridade da terra...
Cai,
dispararam nele
lá do Pentágono
balas que atravessaram
o mar para cravar-se
em seu peito claríssimo,
balas que recolheram
espinhos inumanos
para entrar na gruta
verde e branca da Grécia,
lacerando as paredes,
salpicando
de sangue
as folhas do acanto.
1 023
Pablo Neruda

Pablo Neruda

Iii - Quando do Chile

Oh Chile, longa pétala
de mar e vinho e neve,
ai quando
ai quando e quando
ai quando
me encontrarei contigo,
enrolarás tua cinta
de espuma branca e negra em minha cintura, desencadearei minha poesia
sobre teu território.
Há homens
metade peixe, metade vento,
há outros homens feitos de água.
Eu estou feito de terra.
Vou pelo mundo
cada vez mais alegre:
cada cidade me dá uma nova vida.
O mundo está nascendo.
Mas se chove em Lota
sobre mim tomba a chuva,
se em Lonquimay a neve
resvala das folhas
chega a neve onde estou.
Cresce em mim o trigo escuro de Cautín.
Eu tenho uma araucária em Villarrica,
tenho areia no Norte Grande,
tenho uma rosa ruiva na província,
e o vento que derruba
a última onda de Valparaiso
bate-me no peito
com um ruído quebrado
como se ali tivesse
meu coração uma janela rota.

O mês de outubro chegou faz
tão pouco tempo do passado outubro
que quando este chegou foi como se
me estivesse olhando o tempo imóvel.
Aqui é outono. Cruzo
a estepe siberiana.
Dia após dia tudo é amarelo,
a árvore e a usina,
a terra e o que nela o homem novo cria:
há ouro e chama vermelha,
amanhã imensidade, neve, pureza.

Em meu país a primavera
vem de norte a sul com sua fragrância.
É como uma moça
que pelas pedras negras de Coquimbo,
pela margem solene da espuma
voa com pés nus
até os arquipélagos feridos.
Não só território, primavera,
plenificando-me, ofereces.
Não sou um homem sozinho.
Nasci no sul. Da fronteira
trouxe as solidões e o galope
do último caudilho.
Mas o Partido me desceu do cavalo
e me tornou homem, e andei
os areais e as cordilheiras
amando e descobrindo.

Povo meu, verdade que na primavera
soa meu nome em teus ouvidos
e me reconheces
como se fosse um rio
que passa por tua porta?

Sou um rio. Se escutas
pausadamente sob os saleiros
de Antofagasta, ou melhor
ao sul de Osorno
ou rumo à cordilheira, em Melipilla,
ou em Temuco, na noite
de astros molhados e loureiro sonoro,
pões sobre a terra teus ouvidos,
escutarás que corro
submergido, cantando.

Outubro, oh primavera,
devolve-me a meu povo.
Que farei sem ver mil homens,
mil moças,
que farei sem conduzir sobre meus ombros
uma parte da esperança?
Que farei sem caminhar com a bandeira
que de mão em mão na fila
de nossa longa luta
chegou às mãos minhas?

Ai Pátria, Pátria,
ai Pátria, quando
ai quando e quando
quando
me encontrarei contigo?

Longe de ti
metade de terra tua e homem teu
continua sendo,
e outra vez hoje a primavera passa.
Mas eu com tuas flores me completei,
com tua vitória vou para frente
e em ti persistem vivendo minhas raízes.

Ai quando
encontrarei tua primavera dura,
e entre todos os teus filhos
vagarei pelos teus campos e tuas ruas
com meus sapatos velhos.
Ai quando
irei com Elias Lafferte
por todo o pampa dourado.
Ai quando te apertarei a boca,
chilena que me esperas,
com meus lábios errantes?
Ai quando
poderei entrar na sala do Partido
para sentar-me com Pedro Fogueiro,
com o que não conheço e no entanto
é mais irmão meu que meu irmão.
Ai quando
me tirará do sonho um trovão verde
de teu manto marinho.
Ai quando, Pátria, nas eleições
irei de casa em casa recolhendo
a liberdade temerosa
para que grite no meio da rua.
Ai quando, Pátria,
te casarás comigo
com olhos verde-mar e vestido de neve
e teremos milhões de filhos novos
que entregarão a terra aos famintos.

Ai Pátria, sem farrapos,
ai primavera minha,
ai quando
ai quando e quando
despertarei em teus braços
empapado de mar e de orvalho.
Ai quando eu estiver perto
de ti, te agarrarei pela cintura,
ninguém poderá tocar-te,
eu poderei defender-te
cantando,
quando
for contigo, quando
vieres comigo, quando
ai quando.
2 093
Nelson Nunes

Nelson Nunes

Aos que Se Foram

Não sei dos homens que ficaram
E guardam seus segredos
No fundo dos olhos banhados de medo
a ruminar a verde folhagem da esperança
a embalar a coragem que ainda não nasceu.

Sei dos homens que se foram
E se perderam
Com seu medo
Desejos e sonhos secretos.

Desconheço todos os homens de fé
E todas as formas de felicidade
Que espalham-se em inumeráveis cartazes
a sujar com seu estrume todas as faces da cidade
a subjugar os miseráveis com sua faca de dois gumes.

Não sei dos homens que ficaram
A tramar o futuro.
Sei dos homens que se rebelaram
E voaram ara desencontrá-lo.

786
Nascimento Moraes Filho

Nascimento Moraes Filho

Evocação

Poetas, meus irmãos, acompanhar meu grito!
— Eu sou o sofrimento dos sem nome!
— Eu sou a voz dos oprimidos!
Não tanjo a lira mágica de Orfeu
de quem as aves se acercavam para ouvi-lo
e lhe vinham lamber os pés as próprias feras!

As láureas, meus irmãos, olímpicas não busco
com que cingis de glórias os vossos sonhos!
— Cravaram-me a coroa dos crucificados!
Minha Castália — são as lágrimas do Povo;
Meu Parnaso — a Dor da minha Gente!

