Poemas neste tema
Propósito e Sentido da Vida
Angela Santos
Iris
de que tempo
ou de que profundeza obscura
haverias de surgir?
Que nada sei....
Ou sei apenas
que em minha vida incrustado
um diamante reflecte
a luz da íris
onde me espelho
E arrancada às entranhas
ao encontro do que em mim chamara
vieste
iluminar-me o sentido.
ou de que profundeza obscura
haverias de surgir?
Que nada sei....
Ou sei apenas
que em minha vida incrustado
um diamante reflecte
a luz da íris
onde me espelho
E arrancada às entranhas
ao encontro do que em mim chamara
vieste
iluminar-me o sentido.
690
Angela Santos
Elos
Na janela desenhada por detrás
de cada muro, primeiro o rosto
depois os cabelos bebem a brisa
que nela traz poeiras da estrela mais longínqua
Da minha mão à estrela, entre miríades
imperceptível é a distancia
imersas, a estrela e eu, no centro do mesmo mistério
sustidas pela mesma luz
embaladas no mesmo indecifrável berço.
de cada muro, primeiro o rosto
depois os cabelos bebem a brisa
que nela traz poeiras da estrela mais longínqua
Da minha mão à estrela, entre miríades
imperceptível é a distancia
imersas, a estrela e eu, no centro do mesmo mistério
sustidas pela mesma luz
embaladas no mesmo indecifrável berço.
1 140
Angela Santos
Por outro lado
O fundo e mais além
é que eu quero alcançar
como se pudesse assim
buscar aquilo que é
o outro lado daqui....
O outro lado das coisas
esse outro lado que busco
será que lado no fim?
é que eu quero alcançar
como se pudesse assim
buscar aquilo que é
o outro lado daqui....
O outro lado das coisas
esse outro lado que busco
será que lado no fim?
701
Angela Santos
Coisas Simples
Paro
e perscruto os sons que me chegam
com o vento,
e dos aromas que da terra sobem
faço o meu ópio, o meu absinto,
a embriagues da vida…
Paro para receber os suaves pingos de chuva
que caiem sobre o meu rosto
e me fazem sentir limpa,
e deixo meus olhos perderem-se
na visão do infinito
Sorvo o gosto a maresia
junto a este mar revolto,
onde busco a dimensão do que sinto e do que sou,
ínfima parte de um todo e por este engrandecida.
Da lonjura faço o sonho
onde a mente prefigura
o que o tempo ainda guarda para a vida da minha alma...
a outra parte de mim que noutro lugar me espera,
como semente guardada
para ser lançada à terra.
E será na singeleza das coisas que a vida doa
que chegaremos ao fundo
e ao sentido do que somos
e num lugar que não sei, eu e tu aí seremos
chão, húmus, arvore raiz
e cumpriremos a sina de ser semente
e florir.
e perscruto os sons que me chegam
com o vento,
e dos aromas que da terra sobem
faço o meu ópio, o meu absinto,
a embriagues da vida…
Paro para receber os suaves pingos de chuva
que caiem sobre o meu rosto
e me fazem sentir limpa,
e deixo meus olhos perderem-se
na visão do infinito
Sorvo o gosto a maresia
junto a este mar revolto,
onde busco a dimensão do que sinto e do que sou,
ínfima parte de um todo e por este engrandecida.
Da lonjura faço o sonho
onde a mente prefigura
o que o tempo ainda guarda para a vida da minha alma...
a outra parte de mim que noutro lugar me espera,
como semente guardada
para ser lançada à terra.
E será na singeleza das coisas que a vida doa
que chegaremos ao fundo
e ao sentido do que somos
e num lugar que não sei, eu e tu aí seremos
chão, húmus, arvore raiz
e cumpriremos a sina de ser semente
e florir.
