Poemas neste tema
Propósito e Sentido da Vida
Fernando Pessoa
Não é o vício
Não é o vício
Nem a experiência que desflora a alma:
É só o pensamento. Há inocência
Em Nero mesmo e em Tibério louco
Porque há inconsciência. Só pensar
Desflora até ao íntimo do ser.
Este perpétuo analisar de tudo,
Este buscar duma nudez suprema
Raciocinada coerentemente,
É que tira a inocência verdadeira
Pela suprema consciência funda
De si, do mundo, de todos. Guarde, guarde
Fora do vício e do vil mundo além
Em gruta ou solidão o eremita;
Se o pensamento vir tudo
(...)
Pensar, pensar e não poder viver!
Pensar, sempre pensar, perenemente,
Sem poder ter mão nele! Ah eu sorrio
Quando às vezes eu noto o inconsciente
Riso vazio do bandido,
Rindo-se da inocência! Se ele soubesse
O que é perder a inocência toda...
Não a inocência vã do corpo ao olhar,
Ou vulgar e banal conhecimento,
Mas a inocência bela do viver;
De sentir — seja mesmo como ele
Esse (...) escravo do deboche-seja!
Sentir um sentir que abertamente
Se não ache vazio.
O Tédio! O Tédio quem me dera Tê-lo!
Se os (...)
Soubessem o que eu sinto. Eles não pensam
E eu... e eu...
Nem a experiência que desflora a alma:
É só o pensamento. Há inocência
Em Nero mesmo e em Tibério louco
Porque há inconsciência. Só pensar
Desflora até ao íntimo do ser.
Este perpétuo analisar de tudo,
Este buscar duma nudez suprema
Raciocinada coerentemente,
É que tira a inocência verdadeira
Pela suprema consciência funda
De si, do mundo, de todos. Guarde, guarde
Fora do vício e do vil mundo além
Em gruta ou solidão o eremita;
Se o pensamento vir tudo
(...)
Pensar, pensar e não poder viver!
Pensar, sempre pensar, perenemente,
Sem poder ter mão nele! Ah eu sorrio
Quando às vezes eu noto o inconsciente
Riso vazio do bandido,
Rindo-se da inocência! Se ele soubesse
O que é perder a inocência toda...
Não a inocência vã do corpo ao olhar,
Ou vulgar e banal conhecimento,
Mas a inocência bela do viver;
De sentir — seja mesmo como ele
Esse (...) escravo do deboche-seja!
Sentir um sentir que abertamente
Se não ache vazio.
O Tédio! O Tédio quem me dera Tê-lo!
Se os (...)
Soubessem o que eu sinto. Eles não pensam
E eu... e eu...
1 482
Fernando Pessoa
Quando acorda p'ra vida o pensamento
Quando acorda p'ra vida o pensamento
E sente a luz e (...) do existir
Diz «Tudo é bom». Depois, exausto já
O que ao ser a novidade (...)
Exausta a variedade invariável
Da vida, diz (...) «tudo é mau».
Mas, acordando mais o raciocínio,
Pensa que mal é o nome universal
Do limitado que se sente
Limitado, e diz «tudo é limitado
E porque é limitado é tudo mau»
E então como (...) uma esperança
Nasce, de que outra vida possa vir
E fazer esquecer ou relembrar
Em loucas transcendências esta vida,
[...]
Mas se além vai o duro pensamento,
Se mais pensa e mais (...)
Vê que o mundo, o universo, enfim o Ser
Transcende na sua essência incognoscível
(Única essência, pois o ser é o ser)
Bem e mal, limitado e ilimitado.
E quanto o pensamento assoberbado
Aqui chega e enfim se reconhece
À verdade chegado, vê que a orla
Da terra do pensar é procurar
Ter um mar que (...) não navegue.
A verdade esta é e eu a achei.
Achei-a, não a achando; conheci-a,
Reconhecendo-a sempre incognoscível,
Não vulgarmente, com a isenção
Do filósofo cinto em (...)
Mas pensei-a sentindo-a, e assim estou,
De ter chegado aqui pávido e mudo,
Orgulhoso de ter chegado aqui,
E orgulhoso e irado de não poder
Manifestar (que palavras não o dizem)
Aos homens o que sinto e o que penso
E até onde penso e onde sinto.
Nesta desolação de pensamento
Minha alma rígida reside e sorve
O fel do incognoscíel compreendido
Pelos poros doridos do pensar.
O incognoscível compreendido enfim
E incognoscível sempre. Aqui ninguém
Chega nem chegará.
Orgulho vão.
A que vens? Não sei eu o que tu és?
E sente a luz e (...) do existir
Diz «Tudo é bom». Depois, exausto já
O que ao ser a novidade (...)
Exausta a variedade invariável
Da vida, diz (...) «tudo é mau».
Mas, acordando mais o raciocínio,
Pensa que mal é o nome universal
Do limitado que se sente
Limitado, e diz «tudo é limitado
E porque é limitado é tudo mau»
E então como (...) uma esperança
Nasce, de que outra vida possa vir
E fazer esquecer ou relembrar
Em loucas transcendências esta vida,
[...]
Mas se além vai o duro pensamento,
Se mais pensa e mais (...)
Vê que o mundo, o universo, enfim o Ser
Transcende na sua essência incognoscível
(Única essência, pois o ser é o ser)
Bem e mal, limitado e ilimitado.
E quanto o pensamento assoberbado
Aqui chega e enfim se reconhece
À verdade chegado, vê que a orla
Da terra do pensar é procurar
Ter um mar que (...) não navegue.
A verdade esta é e eu a achei.
Achei-a, não a achando; conheci-a,
Reconhecendo-a sempre incognoscível,
Não vulgarmente, com a isenção
Do filósofo cinto em (...)
Mas pensei-a sentindo-a, e assim estou,
De ter chegado aqui pávido e mudo,
Orgulhoso de ter chegado aqui,
E orgulhoso e irado de não poder
Manifestar (que palavras não o dizem)
Aos homens o que sinto e o que penso
E até onde penso e onde sinto.
Nesta desolação de pensamento
Minha alma rígida reside e sorve
O fel do incognoscíel compreendido
Pelos poros doridos do pensar.
O incognoscível compreendido enfim
E incognoscível sempre. Aqui ninguém
Chega nem chegará.
Orgulho vão.
A que vens? Não sei eu o que tu és?
1 161
Raul de Leoni
Artista
Por um destino acima do teu Ser,
Tens que buscar nas coisas inconscientes
Um sentido harmonioso, o alto prazer
Que se esconde entre as formas aparentes.
Sempre o achas, mas ao tê-lo em teu poder
Nem no pões na tua alma, nem no sentes
Na tua vida, e o levas, sem saber,
Ao sonho de outras almas diferentes...
Vives humilde e inda ao morrer ignoras
O Ideal que achaste... (Ingratidão das musas!)