Meu instrumento é poliforme e rude!...
Não tem o aristocrático perfil das harpas nobres
nem as rutilações de sons das pedras raras.
— Ele é Clamor!
Ruge nos seus trons
o estrugir do Povo em Praça pública!

Poetas, meus irmãos, acompanhar meu grito!
Maldigo a resignação infame dos covardes!
— Eu prego a rebeldia estóica dos heróis:
— Meu Evangelho é a Liberdade!
A Liberdade, meus irmãos,
tem a forma simbólica da Cruz
e a cor do sangue!
— O sangue é o apanágio da Conquista!

Poetas, meus irmãos, acompanhar meu grito!
Jesus,
se conquistou os céus com suas orações,
Ele, o Redentor,
sobre a terra triunfou com o sangue do seu corpo!

Sangue, flâmula bendita,
e, no Calvário — FÉ — aberta em Cruz!
Poetas, meus irmãos, acompanhar meu grito!

1 058
Amparo Jimenez

Amparo Jimenez

Encuentro

Besos, caricias, encuentros
mujeres a flor de piel.
Cuerpos desnudos
almas vestidas de amor
listas para danzar
en la fiesta de la unión.
Lucha, discurso, revuelta
intensidad que nos confronta
crecemos con energía, vitalidad y miedos.
Máscaras que caen al suelo
rodando a los pies del imperio.
Música
Alegría
Poesía
erotismo por siglos retenido
despertando hoy, para sentirnos,
bugas, lesbianas, dudosas
rompiendo cadenas
bailando al ritmo de la vida.
Brujas, magas, curanderas
entregándonos con fuerza
destruyendo esquemas.
Amigas nuevas y viejas conocidas
parejas
novias
compañeras
unidas al fin en el espacio.
Lágrimas
risas
promesas
deseo cumplidos y anhelos
volando por el tiempo
desencuentros que se quedan en el camino,
recuerdos del futuro que presiento.

1 055
Pablo Neruda

Pablo Neruda

Fulgor e morte de Joaquín Murieta

Esta é a longa história de um homem inflamado.
Natural, valoroso, sua memória é uma acha de guerra.
É tempo de abrir o repouso, o sepulcro do claro bandido
e romper o ouvido oxidado que agora o enterra.
Talvez não encontrou seu destino o soldado e lamento
não ter conversado com ele, e com uma garrafa de vinho
ter esperado na História que passasse algum dia seu grande regimento.
Talvez aquele homem perdido no vento houvesse mudado o caminho.
O sangue caído lhe pôs nas mãos um raio violento,
agora passaram cem anos e já não podemos mudar seu destino:
assim é que comecemos sem ele e sem vinho nesta hora quieta
a história de meu compatriota, o bandido honorável don Joaquín Murieta.
É longa a história que aterra mais tarde e que nasce aqui abaixo
nesta angustura de terra que o Polo nos trouxe e o mar e a neve disputam,
aqui entre pereiras e telhas e chuva brilhavam as uvas chilenas
e como uma taça de prata que enche a noite sombria de pálido vinho
a lua do Chile crescia entre boldos, maitenes10, alfavacas, orégano, jasmins, feijões, loureiros, orvalho,
então nascia à luz do planeta um infante moreno
e na sombra serena é o raio que nasce, se chama Murieta,
e ninguém suspeita à luz da lua que um raio nascente
adormece no berço enquanto se esconde nos montes a lua:
é um menino chileno cor de azeitona e seus olhos ignoram o pranto.

Minha pátria lhe deu as medalhas do campo bravio, do pampa ardente:
parece ter forjado com frio e com brasas para uma batalha
seu corpo de arado e é um desafio sua voz e suas mãos são duas ameaças.

Vingança é o ferro, a pedra, a chuva, a fúria, a lança,
a chama, o rancor do desterro, a paz crepitante,
e o homem distante fica cego clamando na sombra vingança,
buscando na noite esperança sangrenta e castigo constante,
desperta o arredio e percorre a cavalo a terra noturna. Deus meu,
que busca o escuro à espreita do dano que brilha em sua mão cortante?

Vingança é o nome instantâneo de seu calafrio
que crava a carne ou golpeia no crânio ou assusta com boca alarmante
e mata e se afasta o dançante mortal galopando à beira do rio.

A chama do ouro percorre a terra do Chile do mar aos montes
e começa o desfile do horizonte até o Porto, o magnético feitiço,
despovoa Quillota, debulha Coquimbo, as naves esperam em Valparaíso.

Crescendo à sombra de salgueiros flexíveis nadava nos rios, domava os potros, lançava os laços,
ardia no brio, educava os braços, a alma, os olhos, e se ouviam cantar as esporas
quando do fundo do outono vermelho descia a galope em sua égua de estanho
vinha da cordilheira, de pedras hirsutas, de cerros hostis, de vento inumano,
trazia nas mãos o golpe vizinho do rio que fustiga e divide a neve fragrante e jazente
e o transpassava aquele livre alvedrio, a virtude selvagem que toca a fronte
dos indomáveis e sela com ira e limpeza o orgulho de algumas cabeças
que guarda o destino em suas atas de fogo e pureza, e assim o elegido
não sabe que está prometido e que deve matar e morrer na empresa.

Assim são as coisas amigo e é bom aprender e que saiba e conheça
os versos que escrevi e repita contando e cantando a lembrança de um livre chileno proscrito
que andando e andando e morrendo foi um mito infinito:
sua infância cantei ao instante e sabemos que foi o caminhante muito longe,
um dia mataram o chileno errante, contam os velhos de noite ao braseiro
e é como se falasse o riacho, a chuva silvante ou na nevasca chorasse no vento a neve distante
porque de Aconcágua partiu num veleiro buscando na água um caminho
e para a Califórnia a morte e o ouro chamavam com vozes ardentes que no fim decidiram seu negro destino.