1 135
Angela Santos
Inesperadamente
Hoje,
talvez um anjo azul
me visite
e o leve roçar de suas asas
(quem sabe) , me sussurre
o inaudível sentido
da minha teimosia
Hoje,
Talvez uma palavra
Infinitamente repetida
Desvende no ápice
Do seu surgimento
O que na sucessão do antes
O afã de dizer , não dizia
Hoje,
Talvez que um olhar
envolto em sinais
que ler eu não soube
desvende o mistério
que vive no fogo
à flor do seu brilho
Hoje,
Talvez no turbilhão de vozes
Ou no mais fundo vazio
O imponderável
Me responda
E sobre o muro férreo dos dias
Inesperadamente, uma nesga se abra
E um pedaço de azul
Do outro lado surgindo
Me faça acreditar.
Talvez…..
talvez um anjo azul
me visite
e o leve roçar de suas asas
(quem sabe) , me sussurre
o inaudível sentido
da minha teimosia
Hoje,
Talvez uma palavra
Infinitamente repetida
Desvende no ápice
Do seu surgimento
O que na sucessão do antes
O afã de dizer , não dizia
Hoje,
Talvez que um olhar
envolto em sinais
que ler eu não soube
desvende o mistério
que vive no fogo
à flor do seu brilho
Hoje,
Talvez no turbilhão de vozes
Ou no mais fundo vazio
O imponderável
Me responda
E sobre o muro férreo dos dias
Inesperadamente, uma nesga se abra
E um pedaço de azul
Do outro lado surgindo
Me faça acreditar.
Talvez…..
629
Paladas
QUATRO POEMAS
QUATRO POEMAS
Digamos pois que a vida é um teatro,
em que cumpre ao actor fingir com arte:
levando-a a rir, como se fora farsa,
ou digno sendo na tragédia parte.
Digamos pois que a vida é um teatro,
em que cumpre ao actor fingir com arte:
levando-a a rir, como se fora farsa,
ou digno sendo na tragédia parte.
893
Antero de Quental
Ad Amicos
Em vão
lutamos. Como névoa baça
A incerteza das coisas nos envolve.
Nossa alma em quanto cria, em quanto volve,
Nas suas próprias redes se embaraça.
O pensamento, que mil planos traça,
É vapor que se esvai e se dissolve;
E a vontade ambiciosa, que resolve,
Como onda entre rochedos se espedaça.
Filhos do amor, nossa alma é como um hino
À luz, à liberdade, ao bem fecundo,
Prece e clamor d`um pressentir divino;
Mas num deserto só, árido e fundo,
Ecoam nossas vozes, que o Destino
Paira mudo e impassível sobre o mundo.
lutamos. Como névoa baça
A incerteza das coisas nos envolve.
Nossa alma em quanto cria, em quanto volve,
Nas suas próprias redes se embaraça.
O pensamento, que mil planos traça,
É vapor que se esvai e se dissolve;
E a vontade ambiciosa, que resolve,
Como onda entre rochedos se espedaça.
Filhos do amor, nossa alma é como um hino
À luz, à liberdade, ao bem fecundo,
Prece e clamor d`um pressentir divino;
Mas num deserto só, árido e fundo,
Ecoam nossas vozes, que o Destino
Paira mudo e impassível sobre o mundo.
1 908
Loyola Rodrigues
Menino no Mundo
O homem no mundo é sempre um menino
tão perdido em meio ao mundo vão;
o homem no mundo cumpre o destino
de andar buscando em vão a razão.
O homem no mundo é pois descontente:
perde o que tem, não acha o que busca,
ora se perde na escuridão,
ora é a luz fortíssima que o ofusca.
Umas vezes rindo, outras chorando,
tão perdido em meio ao mundo vão,
o homem no mundo cumpre o destino
de buscar a idade da razão.
O homem no mundo é sempre um menino
tão perdido em meio ao mundo vão.
tão perdido em meio ao mundo vão;
o homem no mundo cumpre o destino
de andar buscando em vão a razão.
O homem no mundo é pois descontente:
perde o que tem, não acha o que busca,
ora se perde na escuridão,
ora é a luz fortíssima que o ofusca.
Umas vezes rindo, outras chorando,
tão perdido em meio ao mundo vão,
o homem no mundo cumpre o destino
de buscar a idade da razão.
O homem no mundo é sempre um menino
tão perdido em meio ao mundo vão.
883
Lupe Cotrim Garaude
Ars Poética
Da desordem nunca
erguerei um verso.
Bem sei
que na bela superfície de um momento,
existe o alento
da Poesia.