Mas não faz mal, meu bômbix inocente:
Fia na primavera, entre as amoras.
A tua seda de ouro, que nem usas
Mas que faz tanto bem a tanta gente...
Publicado no livro Luz Mediterrânea (1922). Poema integrante da série Felicidade.
In: LEONI, Raul de. Luz mediterrânea. Pref. Rodrigo Mello Franco de Andrade. 10.ed. São Paulo: Liv. Martins, 195
Tens que buscar nas coisas inconscientes
Um sentido harmonioso, o alto prazer
Que se esconde entre as formas aparentes.
Sempre o achas, mas ao tê-lo em teu poder
Nem no pões na tua alma, nem no sentes
Na tua vida, e o levas, sem saber,
Ao sonho de outras almas diferentes...
Vives humilde e inda ao morrer ignoras
O Ideal que achaste... (Ingratidão das musas!)
Mas não faz mal, meu bômbix inocente:
Fia na primavera, entre as amoras.
A tua seda de ouro, que nem usas
Mas que faz tanto bem a tanta gente...
Publicado no livro Luz Mediterrânea (1922). Poema integrante da série Felicidade.
In: LEONI, Raul de. Luz mediterrânea. Pref. Rodrigo Mello Franco de Andrade. 10.ed. São Paulo: Liv. Martins, 195
1 766
Fernando Pessoa
O inexplicável horror
O inexplicável horror
De saber que esta vida é verdadeira,
Que é uma cousa real, que é [como um] ser
Em todo o seu mistério [...]
Realmente real.
De saber que esta vida é verdadeira,
Que é uma cousa real, que é [como um] ser
Em todo o seu mistério [...]
Realmente real.
2 198
Fernando Pessoa
Como há haver? Que é ser? Que é haver ser?
Como há haver? Que é ser? Que é haver ser?
O horror que haja existir, e como o haja,
Tortura-me até ao abismo que há em mim.
O horror que haja existir, e como o haja,
Tortura-me até ao abismo que há em mim.
1 446
Fernando Pessoa
FAUSTO: Febre! Febre! Estou trémulo de febre
FAUSTO:
Febre! Febre! Estou trémulo de febre
E de delírio, e ainda assim é grato
Tudo isto a não sei que se passa
Sem propósito de passar e... não, não, não...
Fiquei fingindo que fujo... Fugirei...
Onde estou? O que foi? que faço aqui?
Arde-me a alma toda, arde-me arde
Como uma cousa que arde.
(foge de casa)
Ancião, não podes tu
Arranjar-me um remédio para a vida?
Quero vivê-la sem saber que a vivo,
Como tu vives... Corta-me o sorriso
Ou te apunhalo! De que te ris? Não rias!
Dá-me já, dá-me, dá-me filtros ou (...)
Com que eu me esqueça.
(estende a mão)
Dá cá, não importa
Falar Tudo é inútil.
(arranca-lhe o frasco da mão)
Atordoar-me-á isto a alma toda
Toda até dentro, muito dentro, velho?
VELHO:
Não te compreendo, mas se é esqueceres
Que queres, bebe.
FAUSTO:
Quero, quero, vamos,
Esqueçamo-nos. Tens algo de mais forte
Para mais do que esquecer; depressa, diz.
VELHO:
Mal te compreendo, mas não tenho.
FAUSTO:
Este
Quer (...) fins.
(bebe sofregamente)
E dormirei, ó velho,
Acabará em mim parte de mim
E viverei morto para viver
(cai no chão)
VELHO:
Estranha e horrível criatura!
O que de temor me faz. Todas espécies
De homens conheço, por ciência
Sei ler os vícios íntimos e os crimes
Nos olhares. Mas este... Não é vício
Nem crime, nem tristeza, nem parece
Propriamente pavor, o que obscurece
Como uma escuridão de dentro d'alma,
Toda a vida e expressão de sua face.
E essas palavras de que usa «esquecer
A vida», «mais do que esquecer» «em
Acabará então parte de mim»
Que significam? Não sei, mas sinto
Que condizem secreta e intimamente
Com esse íntimo ser que eu não conheço.
Qualquer que seja essa desgraça, estranho,
Dorme e ou esqueça ou aconteça em ti
Isso que semelhante ao esquecer
Desordenadamente me disseste
No teu intimo (...) desejar.
Dorme, e que o filtro opere no silêncio
Da tua alma, obra interior de paz
E que ao descerrares para mim os olhos
Eu lhes veja a expressão já transmutada
Para compreensível e humana
Expressão de um humano sentimento.
(Vai para o levantar mas retrai-se)
Não; dorme onde caíste e que o filtro
Sem sonho ou (...) de alteração
Te adormeça a existência intimamente
E ao escuro desejo que tu tens
(exit)
FAUSTO:
Eu sou outro que os homens, ó ancião,
O teu filtro de paz e esquecimento
Não me faz esquecer e só a sombra
De uma possível paz me entrou n'alma.
Para a paz que eu queria esta que tenho
É como archote para a luz do sol.
Intimamente nada se parece.
Paralisaste em mim a engrenagem
Do pensamento e sentimento antigos
Mas quebrados ficaram-me visíveis
E inesquecidos n'alma. Sou demais
Em consciência para os filtros frágeis
De que o teu tosco engenho te fez sábio.
Não tornarei, eu sinto-o, a sentir
O que sentia antigamente. Foi-se
Não sei como, o interior do meu ser
Com suas intuições, mas não se foi
A memória terrível do horror
Da minha vida antiga, perto e longe
Já do que eu sou, nem o que o uso fez
Ao sentimento e ao pensamento antigos;
Ainda os tenho comigo. Fica com eles
A memória presente do terror. Sou o que era, velho.
Nas cinzas do meu ser ainda há calor
Para que o fogo lembre.
VELHO:
Esfriarão.
FAUSTO:
Não o sinto possível. Há ainda
Memória e consciência de existir
Por demais em minha alma. O teu filtro
Não foi feito para entes como eu.
Entes? Não que como eu, só eu.
VELHO:
Virá
VELHO:
Dentro em breve o sossego.
FAUSTO:
Por que o dizes?
VELHO:
A outros veio!
FAUSTO:
A outros, mas que outros
Se assemelham a mim, ó velho estulto?
Alma vazia cheia de licores!
Mas de que serve injuriar-te? Tu
Não serás por injúrias acordado
Para a compreensão.
(Soergue-se)
Estranho sentimento. Como que a alma
Corporeamente me é pesada! A vida
Como que está atordoada e lenta...
Mas tenho, ó velho, consciência disso!
Teu filtro, miserável, é humano!
É para entes humanos que foi feito.
Inda me lembro bem que eu não o sou.
(pausa)
Olha pr'a mim! Que tenho no olhar
Como pareço ser?
VELHO:
Doente, triste
E como que quem sente vago pavor...