Mas no caminho marinho, no branco veleiro maulino11
o amor sobreveio e Murieta descobre uns olhos escuros,
se sente inseguro perdido na nova certeza:
sua noiva se chama Tereza e ele não conheceu mulher camponesa
como esta Tereza que beija sua boca e seu sangue, e no grande oceano
perdida a barca na bruma, o amor se consuma e Murieta pressente que é este o amor infinito
e sabe talvez que está escrito seu fim e a morte o espera
e pede à Tereza sua noiva e mulher que se case com ele na nave veleira
e na primavera marinha Joaquín, domador de cavalos, tomou por esposa Tereza, mulher camponesa,
e os imigrantes em busca do ouro inumano e distante celebram este casamento
ouvindo as ondas que elevam seu eterno lamento;
e tal é a estranha cegueira do homem no rito da passageira alegria;
na nave o amor acendeu uma fogueira; não sabem que já começou a agonia.
1 125
Raimundo Oswald Cavalcante Barroso

Raimundo Oswald Cavalcante Barroso

Lembrança

A lua te recordará
a branca noite
em que ela se despiu
e, vermelha,
se fez cúmplice
do nosso amor.

O mar te lembrará
nosso costume
de caminhar nas tardes
até o horizonte,
pois que o mar
também é cúmplice
dos namorados distantes.

E quando vires, amor,
num vão de céu
uma estrela,
tu não chorarás,
porque, então,
aprenderás o meu caminho.

Mas, quando o povo
andar triste pelos becos,
tu saberás do meu luto
e sentirás a dor
da dura separação.

Porém, se a multidão
ensaiar um canto,
tu saberás do meu riso
e nela me encontrarás.

777
Pablo Neruda

Pablo Neruda

A Barcarola

(O vento frio corre compacto como um peixe
e golpeia os talos da aveia. Ao rés do solo vive
um movimento múltiplo e delgado. O dia está nu.
O fulgor de Novembro como uma estalactite
lisa e azul decide a pompa do estio.
É verão. E as lanças do vento interminável
perfuram o favo do espaço amarelo:
olvido ao ver correr a música na aveia
a abóbada implacável do meio-dia.
Escuta,
mulher do sol, meu pensamento. Toca
com teus pés o tremor fugitivo do solo.
Entre a relva cresce meu rosto contra o verde,
através de meus olhos cruzam as espadanas
e bebo com a alma velocidade e vento.)

Mas eu, o cidadão de um tempo gasto e roído, de ruas direitas,
que vi converter-se em incêndio, em detritos, em pedras queimadas, em fogo e em pó,
e depois voltar da guerra o soldado com mortes em cima e embaixo,
e outra vez levantar a cidade infeliz colando cimento às ruínas
e janela e janela e janela e janela e janela
e outra porta outra porta outra porta outra porta outra porta
até o duro infinito moderno com seu inferno de fogo quadrado,
pois a pátria da geometria substitui a pátria do homem.

Viajante perdido, o regresso implacável, a vitória de
pernas cortadas,
a derrota guardada em um cesto como uma maçã diabólica:
este século em que me pariram também, entre tantos que já não alcançaram,
que caíram, Desnos, Frederico, Miguel, companheiros
sem trégua ao meu lado no sol e na morte,
estes anos que às vezes ao cravar a bandeira e cantar com orgulho aos povos
me apontaram com sanha os mesmos que eu defendi com meu canto
e quiseram atirar-me à fossa mordendo minha vida
com as mesmas ferozes mandíbulas do tigre inimigo.

(Os inseguros temem a integridade, golpeiam
então minhas costas com pequenos martelos,
querem assegurar o lugar que lhes toca,
porque medo e soberba sempre estiveram juntos
e suas acusações são suas únicas medalhas.)
(Temem que a violência desintegre seus ossos
e para defender-se vestem-se de violência.)
(Veja o testemunho mudo de depois de amanhã,
recolha os pedaços da torre calada
e quanto me tocou da crueldade inútil.
Compreenderá? Talvez. Os tambores
estarão rotos, e a buzina estridente
será pó no pó.
A felicidade te acompanhe,
companheiro, a felicidade, patrimônio futuro
que herdarás de nosso sangue encarniçado.)
Em minha barcarola se encontram voando os pregos do ódio
com o arroz negro que os invejosos me dão em seu prato
e devo estudar a linguagem do corvo, tocar a plumagem,
olhar nos olhos dos insaciáveis e dos insaciados
e no mesmo páramo das imundícies terrestres
arrojar as censuras de agora e as adulações de então.

Cantando entre escórias o canto reluz na taça de minha alma
e tinge com luz de amaranto o crepúsculo aziago,
eu só sustento a taça de sangue e a espada que canta na arena
e provo o sal em meus lábios, a chuva em minha língua e o fogo recebo em meus olhos,
cantando sem pressa nem pausa, coroado pelas nevascas.

Porque em cima e em torno de mim se sacode como uma bandeira
longitudinal, o capítulo puro de minha geografia,
e do Taltal platinado pela camanchaca13 salobre
até Ruca Diuca coberto por trepadeiras e salgueiros-chorões,
eu vou estendendo entre montes e torres calcáreas minha vertiginosa linhagem,
sem dúvida acossado pela trêmula fragrância do trevo,
talvez inerente produto do bosque na chuva no inverno
pelas estradas molhadas onde passou uma serpente vestida de verde,
de todas as maneiras, sem ser conduzido pelas aventuras do rio com seu batalhão transparente
percorro as terras contando os pássaros, as pedras, a água,
e me retribui o Outono com tanto dinheiro amarelo
que choro de puro cantor derramando meu canto no vento.
1 325
Pablo Neruda

Pablo Neruda

IV. O coro dos mares oprimidos

Lord do mar, vem a nós, somos água e areia oprimidas!

Lord do mar, somos povos bloqueados e mudos!

Lord do mar, te chamamos cantando para a luta!

Lord do mar, a corrente espanhola fecha-nos as águas!

Lord do mar, amarra-nos os sonhos a noite espanhola!

Lord do mar, no porto te esperam o pranto e a ira!

Lord do mar, reclamam-te os Mares do Sul!
949
Pablo Neruda

Pablo Neruda

XV

Mas é verdade que se prepara
a insurreição dos coletes?