Mas é do futuro,
é do instante que serve
a continuidade da vida
em sentimento,
que desejo o meu poema.
O Homem,
sofrido a prosseguir
na sua eternidade construída —
— eis o meu tema.
erguerei um verso.
Bem sei
que na bela superfície de um momento,
existe o alento
da Poesia.
Mas é do futuro,
é do instante que serve
a continuidade da vida
em sentimento,
que desejo o meu poema.
O Homem,
sofrido a prosseguir
na sua eternidade construída —
— eis o meu tema.
1 074
Mário Hélio
12 - II(Farol)
antes hera um pedaço de sombra num traço de sol
que se movia nas estepes silhueta de tal curupira
que o tempo esqueceu
escutava cantigas solenes poemas do céu
um golpe de risalegria tem pena de mim.
que tudo era um retrato de sombras não ousei dizer
que o meu amor era maior do que deus não ousei dizer.
e o vento bate bátega calçada
lá fora ainda haja passarada saiba cantar.
erantes o mormaço do que eu via um fragmento dar
uma flor menor do que a flor da flor no pomar
curupiraraponga risonho cão
coisas que o tempo ignorou e o esquecimento esqueceu
lição da morte que morreu imprevisto histórias de mefisto
em versiprosa
pausa
pousa num galho
retalho darvoredo devastado
resta esta réstia e a dor
herantes umolhar sobracidade porcimademim
tenta se libertar liberdade fugir como se ocultasse
o culto no obsclaro
como se a visão visse a si mesma
e as janelas namorassem outras janelas
mas o elemento não ousa em seu turbilhão de coisas.
meu amor é maior do que o amor habanera
se achará impossível o possível visivelin
coleção de rastros o infinito é maior que o infinito
o perdão se compadece do perdão mas não se perdoa
ouvirá o som o sumo o sim
o belo mais belo que a beleza
correnteza aventureza
o bem melhor do que o bem
narcisista a feiúra
não tem remédio pro seu tédio a cura
grande prisma
imagens fantasiosas liames figurações
a justiça é imparcial injustiça
certo erro berro trissura tristura
terá medo a coragem
o cansaço da mesa descansa.
neste ponto do espaço haves conversam
o irracional é racional no espaço deste ponto
a relação é relativa tudo é falso
o princípio em si mesmo é um fim
séculos de procura facha de treva na relvaga
alaquem uma forma amorfa
um acontecimento inesperado
está sendo aguardado por todos
as cadeiras do escritório têm sua própria dança
o neutro se anula o banal se fortalece
o mistério é mais misterioso do que o mistério
não existe mal mais maléfico do que o bem
ermotem toteminca antesera um pio sagrado
o passado passou para o passado
a gravidade repousa na antigravidade.
os cemitério são ermitérios e cassinos
os hinos sacros são canções profanas
deus é maior do que deus
neste pântano do espaço
contemplo o alcoice convento conventilho
a tarde rosna um diversion é igual a uma lousa
e tudo enfim é tudo a mesma coisa.
que se movia nas estepes silhueta de tal curupira
que o tempo esqueceu
escutava cantigas solenes poemas do céu
um golpe de risalegria tem pena de mim.
que tudo era um retrato de sombras não ousei dizer
que o meu amor era maior do que deus não ousei dizer.
e o vento bate bátega calçada
lá fora ainda haja passarada saiba cantar.
erantes o mormaço do que eu via um fragmento dar
uma flor menor do que a flor da flor no pomar
curupiraraponga risonho cão
coisas que o tempo ignorou e o esquecimento esqueceu
lição da morte que morreu imprevisto histórias de mefisto
em versiprosa
pausa
pousa num galho
retalho darvoredo devastado
resta esta réstia e a dor
herantes umolhar sobracidade porcimademim
tenta se libertar liberdade fugir como se ocultasse
o culto no obsclaro
como se a visão visse a si mesma
e as janelas namorassem outras janelas
mas o elemento não ousa em seu turbilhão de coisas.