FAUSTO:
Maldita a ideia que te faz tocar
No que eu não posso mais sentir, mas posso
Apavorar-me de já ter sentido
E lembrar-me. Não fales mais. Eu vou...
(Pondo-se de pé)
Eu vou não sei onde...Como me treme
Com que debilidade e sentimento
De estar mudado o corpo todo. Velho,
Adeus, quisera ter achado em ti
O que em ti não podia ter achado.
Os teus remédios nada valem. Eu
Deveria ao pedir tê-lo sabido;
Mas... Não tens outro, diz-me... Tu que filtros
Possuis, não tens venenos mais subtis
Para a existência?
VELHO:
Tu bebeste aquele
Que eu de mais forte tinha, e que eu quisera
Não te dar. Arrancaste-mo da mão.
Talvez não vejas quanto estás melhor...
FAUSTO:
Velho, eu não erro com o pensamento.
Sei como estou. Não estou como quisera
Que me fizeras estar.
VELHO:
Há um filtro
Diferente daquele que tomaste;
Diverso na intenção com que obra n'alma,
Mas parecido no fazer esquecer.
FAUSTO:
Como diverso na intenção?
VELHO:
Em vez
De apagar, (...), adormecer,
Faz, com terrível excitar da vida,
Nascer n'alma um conflito de desejos
Um desejo de tudo possuir,
De tudo ser, de tudo ver, amar,
Gozar, odiar, querer e não querer,
Reunir vícios e virtudes — tudo
Como que na ânsia férvida dum trago
Da taça de existir.
FAUSTO:
E tu...
VELHO:
Não fui eu
Quem concebeu ou fabrica o filtro
Nem há mais (...) do que para um homem.
FAUSTO:
Tu vendes-mo... Ah, não, que eu nada tenho
Nem sei se tive ou poderia ter.
Tu dás-mo, velho. Não te servirá
De nada. Talvez esse filtro dê
O esquecimento (...) à minha alma.
Inda que a decepção me cause um vago
Desejo inquieto e como que inquerente
Entre um querer e um não querer, sendo ambos
E nenhum. Torna a ele. Quem o fez?
Porque o fez? Onde o tens? Repete mesmo
O que de seus efeitos me disseste.
E esses efeitos tê-los-á; repete,
Quero que ainda me decida mais
A pedir-to e a usá-lo. Por enquanto
Sou para ele a própria indecisão.
VELHO:
(...)
FAUSTO:
Que me decida ou não a beber dele
Esse filtro a ti de nada serve.
Dá-mo pois.
VELHO:
Não to dou.
FAUSTO:
O filtro, velho.
Não me (...); o filtro.
VELHO:
Não to dou.
FAUSTO:
O filtro.
VELHO:
Não to posso dar.
FAUSTO:
O filtro.
VELHO:
Para que avanças? Eu que mal te fiz?
FAUSTO:
O filtro; dá-me o filtro.
VELHO:
Mas não posso.
FAUSTO:
Velho, repara em mim. Há na minha alma
Uma ira calma e fria! Foge que ela
Na acção te mostre o que é.
VELHO:
Não posso dar-te,
Em verdade to digo, o filtro. Eu
Fiz-te o bem que pude; porque então
Avançando assim calmo para mim
No horror de qualquer (...) intenção
Te vejo o mesmo sempre? Poupa-me isso
Terrível que há em ti e que não trais
Em movimento ou vaga intimidade
Do olhar.. Piedade, piedade...
Piedade, senhor! Eu dou-te o filtro
Eu dou-te o filtro. Piedade eu dou.
(Fausto levanta do punhal e fells him)
(após matar)
FAUSTO:
Nem sinto horror, nem medo, ou dor, ou ânsia
Nem qualquer forma de estranheza sinto
Pelo que fiz por mais que tente querer
Sentir, e pelo próprio pensamento
De o dever sentir à força ter
Uma dor, um remorso, um sentimento.
Nada... Vejo, sinto, e vejo apenas
Como qualquer cousa natural
Visse, sem que devesse invocar
Sentimento (...) algum. Por mais
Que queira pensar-me a conceber
Quanto é estranho, e horroroso,
O que fiz, não me posso humanizar
Ao ponto de (...)
Por mais que a mera vista me convença
De que matei, por mais que tente
Fitar com a alma o corpo e o derramado
Sangue que vejo, nega-se-me o ser
A mais do que a olhar e só olhar.
É uma alma morta ante um corpo morto.
Compreendo bem o que sentir eu devo
Mas não consigo mesmo a imaginar-me
Sentindo-o. Estranho! Nem sequer evoco
Por sentimentos de quanto é de horror
A morte, um ente morto, e o mistério
Nisto tudo. Sim, sinto-lhe o mistério
Mas este sentimento de mistério
Não se me liga a um sentimento
Que liga esse corpo a mim que fiz
O que de mistério está ali.
Tremo ao sentir quanto é mistério a morte;
Mas na alma desligado está
Com completa separação e nítida
De sentimento algum que me deixasse
O ser na ânsia de inquirir.
(pausa)
Visto porém, que nada sinto, nada,
Acabe este mesmo reflectir
Mais que infrutífero de sentimento,
Porque mais frio cada vez me sinto
Ao perceber que nada sei sentir
Nem estranheza sinto
Nem estranheza de não ter estranheza
Nem estranheza mesmo
De não sentir por mais que eu queira
Fazer crer que devia sentir estranheza.
Procuremos o filtro.
Febre! Febre! Estou trémulo de febre
E de delírio, e ainda assim é grato
Tudo isto a não sei que se passa
Sem propósito de passar e... não, não, não...
Fiquei fingindo que fujo... Fugirei...
Onde estou? O que foi? que faço aqui?
Arde-me a alma toda, arde-me arde
Como uma cousa que arde.
(foge de casa)
Ancião, não podes tu
Arranjar-me um remédio para a vida?
Quero vivê-la sem saber que a vivo,
Como tu vives... Corta-me o sorriso
Ou te apunhalo! De que te ris? Não rias!
Dá-me já, dá-me, dá-me filtros ou (...)
Com que eu me esqueça.
(estende a mão)
Dá cá, não importa
Falar Tudo é inútil.
(arranca-lhe o frasco da mão)
Atordoar-me-á isto a alma toda
Toda até dentro, muito dentro, velho?
VELHO:
Não te compreendo, mas se é esqueceres
Que queres, bebe.
FAUSTO:
Quero, quero, vamos,
Esqueçamo-nos. Tens algo de mais forte
Para mais do que esquecer; depressa, diz.
VELHO:
Mal te compreendo, mas não tenho.
FAUSTO:
Este
Quer (...) fins.
(bebe sofregamente)
E dormirei, ó velho,
Acabará em mim parte de mim
E viverei morto para viver
(cai no chão)
VELHO:
Estranha e horrível criatura!