Por que outra vez a primavera
oferece seus vestidos verdes?

Por que ri a agricultura
do pálido pranto do céu?

Como logrou sua liberdade
a bicicleta abandonada?
1 050
Leila Mícollis

Leila Mícollis

Ponto de vista

Eu não tenho vergonha
de dizer palavrões,
de sentir secreções
(vaginais ou anais).
As mentiras usuais
que nos fodem sutilmente
essas sim são imorais,
essas sim são indecentes.

1 497
Nana Corrêa de Lima

Nana Corrêa de Lima

Yanomani

Yanomani

Hoje é dia de índio.
Deixo aqui pequena lágrima,
rolando na agonia
que antecede o final de tudo.
Anoitece o sangue na tribo....

926
Pablo Neruda

Pablo Neruda

Canto VIII - A terra se chama Juan

I
Cristóbal Miranda
(“palero”, Tocopilla)

Te conheci, Cristóbal, nas lanchas
da baía, quando desce
o salitre, para o mar, na queimante
vestimenta de um dia de novembro.

Relembro aquele garbo extático,
os cerros de metal, a água quieta.

E só o homem das lanchas, úmido
de suor, removendo neve.

Neve dos nitratos, derramada
sobre os ombros da dor, caindo
na barriga cega das naves.

Ali, sapadores, heróis de uma aurora
carcomida por ácidos, sujeita
aos destinos da morte, firmes,
recebendo o nitrato caudaloso.

Cristóbal, esta lembrança para ti.

Para os camaradas da sapa,
em cujos peitos entra o ácido
e as emanações assassinas,
inchando como águias machucadas
os corações, até que tomba o homem,
até que role o homem pelas ruas,
para as cruzes quebradas do pampa.

Bem, não digamos mais nada, Cristóbal, agora
este papel que te recorda, a todos,
aos lancheiros da baía, ao homem
enegrecido dos barcos, meus olhos
seguem com vocês nesta jornada
e minha alma é uma pá que se ergue
carregando e descarregando sangue e neve,
junto de vocês, vida do deserto.




II
Jesús Gutiérrez
(“agrarista”)

Em Monterrey morreu meu pai
Genovevo Gutiérrez, se foi
com Zapata.
De noite os cavalos
perto de casa, a fumaça
dos federais, os tiros no vento,
o furacão que sai do milho,
levei o fuzil de lado a lado,
desde as terras de Sonora,
dormíamos de vez em quando, medíamos
rios e bosques, a cavalo,
entre mortos, a defender
a terra do pobre, feijões,
omelete, guitarra, rolávamos
até o limite, éramos pó,
os senhores nos faziam madrugar,
até que de cada pedra
nasciam os nossos fuzis.

Aqui está minha casa, minha terra
pequena, o certificado
firmado por meu general
Cárdenas, os perus,
os patinhos na lagoa,
agora já não se luta,
meu pai ficou em Monterrey
e aqui pendurado na parede
junto à porta a cartucheira,
o fuzil pronto, o cavalo pronto,
pela terra, por nosso pão,
amanhã talvez a galope,
se o meu general me aconselha.




III
Luis Cortés
(de Tocopilla)

Camarada, meu nome é Luis Cortés.

Quando veio a repressão, em Tocopilla
me agarraram.
Me atiraram em Pisagua.

Você, camarada, sabe como é isso.

Muitos caíram doentes, outros
enlouqueceram.
É o pior
campo de concentração de González
Videla.
Vi Ángel Veas morrer,
do coração, uma manhã.
Foi horrível
ver Veas morrer nessa areia assassina,
rodeado de cercas de arame, depois de toda
sua vida generosa.
Quando me senti doente
também do coração, me mudaram
para Garitaya.
Você não conhece, camarada.

É lá no alto, na fronteira com a Bolívia.

Um ponto desolado, a 5000 metros de altura.

Há uma água salobre para beber, mais
salobre que a água do mar, e cheia de pulgões
como vermes rosados que pululam.

Faz frio e parece que o céu em cima
da solidão vai cair sobre nós,
sobre meu coração que já mal se agüenta.

Os próprios carabineiros tiveram pena
e contra a ordem de deixar a gente morrer
sem querer nunca mandar uma maca,
me amarraram a uma mula e descemos as montanhas:
26 horas caminhou a mula, e meu corpo
já não resistia, camarada, entre a cordilheira sem caminhos,
e meu coração doente, e aqui estou eu, olhe
os machucados, não sei até quando vou viver,
mas você sente, não quero pedir nada,
conte você, camarada, o que faz ao povo o desgraçado,
a nós que o levamos à altura em que ri
com um riso de hiena em cima de nossas dores,
conte, você, camarada, conte, conte, pouco importa minha morte,
nem os nossos sofrimentos, pois a nossa luta é grande,
mas que fiquem sabendo destes sofrimentos,
que fiquem sabendo, camarada, não se esqueça.




IV
Olegario Sepúlveda
(sapateiro, Talcahuano)

Olegario Sepúlveda é meu nome.

Sou sapateiro, fiquei
coxo desde o grande terremoto.

Sobre o cortiço um pedaço de morro
e o mundo em cima de minha perna.

Lá gritei dois dias,
mas minha boca ficou cheia de terra,
gritei mais mansamente
até que adormeci para morrer.

Foi um grande silêncio o terremoto,
o terror dos morros,
as lavadeiras choravam,
uma montanha de pó
enterrou as palavras.

Aqui está me vendo com esta sola
defronte do mar, o único limpo,
as ondas nem eram pra chegar
azuis na minha porta.

Talcahuano, tuas grades sujas,
teus corredores de pobreza,
nos morros água podre,
madeira quebrada, covas negras
onde o chileno mata e morre.