meu amor é maior do que o amor habanera
se achará impossível o possível visivelin
coleção de rastros o infinito é maior que o infinito
o perdão se compadece do perdão mas não se perdoa
ouvirá o som o sumo o sim
o belo mais belo que a beleza
correnteza aventureza
o bem melhor do que o bem
narcisista a feiúra
não tem remédio pro seu tédio a cura
grande prisma
imagens fantasiosas liames figurações
a justiça é imparcial injustiça
certo erro berro trissura tristura
terá medo a coragem
o cansaço da mesa descansa.
neste ponto do espaço haves conversam
o irracional é racional no espaço deste ponto
a relação é relativa tudo é falso
o princípio em si mesmo é um fim
séculos de procura facha de treva na relvaga
alaquem uma forma amorfa
um acontecimento inesperado
está sendo aguardado por todos
as cadeiras do escritório têm sua própria dança
o neutro se anula o banal se fortalece
o mistério é mais misterioso do que o mistério
não existe mal mais maléfico do que o bem
ermotem toteminca antesera um pio sagrado
o passado passou para o passado
a gravidade repousa na antigravidade.
os cemitério são ermitérios e cassinos
os hinos sacros são canções profanas
deus é maior do que deus
neste pântano do espaço
contemplo o alcoice convento conventilho
a tarde rosna um diversion é igual a uma lousa
e tudo enfim é tudo a mesma coisa.
693
Luiz Nogueira Barros
Do partir e do voltar
Partir. Voltar.
Outra vez partir
e outra vez voltar,
compõem somente
um quadro natural
do tentar-viver.
Se mais, talvez,
estranha sinfonia
de aflitos pés
buscando o tom da vida
com riscos de não ouvi-lo.
E assim,
para uma existência machucada
o sonho pode acabar numa única saída:
esquecer roteiros e apagar paisagens...
Outra vez partir
e outra vez voltar,
compõem somente
um quadro natural
do tentar-viver.
Se mais, talvez,
estranha sinfonia
de aflitos pés
buscando o tom da vida
com riscos de não ouvi-lo.
E assim,
para uma existência machucada
o sonho pode acabar numa única saída:
esquecer roteiros e apagar paisagens...
914
Luiz Pimenta
Safira
Safira
Saiu
Safira
em busca de
pedras semi-preciosas.
Passou a vida,
nada encontrou.
Provavelmente,
esqueceu de se olhar.
Rio, fevereiro de 91
Saiu
Safira
em busca de
pedras semi-preciosas.
Passou a vida,
nada encontrou.
Provavelmente,
esqueceu de se olhar.
Rio, fevereiro de 91
1 143
Leão Moysés Zagury
Não Está na Hora
Não está na hora
de acordar.
Não é hora
de dormir sob as inquietudes poéticas
dum tempo incerto.
Nunca é o momento
do...
nem o despertar quotidiano.
Nunca temos tempo
para...
Nunca pertencemos a lugar algum.
A vida corre e nem
queremos participar
de suas coisas.
Nunca temos tempo.
Será que já morremos?
de acordar.
Não é hora
de dormir sob as inquietudes poéticas
dum tempo incerto.
Nunca é o momento
do...
nem o despertar quotidiano.
Nunca temos tempo
para...
Nunca pertencemos a lugar algum.
A vida corre e nem
queremos participar
de suas coisas.
Nunca temos tempo.
Será que já morremos?
783
Leão Moysés Zagury
Promessas
Prometemos muito
realizamos pouco.
Até quando?
O ser promete
debate-se em atitudes
vãs.
Banalidades, ilusões intelectuais,
até quando?
Onde com tanto sofrimento
irá o homem parar?
O espírito luta
a batalha das batalhas.
Sofrendo, iludido
reclama.
Homem , acorda do sono.
És Espírito numa matéria.
A tua grandeza espiritual
se faz presente.
Acorda!!!
Chega de ilusões,
vamos à luta,
é tarde.
realizamos pouco.
Até quando?
O ser promete
debate-se em atitudes
vãs.
Banalidades, ilusões intelectuais,
até quando?
Onde com tanto sofrimento
irá o homem parar?
O espírito luta
a batalha das batalhas.
Sofrendo, iludido
reclama.
Homem , acorda do sono.
És Espírito numa matéria.
A tua grandeza espiritual
se faz presente.