O que de temor me faz. Todas espécies
De homens conheço, por ciência
Sei ler os vícios íntimos e os crimes
Nos olhares. Mas este... Não é vício
Nem crime, nem tristeza, nem parece
Propriamente pavor, o que obscurece
Como uma escuridão de dentro d'alma,
Toda a vida e expressão de sua face.
E essas palavras de que usa «esquecer
A vida», «mais do que esquecer» «em
Acabará então parte de mim»
Que significam? Não sei, mas sinto
Que condizem secreta e intimamente
Com esse íntimo ser que eu não conheço.
Qualquer que seja essa desgraça, estranho,
Dorme e ou esqueça ou aconteça em ti
Isso que semelhante ao esquecer
Desordenadamente me disseste
No teu intimo (...) desejar.
Dorme, e que o filtro opere no silêncio
Da tua alma, obra interior de paz
E que ao descerrares para mim os olhos
Eu lhes veja a expressão já transmutada
Para compreensível e humana
Expressão de um humano sentimento.
(Vai para o levantar mas retrai-se)
Não; dorme onde caíste e que o filtro
Sem sonho ou (...) de alteração
Te adormeça a existência intimamente
E ao escuro desejo que tu tens
(exit)
FAUSTO:
Eu sou outro que os homens, ó ancião,
O teu filtro de paz e esquecimento
Não me faz esquecer e só a sombra
De uma possível paz me entrou n'alma.
Para a paz que eu queria esta que tenho
É como archote para a luz do sol.
Intimamente nada se parece.
Paralisaste em mim a engrenagem
Do pensamento e sentimento antigos
Mas quebrados ficaram-me visíveis
E inesquecidos n'alma. Sou demais
Em consciência para os filtros frágeis
De que o teu tosco engenho te fez sábio.
Não tornarei, eu sinto-o, a sentir
O que sentia antigamente. Foi-se
Não sei como, o interior do meu ser
Com suas intuições, mas não se foi
A memória terrível do horror
Da minha vida antiga, perto e longe
Já do que eu sou, nem o que o uso fez
Ao sentimento e ao pensamento antigos;
Ainda os tenho comigo. Fica com eles
A memória presente do terror. Sou o que era, velho.
Nas cinzas do meu ser ainda há calor
Para que o fogo lembre.
VELHO:
Esfriarão.
FAUSTO:
Não o sinto possível. Há ainda
Memória e consciência de existir
Por demais em minha alma. O teu filtro
Não foi feito para entes como eu.
Entes? Não que como eu, só eu.
VELHO:
Virá
VELHO:
Dentro em breve o sossego.
FAUSTO:
Por que o dizes?
VELHO:
A outros veio!
FAUSTO:
A outros, mas que outros
Se assemelham a mim, ó velho estulto?
Alma vazia cheia de licores!
Mas de que serve injuriar-te? Tu
Não serás por injúrias acordado
Para a compreensão.
(Soergue-se)
Estranho sentimento. Como que a alma
Corporeamente me é pesada! A vida
Como que está atordoada e lenta...
Mas tenho, ó velho, consciência disso!
Teu filtro, miserável, é humano!
É para entes humanos que foi feito.
Inda me lembro bem que eu não o sou.
(pausa)
Olha pr'a mim! Que tenho no olhar
Como pareço ser?
VELHO:
Doente, triste
E como que quem sente vago pavor...
FAUSTO:
Maldita a ideia que te faz tocar
No que eu não posso mais sentir, mas posso
Apavorar-me de já ter sentido
E lembrar-me. Não fales mais. Eu vou...
(Pondo-se de pé)
Eu vou não sei onde...Como me treme
Com que debilidade e sentimento
De estar mudado o corpo todo. Velho,
Adeus, quisera ter achado em ti
O que em ti não podia ter achado.
Os teus remédios nada valem. Eu
Deveria ao pedir tê-lo sabido;
Mas... Não tens outro, diz-me... Tu que filtros
Possuis, não tens venenos mais subtis
Para a existência?
VELHO:
Tu bebeste aquele
Que eu de mais forte tinha, e que eu quisera
Não te dar. Arrancaste-mo da mão.
Talvez não vejas quanto estás melhor...
FAUSTO:
Velho, eu não erro com o pensamento.
Sei como estou. Não estou como quisera
Que me fizeras estar.
VELHO:
Há um filtro
Diferente daquele que tomaste;
Diverso na intenção com que obra n'alma,
Mas parecido no fazer esquecer.
FAUSTO:
Como diverso na intenção?
VELHO:
Em vez
De apagar, (...), adormecer,
Faz, com terrível excitar da vida,
Nascer n'alma um conflito de desejos
Um desejo de tudo possuir,
De tudo ser, de tudo ver, amar,
Gozar, odiar, querer e não querer,
Reunir vícios e virtudes — tudo
Como que na ânsia férvida dum trago
Da taça de existir.
FAUSTO:
E tu...
VELHO:
Não fui eu
Quem concebeu ou fabrica o filtro
Nem há mais (...) do que para um homem.
FAUSTO:
Tu vendes-mo... Ah, não, que eu nada tenho
Nem sei se tive ou poderia ter.
Tu dás-mo, velho. Não te servirá
De nada. Talvez esse filtro dê
O esquecimento (...) à minha alma.
Inda que a decepção me cause um vago
Desejo inquieto e como que inquerente
Entre um querer e um não querer, sendo ambos
E nenhum. Torna a ele. Quem o fez?
Porque o fez? Onde o tens? Repete mesmo
O que de seus efeitos me disseste.
E esses efeitos tê-los-á; repete,
Quero que ainda me decida mais
A pedir-to e a usá-lo. Por enquanto
Sou para ele a própria indecisão.
VELHO:
(...)
FAUSTO:
Que me decida ou não a beber dele
Esse filtro a ti de nada serve.
Dá-mo pois.
VELHO:
Não to dou.
FAUSTO:
O filtro, velho.
Não me (...); o filtro.
VELHO:
Não to dou.
FAUSTO:
O filtro.
VELHO:
Não to posso dar.
FAUSTO:
O filtro.
VELHO:
Para que avanças? Eu que mal te fiz?
FAUSTO:
O filtro; dá-me o filtro.
VELHO:
Mas não posso.
FAUSTO:
Velho, repara em mim. Há na minha alma
Uma ira calma e fria! Foge que ela
Na acção te mostre o que é.
VELHO:
Não posso dar-te,
Em verdade to digo, o filtro. Eu
Fiz-te o bem que pude; porque então
Avançando assim calmo para mim
No horror de qualquer (...) intenção
Te vejo o mesmo sempre? Poupa-me isso
Terrível que há em ti e que não trais
Em movimento ou vaga intimidade
Do olhar.. Piedade, piedade...
Piedade, senhor! Eu dou-te o filtro
Eu dou-te o filtro. Piedade eu dou.