(Ó dores do fio aberto
da miséria, lepra do mundo,
arrabalde dos mortos, gangrena
acusadora e venenosa!
Haveis vindo do sombrio
Pacífico, à noite, ao porto?
Haveis tocado entre as pústulas
a mão do menino, a rosa
salpicada de sangue e urina?
Haveis erguido os olhos
para os degraus retorcidos?
Haveis visto a mendiga
com um arame na lixeira
tremer, levantar os joelhos
e olhar lá do fundo onde
já não restam lágrimas nem ódio?)
Sou sapateiro em Talcahuano.

Sepúlveda, na frente do dique Grande.

Quando quiser, meu senhor, pobre
nunca fecha a porta.




V Arturo Carrión
(navegante, Iquique)

junho, 1948.
Querida Rosaura, aqui
estou eu, em Iquique, preso, me mande uma camisa
e fumo.
Não sei
até quando vai durar este baile.

Quando embarquei no Glenfoster
pensei em você, escrevi de Cádiz,
ali fuzilaram à vontade, e aí foi mais
triste em Atenas, naquela manhã
no cárcere mataram com tiro
duzentos e setenta e três moços:
o sangue corria até fora do muro,
vimos saírem os oficiais
gregos com os chefes norte-americanos, vinham rindo:
eles gostam do sangue do povo,
mas tinha um espécie de fumo preto
na cidade, estava escondido o choro, a dor, o luto,
comprei pra você uma carteira de cartões de visita, lá
conheci um patrício de Chiloé,
tem um pequeno restaurante, me disse
as coisas andam ruíns, há ódio:
mas ficou melhor na Hungria,
os camponeses têm terra,
distribuem livros, em Nova York
encontrei tua carta, mas todos
se juntam, pau e pau no pobre,
está vendo só, eu, marinheiro velho
e porque sou do sindicato,
já na coberta
me pegaram, me perguntaram
besteiras, me deixaram preso,
polícia em toda parte.

lágrimas também no pampa:
até quando estas coisas
vão continuar, perguntam todos, hoje é um
e outro pau para o pobre,
dizem que em Pisagua há dois mil,
eu pergunto o que está acontecendo no mundo,
mas não se tem direito de perguntar
assim, diz a polícía: não esqueça o fumo, fale com o Rojas
se ele não está preso, não chores,
o mundo já tem lágrimas
demais, outra coisa é que faz falta
e aqui digo até breve pra você, um
abraço e um beijo do esposo amoroso
Arturo Carrión Cornejo, cárcere de Iquiyue.




VI
Abraham Jesús Brito
(poeta popular)

Jesús Brito é seu nome, Jesús Parreira ou povo,
e foi-se fazendo água pelos olhos,
e pelas mãos se foi fazendo raízes.

até que o plantaram de novo onde esteve
antes de ser, antes que brotasse
do território, entre as pedras pobres.


E foi entre mina e marinheiro uma ave
nodosa, um patriarcal seleiro
da cortiça suave da pátria terrível:
quanto mais fria, mais luz a encontrava:
quanto mais duro o solo, mais lua lhe saía:
quanto mais fome, mais cantava.


E todo o mundo ferroviário abria
com sua chave e sua lira sarmentosa,
e pela espuma da pátria caminhava
cheio de pacotinhos estrelados,
ele, a árvore do cobre, ia regando
cada pequeno trevo acontecido,
o espantoso crime, o incêndio,
e o ramo dos rios tutelares.


Sua voz era a dos gritos roucos
perdidos na noite dos raptos,
ele levava sinos torrenciais
recolhidos à noite em seu chapéu,
e recolhia em seu casaco esfarrapado
as transbordantes lágrimas do povo.

Ia pelos ramais arenosos,
pelo espaço afundado do salitre,
pelos ásperos montes litorâneos
construindo o romance prego a prego,
e telha a telha levantando o verso:
deixando nele a mancha das mãos
e as goteiras da ortografia.


Brito, pelas paredes capitais,
entre o rumor dos cafés,
andavas como uma árvore peregrina
procurando terra com os pés profundos,
até que foste te fazendo raízes,
pedra e torrão e mineração escura.


Brito, a tua majestade foi batida
como um tambor de majestoso couro
e era uma monarquia à intempérie
a tua altivez de arvoredo e povo.


Árvore errante, agora as tuas raízes
cantam debaixo da terra, e em silêncio.

Um pouco mais profundo és agora.

Agora tens terra e tens tempo.




VII
Antonino Bernales
(pescador, Colômbia)

No rio Magdalena anda como a lua,
lento pelo planeta de folhas verdes,
uma ave vermelha ulula, zumbe o som
de velhas asas negras, as margens
têm o transcorrer de águas e águas.

Tudo ê o rio, toda vida é rio,
e Antonino Bernales era rio.

Pescador, carpinteiro, voga, agulha
de rede, prego para as tábuas,
martelo e canto, tudo era Antonino
enquanto o Magdalena como a lua lenta
arrastava o caudal das vidas do rio.

Mais alto em Bogotá, chamas, incêndio,
sangue, se diz, não é bem claro,
Gaytán morreu.
Entre as folhas
como um chacal o riso de Laureano
açula as fogueiras, um tremor
de povo como um calafrio
percorre o Magdalena.

É Antonino Bernales o culpado.

Não se mexeu de sua pequena choça.

Passou dormindo aqueles dias.

Mas os advogados o intimam,
Enrique Santos deseja sangue.

Unem-se todos debaixo dos fraques.

Antonino Bernales tombou
assassinado na vingança,
caiu abrindo os braços no rio,
voltou ao rio como à água mãe.

O Magdalena leva ao mar seu corpo
e do mar a outros rios, a outras águas
e a outros mares e a outros pequenos rios
girando em redor da terra.

Outra vez
entra no Magdalena, são as margens
que ele ama, abre os braços de água vermelha,
passa entre sombras, entre luz espessa,
e outra vez segue o seu caminho de água.

Antonino Bernales, ninguém pode
distinguir-te na torrente, eu sim, eu te recordo
e ouço arrastar teu nome que não pode
morrer, e que envolve a terra,
nome apenas, entre os nomes, povo.