Acorda!!!
Chega de ilusões,
vamos à luta,
é tarde.
895
Fernando Namora
Profecia
Nem me
disseram ainda
para o que vim.
Se logro ou verdade
Se filho amado ou rejeitado.
mas sei
que quando cheguei
os meus olhos viram tudo
e tontos de gula ou espanto
renegaram tudo
e no meu sangue veias se abriram
noutro sangue....
A ele obedeço,
sempre,
a esse incitamento mudo.
Também sei
que hei-de perecer, exangue,
de excesso de desejar;
mas sinto
sempre,
que não posso recuar.
disseram ainda
para o que vim.
Se logro ou verdade
Se filho amado ou rejeitado.
mas sei
que quando cheguei
os meus olhos viram tudo
e tontos de gula ou espanto
renegaram tudo
e no meu sangue veias se abriram
noutro sangue....
A ele obedeço,
sempre,
a esse incitamento mudo.
Também sei
que hei-de perecer, exangue,
de excesso de desejar;
mas sinto
sempre,
que não posso recuar.
2 331
Eduardo Valente da Fonseca
De onde vem a cidade
quando passeio á noite pela cidade recolhida em íntimo silencio,
olho admirado as ruas e as árvores
e interrogo enigmático sobre os olhos cerrados dos homens citadinos
o serem eles o sentido disto tudo.
E penso nas formosas flores públicas plantadas para todos,
penso na janela clara aberta sobre o mar,
nas avenidas livres fechando junto ao céu....
então maciamente vou,
espantado de estar na vida a ser um homem
e a cumprir o tempo de ser grande,
descerrar as pálpebras descidas dos humanos irmãos emparedadas
e mostrar-lhes porque existem avenidas,
de onde vêm as casas e as fábricas
e porquê quando rente á madrugada
um pássaro cantando entre o cimento e as flores
na tenra primavera da cidade
pode encher de frescura e de sentido e vida.
olho admirado as ruas e as árvores
e interrogo enigmático sobre os olhos cerrados dos homens citadinos
o serem eles o sentido disto tudo.
E penso nas formosas flores públicas plantadas para todos,
penso na janela clara aberta sobre o mar,
nas avenidas livres fechando junto ao céu....
então maciamente vou,
espantado de estar na vida a ser um homem
e a cumprir o tempo de ser grande,
descerrar as pálpebras descidas dos humanos irmãos emparedadas
e mostrar-lhes porque existem avenidas,
de onde vêm as casas e as fábricas
e porquê quando rente á madrugada
um pássaro cantando entre o cimento e as flores
na tenra primavera da cidade
pode encher de frescura e de sentido e vida.
964
Fernando Pessoa
Ladram uns cães a distância,
Ladram uns cães à distância,
Cai uma tarde qualquer,
Do campo vem a fragrância
De campo, e eu deixo de ver.
Um sonho meio sonhado,
Em que o campo transparece,
Está em mim, está a meu lado,
ora me lembra ou me esquece.
E assim neste ócio profundo
Sem males vistos ou bens,
Sinto que todo este mundo
É um largo onde ladram cães.
25/12/1932
Cai uma tarde qualquer,
Do campo vem a fragrância
De campo, e eu deixo de ver.
Um sonho meio sonhado,
Em que o campo transparece,
Está em mim, está a meu lado,
ora me lembra ou me esquece.
E assim neste ócio profundo
Sem males vistos ou bens,
Sinto que todo este mundo
É um largo onde ladram cães.
25/12/1932
4 749
Fernando Pessoa
CANTO A LEOPARDI
CANTO A LEOPARDI
Ah, mas da voz exânime pranteia
O coração aflito respondendo:
«Se é falsa a ideia, quem me deu a ideia?
Se não há nem bondade nem justiça
Porque é que anseia o coração na liça
Os seus inúteis mitos defendendo?
Se é falso crer num deus ou num destino
Que saiba o que é o coração humano,
Porque há o humano coração e o tino
Que tem do bem e o mal? Ah, se é insano
Querer justiça, porque na justiça
Querer o bem, para que o bem querer?
Que maldade, (...) que injustiça
Nos fez pra crer, se não devemos crer?