(Fausto levanta do punhal e fells him)
(após matar)
FAUSTO:
Nem sinto horror, nem medo, ou dor, ou ânsia
Nem qualquer forma de estranheza sinto
Pelo que fiz por mais que tente querer
Sentir, e pelo próprio pensamento
De o dever sentir à força ter
Uma dor, um remorso, um sentimento.
Nada... Vejo, sinto, e vejo apenas
Como qualquer cousa natural
Visse, sem que devesse invocar
Sentimento (...) algum. Por mais
Que queira pensar-me a conceber
Quanto é estranho, e horroroso,
O que fiz, não me posso humanizar
Ao ponto de (...)
Por mais que a mera vista me convença
De que matei, por mais que tente
Fitar com a alma o corpo e o derramado
Sangue que vejo, nega-se-me o ser
A mais do que a olhar e só olhar.
É uma alma morta ante um corpo morto.
Compreendo bem o que sentir eu devo
Mas não consigo mesmo a imaginar-me
Sentindo-o. Estranho! Nem sequer evoco
Por sentimentos de quanto é de horror
A morte, um ente morto, e o mistério
Nisto tudo. Sim, sinto-lhe o mistério
Mas este sentimento de mistério
Não se me liga a um sentimento
Que liga esse corpo a mim que fiz
O que de mistério está ali.
Tremo ao sentir quanto é mistério a morte;
Mas na alma desligado está
Com completa separação e nítida
De sentimento algum que me deixasse
O ser na ânsia de inquirir.
(pausa)
Visto porém, que nada sinto, nada,
Acabe este mesmo reflectir
Mais que infrutífero de sentimento,
Porque mais frio cada vez me sinto
Ao perceber que nada sei sentir
Nem estranheza sinto
Nem estranheza de não ter estranheza
Nem estranheza mesmo
De não sentir por mais que eu queira
Fazer crer que devia sentir estranheza.
Procuremos o filtro.
1 119
Fernando Pessoa
Quando penso nas outras consciências
Quando penso nas outras consciências
E no mistério que contêm, de haver
Pluralidade de conscientes (pois
Una se afigura ao pensamento
A consciência) quando penso assim
Angustia-me logo o não poder
Penetrar nessas vidas e sentir
(Como não sei) as várias sensações
Das várias humanas personalidades:
Do guerreiro, da virgem, do (...)
Do sábio, do operário,
Da costureira, da rameira mesmo,
Do assassino, do homem das montanhas
De tudo e de todos. Atormenta-me
Uma necessidade de o saber
Que faz sorrir o pranto da minha alma.
O que pensarão eles, sentirão?
Eu quisera sabê-lo, conhecê-lo,
Perdendo e não perdendo este meu ser.
Curiosidade louca que se impõe
À minha (...) Todo mistério
Tento ver e cada um vai incompreensível
Rindo, rindo, chorando, cantando
Pelejando, sofrendo, enfim morrendo
Inconsciente do que leva em si,
Além da loucura.
E no mistério que contêm, de haver
Pluralidade de conscientes (pois
Una se afigura ao pensamento
A consciência) quando penso assim
Angustia-me logo o não poder
Penetrar nessas vidas e sentir
(Como não sei) as várias sensações
Das várias humanas personalidades:
Do guerreiro, da virgem, do (...)
Do sábio, do operário,
Da costureira, da rameira mesmo,
Do assassino, do homem das montanhas
De tudo e de todos. Atormenta-me
Uma necessidade de o saber
Que faz sorrir o pranto da minha alma.
O que pensarão eles, sentirão?
Eu quisera sabê-lo, conhecê-lo,
Perdendo e não perdendo este meu ser.
Curiosidade louca que se impõe
À minha (...) Todo mistério
Tento ver e cada um vai incompreensível
Rindo, rindo, chorando, cantando
Pelejando, sofrendo, enfim morrendo
Inconsciente do que leva em si,
Além da loucura.
1 261
Fernando Pessoa
Não ter emoções, não ter desejos, não ter vontades,
Não ter emoções, não ter desejos, não ter vontades,
Mas ser apenas, no ar sensível das coisas
Uma consciência abstracta com asas de pensamento,
Não ser desonesto nem não desonesto, separado ou junto,
Nem igual a outros, nem diferente dos outros,
Vivê-los em outrem, separar-se deles
Como quem, distraído, se esquece de si...
Mas ser apenas, no ar sensível das coisas
Uma consciência abstracta com asas de pensamento,
Não ser desonesto nem não desonesto, separado ou junto,
Nem igual a outros, nem diferente dos outros,
Vivê-los em outrem, separar-se deles
Como quem, distraído, se esquece de si...
1 409
Fernando Pessoa
THE LAST OF THINGS
Weep for the last of things,
For the farewell that they give
As if with a glance alone
To the things that remain and live.
Weep for the noble minds
That have past like froth away;
Weep for the bodies fair
Now less than dust or day.
Weep for the smallest trifles
Of our life, that is made of them;
Weep for each unaccomplished,
Each dream known at last a dream.
Weep for nations and kingdoms
That are dreams within the past,
For creeds and for religions,
For idols dim down‑cast.
Though their glory were a vile one
And a blessing their decay,
Yet they are things that have been,
Have been and gone away.
Weep for all joys departed,
For many a departed pain:
The heart one day shall desire
That they could come back again.
Weep for all things that are gone
And for those that are not past,
For the heart that sees them knows
That they also shall not last.
To all that passes pertaineth
A shred of our sympathy,
A tear for all things departed,
For departing things a sigh.
For the farewell that they give
As if with a glance alone
To the things that remain and live.
Weep for the noble minds
That have past like froth away;
Weep for the bodies fair
Now less than dust or day.
Weep for the smallest trifles
Of our life, that is made of them;
Weep for each unaccomplished,
Each dream known at last a dream.
Weep for nations and kingdoms
That are dreams within the past,
For creeds and for religions,
For idols dim down‑cast.
Though their glory were a vile one
And a blessing their decay,
Yet they are things that have been,
Have been and gone away.
Weep for all joys departed,
For many a departed pain:
The heart one day shall desire
That they could come back again.
Weep for all things that are gone
And for those that are not past,
For the heart that sees them knows
That they also shall not last.
To all that passes pertaineth
A shred of our sympathy,
A tear for all things departed,
For departing things a sigh.
1 955
Fernando Pessoa
Tudo é mistério para mim que o é...
Tudo é mistério para mim que o é...
A luz do sol: o mistério feito brilho,
Canto d'ave: o mistério feito voz
Entristecem-me pois. Só uma cousa
Uma vez descoberta não se evita
Nem evitar se pode: é o mistério
E o seu íntimo e (...) horror
O horror nitidamente negro e abismado.