VIII
Margarita Naranjo
(Salitreira María Elena, Antofagasta)

Estou morta.
Sou de María Elena.

Vivi a vida toda no pampa.

Demos o sangue para a companhia
norte-americana, meus pais antes, meus irmãos.

Sem greve nenhuma, sem nada, nos cercaram.

Era de noite, veio todo o Exército,
iam de casa em casa acordando a gente,
levando todos para o campo de concentração.

Eu esperava que nós não fôssemos.

Meu marido trabalhou tanto para a companhia,
e para o presidente, foi o mais esforçado,
conseguindo os votos aqui, é tão querido,
ninguém tem nada pra dizer dele, ele luta
por seus ideais, é puro e honrado
como poucos.
Aí chegaram à nossa porta,
mandados pelo Coronel Urízar,
e o pegaram ainda se vestindo e a empurrões
o lançaram no caminhão que partiu na noite,
para Pisagua, para a escuridão.
Então
achei que já não podia mais respirar, parecia
que a terra me faltava debaixo dos pés,
é tanta traição, tanta injustiça,
que me subiu à garganta algo como um soluço
que não me deixou mais viver.
Me trouxeram comida
as companheiras, e eu lhes disse: “Não comerei até que ele volte”.

Três dias depois falaram com o Sr.
Urízar,
que deu grandes gargalhadas, mandaram
telegramas e telegramas que o tirano em Santiago
não respondeu.
E eu fui dormindo e morrendo,
sem comer, apertei os dentes para não receber
nem mesmo sopa ou água.
Não voltou, não voltou,
e pouco a pouco fiquei morta, e me enterraram:
aqui, no cemitério do escritório salitreiro,
havia naquela tarde um vento de areia,
choravam os velhos e as mulheres cantavam
as canções que tantas vezes cantei com elas.

Se eu pudesse, teria espiado para ver se lá estava
Antonio, meu marido, mas não estava, não estava,
não o deixaram vir nem a minha morte: agora
aqui estou morta, no cemitério do pampa
só tenho a solidão ao redor de mim, que já não existo,
que já não existirei sem ele, nunca mais, sem ele.




IX
José Cruz Achachalla
(mineiro, Bolívia)

Sim, senhor, José Cruz Achachalla,
da serra de Granito, no sul de Oruro.

Pois lá deve viver ainda
minha mãe Rosalía:
trabalha para uns senhores,
pois é, lavando roupa.

A gente passava fome, capitão,
e com uma varinha batiam
em minha mãe todos os dias.

Por isso virei mineiro.

Fugi pelas grandes serras,
uma folhinha de coca, senhor,
uns ramos na cabeça
e andar, andar, andar.
Os abutres
me perseguiam lá do céu,
e eu pensava: são melhores
que os senhores brancos de Oruro,
e assim andei até o território
das minas.

Já faz
quarenta anos, eu era então
um menino faminto.
Os mineiros
me receberam.
Fui aprendiz
nas galerias escuras,
unha por unha contra a terra,
apanhei o estanho escondido.

Não sei aonde nem pra quê
saem os lingotes prateados:
vivemos mal, as casas em ruínas,
e a fome, outra vez, senhor,
e quando
a gente se juntava, capitão,
para mais um peso de salário,
o vento vermelho, o pau, o fogo,
a polícia nos batia,
e aqui estou, pois é, capitão,
despedido do serviço,
me diga pra onde eu vou,
ninguém me conhece em Oruro,
estou velho como as pedras,
já não posso cruzar os montes,
que posso fazer por esses caminhos,
aqui mesmo agora eu fico,
podem me enterrar no estanho,
pois só o estanho me conhece.

José Cruz Achachalla, sim,
não continues a bater pernas,
até aqui chegaste, até aqui,
Achachalla, até aqui chegaste.




X
Eufrosino Ramírez
(Casa Verde, Chuquicamata)

Tínhamos de tomar as pranchas quentes
de cobre com as mãos, e entregá-las
à pá mecânica.
Saíam quase ardendo,
pesavam mais que o mundo, íamos extenuados
transportando as lâminas do mineral, às vezes
uma delas caía sobre um pé e o quebrava,
sobre uma mão que virava um coto.

Vieram os gringos e disseram: “Trabalhem
mais depressa e podem ir pra casa”.

A duras penas, pra sair mais cedo,
fizemos o trabalho.
Mas eles voltaram:
“Agora trabalhem menos, ganhem menos”.

Foi a greve na Casa Verde, dez semanas,
greve, e quando voltamos ao trabalho,
com um pretexto: onde está a tua ferramenta?
me atiraram na rua.
Olhe o senhor estas mãos,
é um calo só que o cobre fez,
escute meu coração, não parece
que dá pulos?, é o cobre que machuca,
e mal posso andar de um lugar pra outro,
procurando, faminto, serviço que não encontro:
parece que me enxergam agachado, levando
as folhas invisíveis do cobre que me mata.




XI
Juan Figueroa
(Casa do Iodo, María Elena, Antofagasta)

O senhor é Neruda? Entre, camarada.

É, da Casa do Iodo, já não existem
outros vivendo.
Eu me agüento.

Sei que não estou mais vivo, que me espera
a terra do pampa.
São quatro horas
por dia, na Casa do Iodo.

Chega por uns tubos, sai como uma massa,
como uma goma roxa.
Nós a passamos
de bateia em bateia, nós a envolvemos
como um recém-nascido.
Enquanto isso,
o ácido nos corrói, nos consome,
entrando pelos olhos, pela boca,
pela pele, pelas unhas.

Da Casa do Iodo ninguém sai
cantando, companheiro.
E se pedimos
mais uns pesos de salário
para os filhos sem sapatos,
dizem: “Moscou vai mandar”, camarada,
e declaram estado de sítio, e nos cercam,
como se a gente fosse uns animais e nos batem,
eles são assim, camarada, estes filhos da puta!
Aqui estou eu, já sou o último:
onde está Sánchez? onde está Rodríguez?
Podres debaixo do pó de Polvillo.