Se o dúbio e incerto mundo,
Se a vida transitória
Têm noutra parte o íntimo e profundo
Sentido, e o quadro último da história,
Porque há um mundo transitório e incerto
Onde ando por incerteza e transição,
Hoje um mal, uma dor, (...), aberto
Um só dorido coração?»
(...)
Assim, na noite abstracta da Razão,
Inutilmente, majestosamente,
Dialoga consigo o coração,
Fala alto a si mesma a mente;
E não há paz nem conclusão,
Tudo é como se fora inexistente.
1934
Ah, mas da voz exânime pranteia
O coração aflito respondendo:
«Se é falsa a ideia, quem me deu a ideia?
Se não há nem bondade nem justiça
Porque é que anseia o coração na liça
Os seus inúteis mitos defendendo?
Se é falso crer num deus ou num destino
Que saiba o que é o coração humano,
Porque há o humano coração e o tino
Que tem do bem e o mal? Ah, se é insano
Querer justiça, porque na justiça
Querer o bem, para que o bem querer?
Que maldade, (...) que injustiça
Nos fez pra crer, se não devemos crer?
Se o dúbio e incerto mundo,
Se a vida transitória
Têm noutra parte o íntimo e profundo
Sentido, e o quadro último da história,
Porque há um mundo transitório e incerto
Onde ando por incerteza e transição,
Hoje um mal, uma dor, (...), aberto
Um só dorido coração?»
(...)
Assim, na noite abstracta da Razão,
Inutilmente, majestosamente,
Dialoga consigo o coração,
Fala alto a si mesma a mente;
E não há paz nem conclusão,
Tudo é como se fora inexistente.
1934
4 420
Fernando Pessoa
Nada. Passaram nuvens e eu fiquei...
Nada. Passaram nuvens e eu fiquei...
No ar limpo não há rasto.
Surgiu a lua de onde já não sei,
Num claro luar vasto.
Todo o espaço da noite fica cheio
De um peso sossegado...
Onde porei o meu futuro, e o enleio
Que o liga ao meu passado?
25/10/1933
No ar limpo não há rasto.
Surgiu a lua de onde já não sei,
Num claro luar vasto.
Todo o espaço da noite fica cheio
De um peso sossegado...
Onde porei o meu futuro, e o enleio
Que o liga ao meu passado?
25/10/1933
4 062
Golgona Anghel
Vivemos submersos num plasma nutritivo
Vivemos submersos num plasma nutritivo
que nos garante um crescimento rápido e de excepção
com talentos singulares,
e sonhos que não precisam de ser actualizados -
basta apenas afinar a sua desordem estética.
Temos aceso a uma vida desprovida de acasos,
onde colónias de bactérias sangram invejosas,
esmagadas a milhas pela radiação do nosso olhar.
Dotados de um sistema automático
de identificação e resolução de erros,
dirigimos à distância um código sentimental simplificado.
Acumulamos dados, analisamos sinais.
Não conseguimos conceber um desastre maior
que a falta de bateria no comando.
que nos garante um crescimento rápido e de excepção
com talentos singulares,
e sonhos que não precisam de ser actualizados -
basta apenas afinar a sua desordem estética.
Temos aceso a uma vida desprovida de acasos,
onde colónias de bactérias sangram invejosas,
esmagadas a milhas pela radiação do nosso olhar.
Dotados de um sistema automático
de identificação e resolução de erros,
dirigimos à distância um código sentimental simplificado.
Acumulamos dados, analisamos sinais.
Não conseguimos conceber um desastre maior
que a falta de bateria no comando.
1 072
Nelly Sachs
É UM ESCURO COMO
É um escuro como
caos antes do verbo
Leonardo procurou esse escuro
por detrás do escuro
Jó estava envolto
no corpo materno dos astros
Alguém sacode a escuridão
até que a maçã Terra caia
madura no fim
Um suspiro
será isso a alma – ?
caos antes do verbo
Leonardo procurou esse escuro
por detrás do escuro
Jó estava envolto
no corpo materno dos astros
Alguém sacode a escuridão
até que a maçã Terra caia
madura no fim
Um suspiro
será isso a alma – ?