A luz do sol: o mistério feito brilho,
Canto d'ave: o mistério feito voz
Entristecem-me pois. Só uma cousa
Uma vez descoberta não se evita
Nem evitar se pode: é o mistério
E o seu íntimo e (...) horror
O horror nitidamente negro e abismado.
1 299
Jorge Luis Borges
El ápice
No te habrá de salvar lo que dejaron
Escrito aquellos que tu miedo implora;
No eres los otros y te ves ahora
Centro del laberinto que tramaron
Tus pasos. No te salva la agonía
De Jesús o de Sócrates ni el fuerte
Siddharta de oro que aceptó la muerte
En un jardín, al declinar el día.
Polvo también es la palabra escrita
Por tu mano o el verbo pronunciado
Por tu boca. No hay lástima en el Hado
Y la noche de Dios es infinita.
Tu materia es el tiempo, el incesante
Tiempo. Eres cada solitario instante.
Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", pág. 553 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
Escrito aquellos que tu miedo implora;
No eres los otros y te ves ahora
Centro del laberinto que tramaron
Tus pasos. No te salva la agonía
De Jesús o de Sócrates ni el fuerte
Siddharta de oro que aceptó la muerte
En un jardín, al declinar el día.
Polvo también es la palabra escrita
Por tu mano o el verbo pronunciado
Por tu boca. No hay lástima en el Hado
Y la noche de Dios es infinita.
Tu materia es el tiempo, el incesante
Tiempo. Eres cada solitario instante.
Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", pág. 553 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
1 006
Jorge Luis Borges
El ángel
Que el hombre no sea indigno del Ángel
cuya espada lo guarda
desde que lo engendró aquel Amor
que mueve el sol y las estrellas
hasta el Último Día en que retumbe
el trueno en la trompeta.
Que no lo arrastre a rojos lupanares
ni a los palacios que erigió la soberbia
ni a las tabernas insensatas.
Que no se rebaje a la súplica
ni al oprobio del llanto
ni a la fabulosa esperanza
ni a las pequeñas magias del miedo
ni al simulacro del histrión;
el Otro lo mira.
Que recuerde que nunca estará solo.
En el público día o en la sombra
el incesante espero lo atestigua;
que no macule su cristal una lágrima.
Señor, que al cabo de mis días en la Tierra
yo no deshonre al Ángel.
Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", pág. 556 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
cuya espada lo guarda
desde que lo engendró aquel Amor
que mueve el sol y las estrellas
hasta el Último Día en que retumbe
el trueno en la trompeta.
Que no lo arrastre a rojos lupanares
ni a los palacios que erigió la soberbia
ni a las tabernas insensatas.
Que no se rebaje a la súplica
ni al oprobio del llanto
ni a la fabulosa esperanza
ni a las pequeñas magias del miedo
ni al simulacro del histrión;
el Otro lo mira.
Que recuerde que nunca estará solo.
En el público día o en la sombra
el incesante espero lo atestigua;
que no macule su cristal una lágrima.
Señor, que al cabo de mis días en la Tierra
yo no deshonre al Ángel.
Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", pág. 556 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
1 378
Jorge Luis Borges
Correr o ser
Fluye en el cielo el Rhin? ¿Hay una forma
universal del Rhin, un arquetipo,
que invulnerable a ese otro Rhin, el tiempo,
dura y perdura en un eterno Ahora
y es raíz de aquel Rhin, que en Alemania
sigue su curso mientras dicto el verso?
Así lo conjeturan los platónicos;
así no lo aprobó Guillermo de Occam.
Dijo que Rhin (cuya etimología
es rinan o correr) no es otra cosa
que un arbitrario apodo que los hombres
dan a la fuga secular del agua
desde los hielos a la arena última.
Bien puede ser. Que lo decidan otros.
¿Seré apenas, repito, aquella serie
de blancos días y de negras noches
que amaron, que cantaron, que leyeron
y padecieron miedo y esperanza
o también habrá otro, el yo secreto
cuya ilusoria imagen, hoy borrada
he interrogado en el ansioso espejo?
Quizá del otro lado de la muerte
sabré si he sido una palabra o alguien.
Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", pág. 560 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
universal del Rhin, un arquetipo,
que invulnerable a ese otro Rhin, el tiempo,
dura y perdura en un eterno Ahora
y es raíz de aquel Rhin, que en Alemania
sigue su curso mientras dicto el verso?
Así lo conjeturan los platónicos;
así no lo aprobó Guillermo de Occam.
Dijo que Rhin (cuya etimología
es rinan o correr) no es otra cosa
que un arbitrario apodo que los hombres
dan a la fuga secular del agua
desde los hielos a la arena última.
Bien puede ser. Que lo decidan otros.
¿Seré apenas, repito, aquella serie
de blancos días y de negras noches
que amaron, que cantaron, que leyeron
y padecieron miedo y esperanza
o también habrá otro, el yo secreto
cuya ilusoria imagen, hoy borrada
he interrogado en el ansioso espejo?
Quizá del otro lado de la muerte
sabré si he sido una palabra o alguien.
Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", pág. 560 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
1 239
Fernando Pessoa
Quando penso
Quando penso
Em glória, fama, (...)
(...) tudo acabando em morte
Eu sinto um frio n'alma, um confranger,
Obscurecer de todo o pensamento,
Dissolver da clareza da consciência
Nos seus (...) elementos escuros.
Tudo formas
Do gélido sentimento de existir
Que é o frio habitual do meu sentir;
Sentir a vida como um arrepio,
Como um horror, como uma morte consciente.
O frio do mistério enche tudo
Porque o mistério é tudo e é tudo a vida.
Em glória, fama, (...)
(...) tudo acabando em morte
Eu sinto um frio n'alma, um confranger,
Obscurecer de todo o pensamento,
Dissolver da clareza da consciência
Nos seus (...) elementos escuros.
Tudo formas
Do gélido sentimento de existir
Que é o frio habitual do meu sentir;
Sentir a vida como um arrepio,
Como um horror, como uma morte consciente.
O frio do mistério enche tudo
Porque o mistério é tudo e é tudo a vida.
1 462
Fernando Pessoa
Fausto ao espelho
Deus existe mas não é Deus» eis a chave transcendente de todo o ocultismo. É este o símbolo representado por «morte de Deus-Homem».
Pode Deus existir mas não ser Deus;
Transcendente mentira realmente
Existindo e cercando-nos,
O único Horror de um mistério maior.
Se Deus houvera dado
À verdade outro ser
Que não o ser pensando
O Como a conceber,
Não nos dera a verdade
Mas qualquer ilusão
Na cómoda eternidade
Da vasta escuridão.
Fora Deus Deus, Deus fosse menos que este
Pensamento que abre na minha alma
Um poço sem paredes, e eu pudesse
Ao pensamento exceder o sumo
Inexcedível, figurar mais vasto
Deus que Deus é... Como seria assim?
Por ser o ser que é absoluto ser!