Afinal a morte deu a eles o que pedíamos:
seus rostos estão com máscaras de iodo.




XII
O mestre Huerta
(da mina A Desprezada, Antofagasta)

Quando o senhor for ao norte,
vá até a mina A Desprezada,
pergunte lá pelo mestre Huerta.

De longe não vai o senhor ver nada,
só os areais cinzentos.

Depois, verá as estruturas,
o corrimão, os desmontes.

Os cansaços, os sofrimentos
a gente não vê, estão debaixo da terra
mexendo, partindo seres,
ou então descansam, estendidos,
se transformando, silenciosos.

Era “picano” o mestre Huerta.

Media um metro e noventa e cinco.

Os picanos são os que abrem
o terreno até o desnível,
quando o veio se rebaixa.

Quinhentos metros abaixo,
com água até a cintura,
o picano, pica, pica, vai furando.

Só pode sair do inferno
cada quarenta e oito horas,
até que as perfuradoras
na rocha, na escuridão,
no barro, deixam a polpa
por onde a mina caminha.

O mestre Huerta, grande picano,
parecia que enchia a picada
com as suas costas.
Entrava
cantando como um capitão.

Saía gretado, amarelo,
encurvado, ressecado, e seus olhos
olhavam como olho de morto.

Depois se arrastou pela mina.

Já não podia descer à galeria.

O antimônio lhe comeu as tripas.

Emagreceu de dar medo.

Mas nem podia andar.

Tinha as pernas picadas
como por pontas, e como era
tão alto, parecia
um fantasma faminto
pedindo sem pedir, o senhor sabe.

Ainda não tinha trinta anos.

Pergunte onde está enterrado.

Ninguém sabe dizer,
porque a areia e o vento derrubam
e enterram as cruzes, mais tarde.

Ainda não tinha trinta anos.

É em cima, na Desprezada,
onde trabalhou o mestre Huerta.




XIII
Amador Cea
(de Coronel, Chile, 1949)

Como tinham detido meu pai
e entrou o presidente que elegemos
e disse que éramos livres, eu pedi que soltassem o meu velho.

Me levaram e me bateram um dia inteiro.

Não conheço ninguém no quartel.
Não sei, não posso
nem me lembrar das caras deles.
Era a polícia.

Quando perdia o sentido, me atiravam
água no corpo e continuavam batendo.

Numa tarde, antes de sair, me levaram
arrastado a um banheiro,
me enfiaram a cabeça dentro dum vaso
de WC cheio de excrementos.
Ia me afogando.

“Agora, vai pedir liberdade ao presidente,
que te manda este presente”, me diziam.

Me sinto arrebentado, me quebraram esta costela.

Mas por dentro estou como antes, camarada.

A gente eles só quebram matando.




XIV Benilda Varela
(Concepción, Cidade Universitária, Chile, 1949)

Arrumei a comida das criancinhas e saí.

Quis entrar em Lota para ver meu marido.


Como se sabe, mandam a polícia
e ninguém pode entrar sem sua licença.

Minha cara não agradou.
Eram ordens
de González Videla, antes de começar
a dizer seus discursos, para que nossa gente
tenha medo.
Foi assim: me agarraram,
me despiram, me atiraram ao chão com pancadas.

Perdi o sentido.
Acordei no chão
nua, com um lençol molhado sobre
o meu corpo em sangue.
Reconheci um verdugo:
chama-se Víctor Molina esse bandido.

Mal abri os olhos, continuaram me batendo
com pedaços de borracha.
Estou toda roxa
de sangue, e nem posso me mexer.

Eram cinco, e os cinco me espancavam
como um saco.
Durou seis horas isso.

Só não morri para dizer a vocês, camaradas:
temos de lutar muito mais, até que desapareçam
esses verdugos da face da terra.

Que os povos conheçam seus discursos
Na ONU sobre a “liberdade”,
enquanto os bandidos matam de pancadas as mulheres
nos porões, sem ninguém ficar sabendo.

Aqui não aconteceu nada, vão dizer, e Dom Enrique
Molina nos vai falar do triunfo do “espírito”.

Mas isto não vai acontecer pra sempre.

Um fantasma percorre o mundo, e podem começar de novo
a espancar nos porões: vão pagar por seus crimes, não demora.




XV
Calero, trabalhador dos bananais
(Costa Rica, 1940)

Não te conheço.
Nas páginas de Fallas li a tua vida,
gigante obscuro, menino batido, esfarrapado e errante.

Dessas páginas voam o teu riso e as tuas canções
entre os bananais, no barro sombrio, a chuva e o suor.

Que vida a dos nossos, que alegrias ceifadas,
que forças destruídas pela comida ignóbil,
que cantos derrubados pela moradia em pedaços,
que poderes do homem desfeitos pelo homem!
Porém mudaremos a terra.
Não irá a tua sombra alegre
de charco em charco até a morte desnuda.

Mudaremos, juntando tua mão com a minha,
a noite que te cobre com a sua abóbada verde.

(As mãos dos mortos que tombaram
com estas e outras mãos que constroem
estão seladas como as alturas andinas
com a profundidade de seu ferro enterrado.
)

Mudaremos a vida para que a tua linhagem
sobreviva e construa sua luz organizada.




XVI
Catástrofe em Sewell

Sánchez, Reyes, Ramírez, Núnez, Alvarez.

Estes nomes são como o cimento do Chile.

O povo é o cimento da pátria.

Se os deixais morrer, a pátria vai caindo,
vai sangrando-se até ficar vazia.

O campo nos disse: cada minuto
há um ferido, e cada hora um morto.

Cada minuto e cada hora
o nosso sangue cai, o Chile morre.

Hoje é o fumo do incêndio, ontem foi o gás grisu,
anteontem o despenhadeiro, amanhã o mar ou o frio,
a máquina ou a fome, a imprevisão ou o ácido.

Mas lá onde morre o marinheiro,
mas lá onde morrem os pampeiros,
mas lá em Sewell onde se perderam,
está todo o cuidado, as máquinas, as vidraças,
os ferros, os papéis,
menos o homem, a mulher ou o menino.