723
Fernando Pessoa
Pois cai um grande e calmo efeito
Pois cai um grande e calmo efeito
De nada ter razão de ser
Do céu, nulo como um direito,
Na terra vil como um dever.
21/08/1930
De nada ter razão de ser
Do céu, nulo como um direito,
Na terra vil como um dever.
21/08/1930
4 370
Harry Martinson
Ajuste de contas
A folhagem vespertina do final do verão se
escurece, o vento caminha
com mocassins de nuvens pela ramagem do tempo.
Aproveites.
Se afugentas a melancolia, o tempo a entrega
em seu copo de plástico,
um cálice irreconhecível,
nova amargura sem sabor,
um frio desespero que se cola furtivamente
às tardes de tranquilizantes.
Devia ter ido a um balneário, tu dizes.
Devias ter fugido de ti mesmo a outro
homem, distinto.
Palavras vãs. Ainda que te apresses e saias
rapidamente,
perderás todos os teus trens,
cai o crepúsculo sem encanto, simplesmente
anoitece.
Por que abandonaste as dores que, no entanto,
tinham rostos próprios?
Não, querias ter coisas novas de todo
jei-to,
também os cadáveres deveriam ser novos,
mortos recém mortos.
Quando agora andas perdido, nem sequer sabes o
que é andar perdido,
teu vazio pesa
até ao ponto em que o avião tem
dificuldades para decolar.
Tu simplesmente segues perseguindo uma alegria
que desejas sem sombra.
Mas sem dores não há eixo ao qual ser fiel,
sem dores que lhe deem profundidade não há
verdadeiro mar,
só há uma borrifante prolongação até
o nada,
onde tu estás fazendo a cama vazia no
vazio.
Oh, se nos libertássemos de ti, vazio, que sempre
apareces abrindo caminho às cotoveladas,
de ti, coração do vazio, duro como uma pedra,
que unicamente comes alegria e com alegria
a consomes,
depois nada mais.
escurece, o vento caminha
com mocassins de nuvens pela ramagem do tempo.
Aproveites.
Se afugentas a melancolia, o tempo a entrega
em seu copo de plástico,
um cálice irreconhecível,
nova amargura sem sabor,
um frio desespero que se cola furtivamente
às tardes de tranquilizantes.
Devia ter ido a um balneário, tu dizes.
Devias ter fugido de ti mesmo a outro
homem, distinto.
Palavras vãs. Ainda que te apresses e saias
rapidamente,
perderás todos os teus trens,
cai o crepúsculo sem encanto, simplesmente
anoitece.
Por que abandonaste as dores que, no entanto,
tinham rostos próprios?
Não, querias ter coisas novas de todo
jei-to,
também os cadáveres deveriam ser novos,
mortos recém mortos.
Quando agora andas perdido, nem sequer sabes o
que é andar perdido,
teu vazio pesa
até ao ponto em que o avião tem
dificuldades para decolar.
Tu simplesmente segues perseguindo uma alegria
que desejas sem sombra.
Mas sem dores não há eixo ao qual ser fiel,
sem dores que lhe deem profundidade não há
verdadeiro mar,
só há uma borrifante prolongação até
o nada,
onde tu estás fazendo a cama vazia no
vazio.
Oh, se nos libertássemos de ti, vazio, que sempre
apareces abrindo caminho às cotoveladas,
de ti, coração do vazio, duro como uma pedra,
que unicamente comes alegria e com alegria
a consomes,
depois nada mais.
711
Fernando Pessoa
Vão breves passando
Vão breves passando
Os dias que tenho.
Depois de passarem
Já não os apanho.
De aqui a tão pouco
Ainda acabou.
Vou ser um cadáver
Por quem se rezou.
E entre hoje e esse dia
Farei o que fiz:
Ser qual quero eu ser,
Feliz ou infeliz.
28/03/1931
Os dias que tenho.
Depois de passarem
Já não os apanho.
De aqui a tão pouco
Ainda acabou.
Vou ser um cadáver
Por quem se rezou.
E entre hoje e esse dia
Farei o que fiz:
Ser qual quero eu ser,
Feliz ou infeliz.
28/03/1931
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