Não haver para além do sempre além
Ou novas direcções do infinito,
Número infinito de infinitos.
[ ... ]
Ah, parar de pensar! Pôr um limite
Ao mistério possível. Ter o mundo
Este infinito [?] mundo por o mundo,
Por Deus o Deus que é dele e o fez e ama!
Este meu pensamento transciente
De transcendência, por magia ignota
Evoque do Incógnito um torpor
Com que se o mesmo casasse! Ah, um sono, um Sono
Um sono de pensar me roube a mim!
Treva! morte! Trevas e morte do Eu!
Matar-me dentro da alma! Que eu não pense
Por absoluta ausência e em mim descanse
Esta concentração multiplicada
De mais mundos que os mundos infinitos,
De mais seres que o ser que é mais que os seres!
E eu mesmo em morte inteira seja Abismo!
Vale-me o morte.
Pode Deus existir mas não ser Deus;
Transcendente mentira realmente
Existindo e cercando-nos,
O único Horror de um mistério maior.
Se Deus houvera dado
À verdade outro ser
Que não o ser pensando
O Como a conceber,
Não nos dera a verdade
Mas qualquer ilusão
Na cómoda eternidade
Da vasta escuridão.
Fora Deus Deus, Deus fosse menos que este
Pensamento que abre na minha alma
Um poço sem paredes, e eu pudesse
Ao pensamento exceder o sumo
Inexcedível, figurar mais vasto
Deus que Deus é... Como seria assim?
Por ser o ser que é absoluto ser!
Não haver para além do sempre além
Ou novas direcções do infinito,
Número infinito de infinitos.
[ ... ]
Ah, parar de pensar! Pôr um limite
Ao mistério possível. Ter o mundo
Este infinito [?] mundo por o mundo,
Por Deus o Deus que é dele e o fez e ama!
Este meu pensamento transciente
De transcendência, por magia ignota
Evoque do Incógnito um torpor
Com que se o mesmo casasse! Ah, um sono, um Sono
Um sono de pensar me roube a mim!
Treva! morte! Trevas e morte do Eu!
Matar-me dentro da alma! Que eu não pense
Por absoluta ausência e em mim descanse
Esta concentração multiplicada
De mais mundos que os mundos infinitos,
De mais seres que o ser que é mais que os seres!
E eu mesmo em morte inteira seja Abismo!
Vale-me o morte.
2 067
Fernando Pessoa
THE WORLD
The world, as far's I understand,
Which is no further than the blind
Of colour and of shade can find
In that obscurity of theirs,
This world sunlit and grand,
Of which we are the heirs
With a proud unconsciousness,
Is worth as much as all our rhymes,
As all our things, its gilded slimes -
Nothing, and that's the most I'll say
Ere on he bed of nothingness
I turn myself the other way.
Which is no further than the blind
Of colour and of shade can find
In that obscurity of theirs,
This world sunlit and grand,
Of which we are the heirs
With a proud unconsciousness,
Is worth as much as all our rhymes,
As all our things, its gilded slimes -
Nothing, and that's the most I'll say
Ere on he bed of nothingness
I turn myself the other way.
1 333
Fernando Pessoa
Condenados sem fim ao erro eterno.
Condenados sem fim ao erro eterno.
Porque não será isto a realidade?
Porque não há-de ser, fantasma eterno,
O abstracto e inúmero velado mundo,
Sempre velado e abstracto, a sua própria
Unidade uma imprecisão,
Um todo indefinido, e mais que um todo
Onde a verdade e o erro, pontos fixos,
Nada sejam senão um maior erro?
Porque não será isto a realidade?
Porque não há-de ser, fantasma eterno,
O abstracto e inúmero velado mundo,
Sempre velado e abstracto, a sua própria
Unidade uma imprecisão,
Um todo indefinido, e mais que um todo
Onde a verdade e o erro, pontos fixos,
Nada sejam senão um maior erro?
1 345
Fernando Pessoa
E assim estou, pensando mais que todos,
E assim estou, pensando mais que todos,
Braços cruzados (...) além da fé,
E raciocínio, e assim sem alegria
Nem dúvida, além delas, da tristeza
De quem aqui chegou, tornado apenas.
Não tenho, não, já dúvida ou alegria
Mas nem regresso mais a essa dúvida
Nem a essa alegria regressara,
Se possível me fosse; tenho o orgulho
De ter chegado aqui onde ninguém
Nem nas asas do doido pensamento
Nem nas asas da louca fantasia
Chegou. E aqui me quedo consolado
Nesta perene desolação.
Braços cruzados (...) além da fé,
E raciocínio, e assim sem alegria
Nem dúvida, além delas, da tristeza
De quem aqui chegou, tornado apenas.
Não tenho, não, já dúvida ou alegria
Mas nem regresso mais a essa dúvida
Nem a essa alegria regressara,
Se possível me fosse; tenho o orgulho
De ter chegado aqui onde ninguém
Nem nas asas do doido pensamento
Nem nas asas da louca fantasia
Chegou. E aqui me quedo consolado
Nesta perene desolação.
1 203
Fernando Pessoa
O que é haver haver? Porque é que o que é
O que é haver haver? Porque é que o que é
É isto que é? Como é que o mundo é mundo?
Ah, o horror de pensar, como que súbito
Desconhecer onde estou.
É isto que é? Como é que o mundo é mundo?
Ah, o horror de pensar, como que súbito
Desconhecer onde estou.
1 499
Fernando Pessoa
MEN OF SCIENCE
To toil through time and hate and to consume
Far more than life in Error's hard defeat,
Seeking e'er for the true, for the complete,
Careless of faith and misery and doom
Is there a nobler task, while life doth fleet,
Than this, to strive to make light amid gloom,
And with hands bleeding to part and make room
In life for weaker and more unsure feet?
The void o'th' world must with an arch be spanned,
The ways of Nature must be read aright
That there may be a wise and friendly hand
To make this dark world better and more bright.
Oh, with what joy and love I understand
These master-souls that ache for truth and light.
Far more than life in Error's hard defeat,
Seeking e'er for the true, for the complete,
Careless of faith and misery and doom
Is there a nobler task, while life doth fleet,
Than this, to strive to make light amid gloom,
And with hands bleeding to part and make room
In life for weaker and more unsure feet?
The void o'th' world must with an arch be spanned,
The ways of Nature must be read aright
That there may be a wise and friendly hand
To make this dark world better and more bright.
Oh, with what joy and love I understand
These master-souls that ache for truth and light.
1 471
Fernando Pessoa
WALT WHITMAN
WALT WHITMAN
Onde não sou o primeiro, prefiro não ser nada, não estar lá,
Onde não posso agir o primeiro, prefiro só ver agir os outros.
Onde não posso mandar, antes quero nem obedecer.
Excessivo na ânsia de tudo, tão excessivo que nem falo,
E não falo, porque não tento.