Não é o gás: é a cobiça que mata em Sewell.

Essa torneira fechada de Sewell para que não caísse
nem uma gota d'água para o pobre café dos mineiros,
aí está o crime, o fogo não é culpado.

Por todas as partes se fecham as torneiras ao povo
para que não se distribua a água da vida.

Mas a fome e o frio e o fogo que devora
a nossa raça, a flor, os cimentos do Chile,
os farrapos, a casa miserável,
isso não se raciona, sempre há bastante
para que cada minuto haja um ferido
e cada hora um morto.

Não temos nós deuses que nos socorram.

As pobres mães vestidas de preto
terão rezado depois de choradas todas as suas lágrimas.


Nós não rezamos.

Stálin disse: “Nosso melhor tesouro
é o homem”,
os cimentos, o povo.

Stálin ergue, limpa, constrói, fortifica,
preserva, olha, protege, alimenta,
porém também castiga.

E isto é que desejava dizer-vos, camaradas:
faz falta o castigo.

Não pode ser esse desmoronamento humano,
esta sangria da pátria amada,
este sangue que cai do coração do povo
cada minuto, esta morte
de cada hora.

Eu me chamo como eles, como os que morreram.

Eu também sou Ramírez, Munoz, Pérez, Fernández.

Me chamo Álvarez, Núnez, Tapia, López, Contreras.

Sou parente de todos os que morrem, sou povo
e por todo este sangue que tomba estou de luto.

Compatriotas, irmãos mortos, de Sewell, mortos
do Chile, operários, irmãos, camaradas,
hoje que estais silenciosos, vamos conversar.

E que vosso martírio nos ajude
a construir uma pátria severa
que saiba florescer e castigar.




XVII
A terra se chama Juan

Atrás dos libertadores estava Juan
trabalhando, pescando e combatendo,
em seu trabalho de carpintaria ou em sua mina molhada.

Suas mãos araram a terra e mediram
os caminhos.

Seus ossos estão em todos os lugares.

Mas vive.
Regressou da terra.
Nasceu.

Nasceu de novo como uma planta eterna.

Toda a noite impura tratou de submergi-lo
e hoje afirma na aurora seus lábios indomáveis.

Amarraram-no, e é agora decidido soldado.

Feriram-no, e conserva sua saúde de maçã.

Cortaram-lhe as mãos, e hoje fere com elas.

Enterraram-no, e vem cantando conosco.

Juan, é tua a porta e o caminho.

A terra
é tua, povo, a verdade nasceu
contigo, de teu sangue.

Não puderam exterminar-te.
Tuas raízes,
árvore de humanidade,
árvore de eternidade,
hoje estão defendidas com aço,
hoje estão defendidas com tua própria grandeza
na pátria soviética, blindada
contra as mordeduras do lobo agonizante.

Povo, do sofrimento nasceu a ordem.


Da ordem a tua bandeira de vitória nasceu.


Levanta-a com todas as mãos que tombaram,
Defenda-a com todas as mãos que se juntam:
E que avance até a luta final, até a estrela
A unidade de teus rostos invencíveis.
1 173
Gilberto Gil

Gilberto Gil

Procissão

Olha lá vai passando a procissão
Se arrastando que nem cobra pelo chão
As pessoas que nela vão passando
Acreditam nas coisas lá do céu
As mulheres cantando tiram versos
Os homens escutando tiram o chapéu
Eles vivem penando aqui na terra
Esperando o que Jesus prometeu

E Jesus prometeu vida melhor
Pra quem vive nesse mundo sem amor
Só depois de entregar o corpo ao chão
Só depois de morrer neste sertão
Eu também tô do lado de Jesus
Só que acho que ele se esqueceu
De dizer que na terra a gente tem
De arranjar um jeitinho pra viver

Muita gente se arvora a ser Deus
E promete tanta coisa pro sertão
Que vai dar um vestido pra Maria
E promete um roçado pro João
Entra ano, sai ano, e nada vem
Meu sertão continua ao deus-dará
Mas se existe Jesus no firmamento
Cá na terra isto tem que se acabar

1 666
Paulo Leminski

Paulo Leminski

cansei da frase polida

cansei da frase polida
por anjos da cara pálida
palmeiras batendo palmas
ao passarem paradas
agora eu quero a pedrada
chuva de pedras palavras
distribuindo pauladas

3 703
Mafalda Veiga

Mafalda Veiga

Por Tu Amor

Hoy ha entregado más que cuerpo y alma
todo lo aposte
mi cansacio com un trago de silencio
my fuerza y mi fe
Hoy ha habido una luna casi negra
en un cielo gris
y uno es guerrero
es compañeiro aunque no vuelva
yo a saber de ti
mas que más da
Si por tu amor hay que a aprender
a hacer revoluciones en la calle
si hay que luchar hasta ya no poder
yo lucharé
cantando en noches de silencio
ganando sobre piedras mi destino
si hay que ser fuerte
yo aprenderé

Hoy he buscado hasta el final de la oscuridad
la risa o la muerte
he arrancado muy muy dentro de mi alma
raíces de flor o dolor
mas que más da

Si por tu amor hay que a aprender
a hacer revoluciones en la calle
si hay que luchar hasta ya no poder
yo lucharé
cantando en noches de silencio
ganando sobre piedras mi destino
si hay que ser fuerte
yo aprenderé
1 188
Rosemberg Cariry

Rosemberg Cariry

Sexta-Feira

Entre pedras escaldadas
negro lençol de poeira
Gertrudes pariu um filho
como se fosse uma ovelha

Nem por isso houve festa
quebrou-se o monótono ritmo
dos enxadecos no chão
Nesta terra tantos morram
que outros serão paridos
serão servidos na mesa
tantos braços escravos
quanto as léguas
das sesmarias sem-fim

Aqui a vida estrebucha
corpo humano é queimado
como lenha da caldeira
Liberdade se contorce
espezinhada pelas botas
do senhor doutor coronel

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