«Ou Tudo ou Nada» tem um sentido pessoal para mim.
Mas ser universal — não o posso, porque sou particular.
Não posso ser todos, porque sou Um, um só, só eu Não posso ser o primeiro em qualquer coisa, porque não há o primeiro.
Prefiro por isso o nada de ser co-primeiro em ser nada.
Quando é que parte o último comboio, Walt?
Quero deixar esta cidade, a Terra,
Quero emergir de vez deste país, Eu,
Deixar o mundo com o que se comprova falido,
Como um caixeiro viajante que vende navios a habitantes do interior.
O fim a motores partidos!
Que foi todo o meu ser? Uma grande ânsia inútil —
Estéril realização com um destino impossível —
Máquina de louco para realizar o motu continuo,
Teorema de absurdo para a quadratura do círculo,
Travessia a nado do Atlântico, falando na margem de cá
Antes da entrada na água, só com eles e o cálculo,
Atirar de pedras à lua
Ânsia absurda do encontro dos paralelos Deus-vida.
Megalomania dos nervos,
Ânsia de elasticidade do corpo duro,
Raiva de meu concreto ser por não ser o auge-eixo
O carro da sensualidade de entusiasmo abstracto
O vácuo dinâmico do mundo!
Vamo-nos embora de Ser.
Larguemos de vez, definitivamente, a aldeia-Vida
O arrabalde-Mundo de Deus
E entremos na cidade à aventura, ao rasgo
Ao auge, loucamente ao Ir...
Larguemos de vez.
Quando parte, Walt, o último comboio p'ra aí?
Que Deus fui para as minhas saudades serem estas ânsias?
Talvez partindo regresse. Talvez acabando, chegue,
Quem sabe? Qualquer hora é a hora. Partamos,
Vamos! A estada tarda. Partir é ter ido.
Partamos para onde se fique.
Ó estrada para não-haver-estradas!
Término no Não-Parar!
Onde não sou o primeiro, prefiro não ser nada, não estar lá,
Onde não posso agir o primeiro, prefiro só ver agir os outros.
Onde não posso mandar, antes quero nem obedecer.
Excessivo na ânsia de tudo, tão excessivo que nem falo,
E não falo, porque não tento.
«Ou Tudo ou Nada» tem um sentido pessoal para mim.
Mas ser universal — não o posso, porque sou particular.
Não posso ser todos, porque sou Um, um só, só eu Não posso ser o primeiro em qualquer coisa, porque não há o primeiro.
Prefiro por isso o nada de ser co-primeiro em ser nada.
Quando é que parte o último comboio, Walt?
Quero deixar esta cidade, a Terra,
Quero emergir de vez deste país, Eu,
Deixar o mundo com o que se comprova falido,
Como um caixeiro viajante que vende navios a habitantes do interior.
O fim a motores partidos!
Que foi todo o meu ser? Uma grande ânsia inútil —
Estéril realização com um destino impossível —
Máquina de louco para realizar o motu continuo,
Teorema de absurdo para a quadratura do círculo,
Travessia a nado do Atlântico, falando na margem de cá
Antes da entrada na água, só com eles e o cálculo,
Atirar de pedras à lua
Ânsia absurda do encontro dos paralelos Deus-vida.
Megalomania dos nervos,
Ânsia de elasticidade do corpo duro,
Raiva de meu concreto ser por não ser o auge-eixo
O carro da sensualidade de entusiasmo abstracto
O vácuo dinâmico do mundo!
Vamo-nos embora de Ser.
Larguemos de vez, definitivamente, a aldeia-Vida
O arrabalde-Mundo de Deus
E entremos na cidade à aventura, ao rasgo
Ao auge, loucamente ao Ir...
Larguemos de vez.
Quando parte, Walt, o último comboio p'ra aí?
Que Deus fui para as minhas saudades serem estas ânsias?
Talvez partindo regresse. Talvez acabando, chegue,
Quem sabe? Qualquer hora é a hora. Partamos,
Vamos! A estada tarda. Partir é ter ido.
Partamos para onde se fique.
Ó estrada para não-haver-estradas!
Término no Não-Parar!
2 140
Fernando Pessoa
I - We pass and dream. Earth smiles. Virtue is rare.
I
We pass and dream. Earth smiles. Virtue is rare.
Age, duty, gods weigh on our conscious bliss.
Hope for the best and for the worst prepare.
The sum of purposed wisdom speaks in this.
We pass and dream. Earth smiles. Virtue is rare.
Age, duty, gods weigh on our conscious bliss.
Hope for the best and for the worst prepare.
The sum of purposed wisdom speaks in this.
1 273
Jorge Luis Borges
Descartes
Soy el único hombre en la tierra y acaso no haya tierra ni hombre.
Acaso un dios me engaña.
Acaso un dios me ha condenado al tiempo, esa larga ilusión.
Sueño la luna y sueño mis ojos que perciben la luna.
He soñado la tarde y la mañana del primer día.
He soñado a Cartago y a las legiones que desolaron Cartago.
He soñado a Lucano.
He soñado la colina del Gólgota y las cruces de Roma.
He soñado la geometría.
He soñado el punto, la línea, el plano y el volumen.
He soñado el amarillo, el azul y el rojo.
He soñado mi enfermiza niñez.
He soñado los mapas y los reinos y aquel duelo en el alba.
He soñado el inconcebible dolor.
He soñado mi espada.
He soñado a Elizabeth de Bohemia.
He soñado la duda y la certidumbre.
He soñado el día de ayer.
Quizá no tuve ayer, quizá no he nacido.
Acaso sueño haber soñado.
Siento un poco de frío, un poco de miedo.
Sobre el Danubio está la noche
Seguiré soñando a Descartes y la fe de sus padres.
Jorge Luis Borges | "Poesía Completa", pág. 527 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
Acaso un dios me engaña.
Acaso un dios me ha condenado al tiempo, esa larga ilusión.
Sueño la luna y sueño mis ojos que perciben la luna.
He soñado la tarde y la mañana del primer día.
He soñado a Cartago y a las legiones que desolaron Cartago.
He soñado a Lucano.
He soñado la colina del Gólgota y las cruces de Roma.
He soñado la geometría.
He soñado el punto, la línea, el plano y el volumen.
He soñado el amarillo, el azul y el rojo.
He soñado mi enfermiza niñez.
He soñado los mapas y los reinos y aquel duelo en el alba.
He soñado el inconcebible dolor.
He soñado mi espada.
He soñado a Elizabeth de Bohemia.
He soñado la duda y la certidumbre.
He soñado el día de ayer.
Quizá no tuve ayer, quizá no he nacido.
Acaso sueño haber soñado.
Siento un poco de frío, un poco de miedo.
Sobre el Danubio está la noche
Seguiré soñando a Descartes y la fe de sus padres.
Jorge Luis Borges | "Poesía Completa", pág. 527 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
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